Poltrona 19

36 Mundos diferentes


Notas iniciais
OI GENTE! EU NÃO ACREDITO QUE CONSEGUI POSTAR NA DATA CERTA! ESTOU TÃO ORGULHOSA DE MIM MESMA! Sim, é a data certa. São 2h da madrugada, mas eu ainda não dormi. Então é a data certa! Eu juro que ia postar bem mais cedo, MAS ACONTECEU AQUELA PORRA DE HISTÓRIA DO VESTIDO AZUL E PRETO/BRANCO E DOURADO E EU LITERALMENTE SURTEI!!!!!! COMO DIABOS PODE SER POSSIVEL CADA SER HUMANO QUE POVOA ESSE PLANETA OLHAR PRA MESMA IMAGEM E ENXERGAR COISAS DIFERENTES? GENTE DO CÉU, EU FIQUEI SURTADA POR HORAS POR CAUSA DISSO! HOOOOOORAS! Mas me recompus. Pra quem não sabe do que eu to falando: http://oglobo.globo.com/blogs/nasredes/posts/2015/02/26/qual-a-cor-deste-vestido-561864.asp?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo Aliás, EU ENXERGUEI AZUL E PRETO! Mas voltando... Vocês não me dão tempo nem pra me recuperar, ein? EM UMA SEMANA RECEBI MAIS TRÊS LINDAS RECOMENDAÇÕES! E olhem que fofo: Poltrona 19 chegou ao total de 19 recomendações! Muito, muito, muito fofo! As responsáveis por isso foram as maravilhosas: Escritora de araque, para quem devo dar boas-vindas e dizer que não poderia ter chegado de uma forma melhor. Aliás, espero que tenha dado tudo certo no serviço! Hahahaha; a Memories, que através de uma recomendação direta, conseguiu mostrar de fato uma síntese de tudo que tento passar com a história/ e a A Rocket, que já é leitora antiga e uma fofa que sempre compartilha comigo suas reflexões, o que ela fez na recomendação, que já é a segunda! Obrigada de coração as três por cada palavrinha! Boa leitura!

Já era noite quando chegamos na porta da minha casa e mesmo assim, eu não queria entrar e Gabriel não queria ir embora. Sentamos na calçada, encostados ao muro e aconcheguei minha cabeça em seu ombro.

– Eu gostei da Babi. – contei.

– Ela também gostou muito de você. – disse Gabriel. – Foi o caminho inteiro para casa aquele dia, falando sobre como deveríamos te convidar para sair mais vezes e que com certeza, te quer na festinha de aniversário dela.

– Partiu contrabando de docinhos. – respondi e Gabriel riu.

– É engraçado...

– O que?

– Posso ser sincero sem que você fique chateada? – perguntou Gabriel e se ele precisou perguntar, eu soube que não viria coisa boa, mas minha curiosidade foi maior.

– Pode. – permiti.

– Eu não queria que você conhecesse minha família e agora o destino já fez com que você conheça meu irmão, minha irmã e até mesmo meu pai.

– Tecnicamente também conheço sua mãe. Já vi ela te buscando no colégio.

– Ta vendo, a família inteira! – disse Gabriel frustrado, jogando os braços para o alto.

– Não acredito que tenha sido o destino, foi apenas, por acaso.

O acaso anda brincando bastante com nós dois.

– Seu castigo acabou esse final de semana? – ele perguntou mudando completamente de assunto.

– Finalmente.

– Então será que, por acaso, você gostaria de me acompanhar ao teatro quarta? – convidou Gabriel.

Meu cérebro demorou um pouco para assimilar a informação e eu me afastei de Gabriel involuntariamente para encará-lo. Ele deu um sorriso de canto de boca com minha reação. Gabriel estava me convidando para ir ao teatro. Não é como me convidar para ir a uma festa aleatória ou qualquer outra coisa, é ir ao teatro. As pessoas nem sequer ainda possuem o hábito de ir ao teatro.

– Você quer me levar ao teatro? – perguntei na intenção de ter certeza que eu havia ouvido certo.

– A Babi tem apresentação de balé. – explicou Gabriel. – Eu duvido que meus pais vão aparecer e é importante pra ela, então também é importante pra mim. Acho que ela gostaria de te ver por lá.

– Eu adoraria! – aceitei.

Encostei a cabeça de volta em seu ombro, com um sorriso enorme tomando conta de meus lábios. Naquele fim de semana não fui a nenhuma festa insana que tenha me feito enlouquecer e cometer loucuras, mas ele havia me surpreendido de maneiras que o tornou um dos melhores – se não o melhor – que tive esse ano. Gabriel fez isso acontecer.

O céu estava bem limpo aquela noite, mostrando boa parte das estrelas.

– Posso falar sobre mais filosofias relacionadas ao céu? – pedi.

– Meus filhos provavelmente te odiarão... – disse Gabriel me deixando completamente confusa, sem entender qual a relação de seu comentário com o meu pedido.

– Por que?

– Um dia te estudarão nas aulas de Filosofia, Nemitz. – explicou Gabriel me fazendo gargalhar. – E eu serei citado como aquele que ouviu todas as insanidades que rondavam sua mente, então prossiga.

– Mas não é mais uma de minhas reflexões, é apenas um comentário. Eu olhei para o céu agora e me lembrei de uma famosa citação do Mario Quintana: “A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão”. Não é bonito?

– É complexo demais pra eu entender.

– Não... É complexo demais, assim como você. – corrigi.

Gabriel não respondeu, mas o olhando de canto de olho, pude ver que estava sorrindo.

– Acho que tenho vocação para amar coisas complexas. – confessei.

***

– Eu preciso de ajuda! – gritei sem sequer olhar para Natália, enquanto surtava e jogava praticamente todas as minhas roupas em cima da cama. Ela havia sido convocada para estar ali e me ajudar no que eu disse por telefone, ser uma “super ultra hiper mega emergência”. – Eu vou ao teatro com o Gabriel, ver a apresentação de balé da irmã dele.

Ela não respondeu, apenas ouvi risadas... De mais de uma pessoa. Olhei para o lado e avistei Natália e mamãe me observando com expressões divertidas. Droga! Droga! Droga! Não queria que minha mãe soubesse!

– Se ousarem a fazer piadinhas ou qualquer coisa do tipo, eu vou ficar muito brava. – avisei. – Eu só preciso de ajuda pra me arrumar porque não faço ideia de como me vestir em uma situação assim.

– Eu não ia fazer piadinhas, só ia perguntar quando você vai parar de negar que ele é seu namoradinho. – disse mamãe se encaminhando até minha cama e começando a guardar tudo que eu havia jogado sobre ela, de volta no guarda-roupa. – E para de amarrotar suas roupas, porque não é você que passa!

– Quando ele virar meu namoradinho, quem sabe. – respondi sarcasticamente, me jogando sobre a cama, sem paciência nenhuma.

– Não tem como, você puxou mesmo nosso pai. – disse Natália e eu olhei confusa para ela. – Faz drama por tudo! É só uma ida ao teatro! Você coloca um vestidinho, um casaquinho, uma sapatilha bonitinha...

– E eu faço um coque em você. – completou mamãe.

– Aí tiramos essa maquiagem pesada, passamos algo leve e fim. – finalizou Natália.

– Mas que vestidinho? Que casaquinho? Que sapatilha bonitinha? E por que tudo tem que estar no diminutivo? – disparei a perguntar. As duas riram novamente e me ignoraram.

– Como vai ser esse evento? – perguntou Natália.

– Pelo que Gabriel falou, vai ser organizado pela companhia de balé da Babi. Vai ter as apresentações e um coquetel depois, algo bem fino.

Assim que expliquei as duas começaram a revirar meu guarda-roupa e de repente minha mãe tirou um vestido de dentro dele, do qual eu nem sequer me recordava, porque a ultima vez que o havia usado fora anos atrás. Todo branco com um forro transparente por cima, uma faixa preta com um laço demarcando a cintura e a gola com pedrarias que minha própria avó havia bordado.

– Que tal esse? – sugeriu mamãe me entregando o vestido. Concordei, porque era a melhor opção que eu tinha.

– E vai com essa sapatilha... – anunciou Natália me entregando uma sapatilha preta de veludo.

No final das contas eu fiquei satisfeita com o que vi no espelho, porque não sei diabos quem era aquela dondoquinha no reflexo, mas definitivamente não era eu. E se não era eu, significava que eu estava decente para a ocasião. Foi engraçado me ver dentro de uma roupa delicada, com uma maquiagem mais delicada ainda e um penteado nos cabelos. Eu nunca prendo meus cabelos, mas permiti que minha mãe fizesse um coque frouxo com um monte de coisinhas brilhantes que prenderam ele. Ainda bem que não consigo me enxergar de trás, porque provavelmente teria surtado ao ver.

– Você ta parecendo uma princesa. – elogiou Natália enquanto eu pegava todas as minhas coisas e enfiava dentro de uma pequena bolsa preta que levaria comigo.

– Não me faça desistir de sair de casa. – pedi fazendo com que ela risse. Eu odeio passar por esses processos de embonecamento e depois ser elogiada. Me sinto extremamente constrangida. Não gosto que as pessoas percebam que me arrumei propositalmente. Não gosto que percebam que quis parecer bonita. Eu sou muito complexada.

Combinei de encontrar Gabriel em frente ao teatro e foi minha mãe quem me levou. Quando ela estacionou o carro em frente ao lugar, procurei por ele com os olhos. Havia uma pequena aglomeração de pessoas ali na porta, muito bem vestidas por sinal, mas não foi difícil de encontrá-lo. Na verdade pareceu que meus olhos foram atraídos imediatamente em sua direção e depois disso, se negaram a olhar para qualquer outra coisa.

Gabriel estava usando uma camisa social branca com uma gravata preta, uma calça também preta e mesmo que a roupa pedisse por um sapato social, estava usando apenas um vans. Sorri com isso e em como não haveria forma de ele ficar mais bonito. Ele estava tão estupidamente maravilhoso, que senti um frio na barriga ao descer do carro e caminhar em sua direção.

Enquanto me aproximava de Gabriel, quando ele finalmente me avistou, não se preocupou em esconder que me mediu de cima a baixo, me observando minimamente dos pés à cabeça. Seu olhar encontrou o meu e sorrimos ao mesmo tempo.

– Oi. – cumprimentei bastante constrangida.

– Uau! – exclamou Gabriel e começou a olhar para os lados como se estivesse procurando por alguém. – Moça, por mais que você seja muito gata, eu preciso avisar que estou acompanhado e digamos que minha garota perde a cabeça as vezes. Eu já vi ela deixar uma menina inconsciente bem na minha frente. É melhor você não tentar me seduzir ou algo do tipo.

Eu dei uma breve risada e tudo que consegui dizer no instante seguinte foi:

– Sua garota, é?

– Você está linda! – elogiou Gabriel e eu sorri abertamente. Não apenas pelo elogio, que teve sim influência, mas simplesmente por nesse tempo em que estamos juntos, ter conseguido aprender algumas pequenas coisas sobre ele.

– É isso que você sempre faz quando consente com algo que eu digo, mas que não pode ou não deve. – disse o encarando, na intenção de ver qual seria sua reação.

Ele arqueou as sobrancelhas e sorriu.

– Pode dizer, eu também estou lindo, eu sei! – disse Gabriel fugindo completamente do assunto. Nem me dei ao trabalho de insistir nisso, eu sabia que estava certa.

– Nunca te vi tão lindo em toda minha vida. – elogiei entrando em seu jogo, mas eu estava sendo sincera.

Gabriel ergueu o braço para que eu entrelaçasse o meu ao dele e assim o fiz. Então começamos a caminhar sentido à entrada do teatro, até que ouvi sua resposta ao meu elogio, sussurrada em meu ouvido:

– Viu sim, sem roupa.

Dessa vez eu ri de verdade.

Eu descobri na hora de entrar no teatro, quando tivemos que entregar nossos ingressos, que Gabriel havia comprado o meu. Nos sentamos em duas poltronas bem no centro e na primeira fileira. Folheei o panfleto e descobri que a apresentação se tratava de uma reprodução dos contos de fadas da Disney.

– Ela vai apresentar o conto da Bela Adormecida. – contou Gabriel. – Passou os últimos meses falando disso sem parar.

– Preciso preparar o meu coração pra tanta fofura. – confessei.

– A escola vai filmar toda a apresentação e vender cópias para os pais das crianças. Eu não somente já paguei pela cópia, como paguei um cara para ficar responsável por fotografar e filmar ela especialmente.

– Isso é muito fofo da sua parte. – elogiei.

– Ultimamente tem sido difícil... – admitiu Gabriel, encarando o palco em sua frente. – Ela ta passando pelo que a psicóloga disse ser “a crise dos nove anos”. É um período de expansão da mente da criança, quando ela começa a de fato entender e compreender o mundo ao seu redor. Isso altera tudo, sabe? A mente, o comportamento, tudo. E eu fico assustado, porque não sei o que fazer. Tenho medo de fazer a coisa errada.

– Gabriel, você age como se fosse o pai dela, isso vai te enlouquecer.

– Mas eu tenho que ser assim! – rebateu Gabriel, me olhando nos olhos e eu pude ver como os seus, transcendiam desespero. – Meu pai não liga pra gente! Não liga pra ela! Eu sou o que ela tem de mais próximo de uma figura adulta e responsável.

– Mas e a sua mãe?

– Elas se dão muito bem, mas eu coloquei a Babi debaixo das minhas próprias asas quando a Alice morreu e ela se apegou demais a mim. Ela me respeita muito mais que respeita minha mãe. Ela me idolatra e me trata como se eu fosse a pessoa mais importante da vida dela, e eu sou, eu sei que sou. Todo mundo percebe, sabe? Minha mãe percebe. E aí, eu percebo, que ela deixou pra mim a função de educar ela.

Eu segurei sua mão na tentativa de o tranquilizar e ele suspirou fundo, antes de prosseguir com seu desabafo.

– A psicóloga disse que essa é uma época em que a criança se sente muito dependente da família e dos amigos. Necessita de atenção, quer ser o centro das atenções e acaba dramatizando tudo. Ela fica mais sensível. Isso porque seu senso crítico fica mais acentuado, ela questiona tudo e quer uma resposta e justificativa pra tudo, começa a ter consciência de que precisa crescer e não sabe lidar com isso, porque se sente pressionada a se superar, a fazer as coisas corretas, mesmo que comece a querer fazê-las do seu próprio jeito. É a fase em que tudo parece intenso demais. Isso vai sobrecarregando tanto o emocional da criança, que ela não sabe como lidar com suas próprias emoções, por isso precisa de ajuda pra entendê-las e controlá-las. É o momento em que ela começa a afirmar sua personalidade e individualidade. É tanta coisa!

– Gabriel, você não pode se cobrar demais. Você ta se saindo muito bem, eu garanto.

– Eu sei, mas não é exatamente isso que ta me deixando tão desesperado. – confessou Gabriel.

– O que é?

– A consciência, misturada à carência e as perguntas. – respondeu Gabriel. Eu não entendi, mas nem precisei questionar, ele prosseguiu explicando. – É uma fase em que a criança tem medo da morte. Que a vovó se vá, a mamãe se vá, o Gabriel se vá... Igual a Alice se foi. Entende, agora? Ela estava passando por uma época em que o mundo imaginário parecia muito mais real, mas agora, ela começou a ter consciência do que realmente significa a Alice ter morrido. Ela questiona isso o tempo todo. Tudo parecia eterno e de repente, ela percebe que não é, sabe? Dia desses, ela perdeu uma boneca e a noite quando se lembrou, começou a chorar por todos os brinquedos que já havia perdido. Ela está perdendo a infância e isso por si só, já dói bastante, mas ela já perdeu muito mais. E se nessa fase, toda criança se sente aterrorizada pela morte, imagina alguém que viveu na pele a experiência. Ela se sente sozinha, carente e acima de tudo, às vezes tem crises achando que eu vou embora igual a Alice se foi.

Naquele momento, quando olhei para Gabriel, tive certeza que não sei nem da metade dos problemas que rondam sua mente. Eu sempre acho que já descobri o suficiente pra entender o quanto ele se diz ser perturbado, mas é como se sempre houvesse mais a se descobrir. E eu juro, que não sei como ele consegue lidar com isso, mas ele consegue. Ele só não percebe isso.

– Sabe o que eu já percebi? – perguntei chamando sua atenção. – Que você acha que não consegue lidar com tudo, mas você lida. Sua vida me enlouquece, sem que eu a viva. São tantos problemas e tanta coisa, que eu consigo entender o quanto deve ser difícil e o quanto deve doer, mas eu não sou você e definitivamente não irei sentir o que você sente. O que você sente é só seu. É assim com ela, Gabriel. Por mais que ela se machuque e você cuide de cada um dos seus machucados, você não pode sentir a mesma dor. Mas ela saberá que você estará lá. Ela já consegue perceber que você não é o homem mais forte do mundo e que se você tem medo do mundo lá fora, ela provavelmente também deve ter. Mas ela também percebe que se você encara o mundo, ela pode enfrentar. E ela percebe que você faz isso por ela, porque você faz, e é por isso que eu te digo que você ta fazendo a coisa certa. Você pode não saber como lidar com tudo, mas você lida, por ela. E eu não sei como isso poderia ser mais certo.

Ele sorriu em forma de agradecimento, mas foi um sorriso triste e melancólico. Pensei em dizer qualquer outra coisa que pudesse o reconfortar mais, mas naquele instante deram início as apresentações. Apenas segurei sua mão com mais força e dei um beijo em seu ombro, o qual ele retribuiu em minha testa.

As apresentações foram lindas e uma mais fofa que a outra, mas obviamente, eu morri de amores pela apresentação de Babi. Todas as garotas estavam vestidas de rosa como a Bela Adormecida e dançaram lindamente, mas Babi foi a Bela principal. Na apresentação, ela se deitava no chão e esperava pelo príncipe encantado, que por acaso foi um garotinho super fofo, que apareceu e a deu um beijo na testa para que ela despertasse. Eu tive um ataque de gana.

Gabriel parecia muito orgulhoso a vendo dançar e literalmente foi o que mais fez barulho ao fim da apresentação. Mas fofo de verdade, foi ver a felicidade nos olhos de Babi quando ela olhou para a primeira fileira em frente ao palco e viu seu irmão assistindo tudo com um sorriso bobo nos lábios. Ela pareceu se sentir motivada a dar o seu melhor e foi exatamente o que fez. Ela tem apenas nove anos, mas ficou nítido seu talento.

– Ela era a mais linda e talentosa de todas as apresentações. – afirmou Gabriel se referindo a Babi, enquanto saíamos da sala e seguíamos em direção ao coquetel que aconteceria em seguida.

– Devo concordar.

– Sabe o que está me deixando curioso? – questionou Gabriel retoricamente. – Como será esse coquetel, se em coquetéis geralmente são servidas bebidas alcoólicas e estamos em um evento de crianças?

– Vamos descobrir!

E descobrimos. Obviamente estava sendo servido apenas bebidas não alcoólicas, como coquetéis de frutas, sucos, refrigerantes e água mineral com ou sem gás. De comida tinham frutas secas, pequenos sanduíches, empadas, pastéis, croquetes, quiches, queijos, azeitonas, torradas com patês etc. Bastante coisa, certo? Não na opinião de Gabriel.

– Eles acham mesmo que um sanduíche que consigo segurar com o dedão e o dedo indicador, mataria minha fome? – reclamou Gabriel comendo um dos sanduíches servidos.

– A intenção não é matar sua fome, é propor uma confraternização. – rebati. – E nada mataria sua fome.

– Quem sabe um sanduíche com hambúrguer, ovo, bacon, salsinha, presunto, mussarela...

– Ou quem sabe dois, três, quatro desses.

Gabriel gargalhou, mas repentinamente sua gargalhada foi cortada ao meio e ele ficou completamente sério. Até sua postura ficou rígida e lentamente ele se afastou um pouco de mim, retirando o braço que estava posto em cima de meu ombro. Ele estava olhando fixamente para algum lugar e me virei no intuito de seguir seu olhar, até que encontrei o foco. Uma mulher que fui capaz de reconhecer. A mãe de Gabriel.

– Vamos pegar um copo d’água? – pediu Gabriel nesse exato momento e foi como somar 1 + 1 para entender que ele não queria que sua mãe nos visse juntos ali.

– Você não quer que ela me veja, certo? – deduzi.

– Não, não é isso.

– Claro que não. – rebati com o tom mais irônico que já usei na vida.

– Eu só não quero ela fazendo perguntas.

– Por que você me trouxe então?

– Eu não sabia que ela vinha. – respondeu Gabriel.

– Não se preocupa, Gabriel. Diz pra Babi que mandei um beijo. Eu to indo embora.

Dito isso me virei para de fato ir, mas ela estava bem na minha frente, com um sorriso no rosto que eu não soube decifrar se era verdadeiro ou forçado. Por algum motivo, senti uma reviravolta no estômago que quase me fez pedir licença para ir vomitar. Talvez a forma com que ela parecia intimidadora dentro de um vestido preto e sapatos altos da mesma cor.

– Oi, querido! – disse a mulher se desviando de mim para abraçar Gabriel. – Você viu o quanto ela estava esplendida? Brilhando feito uma estrela! Dá até dó de tirá-la do balé.

– Você vai tirá-la do balé? – perguntou Gabriel parecendo verdadeiramente indignado. Eu também fiquei, Babi tem talento pra dança.

– Ninguém tem futuro no balé. – respondeu a mulher, calmamente, enquanto começou a ajeitar a gravata de Gabriel. – Ela precisa de mais tempo para estudar, ta se ocupando demais com isso e esquecendo das aulas de inglês e espanhol.

– Mãe, ela tem nove anos e você quer que ela aprenda três línguas ao mesmo tempo! – protestou Gabriel.

– Só to pensando no futuro dela.

– Isso é coisa do meu pai, né?

– Isso não tem nada a ver com seu pai.

– Claro que não... – respondeu Gabriel sendo tão irônico quanto eu havia sido instantes antes.

– E ela é quem? – indagou a mãe de Gabriel olhando dele para mim, mudando completamente de assunto. Juro que agradeci mentalmente por estar minimamente apresentável, porque ter seu olhar me medindo de cima a baixo, fez com que eu literalmente me sentisse mal por ter feito cena com Gabriel, por não querer nos apresentar.

– Isabelle, uma amiga do colégio. – respondeu Gabriel.

– Prazer, Isabelle. Eu sou Patrícia, mãe do Gabriel. – disse Patrícia, estendendo a mão para me cumprimentar. Fiz o mesmo.

– O prazer é todo meu, Patrícia.

– Cade o Henrique e cade o papai? – ouvi a voz de Babi perguntar e olhamos em sua direção. Ela estava parada ao nosso lado, com os braços cruzados na frente do peito, parecendo muito brava.

– Seu pai... – Patrícia começou a explicar, mas Gabriel a cortou no meio da frase.

– Achei que era uma ocasião só para as pessoas legais da família e os desconvidei. – respondeu Gabriel. – Perdão, senhorita Fornazier.

– Está perdoado. – disse Babi. – Mas somente porque eu fiquei sabendo que vamos jantar no Pizza Hut e porque você trouxe a Isabelle.

Ao dizer isso ela sorriu abertamente para mim e eu fiz o mesmo.

– Em hipótese alguma iremos jantar pizza. – rebateu Patrícia.

– Essa é minha noite, mãe. Eu escolho e é pizza. – insistiu Babi.

– É a noite dela. Ela escolhe e é pizza. – ajudou Gabriel.

– Eu sou a mãe e eu mando. Nós iremos jantar em um restaurante e comer algo decente, porque hoje é quarta-feira e amanhã os dois tem aula. – disse Patrícia em um tom autoritário, intercalando o olhar entre Gabriel e Babi. – Espero vocês no carro. E troque de roupa, Bárbara.

Ela sequer esperou por uma resposta, apenas saiu andando. Babi não gostou nada disso, porque fechou a cara no mesmo instante.

– Eu odeio quando ela faz isso. – resmungou Babi.

– Vamos fazer o seguinte... – disse Gabriel se abaixando na altura dela. – Nós ignoramos o quanto ela esta chata e eu te levo pra comer no Pizza Hut amanhã. O que nós sabemos que vai ser muito mais divertido.

– Fechado! – concordou Babi sorrindo novamente.

– E como eu também odeio quando ela faz isso... Nós podemos provocá-la um pouquinho. Você não irá trocar de roupa, irá exatamente desse jeito, até porque você está fabulosa.

– Ela vai ficar muito brava! – disse Babi e os dois riram.

– Vocês dois tem a mente maligna! – brinquei.

– Você vem com a gente, Isa? – perguntou Babi.

Eu travei, sem saber o que responder. Minutos atrás Gabriel não queria que sua mãe nos visse juntos, então certamente ele não deve querer que eu vá nesse jantar. Só não sabia como responder isso para Babi sem chateá-la.

– É claro que sim! – respondeu Gabriel e eu olhei completamente confusa para ele. – Ou você acha que ela vai nos abandonar nessa tortura?

Dessa vez ele olhou diretamente para mim e eu percebi que aquilo havia sido meio que um convite.

– Você definitivamente não sabe chamar uma garota para jantar. – afirmei.

– Por favor... – ele insistiu pegando Babi no colo e sussurrou algo em seu ouvido. Então os dois fizeram carinha de cachorro abandonado que caiu do caminhão de mudança.

Eu ri e obviamente, aceitei.

– Os três gostariam de tirar uma foto? – perguntou um rapaz nos abordando. – Vai para o site do teatro ainda hoje.

– Sim! – respondeu Babi animada e antes mesmo que pudéssemos dizer algo, ela me puxou para perto e passou o braço por detrás de minha cabeça.

O rapaz tirou a foto e nos agradeceu. Eu me senti estranha tirando uma foto com Gabriel e sua irmã, porque afinal, ela é sua irmã. Foi como se nosso relacionamento tivesse chegado a outro patamar. Mas isso não foi nada, comparado a sensação de caminhar junto com eles em direção ao carro de Patrícia.

Gabriel se sentou no banco da frente e eu e Babi no de trás. Não tive nem coragem de olhar para Patrícia e ver a reação dela comigo ali, mas tive certeza de que seu humor não estava nada bom, com o que ela disse assim que bateu os olhos na filha ainda vestida de bailarina:

– Eu disse pra ela trocar de roupa, Gabriel.

– Ela está linda assim e vai ficar assim, quer você queira ou não. – respondeu Gabriel ligando o rádio.

Babi sorriu para mim como quem dizia “a provocação deu certo”. Deu mesmo.

– Você gostou da apresentação, Isa? – perguntou Babi.

– Muito! – respondi sinceramente. – Você estava linda e dançou incrivelmente bem.

– Na semana que vem já vamos começar a treinar novas coreografias, eu to muito animada.

– Nós precisamos conversar sobre isso, Bárbara... – disse Patrícia. Eu sabia sobre o que se trataria essa conversa, com certeza seria sobre tirá-la do balé. E fiquei indignada com a coragem de sua mãe de dizer isso no exato momento em que a garota esta extremamente contente, justamente pelo balé.

– Não ouse. – interrompeu Gabriel tão serio que o clima dentro do carro ficou imediatamente tenso.

– Isso já esta conversado, Gabriel.

– Não tem nada conversado. – ele rebateu. – Nós iremos conversar quando estivermos em casa e você não vai mais falar sobre isso hoje.

– Você se esqueceu que eu sou sua mãe pra ficar me encarando desse jeito, Gabriel?

– Você se esqueceu que eu não fico calado pras imbecilidades do meu pai?

Depois de Gabriel dizer isso, Patrícia não disse mais nada. E o clima tenso, fez com que prosseguíssemos o resto do caminho calados.

Nós chegamos a um restaurante e Patrícia parou o carro em frente ao mesmo, sem estacionar, nem nada. Ela simplesmente parou e todos começaram a descer, então vi um homem vestido de terno pegar a chave com a mesma e entrar no carro. Deduzi que era um manobrista e foi nesse momento que pensei: Em que merda eu me enfiei?

Fomos recepcionados por outro homem que conversou com Patrícia e em seguida nos transferiu para uma mulher, que por sua vez, nos acompanhou até uma mesa no segundo andar do estabelecimento, onde nos sentamos. Era um lugar extremamente chique, com decoração clássica a meia luz e música ambiente tocando.

Um garçom apareceu para entregar o cardápio para nós e quando vi o preço, imaginei por quanto tempo faria trabalho escravo para conseguir pagar a fatura do meu cartão de crédito que minha mãe com certeza não pagaria. Sem contar que enquanto lia as opções, percebi que não conhecia nada e não fazia ideia do que era nada. Eu pediria algo na sorte e rezaria para que fosse bom.

– Não estava nos meus planos passar fome hoje. – disse Gabriel, mas não vi vestígio algum de humor na sua voz.

– Não precisa comer feito um animal pra acabar com a fome. – rebateu Patrícia.

– Por que você está com esse mal humor todo? – perguntou Gabriel extremamente nervoso. – Dá pra você ser legal pelo menos na frente da Isabelle?

– Por que você não contou que está namorando, Gabriel?

Eu juro que meu coração parou por alguns segundos. Ela estava implicando com os dois filhos, em uma noite importante para Babi, por minha causa. Eu abaixei o olhar extremamente constrangida. Queria levantar da mesa, ligar para minha mãe ir me buscar e ir para casa chorar.

– Desculpa se te constrangi, Isabelle. Não foi a intenção. Só quero saber por que não nos apresentou, Gabriel. – disse Patrícia.

– Eu não estou namorando, mãe! – respondeu Gabriel, falando em um tom mais alto que o normal, de forma totalmente impaciente. – Ela é minha amiga!

– E minha! – intrometeu Babi. – E você esta estragando totalmente a minha noite, mãe. Muito obrigada.

Quando Babi disse isso, Gabriel pareceu ficar ainda mais nervoso. Percebi que ele ia abrir a boca para falar algo, mas apertei sua perna com a mão por debaixo da mesa e ele se controlou.

– Desculpe, querida. – pediu Patrícia à Babi e ela apenas assentiu. Mesmo assim, o clima continuou tenso.

Patrícia não parecia ter nada contra mim, só pareceu ter ficado enciumada em ver Gabriel acompanhado de uma garota na apresentação de balé da filha e em seguida, tê-la convidado para acompanhar a família em um jantar. O que deixou parecendo que somos namorados e que ele não havia contado para ela. Eu compreendi a situação, ou pelo menos fiz o máximo para compreender e assim, me sentir confortável sentada ali. Até porque tudo que eu não precisava, era que os dois pais do cara com quem eu estou, me odeiem.

Voltamos a olhar o cardápio em silêncio, até que Babi o quebrou.

– Gabriel, você vai traduzir essa coisa ou fazer meu pedido? – perguntou Babi e Gabriel sorriu.

– Você confia no meu gosto?

– Com certeza!

– Então farei nossos pedidos. – avisou Gabriel. – Quer entrar pra turma, Isa?

– Com certeza! – respondi aliviada, o agradecendo com o olhar. Eu não saberia pedir nada sozinha e sei que os meus gostos e os de Gabriel são parecidos.

Quando o garçom retornou para anotar os pedidos, eu fiquei com cara de “QUE?”, enquanto ouvia Patrícia pedir, mas felizmente, o pedido de Gabriel pareceu agradável.

– De entrada iremos querer Raclette, o prato principal será Strogonoff de Mignon e para a sobremesa, Petit gâteau de chocolate. – foi o que Gabriel pediu.

– O que é Raquete? – perguntou Babi assim que o garçom se afastou da mesa. Eu e Gabriel rimos da forma com que ela disse, mas eu estava era agradecendo a pergunta, porque também não fazia ideia.

– São batatas cozidas e servidas com queijo derretido, o qual se chama Raclette e dá nome ao prato. – explicou Gabriel.

– Ah sim. E vamos comer strogonoff?

– Com arroz e batata palha. – respondeu Gabriel levantando a mão em direção à Babi. Os dois bateram as mãos e riram.

– Você é o melhor irmão do mundo! – afirmou Babi.

É mesmo, pensei comigo mesma.

– Da onde você e o Gabriel se conhecem, Isabelle? – perguntou Patrícia para mim e eu juro que devo ter passado uns quinze segundos, na contagem correta, olhando paralisada para a cara dela.

Patrícia estava falando comigo. Responde, retardada.

– Do colégio. – respondi com a voz mais baixa do que planejei. – Somos da mesma sala.

– Ah sim. E seus pais? Fazem o que?

– Minha mãe é advogada e meu pai dentista.

– Escritório e consultórios próprios?

– Mãe... – repreendeu Gabriel, fechando os olhos e tentando controlar a própria respiração.

– Só estou tentando conversar, Gabriel. – rebateu Patrícia.

– São sim. – respondi.

E novamente o silêncio reinou na mesa. Essa é definitivamente a noite mais desastrosa de toda minha vida.

– Com licença, eu vou ao toalete. – disse Patrícia antes de se levantar e seguir em direção ao banheiro.

Quando ela já estava longe o suficiente para que não pudesse nos ouvir, Gabriel disparou a falar.

– Me desculpa, por favor. – pediu Gabriel. – Eu juro que ela não é assim, de imbecil na minha casa basta meu pai. Deve ter acontecido algo.

Além de eu estar sentada nessa mesa?

– Ta tudo bem. – respondi tentando o tranquilizar, esperando em algum momento, conseguir me tranquilizar.

Os garçons apareceram para nos servir e se eu achava que não tinha como a noite piorar, descobri que estava errada.

– Gabe, essa é uma daquelas ocasiões em que somos obrigados a usar as regras de etiqueta? – perguntou Babi.

– Puta que pariu. – xingou Gabriel. – Sim, é. Ela vale para todo e qualquer jantar fora de casa.

– Como assim? – perguntei com medo da resposta. Me lembro de quando Gabriel me contou que sua mãe é obcecada por regras de etiqueta e se isso significar que preciso usá-las nesse jantar, eu vou me levantar dessa mesa nesse exato momento e ir embora. – Eu vou precisar usá-las pra comer?

– Sim. – respondeu Gabriel com receio.

– Eu não sei nada sobre regras de etiqueta além do que já ouvi as pessoas comentarem, Gabriel. – confessei completamente nervosa e com medo de estragar tudo. Ainda mais.

– Ok, vamos lá. Tente memorizar... – disse Gabriel olhando na direção do toalete, então percebi que sua mãe já estava voltando. – Guardanapo de tecido no colo, não coloque os cotovelos sobre a mesa, use a faca para cortar os alimentos e depois a deixe sempre em posição de descanso, quando terminar de comer posicione os talheres um ao lado do outro sobre o prato, pra ela saber que você acabou.

Quando ele terminou de falar, Patrícia sentou na mesa. A primeira coisa que ela fez foi colocar o guardanapo de pano dobrado no colo e eu repeti a ação, depois ela começou a comer. Enquanto comia rezando para que nada desse errado, percebi que eu era a única na mesa que não trocava os talheres de mão em momento algum ou fazia outras mil coisas, que eles pareciam fazer automaticamente. Assim como percebi Patrícia medindo cada mínimo movimento que eu fizesse.

– Você costuma comer nesse tipo de restaurante, Isabelle? – perguntou Patrícia e pelo tom que ela usou, fui capaz de perceber o que estava sugerido na frase: Eu estava fazendo tudo errado.

Esse foi o momento em que simplesmente não aguentei mais.

– Às vezes. – respondi seca. – Se me dão licença, eu preciso ir ao toalete.

Dito isso me levantei sem esperar por qualquer resposta, peguei minha bolsa e saí da mesa no meio do jantar. Eu de fato caminhei em direção ao banheiro, mas então me desviei do trajeto e andei até a saída, onde peguei o primeiro taxi que vi estacionado e passei o endereço da minha casa.

Quando entrei no taxi soltei o ar que só então, percebi que estava entalado em minha garganta. Peguei meu celular e digitei uma mensagem para Gabriel:

“Me desculpa, mas não consigo fazer isso. Não consigo gostar do seu pai e infelizmente não consigo agradar sua mãe, porque somos de mundos completamente diferentes. Eu vim embora. Me passa o valor da conta que te passo o dinheiro. Desculpa.”

Não se passaram nem cinco minutos que enviei a mensagem quando meu celular começou a tocar e vi o nome de Gabriel no visor. Eu não consegui atender. Estava constrangida por tudo que aconteceu e estava ainda mais constrangida por ter fugido daquela forma, como uma criança assustada. Desliguei meu telefone apenas para não ter de me explicar e bastou que eu chegasse em casa, para que começasse a chorar. Como eu consigo ser tão idiota?

Fui até a cozinha, tomei um copo de água e comecei a andar de um lado para o outro sem parar. Avistei uma bolinha de tênis caída no chão da lavanderia e a peguei na intenção de tacar na primeira coisa que eu visse, mas quando me preparei para arremessá-la, minha sanidade me fez lembrar que minha mãe estava em casa. Então apenas puxei uma cadeira e me sentei de frente para a porta de vidro que dava acesso a varanda.

Eu peguei a bolinha e joguei rumo a porta, ela bateu na mesma, quicou no chão e voltou para mim pela mesma direção que havia sido arremessada. A peguei e fiz a mesma coisa. Depois de novo e de novo. Até que de repente ouvi a voz de Natália ao meu lado.

– Isa? Já chegou? O que ta fazendo?

– Me machucando na esperança de parar de doer. – respondi com a voz trêmula, ainda chorando, mas agora em silêncio.

– Como assim? – perguntou Natália sem entender nada, ela ainda não havia percebido que eu estava chorando.

– É assim que me sinto... – comecei a falar, mais uma vez segurando a bolinha em minhas mãos e depois a arremessando contra a porta. – Sendo constantemente arremessada em direção à ele e me chocando contra uma barreira que nos separa em dois mundos completamente diferentes. Arremessada pela minha mente teimosa, que insiste em achar que vale a pena me chocar nessa barreira e me machucar um pouquinho, ao invés de ficar nesse mundo em que dói apenas observar o dele. Ela acha que um dia atravessa a barreira e a dor acaba, de boba que é, sem saber que a cada arremesso, a droga da dor apenas piora. Coitada de mim que insisto em imaginar o que aconteceria se por um acaso, algum dia, passasse pela barreira. Como sobreviver num mundo que não é meu?

Notas finais
Próximo capítulo: 6 de Março! (eu odeio essa data) (odeio muito) (me mandem cartinhas de amor nesse dia porque eu vou precisar) (com certeza chorarei muito) Beijinhos da K!