Poltrona 19

29 Quebra-cabeças


Notas iniciais
OLÁ, MEUS LINDOS! Como vocês estão? Olha eu aqui com um monte de coisas para contar e ótimas notícias também! Eu estava no fim do período na faculdade e minha vida estava uma correria que eu prefiro nem lembrar. Foram tantas lágrimas derramadas e tanta dor de cabeça sofrida, que eu respiro aliviada em finalmente anunciar que ESTOU DE FÉRIAS! "Mas K, pra que ficar esfregando isso na minha cara? eu continuo tendo aula e não estou nada feliz” Porque raciocinem comigo... férias é igual a: tempo livre, que é igual a: tempo pra escrever! YUUUUUPY! Minha meta é conseguir voltar a postar com mais frequência, então vamos todos comemorar juntos! Agora quero recomendar uma coisa para vocês: SALTAR DE PARAQUEDAS! Minha melhor amiga surgiu com a ideia maluca de saltarmos de paraquedas e digamos que eu sou meio viciada em adrenalina e em viver intensamente, como vocês já perceberam, então entre o caos que estava minha vida, eu aceitei e fomos! PESSOAL, É UMA EXPERIENCIA INCRIVEL! Acho que uma das mais incríveis da minha vida! “Mas K, por que diabos eu ia querer me jogar de um avião?” Porque é uma sensação única! A sensação de voar e ver tudo lá de cima, de lembrar por um breve instante o quão pequenos somos e o quanto a vida é curta. É algo que te faz refletir bastante, além de ser simplesmente, por si só, uma experiência maravilhosa. Se algum dia tiverem oportunidade, vão sem medo! Agora outra coisa que quero contar: eu dei uma entrevista para uma colega de curso, que fez uma reportagem sobre jovens escritores e falei MUITO de vocês! Hahahaha Eu queria muito mostrar a reportagem pronta para todos, mas não sei se sabem que K Petrova não é só um user qualquer que escolhi aqui no Nyah, é um pseudônimo que escolhi para não me identificar. Porque digamos que eu sou muito insegura, coisa que vocês também já perceberam. (A garota para quem dei entrevista também faz parte do Nyah, então se algum dia ela acabar lendo isso, vai descobrir quem sou eu e: Oi, sua linda! Me conte sobre ter descoberto, por favor! Mesmo que eu vá morrer de vergonha de você pelo resto da minha vida!) Enfim, então se quiserem saber o que falei, se pronunciem que dou um jeito de divulgar pelo menos minhas falas que envolvam vocês! Agora por último (juro) (porque vocês só devem estar querendo ler e eu aqui atrapalhando), tenho uma coisa a pedir. No meio da história irá aparecer um aviso que é MUITO importante que vocês obedeçam! Para não dar spoiler, é tudo que eu vou dizer. Mas obedeçam por gentileza e se der dúvida na hora, deem uma olhadinha nas notas finais antes de continuar. Agora sim... BOA LEITURA A TODOS!

– Você já teve a sensação de que é um erro do universo? – indagou Gabriel, desviando o assunto. Ele voltou a apoiar a cabeça nos joelhos e abraçou a própria cabeça.

– Você não é um erro, Gabriel.

– Preciso de um tempo. – ele disse com a voz baixa.

– Da gente? – perguntei com o coração quase saltando da boca.

– Não, não! – respondeu Gabriel depressa levantando a cabeça, com os olhos vermelhos. Ele passou a mão pelo cabelo e a desceu pelo rosto, olhou para o lado e depois para mim. Ele estava desconfortável. – Preciso de um tempo pra respirar e voltar a pensar, depois de toda essa merda que aconteceu.

– Tudo bem. – respondi. – Só queria que soubesse que se quiser, você pode conversar comigo, Gabriel. Pode ser melhor do que ficar guardando tudo pra si mesmo.

– Não, cara. Eu quero que você esqueça que essa conversa aconteceu. Eu não sou assim, não faço drama pros outros...

– Não é fazer drama!

– Isabelle, é serio. Minha cabeça ta rodando e eu to tremendo de ter que ficar me controlando porque você ta aqui. – ele contou e involuntariamente olhei para suas mãos. Ele estava mesmo tremendo. – Todo mundo tem seus momentos de surto, certo? Pois é. Eu estaria no meu, se não tivesse ficado preocupado em ir atrás de você. Eu não sou de conversar, eu não sei conversar, eu não consigo conversar. Então, eu só preciso de um tempo e eu vou voltar a ser o Gabriel que todo mundo conhece.

Eu olhei para frente bem chateada e apenas assenti com a cabeça.

– Isa, não é que eu não queira sua companhia...

– Eu não to chateada com isso, Gabriel. Eu to chateada porque não quero estar apaixonada por um cara que finge ser alguém que não é.

Ele não respondeu, mas pude perceber que estava me encarando. E após algum tempo, finalmente disse algo.

– Você não tava brincando? – indagou Gabriel e eu olhei confusa para ele. – Sobre essa parada aí de estar apaixonada? Tipo, não era piadinha pra me fazer rir?

– Não! – respondi como se fosse óbvio, o que de acordo com a expressão dele, não era.

– Ok... Péssimo momento pra você soltar essa informação. – ele confessou se levantando e eu fiquei incrédula. – Avisa pra galera que a gente se encontra na festa?

– Você está fugindo? – perguntei também me levantando.

– Não, eu avisei que precisava de um tempo.

– Não de um tempo depois de dizer “péssimo momento pra você soltar essa informação”, como se eu tivesse acabado de te insultar.

– O que você esperava, que eu dissesse o mesmo? – rebateu Gabriel.

– Não, Gabriel. Eu não pedi uma declaração de amor. Só não esperava que você fosse reagir assim.

– Olha, eu to meio que enlouquecendo aqui e você quer falar de sentimentos? Não to agindo feito idiota porque sou um, ou talvez sim, mas é que por todo sentimentalismo do mundo que está rondando minha cabeça agora, eu juro do fundo do meu coração, que preferia que você tivesse me mandado tomar no cu.

– Ótimo. – concordei. – Vai tomar no cu.

Ele fechou os olhos e deu um longo suspiro, como quem está se esforçando para manter a calma e fez o que eu odeio, tirou um maço de cigarros do bolso. Eu revirei os olhos e me virei para sair, antes que ele sequer acendesse algum.

– Onde você ta indo? – ele perguntou impaciente.

– Não é pra esquecer que essa conversa rolou? – respondi ainda caminhando. – Então, pois é, esquece. A gente se vê por aí.

Gabriel não respondeu e eu não me atrevi a olhar para trás. Apenas quando fui virar a esquina e olhei para o lado, o avistei ao longe, deitado no asfalto no meio da rua, com um cigarro aceso entre os lábios. Como se desejasse que um carro passasse por cima de si, ou as substancias toxicas do tabaco o matassem imediatamente. E qualquer mínima raiva que estivesse voltando a brotar em mim se esvaiu.

No fundo eu sabia que talvez o que meu lado sentimental e apaixonadinho esperasse, fosse justamente alguma declaração ou qualquer outra coisa parecida com o que costuma acontecer quando duas pessoas se gostam. Bem egoísta da minha parte. Ele estava no meio de uma crise e com todo direito, e eu apenas complicando as coisas. Na vida real é assim que as coisas funcionam, crises acontecem e se você espera qualquer demonstração de afeto por parte de outro alguém, não espere nada parecido com qualquer livro que você tenha lido, preste atenção em pequenas coisas. Como quando esse alguém quer enlouquecer, mas mantém a calma por você.

Eu caminhei lentamente até onde acreditava ser a casa de Gabriel e com a cabeça mais calma, voltei a observar as mansões ao meu redor. Será que ele sempre morou ali? Parece um lugar tão sombrio, tão mais forçado do que a sociedade normalmente já é. Parecem casas projetadas para forjarem uma vida perfeita que não é real. Será que todas as famílias possuem um caos escondido sob suas arquiteturas caríssimas, como a família de Gabriel?

Quando cheguei na rua de Gabriel, vi que todos os carros ainda estavam estacionados ali na porta. De longe avistei o pessoal sentado na calçada e respirei fundo enquanto me aproximava, disposta a somente uma coisa: tirar o peso das costas de Gabriel. Eu faria aquela noite continuar como se nada tivesse acontecido e faria todo mundo voltar a se divertir, custasse o que custar. Quando me viram, todos se calaram no mesmo instante e eu sorri, até me juntar a eles. Percebi que Henrique não estava ali.

– Onde o Henrique está? – perguntei olhando para o portão da garagem que agora estava fechado.

– Lá dentro com o pai dele. – respondeu Gustavo. – E o Gabriel?

– Ele bateu a cabeça no carro e tava doendo, foi comprar um remédio e vai nos encontrar na festa. Mandou não demorarmos. – menti forjando um sorriso de que estava tudo certo. – Então será que podemos tirar essa cara de enterro do rosto e voltarmos a nos divertir? – completei dando uma risada, mas o pessoal não esboçou reação.

– Cara, vai ser meio tenso continuar depois disso tudo. – disse Renan.

– A parada é a seguinte... – voltei a dizer dessa vez séria. – O Gabriel e o Henrique têm uns problemas com o pai deles e quiseram fazer uma pegadinha que deu errado porque o cara estava em casa. Eu imagino que o pai de ninguém aqui ia achar graça de ver os filhos bêbados destruindo uma parada que é cara pra caralho, então foi simplesmente por isso que rolou aquela briga toda. Não existe necessidade nenhuma da noite acabar por isso, como o próprio Gabriel disse. Mas eu tenho um aviso... Nós fizemos muita loucura essa noite e vamos continuar fazendo, somos dezesseis pessoas com fotos e vídeos em mãos que podem foder a vida de muita gente aqui. E eu afirmo que se um se foder, eu faço questão de foder todo o resto também, porque ninguém aqui fez nada sozinho. Então o que aconteceu ou acontecer essa noite, vai morrer nessa noite e ficar entre a gente. To falando de tudo, de absolutamente todos os desafios e isso envolve o de Gabriel. Se chegar no ouvido de alguém, principalmente do colégio, a coisa vai ficar feia. Vocês me entenderam? – perguntei olhando no olho de cada um deles que me olhavam atentamente e todos eles assentiram. – Agora levantem daí e vamos fingir que nada aconteceu, voltar a nos divertir, porque até o Gabriel já ta indo encher a cara enquanto vocês tão nessa ainda.

Quando terminei de falar, olhei para Carol e praticamente supliquei por ajuda com o olhar. Se os melhores amigos de Gabriel me ajudar, a gente passa por cima disso. Ela entendeu o recado, porque se levantou da calçada num impulso e começou a falar animadamente.

– É, vamos logo voltar pra essa festa porque eu to louca pra descobrir o que a Isabelle será desafiada a fazer.

– Eu espero que não peguem leve. – disse Bruno também se levantando e sorrindo.

– Podia ser eu a desafiar, ainda não desafiei ninguém. – lembrou Gustavo ficando em pé e passando o braço por cima do ombro de Carol. Essa olhou de cara fechada para ele e deu uma cotovelada em seu peito, saindo de perto.

– Nós ainda não estamos bem, senhor Gustavo. – avisou Carol e o pessoal deu uma risada. Ótimo, o clima já esta menos tenso.

– Eu vou lá dentro chamar o Henrique e já voltamos pra festa. – avisei e o pessoal concordou.

Andei pelo caminho de pedras que dava acesso a porta de entrada da casa, com o coração apertado. Eu quis ir chamar o Henrique porque preciso falar com ele sem o pessoal por perto, mas não sei o que faria caso visse o pai deles. Toquei a campainha e percebi que minhas mãos estavam tremendo, então aguardei por longos e agonizantes minutos, mas ninguém apareceu. Insisti e toquei a campainha de novo, dessa vez, depois de alguns minutos, Henrique abriu a porta, saiu e a fechou atrás de si.

– Cade o Gabriel? – ele perguntou assim que fechou a porta e olhou para mim.

– Ele disse que ia encontrar a gente na festa.

– Ele ta legal? – Henrique tornou a perguntar.

– Não. – respondi sincera. – Mas não conta pra ninguém, por favor. Eu inventei que ele bateu a cabeça no carro durante a briga, tava sentindo uma dor e ia comprar um remédio, pra depois nos encontrar. Também consegui fazer com que todo mundo fique calado e não comente nada do que aconteceu. Por isso eu quero te pedir pra não tocar mais no assunto com o pessoal, pra gente fingir que esta tudo bem e o Gabriel se sentir mais confortável com a situação.

– Tudo bem. – concordou Henrique e sorriu sem graça. – Me desculpa por isso, a gente tinha certeza que meu pai estaria no hospital. Mas eu não moro mais aqui e o Gabriel só para em casa quando a Babi está, a gente não fala com ele.

– Não precisa pedir desculpa. – assegurei.

– Você ta legal? – indagou Henrique e eu assenti. Ele respirou fundo, passou a mão pelo rosto e aquilo me lembrou muito o Gabriel. – Posso te dar um conselho que eu to dando mais pra proteger meu irmão de si mesmo? – tornou a perguntar e mais uma vez eu apenas assenti. – Pelo o que o Gabriel fala de você, você é uma garota cabeça com um coração bom até demais. Você tem um instinto meio protetor, de colocar as pessoas embaixo das suas asas e querer cuidar de tudo sozinha. Em anos de amizade, o Gustavo nunca peitou meu pai pra proteger o Gabriel. Em anos de amizade, o Bruno nunca se intrometeu em nada que envolvesse os problemas do Gabriel. Em um mês, você socou meu pai querendo tirar o mundo das costas do Gabriel.

Eu cruzei os braços e fitei meus próprios pés enquanto ouvia cada palavra.

– E o que eu quero dizer não é que você fez algo que não devia, é que você precisa tomar uma decisão antes de querer tirar o mundo das costas dele e colocar nas suas. – disse Henrique e eu voltei a olhar para ele. – Ou vocês são amigos ou não são. Não vai dar pra ser as duas coisas ao mesmo tempo. Se você optar por ser amiga, ótimo, essa é a escolha certa. Aí então você pode tentar salvar ele da forma que quiser, bancar a psicóloga, a psiquiatra, tanto faz. Agora se você resolver que quer ser mais que amiga, não se enfia nessa história, porque você só vai piorar tudo.

“O Gabriel não entrou nessa com boas intenções, Isabelle. Me desculpe, mas ele não vai te pedir em namoro e vocês não vão viver um lindo relacionamento alá Gustavo e Carol. E a partir do momento em que você virou amiga dele, virou amiga dos melhores amigos dele, quando você quebrar a cara nesse envolvimento, você vai abalar o emocional dele. O Gabriel não tem estruturas, Isabelle. Eu to falando sério, eu to falando de problemas psicológicos sérios. Se ele te contou da Alice não foi porque você é a garota especial da vida dele, foi por algum motivo que ele com certeza já deve ter se arrependido. Eu já percebi que ele já não ta sabendo onde se enfiou.”

“Ele não tava esperando que você fosse invadir a privacidade dele. O Gabriel é tão impulsivo quanto você, ele age sem pensar e só pensa nas consequências depois. É aí que ele surta. Vocês dois foram um erro do acaso, duas personalidades que se chocaram e vai causar um estrago imenso tanto para um quanto para outro.”

– Eu não to entendendo nada, Henrique.

– Escolha ser amiga, Isa. Salva vocês dois enquanto ainda dá tempo. – ele pediu.

– Por que você acredita tanto assim que não vai dar certo?

– Porque é o Gabriel. – respondeu Henrique com a voz baixa e um sorriso triste, que eu não tive certeza de se era pra mim ou para si mesmo. Quando eu percebi, as lágrimas simplesmente escorreram pelo meu rosto, enquanto eu tentava as limpar e fingir que estava tudo bem. – É disso que eu estou falando... – ele tornou a dizer, enquanto eu olhava para cima na tentativa de não chorar mais. – Quando você começar a chorar na frente dele desse jeito, ele vai lembrar de todas as vezes que você tentou amparar ele e vai ficar se remoendo de culpa. Ninguém nunca tentou ajudar ele. Ele não vai aguentar carregar mais uma culpa em cima das costas.

– Então por que ele mesmo não some da minha vida? – balbuciei.

– Porque essa é a parte doentia da personalidade do Gabriel. Qualquer sentimento ruim, é capaz de fazer o remorso dele desaparecer em questão de segundos. – respondeu Henrique e eu voltei a olhar para ele. – Deixa pra pensar nisso depois, vamos voltar pra festa!

Não tinha como eu deixar pra pensar nisso depois, mas assenti e o segui de volta para a rua. Quando chegamos na calçada, olhei uma última vez para a mansão atrás de mim e meu instinto me alertou de que minha vida só se resolveria, quando eu conseguisse desvendar os segredos presos do lado de dentro dessas paredes.

Eu peguei meu celular para olhar as horas e ainda eram 2h da manhã. Esse é o lado positivo da festa ter começado cedo. Um milhão de coisas já haviam acontecido e ainda era cedo, o que nos dá tempo o suficiente para terminarmos o jogo.

– Toma, Isabelle. – alguém gritou me chamando a atenção e eu olhei para cima. Era Heitor com a garrafa do jogo na mão, a me entregando para que eu pudesse girar. Girando estava minha cabeça, mas respirei fundo e peguei a garrafa. Quando fui guardar meu celular de volta na bolsa, ele vibrou. “Mais tarde precisamos conversar”, era tudo que dizia a mensagem de Gabriel. Demorei alguns longos segundos para conseguir me recompor.

Eu era a décima primeira pessoa a rodar aquela garrafa naquela noite, o que significava que faltava pelo menos cinco pessoas para lançarem desafios. Pena que a sorte nunca simpatizou comigo. Eu coloquei a garrafa no chão e rodei. Quando ela parou apontada para sapatos que reconheci, eu levantei os olhos para o rosto da pessoa, sentindo que minha noite iria virar de cabeça para baixo. Amanda apenas sorriu.

Vindo de Amanda, eu definitivamente não esperava coisa boa. Mas em hipótese alguma, esperava que ela fosse me desafiar a fazer aquilo.

– Eu te desafio a transar com o Arthur. – disse Amanda de uma vez só e eu fiquei tão chocada, que não consegui responder. Quem fez isso foi uma Leticia bem irritada.

– Amanda, tem hora que você perde a noção das coisas, né? – rebateu Leticia.

– Arthur é o carinha da Bianca? – perguntou Bruno.

– Não, Arthur é o carinha da Isabelle. – respondeu Amanda na intenção de me provocar e deu uma risada. Eu apenas a fuzilei com o olhar. – Qual é, Isabelle, me contaram o que rolou na biblioteca. Todo mundo sabe que você ainda gosta dele...

– Eu não gosto dele. – rebati depressa.

– E já que você não toma atitude nenhuma... – ela prosseguiu, como se eu não tivesse dito nada. – Vamos te obrigar a tal coisa. Só que vou concertar meu desafio... Minha intenção não é te obrigar a transar com ele e sim te fazer descobrir que você quer isso. Eu quero apenas que vocês se peguem, em algum lugar em que tenham privacidade e pronto, você decide, quando param. A questão é que eu sei que você não vai parar, porque você gosta dele.

– Eu não gosto dele. – repeti com tanta raiva, que minha voz saiu um pouco alterada.

– Eu te desafio a me provar que não gosta. – rebateu Amanda, dessa vez tão séria quanto eu.

– Eu não vou fazer isso.

– Você está sendo ridícula, Amanda. – intrometeu Leticia. – Não é assim que os dois vão resolver nada.

– Qual o problema deles se pegarem se ela afirma que não sente nada por ele? – indagou Amanda começando a também ficar irritada. Percebi que aquilo acabaria virando uma discussão.

– Ele sente por ela! – respondeu Leticia.

– E eu não vou brincar com a cara do Arthur. – completei.

– Porque você gosta dele! – afirmou Amanda, cruzando os braços na frente do corpo e sorrindo, como se tivesse acabado de ganhar a discussão.

– Nós vamos ficar aqui discutindo os sentimentos da Isabelle pelo Arthur? – perguntou Bruno. – Por que vocês não fazem isso enquanto voltamos para a festa? O Gabriel deve estar nos esperando.

Senti meu coração disparar ao ouvir o nome de Gabriel, porque me toquei de que a merda era maior do que eu pensava. Essa com certeza não era uma das nossas melhores noites. Se eu aceitasse aquele negócio, a gente brigaria, porque o Gabriel não engoliria o fato de que eu ficaria com o Arthur. Se eu não aceitasse, a gente brigaria, porque seria basicamente o mesmo que afirmar que eu gosto do Arthur. Não tinha jeito, Amanda tinha acabado de me causar a maior dor de cabeça da vida. Por um breve momento, me imaginei voando no pescoço dela.

– Você pode desafiar a Amanda a realizar o mesmo desafio. – lembrou Luiza.

De primeira achei que seria a saída perfeita, até raciocinar que de acordo com as regras, se a Amanda cumprisse, eu teria que pagar a consequência. E eu sabia que ela cumpriria. Sem contar que não me senti confortável com o pensamento de Amanda e Arthur se agarrando.

– A intenção do jogo não é sair brincando com os sentimentos dos outros. – tentei argumentar.

– Isso é verdade. – concordou Gustavo.

– Eu devo ter acabado com um relacionamento hoje e você quer falar de não brincar com os sentimentos dos outros? – rebateu Amanda.

– Ta, isso também é verdade. – disse Gustavo me pedindo desculpa pelo olhar.

– O Gabriel comentou algo de ter deixado um guardanapo em cima da mesa deles, avisando que era uma pegadinha. – disse Henrique, surpreendendo a todos. Na hora eu me lembrei de ter visto ele realmente deixando esse guardanapo, mas não imaginei que fosse por isso. – Eles voltariam pra pagar a conta e veriam, então não acabamos com o relacionamento de ninguém.

– Não importa, brincamos com o sentimento deles mesmo assim. Até porque se a namorada dele não tiver voltado pra mesa com ele, ela pode pensar que ele forjou o negócio. – respondeu Amanda. – Eu não acreditaria em qualquer bilhetinho num guardanapo.

– Amanda, eu vou socar sua cara. – avisou Leticia brava.

Não havia uma saída, eu tinha que escolher alguma das duas opções, aceitar ou não. Confesso que meu orgulho influenciou a decisão.

– Eu aceito o desafio. – anunciei fazendo Amanda sorrir.

– Vamos voltar para a festa, o Arthur esta lá... – disse Amanda e senti meu estômago embrulhar. Eu estava prestes a ficar com o Arthur. De novo.

Nós entramos nos carros para retornar e eu não sabia no que pensar. Leticia e Amanda começaram uma discussão que eu preferi ignorar e segui o caminho inteiro tentando simplesmente não pensar em nada. Foi muito difícil. Assim que chegamos, eu fui direto para o bar, sem nem me importar se alguém estava me seguindo. Dessa vez eu não me preocupei nem com Nicolas ou Bárbara. Era a minha vez de estar no meio de uma crise.

Eu pedi um copo com qualquer coisa e muita vodka. Quando o cara foi preparar para mim, Heitor avisou que ele mesmo prepararia e não demorou para ele voltar com um copo com gelo, uma caixa de suco e uma garrafa de vodka.

– Fique a vontade. – ele avisou colocando tudo sobre o balcão. Eu enchi o copo de vodka e virei de uma vez. Desceu queimando pela minha garganta.

– Como a Isabelle vai filmar isso? – ouvi Carol perguntar atrás de mim e eu comecei a encher outro copo, antes mesmo de me recuperar do primeiro.

– Ela pode usar o quarto do Renan e colocar o celular com a câmera ligada, em cima da escrivaninha em frente a cama, sei lá. – sugeriu Bruno.

– Porque é claro que ele não vai desconfiar de eu parar no meio da coisa, pra colocar um celular em pé, em cima da escrivaninha... – rebati sem olhar para trás.

– Coloca antes.

– Não, com o celular não vai dar certo. – disse Leticia.

– Tive uma ideia! – disse Renan. – Tem um computador com webcam no quarto dos meus pais e tem meu notebook no meu quarto. A gente entra com uma conta do skype no computador, uma no notebook, ligamos e aí desligamos somente o monitor do computador. O skype vai continuar rolando, mas não vai dar pra desconfiar. Sem contar que dá pra gravar chamada de vídeo.

– Genial! – gritou Amanda e eu virei outro copo de vodka. – Aí se a Isabelle decidir continuar... Ela dá um jeito de sumir com essa webcam, porque não to afim de te assistir fazendo sexo.

Eu inspirei fundo para não mandar ela ir se foder e expirei.

– Eu tenho uma condição. – anunciei. – O áudio vai ficar desligado.

– Tudo bem. – respondeu Amanda. – Ninguém ta afim de te ouvir gemendo mesmo.

O pessoal deu uma gargalhada, mas eu permaneci séria.

– Vamos lá arrumar tudo. – chamou Renan.

– Eu vou esperar aqui. – avisei. – Quando estiver tudo pronto vocês me chamam, mandam mensagem, ligam, sei lá.

– Não foge, Isabelle. – provocou Amanda e eu olhei para trás só para fuzilá-la com o olhar. Minha paciência já estava no limite.

– Eu vou acertar a sua cara, igual acertei a da Bianca. – avisei.

Todo mundo saiu dali para preparar as coisas pro meu desafio. Somente Henrique e Leticia não foram. Henrique porque disse que ia procurar o Gabriel e Leticia avisou que ficaria comigo, mas embalou numa conversa com o Heitor e eu desliguei o cérebro. Eu enchi o terceiro copo de vodka para virar, mas dessa vez bebi só metade e decidi colocar suco no negócio. Já tava repugnando em beber vodka pura.

Parece que se passaram apenas minutos até que Amanda me ligasse, mandando eu procurar por Arthur. Aliás, ligasse para Leticia, que me passou o celular, porque não ouvi o meu tocar. Assim que desliguei, mandei uma mensagem para ele perguntando “Você está na festa do Renan?” e rezei para que ele não respondesse. Mas infelizmente ele respondeu: “Sim, por que?”.

– Ele ta aqui. – avisei para Leticia.

– Vamos lá dentro ver com o povo como vai funcionar direito.

Nós fomos, mas antes eu enchi meu quarto copo de bebida. Quando paramos na porta da cozinha da casa, não conseguimos abrir porque estava trancada. Heitor teve de ligar para Renan e pedir para abri-la, que explicou que era pra ninguém entrar. Quando já estávamos lá dentro, fui apresentada ao quarto dos pais de Renan. De acordo com o pessoal, o skype já estava ligado e já estava funcionando lindamente e realmente, não dava para desconfiar. A webcam era separada do computador e não tinha luz nela. A única luz era na CPU, que eles tamparam com um pano qualquer. Depois eles me mostraram o quarto em que ficariam e aí, o resto, era comigo.

Eu decidi acabar com aquilo logo e ordenei que eles já ficassem no quarto. Renan me entregou a chave da casa e ao som de risadas, sai do quarto e fechei a porta atrás de mim. Eu respirei fundo ao mandar a próxima mensagem para Arthur.

“Preciso falar com você, tem como me encontrar?”

“Onde?”, ele respondeu.

“Na cozinha da casa do Renan, a porta vai estar aberta”

“To indo”

Eu destranquei a porta e deixei a chave na fechadura, então me encostei num armário e esperei. A cada segundo que se passava, meu coração parecia acelerar mais e mais. Eu juro que se tivesse mais alguém naquele cômodo, eu ficaria paranoica pensando que a pessoa poderia realmente ouvir meus batimentos cardíacos. Mas quando abriram a porta da cozinha, meu coração que parecia estar a 200 batimentos por segundo, simplesmente parou. Claro que não literalmente. Ou sim, eu não duvidaria. Olhei para frente sem de fato querer fazer isso e senti minha pressão cair para zero, ao enxergar o rosto de Arthur.

– Oi... – ele disse assim que fechou a porta atrás de si e me avistou. Eu não consegui responder, apenas me foquei em tentar me lembrar de como se respira. Parecia que o oxigênio ficou entalado na minha garganta. Meu deus, eu teria um infarto a qualquer momento, mas não conseguiria cumprir a desgraça do desafio. – Tudo bem?

– Camiseta legal! – foi tudo que consegui dizer, mas era uma camiseta cinza lisa e nem dava para vê-la direito, por causa da camisa jeans azul claro que ele usava por cima.

– Valeu! – agradeceu Arthur e colocou as mãos no bolso. – Cabelo legal!

– É... – disse levando a mão direita até minhas pontas coloridas. – Tem sido uma noite bem insana.

– Então, sobre o que você queria conversar?

Ele foi direto ao ponto e já que eu tinha que fazer isso, que fizesse logo. Era só fazê-lo acreditar que iremos transar e cair fora. Caminhei até a porta e a tranquei, seguida pelo olhar de Arthur que me observava.

– Eu sou amiga do Renan. – expliquei, me virando para ele. Ou pelo menos me tornei hoje.

Segurei sua mão e o puxei, fazendo com que ele me seguisse. Ele o fez, mas parecia confuso. Quando passamos pelo quarto em que o pessoal estava, meu coração acelerou novamente, então tive de respirar fundo para continuar o guiando até o quarto dos pais de Renan, onde entrei e repeti a ação de trancar a porta.

– Isabelle, o que você ta fazendo? – perguntou Arthur deixando explícita sua confusão. Eu olhei para a webcam, respirei fundo e olhei para ele.

Força, Isabelle. Força.

– A questão é a seguinte, Arthur... – disse caminhando lentamente até ele. – Eu quero esquecer aquele dia na biblioteca e esquecer qualquer conflito que tenha acontecido entre a gente.

– Isa, me desculpa. Aquele dia eu fiquei mal pra caralho e você não me deu a chance de dizer nada. Ainda bem que você resolveu falar disso, porque eu tava enlouquecendo.

– Não, Arthur. Na verdade não te chamei aqui porque quero conversar. – disse dando o último passo que faltava para nossos corpos encostarem e engoli seco. Eu consegui perceber pelo seu olhar que ele finalmente havia entendido o que eu estava fazendo. – Eu quero você. – afirmei e num impulso só, o beijei. Pra minha infelicidade, ele correspondeu.

Antes de qualquer envolvimento amoroso, existe amizade entre mim e o Arthur, e essa é uma das coisas que mais valorizo na vida. Eu não estava tão afetada porque aquele desafio significava que mais uma vez ficaria com ele, mas sim porque eu estava apenas o usando em um joguinho e as coisas entre nós, ficam cada vez mais difíceis. Eu entrelacei meus dedos tremendo entre os fios de seu cabelo e me senti suja ao pensar no quanto tenho sido a pior amiga que uma pessoa pode ter. Eu ando mentindo para tanta gente. Até que ponto meu sentimento pelo Gabriel pode justificar isso?

Arthur levou a mão até meu rosto e como se as coisas já não estivessem difíceis o suficiente, ele parou o beijo.

– Você ta bêbada, Isabelle? – ele perguntou sem afastar o rosto do meu.

– Não. – respondi e tentei o beijar novamente, mas Arthur não deixou. Ele se distanciou o suficiente para conseguir olhar nos meus olhos e depois de longos segundos em silêncio, mostrou que me conhece de verdade.

– Você jamais faria isso sóbria, a não ser que exista outra razão por trás.

– Ta, então digamos que eu esteja bêbada. Dá pra você simplesmente colaborar comigo?

– Eu não vou fazer nada que você possa se arrepender amanhã. – afirmou Arthur.

– Eu não quero você bancando o cara legal e protetor agora, Arthur. Será que você não consegue agir feito homem, uma vez que eu quero transar com você?

Ele continuou me encarando, mas não disse mais nada. Eu estava tendo um surto interno, mas fingi apenas impaciência com sua atitude. Então, ele me beijou e dessa vez deixou a coisa fluir. Senti seus braços envolverem minha cintura, na intenção de deixar nossos corpos mais próximos e quando o clima foi esquentando, ele me empurrou em direção a cama e se deitou sobre mim. Por um breve momento cheguei a me esquecer do porque estava ali.

Ele beijou meu pescoço e eu arrepiei. Era estranho porque eu e o Arthur nunca íamos longe demais enquanto ficávamos. Nós éramos novos, completamente inexperientes. Nas poucas vezes em que acabávamos extrapolando um pouco, nós dois ficávamos extremamente sem graça. Mesmo assim, eu tinha certeza de que acabaria perdendo minha virgindade com ele. Nem sequer imaginava que seria com Pedro.

– Eu achava que você seria meu primeiro cara. – disse e nem entendi porque soltei aquilo do nada. Acho que eu apenas pensei alto. Percebi que sua respiração continuava a bater contra minha pele, mas ele não fazia mais nada.

– Eu também. – respondeu Arthur e levantou o rosto na altura do meu. – E é por isso que eu realmente não acredito que passei de “o cara para quem você confiaria sua primeira vez” para “o cara de uma transa em uma noite qualquer”.

Depois daquilo eu não conseguiria prosseguir em hipótese alguma. Foda-se a Amanda, eu cumpri o desafio. Nós estávamos ali e ele de fato acreditou. Era o que eu precisava fazer. Se ela contestasse, a gente provavelmente sairia nos murros pela primeira vez. Mas continuar, não dava.

Empurrei Arthur pro lado devagar e me levantei da cama. Caminhei lentamente até a mesa do computador e me sentei em cima dela propositalmente para ele não perceber que enquanto isso, derrubei a webcam e a virei para trás. Ele me seguiu com o olhar e eu tentei pensar em algo para dizer, mas não saiu nada coerente.

– Só estou de fato muito bêbada e querendo provar alguma coisa pra mim mesma que não faço ideia do que seja. – disse fitando meus próprios pés, que não alcançavam o chão. – Me desculpa por isso e pode ir embora. Nós conversamos em outra situação, em que eu esteja conseguindo raciocinar.

– Pena que essas conversas nunca chegam. – ele disse se levantando da cama e indo até a porta. – Se cuida. – completou e dito isso, saiu dali provavelmente me odiando. Minha vida é um desastre.

Eu passei uns bons minutos sentada ali, absorta em meus próprios pensamentos e aproveitando o silêncio. É engraçado como quando algo tem que acontecer na minha vida, acontece tudo de uma só vez. Se possível, numa única noite de sábado. Sai do quarto, disposta a sumir dali em busca de paz e oxigênio. Antes precisava avisar para o pessoal continuar sem mim, que por acaso deveriam estar sem entender nada. Abri a porta do quarto em que eles estavam e estavam todos conversando em sussurros, mas um silêncio imediato se formou, provavelmente por terem se assustado. Eu abri a boca para dizer algo, mas minha voz não saiu quando meu olhar cruzou com o de Gabriel, sentado numa cadeira do outro lado do cômodo. Eu não acredito que ele assistiu.

– O que aconteceu depois que você virou a câmera, Isabelle? – indagou Amanda praticamente gritou. – Vocês transaram?

– Larga de ser juvenil, Amanda. – respondeu Bruno. – Nesse tempo não dava nem pra ter rolado um sexo oral.

– Af, estou decepcionada. – confessou Amanda.

– O que rolou foi só aquilo, depois nós conversamos e ele foi embora. – expliquei tentando manter um tom de voz estável, ainda olhando para Gabriel que não esboçava expressão nenhuma, mas minha voz saiu muito mais baixa do que eu planejava. – Agora se me dão licença, eu vou dar uma volta. Continuem o jogo sem mim.

– Ta tudo bem, Isa? – perguntou Leticia e eu apenas assenti, antes de fechar a porta atrás de mim. Eu fechei os olhos e me encostei na parede. Ouvi eles voltarem a conversar, mas não dava para entender o que estavam dizendo. Provavelmente algo sobre como eu fiquei abalada e Amanda estaria enchendo a cabeça de todos com asneiras sobre ser porque eu gosto de Arthur, inclusive a de Gabriel.

A porta se abriu e eu olhei imediatamente para o lado assustada. Era Gabriel e eu não sabia se me sentia aliviada, ou surtava ainda mais. Ele fechou a porta me encarando e permaneceu parado com a mão na maçaneta.

– Sobre o que você queria conversar? – perguntei num quase sussurro, querendo fingir que nada aconteceu.

– Você não ia dar uma volta? – ele rebateu com a voz firme e séria.

Eu apenas assenti e andei na direção do primeiro cômodo que avistei, abrindo a porta e entrando ali. Era um quarto. Fechei a porta atrás de mim e caminhei até uma cômoda de madeira, onde subi, me sentei e abracei meus próprios joelhos, encostando minha testa neles. Ouvi a porta se abrir, mas nem me dei ao trabalho de ver quem era.

– Por que você aceitou? – perguntou Gabriel.

– Porque eu não ia pagar a consequência e a Amanda ficou me provocando, dizendo que gosto dele. – respondi sem levantar a cabeça.

– E ta toda abalada assim de certo porque não gosta, né.

Eu levantei a cabeça e o encarei furiosa.

– Se eu tivesse negado, você teria dito que era pelo mesmo motivo. Eu aceitei e você achou que era por esse motivo. E eu não transei, mas você continua achando que é pelo mesmo motivo. Qualquer merda que eu fizesse pra você teria sido pelo mesmo motivo. – rebati. – Mas já parou pra pensar que talvez minha vida não tenha mais nada a ver com ele e que isso já estaria claro, se eu não fosse obrigada a fingir pras pessoas que não rola nada entre a gente?

Ele andou até a porta, a abriu e olhou de volta para mim.

– Vai lá... – disse Gabriel apontando para o corredor. – Vai lá e conta pra sua melhor amiga que vai parar de falar contigo. Ou pros meus melhores amigos que vão fazer a mesma coisa. Vai lá e conta pro Renan também, vai lá. Vai ser ótimo ter nossos nomes rodando na boca do colégio inteiro. Já que pra você é só uma questão de gritar pros quatro ventos, vai lá e faz isso.

Eu desci da cômoda, andei até ele e bati a porta com raiva, o encarando. Ele sorriu como quem havia ganhado a discussão, mas eu tava focada demais na sensação de alívio e relaxamento que me deu bater aquela porta. Foi então que eu surtei. Eu abri a porta de novo e a bati. Uma, duas, três vezes. Até Gabriel perceber que eu não ia parar e tentar me impedir de a bater novamente. O pessoal não deveria mais estar no outro quarto, porque com certeza teriam aparecido no corredor querendo saber o que estava acontecendo.

Gabriel fez força contra a porta, para que ela permanecesse fechada e eu não conseguisse abri-la. Mesmo que eu tenha usado toda minha força tentando, de fato não consegui, porque ele era bem mais forte que eu. Então, me virei para ele e comecei a estapeá-lo. Ele pareceu surpreso, mas não me fez parar. Pelo menos não até eu começar a misturar tapas com murros e qualquer outra coisa que ajudasse a esvair minha raiva.

– Eu to pouco me fodendo pro que as pessoas pensam. – gritei e ele tentou segurar minhas mãos, mas eram tão rápidos meus golpes, que acabei foi arranhando seus braços.

– Não, você sempre se importa com o que as pessoas pensam! – rebateu Gabriel.

– Porque elas fazem questão de jogar na minha cara que não vai dar certo! – gritei novamente, mas dessa vez minha voz falhou, porque eu senti vontade de chorar. Senti meus olhos arderem e senti um nó se formar em minha garganta. Eu não parava de bater nele, porque não queria chorar, só queria gritar e gritar até perder minha voz. – Então por que você não some logo da minha vida?

Quando disse isso, ele pareceu ter se irritado de verdade e percebendo que não conseguiria me segurar, usou seu corpo para me prender na porta e aí sim, conseguiu segurar meus braços entre a gente. Então, ele começou a gritar muito mais algo do que eu já havia gritado.

– Porque eu tenho a sensação de que minha vida é um quebra-cabeça e que eu sou obrigado a ficar tentando juntar as peças e dar algum sentido a elas. Mas eu sou desequilibrado, irresponsável e desorganizado demais para isso. – gritou Gabriel. – Quando você perde uma peça, não tem mais concerto. Sem uma peça, não dá pra terminá-lo. Não tem como encontrar a droga do sentido. E eu já perdi muitas peças, Isabelle. Eu não vou perder mais uma! Não vou!

Quando ele terminou de dizer, eu finalmente estava quieta. Com os lábios tremendo na tentativa de segurar o choro. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e eu bati minha própria cabeça contra a porta, com raiva de mim mesma. Gabriel segurou meu rosto para que eu não me atrevesse a fazer aquilo novamente e senti o quanto minha respiração estava descompassada, assim como a dele, que encostou a testa na minha e esperou que eu me acalmasse completamente.

Eu precisava parar de pensar, apenas isso. Então me foquei no Gabriel, me foquei no seu corpo colado ao meu, me foquei em sua respiração contra meu rosto, me foquei no cheiro de seu perfume e meus olhos encontraram os seus. Seu olhar foi tão intenso que parecia capaz de me despir, mas se não era, me convenceu a fazer tal coisa. Foi tão instintivo e tão rápido, que quando percebi estávamos nos beijando.

ATENÇÃO! A partir daqui, o capítulo conterá cenas impróprias para menores de 18 anos. Para quem NÃO possui interesse em tais cenas, pare de ler IMEDIATAMENTE. Será perfeitamente possível continuar acompanhando a história e o próximo capítulo sem tal leitura. Obrigada.

Eu agarrei seus cabelos com força e ele pressionou seu corpo contra o meu com ainda mais força, de modo que em hipótese alguma, eu pudesse sair dali. Mas eu o empurrei para trás e andamos na direção da cama, dando passos em vão e quase caindo diversas vezes, simplesmente porque não paramos de nos beijar. Não sabíamos se estávamos indo na direção certa, mas continuamos, até batermos contra alguma coisa e Gabriel se desequilibrar. Era uma poltrona.

Eu aproveitei que ele havia se desequilibrado e o empurrei, fazendo com que ele se sentasse, mas ele mal teve tempo de cair sobre a poltrona até que me sentasse sobre seu colo e procurasse pela barra de sua camiseta, para retirá-la com pressa. E quando o fiz, desci meus dedos por cada músculo do seu abdômen, ao mesmo tempo que o beijava com todo desejo que estava sentindo e de certa forma até com desespero. Foi quando nos afastamos para recuperar o fôlego que ele se aproveitou para arrancar minha blusa com nem metade do cuidado que tive, mostrando que a única coisa que ele queria era aquela peça de roupa bem longe do meu corpo.

Quando ele tentou se levantar comigo ainda em seu colo, fiz questão de desprender minhas pernas dele para ter acesso fácil ao botão e zíper de sua calça, que abri enquanto caminhávamos aos tropeços até a cama. Foi a vez dele me empurrar e foi contra o colchão, para então terminar de retirar sua calça e a jogar ao meu lado na cama. Ele começou a tirar meus sapatos e eu peguei a calça, futricando nos bolsos, até encontrar no da frente, uma camisinha.

– Muito previsível. – afirmei segurando a camisinha e olhando para ele, que sorriu, puxando minha saia.

– Quanto mais fácil de pegar, mais facilita meu serviço. – ele disse voltando a se colocar sobre mim e me beijando.

Gabriel abandonou minha boca e eu puxei seu lábio inferior com os dentes lentamente e suavemente, então ele beijou meu queixo, meu pescoço, arqueou meu corpo e beijou o colo do meu seio enquanto sua mão deslizava por minhas costas até o feixe do meu sutiã e o abriu com facilidade. O filho de uma puta deve fazer isso com mais frequência do que eu consiga imaginar. Ele deixou que meu corpo se recostasse totalmente no colchão novamente e então retirou meu sutiã, para finalmente beijar meu seio, fazendo com que eu me contraísse abaixo de si.

Enquanto sua boca estava focada em meu seio direito, sua mão alcançou meu seio esquerdo. Eu estava realmente me sentindo muito vulnerável e por mais que não quisesse demonstrar isso, eu não conseguia. Meu corpo não parecia responder aos meus comandos e sim ao toque de Gabriel. Eu me contorcia com o contado de sua língua em minha pele e quando eu já não estava mais aguentando, seus beijos começaram a descer novamente e minha respiração foi ficando cada vez mais pesada.

Ele segurou as laterais da minha calcinha e lentamente a puxou, deslizando o pequeno tecido pelas minhas pernas. Gabriel beijou a parte interna da minha coxa e foi subindo os beijos, mas quando minha respiração ficou descompassada, desceu novamente sorrindo e passou para a outra perna. Ele repetiu a mesma ação, subindo beijos torturantes por toda a parte interna de minha coxa e quando eu já estava me contorcendo, ele descia. Foi então que eu percebi o que ele estava fazendo, o desgraçado estava me provocando e manipulando.

– Filho da puta. – xinguei e ele deu uma breve risada rouca.

– Você me fez esperar bastante tempo, acho que consegue se controlar por alguns segundos. – rebateu voltando a fazer seu joguinho torturante, em que cada vez que eu me arrepiava ou arfava, ele voltava.

– Para com isso. – ordenei ofegante, começando a ficar furiosa.

– Talvez eu te faça implorar.

– Talvez eu te faça parar. – rebati.

– Você não teria forças para isso. – afirmou Gabriel e eu pensei em mandá-lo ir se foder, o que devido às circunstancias seria até engraçado, mas senti seus lábios alcançarem minha intimidade e dessa vez não consegui segurar o gemido que escapou da minha boca. Ele tem razão, eu jamais teria forças para fazer Gabriel parar de me dar prazer. Isso nem sequer teria lógica.

Sua língua intercalava movimentos verticais com circulares, enquanto eu tentava ao máximo me controlar, mas quanto mais eu tentava, menos parecia possível. E meus gemidos simplesmente condenavam que eu estava morrendo de tesão, prazer e excitação. Chegou a um ponto em que eu não conseguia mais raciocinar e não tentava mais me controlar, foi quando eu finalmente senti meu corpo explodir em um orgasmo que me fez revirar os olhos, apertar o lençol da cama abaixo de mim e perder completamente o domínio da minha respiração.

Gabriel pareceu bem satisfeito em me ver fraca sobre a cama tentando me recompor e ele sorriu ao subir o rosto na altura do meu para me beijar. Foi quando inverti nossas posições, ficando sobre ele. Era a minha vez de controlar o jogo e ele pareceu bem surpreso quando percebeu minha intenção, ao começar a beijá-lo no pescoço e lentamente ir descendo meus beijos pelo seu peitoral e abdômen, usando minhas unhas de cúmplices, que o faziam retrair a barriga instintivamente.

Quando meus beijos chegaram até a barra de sua cueca e ameacei abaixá-la com a unha, ele deixou um suspiro pesado escapar e eu sorri. Ele estava extremamente excitado e eu estava completamente satisfeita com isso. Abaixei sua cueca e a tirei, permitindo que seu membro rígido crescesse sob meus olhos, então sem delongas, o segurei e comecei a pequena tortura, fazendo movimentos para cima e para baixo apenas com a mão. Eu sei que tudo que um cara quer é um bom sexo oral e quanto mais eu demorar para tal ato, mais ele vai enlouquecer esperando. Muito mais do que qualquer garota.

Ele me fuzilou com o olhar e eu sorri, então ameacei começar o oral, dando uma única chupada e ele xingou algo que não compreendi.

– Serio isso? Serio? – balbuciou Gabriel.

– Talvez eu te faça implorar. – disse o imitando, sem deixar de masturbá-lo, com uma vontade imensa de rir. – Mas eu estou falando sério.

– Esteja ciente de que tudo será retribuído. – ele afirmou com a voz rouca dominada pelo tesão e não sei se foi pelo fato de que o ver com tanto tesão, me fez querer fazê-lo sentir prazer ou que eu tomei consciência de que ele poderia mesmo me torturar depois, mas envolvi seu membro com meus lábios e comecei a chupá-lo.

Foi a vez de Gabriel tentar se controlar e ele parecia estar se esforçando muito mais do que eu. Caras não gostam de demonstrar que também ficam vulneráveis durante o sexo e eu me senti satisfeita ao perceber que ele não estava conseguindo, visto que vez ou outra soltava um gemido ou um xingamento. Suas veias começaram a sobressaltar e eu percebi que ele estava prestes a gozar, mas então ele me fez parar, puxando minha cabeça de volta para cima e com uma pressa sobrenatural, me virou fazendo com que eu ficasse embaixo de si.

Gabriel pegou o pacote de camisinha que estava sobre a cama e o rasgou com muita habilidade. Eu o ajudei a colocá-la e então ele me beijou enquanto se posicionava melhor entre minhas pernas e me penetrou. Seus movimentos eram lentos e torturantes, o que me fazia tentar inutilmente mover meus quadris, mas ele não deixava e eu poderia acreditar que realmente surtaria a qualquer momento, se ele não me fodesse direito. Ele gostava de ver o efeito que tinha em meu corpo. E esse era extremo.

Sua boca que desceu para meu pescoço, o tornou vítima de fortes chupões que me arrepiavam. Preferi não pensar no quão roxo aquilo ficaria, porque tive certeza de que seria muito. Até porque eu definitivamente não conseguia pensar em nada, apenas sentir. Minhas mãos foram automaticamente para suas costas e o arranhei sem piedade, fazendo ele se contrair, arrepiar e pressionar seu corpo ainda mais contra o meu. Não serei a única a sair daqui com hematomas.

Ele então aumentou a velocidade, intensificou os movimentos e minha respiração os acompanhou. Eu arranhava suas costas cada vez mais forte a medida que meu prazer aumentava e procurei por sua boca para silenciar meus gemidos incontroláveis. Nossos corpos estavam em perfeito ritmo e sincronia, o que em pouco tempo me fez perder completamente o controle, enquanto arrepios se alastravam pelo meu corpo e ondas de prazer se estendiam por cada mínima parte de mim, desde meu rosto, tronco, braços e pernas, até as pontas dos dedos dos meus pés. Então eu estremeci e segurando com força os cabelos de Gabriel, com a boca colada a tua, atingi o orgasmo, no ápice do meu prazer.

Enquanto meu corpo se esparramava pela cama extasiado e em total satisfação, senti Gabriel atingir o seu orgasmo e sorri. Ele continuou deitado sobre mim enquanto se recompunha e lentamente, juntos, fomos regulando nossas respirações e esperando nossas pulsações voltarem ao normal. Ele encostou a testa na minha e me deu um longo selinho que acabou se transformando num beijo, dessa vez bastante calmo.

Se eu pudesse parar o tempo naquele momento, eu teria parado. Um momento onde só existe nós dois e tudo parece estar em seu devido lugar.

Notas finais
Pessoal, eis aqui a primeira cena de sexo da história. Eu já tinha aberto uma discussão sobre a história conter ou não esse tipo de cenas e digamos que vocês me deixaram bem confusa. Tiveram votos a favor e tiveram votos contra. No fim, eu decidi tentar agradar a todos, por isso era importante seguir o aviso que apareceu. Se você não tem interesse nesse tipo de coisa, bastava parar de ler, porque seria completamente possível continuar a acompanhar a história sem esse trecho. E se acabasse lendo sem querer, poderia perder o interesse pela história, simplesmente por não ter curtido. O que já era de se imaginar. Então espero que NINGUÉM que não quisesse tenha lido. Para os que queriam, quero esclarecer que quando foi aberta a discussão, uma coisa que foi geral, foi o pedido de que não fosse vulgar. Eu concordei completamente e juro que tentei ao máximo, atender aos pedidos. O que influenciou no fato de não ter detalhado demais. Enfim, espero que tenha deixado vocês satisfeitos e que não tenha ninguém querendo me matar. Mais do que nunca: COMENTEM! Beijinhos da K!