Poltrona 19
10 Perfume
Notas iniciais
Acordamos como um casal feliz, um nos braços do outro e sorrindo alegremente.
Não, não mesmo.
Acordamos com minha mãe batendo na porta do quarto e me gritando. Naquele momento, quando minha consciência tomou forma ao mesmo tempo em que lutava para abrir os olhos, tudo que eu havia feito naquela madrugada pareceu ainda mais bizarro. Levei tanto susto ao me lembrar que Gabriel estava em minha cama e minha mãe do outro lado da porta esperando para entrar, que ao me levantar abruptamente sem perceber que Gabriel estava abraçado a mim, meio que o joguei da minha cama. Ele caiu de costas no chão e se esforçou muito para não emitir um gemido de dor.
– Já estou indo, mãe. – gritei para a mulher que ainda batia na porta impacientemente.
Desci da cama e ajudei um Gabriel semi nu a se levantar, o que me deixou desconcertada por alguns segundos. Não que eu não tenha reparado nisso antes, mas puta que pariu, em plena luz do dia, podendo o enxergar perfeitamente na minha frente, com os cabelos mais bagunçados que o normal e usando apenas uma cueca, meus pensamentos gritaram: CARA, COMO VOCÊ É SEXY.
– Foi mal – desculpei-me assim que meus olhos encontraram os seus e rezei para que ele não tivesse percebido que eu o sequei descaradamente.
– Tudo bem. Onde me escondo?
– Vai pro banheiro. – disse agora o ajudando a pegar suas coisas que estavam espalhadas pelo quarto e as entreguei para ele, que entrou no mesmo.
Caminhei até a porta com a maior cara de inocente que podia, enquanto tentava parar de tremer e suar frio. Se minha mãe descobrir tudo, não quero nem imaginar quanto tempo ficarei de castigo. Talvez a eternidade.
Abri a porta e ela estava falando ao telefone com alguém.
– Até que enfim, Isabelle.
– Eu estava dormindo. – disse encostando a cabeça no batente da porta.
– Eu sei, mas seu pai ta há meia hora no telefone esperando pra falar contigo e parece que é algo importante. – explicou me entregando o telefone que estava em suas mãos. – Vai querer o que pro almoço? – perguntou antes que eu atendesse o mesmo.
– Vai buscar comida agora?
– Sim. – respondeu.
– Ahn, tanto faz. Só traga algo bem gostoso, estou com fome.
– Ta bom. E trate de lavar as coisas que sujou comendo de madrugada. – ela ordenou andando pelo corredor e deixando uma filha aliviada para trás.
Coloquei o telefone na orelha e fechei a porta, voltando para minha cama.
– Oi, pai. – disse avistando Gabriel sair lentamente do banheiro e andando em direção à cama.
– Oi, filha. Tudo bem? – ouvi a voz de meu pai do outro lado da linha, ele parecia estar animado.
– Tudo sim e com você?
– Tudo bem. Querida, desculpe ligar cedo, mas estava planejando ir com a Lilian à fazenda fim de semana que vem e queria saber se você não quer ir. – convidou. Gabriel subiu em minha cama e se colocou sobre mim.
– Pai, você sabe que não gosto de ir nesses lugares. – expliquei enquanto senti os lábios de Gabriel em meu pescoço.
– Eu sei, mas faz tempo que você não vem aqui pra casa e que não fazemos nada, você só fica com sua mãe. – ele disse ao mesmo tempo em que Gabriel traçava uma linha de beijos por meu pescoço.
– Não começa com seus dramas, por favor. – pedi. Gabriel desceu seus beijos para o colo do seio, depois para meus seios, beijando a parte que não estava coberta pelo sutiã, o qual ele parecia estar odiando no momento e continuou descendo.
– Tudo bem. – papai disse e a boca de Gabriel alcançou minha barriga. – Mas eu pensei em algo divertido, por isso liguei hoje, até porque já teria que programar as coisas com antecedência.
– O que? – perguntei.
– Pensei em você convidar seus amigos para irem também... – papai começou a dizer. Gabriel continuou a descer seus beijos e quando chegou abaixo do umbigo me olhou com a maior cara de pervertido que podia. Céus, o cara estava me deixando excitada enquanto converso com meu pai no telefone. O repreendi com o olhar e ele revirou os olhos, subindo seu rosto até o meu e juntando nossos lábios pedindo permissão para um beijo que concedi. – Eu posso pegar a van de um amigo meu emprestado e levo todos vocês. Vocês podem até tomar essas bebidas alcoólicas que adolescente gosta, claro que comigo fingindo que não sei de nada, porque não vou me responsabilizar por nenhum menor de idade bêbado. – afirmou brincando e sorri entre o beijo. – O que acha?
Estava tão concentrada no beijo de Gabriel que esqueci que aquele era o momento em que eu respondia algo.
– Isa? – papai chamou, fazendo com que eu voltasse a raciocinar e separasse minha boca da de Gabriel que ficou frustrado.
– Tive uma ideia melhor, você nos deixa ir pra lá na sexta e ficarmos sozinhos até sábado, ai no sábado vai pra lá com a Lílian, pode ser? – sugeri.
– Sei não, Isabelle...
– Então não vou. – disse fazendo chantagem. Chantagens sempre funcionam com meu pai e fazer isso me deixa com a consciência pesada por uns trinta segundos... porque depois passa.
– Ta bom, Isabelle.
– Então iremos! – concordei sorrindo. Assim que terminei a frase Gabriel tentou me beijar de novo, mas não deixei. Afastei o telefone e sussurrei para ele.
– Eu to falando com meu pai.
– Agradeça a ele por ter feito uma filha tão gostosa. – disse descendo a alça do meu sutiã e depositando um beijo em meu ombro.
Contive uma risada e coloquei o telefone no ouvido novamente. Papai ainda estava falando.
– ... e ver todas as coisas que precisaremos levar.
– Ta bom, pai. – disse mesmo sem ter ideia do que ele estava falando. – Segunda te ligo, tchau.
– Te amo.
– Também te amo. – respondi e desliguei o aparelho, olhando séria para Gabriel que começou a rir e se jogou ao meu lado na cama. – Enquanto você me agarrava... – disse com um sorriso irônico no rosto – meu pai me convidou pra ir numa fazenda semana que vem e disse pra chamar alguns amigos. O lugar é maneiro, ele vai arrumar uma van pra nos levar, ficaremos sozinhos na sexta, poderemos levar bebida... Pensei em chamar você e o pessoal...
– Sozinhos... – ele repetiu pensativo. – Tem certeza que o pessoal tem que ir? – indagou com seu típico sorriso malicioso e eu revirei os olhos em resposta. – Tô dentro!
Levantei da cama, me direcionei até o guarda-roupa e vesti a primeira blusa que encontrei.
– Vai se vestir, você precisa ir embora antes que minha mãe volte. – afirmei pegando meu diário que avistei caído no chão, o mesmo que Gabriel havia lido e jogado na cama na noite anterior.
Guardei o diário de volta na gaveta e a tranquei. Aquela gaveta sempre ficava trancada e justo ontem não estava, eu não faço ideia do que Gabriel leu, mas não me sentia confortável pensando nisso.
– Foi mal por isso... – desculpou-se Gabriel.
– Tudo bem. – respondi recolhendo o prato e o copo sujo que estavam sobre a escrivaninha.
– Desde quando escreve? – ele perguntou.
– Desde criança.
– E por que esse estava por cima e não o desse ano?
– Porque eu estava o relendo. – respondi e sai do quarto, deixando Gabriel para trás.
– Algo me diz que você sente muita falta desse cara. – ele disse alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.
Ignorei o que ele havia dito e continuei andando até chegar na cozinha. Prendi meu cabelo em um coque e comecei a lavar toda a louça suja enquanto Gabriel se vestia. Achei que ele estivesse demorando, mas ao terminar e olhar para trás, vi que na verdade ele estava vagando pela sala, observando todos os objetos que minha mãe colocara enfeitando o cômodo.
Caminhei até ele que agora estava segurando uma concha na mão e a olhando. Limpei minhas mãos molhadas em seu pescoço e ele se esquivou no mesmo instante me xingando, eu apenas ri.
Gabriel estava com fones de ouvido, tirou um deles e levou a concha até o ouvido.
– Essa coisa não faz barulho de mar, da onde as pessoas tiraram isso? – perguntou frustrado, colocando a concha de volta ao lugar.
– Faz sim. – respondi e ele ignorou. Pegou o celular em seu bolso, no qual estava conectado os fones e começou a mexer. Eu demorei alguns segundos para perceber que era o meu celular.
– Gabriel, por que você ta com meu celular? – indaguei quase gritando e avançando em direção a ele que saiu correndo até a porta.
– Você tem Justin Bieber no celular... – ele afirmou balançando a cabeça em desaprovação.
– É só uma música. – respondi na defensiva.
– Kurt Cobain se suicidaria de novo se soubesse que ta dividindo a playlist com o Bieber. – ele rebateu e tive uma crise de riso, tendo que parar no lugar para gargalhar.
Gabriel abriu a porta da sala e atravessou o jardim, quando chegou até o portão o destrancou. Como assim, ele pegou minha chave também?
– Sabia que eu odeio que mexam nas minhas coisas? – perguntei enquanto corria até ele.
– Eu não mexi em nada, estava tudo a vista. – respondeu.
Gabriel estava parado na calçada olhando para a rua, quando parei ao seu lado, ele se virou para mim e me entregou o celular com o fone.
– Isso aqui eu levo... – disse guardando minha chave de casa no bolso.
– Mas isso é a chave da minha casa.
– Eu sei. – ele disse me puxando pela cintura. – Isso é só a garantia de que voltaremos juntos pra cá.
– E onde nós vamos?
– Ainda não sei, são muitas as opções. Averiguarei qual será a melhor festa e mais tarde te ligo. – respondeu.
Gabriel desfez o coque em meu cabelo, tirou a toca cinza que estava em sua cabeça e colocou na minha ao mesmo tempo em que selou nossos lábios, iniciando um beijo longo e lento.
– Te vejo mais tarde – anunciou Gabriel assim que se separou de mim.
Sem esperar por uma resposta, ele se virou e foi embora, me deixando para trás com sua toca contendo um perfume intoxicante que quase me fazia acreditar que ele ainda estava ali. Espero que não seja algo muito psicopata pensar que eu nunca mais tiraria aquela toca da cabeça.
Entrei dentro de casa e me joguei sobre o sofá, esperando minha mãe chegar. Permaneci em silêncio e de olhos fechados repassando na minha cabeça cada acontecimento desses últimos dias. Infelizmente minha mãe chegou tarde demais. Na verdade ela chegou não muito tempo depois, mas aqueles minutos sozinha foram o suficiente para me fazer pensar que talvez eu realmente gostaria que tudo desse certo com esse cara.
***
Eu estava definitivamente muito atrasada. Amanda provavelmente estaria me xingando de todos os nomes prováveis e improváveis. Após almoçar e já convencer minha mãe a me deixar sair esta noite sem nem saber para onde iria, apenas utilizando o argumento “vou com o Gabriel”, Amanda me ligou avisando que teria uma festa na casa do Pedro, meu ex ficante. Apesar de não saber para onde Gabriel ia querer ir, eu queria muito ir nessa festa, então liguei pra ele que disse “Hum, Pedro, to ligado... Espero que tenha bebidas e garotas”. Depois de xingá-lo, ficou confirmado que ele também iria.
O motivo do meu atraso é que resolvi dormir um pouco para estar com disposição a noite, mas acabei dormindo muito mais do que devia. Típico vindo de mim. Quando acordei já havia passado da hora que combinei com Amanda de estar na casa dela para arrumarmos. Agora lá estava eu correndo pela rua de sua casa.
Toquei a campainha e quem atendeu a porta foi a mãe de Amanda, quase uma segunda mãe para mim. Ela me tratou educadamente, como sempre, e permitiu que eu fosse até o quarto da filha, do qual pude ouvir uma música pop tocando. Quando cheguei no mesmo, bati na porta apenas para avisar que entraria e logo em seguida a abri. Avistei Leticia sentada na cama mexendo no notebook, de onde vinha a música que estava tocando e Amanda estava em frente ao espelho, se olhando.
– Aleluia – gritou Leticia assim que me viu. – Você já viu quantas horas são?
– Dormi demais. – expliquei fechando a porta atrás de mim.
– Essa roupa ta boa? – Amanda perguntou ainda se olhando no espelho. Estava com um vestido vermelho bem curto.
– Se a sua intenção é chamar a atenção, você vai conseguir. – afirmei me jogando sobre a cama ao lado de Leticia. – Faz quanto tempo que ela ta experimentando roupa?
– Mais de uma hora. – respondeu Leticia.
– Acho que vermelho não combina pra uma festa na casa do Pedro. – disse Amanda.
– Todo fim de semana alguém da escola dá uma festa, esse povo não tem pais ou algo assim? – perguntei.
Se eu desse uma festa em casa, provavelmente minha mãe me expulsaria da mesma, sem nem direito a pegar minhas coisas. Isso, claro, depois de me espancar, me fazer arrumar tudo e pagar algum tipo de humilhação pública.
– Nós estudamos numa escola em que só tem gente rica, Isabelle. Os pais deles viajam, eles fazem isso e ainda contratam empregada pra limpar tudo e fingir que nada aconteceu. – explicou Amanda.
– Nem consigo imaginar o que minha mãe faria caso eu desse uma festa lá em casa. – disse Leticia.
– Tava pensando exatamente isso. – concordei.
Amanda saiu estressada de frente o espelho e retirou o vestido vermelho ficando apenas com uma lingerie preta.
– Huuuum, ta querendo impressionar alguém? – zombei.
– Nunca se sabe como minha noite vai terminar. – ela respondeu nos fazendo rir.
Amanda parou em frente ao guarda-roupa e começou a procurar impacientemente por outra roupa. Ela pegava algumas peças, mostrava pra gente, pedia a opinião e por mais que disséssemos que ficaria lindo, ela colocava algum defeito na roupa e a jogava sobre a cama.
– Achei. – gritou Amanda esboçando felicidade. Ela vestiu uma saia de cintura alta cor beje, que o que tinha de pano em cima faltava embaixo e uma blusa cropped com estampa de oncinha. – Alguém me ajuda a fechar aqui, por favor.
Fui até Amanda e ela arredou seu cabelo para que eu pudesse fechar o zíper na parte de trás da blusa, fazendo com que enquanto eu o fechava, notasse um roxo no pescoço dela.
– Ela definitivamente quer impressionar alguém. – gritei. – Amanda ta com um chupão gigantesco no pescoço, Leticia.
No mesmo instante Leticia saltou da cama e correu até nós, Amanda até tentou esconder o chupão, mas foi em vão, Leticia também conseguiu ver.
– Quem é o cara? – perguntamos ao mesmo tempo.
– Ninguém em especial, foi só um cara que fiquei na festa de ontem. – explicou Amanda. – Vocês são insuportáveis.
– Você não saiu com o pessoal da sala? – perguntei.
– Não, a linda foi numa festa. – respondeu Leticia pegando um vestido preto em cima da cama.
– Respondam com sinceridade, fiquei magnífica? – indagou Amanda novamente se olhando na frente do espelho. Ela parecia estar satisfeita, mas é claro que só ficaria totalmente caso confirmássemos.
– Sim, Amanda. – respondi.
– Certeza? – ela tornou a perguntar.
– Todos sabem que você é a pessoa mais complicada do universo pra se arrumar, mas hoje ta ainda mais difícil. Que que ta rolando?
Ela se virou para a gente e respirou fundo antes de começar a falar.
– Eu quero sim impressionar um cara. – confessou. – Sei que sou linda e que meus truques de sedução são infalíveis, mas to insegura mesmo assim...
– Você insegura... Quem é o cara? – perguntou Leticia.
– É realmente o cara com quem fiquei ontem, mas vocês não conhecem. Juro que lhes apresento depois. – prometeu Amanda.
– Ta bom.
– E esses truques de sedução? To precisando aprender. – disse zombando e me sentando novamente sobre a cama.
– É muito fácil... – Amanda começou a dizer.
– Cara, eu to brincando. – disse tentando evitar o discurso que viria a seguir, mas já era tarde demais.
– Você tem que utilizar as partes do corpo que o homem mais gosta. Você senta e cruza suas pernas de forma sensual, não de qualquer jeito... – ela disse se sentando na cama ao meu lado e cruzando as pernas lentamente, porém, de forma que pareceu natural. – Ai a postura é reta, de forma com que você fica com menos barriga e de peitos estufados. Acredite, os peitos são a melhor artimanha de uma mulher. – ela afirmou me fazendo rir. – Mexa nos cabelos também, além de ser sensual, você pode passar a mão nele de cima até perto dos seios e parar, porque ai o cara vai estar te observando e consequentemente o olhar dele vai terminar ali. – Amanda disse ao mesmo tempo em que demonstrava.
– Cara, você é inacreditável. – confessei.
– Calma, nem terminei. Ai tem a expressão facial, acredite, um olhar vale mais que tudo. Sobrancelhas arqueadas dando um leve ar de superioridade, um olhar seguro e um sorriso no canto dos lábios... Acabou, já era, você tem o cara na sua mão. – afirmou Amanda como se fosse tudo muito óbvio. – Mas não to falando de fazer ninguém apaixonar não, to falando apenas de seduzir.
– Quando publicar um livro, "Dicas de sedução" por Amanda Bonfim, coloque um aviso por favor: só funciona pra mulheres que já são gostosas. – disse.
– É, porque não adianta nada chamar atenção do cara pras minhas pernas ou seios, se eu não tiver pernas ou seios. – completou Leticia e nós rimos. – Agora que acabou o showzinho, deixa eu terminar de me arrumar.
Leticia começou a se arrumar, colocando um vestido preto que a deixou extremamente linda e Amanda decidira que iria com a roupa que estava mesmo, então pediu que eu esperasse e caminhou até o guarda-roupa. Ela retirou de lá um vestido e me entregou ordenando que eu experimentasse, assim que o fiz, as duas pararam para me observar.
– Ela falou o dia inteiro sobre o quanto você ficaria linda nesse vestido. – disse Leticia se referindo à Amanda que me analisava com um sorriso enorme no rosto e parecendo estar satisfeitíssima.
Amanda me levou até a frente do espelho e fez com que eu me olhasse. O vestido era azul marinho, uma de minhas cores preferidas e o que com certeza ajudou com que eu o achasse lindo.
– Combina perfeitamente com seus olhos. – afirmou Amanda parada atrás de mim. – Aliás, você me deixa frustrada.
– Por que? – indaguei confusa.
– Eu vou todo dia na academia pra ficar com o corpo maravilhoso, faço hidratação no cabelo, tenho todo cuidado do mundo com a minha pele, ai aparece você com esses cabelos loiros e esses olhos azuis, esse corpinho de boneca sendo que nunca sequer passou na porta de uma academia e rouba toda atenção pra você. – explicou Amanda.
– Ta maluca, Amanda? Olha pra você e depois olha pra mim. Não sou nem metade do quanto você é bonita.
– Não, Isa, olhe você pra si mesma. Você é linda e sexy.
Eu me olhei no espelho mais uma vez e por um segundo ao invés de pensar em se eu estava me achando bonita, me perguntei se Gabriel me acharia bonita ou sexy. Aquilo foi tão absurdo que balancei a cabeça tentando afastar isso da mente.
Eu sempre me senti satisfeita com meu corpo e comigo mesma, já dei minhas crises de querer coxas ou seios maiores, mas no fim sempre me conformava com o que sou. Só que de jeito nenhum algum dia me achei ou me acharei mais bonita que Amanda. Ela parece uma angel da Victoria's Secret, literalmente, ela é a cara da Adriana Lima.
– Agora a gente tem que dar um jeito nesse cabelo. – disse Amanda despertando-me dos pensamentos e começando a mexer em meu cabelo. Por um instante ela parou, me olhou pelo reflexo do espelho e depois aproximou o rosto de meu cabelo o cheirando. Não entendi nada.
– Isabelle, você ta com perfume de homem. – ela afirmou e Leticia se virou para nós. – E não é qualquer homem, você ta com o perfume do Gabriel.
– Como você sabe que esse perfume é do Gabriel? – perguntei alterada me virando para Amanda. Alguns segundos depois foi que percebi a burrada que cometi. Aquilo foi o mesmo que confirmar que o perfume era realmente dele e que eu estaria ferrada, mas tudo que consegui pensar no momento em que ela falou aquilo, foi em por que diabos ela conhece o perfume dele.
– Eu já fiquei com ele. – ela explicou após algum tempo me olhando com uma cara que julguei indecifrável.
No momento as duas estavam me encarando em silêncio, como se esperassem alguma declaração vinda de mim sobre isso.
– A toca que eu estava usando quando cheguei aqui é dele, peguei lá na escola e esqueci de devolver. – inventei e segui até o banheiro para poder sair do campo de visão delas e evitar qualquer outra pergunta. Eu não deveria ter saído de casa com aquela toca.
Chegando no banheiro comecei a me maquiar e por um alguns minutos tudo que se ouvia no quarto era a música que tocava no notebook de Amanda. Não sei porque aquilo deixou o clima tão tenso, mas todas no quarto pareceram ficar desconfortável quando o nome de Gabriel foi citado.
Amanda entrou no banheiro e parou ao meu lado, começando a pentear seu cabelo.
– Isa, nós não conversamos depois daquilo que aconteceu. – ela disse por fim.
– Aquilo o que? – perguntei enquanto passava delineador nos olhos, mesmo sabendo do que ela estava falando.
– Eu, você e o Gabriel. Queria que soubesse que não me importei por você ter ficado com ele, afinal, tínhamos ficado algumas vezes só. – explicou Amanda pegando a chapinha e a ligando na tomada.
– Aham. E vocês ficaram de novo depois?
– Não... – ela respondeu rapidamente. – E vocês?
– Também não. – menti rezando para que ela mudasse de assunto.
Por alguns minutos ela permaneceu em silêncio, presa em seus próprios pensamentos, enquanto arrumava seu cabelo com a chapinha. Algo que nunca entendi, já que seu cabelo é liso. Mas ela afirma não passar para alisá-lo e sim dar volume a ele. Sinceramente não entendo, ou sei como fazer isso, já que nunca tenho paciência para arrumar o meu, mas seu cabelo esta sempre impecável.
– Mas eu e o Gabriel ficamos amigos e sei que vocês estão bem próximos, né? – insistiu Amanda no assunto que eu achava ter terminado.
– A gente é da mesma sala, temos os mesmos amigos e tal. – respondi passando um batom vermelho.
– Mas você sente alguma coisa por ele? Nem que seja só atração? – ela perguntou indiferente e comecei a achar tudo isso estranho e suspeito demais.
– Por que ta perguntando isso? – indaguei.
– Porque vai que acaba acontecendo alguma coisa entre nós de novo, ai não quero ter problema com você. – ela confessou.
– Ahn, não, não tem problema. – respondi finalizando minha maquiagem.
– Mas não vai rolar, certo? – perguntou Leticia parando na porta do banheiro e olhando séria para Amanda.
– Não. – concordou Amanda. – E eu preciso mesmo dar um jeito nesse cabelo. – ela disse se referindo ao meu cabelo, me obrigando a sentar e começando a arrumá-lo.
Não muito tempo depois estávamos todas prontas. Mesmo que não muito tempo depois significasse que já havia passado uma hora e meia do início da festa. Eu fiquei pensando o tempo inteiro no que Amanda havia dito sobre Gabriel e comecei a sentir medo de que ela ainda tivesse algum interesse nele, porque se tivesse, isso significaria que nem se eu quisesse eu e Gabriel poderíamos dar certo.
Estava tão avoada que me assustei ao receber um abraço inesperado de Amanda. A abracei de volta e permanecemos assim por um tempo.
– Te amo, vadia. – disse Amanda.
– Também te amo.
– E por favor, não roube toda a atenção da festa pra você. – suplicou de brincadeira enquanto desfazia o abraço. – Você ta linda. – afirmou e saiu do quarto, seguida por Leticia.
Me olhei no espelho uma última vez e me avaliei. Cabelos soltos e levemente ondulados, maquiagem simples com os olhos marcados e o vestido azul marinho realçando as curvas do meu corpo. Sorri com a imagem que vi e sai do quarto disposta a me divertir o máximo possível naquela noite.
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