Poltrona 19
37 Primeiro passo
Notas iniciais
Eu tive que contar tudo a Natália aquela noite, mesmo que não estivesse afim de falar sobre o assunto. E como irmã mais velha, que sempre sabe o que dizer, ela me aconselhou:
– Se ele quiser ficar com você, não vão ser os pais dele que vão mudar isso, Isabelle. Você precisa entender que relacionamento é isso, é a junção de dois mundos, não importa quão distintos eles sejam. E eles sempre serão, porque ninguém é igual a ninguém. Não importa em quantos aspectos duas pessoas se pareçam, existe sempre algo que nos torna singular e é por isso que não existe relacionamentos perfeitos. Mas quando gostamos de alguém, devemos estar dispostos a nos adaptarmos e a cedermos. Você fará isso por ele e ele fará isso por você. Você só não deve jamais, fugir. Porque quem gosta, segura na mão do outro e bate de frente com o problema. Agora quando o sentimento não é verdadeiro, alguém acaba soltando. Não seja você a fazer isso, se você sabe que é verdadeiro.
Eu adormeci aquela noite repetindo suas palavras em minha cabeça e me sentindo cada vez mais tola por ter fugido daquela forma. Gabriel deve ter ficado com raiva, chateado e com toda razão. Eu não sabia sequer como encará-lo com o quanto estava me sentindo constrangida e foi por isso que disse para minha mãe na manhã seguinte que não estava bem para ir pra aula.
Aquela manhã eu fiquei em casa mesmo que não tenha conseguido voltar a dormir, mas pelo menos tive Natália para me acompanhar. Passamos a manhã inteira assistindo desenho, como quando éramos crianças. Almoçamos juntas com mamãe, o que não fazíamos há muito tempo. E somente à tarde, tirei um cochilo em meu quarto.
Acordei ouvindo o barulho de conversas animadas. Sentei-me na cama um pouco confusa e me forcei a tentar reconhecer as vozes. A primeira que reconheci foi a de Natália, a segunda de Gabriel. Que?
Me levantei ainda sonolenta e segui o som das vozes, até que as encontrei. Natália, Marcos – seu namorado – e Gabriel, sentados na sala, rindo de algo que aparentemente Gabriel havia dito. Natália foi a primeira a me ver, parada, os encarando, tentando entender o que estava acontecendo.
– Bom dia, Bela Adormecida! – disse Natália, fazendo com que todos olhassem para mim. Péssima piadinha para esse momento, me lembrei imediatamente da noite anterior. Babi estava vestida justamente de Bela Adormecida.
– Oi, pessoal! – cumprimentei no plural, enquanto me aproximava, para não ter de falar diretamente com Gabriel. – Você ta sumido, Marcos.
– Faculdade e trabalho não andam me deixando tempo pra muita coisa. – ele explicou sorrindo. – Mas precisamos marcar algo depois, quem sabe nós quatro.
– É, quem sabe... – respondi bastante sem graça.
– Bom... – disse Natália se levantando e puxando Marcos com si, sendo nem um pouco discreta. – Nós vamos pro quarto, porque precisamos... Conversar.
– Claro. – respondi me sentando no mesmo sofá que Gabriel, mas na ponta oposta.
Assim que eles se retiraram a sala ficou em completo silêncio por longos minutos. Juro. Não foram segundos, foram minutos. Dava para ouvir perfeitamente o som do vento invadindo a casa através das janelas abertas e bagunçando as cortinas, assim como o “tic tac” contínuo vindo do relógio pendurado na parede, que há muitos anos eu já não notava mais ali. Parecia até ser capaz de ouvir o batuque dos dedos de Gabriel no braço do sofá, mesmo que o sofá seja de pano.
– Eu juro que queria que ela gostasse de mim. – sussurrei não aguentando mais aquela situação embaraçosa.
– Espera... – disse Gabriel se virando em minha direção e me encarando, ele parecia bastante confuso. – Você não ta com raiva de mim? Ta é se sentindo culpada? Isabelle, eu vim aqui hoje esperando você me xingar de todos os nomes possíveis por ter te colocado naquela situação. Era exatamente o que eu estava esperando calado nesse sofá. Esperando você jogar mil e uma coisas na minha cara, para que eu pudesse me desculpar e você está se sentindo culpada?
– Claro que sim, eu fugi com uma tola, idiota, infantil...
– Quem não fugiria? – questionou Gabriel me fazendo calar. – Minha mãe foi estúpida com você, ela sim foi tola, idiota e infantil. Me tratou como se eu fosse uma criança proibida de estar acompanhado de outra do sexo oposto. Sabe o que eu fiz quando recebi sua mensagem? – ele perguntou e eu apenas neguei com a cabeça, esperando pela resposta. – Arranquei Babi daquela mesa e saí dali deixando ela pra trás sozinha. Nós fomos pro pizza hut e comemos uma pizza gigantesca, do nosso jeito, do jeito que queríamos e do jeito que deveria ser. Tudo que eu queria era que você tivesse atendido o telefone pra estar lá com a gente.
– Eu queria ter estado lá. – garanti sorrindo para ele.
– E que história é essa de pagar a conta? – gritou Gabriel me puxando pelas pernas para perto dele. – Você acha mesmo que eu te levaria pra jantar com a mulher que paga as faturas dos meus cartões de crédito e você pagaria alguma coisa?
– Cartões de crédito. – repeti zombando. – No plural.
– Você nunca vai parar de me zoar?
– Você come em restaurantes com manobristas. – o lembrei de forma acusativa.
– Se quer saber, eu recebo mesada e tenho que me virar com a grana pelo mês inteiro. – se defendeu Gabriel, mas insisti na zoação.
– Você come em restaurantes que é proibido não seguir regras de etiqueta.
– Você costuma comer nesse tipo de restaurante, Isabelle? – disse Gabriel imitando sua mãe na noite anterior e nós gargalhamos.
Lá estávamos nós, bem novamente, sendo apenas nós. Rindo da noite anterior, rindo de qualquer besteira dita, rindo de tudo.
Nós ficamos sentados conversando até anoitecer, quando Gabriel teve de ir embora. Ao contrário da noite anterior, aquela noite eu dormi bem. O pequeno problema foi que acabei pegando no sono cedo demais, enquanto estava deitada assistindo filme. Acabei acordando às 3h da madrugada e simplesmente não consegui dormir mais. Rolei na cama de um lado pro outro na tentativa frustrada de conseguir adormecer e nada.
Me lembrei de um iPod que estava guardado em uma gaveta e que não ouvia há muito tempo, e o peguei. Adoro redescobrir antigas playlists e me lembrar do que eu gostava de ouvir. Aliás, adoro ouvir músicas que não ouvia há muito tempo, é como ter o poder de voltar no tempo por alguns instantes. Em certo momento percebi que estava ouvindo Taylor Swift pensando no Gabriel.
– A que ponto você chegou, Isabelle Nemitz? – perguntei a mim mesma, enquanto ria da situação.
Eu não esperava conhecer um cara e me envolver da forma como me envolvi com Gabriel, quando entrei naquela sala do colégio no inicio do ano. Eu jamais imaginaria isso. E o engraçado é pensar em como as coisas fluíram com tanta facilidade entre nós, como se realmente fosse pra ser. De certa forma, atropelamos todas as regras de como deveria ser um relacionamento e seguimos do nosso próprio jeito. Sem essa de encontros e de forçar a situação. As coisas simplesmente aconteceram.
Foi com esses pensamentos que sem pensar, peguei meu telefone e acabei discando seu número, que só então, percebi ter decorado. Me arrependi no instante em que a ligação chamou pela primeira vez, mas agora não tinha mais volta.
– Alô. – ouvi Gabriel dizer do outro lado da linha, com a voz rouca e sonolenta.
– Te acordei? – perguntei e assim que terminei a frase, bati em minha própria testa. É obvio que acordei, são 3h da madrugada.
– Não, na verdade eu estava pensando em levar o meu cachorro pra passear. Mas aí eu lembrei que não tenho um cachorro e que as pessoas dormem de madrugada! – respondeu Gabriel me zoando.
– Ta, eu entendi que foi uma pergunta estúpida.
– Aconteceu alguma coisa?
“Aconteceu, eu precisava te lembrar que tem atividade de Biologia para entregar amanhã valendo ponto, caso você não tenha se lembrado, porque você não pode perder esses pontos. É isso aí, boa noite!”, talvez se eu respondesse isso seria menos ridículo. Mas já que seria ridículo de qualquer forma, resolvi dizer a verdade.
– Eu estava aqui ouvindo Taylor Swift e... – fui interrompida pela sua risada do outro lado da linha.
– Do que você ta rindo?
– Ouvindo Taylor Swift as 3h48 da madrugada, pensando em mim. Cuidado, isso pode ser sintoma de amor. – zombou Gabriel.
– Você consegue ser muito irritante!
– Ta, vai, continua a contar o motivo absurdo que fez você me acordar a essa hora, e que tem a ver com a Swift.
– Você vai me levar a um encontro. – avisei.
– É impressão minha ou isso não foi um pedido, nem uma sugestão ou qualquer coisa desse tipo? – perguntou Gabriel.
– Você está corretíssimo. Nós nunca tivemos um encontro de fato, simplesmente saímos atropelando as coisas.
– Fala sério, eu já te levei em dois parques, na minha loja preferida, no meu lugar preferido...
– Qual é seu lugar preferido? – indaguei em dúvida.
– Pizza Hut, óbvio.
– Claro. – concordei. – Mas eu ainda quero ter um encontro e eu quero ser surpreendida.
– Você não poderia ter me dito isso amanhã no colégio, talvez?
Não, porque eu queria falar com você agora. Na verdade eu queria te ver agora. E te agarrar agora.
– Eu queria ter 21 anos e um apartamento. – falei me lembrando do final de semana.
– Quando foi que mudamos de assunto? – perguntou Gabriel parecendo confuso. – Não exija muito do meu cérebro a essa hora.
– Porque eu queria muito te agarrar, mas eu ainda moro com minha mãe. – confessei.
– Disse a garota que já me escondeu no quarto e já fugiu escondida. – rebateu Gabriel me fazendo rir. – Quanto a parte de me agarrar, fale mais sobre isso. Talvez você me convença a sair da minha confortável cama...
– Não é possível que você sairia da sua casa as 4h da manhã, para fazer sexo.
– Existe uma lei na minha vida que eu respeito mais que pizza com queijo extra: Jamais recusar um convite de sexo. – disse Gabriel me arrancando uma gargalhada.
– Podemos comer pizza com queijo extra no jantar. – sugeri.
– Podemos fazer sexo depois do jantar.
– Eu ganhei uma lingerie muito sexy. – disse de forma provocativa, resolvendo entrar no seu joguinho.
– Como se eu fosse reparar em qualquer pedaço de pano que esteja, infelizmente, cobrindo seu corpo.
– Engraçado como não tem nenhum pedaço de pano cobrindo meu corpo agora. – menti, ainda jogando. Ouvi sua respiração pesada do outro lado da linha e sorri.
– Isabelle... – repreendeu Gabriel.
– Brincadeirinha. Provocar não é crime.
– Eu vou voltar a dormir que ganho mais do que ser manipulado pelos seus joguinhos. – disse Gabriel.
– Beleza. – respondi.
– Beleza.
Esperei ele desligar o telefone, mas ele não desligou. Sorri. Eu não desligaria, vamos ver por quanto tempo isso dura.
Levantei-me da cama, cansada de ficar rolando de um lado para o outro e caminhei até minha escrivaninha. Peguei meus fones de ouvido e conectei ao celular, para não precisar ficar os segurando, então peguei meus diários guardados dentro da gaveta. Sentei-me sobre a escrivaninha e enquanto os folheava, dentro do mais antigo de todos, encontrei uma folha amassada com uma péssima caligrafia.
No topo da folha estava escrito “Lista de Sonhos por Isabelle Nemitz”, seguido de fato por uma lista. Sorri antes mesmo de começar a ler. Me lembro perfeitamente de quando criei essa lista. Eu tinha apenas doze anos, foi no mesmo ano em que comecei a escrever meus diários. Me lembrava de a ter guardado em algum lugar, mas não sabia onde e nunca encontrei, porque raramente abro meu primeiro diário. Eu tinha apenas doze anos, tudo era muito dramático e hilariante. Acho que eu sempre tive dom para fazer drama.
Comecei a ler a lista e disparei a gargalhar.
Vamos fazer uma pequena pausa aqui para que possa ficar demarcado o quanto de fato eu gargalhei.
Pausa.
Encontrei naquela lista a minha ideia espetacular de ter um papagaio. Eu tenho essa ideia maluca desde que tenho doze anos!
– Eu devia ter desligado o telefone. – disse Gabriel me lembrando que ele ainda estava do outro lado da linha. – Desembucha. Do que você ta rindo?
– Lembra na festa do Bruno que falei sobre fazer uma lista de sonhos? Digamos que eu já tinha tido essa ideia antes, com doze anos de idade, e digamos que eu acabei de achar essa listinha.
– Meu deus do céu. Quais eram as aquisições da Isabelle de doze anos? – perguntou Gabriel.
– O primeiro tópico obviamente é conhecer a Avril Lavigne... – contei lendo o papel.
– Claro!
– Seguido por pintar o cabelo de rosa, o que pra deixar claro, fiz no fim da oitava série. Ir a Disney, o que também fiz no meu aniversário de quinze anos. Ganhar um celular, o que pelo visto na época era algo surreal e não como agora, em que é praticamente uma outra peça de roupa obrigatória ou uma nova parte do corpo humano. Casar com o Zac Efron, porque né, prioridades... E por último... Ta preparado?
– Tem algo pior que pedir pra casar com o astro de High School Musical? – zombou Gabriel.
– Eu ainda casaria com ele, ok? – respondi na defensiva. – Então cala a boca.
– Ok, prossiga...
Fiz uma pausa dramática, que na verdade foi uma tentativa de segurar a risada e então, contei.
– Ter um papagaio.
A gargalhada que Gabriel deu foi tão alta, que ele provavelmente acordou a casa inteira. O que não ajudou muito na minha força de vontade parar rir baixo e não acordar minha mãe. Estava prevendo que ela bateria na minha porta me xingando em questão de minutos.
– Você teve aquela ideia extraordinária com apenas doze anos? – perguntou Gabriel. Com ideia extraordinária, ele estava se referindo ao dia em que acabei confessando sempre ter tido vontade de ensinar um papagaio a falar que havia sido transformado em um papagaio.
– Aparentemente sim.
– Você é sensacional, Isa!
– Sou mesmo, porque consegui realizar mais da metade da lista, olha só! Se ir a um show da Avril Lavigne contar como conhecê-la...
– Sério? Você já foi num show?
– Dia 27 de Julho de 2011, em São Paulo. – contei. – Chorei horrores.
– Pensando no quanto ela é uma merda ao vivo? – rebateu Gabriel.
– Gabriel, você ta querendo levar uns socos na cara?
– Avá, eu duvido que ela conseguiu cantar todas as notas agudas de I’m With You ou When You’re Gone.
– E eu to começando a duvidar da sua sexualidade. – brinquei.
– É só isso que tem na lista mesmo?
Eu encarei o papel meio constrangida, sem saber se contava ou não.
– Esse silêncio já te entregou, Isabelle. – disse Gabriel mostrando o quão assustadoramente bem ele me conhece. – Conta logo.
– Me apaixonar. – contei, após um longo tempo reunindo coragem para isso. – É o ultimo tópico da lista.
Eu esperei pela piadinha que ele iria fazer, me zombando e fazendo graça com a minha cara, se gabando e tudo aquilo que ele sempre faz, mas ele não fez nada disso. Fiquei verdadeiramente surpresa.
– Começa a montar a lista nova e passa os tópicos que você não realizou para ela. – sugeriu Gabriel, aparentemente ignorando a minha resposta e aquele último tópico constrangedor.
– Inclusive casar com o Zac Efron?
– Ok, nem tudo.
– Espera um pouco. – pedi.
Comecei a revirar minhas gavetas atrás de uma pasta guardada, que eu não abria há muito tempo. A encontrei no fundo de uma delas, com uma caixa ao lado. A pasta estava cheia de papeis e envelopes de cartas, que eu usava para trocar correspondências com meus avós paternos. Eles moram em São Paulo e eu adorava escrever para eles, que sempre respondiam. Todas as cartas que me mandavam de volta, eu guardava na caixa depositada dentro daquela mesma gaveta. De repente senti vontade de reler aquelas cartas, mas deixaria isso para outro momento.
Peguei um papel de carta dentro da pasta, a guardei de volta no lugar e me sentei em minha escrivaninha.
– Vamos lá... – disse começando a escrever no topo da folha: “Lista de Sonhos por Isabelle Nemitz”, exatamente como estava na lista anterior. – Qual vai ser o primeiro tópico dessa lista?
– Se casar comigo. – respondeu Gabriel e eu revirei os olhos. Ele não vai levar isso a serio.
– É pra levar isso a serio, ou eu vou desligar a ligação. – ameacei.
– E me deixar dormir? Que triste! – rebateu Gabriel ironicamente.
Assim que ele terminou de falar, desliguei o telefone na cara dele e comecei a escrever o primeiro tópico da lista. Meu celular começou a tocar segundos depois.
– Ir a um show do Coldplay. – disse assim que atendi. Eu só queria zoar com a cara dele, não estava brava.
– Você é muito birrenta!
– Descobrir o significado da vida provavelmente seria o tópico principal... – disse ignorando completamente o que ele havia falado. – Mas isso não vai acontecer, então vamos pensar em coisas mais realistas.
– Isso é mais realista que a volta do Oasis.
– O Noel veio pro Brasil ano passado... – lembrei. – Você não teve vontade de ir?
– Eu não iria a um show dele. – confessou Gabriel.
– Por que não?
– O Noel é o Noel, não é o Oasis.
– Mas ele é seu preferido da banda e toca algumas músicas do Oasis em seus shows.
– Eu não iria. Nem tente entender.
– Ok. – prossegui. – Eu queria colocar mais shows, mas eu poderia facilmente montar uma lista com apenas shows que eu gostaria de ir, então vou deixar só o do Coldplay.
– Faz sentido. – concordou Gabriel. – O segundo tópico tem que ser o papagaio.
– Anotado. – disse de fato anotando esse tópico. Eu poderia até não ter um papagaio algum dia, mas isso virou uma piadinha interna entre mim e Gabriel e eu gosto disso. – O que mais?
– Começa pensando nas coisas que você quer pra esse ano e depois nas coisas de longa data. – aconselhou Gabriel.
– Uma formatura no mínimo memorável. – disse em voz alta, ao mesmo tempo em que anotei na lista.
– Boa!
– Viajar pela primeira vez sem meus pais.
– Melhor ainda!
– Viajar pelo mundo! – disse animada, anotando o quinto tópico. – Quero conhecer pelo menos um lugar de cada país que existe.
– Essa foi genial! – afirmou Gabriel.
– Eu sei. – respondi me gabando. Olhei na direção do pijama do Patrick que eu estava usando e que foi presente do Gabriel. – Ir a um rodízio de hambúrguer de siri no Siri Cascudo. – zombei.
– Isabelle...
– Participar da gravação do High School Musical 4. – continuei.
– Encontrar as esferas do dragão. – disse Gabriel entrando na brincadeira.
– Provar a existência dos deuses olimpianos.
– Recepcionar a chegada do Martin Mcfly no futuro.
Essa foi genial.
– Descobrir o que significa “aserehe ra de re de hebe tu de hebere seibiunouba mahabi an de bugui an de buididipi”. – disse e ouvi o som da risada de Gabriel preencher meus ouvidos.
– Ligar para a Samara e dizer que ela tem sete dias. – prosseguiu Gabriel. Tenho mais medo dessa menina do que do capeta.
– Ser a responsável pela criação do bolsa fã.
– Dominar a galáxia com o Darth Vader.
Essa também foi genial.
– Fazer um curso intensivo de baleiês com a Dori de Procurando Nemo. – falei. O Gabriel sempre dizendo coisas geniais e eu sempre as idiotas.
– Achar o Nemo! – completou Gabriel e rimos juntos.
– Provar que cabia o Jack junto com a Rose em Titanic! – disse eufórica. Eu sou assombrada por isso desde a infância.
– Ir a uma festa na casa do Stifler de American Pie.
– Tomar um café com o elenco de Friends no Central Perk. – disse. – Af, essa eu queria mesmo!
– Eu diria que é mais fácil a gente conseguir realizar toda a zoeira que dissemos do que você conseguir fazer com que fundem o Central Perk e ainda consiga tomar um café com Jennifer Aniston, Courteney Cox, Lisa Kudrow, Matt LeBlanc, Matthew Perry e David Schwimmer.
– Destruidor de sonhos!
– Eu sou realista! – se defendeu Gabriel.
– Então voltando para a realidade... Quero conseguir me formar em Psicologia. – disse voltando a escrever a lista.
– E ter a melhor formatura da história das formaturas, porque nossa formatura do Ensino Médio vai ser fichinha pra formatura da faculdade.
– Falando nisso... Vou anotar: presenciar o dia em que Gabriel Fornazier segurará o diploma da faculdade em mãos. – disse zombando.
– Você pretende continuar na minha vida por tanto tempo assim? – questionou Gabriel. – Porque sabe como é, vai demorar no mínimo uns três anos pra eu conseguir passar no vestibular, depois mais quatro anos de curso e é claro que eu não vou conseguir terminar nesse tempo, aí vou usar os dois anos extras e isso tudo dá um total de nove anos.
– Isso sendo otimistas e ignorando as possibilidades de você jubilar.
– Cara, você é o amor da minha vida! – disse Gabriel rindo, mas não o acompanhei. Encostei minha cabeça na parede atrás de mim e sorri. Percebi que a risada dele foi ficando meio sem graça e parando, até que ficamos completamente em silêncio por longos segundos. Tudo que eu ouvia era sua respiração do outro lado da linha, mas o silêncio foi cortado em seguida por uma pergunta do mesmo. – Posso te pedir uma coisa?
– Sim. – permiti.
– Coloca se apaixonar nessa lista nova.
Minha reação a esse pedido foi basicamente essa: O QUE? QUAL O SEU PROBLEMA, GAROTO? SE VOCÊ NÃO PERCEBE QUE EU TO CEGAMENTE LOUCAMENTE PERDIDAMENTE E ESTUPIDAMENTE APAIXONADA POR VOCÊ, EU POSSO MANDAR UM AVIÃO DE FUMAÇA ESCREVER NO CÉU OU QUEM SABE MANDAR O WILLIAN BONNER ANUNCIAR NO JORNAL NACIONAL. FILHO DA PUTA, DESGRAÇADO.
Mas o que eu disse de verdade foi:
– Por que?
– Só coloca, por favor.
– Você sabe que... – comecei a argumentar, mas Gabriel me interrompeu, não deixando que eu sequer terminasse a frase.
– Quando você estiver namorando e tiver certeza do que sente, aí você risca esse tópico.
– Ta bom. – respondi contrariada, mas de fato anotando esse tópico.
Ouvi Gabriel dar uma risada curta, mas daquelas gostosas de se ouvir.
– Eu quero matar você! – ele afirmou.
– Por que?
– Meu despertador acabou de tocar, Isabelle. Eu passei minha preciosa madrugada de sono, conversando com você! E agora tenho que ir pro colégio com sono!
– Você acorda 6h? – perguntei olhando as horas no relógio digital em cima da minha escrivaninha. Até eu que sou menina acordo mais tarde.
– Sendo mais específico: 6h01. – contou Gabriel. – Aí eu ativo a soneca uma vez, pra poder enrolar na cama um pouco e criar força de vontade pra levantar. O tempo da soneca é de nove minutos, então meu despertador toca de novo 6h10. Eu levanto e demoro cerca de dez minutos pra me arrumar. Então desço e gasto cerca de vinte minutos tomando café da manhã. Depois subo de novo, escovo os dentes e pego meus materiais. Saímos de casa as 6h45, minha mãe deixa Babi na escola e depois eu.
– Ta. Me. Zoando. – disse pausadamente, mostrando minha verdadeira indignação. – Quem diabos consegue ter uma rotina organizada antes das 7h? Você sofre de qual tipo de doença mental?
– O que? Qual é sua rotina? – perguntou Gabriel.
– Meu despertador toca 6h20. Eu enrolo na cama até a força de vontade aparecer. Ela não aparece, então eu me levanto mesmo assim. Enrolo mais um pouco encarando meu guarda-roupa, até eu perceber que as roupas não vão flutuar em minha direção e se vestir em meu corpo magicamente. Aí eu me visto e vou comer. Fico encarando a geladeira e os armários por um longo tempo, tentando decidir o que vou comer e depois sento na mesa. Aí fico um longo tempo encarando o nada, enquanto como. Um longo tempo. Longo mesmo. Escovo os dentes, pego minhas coisas e caminho lentamente até o colégio. Lentamente mesmo.
– Você é sensacional! – afirmou Gabriel enquanto ria. – Sensacional mesmo.
– É melhor eu desligar, antes que desconfigure sua rotina inteira. Sua soneca vai terminar daqui a pouquinho.
– Que tal você seguir minha rotina hoje? – desafiou Gabriel.
– Que tal você seguir minha rotina hoje? – rebati.
– Que tal não fazermos a rotina de ninguém?
E não fizemos. Nós arrumamos e nos encontramos em uma padaria perto do colégio, onde tomamos café da manhã juntos e depois seguimos para a aula. Minhas próximas semanas foram baseadas nisso: em adaptarmos nossas rotinas para que ela se tornasse uma mistura da de nós dois. Eu e Gabriel nos encontrávamos todos os dias no colégio e às vezes ele acabava indo pra minha casa. Quinta ele saia com os amigos, porque minha mãe jamais me deixava sair no meio da semana. Sexta saíamos juntos e sábado eu intercalava entre sair com ele e nossos amigos em comum ou com meus amigos antigos.
Era uma rotina que me fazia bem, de uma forma que nunca me senti na vida. Eu tinha tempo pra nós, mas também tinha tempo pra mim. Consegui me reaproximar dos meus amigos, menos de Arthur, com quem nem sequer conversava mais, mas que pelo menos continuava a fingir não saber de nada sobre mim e Gabriel. Consegui me reaproximar também de minhas melhores amigas, mais de Leticia do que de Amanda, porque essa estava centrada no rolo que estava com o tal Murilo, que ela já havia me falado, e vivia saindo com ele.
A última semana do mês de março e todo o mês de Abril foram extremamente agitados, porque foi o fim do primeiro bimestre. Passamos o mês todo fazendo trabalhos e testes, sem contar a última semana antes das provas finais, em que começam as revisões e praticamente queremos morrer. É sempre a primeira vez no ano em que resolvo entrar no site do colégio e acessar o sistema para ver todo o material disponibilizado pelos professores, para estudar. É a semana em que praticamente vivo pela função de estudar e foi engraçado perceber que meus amigos também, inclusive Gabriel.
Praticamente não nos vimos aquela semana e quando o via, ele estava sempre com a cara enfiada em algum livro. Mas foi quando literalmente nos esbarramos na biblioteca, que comecei a achar a situação perturbadora. Eu estava indo procurar por um livro de Matemática, nos esbarramos no meio de um corredor, ele me deu um super beijo, me deixou paralisada no mesmo lugar e saiu falando:
– A carga elétrica medida em coulomb no SI é igual a quantidade de cargas elementares, que é uma grandeza adimensional e têm sempre valor inteiro, vezes a carga elétrica elementar.
Antes que eu pudesse me recuperar, ele estava voltando para o mesmo lado de onde havia vindo, só que com um livro em mãos. Parou de frente para mim, disse “eu to enlouquecendo” e continuou a andar. Tudo que consegui responder foi:
– Qual o conteúdo de matemática?
– Função polinomial, valor numérico e polinômio nulo, operações com polinômios e equações polinomiais ou algébricas. – respondeu Gabriel desaparecendo.
Nossas provas finais funcionam como no vestibular, nós vamos para o colégio exclusivamente para fazer as provas. Temos um horário mínimo para saída das salas e um horário máximo para término das avaliações. Como temos onze matérias, na segunda tivemos prova de seis delas e depois tivemos a terça de folga para o cérebro ter um descanso e voltar a funcionar, depois tivemos mais cinco provas na quarta e a quinta de descanso. Já a sexta, foi dia do nosso primeiro trote e de finalmente minha vida voltar ao normal.
Naquela sexta, por incrível que pareça, eu acordei incrivelmente de bom humor. Primeiro porque havia passado a pressão das provas finais, depois porque dia de trote é dia de puro amor. O tema do nosso primeiro trote era ir vestidos de criança, o que me levou a uma situação hilariante no dia anterior: ir na farmácia comprar chupeta e mamadeira. Além de procurar por primas que não vejo há uma eternidade, só para pedir algumas coisas emprestadas.
Fui na casa da tia Juliana e tia Marina, atrás de minhas primas Larissa e Laura, com 12 e 13 anos respectivamente. Achei que pudesse pegar com elas alguma roupa emprestada, mas a mais nova além de baixinha, é magrelinha igual eu, o que fez com que nenhuma roupa me servisse. Já a mais velha, tinha até roupas que me serviam, porém, aparentemente hoje em dia, com treze anos não é mais aceitável usar roupa de criança.
Acabei pegando um vestido amarelo da saia rodada emprestado com Larissa, e com Laura, uma mochila de pelúcia dos minions, um minion de pelúcia para segurar, além de meias coloridas que chegavam quase até o joelho. Calcei um all star branco, amarrei a chupeta e mamadeira que havia comprado em cordinhas e pendurei no pescoço, depois fiz duas tranças em meu cabelo. Assim fiquei pronta para ir pro trote.
Aquele dia convenci minha mãe a me levar pro colégio, porque eu jamais andaria na rua daquela forma. Só não foi uma boa ideia, porque durante o caminho todo ela ficou fazendo um discurso parecido com esse:
– Sabe que eu sinto falta de quando você tinha essa idade? Eu adorava te vestir com sainhas e vestidinhos, arrumar seu cabelo. Você adorava sair comigo, visitar seus avós, fazer coisa com a família. Não queria saber só de ficar trancada no quarto, de ir pra festas ou ficar com o namorado. Dava bem menos trabalho, não tinha tanto mal humor, não ficava tão estressada. Dava menos despesa também, menos dor de cabeça, menos preocupação. Você gostava de ir ao parque, nadar, brincar de boneca, assistir desenho...
Eu juro, ela falou literalmente o caminho todo. Alguém conta pra ela que eu já tenho quase dezoito anos, por favor? Nunca pensei que daria graças a deus por ter chegado no colégio, mas foi o que fiz. Quando desci do carro, achei hilário ver a quantidade de pessoas vestidas de criança. Me lembro que nos anos anteriores eu achava divertidíssimo observar as pessoas e ficar comentando. Morria de ansiedade para quando chegasse a minha vez. Agora era eu ali, cumprindo meu ritual de despedida do terceiro ano. E foi assim que acabei tendo um ataque repentino de melancolia.
– A gente vai formar! – disse choramingando assim que entrei na sala. Mas me ignoraram completamente. A cena que se seguiu foi a seguinte:
– Meu deus do céu! – gritou Carol. – Você é um minion!
– Você ta a coisa mais fofa desse mundo! – completou Bárbara.
– Eu sou obcecada por minions. Onde você arrumou essa mochila? – perguntou Layla, uma menina com quem nunca troquei uma única palavra.
– E esse minion de pelúcia? – disse Nicolle.
Eu fui atacada por pessoas com a síndrome do amor por minions. Eu juro que tento entender esse amor todo, mas não consigo. Lembro que em um dia a Terra estava normal, no outro todo mundo amava minions mais que cachorros. Sendo que eu nem sequer assisti “Meu Malvado Favorito” algum dia.
Meu interrogatório só foi interrompido pelo momento em que Bruno entrou na sala vestido mais ou menos como todos os outros garotos: uma camiseta com estampa do Dragon Ball Z, bermuda, tênis e um bonezinho na cabeça. A diferença é que ele estava usando uma fralda por cima da bermuda. Uma fralda de verdade. A sala parou pra olhar pra ele e rir.
– Que porra é essa, Bruno? – perguntou Gabriel parado na porta, ao lado de Gustavo. Eu tive um pequeno ataque de gana nesse momento.
Gabriel estava usando uma camiseta do super man, uma bermuda vermelha e uma capa amarrada no pescoço da mesma cor. A capa estava sensacional, também rendeu muita risada. Já Gustavo estava com uma camiseta do Star Wars e trazia um lightsaber consigo. Essa galera ta até criativa! Achei que ia estar todo mundo apenas com roupas coloridinhas e coisas assim.
– Vocês não viram nada ainda... – disse Bruno desfilando pela classe inteira e foi só enquanto ele fazia isso que percebi que ele estava usando pantufas ao invés de sapatos. – Eu tenho mais surpresas para hoje!
Eu tenho medo.
– Bom dia, crianças! – saudou Marise, a professora de gramática, entrando na sala. Começamos a sentar em nossos devidos lugares. – Hoje é o único dia em que posso de fato chamá-los assim sem ser xingada, né? Aliás, que palhaçada é essa de aula em dia de trote? Quem prestaria atenção em qualquer aula num dia desses? Esses professores se fazem de bobos, é a única explicação. Você trouxe material hoje, Renan? – ela perguntou enquanto ele ainda se direcionava até seu lugar.
– Trouxe. – respondeu Renan.
– É claro que não trouxe! – rebateu Marise fazendo a classe inteira rir. – Quem traria? Eu não traria!
– Então por que você vai dar aula? – perguntou Nicolle, a vice representante da sala.
– Porque eu to recebendo pra isso! – respondeu Marise. – Não, brincadeira.
Nós rimos de novo.
– Ok, meia verdade. – prosseguiu a professora. – De fato somos obrigados a dar aula, querendo ou não. Mas vocês fizeram onze provas essa semana e vão ter um dia pra lá de especial hoje. Ninguém quer saber de conteúdo, vamos fazer mais um dos nossos joguinhos! Pergunte o que é, Bárbara...
– O que é? – perguntou Bárbara.
– Diga um sonho que você tinha na infância, que se perdeu ao longo do tempo. Qualquer um! Vale daqueles mais banais que você sente vergonha só de recordar, até algum que você não consiga entender porque simplesmente o abandonou.
– Ter uma irmã. – contou Bárbara. E assim, deu início a brincadeira.
As respostas variaram de coisas como voar, ser um super-herói, conseguir montar um cubo mágico, conhecer a Disney, conhecer a neve, ser cantor, ator, modelo, astronauta, até cantar com as Spice Girls, ganhar um prêmio Nobel ou ser presidente. Até que chegou a vez do meu grupinho.
– E você, Carol? – perguntou Marise.
– Abrir um restaurante em que todas as comidas tivessem um ingrediente secreto, jamais revelado para ninguém. – disse Carol.
– E qual seria esse ingrediente secreto? – perguntou Marise. – Ou é tão secreto que não podemos saber?
– Não, é coisa boba. – respondeu Carol rindo. – Seria amor. Era o que minha mãe me dizia sempre que eu perguntava o motivo de tudo que ela cozinhava ser muito mais gostoso do que qualquer outra comida: “eu uso amor como ingrediente secreto”.
Eu sorri.
– É uma linda história, Carol! – elogiou Marise. – E você, Gustavo?
– Descobrir a cura do câncer. – contou Gustavo.
– Você sonhava com isso quando ainda era apenas uma criança? – indagou Marise parecendo indignada. Vi Gabriel sorrir ao meu lado, encarando o nada.
– Eu tive um amigo que morreu de câncer. – explicou Gustavo.
– Mas ele sempre teve alma de gênio! – intrometeu Gabriel.
– Eu tenho certeza que sim. – concordou Marise sorrindo para Gustavo e então prosseguiu. – Qual era seu sonho, Isa?
– Construir uma máquina do tempo. – contei. Eu passava noites e noites acordada, refletindo, pensando e imaginando, como a vida seria se eu pudesse voltar no tempo quando quisesse.
– Uma máquina do tempo, é? – disse Marise de forma pensativa. – A típica vontade de concertar os erros do passado?
– Não. – neguei sorrindo. – A típica vontade de reviver o passado.
– É admirável a essência de sua alma, Nemitz. – elogiou Marise sorrindo para mim. – Senhor Gabriel Fornazier?
– Eu queria ir a lua. Ou qualquer lugar do espaço, na verdade. – contou Gabriel.
– Você queria ser astronauta? – perguntou Marise.
– Não, eu só queria ser capaz de olhar pra Terra e perceber o quanto somos verdadeiramente insignificantes comparados a imensidão da galáxia.
– Impressionante! – confessou Marise. Eu concordei. Talvez se fossemos capaz de entender o quão insignificantes somos, déssemos mais valor para o tempo de vida que temos.
– Revele para nós o que se passava por essa mente extraordinária, Bruno. – pediu Marise, já se preparando para a pérola que ele soltaria.
– Ser imortal. – respondeu Bruno falando verdadeiramente sério e nos surpreendendo.
– Imortal? – questionou Marise, incentivando-o a explicar tal sonho.
– Eu gosto tanto de viver, que me negava a acreditar que um dia a vida acaba. Eu simplesmente gostaria de poder viver essa loucura para sempre. – explicou Bruno e eu fiquei impressionada em ver Bruno, o nosso maluco Bruno, refletindo pela primeira vez.
E mais uma vez eu concordei.
Quando todos terminamos de contar nossos sonhos, Marise sentou sobre sua mesa e nos disse algo que eu provavelmente, me recordaria para sempre:
– Hoje, vocês são adolescentes com média de 16 a 18 anos, sentados nessa sala de aula com vestimentas de crianças. Hoje, vocês representam aquilo que eram quando começaram a sonhar. Esse é o primeiro trote da despedida de vocês do que consideram ser o fim da contagem regressiva pro futuro. É como se o futuro começasse logo ali, depois do fim do colégio. E por que os fiz lembrar de todos esses sonhos? Porque assim como todos esses que vocês permitiram se perder em algum momento, muitos outros irão se perder. O futuro não é uma fábrica de realização de sonhos, não é onde tudo acontece. Nós somos os responsáveis pela realização desses sonhos e é o hoje onde eles acontecem. Hoje, quero que pensem em toda a ingenuidade e pureza que possuíam quando eram apenas crianças e se lembrem que nunca é tarde para correr atrás de um sonho. Não deixem que o tempo os levem embora de vocês. Acredite neles com a intensidade que aquela criança que vocês estão representando acreditavam. E não se esqueçam jamais, de que independente de que fase estejam, não importa de quantos ciclos se despeçam e quantos novos comecem, vocês são os grandes responsáveis pelo hoje. E é no hoje que a vida acontece.
Foi inevitável, eu passei o resto da manhã pensando naquilo, durante os três próximos horários até que chegasse finalmente a hora do nosso trote. Em dia de trote, como somos liberados dos dois últimos horários, abrimos mão do primeiro intervalo. Saímos da sala direto para a quadra, que é onde aconteceria tudo. As arquibancadas já estavam cheias de alunos do colégio todo esperando para assistir aos desfiles do terceiro ano e as salas do terceiro já se reuniam nas laterais da quadra. Havia um palco montado ali, destinado para a banda que tocaria após o desfile e mesmo assim, tocava uma música animada nos alto-falantes de todo o colégio.
Desfile? Oi? Deixa eu explicar. Durante os trotes, o colégio contrata equipe de fotografia e filmagem pra registrar tudo – até porque a grana toda que a gente paga de mensalidade tem que ir pra algum lugar. Então ocorre uma espécie de desfile no centro da quadra, por ordem de salas, em que grupos de amigos posam para as fotos e câmeras. É um dia de celebridade na vida dos estudantes. No mesmo dia as fotos são disponibilizadas no site do colégio e as filmagens são usadas para construção do vídeo de formatura.
É divertido, porque são você e seus amigos, pagando mico na frente do colégio todo. Porque todos nos sentimos constrangidos de estarmos desfilando na frente de centenas de pessoas, vestidos de alguma forma ridícula, mesmo que nem seja ridícula, mas somos adolescentes e o mal dessa idade é se importar com o que os outros pensam. E o irônico é que nos sentimos constrangidos mesmo sabendo que cada pessoa daquela arquibancada anseia o dia em que serão eles. Nós sabemos, já estivemos lá.
A primeira sala a desfilar foi o Terceiro A e depois a B. A sala dos meus amigos. Pensei naquilo que havia respondido para Marise no exato momento em que vi Leticia, Amanda, Lorena, Pedro, Alexandre e Vitor entrarem no centro daquela quadra juntos, de braços dados e rindo. Leticia e Amanda pareciam exatamente aquelas garotinhas que conheci há longos anos. Leticia, a personificação da fofura. Amanda, toda vestida de rosa, a cópia perfeita de uma patricinha de algum filme hollywoodiano, de personalidade forte e inquebrável.
Não sei quando exatamente não consegui mais segurar as lágrimas que se acumularam em meus olhos, mas sei que foi ao perceber o medo evidente que sinto de que a despedida desse colégio, seja a despedida da coisa mais preciosa que tenho: a amizade dos meus melhores amigos. Em todos os meus sonhos, eu entraria ali com eles e tiraria fotografias que me lembrariam pelo resto dos meus dias, que eles estiveram comigo em todos os momentos. Tenho medo de que encerrar esse ciclo signifique perdê-los. Medo de que não consiga vencer a luta contra um destino cruel que não mede consequências. Não tenho medo de encarar o futuro, tenho medo de acabar tendo de fazer isso sozinha.
– Chorar no trote me parece clichê demais até pra você. – disse Gabriel no meu ouvido, passando um braço por cima do meu ombro e usando sua outra mão pra secar as lágrimas silenciosas que desciam pelo meu rosto. Sorri com seu comentário e tentei me controlar.
– Desculpa. Eu sei que sou ridícula.
– Não, até que você é bonitinha. – ele brincou, me fazendo sorrir novamente.
– Tenho medo de perdê-las. – confessei em voz alta, olhando para as meninas.
– Medo é coisa para fracos, Isabelle. – disse Gabriel em um tom sério e firme, então eu olhei para ele e ele terminou a frase. – Coisa que você não é.
– E se eu for?
– Eu sei que não é. – afirmou Gabriel.
– Vamos desfilar juntos, né? – perguntou Carol voltando nossa atenção para ela. – Eu, Isa, Gabe, Guga e Brubru.
– Claro que sim! – respondeu Bruno surgindo ao nosso lado deixando todos em um misto de perplexidade e gargalhadas incontroláveis. Ele estava usando apenas a fralda que havia colocado por cima da bermuda mais cedo. Nada mais. Nem bermuda, nem cueca. Apenas a fralda. – Eu disse que ainda tinha mais surpresas pra hoje.
– Você é maluco, Bruno! – afirmei.
– Não, maluco eu seria se chegasse no colégio assim, porque aí a diretora ia barrar a zoeira toda. Mas quero ver ela me impedir agora! Quero ver!
– Ele é inacreditável! – disse Gustavo e eu fui obrigada a concordar. Como não concordar?
A terceira sala a desfilar foi a de Arthur e eu preferi nem perder meu tempo assistindo. Sorte a minha que já tínhamos de ir montando os grupinhos porque nossa sala seria a próxima, então de fato não tive como ver. Além do mais, quando menos esperei, elas fizeram questão de melhorar meu dia.
– Eu fico melhor do lado esquerdo! – gritou Leticia, me abraçando do lado esquerdo e me pegando completamente desprevenida.
– Tudo bem, meu melhor ângulo é... Todos mesmo. – respondeu Amanda me abraçando do lado direito. – Diga xis, querida!
E quando eu olhei para frente, lá estava Vitor com uma câmera fotográfica pronto para tirar uma foto nossa. Uma, duas, três e um zilhão. Amanda nunca se cansa de fotos e fez com que tirássemos com Vitor, Pedro, Alexandre, todo mundo. Até Gabriel e o pessoal ela puxou pra foto. Mas eu não reclamei por nem um segundo, elas estavam ali provando o que eu precisava saber: que elas não me abandonariam.
Elas permaneceram juntas comigo até chegar o meu momento de desfilar. Até chegar o momento em que nos posicionamos lado a lado, eu e todo o pessoal, para sermos constrangidos. Foi nesse momento, que enxerguei Bárbara um pouco atrás de nós.
– Bárbara... – sussurrei impulsivamente e Gustavo ouviu. Em seguida ele gritou seu nome tão alto que provavelmente todas as Bárbara’s do colégio olharam em nossa direção. Ele a chamou e quando ela se aproximou de nós, abraçou seu braço e a colocou entre nós dois. Ela pareceu completamente perdida, nervosa e desesperada.
– Você faz parte do nosso grupinho, ta achando que ia escapar? – disse afim de reconfortá-la. – E é melhor estampar um sorriso nesse rosto, porque vamos arrasar!
– Você é a melhor pessoa que existe no mundo, Isabelle. – afirmou Bárbara sorrindo abertamente para mim.
– Eu também acho. – concordou Gustavo.
– Na verdade eu acho que gosto mais dela do que de mim. – completou Bruno.
– Pelo menos você só acha... – disse Gabriel. – E eu que tenho certeza?
Todos nós rimos, mas meu coração batia acelerado dentro do peito. De repente as palavras de Marise começaram a ecoar dentro de minha cabeça: “Esse é o primeiro trote da despedida de vocês do que consideram ser o fim da contagem regressiva pro futuro”. Minha respiração começou a falhar e eu percebi que estava apavorada. Atravessar aquela quadra seria como caminhar em direção ao futuro. Eu não quero encarar o futuro. Eu não sei como fazer isso.
– Como você sabe? – sussurrei olhando em pânico para Gabriel. Ele me olhou completamente confuso, sem saber ao que eu me referia. – Como sabe que não sou fraca?
Ele sorriu e me respondeu como se fosse óbvio:
– Porque eu sou.
– E o que te torna fraco? – a pergunta praticamente saltou pelos meus lábios.
Chegou a nossa vez.
Gabriel olhou no fundo dos meus olhos e respondeu:
– Você.
Então nós demos o primeiro passo que nos levaria ao fim de um ciclo, que eu me negava ter de acabar, simplesmente porque me negava a ter de encarar o futuro. Meus olhos se encheram de lágrimas, só que dessa vez eu soube. Eu finalmente compreendi o que Marise tentou nos dizer. Eu dei o primeiro passo e agora não tinha mais volta. Mas eu não precisava temer, o futuro não é amanhã, é hoje. E eu já estava o encarando de frente.
Eu atravessei aquela quadra ao lado dos meus amigos e posei para fotografias que com certeza me fariam chorar algum dia, mas meu coração parecia leve, como se me avisasse que esse era o preço pelo tamanho do sorriso que estampava meu rosto naquele momento. E eu estava disposta a pagá-lo.
Fale com o autor