Poltrona 19
52 Inseguranças
Notas iniciais
As vezes não sei ao certo qual é o propósito da vida. Nos fazer entender que tudo que precisamos é de tempo, para curar, mudar, transformar, viver. Ou se na verdade, ela se trata exatamente de perceber que o tempo é nada. No momento escolhi acreditar na segunda opção. Tenho esperado que o tempo curasse minhas feridas, mas decidi limpá-las com minhas próprias mãos. Pode ser difícil, porque dói muito mais quando é você mesmo quem passa o álcool sobre o machucado, limpa com o algodão e tapa com um esparadrapo. Fica a sensação de não saber se estamos fazendo isso direito, mas é apenas tentando que descobrimos se irá cicatrizar.
— Vou te mostrar meu lugar preferido da cidade. – anunciou Vinícius, batendo o portão de seu próprio prédio e me puxando pela mão para dentro.
— Você mora aqui, Vinícius. – constatei.
— Eu sei. – ele disse me lançando um sorriso serelepe e por mais que eu tentasse não conseguia entender o que ele estava aprontando, então resolvi apenas deixar que me guiasse. Afinal, estávamos embriagados.
Ele nos guiou até o elevador, onde ao invés de apertar o número do seu andar, apertou o último botão. Permanecemos em silêncio até que subíssemos por todos aqueles andares e as portas finalmente se abrissem revelando nosso destino. Havíamos chegado ao terraço do prédio.
Se tratava de um terraço panorâmico com área de lazer. Havia piscina, churrasqueira, cozinha gourmet e uma área de descanso. Todo o lugar seguia um modelo rústico com móveis de madeira. A iluminação em spot fora posicionada estrategicamente para iluminar as superfícies circundadas de forma sutil. O lugar não era absurdamente grande, mas seu espaço havia sido muito bem aproveitado e decorado.
— Bonito, né? – disse Vinícius chamando minha atenção.
— Sim. – concordei ainda observando cada detalhe com deslumbre. Parecia um lugar onde eu gostaria de passar um tempo sozinha apenas pensando.
— Mas o que eu realmente quero te mostrar, minha parte preferida... – ele disse andando pelo local enquanto eu o seguia. – É a vista.
Nós paramos na beirada do terraço e logo a minha frente pude ver parte de Curitiba iluminada. Era uma das vistas mais bonitas que já vi da cidade, mas não soube exatamente o que senti dentro do peito naquele momento. Eu estava feliz por estar ali, mas infelizmente, não consegui me lembrar de qualquer outra coisa que não fosse a tarde em que Gabriel me levara até a Torre Panorâmica. Permaneci em absoluto silêncio tentando decifrar todos os meus sentimentos.
— Eu queria te contar uma coisa. – disse Vinícius de repente. Olhei para ele que por sua vez, continuou admirando o horizonte. – Quando eu estava no Ensino Fundamental conheci uma garota que veio a se tornar minha melhor amiga. Anos depois, mais especificamente na oitava série, demos nosso primeiro beijo e então começamos a namorar. Foi minha primeira namorada. Depois tivemos nossa primeira transa. E várias outras primeiras coisas. Eu cresci com ela.
“Nós terminamos no natal do segundo ano do Ensino Médio. Ou melhor, ela terminou comigo. Disse que me amava, mas que tinha medo de se prender a mim e não viver, que nós íamos para o terceiro ano e nunca havíamos feito diversas das coisas que nossos amigos faziam. Ela ia fazer uma viagem de réveillon com os pais e só voltaria em fevereiro, quando as aulas começariam de novo. Eu passei esse tempo todo pensando em que amor era esse que ela dizia sentir, que a fazia acreditar que viver junto é uma prisão. Tive esperança de que ela repensasse sua decisão até o último segundo antes de revê-la. Eu voltaria pra ela sem pensar duas vezes.”
“No primeiro dia de aula a gente se viu e eu juro por deus que meu coração disparou. Eu esperei que ela corresse até mim, me desse um puta abraço e me pedisse desculpa. Ela realmente veio até mim e me deu um puta abraço, mas disse: “Como foram as férias? Eu me diverti tanto que não queria nem voltar! Olha, comprei um chaveiro pra você de lembrança, você vive perdendo suas chaves”. E foi isso. Ela tava bem, feliz e vivendo a própria vida, enquanto eu passei dois meses me remoendo dentro do meu próprio quarto.”
“Foi só nesse dia que eu realmente acreditei que nós tínhamos terminado e cara, eu chorei tanto que sinto vergonha só de lembrar, mas também foi nesse dia que eu percebi que seguir em frente só dependia de mim mesmo. E eu segui. Mas não esqueci, não deixei de sentir saudade, muito menos de escutar as músicas que ela gostava e ficar me lembrando de inúmeras coisas. Mas é que saudade é basicamente no que o amor se transforma. A gente só precisa aprender a cultivá-la de forma saudável.”
“E hoje, tanto tempo depois, eu entendo uma coisa que devíamos aprender desde pequenos. O primeiro amor nunca morre. Ela foi meu primeiro amor e o carinho que eu sentia por ela nunca vai sumir. Tem certas coisas que vivem dentro da gente para sempre. Hoje só sinto coisas boas por ela, por tudo que vivemos, tudo que aprendemos, que sentimos.”
Eu queria dizer qualquer coisa, mas não conseguia. Estava tentando processar tudo que ele disse e onde queria chegar me contando isso.
— Não pode ter sido em vão, sabe? Amar nunca é um ato em vão. – ele prosseguiu e percebi que não estava mais falando de si mesmo. Ele estava falando de mim. – E talvez, só talvez, tudo isso tenha acontecido para que você pudesse de alguma forma resgatar algo bom de dentro dele. Eu não acredito que ele tenha fingido tudo durante todo esse tempo. Ele fez coisas boas por você, para você. Talvez agora ele pense um pouco nisso.
— Mas e se esse for justamente o problema da humanidade? – questionei com a voz baixa. – Esperar que nada seja em vão? O amor, os sofrimentos, as perdas, a vida. Tudo.
— Não é. Porque dá sempre para se aprender mais. Mesmo se não for nada disso, se ele for mesmo apenas um babaca, você pode levar isso como lição para nunca mais deixar a vida esvair de dentro de você como deixou.
Fazia bastante frio ali em cima e o vento que insistia em embaralhar os fios do meu cabelo fez com que eu me encolhesse dentro do meu casaco. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto e eu abaixei a cabeça constrangida, mas ele me pegou de surpresa quando passou o dedo sobre a mesma secando-a. Quando olhei para ele consegui enxergar com clareza tudo que sempre esteve bem em minha frente. Não se tratava apenas de entender, superar e seguir, se tratava de deixar nossa história para trás. Minha história com Gabriel. Não bastaria me perdoar e aceitar seguir em frente, se fosse para seguir por qualquer caminho esperando que nossos destinos se cruzassem novamente. Estive esse tempo todo pensando em maneiras de esquecê-lo, apenas para não esquecer. Porque por maior que seja a dor que alguém lhe cause, em algumas vezes você ainda se agarra a uma linha imaginária de esperança de que um dia o passado seja apenas passado e vocês possam reconstruir um futuro. No fundo, eu me mantinha agarrada a esse fio, mas eu precisava soltá-lo. Isso não significava apagar Gabriel de mim, muito menos apagar o amor que senti e ainda sinto, eu apenas precisava colocar um ponto final em nós. Um novo capítulo só se inicia após o ponto final.
Eu dei um passo para frente aproximando meu rosto do de Vinícius e olhei no fundo de seus olhos antes de calmamente beijar seus lábios. Nossas bocas se encaixaram tão bem quanto me encaixei dentro de seu abraço. Tudo no que queria pensar, sentir e viver naquele instante, era nós. E me permiti isso, pela primeira vez verdadeiramente. Me entreguei totalmente a ele. Sem um passado que nos assombrasse, sem receios, sem medo. Tudo que eu queria era sentir teu beijo, tuas mãos me segurando e o que aquela sensação me causava.
Era o meu recomeço. Mas acontece que uma história, quando partilhada, não pode ter apenas um ponto final.
(...)
— Bom dia! – disse assim que entrei em casa no domingo de manhã. Minha mãe estava deitada no sofá lendo algum jornal, mania que herdou do meu avô. Ele adorava ir até a banca mesmo que eu tivesse o mostrado centenas de vezes que ele conseguiria ler o que quisesse na internet. Ela desviou os olhos das folhas cinzas e me encarou.
— Você dormiu duas noites fora, Isabelle. – constatou. Não havia alteração de tom em sua voz, nem resquícios de que ela queria começar uma briga, o que eu achei bastante surpreendente. Um tempo atrás ela teria armado um barraco por isso. Não sei se é o seu relacionamento que está a mudando ou se ela apenas está feliz por eu estar voltando a sair de casa.
— Vamos almoçar na vovó? – chamei ignorando completamente seu comentário na intenção de não ter que me explicar. – Vou tomar um banho e vamos. Chama o papai também! Diga que já vou levar minhas coisas pra passar uns dias com ele!
Antes de sair da sala pude ver seu olhar curioso sobre mim e sorri sozinha. Assim que entrei em meu quarto me joguei sobre a cama, mesmo que não tenha sentido nenhuma falta dela nos últimos dias. Na noite anterior antes de finalmente ter me acertado de vez com Vinícius havíamos saído para um bar. Estive em casa apenas para que pudesse me arrumar. Acabei dormindo por lá novamente e dessa vez dormimos juntos propositalmente. Muito propositalmente. Era inclusive a única coisa na qual conseguia pensar toda vez que fechava os olhos.
Vinícius empurrou a porta para trás com um dos pés e continuamos andando aos tropeços até a cama, onde caímos e nos ajeitamos. Ele se espichou de uma forma completamente desajeitada na intenção de acender a luminária que estava na escrivaninha ao nosso lado, o que conseguiu após muito esforço. O puxei de volta para perto de mim e o beijei com vontade. Entrelacei minhas pernas em seu quadril e deixei que meu corpo respondesse aos estímulos de seu toque.
Quanto mais nos beijávamos mais eu queria que tirássemos logo a roupa, mas comecei a perceber que ele estava um pouco recuado, então parei e o olhei curiosa.
— Tá acontecendo alguma coisa? – questionei. Ele permaneceu um tempo com uma expressão que eu não soube decifrar, mas parecia que ele não sabia como responder.
— A gente não precisa fazer isso se você não quiser, Isa.
— Que isso? Minha primeira vez? – brinquei.
— Não... – ele respondeu dando uma risada anasalada. – Mas é que você passou por muita coisa e eu entenderia caso você quisesse ir devagar. Até hoje a gente não tinha nem se beijado ainda e eu te respeito.
— Eu sei, Vinícius. – garanti. Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa o empurrei para o lado e troquei nossas posições ficando por cima. Tirei minha blusa e a joguei no chão ao lado da cama, então olhando para ele levantei a barra de sua camiseta e calmamente me inclinei para beijar sua barriga logo acima de sua cueca. – Mas eu não quero que você me respeite agora.
Segui com os beijos por toda a extensão de seu corpo, puxando sua camiseta para cima cada vez mais a medida que subia com os beijos, até que consegui a tirar completamente e alcancei sua boca novamente. Assim que o beijei uma de suas mãos foi automaticamente até minha nuca, a outra subiu por minha perna até alcançar minha bunda e pressionou meu corpo ainda mais contra o seu. Ele estava excitado e eu mais ainda.
Despertei dos meus pensamentos ao sentir meu celular vibrar. Era uma mensagem justamente dele.
“Eu sei que eu acabei de te deixar em casa e que eu não deveria ser afobado, mas posso te buscar no colégio amanhã pra almoçarmos juntos?”
“Eu adoraria”, respondi segundos antes de soltar um suspiro e começar a rir sozinha. Eu estava feliz. E estava feliz por estar me sentindo feliz. Mas principalmente feliz por estar me permitindo viver isso.
A propósito, tive um ótimo dia com minha família. Ajudei vovó a preparar o almoço, matei saudade da Natália e do Nicolas, combinei de passar a semana na casa do papai e pra melhorar ainda tive uma conversa com minha mãe que precisava ter tido há muito tempo.
— Por que o Marcelo não veio? – questionei me escorando na pia onde ela estava lavando o que sobrara de louça suja do almoço.
— Eu imaginei que você não fosse querer ele aqui e não quis te aborrecer. – ela respondeu.
Ficamos um tempo em silêncio, mas percebi que ela estava esperando que eu dissesse qualquer coisa. Afinal, fui eu quem comecei o assunto e eu nunca perguntei dele antes.
— Você tá feliz? – tornei a perguntar, dessa vez a olhando com atenção. – Com ele?
Ela sorriu para si mesma e assentiu.
— Eu tinha me esquecido de como era ser amada por alguém, Isa. E ele não somente me lembrou de como é isso, como também me lembrou de amar a mim mesma. – admitiu mamãe. Eu a entendi, porque já tive a oportunidade de saber exatamente como é essa sensação.
— Eu não odeio ele. – confessei finalmente baixando a guarda. – Só não acredito que você pensou que sua felicidade me incomodaria. Isso me magoou.
— Eu não pensei, querida. – mamãe começou a se explicar. Ela colocou o último prato sobre o escorredor, secou as mãos em um pano de prato e ao parar de frente para mim segurou minhas mãos. – Eu só sabia que tinha coisa demais acontecendo com você e que exigir que você aceitasse um estranho em nossa vida, principalmente num momento tão peculiar, seria muito. Eu tive medo de que você se fechasse mais comigo. Só isso.
Seus lábios revelaram um meio sorriso enquanto ela me olhava com aquele olhar de mãe, que prova que não importa o que a gente diga ou faça, ela nunca vai deixar de nos amar.
— Você é tudo de mais importante que eu tenho na vida e se eu tiver que escolher entre você e qualquer outra coisa nesse mundo, vai ser você. – prosseguiu mamãe. – Eu não queria que você pensasse o contrário. Não queria que você achasse que eu estava te deixando de lado.
— Eu não quero que você escolha entre mim e ele, tudo bem? – pedi sendo sincera. Eu nunca quis ser um empecilho na felicidade da pessoa que mais se importa comigo. – Você sabe que eu sempre torci para que você arrumasse um novo alguém, alguém que te merecesse e pudesse te fazer feliz. Talvez esse tenha sido um dos motivos para eu ficar magoada. Eu esperava ser a primeira a saber.
— Me desculpa. – pediu mamãe.
— Tudo bem, vamos apenas deixar isso pra trás. Prometo dar uma segunda chance a ele e tentar conhece-lo melhor.
— Eu ficaria muito feliz. – ela revelou e me puxou para um abraço.
Aninhada no meio dos braços da única pessoa que nunca me deu as costas, a lembrei mais uma vez:
— Amo você, mãe.
– Eu também te amo, querida. – ela respondeu.
Nós voltamos para perto de todos e embalamos em uma conversa animada. Estava tudo tão bem que foi uma pena terem tocado em um assunto específico. Quando já era noite e estávamos todos sentados na varanda conversando, o assunto acabou parando em mim e em como o colégio já está perto de acabar. Foi assim que minha mãe acabou fazendo uma pergunta pela qual eu não estava esperando.
— Tem notícias da formatura, Isabelle? – ela questionou.
Eu hesitei um segundo antes de responder, pensando se diria a verdade ou inventaria alguma coisa. Optei por ser sincera. Pelo menos no começo eu fui.
— O colégio entregou o contrato essa semana... – respondi com receio. – Era pra eu ter entregue assinado na sexta.
— Por que não falou nada com a gente? – indagou papai. Ele me olhou sério, mas parecia muito mais curioso do que bravo ou qualquer coisa similar.
— Eu tenho parado pra pensar e acho que dá pra fazer muita coisa melhor com esse dinheiro. – menti. Sempre odiei esse discurso porque não suportava a ideia de pular qualquer etapa da minha vida. Eu teria oportunidade de fazer qualquer outra coisa em qualquer outro momento, mas jamais teria a oportunidade de participar da minha formatura com os meus amigos novamente. Aquele momento não voltaria e muitos dos meus amigos podem e provavelmente não vão fazer parte do meu futuro. – Fazer uma viagem quem sabe...
— Vocês vão viajar, Isabelle. – ele argumentou.
— Dar entrada num carro pra eu poder ir pra faculdade... – insisti, mas ele apenas me olhava com cara de quem sabia o que eu estava fazendo. – E vocês nem sabem o que eu decidi pro meu futuro, se vou querer fazer faculdade aqui ou não.
— Ah é?
— É! Se eu for mudar de cidade vocês vão precisar guardar dinheiro.
De canto de olho pude ver o olhar de minha mãe sobre mim comprovando que para eu sair dessa cidade vou precisar brigar muito.
— Então tá. – respondeu papai calmamente e deu de ombros.
— Pai! – esbravejei. Ele tentou conter a risada.
— O que? Eu concordei!
— Concordou só pra me irritar.
Ele se espichou na poltrona ao meu lado, onde estava sentado, e segurou minha mão.
— Você sempre quis essa formatura, filha. – lembrou papai. – Mas é sua vida, o que você decidir fazer eu vou te apoiar.
— Menos mudar de cidade, porque essa daí não tem maturidade nenhuma pra isso. – intrometeu mamãe e todos rimos.
Eu amo meu pai por ser quem ele é comigo, por sempre confiar em mim e me dar tanta autonomia para fazer minhas próprias escolhas e andar com meus próprios pés, mas em situações como essa, eu só queria que ele me dissesse o que fazer. Queria que ele me chacoalhasse, me desse um sermão e dissesse “você vai sim e não tem mais conversa”, porque eu estou muito perdida. Me senti ainda mais quando entrei em meu quarto em sua casa, sentei na minha cama e olhei para a frente. Lá estava na parede, emoldurado, o disco do Oasis que Gabriel havia me dado. Dei um longo e profundo suspiro.
Naquela noite antes de dormir senti vontade de escrever em meu diário, mas tudo que saiu foi o trecho de uma música:
“Será que você vai lembrar onde é que você vai guardar o rascunho dessa história ou vai fazer fogueira pra queimar e ver que não dá pra fechar a biblioteca da memória”.
Ir pra aula no dia seguinte foi difícil porque eu sabia que em algum momento precisaria encarar Gabriel e Amanda, e então, eu decidi que a melhor forma de fazer isso seria não fugindo. Naquela manhã eu não fiz o que normalmente faria, que seria ficar trancada na sala de aula esperando que mais um dia acabasse e eu pudesse ir logo para casa ignorar todos os meus problemas. Eu os encarei de frente. Literalmente. Eu saí para o intervalo, comprei meu lanche e me sentei num banco onde eu pudesse vê-los. Eles estavam comendo juntos sentados em uma mesa, acompanhados de Gustavo e Bruno.
A primeira a me ver ali foi Amanda, que ficou visivelmente desconfortável, pois virou o rosto e fingiu não ter visto. Logo depois foi Gabriel. Ao contrário dela, ele não fingiu nada. Ele me olhou e eu não desviei o olhar. Olhei para ele de verdade, como não conseguia olhar desde que ele me machucou. Vi seus cabelos bagunçados. Vi cada traço do seu rosto. Vi seus olhos, seu nariz, sua covinha, sua boca. Vi mais uma vez o quão lindo ele é, mas por um instante sua beleza não fez mais sentido para mim. Olhei novamente para frente e foi como se uma voz dentro de mim me dissesse que eu conseguiria. A partir daquele momento eu me colocaria em primeiro lugar.
Eu respirei fundo e comecei fazendo uma coisa por mim mesma. Me levantei, fui até a sala, peguei o contrato da formatura que estava guardado em minha mochila e falsifiquei a assinatura do meu pai. Eu sabia que ele não se importaria. Após assinar segui rumo à diretoria. O sinal tocou indicando que o intervalo havia acabado, mas prossegui andando na direção contrária a multidão. Ao chegar em frente a sala de Rosângela pude vê-la sentada em sua mesa, concentrada escrevendo algo. Bati na porta e esperei que ela olhasse para mim.
— Oi, querida! – ela disse sorrindo. – Posso te ajudar em alguma coisa?
— Posso falar com você um segundo? – pedi. – Prometo não roubar muito do seu tempo, só queria ver uma coisa com você.
— Claro, pode entrar!
Eu entrei, mas nem sequer me sentei. Apenas coloquei o contrato em sua mesa e fui direto ao assunto.
— Na semana passada eu não entreguei meu contrato da formatura e queria saber se ainda dá tempo. Eu gostaria muito de ir.
— Mesmo se não desse, eu conversaria pessoalmente com a empresa para que eles se virassem. – ela respondeu me arrancando um sorriso. – Eu estou muito feliz que você vá participar. Estranhei você ter ajudado a organizar tudo e não ir.
— Eu não sabia se seria uma boa decisão, mas eu não posso abrir mão desse sonho. – confessei.
— Eu não poderia concordar mais. – disse Rosângela. – E já que você está aqui e estamos falando de formatura, eu quero te pedir um favor. Eu percebi que suas notas não foram muito boas no bimestre passado. Você não se saiu muito bem nas provas finais, inclusive nas disciplinas em que geralmente tem resultados muito bons. Fiquei um pouco preocupada e acredito que seria melhor que você recuperasse esse desempenho agora do que correr o risco no final do ano. Queria te aconselhar a começar a vir nas aulas auxiliares que damos durante o período da tarde. O simples fato de você vir já te garante crédito extra com os professores e eu tenho certeza que te ajudaria muito. Você pode pensar a respeito, por favor?
— Posso sim. – concordei. – Obrigada pela dica!
— Por nada, querida!
Foi só quando sai de sua sala que me dei conta de que eu nem sequer havia entrado no portal para olhar minhas notas do último bimestre, mas eu tinha certeza de que havia ido realmente mal. Me lembro de não ter conseguido responder a praticamente nenhuma das perguntas das provas depois de ter visto Gabriel. Me sentei em um banco do pátio para olhar minha situação e ela estava muito pior que eu imaginava. Teria que me esforçar muito para recuperar toda a nota que perdi. Voltei para a sala sabendo que a partir de hoje não poderei mais ficar olhando pro tempo nem pro ventilador.
Quando a aula acabou e eu saí do colégio, Vinícius já estava estacionado do outro lado da rua esperando por mim. Nós almoçamos em um restaurante onde ele costuma comer e depois aproveitamos que não fica ninguém na casa do meu pai a tarde para irmos pra lá. Foi estranho levar Vinícius ali, porque o único cara que já havia levado para a casa do meu pai fora Gabriel. Principalmente porque ele pareceu ter se incomodado um pouco ao ver o disco do Oasis pendurado na parede, mas não comentou nada.
— Você fez formatura no Ensino Médio? – perguntei guardando minha mochila no guarda-roupa e aproveitando para procurar por uma roupa que pudesse vestir no lugar do uniforme que estava usando. Ele se sentou na beirada da minha cama.
— Fiz, por que?
— Foi divertido? – tornei a perguntar ignorando seu questionamento. Encontrei um vestidinho mais fresco e me troquei ali mesmo em sua frente. Ele não respondeu até que eu me virasse de volta para ele. Não soube se porque estava ocupado demais me observando ou porque queria ver meu rosto e descobrir onde eu queria chegar com esse assunto.
— Sim, acho que foi a melhor coisa da época da escola. – ele respondeu me puxando para perto. Me encaixei no meio de suas pernas e abracei seu pescoço.
— Eu entreguei meu contrato de formatura hoje num momento de impulso, mas to com medo. – confessei.
— Medo do que?
— Nós vamos viajar e a única pessoa que me quer por perto é a Leticia. Tenho medo de atrapalhar esse momento pra ela, de tudo ser um grande desastre, de eu não conseguir me divertir e me arrepender. Mas ao mesmo tempo eu sempre sonhei com essa formatura e viver esse momento, eu não quero tirar isso de mim.
— Eu tenho certeza de que ela não é a única que te quer por perto. Você já experimentou tentar se abrir um pouco? Tentar conversar com qualquer um de seus antigos amigos? Você se fechou com todo mundo quando tudo aconteceu. Aposto que tem muita gente apenas esperando uma brecha pra poder voltar pra sua vida. E ainda tem muita coisa pra acontecer até lá, Isa. Eu sei que tudo vai melhorar, assim como também sei que tudo vai dar certo.
— Espero que sim. – sussurrei e o empurrei contra a cama para que pudéssemos nos deitar. Chegamos para trás e nos aconchegamos melhor até que acabássemos abraçados de conchinha. – E ah, eu também vou ter que começar a ir pro colégio a tarde. Conversei com a diretora hoje e depois de tudo que aconteceu minhas notas não estão muito boas.
— Isso significa que eu não vou poder ficar te chamando pra almoçar pra te roubar pra mim a tarde inteira? – ele brincou me fazendo rir.
— Infelizmente sim. – respondi. – Mas você pode me visitar a noite e a gente se vê nos finais de semana.
— Seus pais não vão achar ruim a gente ficar se vendo a noite?
— A gente fala pra eles que você é meu amigo da faculdade que tá me ajudando nas matérias e vamos pro meu quarto estudar.
— A gente pode estudar de porta fechada? – perguntou Vinícius e me deu um leve beijo na nuca.
— Sim e sem roupa de preferência.
— Eles não vão cair nessa.
— A gente dá um jeito. – prometi e me virei para dá-lo um selinho.
Estar com o Vinícius era muito mais fácil que estar com o Gabriel. Com ele não existem enigmas, perguntas para quais nunca terei resposta, problemas não resolvidos. Eu não vivo o relacionamento sozinha. Ele faz questão de estar comigo, de saber sobre o meu dia, de me deixar feliz. Descobri com ele uma reciprocidade que nunca havia experimentado.
Comecei a ficar à tarde no colégio para conseguir recuperar minhas notas. Saia todo dia ás 16h, ele me buscava, passávamos um tempo juntos e depois me deixava em casa. Acabei conhecendo melhor Paola, a namorada de Lucas, e nos divertíamos bastante nós quatro. Naquele final de semana até saímos todos juntos, fomos a um bar karaokê. Todos estavam bastante animados com a semana seguinte, porque as aulas da faculdade estavam prestes a voltar e seria a primeira vez dos três como veteranos. Do dia 19 ao dia 23 aconteceria a recepção formal dos novos alunos na UFPR e é geralmente quando a maioria dos calouros começam a chegar na cidade, mas somente na semana do dia 26, que seria a primeira semana de aula e todos os alunos já estão presentes, que aconteceria a recepção organizada pelos veteranos de cada curso.
Foi por isso que na semana do dia 19 Vinícius estava eufórico. Sempre que me buscava no colégio ele e Lucas falavam sem parar sobre as gincanas que estavam preparando, as apresentações, os trotes, as festinhas nos bares e tudo o mais que aconteceria. Acho que nunca o vi tão animado com algo.
Um nome que comecei a ouvir frequentemente no meio da conversa dos dois era Valentina e isso me deixou um pouco incomodada. Valentina é a ex ficante de Vinícius, que eu já havia visto em nosso primeiro encontro e que por acaso pelo que eu me lembrava era bastante bonita. Eu não sabia que os dois ainda tinham tanto contato, mas descobri que ela também faz parte da atlética e das líderes de torcida do curso. Eu nem sabia que existia líderes de torcida nas faculdades do Brasil.
Por ouvir tanto seu nome acabei me pegando em uma noite qualquer voltando a utilizar minhas redes sociais apenas para stalkeá-la. Comprovei o que eu me lembrava: a garota é bonita pra caralho. Bonita estilo um milhão de fotos de biquíni no instagram porque sabe que é gostosa. E por um acaso também encontrei Vinícius em alguma de suas fotos, a maioria em grupo com outras pessoas da faculdade, mas encontrei uma apenas dos dois e ela era do mês passado. Ele sorrindo para a câmera com ela beijando seu rosto. A legenda era “Um crush desses”, um emoji de cerveja, um emoji de rostinho com olhos de coração e um emoji de coração. Nos comentários ainda tinha um: “eita casal que ainda vai dar o que falar”.
Isso me incomodou bastante.
Fiquei morrendo de ciúmes, mas me contive. A foto era de antes de nós voltarmos a ficar e não me importava o que ele tinha vivido antes de nós. Aliás, nem tenho direito de me importar, visto que ele sempre me aguentou a falar sobre minha história com Gabriel sem nunca reclamar. Porém, quando terminei de stalkear ela, fui stalkear ele e cada fotinha com uma menina diferente me dava mais ciúmes. Acabei mandando uma mensagem para ele em que dizia:
“Por que você tem que conhecer tanta mulher bonita?”
Essa conversa gerou algo que eu não esperava.
Vinícius: “Kkkkk Como assim?”
Isabelle: “To te stalkeando e nossa senhora. Quero uma foto minha nesse instagram, me chamando de amor da sua vida”
Vinícius: “Ah é?”
Isabelle: “Não precisa da parte do amor da sua vida, mas pode deixar bem claro que agora você tem dona”
Vinícius: “Tenho dona e não to nem sabendo, ta bom então”
Isabelle: “Kkkkkk to brincando, só to com um ciuminho de leve”
Eu de fato estava brincando e ele não respondeu mais, então prossegui stalkeando. Me divertia sabendo mais da vida dele. Já estava no perfil do Lucas no facebook, vendo foto deles no Ensino Médio, quando meu celular apitou. Ao olhar na tela, vi uma notificação do instagram: Vinícius Bettoni marcou você em uma foto. Meu coração acelerou e por um segundo eu fiquei extremamente confusa. Primeiro sem acreditar que Vinícius pudesse de fato ter postado uma foto nossa e segundo que nós nunca tiramos uma foto juntos só nós dois. A única foto que tenho com ele, Lucas e Paola também estão na imagem.
Abri a notificação morrendo de curiosidade e realmente me deparei com uma foto nossa. Uma que eu nunca tinha visto. Estávamos sentados no chão do seu apartamento, comigo no meio de suas pernas, olhando um para o outro e rindo espontaneamente. Era uma foto tão linda que passei uns cinco minutos sorrindo olhando para ela. Era como se eu pudesse sentir apenas em olhar, o quão bem eu estava me sentindo naquele momento, o quão bem ele me faz.
Foi só depois de passar um bom tempo encarando a tela do celular que me lembrei de olhar a legenda: “To esperando ela me assumir” e um coração. Já haviam quatro comentários, um de Paola dizendo “lindoooos”, um de Lucas dizendo “assume ele, isa. vou ter que começar uma campanha?” e os outros dois eram de caras que eu não conheço, mas que diziam “não acredito que ela existe mesmo” e “casou e nem apresentou pra gente ainda”.
Senti um frio na barriga e dei um sorrisinho para mim mesma, porque foi só nesse momento que eu percebi uma coisa: minha história com Vinícius realmente está acontecendo. Mandei uma mensagem para ele na mesma hora:
Isabelle: “Por que eu não sei da existência dessa foto?”
Vinícius: “O Lucas tirou da gente sem vermos, fiquei com vergonha de te mandar”
Isabelle: “Por que?”
Vinícius: “Sei lá, você podia achar ruim ou invasivo”
Isabelle: “Não achei, inclusive agora quero duas coisas. A foto e te ver.”
Vinícius: “Me ver quando?”
Isabelle: “Agora. Vem me buscar pra eu dormir com você?”
Vinícius: “Chego em 15 minutos”
Juntei minhas coisas, enfiei todas em uma mochila e enviei uma mensagem para minha mãe dizendo que iria passar uns dias na casa de Natália. Em seguida, enviei uma mensagem para Natália dizendo que estava indo para a casa do boy e que se mamãe perguntasse era pra dizer que eu estava com ela. São pra isso que as irmãs mais velhas servem não é mesmo? Te acobertar nessas horas.
Vinícius chegou tão rápido quanto disse que chegaria e a primeira coisa que fiz quando entrei no carro foi beijá-lo.
— Sua mãe não vai achar ruim você sair de casa essa hora? – ele perguntou assim que nos separamos.
— Ela foi jantar com o namoradinho. – expliquei. – Mandei uma mensagem dizendo que vou passar uns dias com minha irmã. Posso ficar contigo por quanto tempo quiser.
— Posso te devolver no domingo?
— Hoje é sexta, Vine. – o lembrei. – Você não vai me aguentar tantos dias.
— Aguento sim. – ele afirmou me dando um último selinho antes de dar partida no carro.
Nós seguimos para seu prédio com a intenção de fazer algo que se tornou minha coisa preferida nos últimos tempos, subir para o terraço, ficar olhando o céu e conversando besteiras.
— Eu tava pensando hoje, como foi quando você saiu de casa? – perguntei a Vinícius. Estávamos sentados no chão, terminando uma garrafa de vinho e comendo uma das melhores pizzas que já experimentei. Compramos em um lugar que ele me apresentou onde fazem massa recheada de queijo. – Seus pais devem ter ficado muito tristes, principalmente por você ser filho único.
— Bastante! Minha mãe e a mãe do Lucas olharam uns cinquenta apartamentos até escolherem o nosso, compraram tudo que a gente precisaria, até panelas que eu ainda não descobri a utilidade. – contou me fazendo rir. Acho que essa seria eu morando sozinha. Como nem minha mãe sabe cozinhar, o máximo que aprendi foi fazer coisas no microondas. – E quando finalmente veio me trazer pra eu ficar de vez, chorou como se nunca mais fosse me ver.
— Aposto que você ao contrário dela ficou bastante feliz.
— Eu tava surtando de felicidade! – admitiu Vinícius. – Eu e meu melhor amigo mudando pra uma cidade nova, pra morarmos sozinhos. Esse é basicamente o sonho de todo adolescente! No primeiro mês a gente torrou o dinheiro todo em cerveja e fast-food, sem zoeira, aí percebemos que teríamos de criar responsabilidade ou voltaríamos pra casa no mês seguinte.
— E a parte de poder levar qualquer garota pra casa? – indaguei curiosa. Não imagino Vinícius sendo mulherengo, mas também sei que ele tá bem longe de ser um santo.
— Assim que cheguei aqui já me enrolei com alguém, então não aproveitei muito isso. – ele confessou.
— Valentina? – deduzi.
— Aham.
— Ela é da sua sala? – insisti no assunto tentando parecer indiferente, mas a verdade é que tenho andado bastante curiosa com tudo que diz respeito a ela.
— É minha veterana.
— Como vocês começaram a ficar?
— A gente se deu bem durante a semana de recepção e eu tava muito interessado nela, mas tinha acabado de chegar na cidade, era só um garoto que acabou de sair do ensino médio, obviamente não tentei nada. Aí na minha primeira festa aqui, estávamos conversando sobre sexo, motel e essas coisas, ela virou pra mim e disse “quando você vai perceber que eu to dando em cima de você?”
— Nossa! – exclamei. – Direta ela ein!
— Pois é.
Fiquei com um pouquinho de inveja dessa determinação e coragem, se depender de mim pra chegar num cara desse jeito acho que eu morro sozinha.
— Eu nunca fui num motel. – aproveitei o gancho para mudar de assunto, antes que ele percebesse meu interesse repentino pelo seu passado.
— Não? – ele perguntou parecendo surpreso.
– Eu tenho 17 anos, Vinícius. Você é o terceiro cara com quem eu transo na minha vida.
— Eu esqueço disso.
— Aliás, qual vai ser a reação da sua mãe quando souber disso? – indaguei. – Que você tá namorando uma menina que ainda nem saiu do colégio?
— Eu to namorando, é? – provocou Vinícius em tom de brincadeira.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Não entendi não, explica isso aí direito, tá querendo conhecer sua sogra? – ele continuou.
— Vinícius... – repreendi.
Ele riu, mas começou a falar sério.
— Sinceramente, ela vai surtar. Vai me dar um sermão do tamanho de uma missa, mais ou menos assim... – e então, começou a imitar a voz de sua mãe. – “Eu espero que os pais dessa menina saibam disso, Vinícius Bettoni! E espero que você tenha boas intenções com ela! Você encapa esse pinto porque essa menina é nova demais pra aparecer grávida, deus que me livre! Eu mato você, menino! Toma cuidado com essa menina, pelo amor de deus! Ela é só uma menina!”
— Ela parece ser divertida. – afirmei, o que realmente acredito, mas me senti levemente incomodada. Apesar de eu e Vinícius termos pouco tempo de diferença em relação a idade, tenho me sentido de fato muito menina para ele.
— Que foi? – perguntou Vinícius percebendo meu leve incômodo.
— Nada. – menti, mas tratei de melhorar minha expressão. Não queria estragar a noite, principalmente com esse assunto. – Só to aqui pensando quando é que você vai me levar num motel.
Ele riu e me puxou pra perto.
— Podemos ir agora mesmo se você quiser!
Nós passamos o resto do final de semana juntos e estava tudo muito bem, parecia até que eu havia entrado em uma realidade paralela onde as coisas dão certo para mim. Mas óbvio, que alguma coisa tinha que acontecer para me fazer acordar pra realidade e me lembrar que é a minha vida.
Estava deitada em sua cama no domingo esperando ele terminar de tomar banho, quando seu celular vibrou ao meu lado. Eu juro que foi completamente sem querer e sem pensar. A luz acendeu, apareceu uma mensagem na tela e eu peguei para ver o que era. Acontece que era uma mensagem de Valentina e eu não gostei nada do seu conteúdo:
“Tem sido difícil ignorar meus sentimentos por você. Você sabe que ainda gosto de ti e que sinto sua falta, não consigo parar de pensar nisso, principalmente com a gente passando tanto tempo juntos”
Eu fiquei tão sem reação que coloquei o celular dele no mesmo lugar e fiquei quieta. Remoí aquela mensagem um milhão de vezes na minha cabeça, mas quando ele saiu do banheiro fingi que não tinha visto nada. Sabia que ele não tinha culpa de receber uma mensagem dessas repentinamente, mas me incomodou. E como incomodou. Incomodou tanto que desencadeou uma série de acontecimentos.
Se a semana anterior havia sido corrida, essa estava pior ainda. Já era sexta e eu e Vinícius não tínhamos nos visto ainda. Desde segunda ele estava passando o dia todo na faculdade seguindo a programação que prepararam pros calouros e a noite iam encher a cara em algum bar, aí ele voltava bêbado pra casa, me ligava e me contava tudo que aconteceu. Eu me finjo de entusiasmada, porque sei que ele está, mas a verdade é que simplesmente não conseguia esquecer a mensagem que vi de Valentina e também não conseguia ignorar o fato de que ela está em todos esses rolês, bebendo e se divertindo com ele.
Hoje eles iriam pro bar apenas de dia então ele me prometeu que viria me buscar no colégio pra matarmos a saudade. Eu dormiria na casa dele pra irmos juntos em uma festa que vai acontecer amanhã em uma república. É a festa mais aguardada da semana de recepção. Bom, eu esperei ansiosamente por ele, mas me decepcionei bonito. Quando saí do colégio Vinícius ainda não estava ali na porta. Estranhei porque ele nunca se atrasou para algo que marcou comigo, mas me encostei no muro para esperar. Acreditei que ele estava chegando.
Se passaram meia hora e nem sinal dele. Resolvi mandar uma mensagem, mas ela nem chegou ao destinatário. Alguma coisa deve ter acontecido. Me sentei no chão e continuei esperando. Mais meia hora e nada. Tentei ligar e deu caixa de mensagem. Pensei em ir embora, mas provavelmente ele estaria sem bateria no celular e se estivesse chegando não me encontraria nem conseguiríamos nos falar.
Esperei por mais vinte minutos. Começou a escurecer e eu comecei a ficar verdadeiramente preocupada. Vinícius não me deixaria plantada por mais de 1 hora esperando por ele se não tivesse acontecido algo. Foi então que tive a ideia de ligar para o Lucas, ele com certeza estaria com ele. Chamou uma, duas, três vezes e nada. Ninguém atendeu. Minha cabeça começou a imaginar um milhão de coisas e nenhuma delas era boa. E se ele tiver batido o carro? Sofrido algum acidente? Passado mal? Entrei em uma paranoia tão grande que insisti em ligar pro Lucas, já que pelo menos o telefone dele chamou. Liguei a segunda vez. A terceira. Na quarta ele atendeu.
— Alô. – disse uma voz feminina.
— Quem? – indaguei estranhando. Eu liguei para o número errado?
— Miga, é a Paola. – ela respondeu. – O Lucas tá tomando banho.
— Desculpa incomodar, só queria saber se vocês estão com o Vinícius. Não estou conseguindo falar com ele.
— Não, a gente veio embora mais cedo. Ele tinha ficado no bar com uns amigos. Quer que eu tente falar com algum deles?
— Se você puder eu agradeço, to um pouco preocupada. – confessei. – Ele tinha combinado uma coisa comigo e não apareceu.
— Ok! Vou tentar e te mando mensagem.
— Tá bom, obrigada. – agradeci.
Assim que desliguei o telefone achei melhor chamar um taxi. Já estava escuro, não havia movimento nenhum na rua e continuar ali sozinha seria o mesmo que pedir para ser assaltada. Passei o caminho todo para casa aflita, esperando qualquer resposta de Paola, mas demorou. Foi só quando já estava em casa que recebi uma mensagem.
“Miga, ele tá na casa da Valentina. Parece que ela bebeu demais e ele foi levar ela embora.”
Eu li a mensagem umas três vezes para ver se eu tinha lido direito.
Ele estava na casa da Valentina.
A menina que praticamente se declarou pra ele dias atrás.
Eu praticamente tendo um colapso achando que qualquer coisa ruim possa ter acontecido com ele e ele só está na casa da ex.
Me deixou plantada por mais de 1h esperando por ele para dar carona pra ex.
Sem dar notícia nenhuma, satisfação nenhuma ou um aviso que fosse.
Senti uma raiva tão repentina que tive de me esforçar para não chorar. Num ato de impulso peguei meu celular e mandei uma mensagem para ele:
“Obrigada pela consideração e por me fazer de trouxa”.
— Vai pra puta que pariu! – xinguei tacando o telefone na cama.
Tirei minha roupa com a delicadeza de um cavalo e entrei no banheiro a fim de tomar um banho. Tentei colocar na minha cabeça que eu estava exagerando, mas tudo que conseguia fazer era me lembrar do quanto já fui feita de trouxa pelo Gabriel. Não quero passar por isso de novo. Não quero confiar em alguém de novo e quebrar a cara. Não quero acreditar que as coisas estão bem e de repente levar um belo tapa na cara da vida. Acabei chorando por motivos que nem entendi.
Quando saí do banheiro, me vesti, peguei meu celular e fui para a cozinha procurar por qualquer coisa de comer que pudesse me deixar melhor. Assim que abri a geladeira o celular tocou em minha mão. Era uma ligação de Vinícius. Recusei e foi só então que vi que já tinham nove ligações perdidas dele. Ele ligou de novo. Rejeitei de novo.
Recebi uma mensagem.
“Isa, eu sei que você tá brava, mas deixa eu pelo menos explicar o que aconteceu. Você tá imaginando coisa que não tem nada a ver. Eu to na porta da sua casa.”
Ignorei a mensagem. Ele ligou de novo. Rejeitei a ligação de novo. E recebi mais uma mensagem.
“Você sabe que eu não faria algo com a intenção de te chatear, não sei porque tá agindo assim. Eu não vou sair daqui até falar comigo.”
Bati a porta da geladeira e bufei.
Saí a passos largos e pesados pela casa rumo a entrada e abri o portão já preparada para brigar.
— Me desculpa. – foi a primeira coisa que Vinícius disse assim que me viu. – Por favor, me desculpa, não é nada do que você tá pensando.
— Então se explica logo. – respondi sendo completamente seca.
— Meu celular acabou a bateria quando eu estava no bar e não tinha onde colocar pra carregar, mas eu nem me importei porque quando desse a hora de te buscar eu iria. – ele disparou a falar. – O problema foi que a Valentina bebeu muito e disse que tava passando mal, me pediu pra levar ela embora e eu levei. Ela vomitou, eu esperei ela tomar banho, dei um negócio pra ela comer e fui pra casa. É óbvio que eu tava preocupado com você, mas não tinha como eu te ligar.
— Ela não tem telefone?
— Tem, mas o celular dela também tava sem bateria e eu não achei o carregador.
— Claro! O celular de todo mundo resolveu acabar a bateria do nada! – ironizei.
— Isabelle, a gente tá na rua com os bixos desde as 8h da manhã, é lógico que em algum momento a bateria iria descarregar. Mano, eu não achei que você ficaria brava, te conhecendo eu imaginei que você iria entender o fato de eu tentar ajudar alguém que estava sozinha e passando mal.
— Eu fiquei plantada por mais de hora te esperando, tentando falar contigo, nervosa e preocupada, imaginando um milhão de coisas ruins que você poderia ter acontecido, Vinícius. – esbravejei. – Pra descobrir que você estava com alguém que no caso é a sua ex que dias atrás te mandou mensagem dizendo que ainda sente sua falta e ainda te quer. Como você quer que eu fique? De boa?
Ele permaneceu quieto e calado por alguns longos segundos, apenas me encarando e eu me arrependi instantaneamente de confessar que vi seu celular.
— Você viu a mensagem? – indagou Vinícius parecendo tentar processar essa informação e parecendo finalmente entender o motivo de eu estar tão exaltada.
— Vi. Apareceu na sua tela de notificações e eu vi sem querer. – respondi me justificando.
— Eu não sinto mais nada por ela, Isabelle. Na verdade nunca senti. – ele afirmou com convicção. – Eu te mostro o que eu respondi.
— Eu não quero ver.
— Eu quero que você veja. – ele retrucou pegando o celular e abrindo em sua conversa com ela. Em seguida espichou o braço em minha direção me entregando o telefone. – Toma!
Eu hesitei em pegá-lo, mas peguei apenas porque ele não parecia disposto a me deixar negar.
“Valentina, eu to com alguém, to feliz e você sabe disso. A gente combinou de ser amigos, espero que você não estrague isso”, era o que dizia sua mensagem de resposta. Ela visualizou e não respondeu mais. A conversa acabou ali.
Entreguei o celular para ele, mas não desfiz minha cara de brava.
— Por que justo você tinha que ajudar ela? Não tinha mais ninguém ali? – insisti.
— Das pessoas que sobraram eu era o único que tinha carro.
Eu não tinha mais como argumentar e a essa altura não tinha mais sequer motivo para ainda ficar bancando a durona. Mas eu ainda estava chateada, chateada porque eu gosto do Vinícius e sentir que ele pudesse ter feito algo assim comigo me doeu de verdade.
— Eu não tinha intenção de te deixar preocupada, brava ou qualquer outra coisa, Isa. Mas eu não tinha como deixar a menina ali sozinha, e se acontecesse alguma coisa com ela?
— Tá, Vinícius. – respondi de forma grosseira, na intenção de encerrar o assunto, mas não conseguia sequer olhar em seus olhos.
Ele com toda a paciência que eu jamais teria, se aproximou de mim e segurou meu rosto o puxando para sua direção e me obrigando a olhá-lo.
— Eu não quero brigar. – ele sussurrou.
— Nem eu. – confessei. – Mas ainda to chateada, mesmo que sem motivo. Muita coisa passou pela minha cabeça. Me desculpa, tá. Só preciso de um tempo.
— Não peça desculpa, fui eu que fiz merda.
— Não, tá tudo bem. – garanti.
— Você ainda vai comigo amanhã? – ele questionou. Não estava nem me lembrando dessa festa mais.
— Que horas você vem me buscar?
— 16h to aqui na porta se você quiser.
— Ta bom, eu vou sim. – confirmei. – Mas a gente se vê amanhã, ok? Eu preciso entrar.
— A gente tá bem? – perguntou Vinícius antes de me deixar ir. Dava para perceber até mesmo pelo tom de sua voz o quão preocupado ele estava.
Eu assenti com a cabeça, me aproximei dele e o dei um longo selinho. Em troca recebi um beijo na testa antes de voltar para dentro.
Assim que me deitei na cama um milhão de coisas se passaram pela minha cabeça. Eu sabia que tinha exagerado com o Vinícius, mas é que por um instante, foi como se a realidade quisesse jogar na minha cara que não vai aparecer alguém do nada e me salvar de todos os meus próprios problemas e traumas. Me levar para um mundo diferente onde a vida pode ser mágica novamente. Ter Vinícius comigo tem sido tanta sorte que percebi que só estou conseguindo seguir adiante por sua causa, mas não sei até que ponto isso pode ser bom. Significa que sozinha continuo completamente desestabilizada.
A primeira coisa que fiz ao acordar foi ligar para ele me desculpando. Conversamos até eu conseguir convence-lo de que estava tudo bem e que nós estamos bem. Combinamos dele me buscar no mesmo horário que ele tinha dito ontem e lá fui eu começar a luta para tentar ficar bonita a sua altura. Era uma festa de faculdade, do curso do Vinícius, com as pessoas que estudam com o Vinícius, com os amigos do Vinícius e eu iria acompanhada com o Vinícius. Eu precisava causar uma boa impressão. Revirei meu guarda-roupa inteiro e não encontrei nada que me agradasse. Revirei o guarda-roupa da minha mãe e também não encontrei nada. Experimentei no mínimo umas vinte peças de roupa e terminei deitada na cama de calcinha e sutiã prestes a chorar e dizer que não ia.
— Deus, por que ser mulher é tão difícil? – resmunguei.
Cogitei sair para comprar algo, mas não dava mais tempo. Em menos de 2h Vinícius estaria ali pra me buscar. Já estava quase desistindo quando me lembrei que Natália havia deixado algumas das roupas que não usava mais em seu antigo quarto quando se mudou. Pra minha sorte encontrei um vestido preto que sempre amei e que me serviu perfeitamente. Seria aquilo mesmo.
Me arrumei o mais garotinha que pude. Ondulei meu cabelo e o deixei solto, passei maquiagem, coloquei uns acessórios, calcei um sapato bonitinho e aceitei que era o melhor que eu conseguiria fazer. Terminei pouco antes de ouvir a buzina do carro de Vinícius em minha porta. Assim que abri o portão, ele estava em pé próximo ao seu carro, parecendo um pouco apreensivo. Usando uma camiseta da atlética, uma bermuda branca e tênis. Me lembrei da primeira vez em que saímos juntos, ele ficara me esperando desse mesmo jeito. Me aproximei com um sorriso no rosto e fiz questão de o dar um beijo.
— Você tem certeza de que quer que eu vá? – questionei uma última vez. – É sua festa, não quero que se preocupe em ficar me dando atenção.
— Sim, Isa. Eu tenho. Não vai ter graça se você não for. – afirmou Vinícius.
— Tudo bem.
Nós entramos no carro e seguimos em direção ao nosso destino. Assim que chegamos na rua do local, ela já estava lotada de carro em todos os lugares. Vinícius estacionou no primeiro lugar que encontrou e nós descemos. Encontramos Lucas e Paola nos esperando na entrada do que parecia ser uma casa normal. Haviam dois caras no portão recebendo os ingressos, os quais Vinícius me apresentou como Igor e Rafael. Ambos são da sua sala e também participam da atlética do curso. Igor pegou os ingressos e o tal Rafael colocou uma pulseira em nossos braços para entramos. Logo na entrada já avistei algumas pessoas bebendo e já dava para ouvir a música alta que tocava em algum lugar dali.
— Os vizinhos não reclamam do barulho? – questionei.
— É por isso que começa cedo e só vai até as 22h. – explicou Vinícius. Faz todo sentido.
A casa estava toda fechada. Nós atravessamos um corredor na lateral da mesma, onde havia mais gente e aí sim chegamos a parte de trás onde de fato acontecia a festa. Era um quintal bem grande. Encostado na casa estava o dj e muitas caixas de som, no fundo havia uma varanda onde estava posicionado os bares e os banheiros, e no meio de tudo ainda tinha uma piscina. Havia muita gente no lugar e a pior parte é que Vinícius cumprimentou grande parte das pessoas. Eu, claro, tive que sorrir e ser simpática com todos mesmo estando extremamente constrangida. O que mais me deixava desconfortável era perguntas e comentários do tipo “é sua namorada?”, “não sabia que você namora”, “tá namorando desde quando?”, porque Vinícius tinha que explicar que somos “apenas amigos”. Alguns ainda brincaram por causa da foto que ele postou. Mas absolutamente todo mundo foi muito receptivo e educado comigo.
Assim que ele terminou de cumprimentar seus amigos, nós fomos até o bar pegar uma bebida e nos acomodamos em um dos espaços vazios.
— É todo mundo do curso de vocês? – perguntei.
— Não, a galera de outras engenharias também vem, mas o ingresso é mais caro para eles. – respondeu Vinícius.
— É de graça pros bixos, 10 reais pra veteranos e 20 reais pra acompanhantes e galera de outros cursos. – complementou Lucas. Ainda me choca esses open bar pelo preço de uma coca-cola.
— Por que é de graça só pros bixos? – tornei a perguntar.
— Porque a festa é feita com o dinheiro que eles conseguem nos trotes e porque é a primeira festa deles na faculdade.
— Essas festas de recepção são sempre as melhores, porque o intuito é basicamente fazer eles ficarem loucos e se divertirem como nunca. – disse Paola. – Daqui a pouco você vai ver.
— O Lucas passou mal na nossa festa de recepção. – lembrou Vinícius o zombando.
— Ah, cala a boca! Você só não passou porque tava focado em pegar a Valentina!
Valentina. Eu tinha me esquecido completamente de que ela com certeza estaria aqui. Vinícius lançou um olhar para Lucas que com certeza dizia: não toque nesse nome de novo. Eu continuei quieta na minha bebendo minha bebida, mas percebi que não conseguiria disfarçar minha cara de bosta quando a visse. Espero do fundo do meu coração que ela não tenha a audácia de me cumprimentar.
Pro meu azar, não muito tempo depois, entre todas as pessoas que chegavam, reconheci um rosto muito bem maquiado. Com um cabelo que pareceu ter sido hidratado 37 vezes apenas para aparecer nessa festa, vestindo o uniforme das cheerleaders, Valentina chegou acompanhada de algumas amigas. Estava tão ocupada a encarando que me assustei quando uma voz doce cumprimentou a roda.
— Oi, gente! – disse uma garota. Pouco mais alta que eu, com longos cabelos castanhos iluminado por luzes loiras e um sorriso extremamente bonito.
Ela cumprimentou todos na roda, mas pareceu especialmente feliz por ver Lucas e Vinícius.
— Maryna, essa é a Isa. Isa, essa é a Maryna. – nos apresentou Vinícius. Maryna sorriu abertamente para mim e me cumprimentou com um beijo no rosto. Ela me pareceu muito fofa e simpática.
— Como estão se sentindo como veteranos? – perguntou Maryna.
— Aliviado de não ter mais que pagar cerveja pra ninguém. – respondeu Vinícius arrancando uma breve risada dela.
— Aposto que viveu vida de rei essa semana nos bares.
— Bebi todo dia sem gastar um centavo.
— Somos dois.
— Não tá rolando festa do curso de vocês? – ele questionou. – tinha ouvido falar que a festa do Direito ia ser louca.
— A nossa foi ontem. – ela explicou.
Eles embalaram numa conversa sobre assuntos triviais para qual não dei muita atenção. Ainda estava cismada com a Valentina. Ela passou por perto de nós e me encarou com uma cara nada boa, mas eu tinha certeza que a minha não estava muito melhor. Aproveitei para segurar a mão de Vinícius e voltar minha atenção para a roda. Fiz isso no exato instante em que a tal Maryna se despediu e saiu dali.
— Ela é sua amiga? – questionei a Vinícius. – Parece ser legal.
— Na verdade não. – ele respondeu nitidamente sem graça. Estranhei um pouco e continuei o encarando esperando por uma resposta mais completa. – É minha ex namorada, a de quem eu te falei.
Eu não tava esperando por essa resposta, até travei por uns segundos.
— Eu não sabia que vocês ainda tinham contato. – disse.
— Não temos. – ele explicou. – Ela também ta aqui em Curitiba, mas só nos esbarramos vez ou outra e nos cumprimentamos por educação.
Confesso que fiquei um pouco impactada com essa informação. Não esperava por isso. Ele sempre fala dela no passado como se fosse um passado tão distante que não se passou pela minha cabeça que ela ainda pudesse fazer parte da vida dele, principalmente porque ele fala dela com muito carinho. Mas resolvi deixar pra lá, porque tenho que respeitar o passado dele e se eles são amigos significa que se respeitam. E depois de eu já ter causado por causa da Valentina, acho que a última coisa que preciso é resolver sentir ciúme de outra pessoa também.
Deixei pra lá e resolvi focar em me divertir. Vinícius só se divertiria se soubesse que eu estava bem e ele passou muito tempo entusiasmado com essa festa pra eu estragar ela. Deixei até Valentina pra lá, visto que ela pareceu entender o recado e nem se aproximou de nós dois. E a festa estava de fato bastante divertida. Eles fizeram os calouros virarem bebidas, fizeram competição de quem virava mais doses, jogaram beer pong. Chegou um determinado momento em que ninguém mais estava sóbrio. Já tinha gente dentro da piscina, gente muito louca e até gente passando mal. A maioria das pessoas mais felizes eram obviamente os calouros que foram as maiores vítimas das bebedeiras.
Percebi que estava bêbada quando comecei a achar legal a ideia de vez ou outra ir ao bar virar uma dose de tequila, mas o pior é que Paola ainda me acompanhava. Vinícius e Lucas sumiam algumas vezes para conversar e se divertir com os amigos e era ela quem estava me fazendo companhia.
Em um determinado momento a música parou e o pessoal todo se juntou pra cantar o hino do curso. Fiquei rindo sozinha observando tudo. Não fazia sentido nenhum para mim, mas sabia que iria fazer quando fosse eu ali. Logo em seguida soltaram um funk pra tocar e juntou uma turminha para dançar. Na rodinha estavam Vinícius e Valentina. Eu juro que não conseguia desviar os olhos da bunda dela de tanto que ela dançava bem. Quanto mais ela rebolava, mais minha autoestima desaparecia. Ela é o tipo de garota por quem qualquer cara ficaria de pau duro e agora que realmente estou me envolvendo serio com Vinícius, saber que ele transava com uma garota cinco vezes mais gostosa do que eu é o que me deixa tão insegura.
— Você tá implicada com ela, né? – disse Paola. Cheguei a me assustar com seu comentário repentino e me senti levemente constrangida por ter encarado tanto a menina a ponto de outras pessoas perceberem.
— Não to implicada, acho que to com inveja mesmo. – confessei.
— Você é tão bonita quanto ela!
— Você tá vendo aquela bunda? Se ela consegue rebolar desse jeito dançando, imagina transando. – resmunguei fazendo Paola gargalhar. – É serio, acho que vou embora pra casa chorar, porque depois dessa nunca mais vou transar com ele.
— Se ele não estivesse satisfeito com o sexo de vocês, você com certeza não estaria aqui agora e vocês definitivamente não estariam juntos. – disse Paola tentando inutilmente fazer com que eu me sentisse melhor.
Continuei olhando para os dois rindo e se divertindo. Valentina fazia questão de chamar a atenção de todos para ela, mas Vinícius já estava visivelmente alterado, apenas dançava de um jeito desengonçado que o deixava incrivelmente bonitinho, tentando seguir o ritmo dos seus amigos e derrubando um pouco da cerveja de seu copo. Mesmo assim, repentinamente, eu me lembrei da foto que vi dos dois no instagram dela e algo se passou pela minha cabeça.
— Posso te fazer uma pergunta? – perguntei para Paola. Se ela está com o Lucas desde quando eu e Vinícius nos conhecemos, ela certamente saberia responder. Paola assentiu. – Antes de eu voltar com o Vinícius, ele tava transando com ela?
— Ai, miga, não me complica. – ela respondeu completamente na defensiva. – Acho que não é pra mim que você deve perguntar isso.
— Eu juro que não vou brigar com ninguém por causa disso não, só quero saber mesmo.
Ela pareceu bastante relutante em responder e isso por si só já respondia minha pergunta, mas ela acabou confirmando.
— Estavam sim. – respondeu Paola. – Mas eu juro que o Lucas sempre me disse que ele gosta muito de você.
Assenti tentando forjar um sorriso para que ela não se sentisse muito culpada por ter me contado, mas tudo no que conseguia pensar era em Valentina sentada em cima dele gemendo. Eu achei que eles não ficavam desde antes da gente se conhecer, mas estava bem errada. Inventei que iria buscar bebida e entrei no primeiro banheiro que encontrei, assim que entrei no mesmo e me encarei no espelho, comecei a encontrar inúmeros defeitos em mim mesma. A péssima sensação de se olhar e ficar pensando: minha barriga poderia ser reta, minha bunda bem maior, meu peito mais redondo. Me encostei na porta extremamente frustrada e com raiva. Não estava com raiva dela, porque nem tinha motivos para estar. Estava com raiva dessa competição ridícula a qual todas nós mulheres somos submetidas, onde nunca conseguimos aceitar que cada uma de nós temos nossa própria beleza, ao contrário disso sempre enxergamos na beleza da outra nossas próprias imperfeições.
Ouvi alguém batendo na porta e sem saber se estava ali há muito tempo a abri depressa na intenção de sair. Para minha surpresa não era outra pessoa querendo usar o banheiro, era Vinícius que me empurrou de volta para trás, entrou rapidamente e trancou a porta atrás de si. Assim que me olhou percebi que sua expressão não estava muito boa.
— O que você tá fazendo trancada aqui? – ele questionou num tom de voz bastante sério. Nem parecia mais que estava bêbado.
— Usando o banheiro. – optei pela resposta mais óbvia e tentei dar um sorriso inocente.
— Assim que você saiu a Paola veio falar comigo.
— Aff.
— Por que você continua cismada com a Valentina? – indagou Vinícius parecendo uma mistura de irritado com confuso.
Eu respirei fundo, me encostei na pia e olhei para ele. Não sabia nem sequer como formular o que eu diria. Eu não queria ter de falar.
— Ás vezes eu só me acho criança demais pra você, Vinícius... – admiti. – Todos os meus dramas são sobre colégio, eu ainda tenho pais me controlando, a gente não pode transar quando você quer, tudo é muito infantil. Eu tenho certeza que com a Valentina as coisas eram bem mais simples. Os dois estão na faculdade, ela é independente, não tinham que ficar se preocupando sobre quando ou onde ou quantas vezes vão transar.
— Não tem nada a ver, Isa.
— Vai dizer que eu não to certa, que com ela não era realmente mais simples e fácil.
— Era, mas com ela era só sexo. – ele respondeu. – A gente sentia pura atração física um pelo outro. Só. Com você é diferente, eu gosto de você.
— É disso que eu to falando, Vinícius. Eu não to falando de sentir, eu to falando de desejo. – confessei envergonhada. – Eu vi o jeito que vocês dois são um com o outro, existe uma puta tensão sexual entre vocês. E se for pra gente ficar juntos, eu não quero pensar que você tá transando comigo querendo transar com outra pessoa.
— Eu não estou! – rebateu Vinícius completamente irritado.
— Você não me enxerga como mulher, você me enxerga como uma menininha frágil prestes a quebrar. Dá pra ver pelo jeito que você me trata, você pensa demais antes de agir quando se trata de nós dois. Eu quero sentir emoção entre a gente, sentir que nós temos química de verdade.
Eu sei que não deveria fazer isso, mas não conseguia não comparar como é transar com Vinícius e como era transar com Gabriel. É bom do mesmo jeito, mas mesmo que com Gabriel tudo tenha sido mentira, pelo menos eu sei que o desejo que ele sentia por mim era de verdade. Ele realmente sentia tesão por mim e realmente sentia prazer em me foder. Era nítido pela forma com que ele me olhava e me tocava. Já Vinícius não demonstra isso direito, parece que sou sempre eu quem tenho de tomar a atitude.
— Eu te trato como eu te trato, não porque eu te acho menininha demais pra mim, mas porque eu te respeito e quero que você entenda que eu não sou o babaca que fez merda com você. – ele se justificou.
— Eu já sei disso, mas eu não entendo o que isso tem a ver com nosso relacionamento sexual. – disse frustrada. – Eu queria que você me olhasse de novo como naquela primeira vez em que transamos, sem saber de nada um do outro. Quando tudo que tinha em seu olhar era desejo. Porque nesse momento eu sinceramente não sei se você realmente tá preocupado comigo ou se apenas não sente tesão por mim como sente pela Valentina.
— É óbvio que eu sinto tesão por você, Isabelle! Eu só tenho medo de te afastar a qualquer momento. Se eu tivesse te tacado na parede do meu apartamento e te agarrado no dia em que você reapareceu, certamente você não estaria aqui hoje. Foi indo com calma que eu consegui sua confiança e que a gente pudesse tentar de novo.
— Mas a gente já está junto agora, não tem porque você ficar assim!
— Não, nós não estamos. – ele gritou. Dessa vez eu realmente o tirei do sério. – Nós estamos ficando, nós não estamos namorando. Eu ainda não sei se vai chegar amanhã e você vai dizer que não tá afim mais. Você já fez isso uma vez, lembra? Eu sinto que eu to andando em cima de ovos! Eu não sei se você ta na mesma sintonia que eu e não sei o que você espera de mim. É obvio que depois de todo esse tempo juntos tudo que eu queria era passar o dia no meu quarto transando e não tendo que te ver quando dá depois do colégio, até porque não é nem um pouco fácil ficar horas te agarrando sem poder fazer nada. Eu só to tentando seguir o mesmo ritmo que você, por isso que eu só invisto quando você demonstra que quer. Não imaginava que tava transparecendo outra coisa. Eu só to tentando fazer a coisa certa, Isabelle. Me desculpa se eu me importo!
“Você já fez isso uma vez, lembra?”, foi a frase que ecoou na minha cabeça. Tudo que ele disse foi um grande tapa na minha cara pra eu perceber que o mundo não gira em torno do meu umbigo. Tenho me sentido insegura quanto a tudo por causa de Gabriel e me esqueci de que eu já usei Vinícius uma vez para tentar esquecê-lo. É obvio que Vinícius também tem suas próprias inseguranças.
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— Eu não aguento mais brigar, ainda mais pelos motivos que estamos brigando. – confessou Vinícius. – Parece que é tudo que a gente tem feito.
— Desculpa. – pedi mais uma vez me aproximando dele e segurando seu rosto. – Vamos combinar uma coisa? Esquece meu passado, esquece o nosso passado. A partir de hoje somos só nós dois e sim, nós estamos na mesma sintonia. Eu gosto de você, eu estou com você e eu quero você, tá me entendendo? Foca na gente e em mais nada.
Ele assentiu e me deu um beijo, um beijo de verdade. Fiquei feliz por termos finalmente nos acertado, mas de repente ele parou de me beijar e fez uma pergunta parecendo verdadeiramente preocupado:
— Eu tenho sido tão ruim assim de cama?
— Não, Vinícius. – respondi rindo. – Lógico que não!
— Não é o que parece pelo jeito que você falou! – ele rebateu.
Eu não conseguia parar de rir, porque sabia que tinha tocado em um ponto muito complicado na autoestima de um cara.
— Você me fode muito bem, Vinícius. – tentei me explicar melhor. – Eu só sinto que as vezes parece que eu quero mais do que você!
— Tá louca? – ele praticamente gritou. – Eu não aguento mais me masturbar pensando em você, Isabelle!
Dessa vez senti vontade de gargalhar de verdade, mas fiquei séria e resolvi aproveitar a conversa ao nosso favor.
— E vem cá, você imagina o que exatamente? – perguntei aproximando minha boca da dele.
— Muita coisa. – ele respondeu me empurrando levemente para trás. De repente senti minhas costas alcançarem a parede gelada atrás de mim e nos beijamos com vontade. Quando começamos a ficar animadinhos, me afastei dele e prossegui com o assunto.
— Eu te chupando? – insisti.
— Ah, isso com certeza! – respondeu Vinícius.
— Não fica só imaginando não. – sussurrei segurando sua mão que até então apertava minha cintura e a puxei para o meu rosto. Beijei a palma dela e roçando meus lábios até a ponta de seus dedos, coloquei seu dedo indicador e médio na boca e, lentamente, os chupei. Seus olhos estavam grudados em mim e sua respiração descompassada. – Eu adoro tanto te chupar. Se quiser, posso fazer isso a noite toda.
Ao olhar diretamente em seus olhos vi justamente o que eu queria: desejo.
Bastou um segundo para que ele acabasse com a distância entre nossos corpos e me beijasse com toda vontade que tinha. Seu corpo estava tão pressionado contra o meu que conseguia sentir perfeitamente seu membro rígido contra minha perna. Mas a sensação não durou muito, pois ainda sem tirar a boca da minha, senti ele afastar o corpo um pouco apenas o suficiente para que uma de suas mãos alcançasse minha calcinha e a puxasse para baixo. Sem rodeios senti seus dedos alcançarem minha intimidade e em seguida ele me penetrou com os mesmos. Arfei contra sua boca, porque surpreendentemente o fato dele não ter sido nem um pouco delicado me deu ainda mais tesão.
Ele movimentou os dedos dentro de mim, mas ao contrário do que imaginei que faria, ele não me masturbou. Vinícius parou de me beijar repentinamente, tirou seus dedos de mim e fez exatamente o que eu tinha feito. Olhando nos meus olhos, os chupou. Feito isso ele apenas se ajoelhou, terminou de tirar minha calcinha com pressa e levou sua boca até minha intimidade. Tudo que fiz foi colocar uma de minhas pernas sobre seu ombro, segurar meu vestido para que ele não o atrapalhasse e torcer para ter forças o suficiente para me manter em pé, porque quanto mais eu sentia sua língua quente se movimentando sobre meu clitóris, mais fraca eu ficava.
Minha respiração também ficava mais descompassada a cada segundo que se passava e em algum momento desisti de segurar meu vestido para entrelaçar meus dedos no cabelo de Vinícius. Acabou sendo uma ótima decisão pois quanto mais eu apertava seus cabelos, mais ele intensificava os movimentos que fazia com a língua. Chegou um momento em que eu não queria que ele parasse, mas também não conseguia me segurar mais. Tombei minha cabeça para trás e tentei inutilmente me segurar na pia enquanto senti meu corpo estremecer, mas não era como se eu tivesse algum controle sobre o meu corpo. Sabia que se não fosse por Vinícius me segurando eu teria desabado no chão.
Assim que percebeu que eu havia gozado, ele se levantou e atacou minha boca novamente. Foi a minha vez de investir. Tirei sua camiseta com pressa, sem delicadeza nenhuma, e aproveitei para passar a mão por toda a extensão de suas costas e abdômen. Só parei quando alcancei a barra de sua bermuda e tive de me dedicar a conseguir abri-la. Ele mostrou o quão apressadinho estava quando fez questão de me ajudar e eu resolvi não decepcioná-lo.
Me abaixei no instante seguinte sem nem sequer me importar com o quão sujo o chão estava e ajoelhada a sua frente abaixei sua bermuda junto a sua cueca. Fiz questão de olhar em seus olhos quando passei a língua por toda a extensão de seu membro antes de abocanhá-lo. Ele, por sua vez, arfou no exato instante em que sentiu o contato da minha boca.
Vinícius estava com tanto tesão que as veias do seu membro estavam visíveis e eu conseguia senti-lo pulsar. Acho que nunca chupei um cara com tanta vontade em minha vida como o chupei naquele momento, mas quanto mais o ouvia xingar baixinho, mais eu queria excitá-lo. Ele sequer segurou minha cabeça na intenção de não me atrapalhar, apenas apoiou os braços na parede e pedia entre um xingamento e outro pra eu continuar.
Quando ele anunciou que não conseguiria mais segurar sua vontade de gozar, me puxou para cima e me beijou com pressa. Nessa altura nossos beijos já eram urgentes e intensos. Sua boca só resolveu largar a minha para alcançar meu pescoço. Seus lábios distribuíram beijos por toda sua extensão ao mesmo tempo em que ele abaixou as alças do meu vestido e direcionou sua boca até meus seios. Assim que senti sua boca alcançar meu mamilo me contrai.
Ele dedicou um bom tempo a chupar meus seios, mas eu não aguentava mais sentir seu membro roçar em mim sem poder fazer nada. Eu estava com muito tesão e tudo que queria era senti-lo dentro de mim. E no momento em que resolvi levar minha mão até ele na intenção de masturba-lo, ele pareceu ter entendido o que eu queria, pois me virou depressa, puxou minha bunda para seu corpo e empurrou o resto do meu corpo contra a pia. Quando achei que ele finalmente me penetraria, ele apenas agarrou os cabelos de minha nuca com força e puxou minha cabeça para trás. Senti seus lábios roçarem minha orelha e ele sussurrou:
— Eu já disse o quanto você é gostosa?
Ao olhar para frente, vi através do espelho sujo o olhar de safado com o qual ele me olhava e tudo que consegui fazer foi um pedido.
— Me fode logo, Vinícius. – supliquei.
Dessa vez sim ele me penetrou e eu soltei um gemido muito mais alto que o normal. Pela posição que estávamos consegui sentir cada centímetro do seu membro entrando dentro de mim. Me segurei na pia e me inclinei ao máximo para aproveitar a sensação.
Eu sabia que deveria me preocupar com o fato de nós estarmos interditando um dos banheiros e que as pessoas com certeza já deveriam ter percebido, mas eu estava mais focada em tentar gemer baixo. O que por acaso, não estava sendo nada fácil. Já devia ter machucado minha boca de tanto mordê-la na intenção de emitir nenhum barulho e mesmo assim estava falhando, a cada estocada era um gemido mais alto.
Quando ele aumentou seus movimentos em questão de rapidez e intensidade, simplesmente desisti e me deixei levar pela sensação de senti-lo entrando e saindo. Em questão de minutos comecei a sentir espasmos musculares, me curvei para trás e Vinícius segurou meu corpo com força enquanto eu sentia ondas de intenso prazer se espalharem por todo meu corpo. Pouco tempo depois, enquanto ainda tentava me recuperar e voltar minha respiração ao normal, foi a vez de Vinícius gozar.
Permanecemos quietos e calados por um tempo digerindo tudo que havia acontecido, até que Vinícius deu um beijo no meu ombro. Senti ele saindo de mim e um líquido quente escorrer por minha perna. Ele me ajudou a me limpar e nos arrumamos para poder finalmente liberar o banheiro, rindo cúmplices do que havia acontecido ali dentro.
Porém, antes de sairmos ele me puxou para si uma última vez e segurou meu rosto entre suas mãos.
— Eu quero que você saiba de uma coisa que aparentemente ainda não percebeu. — disse Vinícius encarando meus olhos. – Eu sou apaixonado por você, Isa.
Eu sorri abertamente ao ouvi-lo dizer aquilo e senti algo verdadeiramente bom dentro de mim.
— Você o que? – perguntei me fazendo de boba.
Ele sorriu e repetiu.
— Eu sou apaixonado por você.
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