Poltrona 19
27 Feridas do passado
Notas iniciais
Uma das sensações mais incríveis da vida é a de sorrir involuntariamente e não conseguir parar. Quando você entra em uma guerra contra sua própria boca, tentando fazer com que ela se mantenha fechada, mas ela insiste em exibir todos os seus dentes, mostrando um largo sorriso. Essa é uma reação do seu corpo a um estado emocional chamado “feliz”. E eu estava bem feliz, então tinha a sensação de que minha arcaria dentária inteira estava à mostra. Okay, brincadeiras a parte.
Eu desci do gira-gira, brinquedo de rodar que conheci por esse nome e tudo voltou a rodar mesmo assim. Parecia que eu tinha sentado no brinquedo de novo e Bruno me girado, mas algo na minha consciência dizia que era provavelmente outra coisa fazendo tudo girar: meu velho e bom amigo, álcool. Cai de bunda de volta no assento, rindo de mim mesma.
– O mundo girou mais rápido por ai? – zombou Gustavo.
– Bem mais rápido. – respondi sorrindo para ele que sorriu de volta.
– Gira de novo, Bruno. – pediu Bárbara me fazendo sentir um embrulho no estômago antecipadamente.
– Chega de giros para as crianças. – negou Gabriel e o agradeci mentalmente. – Álcool e brinquedos que giram não são uma boa combinação.
– Não da pra se ter tudo na vida... – disse Nicolas. – Mas ainda temos o álcool. Ande Bárbara, vamos buscar mais.
Quando ele disse isso, olhei imediatamente para trás, meio chocada, meio orgulhosa. Nicolas já estava em pé, ajudando Bárbara a se levantar também. E juntos, os dois saíram dali em busca de mais bebida. Eu olhei para Gabriel e como se lesse meus pensamentos, ele brincou:
– Eles crescem tão rápido.
– A Luiza vai mesmo ficar com o Bruno de novo? – perguntou Gustavo mudando totalmente o assunto, parecendo bem indignado olhando para eles. – Olha, eu desisto de proteger minhas amigas dos meus amigos.
– Não há filha da putagem que acabe com o amor de uma garota, uma vez que ela já esteja amando. – respondeu Carol e todo mundo olhou para ela. – Que?
– Lispector, Carol. – zombou Gabriel e ela deu um tapa em seu braço, se levantando logo em seguida e indo até o Gustavo.
– Ainda bem que eu encontrei o amor da minha vida. – disse Carol abraçando o pescoço de Gustavo e o dando um selinho. Aquilo foi gay demais até para mim.
– Ah, pelo amor de deus, não sou obrigado a presenciar essa melação de vocês... – reclamou Gabriel e eu ri enquanto apoiei minhas costas no brinquedo e olhei para o céu. Para ser sincera, não estava muito confortável, na verdade não estava nada confortável, mas o céu estava bem bonito, então resolvi ignorar a dor em minhas costas.
– Não é melação, é amor. – respondeu Carol.
– Então amor me dá vontade de vomitar. – rebateu Gabriel.
– Porque você nunca amou ninguém.
– Eu amo muita gente. – se defendeu Gabriel.
– Você entendeu muito bem o que eu quis dizer, Gabriel. Um dia vai aparecer uma garota...
– Que vai mudar minha cabeça, meu jeito, meu mundo e minha vida? – zombou Gabriel, como se ela já tivesse dito aquele discurso um milhão de vezes. – E ai nada mais vai importar, além dessa pessoa? E da necessidade de estar perto, vê-la feliz e acima de tudo, ser o motivo pelo qual ela é feliz?
– Para de falar como se fosse algo idiota! – ordenou Carol irritada, mas Gustavo estava tentando segurar uma risada e ela percebeu. – O que foi, Gustavo? Também acha nosso relacionamento uma piada?
– Sério que vai sobrar pra mim? – reclamou Gustavo e Carol revirou os olhos, se afastando dele.
– Carol meu amor, entenda... – disse Gabriel. – Eu não sou implicado com o amor, eu só acho sufocador demais. Quando foi a última vez que você e o Gustavo fizeram algo separados? Ou que vocês passaram mais de uma hora sem se falar? Ou que tiveram um tempo para si mesmos? Vocês levam uma vida de casados e pelo amor de Deus, a gente não tem nem 18 anos. Eu acho que tenho o livre direito de curtir minha vida!
– Seu argumento seria totalmente aceitável, se você tivesse alguma expectativa de vida. – intrometeu Gustavo.
Quando ele disse isso, lentamente vi a expressão de Gabriel mudar e mesmo sem entender, eu pude perceber que o clima ficou tenso. Até pelo fato de Carol não ter dito mais nada. Mas Gustavo se aproximou de Gabriel e estendeu a mão para ele, que apertou sua mão de volta e deu um meio sorriso.
– Você sabe que não vou pedir desculpa. – disse Gustavo. – E sabe que é porque tu é meu irmão.
– Vaza daqui com essa viadagem e vai comer sua namorada.
Eles obedeceram. Quer dizer, não literalmente, eles apenas se retiraram e foram para algum lugar que não faço ideia, uma vez que os acompanhei com o olhar somente até onde deu sem ter que me levantar. Depois olhei para o lado e vi que Gabriel estava me observando bem curioso.
– Que? – perguntei.
– Não vai fazer perguntas? Você sempre faz perguntas.
– Eu não sou tão previsível assim. – rebati voltando a olhar para cima.
– Na verdade você é insuportavelmente previsível. – ele afirmou tentando se deitar igual a mim, apoiando as costas no brinquedo, mas no momento em que fez isso, soltou um gemido de dor e se levantou novamente. – Ai, caralho! Isso não é confortável!
– Eu nunca disse que era.
– Aposto tudo que tenho na carteira que você ta deitada assim pra observar o céu.
– Talvez. – respondi sorrindo. Não por ele ter comprovado que eu sou mesmo a pessoa mais previsível do mundo, mas porque Gabriel me conhece melhor do que ele pode imaginar. E isso significa alguma coisa.
– Insuportavelmente previsível... e clichê. – ele resmungou pegando o celular no bolso.
Olhei para o céu estrelado de Curitiba e desejei entender de astronomia. O máximo que consigo reconhecer são as Três Marias, três estrelas bem próximas e alinhadas, para quem não sabe. Mas sempre quis ser capaz de conseguir enxergar a junção de todas as estrelas que formam a imagem do gigante caçador Órion. Não sei por quanto tempo fiquei tentando encontrar a Aldebaran, as Plêiades ou Sírius, mas chegou um momento em que minhas costas pediu por socorro e fui obrigada a me sentar direito.
Ao fazer isso, vi que Gabriel ainda estava ali, sentado em silêncio, pensando em alguma coisa. Dessa vez sim me senti tentada a perguntar no que, mas isso era o que ele esperava, então me contive. Peguei meu celular para averiguar as horas e vi a seguinte notificação: “gabrielfornazier tirou uma foto com você”. Então por curiosidade abri o instagram para ver e passei os próximos minutos pensando que aquela era minha foto preferida da vida.
No embalo de tirarmos fotos, eu me lembrava de ter tirado uma com Gabriel em seu celular, mas não tive tempo para ver a tal foto. E nela eu estava abraçada em seu pescoço, com um sorriso tão grande que parecia dizer algo por si próprio, como “olhe para mim, eu gosto desse idiota”, enquanto ele estava dando um beijo em minha bochecha. Eu juro que tentei me conter, mas fiquei tão apaixonada pela foto que demorei para ver a legenda, que me fez lembrar que eu não estava apaixonada pela foto e sim, pelo cara daquela foto.
“Who the hell is she? That weirdo with 5 colours in her hair? She’s just a loner with a sexy attitude”
Eu sorri, curti a foto que mesmo tendo sido postada há apenas onze minutos, já estava com quase quarenta curtidas e guardei meu celular de volta, junto com meu orgulho. Para então me levantar, parar em frente ao Gabriel e usar minha mão que levei até sua nuca, para puxar sua boca até a minha. Eu o beijei sem nem me preocupar se havia mais alguém ali além de nós ou se ele usaria isso a seu favor por um bom tempo. Apenas me deixei levar pelo impulso e o beijei como se pudessem lhe roubar de mim a qualquer instante.
Quando ele correspondeu ao beijo e abraçou meu corpo com força, eu senti um estranho alívio. Não que eu pensasse que Gabriel não corresponderia a qualquer um de meus beijos, mas toda vez que ele me abraça forte, eu sei que ele ainda me quer tanto quanto eu quero ele. E ninguém pode me julgar por me sentir aliviada ao saber que entre todas as garotas que ele pode ter, ele ainda me quer. Qual é, que garota nunca olhou para um cara e sentiu como se não fosse boa o suficiente para ele? Pois é, olhar para Gabriel, é sentir o medo instantâneo de que ele possa encontrar alguém melhor.
– Meu Deus! – ouvimos uma garota gritar e levamos tanto susto, que nem sequer nos separamos, apenas paramos o beijo e paralisamos com as bocas ainda coladas. – É verdade!
– Acho melhor voltarmos depois. – reconheci a voz de Nicolas e finalmente soltei o ar que nem percebi que havia prendido no pulmão, assim como senti o corpo de Gabriel se relaxar. Afastei o rosto de Gabriel e enxerguei Nicolas e Bárbara se preparando para darem meia volta e saírem dali.
– Esperem! – ordenei e os dois olharam para nós novamente.
– Desculpa... – pediu Nicolas. – A gente não queria interromper. Eu juro. O Gustavo só pediu para virmos chamar vocês para continuarmos o jogo, enquanto ele ia procurar por Luiza e Bruno. E nós trouxemos bebidas também, porque a de vocês tinha acabado. Mas a gente não sabia que...
– Vocês estão mesmo juntos! Isso é demais! – interrompeu Bárbara extremamente animada.
– Não tem problema, Nicolas. – respondi o tranquilizando, mas então olhei para Gabriel de relance e ele não parecia estar tão tranquilo quanto a isso. – Só que preciso conversar com vocês. – continuei e vi o sorriso no rosto de Bárbara desaparecer. – Você sabe que as coisas no colégio são complicadas, não é mesmo, Bárbara? – perguntei e ela assentiu. – Então, basicamente preciso que vocês finjam que não viram nada e que não contem isso pra ninguém. Absolutamente ninguém. Nem os amigos do Gabriel, nem os meus. Nem Amanda, nem Leticia. Ninguém.
– Vimos o que? – perguntou Bárbara e por um momento achei que ela estava bêbada o suficiente, para ter se perdido na conversa, mas entendi pelo seu sorriso que ela estava apenas brincando.
– Não sei. – respondeu Nicolas. – Não sei mesmo do que ela ta falando. – completou e eu sorri para eles em forma de agradecimento. – Bom, vamos nos encontrar no portão de entrada... – ele avisou e os dois saíram dali.
Eu olhei de volta para Gabriel e ele ainda estava com uma expressão não muito agradável. Então senti medo de que ele ficasse com raiva de mim por ter feito o que fiz e consequentemente, ter feito com que duas pessoas nos vissem.
– Desculpa, Gabriel. – pedi e disparei a falar. – Eles não vão contar. Eu conheço o Nicolas, ele jamais faria isso e conhecemos o suficiente da personalidade de Bárbara, para saber que ela também não faria... – eu percebi que ele estava me olhando com a maior cara de interrogação do mundo e parei de falar. – Você não ta bravo, né?
– Não. – ele respondeu confuso. – Você disparou nesse discurso achando que eu estava?
– Sim. – respondi e ele gargalhou.
– Eu tenho certeza que eles não abririam a boca, Isabelle. Eu só estava frustrado, porque tipo assim, Isabelle Nemitz resolve me agarrar no meio de um parquinho e alguém atrapalha no meio da coisa. É broxante. Não é todo dia que, repito nome e sobrenome, Isabelle Nemitz, resolve admitir que precisa ficar se controlando para não me agarrar o tempo inteiro.
Eu revirei os olhos e sai andando, mas acabei começando a rir. Era apenas Gabriel sendo Gabriel.
Nós encontramos o pessoal exatamente onde Nicolas avisou que estariam e demorou um pouco para que Gustavo aparecesse acompanhado de Bruno e Luiza. Fiquei tentada a perguntar onde eles estavam, mas achei melhor não fazer isso.
– Bom, a próxima da lista é Barbara. – anunciou Bruno assim que se juntou a nós.
– Devo dizer que minhas mãos estão tremendo. – contou Bárbara quando entregaram a garrafa para ela, mas sorrindo, ela a girou. E sorrindo ela permaneceu, quando a garrafa parou apontada para Nicolas.
– Eu posso abrir uma exceção para Barbara e fazer um desafio que não tem nada a ver com essa noite? – pediu Nicolas.
– Depende... – respondeu Bruno.
– A Isabelle tinha um objetivo quando convidou ela pra essa festa, que era começar uma mudança na vida dela e o meu é continuar com essa mudança. Eu queria desafiá-la a fazer tudo ao contrário por uma semana. Se ela não é sociável no colégio, a desafio a ser. Se ela faz todos os deveres, trabalhos e atividades, a desafio a não fazer. A desafio a ser outra pessoa.
– Isso foi genial. – afirmou Gabriel. – Quero ver Barbara ser diferente sóbria.
– Não gente, não. Não posso. – negou Bárbara. – Se eu não fazer as coisas do colégio, minha mãe me espanca, me tortura, me mata. E eu não posso colocar minhas notas em risco. E conversar com o pessoal do colégio não é nada agradável...
– Bárbara... – repreendi.
– E se ela não cumprir? – perguntou Bruno.
– Então a gente resolve isso no próximo fim de semana. – sugeri. – Todos de acordo? – perguntei e a galera assentiu.
– Eu vou te encher o saco a semana inteira, Bárbara. – garantiu Renan.
– Isso vai ser um pesadelo. – respondeu Bárbara e entregou a garrafa para Nicolas, que era o próximo da lista.
Nicolas girou a garrafa e ela parou apontada para Renan, mas ele já havia lançado um desafio, então ordenamos que ele girasse novamente. Quando a garrafa girou pela segunda vez e a acompanhei com os olhos, vi ela parar apontada para meus pés. Seria eu quem desafiaria Nicolas e por mais que o conheça bem, não consegui pensar em algo de imediato.
– Pega leve, por favor. – pediu Nicolas.
Eu demorei alguns minutos para pensar, mas tive uma ideia genial. Me lembrei do pai de Nicolas e me lembrei do quanto Nicolas o odeia. Me lembrei de toda a confusão que seu pai já causou na vida de Lilian e na vida dele. E foi por tudo isso, que lancei o seguinte desafio:
– Te desafio a quebrar todas as janelas e portas da casa do seu pai.
Vi um sorriso surgir em seu rosto e eu soube que ele já havia aceitado. Nicolas passou o endereço da casa de seu pai para a gente e fomos todos para lá. Estacionamos os carros em frente a uma casa de muro branco e começamos a tentar bolar um plano.
– Num sábado a noite, eu duvido que ele esteja em casa. – disse Nicolas. – Mas por precaução, eu vou entrar e verificar, depois venho avisar vocês.
– Vou com você. – avisei.
Nicolas abriu o portão para que pudéssemos entrar e do lado de fora, todas as luzes da casa pareciam estar apagadas. Ele destrancou a porta da sala, nós entramos na casa e estava realmente tudo escuro, de modo que parecia não ter ninguém ali.
– Espera aqui um minuto. – pediu Nicolas e saiu andando. Eu fiquei parada, enquanto minha visão se acostumava com a escuridão e eu começava a enxergar a silhueta dos móveis da sala. De repente a luz se acendeu e vi Nicolas parado próximo ao interruptor. – O idiota não está em casa.
– Isso é muito bom. – afirmei.
– Só espero que não se importe, quero acrescentar algumas coisinhas nesse desafio. – disse Nicolas indo até a porta de entrada e começando a gritar o pessoal. Comecei a observar o local e estava tudo extremamente bagunçado. Haviam diversas garrafas de cervejas espalhadas em uma mesinha de centro em frente a televisão, uma caixa de pizza vazia em cima do sofá e roupas espalhadas pelo cômodo. – Parece mais a casa de um adolescente, do que de um cara com mais de quarenta anos nas costas.
– Com certeza! – concordou Gustavo e percebi que todo mundo havia entrado. Nicolas subiu em cima de um dos sofás e chamou a atenção para ele.
– Deixa eu contar uma coisa pra vocês: meu pai é o cara mais imbecil que existe no mundo e é por isso que vamos nos vingar dele, como eu sempre quis. – anunciou Nicolas. – Pensem em coisas que vocês sempre quiseram fazer em casa, mas seus pais jamais deixariam. To falando de coisas bizarras mesmo, por exemplo... – ele pegou uma das garrafas de cerveja, virou para a televisão na parede e tacou a garrafa com tudo. O visor da televisão quebrou, assim como a garrafa e todos nós nos assustamos. – Eu sempre quis quebrar essa maldita televisão, quando ele maltratava minha mãe porque tava passando futebol. E então... – retomou o assunto voltando a olhar para nós. – Façam! Destruam essa casa! A Isabelle me deu o desafio genial de quebrá-la por fora e talvez, em qualquer outra situação, eu não teria coragem de fazer nem sequer isso, mas agora eu quero quebrá-la inteira e conto com a ajuda de vocês.
– Pode deixar, irmãozinho. Não vai sobrar um objeto intacto. – avisou Bruno sorrindo e todos nós sorrimos também.
– Deu pra ver que ele gosta de beber, certo? – perguntou Gabriel.
– O imbecil é o maior alcoólatra do século. – respondeu Nicolas.
– Heitor e Renan, verifiquem o que tem na geladeira e nos armários da cozinha. E Henrique, busca aquele seu pen drive no carro. – ordenou Gabriel e os dois obedeceram. – Tem som nessa casa?
Nicolas abriu as portas de um raque e apontou para um som, então Gabriel abriu um sorriso enorme e ouvimos Heitor e Renan gritarem da cozinha.
– Tem mais cerveja nessa geladeira que na minha festa. – disse Renan.
– E achei whisky no armário. – completou Heitor.
– Traz as cervejas pra gente! – ordenou Gabriel e Henrique apareceu com o tal pen drive que ele havia pedido.
Gabriel caminhou até o som, conectou o pen drive e começou a tocar uma música eletrônica que reconheci ser “Summer” do Calvin Harris. Ele aumentou o som no que eu julgaria ser o volume máximo e tive certeza de que os vizinhos surtariam. Os meninos voltaram da cozinha, trazendo uma cerveja para cada um de nós e até eu resolvi beber sem reclamar, mesmo que não goste de cerveja.
– Você está dando sua primeira festa, Nicolas. – gritou Gabriel passando o braço por cima de seu ombro. – E algo me diz que será a mais louca que já fui na minha vida.
– Um brinde a melhor noite da minha vida. – gritou Nicolas levantando sua garrafa e nós brindamos.
Em questão de segundos, todos estavam destruindo algo. Vi Nicolas tacando objetos em todas as janelas e portas de vidro e ri pensando no prejuízo que o pai dele teria. Aquele com certeza era o maior pesadelo de seu pai e o maior sonho de Nicolas, se tornando realidade ao mesmo tempo. Segui até a cozinha e fiz algo que sempre quis fazer. Peguei todos os pratos que haviam no armário e um por um, os arremessei contra a parede, me mantendo o mais distante possível, para que os cacos não me atingissem. Quando os pratos acabaram, repeti a ação com copos e qualquer outra coisa de vidro que encontrasse pela frente.
Abri a geladeira e achei vidros de ketchup e maionese, então os peguei e voltei para a sala, bem a tempo de ver Bruno rasgando o sofá com algum objeto que não consegui identificar, enquanto Renan rasgava o outro. Quando fui me virar para o corredor, quase fui atropelada por Gabriel em cima de um skate. Eu não fazia ideia de que ele sabia andar de skate, mas pelo jeito ele fazia isso bem. Continuei meu trajeto e taquei ketchup e maionese nas paredes do corredor inteiro, até chegar aos quartos, onde vi que o pessoal estava destruindo todo o resto.
Caio e Heitor estavam brincando de queimar roupas com um isqueiro e eu fiquei chocada. Por um breve momento cai na real e pensei que estávamos exagerando. Estávamos destruindo uma casa inteira, é dinheiro pra caralho. Fiquei paralisada ali no meio do corredor, observando o caos ao meu redor, até que Nicolas surgiu caminhando em minha direção com um sorriso enorme no rosto. Quando viu minha expressão, ele parou de sorrir.
– O que foi? – perguntou.
– Nicolas, será que isso não é exagero?
Ele respirou fundo e soltou a frase de uma vez.
– Ele já bateu na minha mãe diversas vezes. – contou Nicolas e eu cheguei a levar a mão até a boca de tão chocada que fiquei. Foi difícil imaginar alguém batendo em Lilian e pensar nisso me fez entender que Nicolas provavelmente presenciou isso. – Bem material não é nada comparado a isso.
Olhei de volta para Caio e Heitor e os chamei.
– Tomem cuidado para não acabarem tacando fogo na casa. – alertei. – Mas fiquem a vontade para queimarem cada peça de roupa desse filho da puta.
Quando terminei de falar, fui surpreendida por um abraço de Nicolas. Retribui o abraço, mas logo ele se soltou e bem sem graça, saiu dali, entrando no quarto em que os meninos estavam. O acompanhei com o olhar e permaneci parada por algum tempo pensando se meu pai sabia sobre Lilian, ou minha mãe, que está providenciando o divórcio. Cheguei à conclusão de que não, porque isso com certeza faria Lilian ganhar qualquer caso na justiça.
Ouvi alguns gritos e risadas vindo de um quarto e ao chegar na porta, vi Amanda, Leticia e Bárbara pulando em cima de uma cama de casal. Observando o quarto, imaginei que seria o de Nicolas, mas nele as coisas também estavam quebradas. Também imaginei que ele não se importou em destruir qualquer lembrança que existisse ali, simplesmente porque não haviam boas lembranças relacionadas aquele lugar.
Ao passar na porta de um outro quarto, vi Luiza fazendo uma cortina de vestido, enquanto Gabi e Rafa brincavam de arremessar objetos uma a outra. Passando pela porta do banheiro do corredor, vi que era o único cômodo que estava vazio, mesmo que também já estivesse destruído. Entrei no mesmo e enxerguei uma banheira, após caminhar até lá, me deitei dentro da mesma. Fechei os olhos e ainda tocava alguma música eletrônica, que dali dava a impressão de estar em um volume mais baixo.
– Nós podíamos fazer isso na minha casa qualquer dia desses. – disse uma voz me fazendo abrir os olhos. Era Gustavo sentado no chão, ao lado da banheira. Assim que olhei para ele, ele me ofereceu sua cerveja e eu dei um gole na mesma, depois a devolvi. – Seria bem engraçado ver a reação do meu pai.
– Você odeia ele?
– Não. Ele não tem culpa de ser como é. – respondeu Gustavo e me lembrei de tudo que ele falou durante os “5 Minutos Antes da Ordem Do Dia”, sobre seu pai ser um grande médico e por trabalhar demais, ter sido culpado por uma depressão em sua infância. – Só realmente seria engraçado. Ele iria me notar com outros olhos.
– Explique.
– Uma vez ele achou maconha no meu quarto e disse “para de acobertar seus amiguinhos drogados”, sugerindo que aquilo era de algum amigo meu. Não passou nem por um segundo por sua cabeça que a maconha pudesse ser minha, simplesmente porque ele não faz a mínima ideia de quem sou eu. Pra ele sou só o filho nerd e introvertido, que nunca faz nada de errado e que o único motivo pelo qual sai sempre, é que caiu de paraquedas num grupinho de populares. Ou nem isso, já que raramente ele me vê saindo ou chegando em casa.
– Você fuma maconha? – perguntei perplexa. Se pra mim já foi chocante descobrir que Gabriel fuma cigarro, descobrir que Gustavo fuma maconha foi três vezes mais. Primeiro porque é o Gustavo. Segundo porque é maconha, uma droga ilícita, não legalizada.
– Maconha não é essa coisa que dizem por aí, sabe...
– Na verdade, como eu não costumava sair como saio agora, nem costumava beber como bebo agora e nunca conheci pessoas que mexessem com qualquer tipo de droga, a única coisa sobre maconha que já ouvi falar, veio da minha mãe. Então dá pra imaginar que não foi coisa boa. – contei e ele deu uma breve risada.
– A verdade é que não existe sentido nenhum na maconha não ser legalizada, porque ela não causa dependência química e traz inúmeros benefícios, ao contrário do álcool e da nicotina que são utilizados e vendidos com total liberdade. Aliás, sabia que a maconha é utilizada para aliviar as dores de pessoas com câncer, inibir o vômito na quimioterapia, reduzir a pressão intraocular nos casos de glaucoma e melhorar o apetite de doentes com AIDS em estágio avançado? Além de tratar casos de convulsão, enxaqueca, estresse, pressão alta, ansiedade, insônia e acredite se quiser, ajuda até com cólicas menstruais.
– Ta me zoando? – indaguei ainda mais perplexa. Eu realmente não sabia de nenhuma dessas coisas.
– Não, eu li isso numa pesquisa médica. Na verdade, eu vivo lendo pesquisas sobre a maconha, porque simplesmente adoro ver o caos que se forma quando um médico diz não ser contra o uso.
– Eu nunca experimentei.
– Se algum dia quiser, fale comigo. Mas que fique claro que não estou influenciando ninguém a ir pro “mal caminho”. – disse Gustavo fazendo aspas com a mão e eu apenas ri. Talvez algum dia eu realmente experimente.
Nós ficamos em silêncio e eu fechei os olhos novamente. Estava tocando uma música bem conhecida, mas que não fazia ideia de quem canta. E pela primeira vez na vida, prestei atenção na letra de uma música eletrônica, que dizia algo como “And the walls kept tumbling down in the city that we love, great clouds roll over the hills, bringing darkness from above. But if you close your eyes does it almost feel like nothing changed at all?”. Ri sozinha pensando em como foi irônico, considerada as circunstancias. Do lado de fora daquele banheiro, a casa parecia estar desmoronando.
– No que você ta pensando? – indagou Gustavo.
– But if you close your eyes does it almost feel like nothing changed at all? – repeti o trecho da música e abri os olhos instantaneamente, finalmente me dando conta de que não era a voz de Gustavo e sim de Gabriel, que estava sentado na beirada da banheira, me observando.
– Cade o Gustavo?
– Não sei. – respondeu Gabriel e eu achei que estava falando do Gustavo, até que ele prosseguiu. – As vezes tenho a sensação de que tudo muda em questão de segundos, mas quando deito a cabeça no travesseiro, fecho os olhos e penso na merda que é a minha vida, é como se nada mudasse. É só a vida sendo uma merda, como sempre.
– Aqui e agora, você tem coragem de olhar pra mim e falar que a vida é uma merda?
– Não é que os homens mintam demais, é que as mulheres nos obrigam a tal coisa. – disse Gabriel e eu franzi a testa sem entender. – Vocês fazem umas perguntas, para quais nós sabemos que só existe uma resposta. “Eu estou gorda?”, “Você me ama?”, “Aqui e agora, você tem coragem de olhar pra mim e falar que a vida é uma merda?”.
Eu gargalhei, porque ele estava certo.
– Se eu responder que sim, quaisquer chances remotas que eu tivesse de aproveitar que seu pai não vai voltar pra casa, seriam anuladas.
E é assim que um cara distorce o assunto. Você deveria se focar em fazê-lo ser sincero independente de qual for a resposta, para saber o que ele está realmente pensando. Mas ele envolveu outro assunto no meio que te chama a atenção e você acaba envolvendo nesse segundo assunto.
– Então você ainda tem planos para essa noite?
– Eu sempre tenho. – ele respondeu com um sorriso malicioso no rosto e se levantou. – Agora sai logo daí porque precisamos ir embora daqui, antes que alguém nos pegue.
– O que você acha que aconteceria? – perguntei me levantando. Nós não invadimos a casa, porque estamos com o filho do dono e a única lei que conheço sobre depredação de patrimônio, é de patrimônio publico. Mas eu tenho certeza de que não sairíamos ilesos dessa.
– Eu acho que nossas vidas seriam arruinadas e a de nossos pais acabariam, porque são eles que respondem por nós. E ainda tem gente que vê vantagem em ser maior de idade.
– Você não está ansioso pra fazer dezoito anos?
– Eu já faço tudo que alguém de maior faz, eu tenho documentos falsos, tenho contatos. Fazer dezoito só vai me fazer poder ser preso. Então, não.
– Quando você faz aniversário? – perguntei curiosa enquanto saíamos do banheiro, mas ele não respondeu e eu sei que ele ouviu.
Não havia mais música e a casa ficou realmente destruída. Estava tudo um caos, como se tivesse passado um furacão por ali ou algo do tipo. As paredes imundas, o chão repleto de cacos e os móveis completamente estragados. Na sala encontramos Bruno entregando mais uma cerveja para cada um de nós e falando como se fosse o guia de uma tour divertidíssima.
– E esse foi o incrível passeio pela casa do Pai de Nicolas, um senhor vagabundo, que morreu sozinho em sua poltrona, afundado na depressão de não ter nenhum ente querido e não ter mais dinheiro para comprar suas cervejas, porque adolescentes rebeldes invadiam sua casa com frequência, para roubá-las. – inventava Bruno indicando a saída para todos.
Avistei Nicolas escrevendo algo em um papel e logo em seguida, ele o deixou em cima de uma mesinha. Por curiosidade caminhei até ele e por cima de seu ombro, pude ler o que estava escrito no papel: “Não ouse chamar a polícia, porque quem vai parar atrás das grades é você”. No exato momento em que acabei de ler, ele se virou para traz e eu sorri tentando disfarçar.
– Vamos? – chamei e ele assentiu.
Nós saímos dali e Nicolas apenas fechou a porta da casa e o portão, mas não trancou nenhum dos dois. Imaginei que a intenção dele com isso, era que seu pai visse que algo estava errado já no momento em que chegasse. Mas percebi que ele também não tinha a intenção de que ele pensasse ter sido algum ladrão, porque a ameaça no bilhete que ele deixou, foi bem clara.
As vezes tenho a sensação de que todas as pessoas ao meu redor, carregam alguma ferida do passado. E que talvez, o único motivo para que minha vida seja tecnicamente normal, é que eu sinto a necessidade de curar todas essas feridas.
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