Poltrona 19
3 Primeiro dia de aula do pior ano de nossas vidas
Notas iniciais
Abri os olhos vagarosamente e encarei o teto acima de mim, os raios de sol ainda fracos que atravessavam a vidraça da minha janela indicavam que o dia já havia amanhecido. Peguei meu celular que estava jogado sobre a cama e olhei as horas desejando que ainda fosse umas três horas da madrugada e eu pudesse voltar a dormir. O relógio marcava 6h16, o que significava que dali quatro minutos meu despertador tocaria. Droga. Joguei meu celular sobre qualquer canto da cama e enfiei minha cabeça debaixo do travesseiro. Não quero acordar, não quero levantar, não quero ir para a aula, não quero professores chatos e colegas idiotas, não quero fazer deveres, trabalhos e provas, não quero sofrer por notas, não quero. O despertador tocou. Querer não é poder.
Desativei o despertador e continuei deitada encarando o teto até que ouvi batidas na porta. Com certeza seria minha mãe perguntando por que eu ainda não levantei, então apenas ignorei na esperança de que ela me deixasse em paz, mas após um tempo ela abriu a porta.
— Isabelle, acorda! Você vai se atrasar pra aula.
Quem disse que eu me importo?
— Se você não estiver pronta em quinze minutos irá a pé pra escola. – ela avisou e saiu do quarto fechando a porta. Bufei em resposta e me sentei, mas quando pensei em levantar caÍ de cara no colchão amaldiçoando o mundo. Se existe um indivíduo mais preguiçoso que eu, tenho dó do coitado.
Reuni todas as minhas forças e finalmente saí da cama. Me encaminhei até o guarda-roupa e abri o mesmo aproveitando para me escorar na porta, encarei as roupas procurando por algo pra vestir e só então lembrei que minhas roupas estavam quase todas sujas. Pela segunda vez em questão de minutos amaldiçoei o mundo e não pude deixar de pensar que eu poderia ser alguém mais organizada. Por sorte encontrei uma calça preta e vesti, coloquei também uma camiseta de uniforme do ano passado que era uma das poucas peças limpas. Peguei meu all star branco, que branco mesmo só esteve no dia que o comprei e me sentei na cama para calçá-lo, foi quando ouvi o barulho do carro de minha mãe saindo de casa. Algo me diz que já se passaram quinze minutos e terei um longo caminho a percorrer.
Após calçar meus sapatos segui até o banheiro e escovei os dentes, me encarei no espelho e passei a mão pelo meu cabelo tentando acalmá-lo, meus olhos tinham a maquiagem do dia passado borrada, então apenas retoquei e assim me dei por satisfeita. Fui até meu quarto e peguei minha mochila sobre a escrivaninha, a qual minha mãe havia comprado para mim e colocado ali no dia anterior. Ela havia comprado todos os meus materiais, porque se dependesse da minha animação e disposição para essa volta as aulas nem sequer material eu teria. Agradeci mentalmente pela mochila ser preta e não algo cor de rosa da hello kitty.
Segui até a cozinha e finalmente algo bom me aconteceu, minha mãe havia deixado a mesa do café da manhã preparada. Aproveitei que já não conseguiria chegar a tempo do primeiro horário para me sentar e comer calmamente. Quando terminei de comer, voltei ao meu quarto e vesti um casaco qualquer, coloquei meus fones no ouvido, selecionei Coldplay para tocar e assim saí de casa rumo a um longo e tenebroso primeiro dia de aula do pior ano de nossas vidas. Ops, o melhor.
Assim que saí na rua desejei poder voltar ou simplesmente me sentar na calçada, passar a manhã toda ali cantarolando minhas músicas preferidas aproveitando que o dia havia amanhecido ensolarado mesmo que ainda estivesse bastante frio, mas continuei caminhando até o colégio. Infelizmente preciso terminar esse inferno logo. Observei as pessoas saindo de suas casas para trabalharem e estudarem, todas reféns de suas agitadas rotinas, esperando por dias melhores que nunca virão. Preciso parar de ser tão pessimista, mas acho que não seja possível estar de bom humor às sete horas da manhã, indo para o colégio, sabendo que não serei da mesma sala que meus amigos e chegarei atrasada num lugar em que ninguém me conhece e todos ficarão me observando.
A questão é que no quesito aluna minha nota é zero. Apesar de — quase — sempre ter tido notas boas, sempre tive dom para atrair confusão e me meter em problemas, se brincar passo mais tempo na sala da diretoria do que na própria sala de aula. Ano passado após conseguir levar o número máximo de advertências permitidas e até mesmo ser encaminhada para o psicólogo do colégio, minha mãe teve que implorar para a diretora não me expulsar. Claro que fiquei de castigo por um bom tempo por causa disso, mas o pior é que a diretora só aceitou me manter no colégio com a condição de que no ano seguinte eu fosse para uma sala diferente de todos os meus amigos. O terceiro ano que deveria ser algo memorável na vida de um adolescente, já começou da pior maneira possível para mim.
Ao ver o muro azul marinho do meu colégio chorei internamente, passei pelo portão e me encaminhei até a secretaria que se localiza na entrada. Precisava descobrir em que sala ficaria e descobrir até quando poderia retirar minha carteirinha, buscar meus horários, apostilas e os uniformes novos, coisa que eles pedem para fazermos antes do período de aula começar. Porém, eu jamais sairia da minha casa nas férias para ir até o colégio.
— Bom dia! – desejou a tia da secretaria. – Em que posso ajudar?
— Quero saber em que sala estou e o prazo máximo pra retirada dos meus materiais. – informei.
— Qual seu nome completo?
— Isabelle Duarte Nemitz – respondi, ela então pediu para que eu soletrasse meu sobrenome como sempre acontece e logo em seguida me respondeu.
— Isabelle, você está no 3ºD, sua sala fica no terceiro andar a direita. Tem uma lista com nomes na porta de todas as salas. O prazo máximo para retirada dos materiais é até sexta-feira, na semana seguinte já estaremos cobrando a carteirinha e uniforme para entrada.
— Obrigada! – agradeci.
Passei pelas catracas e adentrei o colégio que estava exatamente o mesmo. Peguei meu celular para verificar as horas e já era 7h44, logo o segundo horário começaria. Havia recebido várias mensagens de meus amigos, mas deixei para responder depois. Me arrastei pelas escadas até o terceiro andar e procurei por minha sala. Quando a encontrei me encostei na parede esperando o professor sair da sala e assim que ele o fez, percebi que estava suando frio.
Eu nem me dei ao trabalho de tentar reconhecer o professor, apenas entrei na sala e procurei um lugar para sentar. Por sorte enxerguei uma carteira vazia no fundo e me encaminhei até lá. Quando sentei constatei que minhas mãos tremiam involuntariamente e várias pessoas olhavam para mim. De repente comecei a me sentir desconfortável com meu cabelo todo bagunçado, meu casaco amarrotado e meu tênis imundo. Nunca fui do tipo de garota que se preocupa demais com a aparência, mas havia me esquecido que primeiro dia de aula é praticamente um desfile de moda e num lugar onde você é considerada a novata o centro das atenções está todo localizado em você.
Comecei a observar atentamente cada aluno que teria de suportar durante um ano inteiro me perguntando qual deles me irritaria mais, cheguei a conclusão de que seria uma garota que não parava de gritar com uma voz de hiena que chegava a ecoar na minha cabeça. Ou talvez um garoto que tentava fazer piadinha sobre tudo apenas para chamar atenção. Mas após alguns minutos de reflexão cheguei a conclusão de que seria a sala inteira.
Poucas pessoas me chamaram a atenção e todas elas estavam sentadas em um grupinho ao meu lado, com três garotos e uma garota. A garota tem cabelos pretos medianos e os olhos da mesma cor, estava sentada de frente ao garoto ao meu lado, que é loiro dos olhos castanhos. Os outros dois garotos estavam sentados ao lado deles na fileira da parede, o da frente é moreno com o cabelo cheio de cachinhos que o deixavam extremamente fofo e atrás dele estava sentado o garoto que mais me chamou atenção. Ele tem os cabelos castanhos claros e os olhos da mesma cor, seu nome é Gabriel. Eu já o conhecia, certa vez em um show ele ficara com minha melhor amiga, Leticia, mas nunca conversamos. Estava usando uma camiseta do Oasis. Foi exatamente isso que me chamou a atenção. Apesar de não conhecer muito bem a banda, sei que as músicas são boas. Pelo menos há gente com bom gosto musical nessa sala.
Olhei para frente e percebi que já havia um professor na sala, o reconheci do ano passado, era o mesmo professor que me deu aula de química. O cara era chato pra caralho e sua matéria mais ainda, me fodi bonito e não é preciso ser um gênio para saber que aconteceria o mesmo esse ano. Justamente porque ao ouvir duas frases saindo da boca dele, já senti minhas pálpebras pesarem, deitei minha cabeça sobre a mesa e dormi.
Acordei confusa tentando me situar no tempo, olhei para frente e estávamos durante a aula de algum professor que não conheço. Ele falava algo sobre a Guerra Fria, logo deduzi que este será meu professor de História. Peguei meu celular para averiguar as horas e vi meu reflexo no visor, mostrando uma testa marcada pelo fato de eu ter deitado a cabeça na mesa. Odeio quando isso acontece.
No celular havia nove chamadas perdidas e várias mensagens, entendi o motivo quando olhei as horas: 10h30. Meu Deus, eu dormi por três horários e ainda perdi o primeiro intervalo! No meu colégio nós temos seis horários por dia, onde são dois horários de aula seguido do primeiro intervalo, mais dois horários de aula e aí o segundo intervalo, até que finalmente somos liberados depois dos dois últimos horários. Assim minha aula começa às 7h e só termina 12h40.
Mandei uma mensagem para meus amigos pedindo que me encontrassem na porta da minha sala e esperei o sinal do segundo intervalo tocar, o que aconteceu alguns minutos depois. Fiquei na porta esperando até que ouvi uma voz gritando:
— Vadia! Por que você não atende a porra do celular? Onde você tava no primeiro intervalo?
Olhei para o lado e avistei uma garota baixinha vindo em minha direção. Leticia estava usando uma camiseta branca normal, calça jeans e all star, com os cabelos pretos presos em um coque bagunçado. Ao seu lado estava Vitor, meu melhor amigo. Vitor é bem alto, não sei ao certo quanto ele mede, mas sei que é mais de 1.80, o que torna muito engraçado ver ele andar ao lado de Leticia.
Cumprimentei os dois enquanto Leticia continuava a reclamar sobre eu não ter atendido o telefone, respondido as mensagens e a ignorado durante toda a manhã.
— Sua testa ta marcada! – observou Vitor interrompendo a série de reclamações.
— Eu sei. Dormi e só acordei agora, por isso não dei sinal de vida.
— Imaginei que teria acontecido algo do tipo. A Leticia queria entrar em todas as salas do terceiro ano até te achar, mas convenci ela a ficar quieta. – contou Vitor. – Gostou da sala nova?
Olhei para algumas das pessoas que ainda saiam de lá de dentro. Eram pessoas diferentes das quais estava habituada a conviver no colégio, mas sabia que era uma questão de tempo até que me acostumasse com todos.
— Chata como qualquer outra... Sobreviverei.
— Não tem mesmo a possibilidade de você voltar pra nossa turma?
— Não. – respondi. – Vamos agradecer por pelo menos ainda estarmos na mesma escola.
— Podemos continuar esse papo no pátio? – intrometeu Leticia. – Quero comer.
— Sim, mas cadê a Amanda?
— Ta na fila da lanchonete com a Lorena, uma novata que fizemos amizade. Você vai gostar dela! – respondeu Leticia enquanto descíamos as escadas rumo ao pátio.
— Primeiro dia de aula e já arrumaram alguém pra me substituir? – perguntei fingindo estar magoada e Leticia entrou no jogo.
— Sabe como é, estávamos apenas esperando a oportunidade perfeita pra te despachar.
Meus amigos são tão amorosos que fico impressionada!
Chegamos na lanchonete e enxerguei Amanda na fila ao lado de uma garota. Amanda é uma de minhas melhores amigas, tem os cabelos castanhos claros quase loiros e olhos esverdeados, ela é tão bonita que é o tipo de garota que faz você se sentir desconfortável em certas situações. A garota ao seu lado que deveria ser a novata de quem falaram tinha a aparência normal, olhos pretos e cabelos da mesma cor, porém na altura dos ombros.
Nos aproximamos delas e assim que Amanda me viu começou a surtar.
— Que saudades de você, criatura! – ela disse me abraçando forte, quase que me sufocando. Seus típicos abraços de urso, como eu mesma nomeei.
— Saudades também!
— Essa aqui é a Lorena. – ela disse sorridente apontando para a novata. Eu sorri de volta.
— Oi Lorena, sou a Isabelle. – a cumprimentei com um beijo no rosto.
— Ah, você é a famosa Isabelle!
— Então falaram sobre mim? – perguntei curiosa. – Devo ficar preocupada? – dessa vez direcionei o olhar para Leticia que apenas mandou um beijo de volta.
— Não, falaram muito bem.
— Acho bom! – disse e ela deu uma breve risada. Até que gostei dela. Por enquanto. – Amanda, compra as coisas pra gente? Te esperamos sentados em alguma mesa.
— Compro sim!
— Quero só um bolo de chocolate. – pedi entregando o dinheiro a ela.
— Ok.
Não prestei atenção no que o resto do pessoal pediu porque avistei o Arthur passando ali perto. O mesmo garoto que me deu um pé na bunda e que está até hoje com a garota por quem me trocou, a qual se chama Bianca. Confesso, é revoltante. Eles já namoraram e voltaram diversas vezes durante esse tempo.
— Boatos de que ela ta pegando o Leandro. – disse Leticia despertando-me de meus pensamentos. Estava olhando na mesma direção que eu.
— O Leandro nosso amigo? – perguntei assustada enquanto caminhávamos rumo a uma mesa vazia e nos sentamos. Só então reparei que Vitor ficou na fila com as meninas.
— Sim. – ela confirmou.
— Mas o Leandro e o Arthur são melhores amigos desde que eu entrei nesse colégio!
— É, mas a Bianca não vale nada. E sabe o que é pior? Que o Arthur continua correndo atrás dela.
— Corno. – balbuciei.
— Muito. – concordou Leticia.
— Ah, você não vai acreditar na sala de quem eu estou! – disse no intuito de mudar de assunto. Não me sinto confortável falando do Arthur. Eu tento a todo custo me manter indiferente quanto a toda nossa história, mas não consigo. E sei que Leticia sabe disso.
— Quem?
— O Gabriel que você pegou no cover do Coldplay.
— Ta me zoando! – ela disse se virando rapidamente para mim com os olhos arregalados. Sabia que essa seria a reação dela. Quando eles se pegaram ela passou a noite inteira falando sobre como aquilo tinha sido o ápice da vida escolar dela, porque ele beija incrivelmente bem, tem uma puta pegada boa e aparentemente é um dos caras mais populares desse lugar.
— Não. E aquele amigo de cachinhos dele é uma gracinha!
— Ah, o Gustavo. É lindinho mesmo, mas é namorado da Carol, uma moreninha que também é do grupinho deles.
— Acho que sei quem é, tinha uma menina conversando com eles durante a aula.
— É aquela de cabelo lisinho. – ela contou apontando para uma mesa próxima a nossa, onde estava o mesmo grupinho da minha sala sentados e mais algumas pessoas que eu não conhecia.
— Quem é o loiro? – questionei. –Ele também é da minha sala.
— Bruno. – respondeu Leticia. Ás vezes penso que sou a única pessoa que não presta muito atenção nas pessoas desse colégio, mesmo que eu sempre esteja prestando atenção em tudo. Quando Leticia e Amanda começam a conversar, eu me sinto completamente perdida. – Tu por acaso reparou no corpo que esse cara tem?
— Você acha mesmo que eu ia secar o cara no primeiro dia de aula?
— Qual o problema?
— Nenhum. – revirei os olhos.
Meus amigos se aproximaram da mesa e sentaram com a gente, Amanda me entregou o bolo de chocolate que eu tanto amo. Comi um pedaço e tive a certeza de que essa é a coisa da qual vou mais sentir falta nesse colégio, o bolo de chocolate que eles vendem. Eu não sei como ele é preparado, mas não é como os outros. Ele está sempre tão macio e delicioso!
— Vitor, você bem que podia ir buscar meus materiais pra mim essa semana, né? – pedi. Estava com preguiça só de imaginar o tamanho que estariam as filas do atendimento ao aluno.
— Não mesmo, você vai lá. Vai trocar a foto da sua carteirinha, porque ninguém merece você usando foto do primeiro ano com mecha rosa no cabelo.
— Era moda, ta?
— Ta na moda virar lésbica, você vai virar? – rebateu Vitor. Tive vontade de rebater com um discurso de que não existe esse negócio de "virar" lésbica, porque você nasce assim, mas sabia que ele estava apenas brincando.
— Cala a boca. – respondi rindo.
Fiquei perdida em meus próprios pensamentos enquanto comia e roubava um pouco do suco que Vitor havia comprado, até que resolvi prestar atenção na conversa das meninas.
— Vou usar uma tinta que minha amiga recomendou. – dizia Amanda.
— Você vai pintar o cabelo? – perguntei à ela me intrometendo.
— To pensando em ficar ruiva, o que acha? Aquela cor de ruivo natural que ta na moda agora.
— Você fica linda de qualquer jeito. – respondi sincera. Ela fica mesmo! Amanda consegue ficar bonita até de moletom, chinelo e o cabelo bagunçado. Agora vai eu ficar nesse estado pra ver o desastre.
O sinal tocou indicando o fim do intervalo e lamentei. Subimos para a sala de aula e quando todos se despediram de mim e seguiram juntos para a mesma sala, não pude deixar de me sentir mal. Eu realmente queria passar esse último ano com eles.
Me sentei em meu lugar e coloquei os fones de ouvido, assim passei os dois últimos horários, ignorando a presença de qualquer outro ser vivo que estivesse naquele ambiente. Quando a aula acabou fui uma das primeiras a sair da sala, simplesmente porque nem tinha me dado ao trabalho de abrir a mochila naquele dia. Fui embora a pé para casa e fiquei feliz ao chegar na mesma e ver Elisa – a empregada – almoçando, me sentei para comer junto à ela.
— Como foi o primeiro dia de aula? – indagou Elisa.
— Chato, entediante, insuportável. – respondi fazendo um leve drama.
— Para com isso, menina. Ano que vem quando estiver na faculdade vai ficar reclamando de saudade e te lembrarei de tudo que disse.
— Você acha mesmo que eu vou pra faculdade?
— Ah, dona Isabelle, você vai sim! – minha mãe respondeu em um tom sério aparecendo de súbito.
— A filha exemplar é a Nath, não eu.
— Seu pai ligou atrás de você, depois ligue para ele. – ela mudou de assunto enquanto pegava sua bolsa e chave do carro. – Estou atrasadíssima, até mais tarde.
Ela com certeza estava muito atrasada porque nunca a vejo em casa no horário do almoço. Quando chego do colégio ela já foi pro trabalho. Terminei de almoçar com Elisa e contar sobre minha manhã que de interessante não teve nada e depois fui para meu quarto, onde deitei na cama e apaguei.
Quando acordei Elisa já tinha ido embora e minha mãe já havia chegado, estava deitada no sofá lendo um livro qualquer que ao me aproximar vi que se chamava "Dezesseis luas". Não sei você, mas eu acho isso uma das coisas mais estranhas do mundo. Minha mãe com mais de trinta anos nas costas lendo livro de adolescente.
Fui na cozinha e busquei algo para comer, depois voltei para meu quarto onde passei o resto do dia assistindo minhas séries preferidas. Antes de dormir apenas tomei banho e fiz o que faço desde meus doze anos de idade: escrever em um diário.
Sei que parece idiota alguém com dezessete anos ter um diário e escrever nele todas as noites, mas me considero uma pessoa muito nostálgica e um dos meus passatempos preferidos é pegar os velhos diários para ler. Acredite, ao ler relembro coisas que já tinha me esquecido e dou muita risada. É como se por um breve momento pudesse reviver tudo aquilo do que morro de saudades. Assim como sei que no futuro, também sentirei falta dos dias de hoje.
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