Poltrona 19

9 Olhos verdes


Notas iniciais
Oi pessoal! Dessa vez demorei mais pra postar porque estava de férias da faculdade e infelizmente minhas aulas voltaram :( Ai ficou meio complicado pra escrever. Mas aqui está mais um capítulo... Boa leitura a todos!

Segunda-feira, 7h30 da manhã, sentada no pátio da escola. Por que não na sala de aula? Porque obviamente eu havia chegado atrasada mais uma vez. O que não foi uma boa ideia. A questão é que nessa segunda começou as burocracias do colégio, só entrava os alunos que estavam de uniforme e com a carteirinha, e os alunos atrasados, como eu, assinam uma listinha que funciona basicamente da seguinte forma: O colégio monitora os seus horários, a frequência com que está chegando atrasada e o horário em que está chegando, para contar aos seus pais e te foder.

Minha mãe já desistira de tentar me fazer cumprir com meus horários, já que todo bimestre o colégio tem que convocá-la para falar sobre isso, mas mesmo assim, eu sempre tomo um chá de cadeira, ouvindo ela falar sobre como eu preciso aprender a ser uma pessoa mais responsável e que isso começa a partir de pequenas coisas como aprender a chegar na hora certa no colégio. Quem sabe um dia... Não, nessa vida.

The Kooks tocava alto nos meus fones de ouvido, enquanto eu cantava baixo junto com a melodia e me mantinha o mais longe possível dos outros alunos. Acordara surpreendentemente de bom humor, apesar de que aquele lugar logo destruiria todo esse humor. O que acontece é que o pátio de meu colégio é cheio de árvores, fazendo sombras em cima dos bancos e propiciando um clima perfeito para ouvir música e brisar enquanto o vento bagunça meus cabelos sem permissão. Ai quando tenho de ir para a sala, ficar presa dentro daquele lugar o resto da manhã ao invés de poder continuar ali fora curtindo o momento, o bom humor automaticamente desaparece.

Peguei meu celular e averiguei todas as minhas redes sociais, parando mais uma vez na foto que Gabriel postara esse domingo e que rendeu milhares de comentários, a foto que tiramos juntos na porta da minha casa. Quando acordei no domingo, vi que ele postara a foto com a legenda “Não estamos pedindo esmola”, passei mais ou menos uma meia hora rindo sem parar. E a propósito, minha mãe não ligara nenhum pouco pelo horário que cheguei em casa, muito pelo contrário, gostou tanto de Gabriel que disse que eu deveria sair mais vezes com ele.

Estava olhando para a foto no visor de meu celular, quando alguém se sentou ao meu lado. Olhei em engoli seco ao ver quem era. Me senti tola por isso, mas agradeci mentalmente por estar aparentemente apresentável naquela manhã, enquanto com uma mão retirava vagarosamente os fones de meu ouvido e a outra ajeitava disfarçadamente meu cabelo.

– Saindo com o Fornazier? – indagou Arthur se referindo ao Gabriel e olhando para o meu celular.

Guardei o aparelho no bolso e continuei encarando o garoto de olhos verdes ao meu lado, tentando entender porque depois de tanto tempo ele resolvera falar comigo mais uma vez.

– Você é a garota mais esperta e centrada que já conheci em toda minha vida, Isa. Não esperava que fosse cair na do Fornazier.

– Sem querer ser mal educada e tudo mais, mas o que minha vida te diz respeito, Arthur? A propósito, com que direito você acha que pode vir me falar merda depois de tanto tempo sem me dirigir uma sequer palavra?

– Foi mal – desculpou-se –, posso ter sido grosseiro e intrometido,mas eu não to falando merda, estou te alertando. Você sabe da fama dele, né?

Por que de repente todo mundo sabe da vida do Gabriel? Todo mundo sabe que ele supostamente é um canalha? Todo mundo quer me alertar sobre isso? Sendo que até uma semana atrás, tudo que eu sabia dele era que ele é um gostoso que beija bem pra caralho, informação que foi dada por Leticia.

– É, sei sim. – respondi seca.

– Então por que ta com ele?

– Eu não estou com ele.

– Eu te vi na festa do Samuel com ele e eu vi essa foto ai que você tava olhando a pouco tempo. Eu tenho certeza que ta rolando.

– Se tiver o problema é meu, não acha?

– Isabelle, você é... – ele procurou a palavra certa para dizer – incrível demais pra ser feita de trouxa por esse cara.

Incrível demais? Claro, deve ser por isso que ele me deu um fora pra ficar com outra garota. Porque sou incrível demais. Que vontade de acertar um chute no saco dele.

– Eu não estou sendo feita de trouxa. – respondi nervosa – Agora se me der licença, vou voltar a ouvir música.

– Isabelle... Eu to falando sério.

– Pensa no seu próprio conselho então, Arthur, porque trouxa já nem sei se é a palavra certa pra te definir depois de tanto ser humilhado por Bianca. – disse e aquilo o atingiu em cheio, como eu imaginava. Ele abaixou a cabeça como sempre fazia quando não sabia o que dizer e cruzou as próprias mãos.

Após alguns minutos em silêncio, ele levantou a cabeça e me olhou pronto para dizer algo, mas foi interrompido.

– Bom dia – ouvi uma voz grossa, rouca e familiar dizer.

Olhei para frente já sabendo quem encontraria ali, Arthur provavelmente também, pois não desviou o olhar de mim e resolveu ignorar a presença de Gabriel.

– Bom dia – respondi ao Gabriel que estava olhando para Arthur com uma cara nada agradável. Eles se conheciam de algum lugar? Eu juro que to ficando irritada com essa série de coisas esquisitas acontecendo em minha vida.

Gabriel desviou o olhar de Arthur para mim, se abaixou e me deu um breve beijo, na boca, me deixando extremamente confusa. Depois se sentou ao meu lado como se aquilo fosse normal e colocou a mão sobre minha perna encarando Arthur. Que porra o Gabriel estava fazendo?

– Pensa bem, Isabelle. Depois precisamos conversar direito. – disse Arthur olhando para a mão de Gabriel em minha perna e depois se levantando. – Até mais. – despediu-se de mim e saiu andando.

Me virei para Gabriel com cara de ponto de interrogação. Mesmo que tenhamos ficado duas vezes nesse fim de semana, isso aparentemente não significava nada. Ainda mais por ser o Gabriel.

– Com foi seu domingo? – ele perguntou naturalmente.

– Vocês se conhecem? – indaguei ignorando sua pergunta.

– Mais ou menos. Só sei quem ele é e não vou com a cara dele, nem ele com a minha, tanto faz. – disse dando ombros. – Não sabia que vocês se conheciam.

– Até demais. – respondi.

– Vocês já se pegaram?

– Sim.

– Achei que tivesse bom gosto, Isabelle. – debochou Gabriel.

– Você me beijou só pra irritar ele, não foi? – perguntei irritada o fuzilando com os olhos.

– Não posso te beijar? – ele perguntou indiferente olhando na direção de Arthur que agora estava sentado com alguns amigos de frente para a gente, mesmo que bastante afastado.

– Não. – respondi e ele me olhou surpreso, como se tivesse feito a pergunta de modo tão indiferente por saber qual seria a resposta e aquela, definitivamente, não era a resposta por qual aguardava.

– Não? – ele repetiu perplexo – Você ta meio que me dando um fora?

– Nós não temos nada pra eu estar te dando um fora.

– Não temos, mas nós ficamos dois dias consecutivos, acho que seria bem normal se eu te beijasse mostrando que queria que isso continuasse.

– Você nunca continua a ficar com alguém, Gabriel. – disse exaltada gesticulando com as mãos.

– Mas que raiva é essa que você acordou de mim?

– Não acordei com raiva de ti, só não aguento mais as pessoas falando na minha cabeça.

– Falando o que? – ele perguntou.

– Nada.

– Isabelle...

– Nada, porra. – gritei e ele se calou.

Apoiei meus cotovelos sobre minhas pernas e segurei minha cabeça em minhas mãos. Lá se foi meu bom humor. As pessoas ficam o tempo inteiro me falando isso e aquilo sobre o Gabriel e eu não falava nada porque nós não temos nada, ai agora ele aparece com essa história de querer continuar a ficar comigo. Em que confusão eu me meti quando conheci esse cara?

Senti a mão de Gabriel afastando meu cabelo de meu rosto e o colocando para trás. Levantei meu rosto e o olhei, ele não podia estar falando sério sobre essa parada de continuarmos a ficar, porque isso ia dar merda. Ninguém aprovaria e eu definitivamente não quero me jogar de um precipício. Porque se tudo que dizem sobre ele for verdade – o que não faz sentido nenhum para mim –, se eu vier a sentir alguma coisa por esse garoto, seria a mesma coisa que cometer suicídio. E olhando para ele naquele momento, com os cabelos bagunçados, a cara de sono mais fofa que já vi em toda minha vida e com os olhos focados nos meus... Eu tinha certeza de que me tornaria facilmente uma suicida.

Olhei para a frente e observei todos os outros alunos que estavam de costas para nós. Senti a respiração de Gabriel próxima e ele encostou seu rosto em meu pescoço e permaneceu alguns minutos assim. A respiração dele contra minha pele fez com que me arrepiasse e me amaldiçoei por isso. Ele depositou um beijo no meu pescoço e tive vontade de gritar que eram sete horas da manhã para ele estar causando esse tipo de coisa em mim.

– Tem certeza que não posso te beijar? – perguntou com a boca próxima a minha orelha.

Não tive coragem de responder, porque sinceramente eu não queria dizer que não, mas eu tinha que dizer sim. Então continuei em silencio e percebi que os alunos começaram a se levantar para irem pra sala de aula. O sinal de troca de horários provavelmente já iria tocar.

– O sinal vai tocar. – disse e tentei me levantar, mas Gabriel usou sua mão que ainda estava sobre minha perna para me segurar.

– Não, você não tem certeza.– ele afirmou me olhando nos olhos com tanta certeza que quase me convenceu a repetir que não tinha mesmo. Porém desviei meu olhar do dele, respirei fundo, tirei sua mão de cima da minha perna e me levantei.

– Eu to indo pra sala. – disse e logo em seguida o sinal tocou.

Subi as escadas com pressa sem me preocupar se Gabriel estaria me seguindo ou não. Entrei na sala logo depois do professor do segundo horário já ter entrado e me encaminhei até o fundo da mesma, avistando nossos lugares vazios. Achei isso engraçado, pelo visto os lugares de todo mundo na sala já estavam definidos.

Me sentei em meu lugar e ai pude ver Gabriel se sentando ao meu lado. Ele colocou os fones de ouvido e deitou a cabeça na mesa sem nem sequer cumprimentar alguém. Eu apenas sorri gentilmente para o pessoal, pois o professor começara a aula e resolvi fazer o mesmo que Gabriel, deitar na mesa e dormir. Como sempre. Eu vou me foder no fim do ano.

Acordei com o sinal do intervalo tocando mas permaneci de cabeça abaixada esperando que todos saíssem da sala. Quando não ouvi mais vozes levantei o rosto e mandei uma mensagem para Leticia pedindo que fosse até minha sala. Ela não respondeu, mas alguns minutos depois avistei ela entrando pela porta e me levantei da cadeira. Assim que ela chegou até mim a a abracei com toda força que tinha.

Eu não suportava brigar com ela e depois de toda confusão que havia acontecido, estava me sentido bem mal.

– Me desculpa. – desculpei-me ainda a abraçando.

– Tudo bem. – ela respondeu sincera e rompeu o abraço sorrindo para mim. – Senta ai? – perguntou apontando para o meu lugar.

– Sim. – respondi e me sentei sobre a mesa, ela fez o mesmo, se sentando de frente para mim na mesa de Gabriel.

– Sempre no fundo... Você não toma jeito. – disse e eu apenas sorri.

– E aqui? Quem senta? – perguntou se referindo ao lugar onde ela estava. A olhei e permaneci calada, não queria falar dele com ela porque o clima ficaria tenso. Ela entendeu.

– Gabriel. – disse óbvia.

– Como foi seu fim de semana? – perguntei mudando de assunto.

– Banquei a boa filha e fiquei em casa. Até porque você sumiu e Amanda também. – explicou.

– Ah sim.

– E você? – ela perguntou me olhando com curiosidade nos olhos. Como se adivinhasse que eu havia feito merda, mais uma vez.

Então eu contei tudo, desde o começo do meu sábado, até o fim do meu tedioso domingo. Contei sobre Gabriel ter ido a minha casa, sobre termos ido pra casa do Gustavo, sobre o jogo, a piscina, a padaria, o café-da-manhã, tudo. Ou melhor, quase tudo. Não quis contar sobre Alice, pois achei que era um assunto delicado para Gabriel e também não contei sobre termos ficado de novo.

– E é só isso que tem pra contar? – ela perguntou direta e eu sabia o motivo da pergunta. Apenas abaixei o olhar. – Quando vocês ficaram?

– Na porta da minha casa. – respondi ainda encarando o chão esperando pela bronca que viria a seguir.

– Não te culpo, Isa. Ele realmente faz questão de ser incrível quando ta com você, mas... Ainda é o Gabriel, você sabe. – disse Leticia e eu assenti positivamente com a cabeça.

– Tem mais... – disse e contei sobre tudo o que aconteceu hoje de manhã. Sobre a conversa com Arthur e com Gabriel.

– Eu não sabia que eles se conheciam. – ela disse com a testa franzida. – Mas pro Arthur ter ido falar com você, ele deve ter bons motivos pra não gostar do Gabriel. Ou bons motivos pra te querer longe dele, se é que me entende... – disse zombando para aliviar o clima tenso e eu ri revirando os olhos.

– Só sei que eu to de saco cheio.

– Eu não confio no Gabriel, você sabe.

– Eu vou me afastar dele e não vai acontecer de novo. Não quero complicação pra minha vida. – afirmei e o sinal indicando o fim do intervalo tocou.

– Promete? – ela perguntou e senti um nó se formando em minha garganta.

– Prometo. – respondi com a voz baixa e sorri para disfarçar.

***

Rolei para um lado e rolei para o outro, deitei de bruços, deitei de barriga pra cima, me sentei na cama e novamente me deitei. Afundei meu rosto no travesseiro e depois o taquei do outro lado do quarto. Não adiantava, eu não conseguia dormir de jeito nenhum. Já era sexta-feira e enquanto eu estava ali, sofrendo por insônia, todos os meus amigos estavam se divertindo em algum lugar. Leticia foi a um barzinho com o pessoal da minha antiga sala e de acordo com ela, todos me convidaram, exigindo minha presença para matar a saudade. Mas eu não aceitei o convite, disse que estava com mal estar e ficaria em casa. Eu não queria sair, mas com certeza deveria ter saído.

Essa semana passou muito devagar e fora a pior do ano até então. Eu prometi a Leticia que me afastaria de Gabriel e foi isso que fiz. Nos dias seguintes toda vez que ele puxava assunto comigo eu respondia e dava um jeito de encerrar o assunto o mais rápido possível, ele percebeu isso e nos últimos dias até desistiu de tentar iniciar uma conversa. Acabou que o pessoal também percebeu que tinha alguma coisa errada e até eles me deixaram mais quieta, mesmo assim ainda me convidaram para sair e eu também não aceitei dando a mesma desculpa que dei para Leticia.

Quando estava jantando recebi uma mensagem de Gabriel dizendo “Eu realmente queria que você fosse hoje”, mas não respondi porque de acordo com todo mundo, é melhor assim. Às vezes, ou melhor, quase sempre, eu tenho vontade de mandar todo mundo ir se fuder. Gabriel sempre foi um cara legal comigo e nunca demonstrou ser nada do que todas as pessoas dizem que ele é, e ai eu tenho de me afastar dele por coisas que as pessoas ficam me dizendo.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo meu celular vibrando. Primeiramente achei que fosse uma mensagem, devido à hora, mas o celular continuou vibrando e percebi que era uma ligação. Mas quem diabos estaria me ligando às 4h30 da madrugada? Peguei o celular e me assustei ao ver o nome de Gabriel no visor, como se adivinhasse que estava pensando nele naquele exato momento. Entrei em um conflito interno sobre atender ou não atender, até que parou de tocar e a resposta foi respondida: é, eu não atenderia nem se quisesse.

Coloquei o celular sobre minha barriga e encarei o teto, alguns segundos depois ele começou a vibrar novamente. O peguei correndo e olhei para o visor avistando novamente o nome de Gabriel. Engoli seco antes de tomar a decisão de atender a ligação.

– Alô.

– Você atendeu. – ouvi a voz de Gabriel do outro lado da linha.

– É, acho que sim.

– Por que você ta me ignorando? – perguntou e a frase saiu toda enrolada. Ele com certeza estava bêbado.

– Você bebeu? – perguntei ignorando a pergunta dele mesmo já sabendo a resposta.

– Só um pouquinho. – respondeu rindo. – Mas o que importa é que eu vim te ver.

– Me ver?

– Sim, eu to na porta da sua casa.

– O que? – perguntei assustada. – Você ta zuando, né?

– Não, eu to na porta da sua casa e acho bom você vir abrir o portão pra mim. – ele respondeu e eu custei a entender a frase. Mas consegui entender muito bem a parte sobre abrir o portão que indicava que ele havia pirado de vez.

– Você definitivamente ta muito bêbado! – afirmei. – Acha mesmo que eu vou abrir o portão da minha casa pra você a essa hora? Você acha o que, Gabriel? Minha mãe me mata.

– Então acho que eu vou deitar aqui na porta. – ele respondeu me fazendo bufar de raiva.

– Como você veio parar aqui? – perguntei.

– Sei lá, o taxista perguntou pra onde eu ia e só conseguia lembrar seu endereço.

Mesmo que estivesse morrendo de raiva, me repreendi ao ver um sorriso brotando no canto da minha boca.

– Vai pra sua casa. – pedi.

– Não vou. – ele disse e logo em seguida ouvi um barulho vindo do outro lado da linha e a chamada foi encerrada.

Eu levantei da minha cama em um pulo, completamente preocupada. Meu primeiro pensamento foi sair correndo e abrir o portão, mas minha mãe realmente me mataria. Abrir o portão da minha casa de madrugada pra um cara bêbado entrar... Ela com toda certeza do mundo me mataria.

A frase se repetiu em minha cabeça e eu entrei em desespero. Gabriel estava chapado na porta da minha casa a essa hora. Eu tinha que fazer alguma coisa.

Meu celular vibrou e suspirei aliviada ao ver que ele estava ligando mais uma vez.

– Que porra aconteceu, Gabriel?

– Eu cai e o celular espatifou no chão. – ele explicou rindo mas não achei graça nenhuma.

– Gabriel, eu vou chamar um táxi, você vai entrar nele e ir embora. – disse com a voz firme.

– Eu não vou sair daqui, Isabelle. – ele respondeu imitando meu tom de voz.

– E eu não vou ficar me preocupando com cara bêbado fazendo graça.

– Então ta, vou desligar.

– E vai embora.

– Daqui eu não saio. – ele disse e desligou.

Eu joguei meu celular na cama e bufei de raiva. Ele não poderia estar falando sério, logo ele desiste e vai embora. Me deitei de volta e fechei os olhos... por no máximo dez segundos. Eu não podia deixar o Gabriel lá na porta.

Eu mataria aquele filho da puta.

Me levantei, peguei minhas chaves sobre a escrivaninha e abri a porta do meu quarto com cuidado. Assim que sai no corredor tive a certeza de que amanhã só restaria meu cadáver.

Eu tinha alguns pontos a meu favor. Minha casa era razoavelmente grande e o quarto de minha mãe era o cômodo mais longe do portão, ou seja, com sorte ela não me ouviria abrindo o mesmo. E minha mãe tem o costume de ficar assistindo televisão antes de ir dormir e quase sempre a esquecer ligada, se eu tiver sorte esse seria um desses dias e a televisão ajudaria a encobrir qualquer barulho que eu viesse a fazer.

Me encaminhei com cuidado até a porta do quarto de minha mãe e coloquei meu ouvido grudado na porta. Um sorriso enorme surgiu em meu rosto ao me certificar de que sim, ela havia esquecido a televisão ligada. Mas se fosse depender da minha sorte e do quanto eu sou estabanada, alguma coisa com certeza daria errado.

Sai andando lentamente pela casa e destranquei a porta da sala com cautela. Meu coração estava acelerado e eu estava tremendo. Atravessei o jardim e abri o portão, assim que o abri, Gabriel que estava encostado no mesmo caiu no chão e começou a rir. Me abaixei correndo e tapei a boca dele com minha mão.

– Fica calado e me escuta, por favor. – pedi e ele assentiu com a cabeça, parando de rir. – A gente vai entrar em silêncio, total silêncio, sem fazer nenhum barulho e vamos direto pro meu quarto, ta bom? – ele novamente assentiu com a cabeça.

Ajudei ele a se levantar e tranquei o portão. Segui rumo a porta da sala e Gabriel veio logo atrás de mim trocando os passos. Ele não estava bêbado a ponto de cair, mas estava quase. Antes de entrarmos dei um olhar significativo para ele que colocou o dedo sobre a boca fazendo sinal de silêncio e ai entramos. Tranquei a porta da sala tremendo mais do que tremi quando a abri e passei o braço de Gabriel por cima do meu ombro para garantir que ele não tropeçaria, derrubaria algo ou cairia no caminho.

Caminhamos vagarosamente e em silêncio até meu quarto. Quando finalmente adentramos o mesmo e eu fechei a porta, a trancando, apoiei a testa na porta e voltei a respirar mal acreditando que nada dera errado e que eu ainda estava viva. Quando me recuperei da adrenalina, me virei para Gabriel e o fuzilei com os olhos.

– Eu. Vou. Te. Matar. – disse pausadamente. Gabriel estava sentado na cadeira da escrivaninha, com os pés em cima da mesma e me olhando divertido.

– Você ficou preocupada. – afirmou colocando as mãos atrás da cabeça.

Este é o momento oportuno para dizer que ele estava tão sexy que precisei de um tempo para conseguir voltar a raciocinar. Gabriel estava com uma toca cinza na cabeça, usando uma camiseta xadrez preta com cinza, uma calça jeans preta e um vans também preto. No meu quarto. Tive que me esforçar muito para não pensar em coisas indevidas.

– Como não ficar, Gabriel? – perguntei brava me encaminhando até ele. – São quase cinco horas da manhã e você está chapado. – afirmei e bati em suas pernas indicando que ele deveria tirá-las de cima da minha escrivaninha.

– É tudo culpa sua. – ele disse abaixando os pés e se levantando.

– Minha? – perguntei incrédula me encostando na escrivaninha e cruzando os braços.

– Você deveria estar lá, mas não estava. Eu fiquei bem aborrecido. – ele franziu a testa ao dizer a última palavra, mas se contentou com ela, somo se não conseguisse pensar em alguma outra palavra. Até porque tenho certeza que ele não estava conseguindo pensar direito.

– Eu tinha motivos para não estar lá.

– Fugir de mim era um deles? – ele perguntou se aproximando e parando em minha frente.

– Com certeza. – respondi com um sorriso propositalmente forçado e ele retribuiu com um sorriso malicioso.

– Pois veja que não deu certo. – ele afirmou se aproximando ainda mais e lá estava eu, presa entre ele e a escrivaninha.

Eu queria ter mandado ele ir se fuder, mas não tive tempo para isso. Nem sequer tive tempo para pensar. Gabriel pressionou meu corpo contra a escrivaninha e levando a mão até minha nuca me puxou para um beijo, colando nossas bocas com urgência.

Eu poderia dizer que foi tudo rápido demais para eu poder raciocinar e me desvincilhar, mas seria errado depois de eu ter permitido que ele aprofundasse o beijo, sentindo o gosto de vodka em sua boca e ter envolvido seu pescoço com meus braços.

Por ser o Gabriel, eu já devia imaginar o que aconteceria a seguir, mas foi só quando ele me abraçou pela cintura, inverteu nossas posições de modo que eu ficasse de frente para minha cama e começou a andar rumo a ela que eu entendi aonde aquilo tudo iria acabar.

Interrompi o beijo no mesmo momento e tirei suas mãos de minha cintura me afastando abruptamente dele.

– Não faça isso de novo. – disse séria para ele que se jogou sobre minha cama.

– Não espere que eu não tente de novo. – ele respondeu sério.

Eu precisava que ele tomasse um banho para melhorar, mas ele não daria conta de tomar banho sozinho e eu não tinha roupa para emprestar pra ele se vestir depois, caso eu desse banho nele. Então isso estava fora de cogitação. Eu precisava fazer com que ele comesse e depois dormisse.

– Você precisa comer alguma coisa. Eu vou à cozinha preparar algo e você vai ficar trancado aqui, porque se minha mãe acordar simplesmente digo que perdi o sono e to com fome. – expliquei. – Mas você vai ficar quietinho Gabriel, quietinho e sem fazer nenhum barulho. Por favor. – implorei.

– Eu ganho outro beijo se me comportar?

– Você ganha um soco na cara se não se comportar.

– Nesse caso, vou ficar deitado aqui.

Sai do quarto e fechei a porta do meu quarto rezando para que ele realmente ficasse quieto. Fui até a cozinha e preparei um miojo para ele, peguei também um copo grande de refrigerante e voltei para o meu quarto com as duas coisas. Tive que praticamente fazer malabarismo pra conseguir abrir a porta e depois a fechei a empurrando com o corpo.

Quando olhei para frente meu coração disparou. Gabriel estava sentado na cadeira da minha escrivaninha, com um de meus diários abertos e o lendo. Eu corri até ele, mas ele também saiu correndo e parou na direção oposta do quarto. Coloquei o macarrão e o refrigerante sobre a escrivaninha para não derrubar nada no meu quarto e me virei para Gabriel com um olhar furioso.

– Me devolve isso. – ordenei.

– “Uma das coisas que mais gosto nele são seus olhos verdes, definitivamente, e me lembro de ter pensado isso enquanto o observava...” – ele começou a ler um trecho e eu avancei em sua direção, mas ele voltou a correr e continuou a ler – “... e fingia estar prestando atenção na história que ele contava sobre seu time de futebol preferido. Eu odeio futebol. Mas juraria de pés juntos ser a torcedora número 1 do Corinthians se isso o deixasse feliz.”

Quando finalmente o alcancei, tentei tomar o diário de sua mão, mas ele levantou o braço com a mão que segurava o caderno e me encarou.

– Quem é ele? – perguntou se referindo a pessoa que descrevi naquele trecho.

– Não te interessa. – respondi sem paciência praticamente pendurada em seu pescoço e na ponta dos pés tentando alcançar o diário. Gabriel não é muito mais alto que eu, o topo da minha cabeça fica a altura de sua boca, mas com os braços esticados eu não conseguia alcançar sua mão.

Estava tão concentrada em alcançar o caderno acima de mim que Gabriel me pressionou na porta do guarda-roupa com facilidade, me deixando imobilizada e ai sim abaixando a mão e colocando-a atrás de suas costas. Assim conseguiu que minha atenção se voltasse para ele.

– Quem é ele? – perguntou novamente curioso.

– Você gosta de me pressionar nos lugares, né? Na parede, na escrivaninha, no guarda-roupa...

– O próximo lugar vai ser o colchão da sua cama, mas antes tu me responde.

– Pra que quer saber?

– Porque eu quero.

– Eu também quero meu diário. – disse irônica e ele jogou o mesmo sobre minha cama, mas continuou me prendendo entre ele e o guarda-roupa.

– Responde e eu te deixo sair daqui.

– O Arthur.

– Você disse que vocês só ficaram. – ele disse confuso.

– Várias e várias e várias vezes. – expliquei. – Ficamos sério por bastante tempo.

– Tu foi pra cama com ele?

– Gabriel, desde quando te devo satisfação da minha vida?

– Tu transou com ele ou não? No diário tava a data de 2011, não acho que você tenha transado com ele com... 15 anos.

Ele conseguiu raciocinar quantos anos eu tinha. Isso é bom. Efeito do álcool já passou um pouco.

– Não, eu não transei com ele.

– Tu era apaixonada por ele? – perguntou.

– Acho que sim. – respondi em dúvida. Eu não sabia ao certo o que sentia por Arthur, só sei que fiquei decepcionada quando ele terminou tudo.

– Se você acha, então não era.

– E o que você sabe sobre apaixonar, Gabriel? Tu é um galinha.

– E tu sabe da minha vida amorosa por acaso?

– Ela nunca existiu. – respondi óbvia.

– Tu ainda gosta dele? – perguntou.

– E do que isso te interessa?

– É por causa dele que tu não me quer? Eu sou muito melhor que ele, Isabelle. – afirmou com raiva e como se uma peça se encaixasse na outra e completasse o quebra-cabeça, tudo se esclareceu em minha mente.

– Agora eu entendi tudo... Você ta revoltado porque eu não te quero e ta com medo de que seja por causa de um cara que você não gosta, por algum motivo que desconheço. – disse. – Não é mesmo? Mas não, eu não sinto mais nada por ele.

– Então por que você ta fugindo de mim? – perguntou ignorando tudo que eu havia dito. Nem insisti pois sabia que era verdade e sabia que ele não confessaria.

– Porque eu não vou me envolver com alguém cafajeste como você. – expliquei e ele sorriu diminuindo a força com que estava me pressionando contra a porta.

– Então você me quer, só acredita que não pode querer.

– Não. – respondi depressa.

– Sim, você quer. – afirmou em um tom de voz firme e sedutor me olhando nos olhos. Fazendo aquela coisa que eu não sei como ele faz, mas que poderia convencer alguém a se jogar na frente de um carro se ele quisesse.

– Qual é, Gabriel? Não consegue convencer uma menina a ficar contigo sem tentar manipulá-la com seu jogo sedutor? – indaguei revoltada.

– Funciona bem, né? – ele perguntou sorrindo divertido e ainda me encarando.

– Nem sempre.

– Ta funcionando agora. – afirmou Gabriel. Filho da puta.

– Acho que não. – menti.

– O seu joguinho que não vai funcionar. – ele disse e me puxou pela cintura para si.

– E qual seria o meu joguinho? – perguntei sem entender.

– Me esnobar. – ele disse perto do meu ouvido e me virou para o lado oposto ao guarda-roupa me empurrando para frente.

– Não é um joguinho. – afirmei. – As pessoas falam muitas coisas ruins sobre você, sabia?

– As pessoas dizem muitas coisas sobre muita gente. – ele disse e no instante seguinte me deitou sobre minha cama, se colocou por cima de mim e me beijou. E eu? Me rendi.

Suas mãos foram até minhas pernas e puxaram elas fazendo com que eu envolvesse seu quadril e mantivesse nossos corpos colados. Levei minha mão até seu cabelo e tirei a toca cinza que estava ali para poder bagunçá-lo e em seguida usei as duas mãos para abrir um por um dos botões de sua camisa xadrez. Ele interrompeu o beijo e me ajudou a tirá-la, depois levou sua boca até meu pescoço onde começou a depositar alguns beijos que foram se tornando chupões.

Na tentativa de me livrar das marcas que apareceriam ali amanhã, desprendi minhas pernas de seu quadril e inverti nossas posições ficando sobre ele e voltando a beijá-lo, quando interrompemos o beijo por falta de ar ele aproveitou para dessa vez tirar a minha blusa e a jogar longe.

Gabriel me puxou para si voltando a colar nossas bocas e apertou minha coxa com força, eu mordi seu lábio inferior e sorri divertida enquanto arranhei todo seu abdômen. Quando estava prestes a desabotoar sua calça, o sorriso em meu rosto desapareceu após me lembrar do que prometi a Leticia.

O que é que eu estava fazendo? Desgrudei nossas bocas e sai de cima dele, me levantando da cama e deixando um Gabriel bem confuso deitado me encarando. Eu ignoro o cara a semana inteira e ele aparece chapado na minha casa e eu vou pra cama com ele. Qual o seu problema, Isabelle?

Gabriel se sentou na cama ficando de frente pra mim e continuou me olhando com cara de quem não estava entendendo nada.

– Vamos esclarecer uma coisa, eu não vou transar com você. – afirmei.

– Isabelle, para de ser tão confusa. – ele pediu passando a mão pelo rosto e depois as juntando em frente ao corpo. – Você sabe que quer, você queria até um minuto atrás.

– Também sei que você não presta. – disse desviando o olhar do dele e ele me puxou pelo braço me colocando no meio de suas pernas. Ele respirou fundo como se precisasse se esforçar para manter o foco e começou a falar.

– Me dá uma chance. – pediu. – Deixa rolar. E não, não to falando sobre transarmos agora. – esclareceu. – To falando sobre a gente mesmo. A gente não fala pra ninguém e ninguém vai te julgar por isso. Me dá uma chance pra te fazer mudar de opinião.

Eu definitivamente não sabia o que fazer. Acho que nunca me senti tão confusa em minha vida. Eu queria muito dar uma chance pra ele e queria muito provar que todo mundo estava errado. Mas eu havia prometido pra Leticia e não conseguiria esconder isso dela. Sem contar que eu tinha medo do Gabriel fazer merda.

– Não sei... – disse confusa.

– Por favor. – implorou Gabriel. – Por que acreditar nas pessoas e não em mim? Por favor...

Eu não deveria ter tomado a decisão que tomei, mas eu costumo agir por impulso, costumo fazer as coisas sem pensar na consequência e só me arrepender da decisão quando a consequência já chegou. E no momento o que eu queria era acreditar nele.

– Gabriel, eu juro que se você fazer qualquer coisa que me magoe, eu vou te capar. – afirmei séria, mas ele riu e me puxou para mais um beijo que só foi interrompido muito tempo depois.

– Você ainda ta bêbado? – perguntei.

– Depende do que você considera estar bêbado, eu me sinto tonto, mas não bêbado.

– De qualquer forma, é melhor você comer um pouco e ir dormir. Eu fiz miojo pra você comer, mas já deve estar frio pra caralho. – disse me soltando dele e indo em direção ao prato em cima da minha escrivaninha. – Vou esquentar no microondas.

– Não precisa, Isa.

– Você vai comer isso frio? – perguntei com a testa franzida.

– Qual o problema? E não arrisque sair desse quarto de novo e acordar sua mãe.

– Ta bom. – concordei levando o prato e o refrigerante até ele.

Não conseguia acreditar que ele comeria aquilo frio, mas ele comeu e ainda por cima como se fosse a melhor refeição que fez na semana. Levando em consideração que Gabriel amava comer, ele realmente deveria estar amando o miojo.

Quando terminou de comer e virou o copo de coca em um praticamente um único gole, coloquei as coisas sobre minha escrivaninha e tranquei a porta certificando que minha mãe não a abriria e encontraria um cara deitado na minha cama.

Olhei para o Gabriel e ele já estava deitado mexendo no celular, usando apenas sua calça jeans. Olhei para o chão e avistei nossas blusas que foram parar ali depois de eu quase ter transado com ele. Se eu bem conheço os homens, ele deve ter ficado bem puto.

– Me empresta seu carregador? – pediu Gabriel.

– Aham. – disse e me encaminhei até meu guarda-roupa para pegá-lo. – Pode tirar a calça se quiser, mas nem pense em besteiras. – afirmei pegando o carregador e jogando até ele que riu.

Gabriel colocou seu celular para carregar enquanto eu me deitava, depois tirou sua calça ficando apenas de cueca boxer preta e se deitando ao meu lado na cama. Aquela visão com certeza me desconcertou e eu pensei que não deveria ter deixado.

Encarei o teto acima de mim tentando desviar meus pensamentos e me peguei pensando em como ele faria pra ir embora amanhã sem que minha mãe visse.

– Ta pensando no que? – perguntou Gabriel.

– Em como você vai embora. Vou precisar convencer minha mãe a sair de casa.

– A gente dá um jeito. – ele disse e assenti.

– Me desculpa por estar aqui, por ter te dado trabalho e por tudo. – desculpou-se e olhei para ele que estava virado para mim.

– Tudo bem. – respondi e comecei a observá-lo.

Gabriel não tem os olhos claros ou os cabelos loiros, ele não tem nada de diferente, a não ser o fato dele ser diferente. Seus cabelos castanhos claro estão sempre bagunçados e ao invés disso o deixar desengonçado ou qualquer coisa desse tipo, apenas o dá um charme comprovando que ele é naturalmente sexy. Seus olhos são de uma cor indefinida, os quais não sei classificar como castanho claro, mel ou mel esverdeado, o que na realidade não importa, pois se eu tenho que classificá-los, então direi que são intimidadores. Seu sorriso é absurdamente lindo e possui influência sobre qualquer pessoa ao seu redor. Eu posso garantir que se ele sorrir você vai querer sorrir junto e se ele lhe lançar um sorriso malicioso, você automaticamente sentirá um frio na barriga.

E bom, se ele estiver em sua cama ás cinco horas da manhã, apenas de cueca, você com certeza vai beijá-lo. Foi com esse pensamento que me aproximei dele e juntei nossos lábios. O beijei com calma e quando encerramos o beijo, continuei o olhando até ser vencida por meu sono e adormecermos abraçados.

Notas finais
O que acharam? Quero a opinião de vocês, por favor. Até mais!