Poltrona 19

28 Eu tenho medo


Notas iniciais
FELIZ SURPRESINHA PRA VOCÊS! Hahahahaha Pra quem não entendeu e para futuros leitores que lerão isso daqui e pensarão "what?", a surpresinha é que depois de tanto tempo desaparecida, isso está de fato acontecendo... DOIS CAPÍTULOS NO MESMO DIA! Era o mínimo que eu podia fazer né, galerinha. Até porque preciso tentar recuperar o amor de vocês!

O pessoal resolveu ver na porta da casa de Nicolas qual seria o desafio de Gustavo, que era o próximo e eu fiquei tensa olhando para os lados o tempo inteiro, pois não queria que nenhum dos vizinhos nos visse. E só por esse motivo, Gustavo também teve de rodar a garrafa mais de uma vez, porque ela parou apontada para alguém que já havia desafiado outra pessoa. Quando Gustavo a girou novamente, Rafaella foi quem teve de bolar um desafio.

– Gustavo, seu pai está em casa ou no hospital? – perguntou Rafa.

– No hospital, por que?

– Então é pra lá que vamos. – ela anunciou.

Eu fiquei quieta durante todo o caminho, porque ir causar num hospital já era demais, mas ninguém dentro do carro parecia se importar. Eles só conversavam sobre a reação do pai de Nicolas quando chegasse em casa e gargalhavam disso. Estavam todos extremamente bêbados e pela primeira vez, eu era a exceção. Eu sabia que também estava bêbada, mas estava bebendo menos do que de costume e bem menos do que o resto do pessoal. E não sei se por estar preocupada demais com todo mundo e principalmente em dirigir direito, eu tinha longos períodos de lucidez o tempo inteiro.

Quando chegamos ao hospital, estacionamos o carro e nos encontramos todos próximos a entrada. O pai de Gustavo trabalhava em um dos melhores hospitais do Paraná, logo presumi que ele deve mesmo ser um bom médico e foi por isso que comecei meu discurso.

– Isso aqui é um hospital, mano. Tem gente morrendo aí dentro, não é lugar pra gente fazer zoação.

– Relaxa, Isa. – pediu Rafa. – Meu desafio não é nada demais. O Gustavo só terá de mentir pro pai dele e dizer que a Carol está grávida. Ah, não vale desmentir hoje.

– Pensa pelo lado positivo, você já vai apanhar dentro do hospital. – zombou Barbara e nós rimos.

– Alguém tem que ir com ele pra gravar... – lembrou Heitor.

– Acho que devia ser a Carol, já que ela é a grávida. – sugeriu Bruno. – Ou o Gabriel, já que ele é o melhor amigo e filho de outro doutor. Deixariam os dois entrar fácil.

– Nem fodendo que eu vou correr o risco de ver meu pai agora. – respondeu Gabriel.

– Não quero que ninguém vá, eu mesmo filmo. – afirmou Gustavo. – Isso só vai ser divertido se eu estiver sozinho, porque meu pai não seria mal educado na frente de outras pessoas. E sinceramente, to louco pra ver a reação dele.

– Tem certeza? – perguntou Carol. – Eu posso ir, talvez fique até mais realista.

– Não, eu quero ir sozinho. – garantiu Gustavo e ele foi. Quando o vi atravessar a porta da recepção, o desejei sorte mentalmente. Acho que qualquer pai que descobrisse que o filho de 17 anos vai ser pai, surtaria. Mas me lembrei do que Gustavo disse sobre o pai dele não acreditar que ele faça qualquer coisa de errado e por isso fiquei me perguntando se ele acreditará ou não. De qualquer forma, só nos restava esperar.

Me deitei no gramado que tem em frente ao hospital e o pessoal resolveu se sentar também. Mais uma vez ao invés de me socializar comecei a observar todo mundo e foi por isso que descobri que Leticia já tinha pegado o Heitor, porque os vi dando um selinho. Senti vontade de zoar, mas achei melhor ficar na minha. É por isso que os dois estão tão quietos. Só espero do fundo do meu coração que isso não vá pra frente – desculpa, Leticia, te amo -, porque meu ciúmes dela é a coisa mais sobrenatural que existe.

Carol estava conversando com as meninas e ri sozinha pensando que olhar para ela e não ver o Gustavo por perto, fazia parecer que algo estava muito errado. Gabriel e Amanda estavam embalados em um assunto que parecia muito engraçado e eu descobri o que era só de observá-los por alguns segundos. Amanda segurava a mão dele com a palma virada para cima, ou seja, ela deveria estar fazendo mais uma de suas maluquices: fingindo que saber ler o futuro das pessoas através das linhas de sua mão. Amanda acredita em todo tipo de supertição. Em horóscopo, linhas da mão, trevos de quatro folha, passar o ano novo com peças de tal cor. Eu acho extremamente hilário, já que não acredito em nada dessas baboseiras.

O resto do pessoal estavam conversando entre si e mesmo que não tenha demorado, eu quase cochilei olhando para eles, até que Gustavo aparecesse de novo. Ele voltou sorrindo e ordenou que todo mundo pegasse seus respectivos celulares, para assistirmos ao vídeo que já estava no grupo. Ele se sentou no chão ao meu lado, olhou pra mim e como se estivesse extremamente orgulhoso, disse:

– Ele acreditou. Ele está bravo. Ele está puto comigo. Meu pai quer me matar. Essa é a coisa mais hilária que já aconteceu na minha vida.

Eu gargalhei de ver que ele estava feliz por seu pai estar com raiva dele. Isso não é muito normal. O vídeo começava com o Gustavo dentro de uma sala, que deveria ser onde o pai dele atende e todo o vídeo mostra apenas o pai dele, que no começo parecia estar bastante preocupado.

– Aconteceu alguma coisa, Gustavo? Por que você veio até o hospital?

– Eu precisava falar sério com você e tem que ser agora, antes que eu desista.

– O que foi? Eu to preocupado.

– Eu vou ser direto, pai. – disse Gustavo e depois de um intervalo de suspense, ele soltou a bomba. – A Carol ta grávida.

A expressão que o pai dele fez foi hilária. Ele ficou tão perplexo, que parecia que o Gustavo tinha acabado de contar que matou alguém, não que sua namorada engravidou. Então quase sem voz, o pai dele respondeu “Você esta falando sério, Gustavo?” e deduzi que ele assentiu, porque ele não respondeu verbalmente, mas o pai dele começou o sermão do século.

Ele levantou da cadeira onde estava sentado e começou a gritar sobre o quanto Gustavo havia o decepcionado e o quanto ele foi irresponsável. Gritou sobre o futuro, carreira e vida que Gustavo havia acabado de arruinar e que ele teria que arcar com as consequências. Ele gritou e gritou e gritou, enquanto Gustavo permaneceu calado, apenas ouvindo. Me perguntei se ele havia ficado com vontade de rir em algum momento ou se ficou com tanto medo da reação de seu pai que sentiu vontade de contar que era apenas uma brincadeira. Mas ele permaneceu ali até seu pai o mandar ir embora, porque precisava trabalhar e dizer que eles conversariam em casa, na presença da mãe de Gustavo.

– Espero sinceramente que dê tempo de você desmentir antes do assunto chegar aos ouvidos de sua mãe. – disse Gabriel gargalhando.

– Cara, você ta fodido. – disse Caio. – Seu pai vai passar o resto da noite planejando sua morte. Pode até ter sido nada demais ir lá mentir, mas se prepare pras consequências.

– É bom saber o que aconteceria caso isso fosse verdade. – disse Carol.

– Não se preocupem, pra engravidar é necessário fazer sexo. – zombou Bruno e Carol revirou os olhos. – Não, agora sério, quantas vezes por semana vocês fazem sexo? Já que vocês não desgrudam um do outro, eu espero que seja no mínimo sete vezes.

– Cala a boca, Bruno. – ordenou Gustavo e Bruno obedeceu, ainda rindo.

– Agora é minha vez. – avisou Carol pegando a garrafa para prosseguir com o jogo. Ela girou a garrafa e eu senti pena. Eu senti muita pena quando a garrafa parou e apontou para Bruno. Principalmente depois da gargalhada alta que ele deu.

– Preparada, Carolzinha? – perguntou Bruno e ela revirou os olhos. Seja lá qual for o desafio que ele vai lançar, eu já estaria pensando se estou com uma lingerie bonita pra fazer o striptease da consequência. – Então vamos lá. Eu te desafio... a beijar outra garota desta roda.

Houveram três tipos de reação: perplexidade vinda de todas as garotas. Perplexidade e risadas vinda dos garotos. Muita raiva vinda de Carol.

– Você ta me zuando, Bruno? – indagou Carol.

– Eu tenho cara de quem está zuando? – ele rebateu apontando para o próprio rosto que exibia um sorriso de orelha a orelha.

– Eu não vou cumprir isso. – afirmou Carol e ela estava bem séria.

– Interessante... Então você prefere fazer um strip pra gente?

– Bruno, larga de ser ridículo.

– Você tem direito de convencê-lo a mudar o desafio. – lembrei, tentando aliviar a tensão que se formou.

– Quais são seus argumentos? – indagou Bruno cruzando os braços, como se soubesse que ele já ganhou essa.

– Eu não sou lésbica e eu tenho namorado. – respondeu Carol cruzando os braços da mesma forma que ele e sorrindo ironicamente.

– Huuum... Não, eu não vou mudar o desafio, Anna Carolinne.

– Isso é realmente ridículo, Bruno.

– Então vamos fazer o seguinte... – anunciou Bruno. – Proponho uma votação. Quem é a favor, levante a mão. – ele ordenou levantando sua própria mão. Em seguida, Gabriel levantou a sua rapidamente e eu até tentei o repreender com o olhar, mas ele deu de ombros e sorriu divertido. Pouco a pouco Caio, Henrique, Renan, Heitor e até Nicolas também levantaram.

– Nicolas, abaixa essa mão agora. – ordenei e ele abaixou sem graça.

– Ele tem todo o direito de expressar sua opinião. – intrometeu Gabriel. – Nicolas, levante a mão.

– Gabriel, dá pra calar a boca? – mandou Carol. – E mesmo que ele levante, nós somos dezesseis. Somente sete levantaram as mãos.

Ela estava certa. Estava. Até que Gustavo também levantou a sua mão. Dessa vez sim eu fiquei extremamente chocada, pasma, perplexa e todos os sinônimos que essa reação possa ter.

– Você ta brincando com a minha cara né, Gustavo? – indagou Carol tão ou mais incrédula que eu.

– Qual é cara, eu sou homem. – respondeu Gustavo. – Vai lá, me julgue.

– Te julgar? Eu vou te espancar.

– É só um jogo. Meu pai acha que minha namorada ta grávida, a gente destruiu uma casa, provavelmente também um relacionamento, roubamos coisas e até demos falso sinal de incêndio num lugar cheio de pessoas, e você ta fazendo drama por causa de um beijo? – disse Gustavo e eu juro que vi o fim do relacionamento deles nos olhos de Carol. Ok, não é pra tanto. Mas ela ficou visivelmente furiosa, muito furiosa.

– Eu escolho a garota pra você, Carol. – disse Bruno, enquanto Carol ainda olhava séria para Gustavo, que começou a perceber a merda que tinha feito.

– Ainda ficamos empatados. – intrometi tentando concertar a merda por Gustavo. Ele até que me agradeceu com o olhar, mas já era tarde.

– Escolhe, Bruno. – ordenou Carol. – E você, Gustavo, nem olhe pra minha cara mais hoje.

– A gente vai brigar por causa de um jogo? – perguntou Gustavo, jogando os braços para o alto, incrédulo. Já Carol nem se deu ao trabalho de responder, apenas se virou para Bruno e ficou esperando ele dar o veredito.

– Escolho minha amada Luiza. – anunciou Bruno.

– Você sabe que a minha função na terra, não é satisfazer seus fetiches né, Bruno? – Luiza disse em um tom bem irônico.

– Na verdade é exatamente isso que eu penso. – respondeu Bruno.

Já estava me preparando para a discussão que aconteceria a seguir, mas ela foi evitada por Carol, que devia estar mesmo muito brava, pois sem dizer nada, Carol simplesmente andou até Luiza e a beijou. Beijou de verdade. Eu fiquei tão surpresa que meu queixo caiu. Todo mundo ficou de olhos arregalados e bocas abertas, até Bruno, que pelo visto não imaginava que ela fosse de fato cumprir. Nem eu. E tão de repente quanto ela beijou Luiza, ela a largou e saiu andando até o carro de Henrique, onde entrou e bateu a porta. Acho que esse é o momento de contar que ela e Gustavo estavam no carro de Caio.

– Esse foi o momento mais bizarro da minha vida. – afirmou Luiza. – Eu beijei minha melhor amiga.

– Eu to perplexo. – disse Gabriel ainda tampando a mão com a boca.

– Eu to fodido. – remendou Gustavo olhando para o carro de Henrique.

– Esse é o melhor dia da minha vida. – afirmou Bruno, indo até Luiza e a dando um abraço. Mas Luiza o empurrou e mandou ele sair de perto dela.

– Seja lá quem for o próximo, roda logo essa garrafa. – ordenou Luiza.

– É o Gabriel. – respondeu Bruno e todo mundo olhou para ele, mas ele ainda parecia incrédulo com o acontecimento. Ele olhou pro carro, olhou pra Luiza, olhou pro Gustavo.

– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Gabriel apontando para o carro.

– Ah, vai se foder, Gabriel. – disse Gustavo e o Gabriel riu. – Eu vou lá tentar falar com ela.

– Se eu fosse você, não faria isso... – aconselhou Gabi. – Deixa a raiva dela passar. Ela nem deve estar brava pelo desafio e sim por você não ter ficado do lado dela. Coisas de garotas.

– E passar um tempinho separados faz bem né. – completou Gabriel dando um tapinha no ombro de Gustavo e se abaixando para pegar a garrafa de vodka vazia no chão. – Espero que façam um desafio a minha altura.

Gabriel girou a garrafa e ela parou apontada para o Fornazier. O outro Fornazier da roda. Seu irmão, Henrique. Gabriel olhou para ele com as sobrancelhas arqueadas e Henrique deu um sorriso.

– Que ironia essa garrafa apontar para a pessoa que melhor te conhece nessa roda, não acha? – disse Henrique num tom provocativo. – Pensa se eu quisesse foder sua vida, nem precisaríamos dar um passo.

– Você não é maluco. – rebateu Gabriel.

– É, não tanto. – respondeu Henrique e deu as costas. – Entrem em seus carros e me sigam. Gabriel, vai no carro de Isabelle, sua vaga foi roubada por Carol.

Nós seguimos até nossos respectivos carros e quando fui abrir a porta do motorista, Gabriel surgiu ao meu lado e estendeu a mão.

– Que? – perguntei sem entender.

– As chaves. – ele respondeu como se fosse óbvio. – Ou você acha que eu vou entrar nesse carro e deixar você dirigir?

– É exatamente o que você vai fazer. – rebati, mas Gabriel continuou me olhando com a mão estendida. Eu bufei, entreguei as chaves pra ele, dei a volta no carro e sentei no banco do passageiro. Discutir com o Gabriel é inútil, melhor nem perder tempo.

Quando estávamos todos dentro do carro, o que incluiu Amanda, Leticia, Nicolas e Bárbara terem de se espremer no banco de trás, Gabriel começou a dirigir e seguir o carro de Henrique. Estava bem curiosa para saber onde Henrique estaria nos levando e o que ele desafiaria Gabriel a fazer. Ele realmente é a pessoa que conhece Gabriel melhor, levando em consideração que é seu irmão.

– Você faz alguma ideia do que ele vai te desafiar? – perguntei ao Gabriel.

– Nenhuma. – respondeu Gabriel.

– Ta com medo? – perguntou Amanda.

– Não, só curioso.

– Você acha que ele vai pegar pesado? – perguntou Bárbara.

– Sinceramente? – perguntou Gabriel retoricamente. – Sim. Bastante.

O caminho não foi longo, na verdade, não demos mais que algumas voltas, até chegarmos na porta de um condomínio fechado. Um condomínio bem refinado, por sinal. Quando Henrique virou com o carro para a entrada do condomínio, fiquei chocada. Vixe, vamos zoar com quem agora? Virei para Gabriel na intenção de fazer exatamente essa pergunta, mas ele estava sério e com a cara fechada, expressão de quem não estava gostando nada do que estava acontecendo. Preferi ficar quieta na minha.

O portão do condomínio se abriu, após Henrique falar com o porteiro e nós entramos dentro do mesmo. O que vimos a seguir foi o cenário de um filme americano: casas enormes com jardins belíssimos. Após andarmos algumas ruas, paramos em frente a uma casa enorme, de dois andares. Quando eu digo que a casa era enorme, eu não estou brincando. É a maior casa que já vi depois da de Gustavo. O jardim de entrada por si só, já dava dois do da minha casa e vale ressaltar que era extremamente lindo. A grama estava sendo molhada por aspersores embutidos e estava tão bem cuidada, que já ouviu falar daquele ditado “a grama do vizinho é sempre mais verde”? Os vizinhos deviam pensar isso toda vez que saiam de casa.

A passarela que dava acesso à entrada estava iluminada por luzes embutidas no chão dos dois lados. Na entrada havia uma fachada formada por um pórtico com pintura branca e na parede detalhes em madeira preta ebanizada. A casa tinha uma porta de madeira tão grande, que dava a imprensão de ser mais pesada que eu. E no restante da casa, sacadas com portas de vidro, janelas enormes e detalhes em preto e branco, que haviam sido planejados por uma arquiteta de ótimo gosto, em minha humilde opinião. Tudo sendo iluminado por luminárias pendidas nas paredes.

Eu levei um bom tempo para observar cada parte da mansão em minha frente e felizmente, Amanda finalmente quebrou o silêncio, fazendo a pergunta que todos gostariam de saber a resposta:

– Quem mora aqui?

– Eu. – respondeu Gabriel e soltou um suspiro pesado, abrindo a porta do carro. Todos ficamos extremamente perplexos e ele desceu do carro, ainda com uma expressão séria. No entanto, nem consegui raciocinar sobre isso, eu ainda estava tentando ingerir a informação de que aquela mansão é a casa de Gabriel. E eu o fazendo dormir no sofá do escritório do meu pai. Que constrangimento. A cama dele deve até rodar e fazer massagem.

– O que diabos estamos fazendo aqui, Henrique? – ouvi Gabriel perguntar caminhando na direção do irmão, que já estava do lado de fora do carro. Percebi que todos estavam fazendo o mesmo, então também desci.

– A mamãe ainda não voltou de viagem... – disse Henrique, abrindo um sorrisão e passando o braço por cima do ombro de Gabriel.

– Eu sei. Eu ainda moro nessa casa. – rebateu Gabriel com a cara fechada e sem humor nenhum em seu tom de voz.

– Mais ou menos né, Gabriel... Mas não se preocupe, você vai gostar bastante do que viemos fazer. – assegurou Henrique, mas Gabriel não mudou a expressão em seu rosto e tirou o braço do irmão de cima de si. Henrique revirou os olhos e deu um longo suspiro. – Relaxa, ninguém vai entrar na casa! Eu vou lá dentro buscar uma coisa e volto.

Observei Henrique caminhar até a porta de madeira, a destrancar e entrar dentro da mansão. Em seguida olhei para Gabriel de novo e ele estava encostado no carro de Henrique, que estava estacionado em um caminho de pedras que dava acesso ao que eu deduzi ser a garagem. Eu juro que comecei a ficar preocupada em ver o desconforto de Gabriel.

Henrique voltou segurando um taco de beisebol e todo mundo se entreolhou sem entender nada. Então ele tirou um controle do bolso, apertou o mesmo e o portão da garagem começou a se abrir. Soube que era a garagem, pois havia três carros estacionados lá dentro. Ou pelo menos pareciam ser três, porque um estava coberto por uma capa preta e não dava para vê-lo.

Foi exatamente na direção deste carro que Henrique caminhou e quando chegou até ele, tirou a capa de cima do mesmo, mostrando um VW Fox/CrossFox 2009 preto. Quando ele fez isso, passou a mão por todo o carro e começou a andar de volta em direção ao Gabriel, para quem olhei em seguida e não consegui decifrar sua expressão. Estava bem pior que em qualquer outro momento.

Quando Henrique parou na frente de Gabriel, ele estendeu o braço em que segurava o taco e lançou seu desafio.

– É simples. Eu te desafio a destruir esse carro.

Gabriel olhou para Henrique e eu juro que queria poder ler seu pensamento naquele momento, porque havia pânico em seus olhos. Eu não entendi qual era o objetivo de Henrique. Fazer Gabriel destruir um dos carros de seus pais? Talvez o preferido deles? Levando em consideração que o automóvel estava até mesmo tampado por uma capa. Eles ficariam furiosos e o Gabriel se foderia? Era isso? Um milhão de perguntas surgiram em minha cabeça.

– Ele pegou muito pesado. – sussurrou Bruno.

– Com certeza, o desafio mais pesado da noite. – concordou Gustavo e foi ai que fiquei mais confusa ainda.

Após um longo tempo encarando Henrique, Gabriel pegou o taco e caminhou na direção do carro. Ele parou em frente ao mesmo e o analisou como se ele não devesse estar ali. Então após algum tempo, quando menos esperamos, ele levantou o taco e acertou em cheio o para-brisa. O alarme do carro disparou no mesmo instante, mas Gabriel continuou a destruir o automóvel, quebrando todos os vidros e o acertando onde podia. Ele acertava o carro com tanta força, que parecia estar descontando a raiva de alguma coisa no pobre automóvel. Deu pra perceber isso ao ver que ele nem se preocupava em ver onde acertaria, somente acertava.

– Que porra ta acontecendo aqui? – ouvimos a voz de um homem gritar e o vimos parado em frente a uma porta aberta, que parecia dar passagem de dentro da casa para a garagem. Talvez por ter vindo de dentro da casa ou talvez por ter reconhecido os traços de seu rosto, eu soube que estava olhando para o pai de Gabriel.

No mesmo instante senti meu braço ser puxado para baixo, fazendo com que eu caísse. Foi tudo tão rápido que quando percebi estávamos todos jogados no chão e percebi que era porque Henrique acenava para todo mundo fazer isso. Como estávamos do lado de fora da garagem apenas observando, o tal homem ainda não havia nos visto, principalmente por estar chocado demais olhando para Gabriel que paralisou segurando o taco ainda levantado, olhando para ele com a mesma expressão de perplexidade.

Ouvi Gustavo mandar todo mundo engatinhar para trás dos carros e eu obedeci, mesmo sem conseguir tirar os olhos do homem que voltou a gritar, quando percebeu que Gabriel não responderia. E nós, devidamente escondidos, observamos tudo.

– Que desgraça você acha que ta fazendo, Gabriel? – gritou o homem e ao olhar para o lado, finalmente pareceu ter percebido a presença de Henrique. – E você, Henrique?

– O Maurício vai matar eles. – disse Bruno em um tom preocupado. Deduzi que Maurício seja o nome do pai de Gabriel. – Ele vai espancar o Gabriel, eu to falando, cara. O Gabriel ta morto.

– Serio que você disse morto, Bruno? Serio? – rebateu Gustavo furioso.

– O que parece que estou fazendo? – perguntou Gabriel em um tom irônico e voltou a acertar o carro com raiva. Muita raiva.

– Larga esse taco seu moleque irresponsável. – ordenou Maurício avançando na direção de Gabriel e Henrique foi atrás dele.

O que aconteceu em seguida não dava para ver direito, mas eu estava prestes a me levantar a qualquer momento. Maurício tentou tirar o taco das mãos de Gabriel, mas Henrique puxou seus braços e Gabriel continuava a destruir o automóvel em sua frente. Porém, Maurício ordenou que Henrique o soltasse e com relutância Henrique obedeceu. Foi aí que ele agarrou Gabriel pelo pescoço e o jogou na direção do outro carro, tomando o taco de sua mão e arremessando no chão.

De repente, Maurício acertou a mão no rosto de Gabriel e repetiu a ação acertando dessa vez sua cabeça.

– Solta ele, pai. Foi eu que mandei ele fazer isso. – gritou Henrique e aí Maurício parou, se virando para Henrique. Funcionou. Ele soltou Gabriel, mas partiu para cima de seu irmão.

Foi tudo tão rápido. E não estou me referindo ao fato de Maurício ter ido para cima de Henrique com a mesma raiva que estava descontando em Gabriel. Estou me referindo ao Gabriel ter corrido até o carro, tirado um isqueiro do bolso e tacado fogo dentro do mesmo. Eu fiquei tão perplexa que involuntariamente me levantei. O Gabriel surtou? Quando o fogo atingisse o tanque, o carro explodiria.

– Você ficou louco, Gabriel? – gritou seu pai que saiu em disparada para dentro da casa. Henrique paralisou olhando para o carro em chamas, enquanto Gabriel se encostou no carro atrás de si e deslizou até o chão. Parecia que em questão de segundos, o caos se formou. Meu coração estava acelerado e minha respiração descompassada, apenas observando.

Gustavo me puxou de volta para baixo e eu o estapeei em desespero. Será que ninguém se tocou do que aconteceria? Então o ouvi dizer algo como “não tem gasolina no tanque” e pouco a pouco me acalmei, enquanto vi Maurício voltar segurando um extintor de incêndio em mãos. Ele usou o extintor para apagar o fogo que por sorte, ainda não havia se espalhado muito, mas que queimou boa parte do carro.

Quando o fogo se apagou e Maurício parou de frente para o carro, eu pensei que finalmente tudo havia acabado. Mas então, ele largou o extintor de incêndio, voltou a andar até Gabriel e o segurando pelo pescoço, o fez se levantar do chão. Dessa vez, ele começou a espancá-lo de verdade, enquanto Henrique não sabia o que fazer. E Gabriel não fazia absolutamente nada.

– Por que o Gabriel não faz nada? Por que o Henrique não ajuda ele? – perguntou Amanda tão aflita quanto todos nós.

– Nenhum dos dois levantaria a mão pro pai deles. – respondeu Gustavo.

– Ah, me poupe. Isso não é hora para ter respeito. – rebateu Amanda e eu concordei com ela.

Maurício xingava Gabriel de inúmeros nomes diferentes enquanto o batia, Gabriel tentava se defender e Henrique tentava separá-los. Até que Gabriel finalmente pareceu ter perdido a paciência e começou a gritar.

– Você é doente, pai! Você é doente! Você guarda esse maldito carro que matou a Alice dentro da garagem, como se ele fosse algum monumento que devesse ser observado! Sua filha não ta lá dentro! Sua filha morreu! – ele gritava sem parar e aí seu pai o calou com um soco no estômago.

Eu finalmente entendi tudo. Era o carro em que Alice sofreu o acidente e morreu.

Quando você gosta de um cara e tem esperança de que as coisas deem certo entre vocês dois, consequentemente, você se esforça para ter uma boa relação com os pais dele. Mas isso, só se o idiota do pai dele, não estiver o espancando na sua frente, quando aparentemente, ele foi educado bem até demais, para fazer qualquer coisa. Eu agi por impulso, mas quando percebi, estava correndo na direção deles e com toda a força que tinha, empurrei Maurício para longe de Gabriel. E no instante em que olhei para Gabriel e o vi chorando, eu simplesmente comecei a esmurrar o pai dele, enquanto gritava descontroladamente.

– Seu covarde desgraçado.

– Quem é essa, garota? – perguntou Maurício assustado, enquanto no mesmo instante, Henrique tentou me puxar para trás, mas eu me agarrei a camiseta do homem em minha frente e não parava de tentar socá-lo.

Henrique conseguiu me puxar para trás, enquanto eu me debatia. E foi aí que percebi que Maurício também estava chorando. Estavam todos chorando. Mas eu não me comovi por uma sequer lágrima que caía do rosto daquele homem, porque eu só conseguia ver a imagem dele batendo nos dois filhos.

– Eu vou chamar a polícia pra você e foder sua vida! – disse ainda furiosa e tremendo. Mas Maurício não me respondeu, quem fez isso foi Gabriel.

– Isabelle, você não vai fazer nada. – disse Gabriel com a voz baixa e eu olhei pra ele completamente confusa. Ele estava fitando o chão. – O que ta acontecendo aqui é um problema nosso e de mais ninguém que esteja aqui. Nós resolvemos isso. Você não precisava ter se intrometido.

– Sério? Se eu não tivesse me intrometido, você estaria apanhando até agora e você tem a coragem de me falar isso? – perguntei incrédula. – Vai tomar no cu, Gabriel.

Eu fiquei tão furiosa que me debati para Henrique me soltar e sai dali correndo. Eu só queria ajudar e o Gabriel fala como se eu estivesse me metendo onde não devia. Como se eu tivesse que ter tido senso o suficiente para não me meter no meio dos problemas de família alheia. Como se eu devesse simplesmente ter ignorado os murros que ele acabou de levar do pai.

Andei pelas ruas do condomínio tentando achar a saída, mas eu não conseguia me lembrar do trajeto que fizemos com o turbilhão de pensamentos que haviam em minha cabeça. A raiva tinha me atingido tão forte, que parecia que eu nem conseguia respirar. Então me agachei no meio da rua e abracei minha própria cabeça. Que droga de cara problemático é esse? Que droga de família problemática é essa? Eu não aguento mais isso. Não aguento.

– Isabelle... – ouvi uma voz me chamar e ao reconhecê-la, me levantei num impulso. Eu não raciocinei, só senti que precisava descontar toda a raiva que me dominou em alguém e era exatamente nele. Eu acertei um tapa em cheio no rosto de Gabriel e enquanto tentava controlar minha respiração, vi ele levar a mão até onde eu havia o acertado. Quando os olhos dele encontraram os meus, me virei disposta a sair dali, antes que o batesse novamente. – Mas que inferno, Isabelle! – gritou Gabriel furioso. – Para com essa desgraça de drama.

– Drama? – gritei olhando de volta para ele. – Eu to fazendo drama? Não Gabriel, eu não aguento mais o seu drama. Era uma noite divertida, com a gente fazendo algumas loucuras por aí e você estragou tudo. Tudo.

– Ah, desculpa se eu estraguei a noite perfeita da princesinha que quer uma vida perfeita. – ele rebateu em um tom irônico. – Mas deixa eu te contar uma coisa: contos de fadas não existem, Isabelle!

– Você é um idiota!

– Você é egoísta!

– Sou tão egoísta que me enfiei no meio de uma briga só porque não suportava ver você apanhando do seu pai.

– E então você acha que é você que tinha de sair correndo por aí, furiosa? – gritou Gabriel. – Como você acha que eu estou? Era pro meu pai estar no hospital! Não era pra acontecer nada disso aqui! Ninguém sabe da Alice além dos meus amigos e você. Amanda, Leticia, Nicolas, Bárbara, Renan, Heitor, não sabem de nada. E você acha que eles não vão querer saber quem é Alice? Que merda aconteceu? Eu não quero ter que contar pra ninguém! Eu não quero que alguém do colégio descubra e não quero ver as pessoas comentando sobre isso! As pessoas já falam da minha vida o tempo inteiro, eles não podem falar da minha irmã! E como se não bastasse, você acha que eu não to constrangido o suficiente por ter levado uma surra na frente de todo mundo? Minha vida é uma merda, meu pai é um merda, meu emocional ta uma merda e é você quem tem o direito de fazer drama, Isabelle? Me colocar na frente daquela desgraça de carro, foi a mesma coisa que me colocar de frente pra pior lembrança que eu tenho na vida. Eu sou complicado? Sou! Eu sou um saco com essa história? Sou! Mas eu não tenho estrutura pra lidar com essa merda toda. Troca de vida comigo por um dia, pra você ter um motivo melhor pra acertar um tapa na cara de alguém.

Quando ele terminou de falar tudo, vi que seus olhos estavam cheio de lágrimas. Eu fiquei totalmente sem palavras e o vi atravessar a rua, para se sentar na calçada. Continuei parada no meio da rua sem saber o que fazer. A raiva que eu estava sentindo desapareceu e deu lugar para um sentimento de culpa. Eu não queria ter batido nele. Não queria ter feito o que fiz. Eu apenas agi por impulso.

– Desculpa. – pedi quase num sussurro.

Ele não respondeu, mas mesmo assim caminhei em sua direção e com receio, me sentei ao seu lado.

– Eu sinto que posso lidar com qualquer outra pessoa do mundo, menos com você. – confessei.

– É porque eu não deixo ninguém lidar comigo.

– Por que? – perguntei.

– Porque eu tenho medo.

– Do que?

– Da minha mente. – respondeu Gabriel e apoiou a cabeça nos joelhos. Mais uma vez em questão de minutos, eu não soube o que responder ou o que fazer. – Só não me faça aquela pergunta de novo...

– Qual?

"Aqui e agora, você tem coragem de olhar pra mim e falar que a vida é uma merda?" – ele repetiu levantando a cabeça e olhando para mim, lembrando do que eu havia perguntado na casa de Nicolas. – Porque o fato de a minha vida ser uma merda, não tem nada a ver com você. Na verdade, as coisas até que melhoram um pouquinho quando eu entro nessa sua de fingir que a vida pode ser feliz.

– É que pra mim ela realmente é, sabe. Fica difícil não ser quando a gente ta apaixonada, porque a gente fica meio retardada, tudo parece meio cor de rosa... – brinquei na expectativa de conseguir fazer ele sorrir e eu consegui. Além de que, na realidade, não era brincadeira.

Eu posso ter batido um tempo recorde em relação ao tempo que uma pessoa leva para se apaixonar, mas me custou menos que um mês para me apaixonar por Gabriel Fornazier. Me apaixonar de verdade. Ele era tão extremamente incrível que cheguei a me confundir e acreditar que isso havia acontecido antes, mas naquele momento, olhando para ele, eu não tinha mais dúvidas. Eu admiti pra mim mesma e soube que estava disposta a lidar com qualquer problema que ele tivesse. Porque naquela altura do campeonato eu soube que perder o Gabriel, seria provavelmente, a maior dor que eu já sofri. E talvez se apaixonar seja isso mesmo, saber que a dor é inevitável, mas que é o preço que se paga por transformar a sua felicidade em alguém.

Notas finais
Espero que tenham gostado dos dois capítulos e não deixem de comentar! Beijinhos da K!