Poltrona 19
38 Sem reparos
Notas iniciais
“Sexta-feira, 10 de Maio. Parcialmente nublado. A temperatura atual é de 16º, a máxima será de 24º. Você aceitou uma reunião à(s) 22:00. Hoje é o aniversário de Gabriel Fornazier, deseje parabéns em sua linha do tempo.”
MAS O QUE? Eu me sentei na cama em um sobressalto e esfreguei meus olhos para ver se eu estava mesmo acordada e havia lido certo o que indicava meu celular. E sim, eu havia. Era o aniversário de dezoito anos do Gabriel. Me levantei tão animada que parecia que era o meu próprio aniversário. Até que enquanto me arrumava euforicamente, bateu o desespero por lembrar que eu não comprei presentes ou sequer escrevi algo para ele.
Comecei a cogitar a hipótese de faltar a aula pra ir no shopping comprar algo e depois fazer uma surpresa pra ele, mas eu estava ansiosa demais para vê-lo e ele entenderia, porque eu não tenho culpa, ele quem nunca quis me contar a data. Aliás, com certeza não é seria essa história de odiar o próprio aniversário, né?
Me arrumei correndo e até vesti uma blusa de frio dele, que o mesmo havia esquecido na minha casa dias atrás, para poder chegar a tempo do primeiro horário no colégio. Minha mãe se assustou ao me ver entrar completamente animada na cozinha para tomar café da manhã.
– Devo perguntar? – indagou mamãe enquanto eu me sentava na mesa e começava a me servir.
– É aniversário do Gabriel.
– Deseje parabéns pra ele por mim! – ela pediu. – Vocês vão sair hoje?
– Não sei, mas qualquer coisa eu te aviso.
Será que ele tinha planos pra hoje? Será que os meninos organizaram alguma surpresa pra ele? Será que ia ter alguma coisa? Percebi que eu estava surtando internamente e nem sabia o motivo. Só era excitante pensar que aquele era o dia do Gabriel.
Minha mãe me deixou no colégio e corri para a sala de aula, para então me decepcionar ao ver que ninguém havia chegado ainda. Me sentei para esperar e pude ouvir várias pessoas da sala comentando a respeito. “Você viu que hoje é o aniversário do Gabriel?”, “18 anos do Fornazier”, “Já desejei parabéns pra ele no facebook”, “Ta valendo me dar de presente pra ele?”, “Boatos de que ele nem vem pra aula, porque não tem paciência pra tanta atenção”, “Boatos de que ele vai dar uma festa só com as garotas bonitas que ele conhece”. Juro que ouvi todas essas coisas, o que me fez rir bastante internamente esperando o início das aulas.
Quando a professora adentrou a sala e começou a aula, achei estranho que ninguém houvesse chegado. Nem sequer Gustavo que provavelmente não faltaria à aula nem correndo risco de morte. Pensei que talvez eles chegariam no segundo horário, mas a única que de fato chegou, foi Carol. Assim que o sinal do intervalo tocou, nos levantamos e comecei um questionário, tentando não parecer tão desesperada:
– Ué, cadê os meninos?
– A gente nunca aparece no aniversário do Gabriel. – respondeu Carol enquanto saíamos da sala e seguíamos rumo ao pátio. – Ele não suporta fazer aniversário e aparecer no colégio é basicamente o mesmo que pedir para o lembrarem que dia é, pelo menos uma vez a cada cinco minutos. As desvantagens de ser popular.
– É serio mesmo esse negócio dele não gostar do aniversário? – perguntei meio incrédula. Costuma ser uma data tão especial.
– Muito sério. – afirmou Carol. – Eu só não sei como os intrometidos que comentam a vida dele há mais de três anos, ainda não perceberam esse ódio. Ou pelo não acreditam ou entendem. Tipo, qual é, é o Gabriel, se ele quisesse faria uma festa pra parar Curitiba. Só que a galera inventa coisa de todo tipo, ano passado cheguei a ouvir que ele fez uma festa secreta só com gente importante e que aparentemente, ninguém do colégio era popular o suficiente para estar nela. Eu fiquei meio: Oi? Que tipo de doença vocês tem? Mas a pior parte foi quando surgiu gente alegando ter estado na tal festa. Nós gargalhamos muito disso.
– Então eu não devo dar parabéns pra ele? – perguntei.
– Ah, não tem problema, sabe? Só não vai fazer diferença pra ele.
– Por que ele simplesmente não tira a data de aniversário do facebook, então?
– Porque como diz ele, é engraçado perceber quanta gente falsa e imbecil existe no mundo. – explicou Carol enquanto nos sentávamos em um banco do pátio.
– Você acha que ele vai estar em casa?
– Provavelmente sim. – respondeu Carol. – O Gustavo e o Bruno foram pra lá ontem à noite. Não fui porque não estou muito bem com o Gustavo e acho que uma noite de meninos talvez animasse mais o Gabriel.
– Entendi.
Aquele dia ao sair do colégio, almocei em um restaurante qualquer que encontrei pelo caminho do lugar onde eu iria para comprar um presente de aniversário para Gabriel. Ele pode até não gostar do aniversário, mas todo mundo gosta de presentes e eu sei que ele gostaria daquele. Eu fui até a loja de discos vinis que ele me levara uma vez e comprei a coleção completa dos discos dos Rolling Stones para ele. Eu conseguia visualizar o sorriso dele quando visse aquilo, o que compensava o valor absurdo que gastei.
Após ter comprado fui para casa, tomei um banho e me arrumei. Já no fim da tarde, fui até a casa dele na intenção de entregar o presente. Confesso, tive que reunir coragem para bater na porta daquela mansão, porque estava apavorada com a possibilidade de algum de seus pais atenderem a porta. Mas quem me atendeu foi uma empregada muito gentil que avisou que ele não estava ali e não fazia ideia de onde ele estava, muito menos quando voltaria. Bufei de raiva.
Sai dali e tentei ligar no seu celular, mas deu desligado. Mandei uma mensagem mandando ele me ligar assim que a visse e resolvi ligar para Gustavo, para saber se ele sabia onde ele estava. Só que ao invés de conseguir uma resposta, o que aconteceu foi o seguinte:
– Ele não ta em casa? Como assim, ele não ta em casa? – Gustavo disparou a perguntar. – Ele jurou que ia ficar em casa e nós só viemos embora por causa disso, porque concordamos que talvez fosse melhor deixá-lo um tempo sozinho. Cacete, vou ver se descubro algo e qualquer coisa te aviso.
Como não me restava nada a fazer, resolvi ir embora, mas não queria ir pra casa e foi quando tive a ideia de ir pra casa de mina avó. Ela ficou feliz em me ver e me encheu de comida, mas eu fiquei feliz de verdade foi por poder sentar no balanço em seu quintal e ficar um pouco sozinha, pensando na vida. O que fiz até mais de oito horas da noite, quando recebi uma mensagem de Gustavo, em que dizia:
‘ “Não encontramos o Gabriel até agora e ninguém tem notícia dele. Não podemos deixá-lo sozinho hoje por nada nessa vida, Isabelle. A ultima vez que ele falou com alguém foi com o Henrique, mandou uma mensagem em que dizia: eu to fodido. Então pelo amor de deus, se souber de algum lugar em que ele possa estar, nos avise, por favor. Já procuramos em todo lugar possível.”
Eu fiquei muito preocupada. Começamos a discutir possíveis lugares em que ele poderia estar, mas todo lugar que eu sugeria, eles já haviam ido. Até que me lembrei da praça na qual ele havia me levado com Babi e Gustavo respondeu:
“Ahn? Que praça? Onde é isso?”
Algo dentro de mim apontou que eu havia descoberto onde ele estava e de repente senti que eu deveria encontrá-lo. Peguei um taxi e fui da casa de minha avó para lá, pensando em como nada na minha vida é normal. Se fosse, nós teríamos comemorado seu aniversário como um casal feliz, ao contrário de ser oito horas da noite e eu nem sequer tê-lo visto. Ao chegar andei por quase todo o lugar e não o achei, até que olhei para a arquibancada onde nos sentamos quando me machuquei ao cair de skate.
O avistei de longe. Sentado sobre o skate, com um cigarro em uma mão e uma garrafa de vodka na outra. Suspirei aliviada por finalmente tê-lo encontrado, mas não gostei nada do estado em que ele estava. Ele não parecia nada bem. Com o rosto praticamente escondido sob o capuz de seu moletom preto, encarando o nada. Me aproximei devagar e a medida que fazia isso, pude finalmente ver seu rosto vermelho, parcialmente iluminado pela luz de um dos postes da rua.
Me esbarrei em uma latinha jogada no chão e o barulho fez com que Gabriel olhasse para mim. Ele pareceu verdadeiramente assustado ao me ver ali.
– Oi. – cumprimentei com receio.
– O que você ta fazendo aqui? – perguntou Gabriel com a voz firme, de um jeito que nunca havia o visto falando antes.
– Ta todo mundo te procurando, Gabriel. Você sumiu e ficamos...
– Vai embora. – ele ordenou me interrompendo. – Eu não quero te ver, não quero você perto de mim, não quero ouvir nada do que você tem pra me dizer. Apenas saia daqui.
– Gabriel, o que ta acontecendo? – indaguei preocupada.
– Vai embora agora.
– Eu não vou embora e te deixar aqui no estado em que você está. – rebati. – Então por que ao invés de bancar o difícil, você simplesmente não me conta o que ta acontecendo e deixa eu te ajudar, já que to há horas preocupada contigo?
– Porque eu não to afim de conversar e muito menos afim de receber sua ajuda. – respondeu Gabriel se levantando extremamente irritado e saindo andando.
– Por que você ta sendo tão estúpido?
– Porque eu não quero você aqui, caralho! – gritou Gabriel parando no lugar e se virando para mim. – Eu não quero falar sobre os meus problemas, muito menos ouvir suas reflexões e filosofias, palavras de otimismo, esperança e aquela merda toda. Eu quero ficar sozinho. Sozinho, entendeu? Será que eu não posso ficar sozinho na merda do pior dia da minha vida?
– Não quando você esta nitidamente fora de si. – respondi.
Ele apenas me ignorou e voltou a andar. Se ele queria bancar o estúpido, então eu entraria no seu joguinho. Comecei a segui-lo e ele só pareceu perceber quando já havíamos saído da praça.
– Por que você ainda ta vindo atrás de mim? – perguntou Gabriel gritando, parecendo indignado com a minha insistência.
– Porque eu disse que não te deixaria sozinho.
– Vou tentar dizer de um jeito que você entenda... – disse Gabriel olhando no fundo dos meus olhos. Seus olhos que estavam vermelhos, fundos, caídos. – Você é chata pra caralho e eu não to afim da sua companhia.
Ele disse isso, sorriu irônico e voltou a andar.
– Não importa o quanto você tente me afastar, Gabriel. Eu não vou desistir de você. – disse alto o suficiente para que ele pudesse ouvir, enquanto o via se afastar.
Gabriel parou onde estava e arremessou sua garrafa de vodka contra o chão com tanta raiva, que ela se reduziu a míseros cacos espalhados em diversas direções. Ele se virou para mim e andou em minha direção com passos largos e pesados. Agora eu conseguia ver raiva transcender em seu olhar.
– Para de me enlouquecer! Para! – ele gritou parando de frente para mim. – Tu quer saber de uma coisa, Isabelle? Se eu pudesse fazer um pedido com certeza seria jamais ter te conhecido.
Senti tanta raiva, mas tanta raiva ao ouvi-lo dizer aquilo, que peguei a mochila que carregava nas costas, trazendo o presente que havia comprado para ele e o peguei. Peguei o embrulho e arremessei em cima dele, ao mesmo tempo em que gritei:
– Sabe o que me deixa feliz? É que pelo menos dessa vez eu sei que não deu certo não foi por minha causa. Foi porque ninguém conseguiria lidar com o erro e estrago que é você.
Dessa vez ele não respondeu, gritou ou fez qualquer coisa. Ele permaneceu apenas quieto e em silencio me encarando. Bastaram alguns segundos para que eu me arrependesse do que havia dito, principalmente ao me lembrar de uma pergunta que Gabriel havia me feito, na noite dos desafios que fizemos, quando tudo fugiu do controle e ele acabou apanhando do próprio pai: “Você já teve a sensação de que é um erro do universo?”.
– Eu não queria ter dito isso... – disse com a voz muito mais baixa do que pretendia, na tentativa falha de voltar atrás.
– É, provavelmente não. – respondeu Gabriel. – Mas só porque você se negava a admitir pra si mesma o que eu sempre soube... Que nós dois concordamos com o lixo que eu sou.
Dito isso ele se agachou, pegou o embrulho que eu havia arremessado nele e atravessou a rua, onde entrou num taxi. Eu juro que pude sentir a dor em cada uma de suas palavras e juro que elas me atingiram em cheio. Comecei a chorar desesperadamente, porque sabia que Gabriel me odiava. Me sentei na calçada e fiquei ali por quase uma hora, simplesmente pensando no quanto agora também me odeio. Eu conseguira estragar seu aniversário ainda mais.
Recebi uma mensagem de Gustavo em que dizia: “Henrique disse que o Gabriel apareceu em casa, mas ele tava muito mal e parece que aconteceram umas coisas, melhor não falar com ele hoje”. Fiquei com tanta raiva de mim ao ler aquilo, que pela milésima vez naquele dia acabei indo atrás de Gabriel. Paguei um taxi e fui parar na porta de sua casa, onde percebi que não fazia ideia de como tentar me desculpar.
Me sentei na calçada do outro lado da rua e encarei a mansão sombria à minha frente. Pensei em ligar para Gabriel, mandar uma mensagem ou qualquer outra coisa, mas eu não tinha coragem. Peguei meu celular e comecei a revirá-lo na expectativa de me distrair, mas erroneamente acabei abrindo o álbum de fotos e a ultima foto, era justamente uma minha e de Gabriel.
A foto havia sido tirada no mesmo dia em que tivemos nosso trote, quando saímos a noite para comemorar o fim do primeiro bimestre e finalmente pudemos curtir um momento juntos, depois de semanas de correria. Fomos para um pub de rock, depois acabamos em uma lanchonete e vagamos pelas ruas até o dia amanhecer, simplesmente porque não queríamos ir embora. Acabamos pegando o primeiro ônibus que circulou no dia e tiramos a foto dentro do mesmo, depois de uma noite incrível juntos. Uma foto espontânea, divertida. Tão nós.
Involuntariamente acabei abrindo o instagram e selecionando a foto, comecei a digitar um pequeno texto e quando percebi, eu havia postado a foto mesmo sabendo a polemica que ela iria gerar e mesmo sabendo o quanto Gabriel ficaria bravo por postá-la. Eu deixei para reler o texto somente depois de já ter postado, apenas para ter certeza de que eu não voltaria atrás:
“Somos rodeados por inúmeras pessoas todos os dias. Familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos. Refletindo, me perguntei quantas dessas pessoas são capazes de nos mudar de alguma forma. Minha irmã mais velha sempre é capaz de mudar meu ponto de vista sobre as coisas. Meus amigos sempre são capazes de me fazer enxergar um lado positivo, onde parece não existir um. Conhecidos são capazes de me fazer aprender com seus erros. Desconhecidos me levam a reflexões que talvez jamais teria, se não parasse alguns segundos para observar alguém tão aleatório. Parece que não importa como ou por quem seja, estamos constantemente sendo modificados por aqueles que cruzam nossos caminhos. Mas quantas dessas pessoas são realmente capazes de mudar por completo sua vida? Penso que uma entre 7 bilhões. E ao pensar nisso, chego a conclusão de como sou absurdamente sortuda por nossos caminhos terem se cruzado, Gabriel. Não sou capaz de explicar como você mudou minha vida por completo e sim, estou ciente de que uma vida é muita coisa, mas você o fez e desde então, tudo parece mais leve. Tudo que eu gostaria era de agradecer por tudo que tem me ensinado. Eu que sempre problematizei o universo e procurei pelos significados complexos e profundos da vida, aprendi com você que minhas respostas se encontravam nas entrelinhas, nos detalhes, nas pequenas coisas e nos pequenos momentos. Você me ensinou que a vida não precisa ser poética, mágica ou deslumbrante, ela precisa ser apenas vivida, com todos os seus pontos altos e baixos. E é isso que você tem me lembrado todos os dias. Obrigada, Gabriel, por ser quem é — e isso inclui todo o seu caos, complicações e enigmas. Obrigada por ter me ensinado a viver. Eu realmente amo você.”
No exato momento em que terminei de ler aquele texto, ouvi o barulho de sirenes de ambulância por perto. Olhei curiosa para os lados e percebi que a ambulância vinha do fim da rua. Enquanto o barulho preenchia meus ouvidos, se tornando cada vez mais alto, pensei em como esse poderia facilmente ser a representação da dor em som. Não há coração que não se aperte ao ouvir tal barulho. É como se ele fosse capaz de nos lembrar o quanto a vida é frágil.
Foi pensando nisso que me levantei, determinada que assim que aquela ambulância passasse por mim, eu atravessaria aquela rua, bateria na porta da casa de Gabriel e só sairia de lá quando o fizesse entender que minha vida só fez realmente sentido, quando ele me mostrou que não há sentido em viver e que essa é justamente a graça de tudo. Precisava dizer para ele algo que nunca havia dito antes, precisava com todo meu coração confessar em voz alta que o amo com tudo que sou.
O único problema foi que aquela ambulância não passou por mim, ela parou exatamente em frente a mim. Minha respiração falhou naquele momento. Pareceu que minha garganta se fechara e não havia mais como respirar. E o ar que sobrara dentro de meus pulmões pareceu ter se transformado em chumbo.
Os paramédicos mal desceram do automóvel e vi a porta de entrada da mansão ser escancarada. A primeira coisa que vi foi uma mulher em prantos e logo atrás dela, um pai e um filho desesperados, carregando juntos, o corpo de Gabriel. Minhas pernas falharam e despenquei de joelhos no chão, ao som dos gritos e choros de uma criança assustada, seguindo todos os adultos que colocavam Gabriel sobre uma maca e o empurrava para dentro da ambulância.
Tentei conseguir forças para gritar, para me levantar e correr até ele, mas não consegui. Eu estava tão fraca que desmaiaria a qualquer instante. Com a visão turva vi o pai de Gabriel entrar na ambulância, a porta da mesma ser fechada e o automóvel arrancar rumo a algum lugar que eu não saberia onde. Logo em seguida, Patrícia pegou a filha no colo e seguiu correndo rumo à garagem. Então, me lembro de escutar a voz de Henrique dizendo meu nome e apaguei.
Acordei me sentindo extremamente fraca. Abri os olhos lentamente e tentei me situar. Estava escuro e às vezes repentinamente luzes batiam em meu rosto. Comecei a observar tudo ao meu redor e percebi que estava em um carro. Olhei para o lado e enxerguei Henrique dirigindo, chorando silenciosamente. Dirigindo em alta velocidade, devíamos estar a quase 100km/h. Me lembrei de tudo que havia acontecido e instantaneamente me senti tonta. Tive que fechar os olhos e me manter quieta para conseguir voltar ao normal.
– Você desmaiou por apenas alguns minutos. – disse Henrique com a voz baixa e trêmula. – Te peguei e te coloquei no meu carro. Estamos indo pro hospital.
– O que aconteceu com ele? – perguntei ainda de olhos fechados, voltando a sentir vontade de chorar. Eu não queria saber de mim, precisava saber de Gabriel.
Henrique não respondeu imediatamente. Permaneceu em silêncio por longos minutos, como se não fosse capaz de dizer em voz alta. Percebi que ele apertava o volante com força e mordia o próprio lábio. Então, ele surtou.
– Suicídio. – gritou Henrique socando o volante repetidas vezes. – O Gabriel cometeu suicídio.
Eu juro. No momento em que meu cérebro processou aquela frase e entendeu o que ela significava. Senti náusea, fraqueza, tontura e apaguei novamente.
Dessa vez acordei no exato momento em que Henrique estacionou o carro em frente a um hospital. Ele desceu do carro e de repente a porta ao meu lado se abriu. Henrique me pegou no colo e me tirou do carro, foi quando percebi que estava extremamente fraca. Estava tudo acontecendo tão rápido, enquanto minha cabeça parecia processar tudo em câmera lenta. Eu estava muito confusa, não estava conseguindo raciocinar direito. Eu não havia recuperado totalmente minha consciência.
Não sei em que momento comecei a chorar, mas enquanto Henrique me carregava em direção a entrada do hospital, percebi que estava chorando. E muito. Ao adentrarmos o lugar, o excesso de luz e a predominância da cor branca me cegaram. Só sei que fui sentada em uma cadeira de rodas, enquanto Henrique dava informações sobre mim para uma enfermeira. Eu fui levada para algum lugar e Henrique desapareceu. Só sabia chorar e chorar. Precisava saber de Gabriel, mas agora não tinha para quem perguntar e tinha medo das respostas.
Me levaram para dentro de uma sala em que tinha um médico e a enfermeira que empurrou minha cadeira até ali, me ajudou a me sentar em uma maca. Eu não conseguia parar de chorar.
– O filho mais velho do Doutor Maurício Fornazier a trouxe. Ela desmaiou duas vezes em um intervalo de quinze minutos. Sobrecarga emocional. É amiga do filho internado. Isabelle Nemitz. – ouvi a enfermeira dizer para o médico. O filho internado. Eles estão falando do Gabriel.
– O que aconteceu com o Gabriel? Onde está o Gabriel? Ele ta internado? – disparei a perguntar.
– Isabelle, eu sou o Doutor Luiz e para atender você, preciso que colabore comigo, ok? – disse o médico olhando para mim. Eu neguei com a cabeça. Não quero colaborar, quero saber do Gabriel. – Primeiramente você precisa se acalmar, ou seremos obrigados a te medicar com algum remédio.
– Eu quero saber do Gabriel. – rebati.
– Eu não tenho informações sobre ele. – respondeu o médico. – Então você precisa se focar, para conseguir se recuperar. Eu vou te fazer algumas perguntas enquanto faço um exame físico, ok?
Neguei novamente com a cabeça. Eu estava totalmente em prantos. Só precisava ver o Gabriel. Nesse exato momento a porta se abriu e enxerguei a mesma enfermeira que havia me levado até ali, com o Gustavo logo atrás de si. Ele estava com o rosto completamente vermelho.
– É o filho do Doutor Humberto, vai ficar de acompanhante dela. – foi o que a enfermeira disse um pouco antes de Gustavo adentrar a sala e vir até mim.
– Você ta bem? – ele perguntou parecendo preocupado e eu apenas neguei com a cabeça intensificando o choro.
– Preciso que ela se acalme para que façamos alguns exames. Nós não podemos medicá-la com um calmante agora e precisamos avaliar o estado dela. – disse o doutor ao Gustavo e vi ele assentir em resposta.
– Posso falar com ela em particular por um minuto? – pediu Gustavo. O médico concordou e nos deixou na sala sozinhos.
Gustavo segurou minhas mãos e pediu para que eu olhasse para ele. Obedeci, mesmo que não conseguisse enxergar direito devido as lágrimas. Então, ele começou a falar.
– Isa, eu sei exatamente como você está se sentindo, mas você precisa se focar em você agora. Ninguém tem notícias do Gabriel, ele chegou no hospital minutos antes de você, não existe possibilidade de sabermos o que está acontecendo. Mas o pai dele é doutor aqui, meu pai é doutor aqui, acredite, se existe algo nesse mundo que possa ser feito, eles vão fazer. Eu sei que você esta desesperada, abalada, assustada, confusa e tudo mais, porque eu também estou. Eu estou tremendo, só penso em chorar, minha vontade é de socar qualquer objeto que apareça em minha frente e eu to com medo. Caralho, eu to com tanto medo! Mas se você não colaborar com o médico, eles não irão te liberar. Deixa ele fazer o que tiver de fazer, nós saímos daqui e rondamos esse hospital atrás de notícias, ok? Porque eu só vou sair daqui quando você sair e eu preciso de notícias!
Ele conseguiu me convencer. Eu colaborei com o médico. Permaneci quieta e fiz tudo que precisava, mesmo que durante todo esse tempo tenha chorado silenciosamente. O médico me encheu de perguntas como “esta é a primeira vez que você desmaiou?”, “quando o desmaio aconteceu?”, “o que você estava fazendo?”, “quais os sintomas que você teve antes de desmaiar?”, “e depois?”, “quando recuperou a consciência, você estava ciente de seu entorno ou estava confusa?”, “sentiu dores no peito ou palpitações cardíacas?”. Foram um zilhão de perguntas enquanto ele verificava meus batimentos cardíacos, as funções do meu pulmão e sistema nervoso. Após um longo tempo, já medicada, fui finalmente liberada.
Gustavo me levou para a sala de espera do hospital, onde encontrei Carol, Bruno e Henrique. Abracei Carol e disparei a chorar pela milésima vez. Eu não sabia o que pensar. Não sabia nem o que tinha acontecido. Só sei que sentia um desespero tão intenso! Eu havia o visto, apagado, sendo levado para dentro daquela maldita ambulância. Eu estava lá.
– O que aconteceu? – perguntei à Carol.
– O Henrique que encontrou ele. Ele tentou suicídio por overdose. Tinham muitas cartelas de remédios ao lado dele. – contou Carol, ela também estava chorando muito.
– Ele ta... – comecei a perguntar, mas tive de lutar para a ultima palavra sair. – Vivo?
– Ninguém sabe! – confessou Carol e ela mesmo começou a ter uma crise de choro. Suas próximas palavras foram completamente difíceis de entender. – Os pais dele não saíram de lá de dentro desde que entraram com ele. O Henrique tentou de tudo já, mas o hospital inteiro foi terminantemente proibido de dar qualquer informação sobre ele. Foi ordem do pai deles.
– Eu vou tentar falar com meu pai. – avisou Gustavo antes de sair dali. Dava para perceber o quanto ele estava desesperado e pelo seu nervosismo, soube que ele não conseguiria ficar quieto sem fazer algo, mesmo que Henrique já tenha tentado tudo.
– Ele tinha surtado... – disse Henrique entre o choro, mais para si mesmo do que para nós. – Então resolvi ficar de olho, até que ouvi um barulho... E eu simplesmente encontrei ele ali, caído inconsciente no chão. Eu não deveria tê-lo deixado sozinho. Não deveria.
Me sentei no banco ao lado de Henrique e chorei tanto. Tanto. De uma forma que nunca chorei em toda minha vida. A dor que eu sentia naquele momento era tão intensa, que parecia que meu peito e meu estômago se queimavam por dentro. Nunca me senti tão assustada, abalada, amedrontada, confusa, perdida, incapacitada. Me lembrava da última coisa que havia dito para ele, com cada vez mais certeza de que eu jamais me perdoaria se não pudesse pedir desculpas.
Esse é o tipo de coisa que nunca esperamos que vá acontecer com a gente. Nunca estamos preparados para perder alguém que amamos. Nunca. Isso estava nítido nos rostos conhecidos e desconhecidos ao meu redor. O som de choros repreendidos rondavam o ambiente e envermelhavam olhos e rostos de pessoas que não saberiam qual seria a resposta que receberiam, quando alguém vestido de branco aparecesse com uma prancheta em mãos, dando informações de um nome qualquer. Apenas um nome e uma vida inteira.
Naquela noite percebi que pior do que ser obrigada a esperar por uma resposta sem saber quando ela viria, era esperar por uma resposta sem saber qual ela seria. E tendo a plena consciência de que essa poderia desestruturar todo o meu mundo e minha vida. Naquela noite compreendi tudo que Gabriel sentia em relação a Alice, porque de repente eu soube, que se ele se fosse, eu não me recuperaria.
– Consegui fazer meu pai me contar. – anunciou Gustavo aparecendo e fazendo com que todos voltassem à atenção para ele. Então ele respirou fundo e nos contou. – O Gabriel ta em coma.
Coma. Fechei os olhos e afundei o rosto em minhas mãos.
– Ele falou o que os médicos estão fazendo com ele? – perguntou Bruno.
– Estão tentando conseguir eliminar toda a substância tóxica do corpo dele, ao mesmo tempo que impedir o desenvolvimento da intoxicação. Mas se não conseguirem fazer isso a tempo...
– Ele morre. – conclui com a voz baixa.
Eu me sentei em um dos bancos daquela sala de espera e me peguei rezando para um Deus no qual nunca acreditei, simplesmente porque precisava me apegar a qualquer esperança. Não sou capaz de explicar como me senti tão vazia, é como se tivessem sugado de mim toda minha vontade de viver. Apenas me encolhi naquele banco, abracei minhas próprias pernas, encostei a cabeça na parede e passei horas sozinha, em silêncio, fitando o nada.
Acredito que pior que o momento em que alguém chora, grita, esperneia e amaldiçoa o mundo bradando xingamentos aos quatro ventos, é o momento em que não lhe resta mais forças ou voz para chorar, gritar, espernear e xingar. É o momento em que tudo que lhe resta é o silêncio, permitindo que o barulho ensurdecedor de uma mente enlouquecida, lhe tire o resto de sanidade que ainda exista dentro de nós.
Na tentativa de me distrair um pouco antes que surtasse, liguei para minha mãe para avisar onde eu estava, o que tinha me esquecido de fazer até então. Não tive coragem de contar para ela o que realmente havia acontecido, menti dizendo que Gabriel toma uns remédios pesados para a saúde e ao passar mal tomou outros, que acabaram resultando em uma overdose. Minha mãe ficou extremamente preocupada e se dispôs a ir ao hospital, mas não deixei que fosse. Por mais que precisasse de um colo naquele momento, percebi que nada me deixaria melhor, que não fosse o Gabriel.
Percebi que alguém se sentou ao meu lado, mas não me preocupei em verificar quem era, nem sequer me movi. Não queria ver ninguém, não queria falar com ninguém.
– Quero te pedir uma coisa. – anunciou a pessoa. Reconheci a voz de Henrique. Não respondi, mas esperei que ele prosseguisse, o que o fez após alguns segundos aparentemente reunindo coragem. – Se ele sair dessa...
– Ele vai. – o interrompi.
– Quando ele sair dessa, você vai sair da vida dele. – pediu Henrique. Antes que pudesse responder qualquer coisa, ele continuou. – Ele chegou em casa consumido por raiva. Quebrou coisas no quarto dele e quando eu abri a porta para perguntar o que diabos havia acontecido dessa vez, ele gritou “eu odeio minha vida, eu odeio a Isabelle e eu odeio todo mundo”. Eu insisti em perguntar o que havia acontecido e ele explicou entre berros que “toda vez que ela tenta me concertar, ela me quebra mais”.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto naquele exato momento e lutei com forças que nem sequer tinha mais, para não desabar.
– O Gabriel é ruim sem você, mas é pior ainda com você. – finalizou Henrique.
– Você ta insinuando que eu sou a culpada disso, Henrique? – perguntei fitando o teto, na tentativa de fazer as lágrimas que se acumulavam nos meus olhos, desaparecerem.
– Não. – respondeu Henrique. – Eu só estou dizendo que você pode estar piorando tudo ao invés de melhorando. Porque no fundo, Isabelle, ele não te odeia como gritou, ele se odeia por não conseguir te odiar e consequentemente, se odeia por não conseguir atender suas expectativas de que ele se concerte.
Não consegui mais me segurar, desabei a chorar novamente, encostando minha testa na parede ao meu lado, na qual estava apoiada, na tentativa de esconder meu rosto.
– Eu gosto de você, mas não gosto de vocês. Por favor, faça isso por ele. – pediu Henrique e então se retirou. Me deixando aos pedaços naquele banco frio, daquele maldito e tenebroso hospital.
Eu definitivamente não sabia o que pensar ou o que fazer. Eu não conseguiria abrir mão de Gabriel, eu não poderia abrir mão de Gabriel. Como eu faria isso se não consigo imaginar o dia de amanhã, caso em algum momento alguém apareça para anunciar que nunca mais o verei? Eu simplesmente não posso. Não posso. Mas também não posso ser egoísta. Se for verdade que eu estou piorando tudo ao invés de melhorar, eu precisarei fazer isso. Eu só preciso descobrir se é verdade.
Senti alguém jogar uma blusa de frio sobre mim e percebi que era Bruno, que sorriu fraco para mim e me deixou sozinha novamente, respeitando o meu momento e respeitando minhas lágrimas que pareciam não se acabar. Demorei para conseguir me controlar novamente, mas consegui e depois de tanto chorar, com meus olhos ardendo, acabei quase pegando no sono. Isso só não aconteceu porque ao começar a cochilar, ouvia o barulho de uma nova pessoa chegando ao hospital e mais novos corações desamparados se reunindo em bancos para se consolarem.
Foram horas e horas assim, sentindo o sofrimento dos meus próprios amigos, sentindo o sofrimento de desconhecidos, sentindo o meu próprio sofrimento. Era tanta dor em um único lugar, que me arrepiava, me enojava. Eu percebi que enlouqueceria a qualquer momento ali dentro. Mas de repente, ouvimos o barulho de alguém andando a passos largos e avistei a mãe de Gabriel correndo na direção de Henrique com um sorriso no rosto.
Um sorriso.
– Ele acordou. – disse Patrícia antes de envolver o filho mais velho em um abraço.
Senti o ar escapar pela minha boca, como se o tivesse prendido dentro dos meus pulmões durante todo aquele tempo. Senti um alívio que não sou capaz de descrever. Senti que durante todo aquele tempo estive segurando o mundo sobre minhas próprias costas e finalmente tivessem me libertado de tal responsabilidade.
– Maurício fez com que os médicos utilizassem todos os métodos possíveis. Usaram carvão ativado pra absorver as substâncias tóxicas e diminuir o contaminamento, fizeram lavagem gástrica, tudo. E então, ele acordou.
– Nós vamos poder vê-lo? – questionou Carol.
– Infelizmente só pela manhã. – respondeu Patrícia. – Ele está em observação e muito fraco, nem sequer consegue se comunicar com alguém, então não adiantaria vocês irem até lá. Mas pela manhã, assim que ele tomar o café da manhã, já conseguimos conversar para que vocês entrem um de cada vez.
Eu não queria esperar até o amanhecer, eu queria vê-lo naquele exato momento. Queria abraçá-lo, senti-lo, saber que ele estava ali, vivo. Mas tive de esperar. Nenhum de nós ousou ir embora, permanecemos pelo resto da noite ali, apenas esperando. E acredite, foram longas horas. Cada minuto parecia durar uma hora. Quando finalmente amanheceu minha mãe me ligou e eu contei para ela que ele estava bem. Me senti extasiada ao dizer aquilo em voz alta.
Quando soubemos que o café da manhã havia começado a ser servido, entramos em estado de euforia, como criança que espera na fila do algodão doce, pelo momento emocionante em que pegará o seu. E quando finalmente fomos liberados, meu coração acelerou e não parou mais. O primeiro a entrar foi Henrique e eu me vi tão ansiosa, que fui dar uma volta do lado de fora do hospital, porque não aguentaria vê-los voltando e entrando até que chegasse minha vez.
Estava um dia nublado, frio e ventando bastante. Aproveitei a brisa para encher meus pulmões de oxigênio, ar limpo, diferente daquele contaminado pelo cheiro de hospital que inspirei durante toda a noite. Permaneci ali fora até que recebi uma mensagem de Gustavo avisando que seria a próxima.
Adentrei o hospital e voltei para onde eles estavam. Ao me ver, Gustavo veio conversar comigo.
– A Carol já deve estar saindo a qualquer momento, então preciso avisar algumas coisas. – disse Gustavo. – Ele ta machucado. Descobri que ele e o pai brigaram antes de tudo acontecer. Brigaram fisicamente. Então não pergunta a respeito desses machucados, por favor.
Eu assenti e dentro de mim, uma raiva súbita começou a crescer. Eu odeio o pai dele com todo meu coração. Se me esbarrasse com ele lá dentro, não sei o que seria capaz de fazer.
– Ele também ta bem lento e emocional. – alertou Gustavo. Nesse exato momento Carol retornou trazendo consigo o crachá que me permitiria vê-lo. – E nenhum de nós avisou que você está aqui, então não sabemos como ele vai reagir. Ele ta constrangido, só tenta amenizar a situação, por favor. Não é o momento pra tentarmos conversar com ele sobre o que de fato aconteceu na noite passada, é apenas o momento de agradecermos por ele estar vivo.
Eu concordei, peguei o crachá e segui pelo caminho que haviam me indicado. A cada passo que eu dava em direção àquele quarto, sentia meu coração se apertar mais e minhas mãos suarem frio. Me lembrei de como havia sido horrível vê-lo sendo carregado desacordado para dentro daquela ambulância, me lembrei de como me senti abalada e confusa após dois desmaios por sobrecarga emocional, me lembrei de como cada minuto sem notícias dele parecia pior que o anterior e me lembrei de como doeu pensar que ele poderia morrer. Me lembrei de como chorei e de como sofri.
Abri a porta do quarto e quando o adentrei, o mundo pareceu ter se dissipado sob meus pés. Gabriel estava deitado sobre uma maca, usando roupas de hospital. Suas mãos estavam enfaixadas, mesmo com a camiseta que usava pude ver a ponta de um curativo que vinha de seu ombro, havia pontos de um corte em sua sobrancelha e seu olho esquerdo estava levemente arroxeado. Quando seus olhos alcançaram os meus, imediatamente comecei a chorar.
Chorei por tudo que havia passado naquelas ultimas horas. Chorei ao ver o estado em que ele estava. Chorei por perceber o estrago que ele havia causado em mim, ao decidir que a morte era a melhor saída Chorei por me lembrar fortemente da sensação que invadiu meu coração quando o vi quase morto aquela noite, ao perceber que ele não teria acabado somente com a própria vida, mas também com a minha.
Me lembrei do que Henrique havia me dito na noite em que me aconselhou pela primeira vez sobre Gabriel, na porta de sua casa: “Vocês dois foram um erro do acaso, duas personalidades que se chocaram e vai causar um estrago imenso tanto para um quanto para outro”. Ele estava certo. Céus, ele estava tão certo! Então chorei, principalmente, por ter olhado para Gabriel e saber que eu precisava de coragem para dizer algo que não queria e não conseguiria dizer, sem ter meu coração destroçado:
– Acabou. – disse me virando de costas para ele, tentando em vão me controlar. Ele não respondeu, então me virei em sua direção e pude ver pela primeira vez, Gabriel Fornazier chorando. Nossos olhos se encontraram e ele apenas assentiu com a cabeça, fechando os olhos em seguida enquanto lágrimas silenciosas deslizavam pelo seu rosto e o virou para a direção oposta a mim.
Doeu perceber que ele não me julgou pelo que fiz, ele assentiu como quem concordava que eu estava fazendo a coisa certa, como quem dava permissão para que eu saísse daquela sala e o deixasse para trás. Doeu perceber que o deixei com a confirmação de que ele é algo quebrado e sem reparos. Doeu porque por mais que eu não quisesse, finalmente percebi, que não seria capaz de concertá-lo. Eu não seria capaz de concertar a coisa mais importante da minha vida.
Acabou.
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