Notas iniciais
Oi meus amores, tudo bom com vocês? Espero que sim! Queria agradecer todo mundo que de alguma forma deu sinal de vida depois do último capítulo, porque eu fico muito feliz em saber que ainda tem gente acompanhando isso aqui! Também queria agradecer a maravilhosa da Lê que acompanha a história há anos e é uma leitora sempre presente, por ter recomendado a história. Obrigada por ser tão querida e por todo o suporte que sempre me deu! Aos demais, desejo uma boa leitura!

Acordei sentindo minha cabeça pesada e pisquei os olhos diversas vezes até me acostumar com a claridade que vinha da janela. Eu e Vinícius sempre nos esquecemos de fechar a cortina. Virei para o lado procurando por ele e o encontrei dormindo abraçado ao meu corpo, com o rosto sereno. Me espichei com cuidado na intenção de pegar meu celular em cima da escrivaninha ao nosso lado para averiguar as horas, mas assim que o liguei encontrei uma mensagem bastante direta de minha mãe: “Quando você chegar em casa nós vamos ter uma conversa séria”. Minha mãe. Eu estava na merda. Esqueci completamente de dar notícias para ela na noite passada. Praticamente pulei da cama e saí desesperada vestindo minhas roupas que até então estavam jogadas pelo chão do quarto de Vinícius. Ele acordou com minha movimentação.

— O que você tá fazendo? – indagou com a voz baixa e rouca.

Olhei para trás e ele estava com o peso do corpo apoiado em um de seus cotovelos, com os olhos espremidos e uma expressão bastante confusa.

— Preciso ir pra casa, Vinícius. – anunciei.

— O que aconteceu?

— Eu não avisei minha mãe que ia dormir fora, ela vai me matar.

— Eu te levo. – disse Vinícius se levantando depressa. Ele andou cambaleando até seu guarda-roupa, visivelmente ainda sonolento, e também começou a se vestir.

Fui até o banheiro e tentei melhorar ao máximo minha aparência. Minha maquiagem estava borrada então lavei meu rosto, escovei os dentes e dei um jeito em meu cabelo com um pente do Vinícius. Felizmente minha roupa não estava cheirando tanto a álcool, se eu desse sorte minha mãe não sentiria nada.

Vinícius me levou para casa e eu entrei rezando para uns três santos diferentes para que pudessem me ajudar. Assim que atravessei a porta da sala, avistei minha mãe parada em frente à televisão assistindo a um programa de culinária. Quando seus olhos bateram em mim, sua expressão se tornou automaticamente furiosa e senti até um frio na espinha. Ela desligou a televisão no mesmo momento e usou o controle em sua mão para apontar para o sofá, indicando que eu deveria me sentar.

Me sentei sem dizer absolutamente nada. Coloquei as mãos entre as pernas de forma apreensiva e esperei pelo sermão que viria a seguir.

— Onde você estava, Isabelle? – ela questionou parando em minha frente. Sua voz era firme e séria.

— Na rua ainda. – menti. Decidi que seria melhor que dizer que havia dormido em algum lugar. – Nós resolvemos ver o sol nascer e depois fomos tomar café da manhã.

— Por que você não avisou?

— Porque não achei que fosse necessário.

— Você lembra quantos anos tem, Isabelle? – ela continuou com as perguntas e eu apenas assenti. – Não parece! Porque não parece que você se lembra que ainda não é maior de idade e que se alguma coisa acontecer com você a culpa é minha! Parece que você não se lembra que tem uma mãe! Você passou duas noites fora, não me deu satisfação e eu relevei porque é muito bom te ver voltando a viver sua vida, mas agora de novo? Não é assim que as coisas funcionam! Você não passa a noite fora sem me dizer onde está, com quem está e fazendo o que!

— Por que você não experimenta simplesmente confiar em mim? – rebati. – Você acha que eu to fazendo o que? Roubando um banco? Cheirando cocaína? Transando no meio da rua com estranhos? Eu só estou me divertindo com meus amigos!

— Não se trata de confiança, Isabelle. Se trata de responsabilidade! – ela respondeu se alterando um pouco. – Se trata de você entender que se te acontecer alguma coisa e eu precisar chamar a polícia, eu preciso saber ao menos para onde minha filha foi ou com quem ela estava! Contanto que você me dê satisfação do que está fazendo, você pode fazer o que quiser. Eu não estou te prendendo ou proibindo. Agora você sai de casa dizendo que não deve chegar muito depois da meia noite, chega oito horas da manhã e quer que eu fique tranquila? Custava dar notícias?

— Eu esqueci. – balbuciei olhando para baixo na intenção de evitar seu olhar.

— É claro que esqueceu, porque não é você quem passa a noite acordada preocupada!

— Tá, mãe. Me desculpa. – pedi.

— Eu não vou ficar te dando sermão porque você sabe muito bem o que é certo e o que é errado, mas eu não vou tolerar isso de novo. Se acontecer, você vai ficar de castigo. Espero que estejamos entendidas.

Ela nem esperou que eu respondesse, apenas saiu da sala a passos pesados. Eu não fiquei brava pelo sermão porque sabia que ela estava certa. Eu não fiz por mal, apenas de fato me esqueci. Eu e Vinícius chegamos extremamente bêbados, estávamos com tesão, transamos novamente e pegamos no sono. Eu podia pedir para que ela entendesse que foi só um descuido, mas não é a primeira vez que acontece como ela mesma disse. Escrevi um bilhetinho de desculpa, apenas para que ela soubesse que eu a compreendia e coloquei na porta da geladeira. Fui para o meu quarto, tomei um longo banho e apaguei pelo resto do dia rendida pelo cansaço do meu corpo – e claro, a ressaca que já havia me atingido.

A noite recebi uma ligação de Vinícius me chamando para comer um lanche. Dessa vez fiz questão de pedir minha mãe. Ela autorizou, mas me olhou com aquele olhar que eu conhecia bem. Ela já estava desconfiada de nós dois. Mas como não ficar? Como mamãe já havia conhecido Vinícius, porque ele estava indo com frequência a minha casa, eu não mentia mais que iria sair com outra pessoa quando ia sair com ele. Mas até então eu havia o apresentado apenas como amigo e bem, ela com certeza não está caindo mais nessa.

Eu e Vinícius fomos até uma lanchonete gourmet que havia aberto recentemente no centro da cidade e todos estavam elogiando muito. Um desses lugares que cada sanduíche custa uma fortuna, mas que o hambúrguer artesanal incrivelmente grande e saboroso faz cada centavo valer a pena. Estávamos comendo, conversando e nos divertindo, quando surgiu o assunto que acabaria com os meus próximos dias.

— Eu fiquei tão ocupado nos últimos dias que acabei esquecendo de te perguntar. – disse Vinícius. – Mas você já fez sua inscrição pro vestibular?

Ele me pegou tão de surpresa com essa pergunta que eu engasguei com o suco de maracujá que estava bebendo. Tossi e precisei de alguns segundos para me recuperar, mas mesmo depois de voltar ao normal ainda me sentia de alguma forma engasgada. Isso porque senti que o ar parou em algum lugar da minha garganta. Eu simplesmente me esqueci completamente das inscrições, elas já haviam começado. Senti meu estômago se embrulhar e de repente tinha perdido completamente meu apetite.

Vinícius percebeu pelo meu silêncio e expressão que algo não estava certo.

— O que foi? – perguntou preocupado.

— Não sei. – respondi com sinceridade. – Esse dia parecia tão distante um tempo atrás. Eu acreditava que quando ele chegasse me sentiria preparada para tomar as decisões que tenho de tomar em relação ao futuro, mas não me sinto.

— Ninguém se sente. – afirmou Vinícius segurando minha mão sobre a mesa e sorrindo de forma reconfortante para mim. Tentei sorrir de volta, mas não consegui.

Aquela noite eu não dormi quase nada, passei por uma difícil crise de ansiedade pensando em tudo que viria pela frente. Vestibular, fim do colégio, começo de uma nova vida e de um futuro incerto. Virei de um lado para o outro pela cama inúmeras vezes tentando em vão adormecer, mas tudo que conseguia era suar frio e sentir falta de ar. Como se não bastasse, a primeira notícia que recebi no colégio na manhã seguinte foi que naquela semana visitaríamos o campus da UFPR para participar da feira de cursos e profissões. Graças a isso passei o resto da semana também ansiosa.

Na sexta-feira, o dia da tão esperada feira – por todos, obviamente não por mim, cheguei na sala me arrastando. Sentei em meu lugar torcendo para que um meteoro caísse sobre minha cabeça.

— Bom dia, pessoal! – desejou a professora Marise entrando na sala. Ela estava com toda a animação que eu gostaria de estar. – Como vocês sabem hoje iremos para a feira de cursos e profissões da nossa querida UFPR e para não nos atrasar muito vou dar apenas algumas instruções básicas. Prestem bastante atenção!

“Nós iremos de ônibus e eles já estão nos aguardando lá fora. Passaremos o dia todo no campus e retornaremos para o colégio às 17h. Às 16h30 começaremos a nos reunir no mesmo local em que iremos chegar, portanto fiquem de olho nos relógios. Só serão liberados para ir embora diretamente de lá os alunos que tiverem trago autorização assinada pelos pais, caso contrário retornará conosco, e os ônibus não partirão sem nenhum aluno. Todos os professores do terceiro ano estão indo e qualquer dúvida que vocês tiverem podem nos procurar.”

“Essa visita é muito importante e eu espero que vocês a aproveitem ao máximo. Já está acontecendo as inscrições para o vestibular da UFPR e todos os alunos, professores e coordenadores de todos os cursos estarão lá para apresenta-los a vocês e responderem suas dúvidas e curiosidades. Perguntem tudo que quiserem, quantas vezes quiserem e se informem o máximo possível. É uma oportunidade incrível para todos, tudo bem? Agora vamos nos organizar em uma fila e seguir até o ônibus comportadinhos como os adultos que serão em breve.”

Eu me juntei aos demais alunos na fila enquanto a última frase que Marise disse ecoava em minha cabeça: Os adultos que serão em breve. Enquanto andávamos comecei a prestar atenção nos burburinhos ao meu redor e todos eles se tratavam sobre os cursos sonhados, as faculdades almejadas e o futuro que traçariam. Todos em uma animação que não me pareceu entendível ou sequer aceitável, o que voltou a me causar uma ansiedade estranha e desesperadora. Eu soube naquele exato momento que estava de cara com o futuro e ele estava esperando pelas minhas respostas.

Em meio a todos aqueles rostos sorridentes não pude evitar procurar por Gabriel. Ele estava um pouco a minha frente, bem arrumado – assim como todo o resto, porém assim como eu parecia não estar nem um pouco empolgado. Ele e Bruno, que caminhavam lado a lado com expressões impacientes.

Entramos no ônibus e eu me sentei em um banco qualquer sem esperar que alguém fosse se sentar ao meu lado, visto que ainda não voltei a ser a pessoa mais socializável de todas dentro da sala. Na verdade, meus diálogos se baseiam em perguntar coisas sobre a aula. Frases curtas, diretas e somente quando necessárias. Mas quando estava prestes a colocar meu fone de ouvido, Barbara se juntou a mim.

— Animada? – ela indagou se sentando no banco vazio ao meu lado.

— Não. – respondi sincera. – Por que vocês estão?

— Nossa vida inteira até agora a gente fez o que nossos pais queriam para nós. Não escolhemos nada disso. E agora vamos finalmente começar a decidir o que queremos para nós mesmos. Vamos finalmente tomar o controle da nossa própria vida!

— Exato! – exclamei. – O máximo de preocupações que temos agora são com nossas notas do colégio. Mas escolher um futuro inteiro, quando não temos nem noção de quem somos? Isso não te assusta?

— Se trata exatamente disso, Isa. Descobrir. Você só vai descobrir tentando e se arriscando.

Mas a gente tem tanto a perder se arriscando, foi o que eu pensei. Porém, senti que não era com Bárbara que eu deveria ter essa conversa. Justamente a pessoa mais centrada que já conheci na minha vida. É como se ela sempre soubesse o que queria para si mesma e nesse momento me peguei sentindo inveja.

— Você pretende fazer UFPR? – indaguei.

— Não e esse é um dos motivos por eu estar tão feliz. Eu consegui convencer minha mãe que fazer faculdade de Medicina em São Paulo vai me garantir um aprendizado muito maior, porque eles tem professores melhores e uma estrutura de ensino melhor. Com isso vou finalmente me livrar dela.

— Mas e o Nicolas?

— Eu amo ele, mas ele entende que tem muita coisa em questão. Eu e minha mãe temos um relacionamento muito difícil, sempre sonhei em ter minha liberdade e respeitamos as decisões um do outro. Nós pretendemos continuar namorando a distância e nos visitarmos sempre que der.

— Manter um relacionamento a distância? – estranhei. Por mais que Nicolas e Bárbara não sejam pessoas que facilmente se trairiam ou que não conseguiriam suportar a distância, relacionamentos assim nunca me parecem uma boa ideia.

— Eu sei que quase todo mundo é contra por inúmeros motivos que eu concordo, mas nós pretendemos ir levando as coisas com calma, sem muita pressão e afobação. Se der certo, deu. Se não, nós pelo menos tentamos. – ela respondeu de forma tranquila e natural, se mostrando muito mais madura do que eu.

Segui o resto do caminho em silêncio com um sentimento estranho dentro de mim. Eu sempre quis cursar Psicologia, não tive muita dúvida sobre isso, mas agora que estou prestes a de fato ter que escolher o que eu quero fazer e com o que quero trabalhar pelo resto da minha vida, é como se um milhão de perguntas começassem a se formar em minha mente.

Assim que chegamos ao nosso destino Marise passou recolhendo as autorizações de quem iria embora sem o colégio. Eu fui uma das que entreguei pois sairia com o Vinícius depois da feira. Ao descermos do ônibus as turmas se misturaram e pude finalmente procurar por meus amigos. Ou melhor, Leticia. Quando a vi caminhando em minha direção dei o primeiro sorriso daquele dia, mesmo que eu tenha certeza que não pareceu muito bem um sorriso. Ver que Vitor também vinha ao seu lado me deixou ainda mais feliz. Eu não falava com ele há tanto tempo que nem sabia como cumprimenta-lo.

— Mais de sessenta cursos e alguém realmente acha que sabe o que quer da vida? – disse Vitor assim que se aproximaram o suficiente para que eu pudesse ouvir. Estava olhando um folheto que já carregava em mãos e que mostrava um mapa do evento com todas as atividades que estavam ocorrendo. Ele disse assim, de forma natural, como quem não ligava para nada que tivesse acontecido e nem com o fato de eu ser possivelmente a pior amiga do universo. Dei um sorriso agradecido para ele antes de ser esmagada por um abraço da Leticia.

— Estou bastante empolgada! – anunciou ela entrelaçando o braço pelo meu e me guiando pelo mesmo caminho que todos seguiam. Apenas revirei os olhos em resposta. – Qual é, Isa! Se anima! É melhor ver gatinhos universitários que ter aula!

Nesse ponto ela tinha razão.

— A não ser que você já esteja namorando e eu não esteja sabendo. – completou me lançando um sorrisinho malicioso.

— Sem pedidos de namoro por enquanto. – a atualizei e ela fingiu uma cara de decepção.

— Ele está aqui hoje? – questionou Vitor e eu fiquei surpresa por ele saber de quem estávamos falando, mas com toda certeza Leticia estava o mantendo a par de tudo que acontecia. Esse ano eles se aproximaram muito, já que eu troquei todo mundo por um cara imbecil.

— Sim. – respondi. – Está no estande do curso dele, vamos nos encontrar na hora do almoço.

Nós fomos direcionados pelos professores ao local do evento onde dezenas de estandes foram montados, cada um referente a um curso oferecido pela UFPR. Além dos estandes haviam auditórios com palestras e debates acontecendo. Tudo estava muito bem organizado e o espaço estava bastante cheio, aparentemente haviam alunos de diversas escolas, públicas e privadas.

Eu confesso que tentei me animar, já que Leticia e Vitor se esforçaram ao máximo para que isso acontecesse. Paramos em diversos estandes de cursos pelos quais nem tínhamos interesse, apenas porque algumas coisas nos chamavam atenção ou porque os caras eram bastante gatos – o que por acaso, acontecia com frequência. Achei até interessante descobrir que existem cursos técnicos e empresas juniores ligadas à universidade.

Em algum momento acabamos entrando em uma palestra onde um cara de cabelos grisalhos e vestido formalmente palestrava. Ele falava sobre as mais de 80 mil pessoas esperadas para todos os dias da feira e em como o evento consistia em apresentar os cursos da UFPR, auxiliando os alunos em sua escolha profissional de modo que eles possam ingressar na Universidade de maneira consciente, através da apresentação de atividades ligadas ao ensino, pesquisa e extensão. Blablabla. É claro que perdemos a paciência depois de vinte minutos o ouvindo falar e saímos dali.

Até participamos de um tour guiado pelo campus para conhecer melhor a universidade. Mas depois que já havíamos nos divertido com tudo, decidimos fazer o que deixamos para o final que era de fato visitar os estantes dos cursos que queremos. Havia de fato muita informação interessante ali sobre grade curricular, atividades complementares e o mercado de trabalho que precisávamos saber.

Infelizmente o primeiro estante que procuramos foi o meu e se eu disser que não medi de cima a baixo as pessoas que estavam ali estaria mentindo. Eram na grande maioria garotas muito bonitas e com sorrisos simpáticos estampados no rosto.

— Eu vou ter que ficar com esse sorriso na cara fingindo ser legal pra ser psicóloga? – sussurrei para Leticia enquanto nos aproximávamos. Ela teve de se esforçar bastante para segurar a risada.

Fomos recebidos por duas garotas que se prontificaram a tirar qualquer dúvida que tivéssemos, mas preferimos olhar as coisas antes.

— São quantos anos de curso? – questionou Leticia tentando bisbilhotar os papéis que eu havia pegado para analisar.

— Cinco, mas o quinto ano é basicamente estágio profissional supervisionado. – respondi.

— Deixe- me ver... – ela pediu já tomando um dos folhetos de minha mão e então começou a ler em voz alta algumas das disciplinas que compunham a grade curricular. – Neuroanatomia Funcional, Psicologia Fenomenológico-existencial, Psicologia Behaviorista, Psicanálise, Psicofarmacologia Aplicada à Psicologia, Neuropsicologia...

— Você vai ficar mais louca do que já é! – concluiu Vitor a interrompendo e nos fazendo rir. Infelizmente eu sabia que era verdade.

Como Marise havia pedido, tirei todas as dúvidas que eu tinha e perguntei o máximo que pude. Todas as garotas que falaram comigo só me disseram coisas boas e me animaram bastante para o curso. Ou pelo menos tentaram, já que eu não conseguia ignorar uma dorzinha que sentia no fundo do peito enquanto estava ali. Porém, segui firme e forte na missão de fingir empolgação.

Quando finalmente saímos dali fomos atrás do estande de Leticia, o de Biomedicina. Ela, ao contrário de mim, parecia verdadeiramente empolgada enquanto conversava com os universitários. Parecia de fato um curso interessante e eu conseguia imaginá-la feliz trabalhando com aquilo, então me peguei sorrindo verdadeiramente. Saber que ela vai ser feliz talvez me basta.

Saímos dali a procura do estande de Vitor com uma Leticia bastante tagarela.

— Eu gosto bastante da estrutura do curso da UFPR, mas sabe o que eu tenho pensado? – disse ela exigindo minha atenção. – A gente pode recomeçar em outro lugar. Como sempre sonhamos desde pequenas, lembra? Eu sei que não conversamos sobre o futuro mais desde o começo do ano, mas podemos prestar vestibular para outra cidade, nos mudar, dividir um apartamento, conhecer gente nova, viver coisas novas. Seria incrível!

Quando ela disse aquilo percebi que minha tentativa de parecer animada com tudo não havia funcionado muito bem. Ela com certeza percebeu que algo estava errado comigo.

— Agora a gente não está lidando mais com sonhos, Leticia. Isso aqui é a realidade e nós duas sabemos que sua mãe não concordaria muito em te deixar ir embora daqui. – contrapus, sem de fato querer estar discutindo isso. – Eu nem sei qual seria a reação da minha mãe se eu chegasse em casa falando sobre realmente ir embora. Ela é super protetora e já deixou claro que não gosta da ideia.

— Ah, você sabe que seu pai te apoiaria em qualquer decisão que tomasse e ele ajudaria a convencer sua mãe, até porque ela só quer o seu melhor. E quanto a minha mãe, eu também conseguiria convencer ela se passasse em outra faculdade. Ela nem precisa saber que vou me inscrever. – argumentou Leticia.

— E para onde você está pensando em ir?

— Onde você quiser! São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, qualquer lugar! Dizem que as faculdades do interior são as que fazem as melhores festas.

Eu sei que Leticia só quer meu bem, mas aquela conversa começou a me deixar afobada e felizmente o assunto se encerrou pois nós chegamos até o estande de Engenharia Química, curso que o Vitor tanto quer e que eu não entendo por nada nesse mundo. Quem escolhe estudar Engenharia e Química? Enfim. Nós deixamos para ir no estande dele por último porque já ficava perto do de Vinícius e eu aproveitaria para ir vê-lo. O que inclusive foi o que eu fiz. Me despedi dos meninos e fui encontra-lo para almoçarmos juntos como havíamos combinado.

Caminhando em meio aos estandes acabei passando em frente ao da Medicina e algo me chamou a atenção instantaneamente. Gabriel estava parado ali fora, folheando um dos papéis. Ele não estava acompanhando ninguém e foi exatamente isso que me deixou curiosa. Acabei parando no lugar para observá-lo. Ao terminar de ler o que segurava, ele começou a prestar atenção no que um dos professores falava e em seguida começou a conversar com um aluno. Eu não entendi o que estava acontecendo, ele sempre me disse que queria fazer Publicidade e eu até achava que ele levava jeito para isso. Mas levando em consideração que talvez eu nunca tenha conhecido nada de verdade em relação ao Gabriel, resolvi deixar pra lá e seguir meu caminho. Ou pelo menos tentei fingir que deixei para lá, mas a verdade é que aquilo me deixou bastante intrigada.

Continuei andando seguindo o caminho indicado pelo mapa e que me levaria até o Vinícius, até que ao longe consegui enxergá-lo. Devidamente uniformizado em seu estande, rindo animadamente com seus amigos. Parei por um segundo para observá-lo ali, imerso em sua rotina da qual venho querendo cada dia mais poder fazer parte. Ele olhou em minha direção e acabei sendo pega no flagra, então comecei a andar em sua direção e fingi interesse pelas coisas que eles exibiam.

— Oi, com licença. – disse assim que me aproximei e peguei um panfleto sobre a mesa a sua frente. – Será que você poderia me tirar uma dúvida?

— Claro. – respondeu Vinícius entrando na brincadeira.

— Nesse papelzinho aqui eu encontro o número do seu celular?

— Não, mas eu posso resolver isso pra você rapidinho. – ele respondeu piscando para mim e nós dois acabamos rindo. Um homem visivelmente mais velho que estava próximo a ele e ouviu a conversa nos olhou com uma cara bem julgadora, como se estivesse pensando que as menininhas do colegial estão atiradas demais. Vinícius também percebeu e explicou a situação. – Ela é minha namorada, professor.

O que veio a seguir foi uma sequência de “uuuuuuh”.

— Namorada, ein. – provocou um dos garotos. O reconheci, era o tal Igor que estava na portaria da festa no último fim de semana.

— Me deixa em paz. – retrucou Vinícius fazendo todos rirem. – To indo almoçar. – anunciou antes de me puxar pela mão e sair me arrastando para longe dali, impedindo que seus amigos pudessem fazer mais alguma graça que o envergonhasse.

— Namorada, ein. – resolvi também provocar quando já havíamos saído do meio da multidão.

Ele parou de andar e me virou para ele, me puxando para os seus braços. Estava com um sorriso no rosto.

— Não me provoca. – ordenou.

Eu ri e o puxei para um selinho.

— Tá gostando da feira? – indagou Vinícius.

— Sim, tem bastante coisa bacana. – respondi me esforçando ao máximo para parecer animada. Ele eu definitivamente não queria que percebesse meu desânimo. – Nem fazia ideia de que tinha tanto curso.

— Sim, tem umas coisas que eu não sei nem pra que servem.

— Tipo Terapia Ocupacional?

— Tem isso aqui? – ele perguntou parecendo verdadeiramente surpreso

— Tem! E são quatro anos de curso! – respondi o fazendo rir. – Tive de parar lá no estande para perguntar porque tinham uns caras bem gatinhos.

— Ah é?

— Sim! Muitos caras gatinhos por todo o lugar e olha, é muito difícil resistir a essas camisetas de atlética coladas no corpo. Tem uns caras com as costas largas, os braços maravilhosos e...

— Tá, para. – ele me interrompeu. – Eu sei que você tá brincando, mas eu estou começando a ficar verdadeiramente com ciúmes.

Dessa vez fui eu quem ri, mas ri de verdade.

— Onde nós vamos almoçar? – questionei mudando de assunto.

— Como é uma ocasião especial, nós vamos comer num restaurante de massas muito bom que tem aqui perto e chama Gianfranco Massas.

— Anão, Vine. – reclamei. – Eu quero comer onde você sempre come, conhecer sua rotina.

— Sem condições, geralmente eu como no RU, o que você nem pode porque não é universitária, ou eu sobrevivo a base dos salgados caros das cantinas. – rebateu Vinícius. – Fora isso geralmente é numa pastelaria aqui perto ou no Shopping Jardim Das Américas, mas os dois devem estar lotados. E eu quero te levar pra comer em um lugar bom, não em qualquer canto. Então nem adianta dar xilique.

Eu ia de fato dar xilique, mas ele não deixou. Apenas me mandou calar a boca e me puxou para irmos. O lugar não era nada muito sofisticado, parecia um restaurante comum de massas onde as pessoas vão almoçar. Mas o cardápio tinha mil opções de comidas maravilhosas que me deixou na dúvida do que escolher. Acabei pedindo um Talharim ao molho Alfredo com parmegiana e polenta frita, já Vinícius pediu um Talharim ao molho Alla Daliane com filleto de frango ao molho quatro queijos e polenta frita. Os dois pratos vieram com uma aparência maravilhosa e o gosto ainda mais maravilhoso. E se você quer saber o que é o molho Alfredo e o molho Alla Daliane, é melhor ligar pro chefe da cozinha pra perguntar.

— Como você consegue não comer aqui todo dia? – questionei de boca cheia. Ele riu de mim.

— É porque se eu fizer isso não consigo sobreviver até o fim do mês. – respondeu Vinícius. – Mas vontade não falta.

Morar sozinho deve ser muito difícil. Eu não conseguiria controlar meu dinheiro dessa forma. Acho que seria extremamente irresponsável e passaria muito aperto. Pensar nisso me fez lembrar de Leticia e tentar imaginar como seria nós duas em uma cidade diferente tendo de se virar como adultas. Resolvi afastar esses pensamentos.

Nosso almoço foi muito divertido e Vinícius insistiu em pagar a conta. Logo depois voltamos para o campus e nos sentamos em um gramado para passarmos um tempo juntos.

— Eu to tão animado em pensar que você vai estar aqui ano que vem. – confessou Vinícius. Ele estava encostado em uma árvore e eu estava sentada no meio de suas pernas.

— Ah é? Por que? – questionei curiosa.

— Não sei, a ideia de conseguir te ver mais vezes me deixa feliz, porque a gente vai ter uma rotina mais parecida. Mesmo que infelizmente nossas aulas não vão ser no mesmo campus.

— Não?

— Não, suas aulas vão ser no Centro e meu campus é esse aqui.

— Então você andou procurando saber sobre o meu curso... – disse num tom provocativo. Ele riu constrangido.

— Talvez. – admitiu Vinícius.

É muito difícil imaginar Vinícius pesquisando onde seria minhas aulas só pra saber se teremos mais tempo juntos. Ás vezes é difícil pra mim assimilar que ele gosta de mim, se importa comigo e de fato quer passar seu tempo comigo quando ele poderia fazer qualquer outra coisa mais interessante. Até porque não podemos nos esquecer de que um cara como Vinícius poderia estar com qualquer outra garota mais interessante.

– Essa semana eu fiquei um pouco preocupado com você. – ele disse de repente. – Você tava meio distante, parecendo nervosa.

— Eu só to um pouco preocupada, não se preocupa. – tentei o tranquilizar. – Minhas notas não tem estado boas e meu curso sempre tem um número alto de concorrentes por vaga. Dá um certo medo.

— Não fica pensando muito nisso. Primeiro porque eu acredito que você consegue, eu acredito muito no seu potencial. E segundo porque mesmo que tudo dê errado, não é o fim do mundo, tem sempre uma nova chance e eu vou estar aqui pra te ajudar até você conseguir tudo que quiser.

Me virei para ele com um sorriso bobo nos lábios e me ajeitei sobre o seu colo.

— Você é um anjo, sabia? – sussurrei antes de o dar um selinho.

— Você é.

— Se a gente se agarrar aqui as pessoas vão ficar olhando? – perguntei abraçando seu pescoço.

— Deixa que olhem. – respondeu Vinícius tomando a iniciativa de me beijar de verdade.

Não sei quanto tempo passamos nos beijando, mas em determinado momento seu celular apitou e ele pegou para ver o que era. Pela sua expressão sabia que estava na hora dele voltar pro estande. Ele havia se voluntariado para ficar o dia todo porque isso contaria como horas extracurriculares. Aparentemente, uma coisa muito importante na faculdade.

— Você tem que voltar, né? – deduzi.

— Sim. – ele confirmou. – Você quer que eu te leve até os seus amigos?

— Não precisa.

— Tá bom. Nos encontramos mais tarde?

— Sim. Quando estiver liberado me manda mensagem que a gente encontra.

Ele se despediu de mim com um último beijo e eu fiquei ali sozinha tentando criar coragem para me levantar e procurar por Leticia e Vitor. Mandei uma mensagem para os dois perguntando onde eles estavam e esperei que algum dos dois respondesse.

– Oi. – disse alguém ao meu lado. Tive que tapar o sol com a mão para conseguir enxergar quem era. Bruno. Me surpreendi muito com sua presença e principalmente com o fato de estar falando comigo. – Posso sentar?

— Claro! – permiti.

Ele se ajeitou ao meu lado e colocou a mochila entre as pernas. Assim como havia o visto mais cedo, não estava com uma expressão muito animada.

— Tá gostando da feira? – perguntei na intenção de puxar qualquer assunto, mesmo que por sua cara a resposta fosse um pouco óbvia.

— Sinceramente não. – respondeu Bruno.

Senti vontade de perguntar se ele queria conversar sobre isso, mas tive medo de estar invadindo demais seu espaço. Eu não falava com ele desde o aniversário de Amanda e estar fazendo isso nesse momento me deixou extremamente nervosa.

— Todo mundo que tá aqui já tem um futuro em mente. – ele prosseguiu. – Mesmo que não tenha muita certeza, eles ao menos tem uma opção. Eu ainda não faço ideia do que quero pra mim, pra minha vida, pro meu futuro. Eu vou visitar o que? Procurar saber sobre o que? E se o que eu quiser nem for isso aqui?

Ouvir ele dizer aquilo foi a coisa mais reconfortante que aconteceu durante todo o meu dia. Ele foi a primeira pessoa naquele lugar que realmente se sentia como eu.

— Você acreditaria se eu dissesse que tenho me sentido da mesma forma durante todo o dia?

— Você? – questionou Bruno parecendo genuinamente surpreso. – Você não queria Psicologia?

— Queria, quero, sei lá. – respondi tão confusa quanto meus próprios pensamentos. – Acho que eu não sei de mais nada.

— Entendo.

— E você? Eu me lembro de no começo do ano você ter dito que queria fazer Engenharia Aeronáutica.

Eu realmente me lembrava disso. Em nossa primeira aula com a Marise, quando ela pediu para que nos apresentássemos para a turma, ela pediu para que disséssemos nosso nome, o que queríamos cursar na faculdade e um medo que tínhamos. Bruno disse que queria cursar Engenharia Aeronáutica. Ainda brincou dizendo que era porque sua mãe não o deixou ser astronauta.

— Foi só mais um dos mil cursos que tentei me forçar a gostar. – admitiu Bruno. – Mas nada disso combina comigo.

— Eu queria poder ajudar. – desculpei-me.

— Eu sei. Mas obrigada por não me julgar.

— Eu jamais julgaria.

Bruno sempre foi a pessoa mais animada da turma. Aquele que solta uma piada quando o clima está ruim, que nos faz rir das coisas mais banais, que carrega uma energia tão boa e contagiante que te deixa bem apenas por estar em sua companhia. Sempre admirei ele por isso, por ser assim tão ele. E é exatamente por isso que vê-lo nessa situação me deixou verdadeiramente chateada. Eu queria pelo menos dessa vez ser a pessoa que poderia animá-lo.

Tentei pensar em mil coisas para dizer ou fazer e acabei tendo uma ideia bastante inútil, mas não custava tentar.

— Já sei! – anunciei ajeitando minha posição. – Nós vamos fazer com você um daqueles testes vocacionais idiotas!

Bruno apenas riu com minha sugestão, mas eu estava falando realmente sério. Peguei meu celular, abri a internet e comecei a procurar por qualquer um que fizesse um pouco mais de sentido.

— Eu sei que esses testes raramente servem para alguma coisa, mas vai que nos ajuda a achar uma luz. Qualquer tentativa é válida. – insisti.

— Eu não tenho nada a perder não é mesmo? – disse Bruno. – Então vamos lá!

— Achei um! – anunciei e me preparei para começar. – Pergunta número 1. Quando faz um trabalho em grupo, você é aquele(a) que:

a) Quer ir direto ao ponto.

b) Analisa bem o escopo do trabalho antes de propor ações.

c) Assegura que o grupo está seguindo todas as instruções.

d) Propõe uma apresentação surpreendente ou tocante.

e) Discute as ideias com o grupo.

f) Conduz o grupo a agir em determinada direção.

— Opção A – respondeu Bruno.

— Número 2: Você imagina se destacar profissionalmente...

a) Pela sua objetividade.

b) Pela sua ótima capacidade de análise.

c) Pela sua excelência em estruturar processos.

d) Por propor novas formas de fazer as coisas ou pelo seu senso estético aguçado.

e) Pelas suas ótimas habilidades de Comunicação.

f) Por ser bastante determinado.

— Acho que opção E? – ele respondeu, mas parecia na dúvida. – Eu sou comunicativo, mas se eu respondi na primeira pergunta que gosto de ir direto ao ponto, eu deveria responder nessa que por causa da minha objetividade, não?

— E você também é determinado... – o lembrei. – É, esses testes não fazem sentido nenhum. – cheguei à conclusão. – Mas vamos escolher E porque você de fato é a pessoa mais comunicativa que conheço. – argumentei e marquei tal opção. Ele concordou. – Agora número 3:Você gosta mais de atividades que envolvam...

a) Máquinas, atividade corporal, alimentos, plantas ou animais.

b) Pesquisa, diagnóstico ou crítica.

c) Planejamento, ordenação ou cálculo.

d) Criação, expressão ou beleza.

e) Relacionamento, cuidado ou mediação interpessoal.

f) Estratégia, compra e venda.

— Não sei. – bufou Bruno. – Marca D.

— Número 4... – prossegui. – Em uma discussão, você:

a) Procura encerrar o assunto e partir logo para a ação.

b) Analisa a situação e avalia quais atitudes podem ser tomadas.

c) Levanta todos os pontos, buscando ser prudente na sua posição.

d) Sente o clima e tende a agir mais pela emoção que pela razão.

e) Tenta chegar em uma solução que seja boa para todo mundo.

f) O mais importante pra mim é fazer as pessoas ao meu redor felizes.

— Opção A.

— Número 5: Seus amigos te descreveriam como uma pessoa...

a) Realista

b) Intelectual

c) Cautelosa

d) Sensível

e) Empática

f) Persuasiva

— E aí? – ele questionou me olhando curioso e eu ri. – Você é minha amiga, você que deve responder essa.

Confesso que fiquei feliz em ouvir isso. Mesmo que ele tenha dito da boca pra fora, ouvir Bruno me chamar de amiga depois de tudo e depois de tanto tempo sem nem sequer olharmos para a cara um do outro direito, era de certa forma reconfortante.

— Eu to em dúvida entre realista e persuasiva, mas acho que você é mais persuasivo, porque sempre consegue o que quer. – respondi.

— Então marque persuasivo. – ele ordenou.

— Número 6: O emprego ideal é aquele no qual você... – comecei a falar e ele nem me deixou dar as opções.

— É aquele no qual eu possa trabalhar sentado no meu sofá, bebendo uma cerveja. – afirmou Bruno com convicção. Eu ri.

— Você sabia que isso até que é possível, né? – respondi. – É só você fazer home office.

— Mas em que área eu posso fazer isso?

— Não sei, alguma da Comunicação.

— É verdade. – ele ponderou. – Enfim, prossiga com as opções.

— A) Pode colocar a "mão na massa".

b) Aprende muito.

c) Traz segurança.

d) Surpreende ou emociona as pessoas.

e) Contribui com a sociedade.

f) Possui desafios.

— Acho que F. – respondeu Bruno. – Eu gosto de desafios, me entedio muito fácil com as coisas.

— Certo. – concordei. – Número 7:O que você mais valoriza?

a) Os fatos.

b) O estudo e a reflexão.

c) A rotina e a precisão.

d) O prazer e as emoções.

e) O direito e bem estar de todos.

f) O sucesso e o poder.

— Opção D.

— Número 8:De modo geral, você evita ou não gosta de:

a) Interagir ou pensar demais.

b) Lidar com emoções ou assuntos superficiais.

c) Fazer algo sem ter manual ou explicação.

d) Seguir rotinas e regras.

e) Executar tarefas técnicas ou mecânicas.

f) Ser comandado.

— Nossa, essa tá impossível! – ele reclamou. – Odeio quase tudo disso! Odeio pensar demais, odeio lidar com emoções ou assunto superficiais, odeio seguir regras e rotinas, odeio tarefas mecânicas, odeio ser comandado.

— Acho que... – disse tentando ajudar. – De certa forma, pensar demais pode entrar em lidar com emoções, e tarefas mecânicas e ser comandado pode entrar em seguir rotinas e regras. Então você pode escolher entre uma dessas duas.

— É verdade. – concordou Bruno e permaneceu em silencio por um tempo, tentando escolher uma das opções. – Vai D.

— Ok. Agora número 9:O que mais te incomoda é quando as pessoas...

a) Demoram muito para tomar uma decisão.

b) Emitem uma opinião sem conhecer o assunto a fundo.

c) Burlam ou ignoram regras.

d) Esperam resultados diferentes fazendo tudo igual.

e) Não respeitam as outras.

f) Demonstram preguiça ou submissão.

— Opção A.

— Número 10: Para você, um bom professor é aquele que..

a) Dá a chance do aluno ter ou fazer suas experiências.

b) Estimula o aluno a questionar e aprofundar conhecimentos.

c) Transmite o conteúdo complexo, sem deixar nada para trás.

d) Ajuda a identificar os interesses e talentos de seus alunos.

e) Ensina a trabalhar em grupo.

f) Prepara para ser alguém no mercado de trabalho, não apenas mais um.

— Um D no momento ajudaria bastante, ou até um F. – disse Bruno e eu entendi completamente o que ele quis dizer. Se tivéssemos um desses dois professores, não estaríamos fazendo um teste vocacional na internet em plena feira de cursos e profissões. – Mas marca D.

— Número 11:Na sala de aula, você...

a) Prefere atividades manuais.

b) Presta atenção e é estudioso.

c) É bem organizado.

d) Fica devaneando, desenhando ou escrevendo poesia.

e) Tenta ajudar os colegas a tirar dúvidas.

f) Costuma tomar frente as coisas.

— Eu preciso mesmo responder? – ele questionou rindo.

— Ah, Bruno! Quando você tem interesse você sempre toma frente com as coisas! – contestei já sabendo que ele iria me mandar marcar D. – Eu vou marcar F!

— Ta bom! – ele concordou levantando as mãos para o alto em sinal de rendição.

— Número 12... – continuei. – Com qual destas situações abaixo você se sente mais confortável?

a) Instalar, massagear, cozinhar.

b) Ler um livro científico.

c) Fazer um orçamento ou planejamento de um projeto.

d) Fazer aula de música, desenho ou teatro.

e) Engajar-se em um trabalho voluntário.

f) Virar representante de sala.

— Opção D.

— Número 13: Nos seus relacionamentos, você costuma ser:

a) Honesto quando solicitado.

b) Ponderado e criterioso nas suas escolhas.

c) Cuidadoso com o que fala.

d) Sensível ou despojado.

e) Empático e acolhedor.

f) Autoritário ou sedutor.

— Opção F. – respondeu Bruno fazendo a maior cara de safado. – Eu sou muito sedutor.

Apesar de eu ter rido, dei um tapa em seu braço e prossegui ignorando seu comentário.

— Número 14: Qual palavra mais combina com você?

a) Razão.

b) Investigação.

c) Disciplina.

d) Imaginação.

e) Colaboração.

f) Ambição.

— Opção D. respondeu bruno.

— Número 15... — anunciei, mas Bruno me interrompeu.

— Essa porra não acaba nunca?

— É a última, eu juro! – garanti. – Com qual frase você mais se identifica?

a) Uma grama de ação vale uma tonelada de teoria. (Friedrich Engels)

b) Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância. (Sócrates)

c) Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.

d) A sensibilidade e a imaginação conservam a mocidade imortal da alma. (Anne Louise Germaine de Stael)

e) Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele. (Carl Rogers)

f) Lute com determinação, abrace a vida com paixão, perca com classe e vença com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito bela para ser insignificante. (Charles Chaplin)

— Apesar de todas serem muito profundas... – ele disse rindo. – Acho que vou escolher o Charles Chaplin.

— Ok. E o seu resultado foi... – esperei alguns segundos para fazer um suspense e finalmente revelei. – Artístico. Você é intuitivo, sonhador, aberto a experiências e foge das convenções sociais. Possui percepção aguçada e interesse em atividades que envolvam imaginação, beleza, produção artística ou inovação. Gosta de se expressar através de meios como música, teatro, dança, desenho, poesia e canto. Valoriza o prazer e as emoções. Os cursos indicados pra você são: Arquitetura, Artes Cênicas, Artes Plásticas, Cinema, Desenho Industrial, Design de Games, Design Gráfico, Fotografia, Moda, Multimídia, Música e Publicidade e Propaganda.

— Grande bosta. – bufou Bruno.

— Ah, vai. Acho que dá pra tirar algum proveito disso. – encorajei. – Vamos fazer assim, vamos descartar todos que você não faria de jeito nenhum e ver o que sobra.

— Artes Cênicas porque eu nem sei o que esse povo faz. Artes Plásticas também. Desenho Industrial, Fotografia, Moda e Multimídia.

— Sobramos com Arquitetura, Cinema, Design de Games, Design Gráfico, Música e Publicidade. – constatei.

— Cinema e Música são profissões impossíveis, pode tirar da lista também.

— Então Arquitetura, Design e Publicidade.

— Eu gosto de desenhar e eu sou bom, mas eu não iria conseguir ficar sentado desenhando projetos. – ele fez uma careta. – A mãe do Gabriel trabalha com isso e eu acho a coisa mais chata do mundo.

— Quer saber minha opinião? – intrometi expondo meus pensamentos. – Eu acho que você se daria muito bem com alguma área da Comunicação. Publicidade, Jornalismo ou algo assim. Você é comunicativo, é proativo, sabe tomar frente das coisas, pensa rápido, tem ideias boas, vai direto ao ponto. Na verdade eu acho que você seria perfeito pra isso. Sem contar que é o que teu melhor amigo também quer, vocês podem até fazer juntos.

— Eu vou pensar a respeito. – ele prometeu.

Eu realmente acho que é algo com o que o Bruno se daria bem. Se eu tivesse que descrever qualquer profissional bem-sucedido da área da Comunicação acabaria descrevendo alguém parecido com ele.

Nós permanecemos em silêncio por um tempo, apenas observando a multidão que se movimentava a nossa frente. Alunos, universitários, professores. É engraçado pensar em quantas vidas diferentes existem por esse mundo. Quantas pessoas traçando caminhos diferentes, sonhando coisas diferentes e tendo de viver suas próprias vitórias e derrotas, superar seus próprios medos e limites, enfrentar uma batalha diária em busca de conseguir, quem sabe, ser mais feliz do que triste.

Estava tão distraída em pensamentos que não percebi quando uma pessoa se juntou a nós. Só percebi quando Bruno pigarreou e se levantou.

— Eu vou comprar um café pra mim, quer alguma coisa? – ele perguntou, mas eu só conseguia olhar para Gabriel sentado logo ali do lado, olhando para o horizonte. Agora ele não estava mais vestindo o moletom com o qual o vi mais cedo. Estava com uma camiseta preta deixando os seus braços a mostra, o que me fez perceber que ele está mais forte do que era. Tenho certeza que demorei alguns segundos para conseguir voltar minha atenção ao Bruno e responder que não. Então ele saiu e nos deixou sozinhos.

Continuei encarando Gabriel por alguns segundos tendo consciência de que ele sentia meu olhar sobre ele, ao mesmo tempo em que amaldiçoava Bruno.

— Ele fez de propósito. – disse Gabriel concluindo o mesmo que eu. Estava se referindo ao Bruno ter nos deixado sozinhos. – Se quiser que eu saia é só pedir. – ele completou ainda olhando para frente, parecendo procurando evitar me olhar nos olhos.

Eu deveria ter pedido, por motivos mais que óbvios e um deles era que o simples som da sua voz fazia meu estômago se revirar de nervosismo, mas apenas permaneci quieta. Me virei novamente para frente e abracei meus joelhos.

— Por que você estava no estande da Medicina? – a pergunta praticamente saltou da minha boca.

Ouvi um suspiro.

— Porque era o curso que eu queria fazer antes da minha irmã morrer. – ele respondeu prontamente me pegando de surpresa. Eu não estava esperando que de fato fosse receber uma resposta. O Gabriel com o qual eu estava acostumada com toda certeza não teria respondido. Teria enrolado, encontrado um jeito de desviar de minha pergunta e me deixado mais uma vez sem saber o que se passava dentro de sua cabeça. – Porém, depois de tudo, simplesmente perdeu o sentido pra mim.

— Por que?

— Egoísmo, medo, trauma... Tanta coisa. – admitiu Gabriel com a voz baixa.

— E você quer Publicidade? – questionei curiosa e com a intenção de mudar de assunto. Eu sabia que ele estava desconfortável.

— Eu tenho que querer alguma coisa. – ele respondeu dando de ombros.

É, pelo visto tem mais gente perdida nesse lugar do que eu imaginava.

Apoiei minha cabeça nos joelhos e fechei os olhos. Senti um tipo de cansaço diferente pesar sobre mim, cansaço psicológico. Desejei poder ir pra casa, deitar debaixo de coberta e fugir da realidade por só alguns minutos.

— O que tá te atormentando? – foi a vez dele perguntar.

— Tenho me sentido confusa. – respondi com receio de me abrir para ele. Justo ele. Eu não deveria nem estar sentada aqui.

— Com o que?

— Com todas essas decisões relacionadas a faculdade.

— Não, Isabelle. Você não está confusa com a faculdade. – afirmou Gabriel com tanta convicção que quase me convenceu. – Você sempre quis fazer psicologia, ajudar as pessoas, quem sabe escrever por hobbie. Essa é você. Se você está confusa não é com isso, só está usando isso como desculpa.

Levantei meu rosto para olhá-lo e dessa vez encontrei seus olhos. Ele deu um sorriso de canto de boca para mim. Um tempo atrás esse sorriso teria bastado para reestruturar meu mundo e fazer com que todos os meus problemas desaparecessem.

— No primeiro trote do colégio esse ano, pouco antes de participarmos do desfile, você se desesperou, lembra? – recordou Gabriel. Eu apenas assenti. – Do que você estava com tanto medo?

— De deixar tudo isso para trás. – disse em voz alta e finalmente entendi todo o aperto no peito que tenho sentido. Eu não estou confusa, eu só estou com medo de crescer. Não se trata do que vou decidir agora, se trata de me tornar adulta e de entender que daqui pra frente eu estarei sozinha. Porque eu finalmente entendi que para seguir em frente, tudo isso vai ficar para trás. Toda minha estabilidade e conforto de viver uma vida sem bifurcações.

Daqui pra frente eu não poderei contar com mais ninguém para tomar as decisões da minha vida, porque é o meu futuro e só eu sei o que eu quero para mim. Não poderei contar com meus pais, nem com minha melhor amiga, nem o cara pelo qual eu sou apaixonada. Porque seja lá qual for a decisão eu vou acabar magoando algum deles, e eu não quero magoar ninguém, muito menos me sentir sozinha.

Vinícius tem sido tudo que eu preciso. Tem me ajudado a estudar e me recuperar no colégio, tem me motivado a lutar pelos meus sonhos, tem me dado suporte em meus momentos ruins e eu sei que ele tem planos pra gente, pro nosso futuro. E bem, eu vou precisar estar aqui pra que a gente possa construir qualquer futuro que seja. Mas em compensação, Leticia quer ir embora. Esse sempre foi o sonho dela. Sempre foi o nosso sonho. Conversamos sobre isso há anos, sobre os planos de nos mudar, adquirir nossa independência e podermos viver tudo aquilo que já passamos noites imaginando. Porém, tem tanto tempo que não conversamos mais sobre isso, tanta coisa aconteceu desde então, que eu não sei mais se é o que eu quero. Eu definitivamente não quero deixar Vinícius para trás, porque não posso simplesmente ignorar que ele tem sido meu porto seguro. Mas Leticia é minha melhor amiga e eu não posso trocá-la por um homem novamente, mesmo que seja Vinícius.

Dei uma risada anasalada.

— O que foi? – perguntou Gabriel parecendo curioso.

— Eu sou tão covarde.

— Não, você não é. – afirmou Gabriel. – Mas pensa em você mesma, Isa, pelo menos dessa vez. É a sua vida e é o seu futuro, você tem de tomar essa decisão pensando unicamente em você.

— Eu só não quero ficar sozinha. – admiti.

Não de novo.

— Acho que esse é o problema. – disse Gabriel. – No fundo, nós sempre estamos. Só não sabemos lidar com isso.

Senti um nó se formar em minha garganta e me levantei deixando Gabriel para trás. Saí andando com um certo desespero na intenção de encontrar Vinícius. Tudo que eu precisava era o dar um abraço e ele me dirá o que eu preciso ouvir. Porém, assim que cheguei perto do seu estande e o avistei, eu caí na real. O que eu to fazendo? Esperando que Vinícius me salve de todos os meus problemas?

Dei meia-volta e procurei pelo lugar mais afastado de toda aquela multidão onde eu pudesse me sentar e permanecer em paz pelo tempo que me fosse necessário. Acabei me sentando em uma mesinha debaixo de algumas árvores, num lugar onde não havia movimento nenhum. Conectei meus fones no celular, os coloquei em meu ouvido e ouvi música enquanto mais uma vez me peguei chorando por não entender se minha vida que é complicada demais ou se sou eu que sinto demais.

Tive de admitir para mim mesma que me senti um pouco incomodada ao perceber que Gabriel continua me conhecendo mais do que eu mesma. Entre todas as pessoas com quem conversei hoje ele foi a única pra quem consegui dizer a verdade e foi quem me compreendeu, quem abriu meus olhos. Tentei ignorar isso, mas meu peito se apertou.

O tempo ali passou tão rápido que não muito tempo depois meu celular tocou. Era Vinícius perguntando onde eu estava e avisando que ele e os amigos já haviam sido liberados. Combinamos de encontrar na portaria mais próxima ao bar onde iríamos. Primeiro eu tive de entrar em um bloco qualquer para procurar um banheiro e verificar a situação do meu rosto no espelho, que felizmente, estava normal. Depois tive de perguntar para três pessoas diferentes onde era a tal saída que eu deveria ir porque me perdi inúmeras vezes dentro do campus. Eu realmente não sei como é que os universitários são tão acostumados.

Quando finalmente encontrei a saída, avistei Vinícius conversando com uma garota que parecia bastante bonita e os dois estavam rindo de algo que parecia muito engraçado. Ao me aproximar a reconheci. Era Maryna, sua ex-namorada. Estranhei um pouco, mas resolvi não falar nada, apenas a cumprimentei com um beijo no rosto e dei um selinho em Vinícius.

— Cadê seus amigos? – questionei.

— Foram indo na frente. – respondeu Vinícius. – Você demorou.

— Eu me perdi pelo caminho algumas vezes, não to acostumada com esses campus.

— Normal. – disse Maryna na tentativa de puxar assunto. – Na minha primeira semana de aula eu cheguei atrasada em absolutamente todas as aulas porque nunca conseguia encontrar os blocos.

Nós rimos, mas minha risada definitivamente não foi sincera. Eu estava incomodada. Vinícius pegou minha mochila para que eu não tivesse de carregar peso e nós caminhamos até seu carro para ir pro bar. Eles disseram que era bem perto, mas Vinícius levaria o carro para não ter de buscar depois.

— E então, Isa. Gostou da feira? – indagou Maryna.

Se eu ouvisse aquela pergunta mais uma vez ia acabar surtando.

— Gostei sim. – mais uma vez menti.

— Você pretende fazer o que na faculdade?

— Psicologia.

— Que incrível! Conheço algumas meninas do curso, aposto que você vai se dar muito bem com elas.

— A Fernanda faz né? – intrometeu Vinícius. – Acho que já vi ela postando alguma coisa relacionada ao curso no facebook.

— Faz sim, ela acabou de ir pro quarto período. – respondeu Maryna.

— Você faz o que? – perguntei para ela.

Me lembrava de Vinícius ter perguntado algo na festa de recepção sobre uma festa do Direito. Imaginei que seria esse seu curso, mas não tinha certeza.

— Direito. – ela confirmou.

Ela tem cara mesmo de quem faz um desses cursos elitistas. Tem muita cara de menina rica com a vida ganha. Talvez porque ela tenha uma dessas belezas naturais, que passa a impressão de que mesmo ao acordar ela permanece bonita e elegante.

O bar era tão perto que não deu tempo de conversar sobre mais nada pois chegamos. Era um desses botecos de bairro de paredes amarelas desgastadas e com poucas mesas do lado de dentro, onde a maioria das pessoas bebiam em pé do lado de fora. Um desses botecos no qual eu jamais entraria com minhas amigas, mas que pros universitários ali presente parecia um ambiente comum. Talvez porque já estão acostumados, talvez porque não ligam ou talvez porque o preço da cerveja seja muito mais barato que o normal. Só sei que resolvi também não ligar. Vinícius me apresentou para os seus amigos, mas a maioria eu já havia conhecido. Em pouco tempo um copo de plástico surgiu em minha mão e alguém já estava me servindo um litrão de Brahma. Não recusei, beber era tudo que eu tava precisando.

No início fiquei um pouco recuada, porque num lugar onde todas as pessoas são do mesmo convívio e estão conversando sobre assuntos em comum, você se sente um pouco excluída. Principalmente porque por algum motivo eu continuava me sentindo intrigada com a presença de Maryna e com o fato de que ela estava enturmada com todos. Me lembro com clareza de Vinícius ter dito que eles não tem mais contato. E bem, não é o que parece. É claro que tudo que eu não ia fazer era confrontá-lo no meio do bar, então deixei pra lá.

Seus amigos eram incrivelmente engraçados e a medida que a quantidade de álcool no meu organismo ia aumentando, mais fácil se tornava me socializar. Porém, também quanto mais cerveja eu bebia, mais um certo incômodo crescia dentro do meu peito. Sentir os braços de Vinícius abraçando meu corpo naturalmente como se fossemos um casal de namorados e ver que seus amigos, seus melhores amigos, já haviam até mesmo se acostumado com isso, me causava desconforto. Eu não conseguia parar de pensar que eu precisava conversar com ele sobre tudo que tenho pensado e eu não queria fazer tal coisa, porque tinha medo do rumo que essa conversa poderia tomar.

Em determinado momento disse que iria buscar uma água e de fato fui até o bar comprar a água, mas saí por outro lado e aproveitei a multidão que ali se aglomerava para me afastar e respirar um pouco. Acabei sendo pega de surpresa por uma pessoa.

— Tá tudo bem? – indagou uma voz feminina. Era Maryna. Ela me olhava parecendo verdadeiramente preocupada e eu respirei fundo sem saber se deveria dizer algo ou não. Nós não somos amigas e ela é a ex-namorada dele, a pessoa que inclusive tem me deixado tão intrigada com sua presença. A presença que me é um grande ponto de interrogação. Mas eu não consigo desconfiar de Vinícius, nem pensar que ele possa estar me enganando ou qualquer coisa desse tipo. E eu estou tão cansada de enxergar outras mulheres como inimigas que acabei dizendo.

— Eu preciso conversar com o Vinícius sobre uma coisa e não sei como. – confessei.

— Vocês estão bem?

— Sim, na verdade são problemas meus.

— Teria alguma coisa haver com seu ex? – ela questionou e olhei para ela numa mistura de confusão com surpresa. – Espero que não fique brava, mas ele me contou sobre o que te aconteceu recentemente. Ele queria alguns conselhos, para saber se eu achava que ele teria chances reais contigo.

— Vocês ainda tem contato? – fiz a pergunta que estava me atormentando. Eu queria muito saber.

— Sim, mas eu juro que somos apenas amigos. – ela esclareceu. – Você não precisa se preocupar com isso.

Eu não me senti preocupada, mas eu não entendi por que ele mentiu pra mim. Medo de que eu pudesse reagir mal?

— É estranho porque eu confio no Vinícius, mas ele mentiu. Por que?

— Ele gosta de você de verdade. – disse Maryna. – Acho que ele só tá com medo de dizer ou fazer qualquer coisa que possa estragar tudo, afinal não é qualquer garota que aceita um cara manter amizade com a ex.

— Faz sentido. – concordei, mesmo que no fundo eu sentisse que havia algo mais nisso tudo. – E na verdade não. – respondi à sua pergunta sobre Gabriel. – É que eu não sei se você sabe, mas eu ainda to no colégio e chegou aquela parte em que eu preciso tomar algumas decisões sobre meu futuro. Minha melhor amiga quer que a gente mude de Curitiba e Vinícius obviamente está esperando que eu faça UFPR e a gente fique juntos. Eu não quero magoar nem um nem outro e preciso ser sincera com ele antes que isso vire uma bola de neve, porque ele realmente é muito importante pra mim.

— Eu acho que você está se fazendo a pergunta errada. – alertou Maryna. – Não é sobre ir com ela ou ficar com ele. É sobre você querer ir ou você querer ficar. O que você quer?

— Eu não sei. – admiti. – Ir embora pode me fazer bem. Começar uma vida nova em um novo lugar, viver coisas novas. Mas como eu posso deixa-lo se ele é o responsável por eu estar seguindo minha vida tão bem? E seria covarde da minha parte simplesmente ir embora, deixar todos os meus problemas para trás e fingir que eles nunca existiram. Eu tenho tanta coisa para resolver aqui.

— Eu posso te fazer uma pergunta? – ela indagou com uma expressão não muito boa. Eu assenti com a cabeça, mas fiquei com medo da pergunta que viria. – Você realmente gosta dele e quer estar com ele ou você apenas gosta dele e está feliz por ele te salvar de si mesma?

Aquela pergunta me pegou tão de surpresa que eu fiquei sem reação. Eu olhei para ela desejando conseguir responder, mas as palavras simplesmente desapareceram da minha mente e nada saia da minha boca por mais que eu tentasse. Ela percebeu.

— O Vinícius é um cara ótimo, talvez o cara mais incrível que eu já conheci em minha vida. – disse Maryna. – E eu tenho certeza que você gosta dele, assim como tenho certeza de que ele é capaz de te fazer feliz. Mas eu não acho que a questão aqui seja essa. É você. Pelo que Vinícius me contou, depois de você ter passado por tudo com o garoto pelo qual você foi apaixonada, foi muito curto o tempo que você teve até se reencontrarem e se envolverem novamente, ele ainda teve de te ajudar a conseguir deixar tudo para trás. Ele estava orgulhoso de conseguir te ajudar e de vocês estarem tão bem, de ele estar te fazendo tão bem. Eu confesso que isso me preocupou. Me preocupou porque você me lembra muito eu mesma algum tempo atrás.

“Quando eu namorava o Vinícius ele me fez muito feliz e eu ainda o amava quando terminamos. Mas eu queria viver coisas novas, experimentar coisas novas e conhecer um pouco mais de mim mesma sem ele. Porque nós crescemos juntos, nos tornamos quase um só e até então eu só conhecia esse alguém que eu era com ele, que eu me tornei com ele. Eu não sabia quem eu era sozinha. Até hoje ele não entende muito esse motivo, mas eu entendo. E é por isso que eu me vejo um pouco em você. Eu sinto que o que você precisa agora é se olhar no espelho e se reconhecer, não se esconder atrás dele. Porque pra mim me parece que é isso que você tem feito.”

“Será que você se preocupar tanto em deixa-lo não significa que você não sabe como vai ser sem ele? Porque ele tem sido justamente o cara que te salvou de todos os seus próprios monstros? Será que você estar se permitindo se envolver emocionalmente com outra pessoa significa que você realmente está se libertando ou na verdade você está mais aprisionada que nunca?”

“Eu tenho certeza de que o Vinícius se encaixa perfeitamente no papel de príncipe encantado que coloca sua vida no eixo e faz com que ela pareça mais fácil, mas sem o Vinícius, hoje, quem é você? Você está bem? O que você quer? Se você não sabe, eu lamento te dizer que talvez você esteja se agarrando a ele pelos motivos errados. E de mulher pra mulher, você não precisa de um cara para salvá-la. Muito menos de um cara para salvá-la de outro. Seja sua própria protagonista. Porque se não, em breve você vai deixar sua melhor amiga ir embora com todos os planos que vocês sonharam juntas, porque mais uma vez você deixou um cara te impedir de descobrir quem você é e o que você quer.”

Dizer que tudo o que ela disse foi o mesmo que levar um tapa na cara seria mentira, porque doeu muito mais. Doeu tanto que eu tive de lutar contra o ardor dos meus olhos que indicavam lágrimas vindo por aí. Respirei fundo umas três vezes para me impedir de acabar chorando.

— Eu sei que pode parecer estranho eu estar te dizendo isso, principalmente porque estamos tão acostumadas com inimizade entre mulheres que pode parecer que eu estou tentando tirar o Vinícius de você, mas eu não estou. – prosseguiu Maryna. – Eu tenho um carinho muito grande por ele e amo que sejamos amigos porque eu realmente não entendo como as pessoas podem desejar o mal para alguém que você já amou e te amou de volta. Mas é só isso, carinho e respeito.

“Eu só estou tentando te aconselhar porque quando nós estávamos juntos minha decisão de me mudar para Curitiba era exclusivamente por causa do nosso namoro. Vinícius queria muito sair de casa, queria muito que nós saíssemos de casa e por isso era o que eu queria também. E recentemente eu me inscrevi pra um intercâmbio bem na época em que eu comecei a dar certo com um carinha pelo qual eu tava apaixonada, aí eu percebi que se passasse teria de abrir mão de ficar com ele. Nas duas situações eu estava pensando neles, sabe? E não em mim. A única pessoa na qual eu realmente deveria pensar! Uma coisa tão óbvia, mas que ás vezes a gente fecha os olhos e finge não ser.”

“Por isso eu só estou tentando te fazer pensar e tomar essa decisão por você. Porque relacionamentos acabam e você não vai ter ele pra sempre, então quando ele te deixar, que sua melhor amiga não estiver mais aqui, os motivos que te fizeram ficar além dele, ainda serão fortes o suficiente para não te deixar arrepender de suas decisões? Eu acho verdadeiramente bonito você dizer que quer ficar porque ainda precisa encarar seus problemas de frente e não fugir deles. Mas não é o que você tem feito com o Vinícius. Você tem se escondido atrás dele. Se isso for realmente importante para você, descubra e você vai saber o que fazer sem ter de escolher entre ninguém ou nada. Você vai escolher por você.”

Ela estava totalmente certa. Quando me envolvi com Vinícius tudo se tornou tão mais fácil de aceitar e suportar, mas unicamente porque eu o usei como escudo da vida. Se amanhã ele resolvesse olhar para mim e dizer que não me quer mais, eu não saberia o que fazer. E aí sim, com toda sinceridade do mundo, eu partiria com Leticia sem nem pensar duas vezes. Eu nunca encarei meus problemas de fato, eu só os escondi debaixo do tapete como poeira, esperando que ninguém notasse. Até mesmo eu. E tá na hora de limpar essa sujeira toda.

Involuntariamente eu acabei abraçando Maryna. Ela retribuiu o abraço.

— Obrigada. – foi tudo que eu consegui dizer.

— Não precisa agradecer. – respondeu Maryna. – Eu tenho aprendido um pouco sobre a palavra sororidade e tenho tentado exercê-la.

Todas nós devíamos.

— Eu preciso ir ao banheiro, ok? – avisei e ela permitiu que eu fosse.

Assim que eu entrei naquele cômodo pequeno e sujo, eu me permiti chorar tudo que estava segurando. Chorei de verdade. Chorei porque eu tomei duas decisões importantes: A primeira é que eu sairia daquele banheiro e me divertiria o máximo possível com Vinícius. E a segunda é porque aquele seria nosso último momento juntos. Eu abriria mão dele. Por mim.

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Ouvi uma batida na porta e encontrei Maryna mais uma vez disposta a ser um anjo em minha vida. Ela estava com sua bolsa e entrou para me ajudar a disfarçar meu rosto vermelho e inchado com suas maquiagens. Ela não questionou em momento algum minhas lágrimas nem o que eu faria, ela simplesmente respeitou o meu espaço e principalmente me respeitou. Senti dentro do meu coração uma gratidão tão grande por ela que jamais saberia explicar.

Quando saímos dali eu estampei meu melhor sorriso e voltamos para a roda. Vinícius pareceu não ter percebido nada, ou se percebeu, não comentou. Apenas questionou o motivo de eu ter demorado e eu disse que estava conversando com Maryna, o que não era mentira. Nós de fato nos divertimos muito durante o resto da noite. Conversamos sobre coisas banais, contamos histórias, bebemos muito e vez ou outra quando eu tinha a oportunidade o roubava um beijo.

Meia noite o bar fechou nos obrigando a ir embora. Foi quando eu tive de voltar para minha realidade. Nós fomos deixar alguns de seus amigos em casa e eu permaneci apreensiva durante todo o trajeto. Quando finalmente deixamos seu último amigo e sobramos só nos dois no carro, ele se inclinou para me dar um beijo. Prolonguei aquele beijo o máximo que eu pude.

— Você vai dormir lá em casa? – perguntou Vinícius ainda com a boca colada na minha.

— Não, eu preciso ir pra casa. Minha mãe ainda está um pouco brava. – menti. Ele concordou, me deu um selinho e voltou a dirigir rumo à minha casa. Sua mão procurou pela minha e entrelaçou nossos dedos. Eu permiti, mas não tive mais coragem de olhar para seu rosto.

Quando seu carro estacionou em frente ao muro branco de minha casa e eu deveria ter dito ou feito qualquer coisa, mas não fiz, pude ver de canto de olho que ele me olhava preocupado. Então eu soltei sua mão, respirei e me virei para ele tentando reunir coragem.

— A gente precisa conversar. – disse indo direto ao ponto. Vi sua expressão mudar em questão de segundos. Eu já havia feito isso com ele antes, ele já estava prevendo o que aconteceria a seguir. – A primeira coisa que quero te perguntar é por que você mentiu pra mim quando eu te perguntei sobre sua ex. Eu te perguntei se vocês ainda tinham contato e você me respondeu que não.

— Porque eu não queria te preocupar. – ele respondeu. – A gente quase nunca se vê, somos apenas amigos.

— Me preocupar com o que? Se vocês são realmente amigos eu não teria com o que me preocupar. Eu não me preocuparia nem mesmo se você me dissesse que vocês se veem todos os dias, Vinícius, porque eu confio em você.

— Eu sei, mas é que a gente tá bem e eu tive medo que você surtasse por isso. Você já estava implicada com a Valentina.

— A história da Valentina não tem nada a ver com a Maryna. – me defendi.

— Tá, Isabelle. Você quer que eu diga o que?

— A verdade. – pedi.

— Que verdade? – vociferou Vinícius. Ele ficou visivelmente nervoso. – Por acaso você tá achando que eu ainda tenho algo com ela? Eu juro por Deus que eu nunca mais beijei aquela garota desde que nós terminamos!

— Eu não acho que você esteja tendo algo com ela, eu sei que não está. Mas eu acho que tem mais coisa nessa história.

Ele suspirou visivelmente irritado e evitou me olhar nos olhos, foi quando percebi que estava certa, mas aquele ainda não era o momento de chegar onde eu queria. Primeiro precisava fazer o que eu decidi antes que eu acabasse não tendo forças para prosseguir e desistisse.

— Eu sei que você contou pra ela sobre mim e o Gabriel. – contei.

— É por isso que você tá chateada? – indagou Vinícius.

— Eu não to chateada, Vine. – esclareci. Eu não sabia nem por onde começar ou o que dizer. Queria escolher as melhores palavras, queria fazer com que fosse menos dolorido, mas não sabia como. – Eu conversei com a Maryna hoje e ela me disse algumas coisas que me deixaram pensativa.

“Quando nos reencontramos, eu estava num processo de recuperação. Eu já estava me sentindo melhor, mas tive uma recaída por toda a história de Gabriel e Amanda. E aí lá estava você, com todo seu bom humor e atenção me amparando. Você fez tudo ser mais fácil e ao me dar o apoio que eu precisava, me fez acreditar que me envolver com você foi uma libertação que eu estava dando para mim mesma. Mas tudo que eu fiz, foi sair dos braços de Gabriel e ir chorar nos seus, esperando que você me ajudasse a concertar minha própria vida. Eu acreditei de verdade que eu estava seguindo em frente por mim mesma, mas eu só estava fazendo isso porque ao seu lado me senti em minha zona de conforto novamente, eu não estava sozinha.”

“Só que eu finalmente entendi que por mais que você tenha me ajudado a seguir em frente, eu não preciso de um homem para me reparar e me reerguer, porque quem tem de fazer isso sou eu mesma. Você já me fez muito bem e já tá bem claro que nessa história você é o mocinho, mas sabe o que acontece? De certa forma o Gabriel também foi mocinho, porque ele também fez coisas boas por mim. Gabriel me resgatou do meu medo de ser eu mesma. Eu sabia que podia ser mais, que podia fazer mais, que podia viver mais, mas eu tinha medo e ele me mostrou que eu não precisava sentir. Ele me transformou na pessoa decidida e independente que você conheceu e no momento em que ele me deixou eu esqueci completamente de quem era essa pessoa, de como ser essa pessoa. E quando reencontrei você, eu comecei a me lembrar novamente. Mas a questão é que eu preciso saber ser eu mesma sozinha, eu preciso me encontrar. Eu não quero mais precisar de mocinhos para me mostrar quem ser ou o que fazer.”

— Por isso você tá "terminando" comigo de novo. – concluiu Vinícius sem sequer conseguir me olhar.

Eu queria o abraçar, queria que ele entendesse o quanto eu realmente gosto dele e o quanto eu realmente queria que tivesse uma forma de não machucá-lo mais uma vez, mas não tinha como eu fazer isso. Tudo que eu podia fazer era esperar que ele pelo menos tentasse me entender.

— Eu quero te pedir desculpa, de verdade, por ter te colocado no meio da minha própria bagunça duas vezes. – desculpei-me. – Eu não fui justa com você, principalmente porque sou verdadeiramente grata pela nossa história e porque eu realmente gosto de você com todo meu coração. Mas eu preciso fazer isso por mim, preciso perceber o quanto eu sou realmente forte e que eu tenho a mim mesma. Será que você entende isso?

Ele assentiu.

— Realmente entende? – insisti.

Ele deu um soco no volante, mas não parecendo estar com raiva e sim verdadeiramente frustrado.

— Eu entendo. – ele respondeu com a voz embargada. – Mas é tão injusto. Por que as coisas não podem dar certo pra mim? Eu to bêbado mano, que saco, eu vou chorar.

Quando ele disse isso quem acabou chorando fui eu.

— Me desculpa. – sussurrei.

Ele permaneceu quieto na sua olhando através do vidro e eu quieta na minha tentando controlar as lágrimas que desciam pelo meu rosto. Tentei pela primeira vez ser a pessoa madura de nosso "relacionamento" e segurei sua mão sem saber como ele iria reagir. Ele permitiu que eu a segurasse, a puxou na direção de seu rosto e beijou seu dorso finalmente voltando a olhar para mim.

— Tá tudo bem. – ele sussurrou me acalmando.

Eu enxuguei meu rosto e tentei recompor minha postura. A conversa ainda não tinha acabado.

— Eu só preciso dizer mais uma coisa. – disse me recuperando e tentando voltar minha voz ao normal. – Se você realmente me entende, acho que também tá na hora de você pensar sobre algumas coisas.

Ao me ouvir dizer isso ele pareceu bastante confuso.

— Eu te perguntei sobre Maryna porque percebi algumas coisas. – esclareci. – Na festa, eu estava tão cismada com a Valentina que não percebi como você ficou tenso com a presença de Maryna. Hoje você também ficou quando estavam conversando e me viu. Você ainda se sente desconfortável perto dela e é por isso que mentiu pra mim quanto a ainda serem amigos.

— Do que você tá falando? – questionou Vinícius me interrompendo.

— Quando você me contou sobre vocês dois, você me disse que Maryna terminou contigo porque queria viver novas coisas e que você ainda não entendia ao certo por que ela não podia fazer isso ao seu lado. Eu não percebi no momento, mas você ainda tem uma certa mágoa com isso. Agora eu sei disso. E acho que se você me entende, você também pode tentar entende-la. Maryna só precisava das mesmas coisas que eu. Ela cresceu contigo e se moldou com você, mas ela queria descobrir quem ela seria sem você. Ela também só queria se encontrar.

Vinícius olhou para frente parecendo não gostar do rumo que a conversa tomou.

– Você veio fazer faculdade em Curitiba por causa dela, não foi? – indaguei. – Seja sincero.

— Ela foi um dos motivos. – ele admitiu. – Aqui realmente era minha primeira opção, eu sempre quis vir pra cá, mas eu sabia que ela viria e eu tive esperança de que se nos encontrássemos novamente, mais maduros, talvez percebêssemos que ainda gostávamos um do outro. Mas eu a superei, eu juro que superei, eu consegui seguir minha vida, eu realmente gostei de outras pessoas depois disso, eu realmente gostei de você.

— Mas superar talvez não significa que você a tenha esquecido. É por isso que eu estou tendo essa conversa com você. Gabriel não é a única história de amor que eu já vivi. Também houve um cara chamado Arthur, o qual eu não amei como amei Gabriel, mas fui apaixonada por ele. Arthur terminou comigo por causa de outra garota e por muito tempo remoí isso dentro de mim mesma. Cheguei a acreditar que pudesse ainda ter sentimentos por ele, mas hoje eu sei que na verdade foi só algumas pendências que deixei com o passado. Eu guardei mágoa dele, porque definitivamente não é fácil ser trocada por outra e não conseguia entender bem nosso fim, porque eu realmente gostava dele. Mas tudo isso foi porque ele interrompeu nossa história no que para mim era o meio e por isso eu não conseguia deixar de pensar em tudo que achei que viveríamos juntos. Pensar nisso foi o que não me deixou esquecer, porque eu tinha a sensação de que não vivemos tudo que tínhamos para viver. Porém aquilo foi tudo, aquela foi a nossa história. Nos apaixonamos e em um determinado momento ele se apaixonou por outra. Simples assim. Eu só precisava entender, aceitar e seguir.

“Talvez o que ainda te prende à Maryna, é você também não ter aceitado muito bem o fim de vocês. Você também estava envolvido completamente com ela quando ela decidiu que era o momento da história de vocês acabar. Ela interrompeu a história de vocês quando você não estava esperando e por isso ainda carrega essa mágoa contigo. O que eu te aconselho é realmente pensar sobre isso. Se não é apenas uma questão de você ainda carregar essa sensação de história inacabada ou se ainda gosta dela, porque não podemos descartar essa possibilidade. Eu não sei o que se passa dentro de você. Mas se for essa segunda opção, você precisa pensar que a Maryna de agora não é a mesma Maryna por quem você se apaixonou no passado.”

Ele apenas concordou com a cabeça e respirou fundo. Desejei internamente que ele realmente pensasse pelo menos um pouco em tudo que eu disse, pois eu sei o quanto é ruim insistir em carregar bagagens do passado com si mesmo principalmente se essa bagagem pesa, incomoda e te impede de continuar caminhando livremente.

— Independente de qualquer coisa, o que eu sinto por você é algo realmente especial. – declarou Vinícius. – Não quero que duvide disso por nenhum momento, ok? Você é a garota mais especial que eu já conheci em toda minha vida e eu espero que um dia você consiga se enxergar com os meus olhos. Não somente pra enxergar o quanto você é linda, mas pra finalmente entender que se o mundo tivesse um pouquinho da essência que você carrega consigo, talvez os dias não precisassem ser tão difíceis.

— Obrigada, Vine. De verdade. Por ter sido minha mais preciosa lição e por ter me olhado de um jeito que eu jamais seria capaz. – respondi verdadeiramente grata. Vinícius foi e sempre será uma parte muito importante da minha vida. – Só não fique com a Valentina, ok? Eu realmente tenho muito ciúmes dela.

Nós rimos até acabarmos em silêncio, cada um em seu banco. Me virei para olhá-lo e encontrei seus olhos já me encarando. Sem resistir me inclinei para beijá-lo uma última vez. Ele correspondeu. Não sei dizer se porque sabia que seria o último, mas foi um dos melhores beijos que já demos. Tanto foi que a cada segundo que se passava o espaço entre nossos bancos se parecia ainda mais inconveniente e desnecessário. Praguejei mentalmente pela existência daquele freio de mão.

Para minha felicidade ele tomou a atitude de me puxar para seu colo e de bom grado eu me ajeitei ali naquele pequeno espaço entre seu corpo e o volante. Senti seus braços envolverem meu corpo e segurei sua nuca intensificando os beijos. Naquele momento me lembrei de tantas coisas que percebi que estávamos terminamos onde tudo começou.

Parei nosso beijo lentamente e o encarei.

— Você lembra que foi exatamente aqui que demos nosso primeiro beijo? – sussurrei. – Dentro desse mesmo carro, bem aqui na porta da minha casa?

— Como eu poderia esquecer? – respondeu Vinícius.

O beijei novamente com paixão e deixei que o desejo nos guiasse. Suas mãos seguraram meu quadril e pressionaram meu corpo ainda mais contra o seu. Não me esqueci de que havia câmeras no muro da minha casa e nem mesmo que alguém poderia aparecer a qualquer momento, simplesmente resolvi não me importar. Ele afastou o banco o máximo que conseguiu na intenção de nos dar mais espaço e nós transamos uma última vez.

Nessa altura do campeonato, com tudo que nos aconteceu, tanto juntos quanto separadamente, eu já entendi que minha história e de Vinícius se trata de um encontro necessário apenas para aprendermos um com o outro. Mas isso não significa que não lamentarei para sempre nosso destino não poder ser outro. Talvez seja isso que torne alguns amores tão inesquecíveis, sua finidade.

Notas finais
E agora, o que vai ser de nossa Isa? Não deixem de comentar! Um beijo e até o próximo capítulo!