Poltrona 19
2 Jardim
Notas iniciais
Uma rajada de vento forte derrubou mais folhas sobre o chão a minha volta, o qual estava repleto de várias delas. Sentada em um balanço enferrujado, no jardim ao fundo da casa de minha avó materna, observava o quanto aquele lugar é e sempre foi bonito. É engraçado perceber que nada ali mudara durante anos, ou melhor, desde que nasci. Ao contrário da minha vida, que estava sempre diferente em todas as vezes que me sentei neste mesmo balanço. A questão é que algumas coisas nunca mudam, enquanto outras mudam drasticamente.
Com os fones no ouvido, passara horas apenas tendo minhas típicas reflexões sobre a vida. Fugindo de qualquer assunto que estivesse sendo discutido entre minha família dentro daquela casa, pois o assunto sempre acabava em mim, independente se estivessem falando sobre novela, futebol ou tempo. E quando isso acontece sempre me estresso.
O tempo fechado não combina nada com o verão, mas em Curitiba não existe muito isso de sol e calor. E tudo bem por mim, porque a iluminação acinzentada deixa o local apenas mais bonito. Tenho uma paixão por dias nublados, que são perfeitos para ouvir música depressiva, mas nesse momento tudo indica que logo começará a chover e eu serei obrigada a entrar.
Olhei para frente e avistei minha irmã Natália saindo pela porta dos fundos e caminhando em minha direção. Ela se parece muito comigo, tem os mesmos cabelos loiros e os mesmos olhos azuis, a diferença é que ela cuida bem do cabelo e ele é bem mais bonito que o meu, mas agora vivem presos devido ao seu trabalho. Os olhos também apresentam olheiras que antes ela não tinha. Natália tem 21 anos, sempre foi minha melhor amiga e recentemente saiu de casa para morar sozinha. Está terminando a faculdade de Nutrição, trabalha e ainda consegue ter um relacionamento. Essa é o orgulho da família.
Ela se sentou no balanço ao meu lado e sorriu gentilmente para mim. Permaneceu em silêncio respeitando minha visível vontade de ficar sozinha, ou talvez estando ciente de que eu não ouviria nada que ela dissesse enquanto ouço música. Olhando para ela pude perceber sua expressão cansada, parecia minha versão adulta responsável. Não quero ser uma adulta responsável. Posso ter dezessete anos para sempre?
Retirei meus fones do ouvido para conversar com ela.
— Quem é essa adulta sentada ao meu lado? Quero minha irmã de volta. Aquela que passava o dia todo de pijama, comendo brigadeiro e falando besteiras comigo, sabe?
— Também quero ela de volta. — respondeu Natália melancolicamente, colocando uma mecha de cabelo que se desprendeu do resto atrás das orelhas.
— Preparada para o último ano da faculdade? — perguntei.
— Com certeza não. Preparada pro último ano do Ensino Médio?
— Com certeza não. Quero parar o tempo. Tenho dor de cabeça só de pensar em vestibular, faculdade, trabalho, casamento, filhos, divórcio...
— Calma, Isabelle. Você só ta terminando o colégio.
Que bonitinho, ela acredita que vou conseguir terminar o colegial. Brincadeiras a parte, eu preciso terminar.
— E para com essa ideia de que todo casamento acaba em divórcio. — ordenou Natália me olhando de cara feia.
— Você sabe que não acredito em relacionamentos.
— Não é porque nossos pais não deram certo que todo e qualquer outro casal também não dará.
— E quem disse que eu acho isso por causa dos nossos pais, Natália?
— Você vem com esse papinho desde que eles se separaram.
— Não, eu venho com esse papinho desde que tomei um pé na bunda. — garanti, fazendo uma careta em desaprovação ao assunto, que arrancou risadas dela.
Faz dois anos que meus pais se separaram, na época eu tinha quinze anos, mas ao contrário do que todos pensavam, eu não me senti afetada com isso. Sempre me dei muito bem tanto com minha mãe quanto com meu pai e com a separação nossa relação de afeto só aumentou. Meus pais se sentiam mal por acharem que estavam me magoando de alguma forma e me mimavam de todo jeito possível para recompensar isso. Porém a separação aconteceu na mesma época que minha adolescência começou e eu comecei a descobrir coisas da vida, como por exemplo a beber em festas com os amigos. Entrei também na típica fase de revolta com tudo e meus familiares insistiam em dizer que tanta rebeldia se devia por um ressentimento ao ter uma família desunida. Na verdade, nunca liguei para isso.
Minha guarda ficou divida para os dois. Até hoje as coisas são assim, e quer você ache estranho ou não, dividida significa que eu passava um tempo com minha mãe e um tempo com meu pai. Ás vezes passava uma semana com um, outra semana com o outro. Ás vezes uma semana com um e o fim de semana com outro. Nunca tive um tempo exato definido para passar com qualquer um dos dois, eles sempre me deram liberdade para escolher onde e com quem estar. Portanto, sempre tive duas casas e claro, sempre me aproveitei disso.
Sabe aquela festa que seu pai não quer te deixar ir? Então, você vai para a casa de sua mãe que ela deixa. Sabe aquele castigo que sua mãe te colocou? Vai para a casa do seu pai que já era o castigo. Foi basicamente assim que vivi durante esses dois anos, o que já causou muita confusão entre meus pais, pois um acusava o outro de estar "tirando minha autoridade" e blá-blá-blá, nunca ouvi esse papo até o fim.
Atualmente tenho dezessete anos e nunca tive um namorado. Não acho isso algo estranho, mas meus familiares que tanto amam dar palpites sobre a vida alheia, principalmente a minha, dizem que uma garota com essa idade já deveria ter se envolvido com algum rapaz. E ainda por cima, julgam como motivo dessa desilusão amorosa também a separação de meus pais. E é por esses e outros motivos que não estou sentada com todos lá dentro.
A verdade da minha desilusão amorosa é que já me envolvi sim com alguém, o nome dele era Arthur e era da minha sala no primeiro ano. Ficamos amigos e logo depois começamos a ficar, as coisas foram ficando sérias entre a gente e um belo dia ele disse que precisava falar algo importante comigo. Estávamos tão bem que juro que achei que seria pedida em namoro, mas ele apenas terminou tudo que tínhamos e começou a ficar com outra. Na época fiquei muito abalada, mesmo que meu orgulho não deixasse demonstrar. E a partir de então, começou minha apatia por relacionamentos. Eu sei, não foi nada demais para uma atitude dessas, mas uma garota de quinze anos com o coração partido pode ser bem dramática.
— Já parou pra pensar que temos muitas histórias para contar quando o assunto é esse jardim? — perguntou Natália despertando-me de meus pensamentos.
— Na verdade, estive o dia todo pensando nisso.
— O tempo passa muito rápido.
— Mais rápido do que eu gostaria. — lamentei.
O jardim é no fundo da casa de minha avó e sempre foi um de meus lugares preferidos. Cheio de flores e plantas de todas as espécies, as quais ela gosta tanto de cuidar. Ela falava que um dia plantaria uma árvore e construiria uma casa da árvore para mim, mas é claro que nunca aconteceu. No entanto, para mim bastava o mini parquinho que ela montara para as crianças, mini mesmo, três balanços e um escorregador. Ela também sempre montava uma piscina de plástico para nadarmos em domingos de churrasco com a família. E agora, simplesmente venho pra cá quando quero ficar sozinha.
O vento forte bateu em meu rosto e bagunçou meus cabelos, fechei os olhos e inspirei fundo. Logo em seguida senti alguns pingos de água caírem sobre minha pele. Continuei de olhos fechados e dei um impulso no chão com os pés para que o balanço se movimentasse. Quando isso aconteceu o balanço enferrujado fez um ruído.
— Meninas, entrem! Ta começando a chover. — ouvi a voz de minha mãe gritando. Abri os olhos e a vi na varanda nos observando.
Natália se levantou e fiz o mesmo, então ela me abraçou de lado e caminhamos em direção a casa.
— Sinto sua falta, pirralha! — ela sussurrou.
— Mentira, você só quer saber de ficar no seu apartamento novo se agarrando com seu namoradinho. — disse brincando e ela me deu um leve tapa, logo em seguida me empurrando, então a empurrei de volta.
Minha irmã se mudou no ano novo, ela disse que queria começar o ano com uma vida nova, desde então sinto muita falta dela e às vezes me sinto extremamente sozinha. Me acostumei em ter ela ao meu lado sempre e agora é como se faltasse algo nos meus dias.
Entramos dentro da casa e pude ouvir vozes de mulheres conversando, chegando na cozinha vi minha avó Elizabeth e minha mãe. Minhas tias Marina — que é a irmã mais nova — e Juliana — a mais velha — também estavam ali, mas pelo visto já tinham ido embora. Ainda tenho mais um tio, Eduardo, que é mais velho que minha mãe, porém mais novo que tia Juliana.
— Querida, você nem nos fez companhia hoje. — lamentou vovó vindo me abraçar.
— Essa menina ta mais antissocial que nunca. — minha mãe reclamou. Não dá para entendê-la, vive me chamando de antissocial, mas quando digo que vou sair de casa reclama que estou saindo demais.
— Deixe ela, Renatta. Isso é coisa de adolescente, quem quer ouvir gente velha falando asneira, não é mesmo? — disse vovó e apenas ri em resposta. Gosto do seu senso de humor e de como ás vezes ela parece nunca ter envelhecido mentalmente e espiritualmente. — Eu separei uns pedaços de bolo para sua mãe levar, receita nova, depois quero saber o que achou.
— Eu preciso parar de comer tanta besteira, vó.
— Magra desse jeito tem é que comer mais, seus pais não estão te alimentando direito?
— A Elisa sim, meus pais não. — respondi, já esperando o contra-ataque que viria de minha mãe.
— Eu não tenho tempo para cozinhar, Isabelle. Você sabe muito bem disso. — se defendeu minha mãe.
— E nem dom. — rebati.
Todas nós gargalhamos e minha mãe fechou a cara. Mamãe nunca fora boa quando o assunto é cozinhar, sabe fazer uma coisa ou outra, mas mesmo assim não deixa de ser um desastre na cozinha, consegue queimar até pipoca de microondas. Portanto, quando ela e meu pai se casaram contrataram uma empregada, dona Elisa, que trabalha para minha mãe até hoje. Ela vai todos os dias de manhã, arruma a casa e faz o almoço, só não trabalha nos fins de semana.
Continuamos conversando por um tempo sobre a inabilidade de minha mãe na cozinha, depois acabamos falando do vovô que só então descobri estar em uma fazenda com tio Eduardo. Por fim o assunto acabou sendo a vida amorosa de minha irmã e antes que se desviasse para mim, chamei minha mãe para ir embora. Nos despedimos de minha vó e minha irmã, que prometera almoçar comigo algum dia da semana e entramos no carro para ir pra casa.
Quando o carro saiu da garagem pude ver que estava chovendo forte. Observei os pingos da chuva escorrerem pela janela do lado de fora, já estava a noite e fazia muito frio. Lamentei mentalmente, se estiver assim amanhã de manhã, o primeiro dia de aula será mais insuportável do que de costume.
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