Poltrona 19

54 Desde o começo


Notas iniciais
Oi meus amores! Que saudade! Queria só avisar que não tive tempo para responder todos os comentários antes de postar esse capítulo e não queria demorar mais para postar, por isso vou responder tudo até no máximo amanhã. Sem falta! Estou ansiosa para saber o que vocês acharam desse capítulo, então comentem por favorzinho. É importante pra mim. Boa leitura a todos!

Uma das coisas mais difíceis de se perceber nessa vida é que estamos sozinhos. Não que não exista mais ninguém com quem você possa contar ou ninguém mais que te ame, é um outro tipo de sozinho. É que no final das contas cada um de nós vive sua própria história e para isso nós precisamos seguir nossos próprios caminhos, caminhar com nossos próprios pés. Porque ninguém além de nós mesmos sabemos o que se passa em nossas cabeças e corações. No fim da noite, quando você deita a cabeça no travesseiro, só existe você e sua própria consciência.

E naquela noite quando eu deitei a cabeça em meu travesseiro, pensei em tudo que tem acontecido com minha vida e parei de responsabilizar qualquer outra coisa ou pessoa que não fosse eu mesma por ela não estar seguindo um rumo do qual eu me orgulhe. Desde que eu me magoei com Gabriel, é fato que minha vida se desestruturou. Mas nem por um momento eu pensei em ir atrás dos meus amigos, pensei em focar em meus estudos, pensei em fazer coisas que me fizessem feliz. Ao invés de tentar sair de dentro do buraco no qual caí, eu permaneci nele por vontade própria. Mas tá na hora de mudar isso.

Assim que acordei no sábado de manhã a primeira coisa que fiz foi me inscrever no vestibular da UFPR. Descobri que a primeira etapa já seria dia 03 de Novembro e isso me deixou um pouco ansiosa. Pesquisei todo o material que está previsto para cair nas provas e montei um cronograma para começar a estudar, depois passei boa parte do dia revisando a matéria do colégio e antecipando as atividades e trabalhos que eu tenho para entregar. Todas as vezes que minha mãe passava na porta do quarto e ela fez isso propositalmente no mínimo umas três vezes, ela ficava me olhando como se eu fosse outra pessoa e não sua filha.

A noite fiz uma coisa que não fazia há muito tempo, resolvi visitar Nathália. Ela ficou tão feliz com minha visita repentina que expulsou seu namorado de casa e decidiu que faríamos um sábado de meninas. Nós saímos para comprar pizza, vinhos e ainda buscamos Leticia em sua casa. Foi nessa noite que eu descobri duas coisas: eu sou a pior irmã do mundo e também a pior melhor amiga. Tudo tem girado tão em torno do meu umbigo que eu nem sei quando foi a última vez que perguntei para qualquer uma das duas como estão suas vidas ou o que tem feito delas. Ás vezes a gente se cega tanto com nossos próprios problemas que nos esquecemos que todas as pessoas que amamos também estão cheia deles.

— Acho que de sete dias da semana eu tenho chorado uns oito. Tá muito difícil conciliar o trabalho com tudo que tenho pra fazer. Tem hora que acho que vou surtar e pular na frente de um carro. – desabafou Natália. Tem sido muito difícil pra ela fazer TCC, trabalhar e ter uma vida. Ainda não sei como isso pode ser possível.

— Você ainda tem tempo pra namorar? – indagou Leticia. – Porque tudo que eu faço é estudar e ainda me sinto sobrecarregada.

— Na verdade não. Eu e o Marcos passamos nosso tempo livre ou terminando nossas obrigações ou dormindo.

— Tem mais de dois anos que vocês namoram, né?

— Dois anos e três meses. – contou Natália.

— Vocês tem certeza que ainda amam um ao outro? – talvez tenha sido as duas garrafas e meia de vinho agora vazias que falaram por mim, mas quando vi já tinha perguntado. – Quer dizer, isso é tanto tempo! Principalmente pra vocês que vivem praticamente uma vida de casados e que tão nessa fase complicada pré-formatura. Eu não sei como vocês ainda não se mataram.

— É exatamente essa a questão, Isa. – disse Natália. – Se mesmo com a rotina e todos os problemas a gente consegue deitar na cama e se sentir grato por ter o outro ali, acho que é amor sim.

— Gay. Isso foi bem gay! – debochei e caímos na risada. – Mas agora a pergunta que não quer calar, vocês ainda transam? Porque com isso tudo eu não consigo imaginar vocês fodendo loucamente em cima da mesa da cozinha.

Fiquei feliz por ouvir a gargalhada de Leticia, porque sabia que ela estava pensando a mesma coisa. Ela só não teria coragem de perguntar.

— Você já fodeu loucamente em cima da mesa da cozinha, Isabelle? – rebateu Nathália em um tom provocativo. Percebi que tem uma eternidade que não conversamos sobre esse assunto e outras besteiras que costumavam nos fazer virar a noite morrendo de rir. O que também me fez perceber que ela já não sabe mais nada da minha vida sexual, já que tudo de diferente que aconteceu comigo aconteceu esse ano.

— Da cozinha da mamãe ainda por cima. – contei pegando mais vinho para encher minha taça e fingindo indiferença.

— Mentira! – exclamou Nathália verdadeiramente surpresa. – Como isso aconteceu? A mamãe ficava em cima de mim o tempo todo naquela casa quando eu tava na companhia de homem.

— Obviamente ela não tava lá. Foi na época que ela começou a sair com o namoradinho.

— E foi com quem? – perguntou Leticia.

— Com o Gabriel. – respondi com um pouco de receio de seu nome causar uma mudança de clima, mas se elas se incomodaram não demonstraram. – Na verdade ele me chupou, terminamos no quarto mesmo.

— Ai, Deus. Não acredito que to imaginando essa cena. – resmungou Natália.

— Eu nunca mais vou conseguir comer naquela mesa sem imaginar isso. – completou Leticia e todas nós rimos. O pior é que um dos problemas de se transar em sua própria casa com alguém que você gosta é exatamente esse, um dia você está tentando viver sua vida normalmente, até que passa por um móvel e lembra que vocês já foderam em cima dele.

— Até no seu apartamento eu já transei, Nath. – confessei.

— Você não fez isso! — ela exclamou ainda mais surpresa que com minha primeira revelação.

— Uma vez quando você viajou e pediu pra eu ficar com o Lennon, o Gabriel veio me fazer companhia. Ele tinha bebido e tava com bastante tesão, eu juro que a gente transou em pelo menos três cômodos.

Nathália me tacou uma almofada.

— Eu te peço pra cuidar do meu gato e você transa no meu apartamento inteiro, sua filha da puta!

Nós demos uma risada sincronizada tão gostosa que até me deitei no chão para me recuperar.

— Mas falando em homem… — disse Leticia mudando de assunto. — Como estão você e o Vinícius?

Aquela pergunta fez o sorriso em meu rosto desaparecer automaticamente.

— Nós terminamos o nosso quase-relacionamento. — respondi.

— Por que?

— Eu percebi que mesmo gostando muito dele ainda não deixei totalmente meu passado pra trás pra conseguir construir um futuro com outra pessoa. É uma responsabilidade que não tenho como assumir no momento e não queria magoar ele. Não o Vine. Ás vezes precisamos ser maduros. — completei dando de ombros.

— Estou muito orgulhosa de você. — afirmou Natália se esticando para segurar minha mão. Ao olhar para Leticia pude ver a mesma coisa em seu olhar.

— Mas e você, Leticia, como anda sua vida amorosa? — perguntei na intenção de mudar de assunto e impedir que o clima ficasse triste.

— Que vida amorosa? — ela rebateu e mais uma vez rimos.

Nós viramos a noite bebendo e colocando a conversa em dia. Quanto mais bêbadas ficávamos, mais a conversa baixava o nível. Me diverti de um jeito que estava precisando muito. No dia seguinte acordamos tarde, tomamos café da manhã quando já deveríamos ter almoçado e passamos o resto do dia assistindo filmes. Exatamente como costumávamos fazer.

Segunda eu fui para a aula e me esforcei ao máximo para prestar atenção em todos os horários. Não vou dizer que foi simples e fácil, pois tenho cada vez mais certeza de que eu realmente tenho um problema com disciplinas de exatas. Eu pisco e parece que a matéria não faz mais sentido. Quando a aula acabou, almocei perto do colégio e depois voltei para as aulas de apoio. Foi triste saber que quando eu saísse dali Vinícius não estaria me esperando, que não passaríamos o resto da tarde dando amassos no sofá do seu apartamento ou que quando eu chegasse em casa não poderia o mandar mensagem sobre qualquer trivialidade que me viesse à cabeça. Mas pelo menos naquele dia eu teria consulta com Lisa.

Já fazia duas semanas que eu não ia na terapia porque Lisa tinha viajado de férias. Afinal, a coitada também merece descansar. Tenho inclusive pensado que é realmente loucura trabalhar lidando com o problema dos outros como se já não tivéssemos nossos próprios problemas. Mas bem, normal eu nunca fui, então essa vai ser mesmo minha profissão.

Fiquei muito contente em vê-la, mas minha felicidade não durou muito. A contei sobre todo meu dilema com Vinícius, sobre Maryna, sobre as decisões que tenho tentado tomar em relação ao meu futuro e a faculdade. Ela ficou orgulhosa de como tenho sido madura e principalmente de como tenho traçado metas para melhorar minha relação comigo mesma e com a vida. Mas tudo desandou quando eu toquei num nome.

— Eu só estou preocupada com uma coisa. Tenho sentido que pra mim seguir em frente como eu realmente quero, eu também preciso me resolver com Gabriel. — confessei. — Continuar carregando a mágoa que tenho dele comigo vai ser praticamente o mesmo que continuar carregando o passado por qualquer caminho que eu siga.

— Isso seria ótimo pra você, Isa, mas você precisa entender que também tá tudo bem não conseguir fazer isso agora. Você não pode se forçar a uma coisa para qual o seu psicológico não esteja preparado ou você só vai acabar piorando as coisas. — aconselhou, Lisa.

— Eu sei. Mas eu sinto que eu devo.

— Se for o que você realmente quer, então não custa tentar.

— O que você acha que devo fazer? — indaguei esperando por uma resposta que me desse uma luz ou que me instruísse de alguma forma, mas não foi isso que recebi.

Lisa tirou seu óculos, abandonou a prancheta que costuma segurar em todas as sessões na mesinha que fica ao lado de sua poltrona, cruzou as mãos sobre o colo e me olhou séria. Me senti apreensiva antes mesmo dela começar a falar.

— Eu preciso conversar sobre uma coisa importante com você. — disse Lisa e de repente anunciou algo que me pegou completamente de surpresa. — Eu terei que parar de te atender.

— Por que? — questionei num misto de surpresa e chateação.

— Quando seus pais me procuraram querendo saber mais sobre o meu trabalho para que eu te atendesse, eu não sabia quem você era, Isa. Eles me disseram apenas que você estava passando por uma fase ruim, que não se abria com eles e que precisavam de alguém que pudesse te ajudar. Eu só soube na nossa primeira sessão, quando você relatou o que estava acontecendo, citou nomes e eu liguei as coisas. Mas eles estavam tão preocupados com você e você estava realmente precisando de um acompanhamento psicológico, que eu não poderia negar te atender sabendo que você poderia sair da minha sala e não procurar mais por ajuda.

“Eu decidi então que te atenderia até você se acostumar com a terapia e eu poder te indicar a algum dos meus colegas de trabalho em quem confio e que sei que cuidariam bem de você. Eu continuei te atendendo até hoje porque nesse tempo você nunca quis de fato conversar sobre o assunto que não poderíamos. Tratamos de muitas outras coisas, menos dessa. Porém, eu fico feliz que você esteja se sentindo pronta para falar disso. Você precisa.”

“Eu sei que você não está entendendo, mas o que acontece é que eu sou a psicóloga do Gabriel. Eu espero que você não fique chateada porque apesar de te atender ir contra a ética do meu trabalho, por eu não poder atender casais ou pessoas da mesma família, eu estava em uma situação que precisava visar o seu bem. E se não fosse por isso talvez você não tivesse melhorado e evoluído tanto”.

Psicóloga do Gabriel. Eu quase não consegui processar essas palavras. Fiquei extremamente confusa, porque me lembro perfeitamente de minha mãe ter dito que foi a mãe da Carol quem indicou Lisa.

— Você não atende a Carol? — perguntei tentando de alguma forma ligar os pontos e entender tudo.

— Não, eu só atendo o Gabriel.

Eu estava esse tempo todo desabafando com a mesma mulher que atende o Gabriel. Eu simplesmente não sabia o que pensar, mas sabia de uma coisa: foi ele que armou isso tudo. Senti uma raiva súbita dele que me fez querer levantar e ir bater na porta da sua casa apenas para xingá-lo. Mais uma vez ele se achou no direito de manipular minha vida de alguma forma.

— Isa, só por favor não pare com o acompanhamento psicológico. — pediu Lisa fazendo com que eu voltasse minha atenção para ela. Ela estendeu a mão em minha direção e me entregou um cartão. O peguei sem saber do que se tratava e nele encontrei o nome e o telefone de uma mulher chamada Carina. — Ela trabalha aqui na clínica, tem as mesmas especializações que eu e tenho certeza que vai te atender muito bem.

— Eu vou pensar a respeito. — prometi e me levantei realmente chateada. Eu me acostumei com Lisa, com nossas sessões e a conversar com ela. Não queria parar de me atender com ela, principalmente porque vai ser muito difícil ter de me explicar novamente para uma nova pessoa. Mas eu não tinha opção. Antes de ir embora fiz questão de a dar um abraço e agradecer. — Obrigada por tudo.

— Eu que agradeço pela confiança. — respondeu Lisa. — Você é uma garota extremamente incrível e especial, Isabelle. Não se esqueça disso.

Saí dali com os olhos cheios de lágrima e com mais raiva ainda. Eu queria matar Gabriel. Fui para casa a pé apenas na tentativa de me acalmar, mas isso não aconteceu. Não era justo eu perder a única pessoa em quem tenho confiado para desabafar até mesmo sobre as coisas mais banais por causa dele. Mais uma vez por causa dele.

Eu não bateria na porta da sua casa, mas no dia seguinte acordei mais cedo apenas para chegar no colégio a tempo de confrontá-lo ainda na entrada. Me encostei no muro e esperei por bastante tempo. Já estava quase no horário do sinal bater quando o vi chegando. Com as mãos dentro do moletom preto que estava usando e fones no ouvido, pareceu distraído demais para me ver indo até sua direção. Por isso o peguei realmente de surpresa ao arrancar um de seus fones e o empurrar contra o muro do colégio. Ele me olhou verdadeiramente assustado, mas não se moveu.

— Não foi a mãe da Carol que foi até a minha indicar a Lisa, né? – indaguei indo direto ao ponto. Ele não respondeu, apenas desviou o olhar. Inacreditável. – Por que você é assim, Gabriel? O que você esperava? Que ela me convencesse de que você é um santo que nunca fez nada de errado? Tava esperando conseguir mais uma vez de alguma forma me manipular?

— Não! – ele respondeu alterado parecendo verdadeiramente ofendido.

— Quando eu penso que vou conseguir parar de sentir ódio de você, eu vou lá e descubro mais uma das suas mentiras. Tem mais alguma coisa pra eu descobrir, Gabriel? Ein?

— Eu não menti pra ninguém.

— Você fez com que mentissem pra mim! — esbravejei.

Eu esperei que ele fosse gritar, se estressar e que fossemos de fato brigar para que eu pudesse descontar toda minha frustração em cima dele, mas ao invés disso ele respirou fundo e me respondeu com a voz calma.

— Vamos conversar em outro lugar. — pediu Gabriel.

— Eu não vou pra lugar nenhum com você. — neguei.

— Você tá dando um show na porta do colégio e tá todo mundo olhando pra gente.

Eu olhei ao nosso redor e realmente estavam. Todos nos encarando. Alguns viraram o rosto ao encontrar meu olhar, outros nem se deram ao trabalho de fingir que estavam fazendo outra coisa. O sinal tocou e ninguém demonstrou interesse em entrar e nos deixar em paz. Se tratando de mim e Gabriel aos berros um com o outro, aposto que a diretora poderia cancelar a aula que ninguém sairia dali. Bufei de raiva e saí andando sem dizer nada na direção oposto ao portão, sabia que Gabriel me seguiria. Continuei andando sem olhar para trás até que estivesse em outro quarteirão, distante o suficiente do colégio e do olhar dos curiosos, então me virei para ele esperando que ele começasse a se justificar.

— Você sumiu, Isabelle. Você não ia pras aulas, seus amigos não sabiam de você, você nunca mais esteve online no whatsapp e eu não conseguia sequer dormir de tanta preocupação. Cheguei a ir na porta da sua casa dezenas de vezes, queria pelo menos perguntar pra sua mãe se você estava bem, mas eu sabia que não podia. Eu nem sequer tinha direito de fazer isso. Eu comecei a surtar e implorei pra Barbara sondar o Nicolas e descobrir algo. Ela não queria me dizer nada, mas eu literalmente chorei na frente dela. Foi quando ela me disse que não, você não estava bem. Eu queria fazer alguma coisa porque eu nunca quis seu mal, acredite ou não.

— Me poupe, Gabriel.

— Foi quando eu pedi pra minha mãe ir até sua casa. — ele prosseguiu, ignorando completamente meu comentário. — Eu pedi pra ela mentir dizendo ser mãe da Carol porque sabia que se ela dissesse que era minha mãe você jamais aceitaria receber ajuda. E eu precisava que você aceitasse, porque a Lisa é realmente a única pessoa em quem eu confio e que já foi capaz de me ajudar. Eu esperei que ela pudesse fazer o mesmo por você. A Lisa nem sequer sabia disso tudo.

— Eu sei, ela me contou.

— Eu só estava esperando fazer o mínimo depois da merda toda que eu fiz.

— Você quer que eu diga obrigada por ter me mandado pra um psicólogo depois de você mesmo ter fodido meu psicológico? — ironizei. — Ou por ser o responsável por eu ter de parar de me consultar quando estava começando a me sentir bem?

— Por que você é tão dura comigo? — rebateu Gabriel parecendo verdadeiramente chateado. — Eu nunca quis seu mal. Você nem sabe de tudo que aconteceu porque nunca me deixa falar, nunca me ouve!

Eu abri a boca para rebater, mas não consegui, porque ele disparou a falar.

— Aquela noite tudo que eu fiz, disse e encenei foi porque eu não podia deixar margem pra perdão. Eu sempre soube que havia chegado longe demais, mas foi só aquela noite que percebi o quão longe. Até então eu achava que talvez se eu te contasse a verdade, se confessasse e pedisse desculpa, se dissesse que as coisas saíram do meu controle talvez você me perdoaria, mas naquela noite eu tomei consciência de tudo. Não tinha como você me perdoar, não tinha como ninguém me perdoar. Não tinha sequer como eu me perdoar!

— Eu não quero falar disso, Gabriel. — tentei o interromper.

— Mas eu quero! Eu preciso! Vocês estavam todos lá, você estava lá e havia tanta decepção na forma com que você me olhava que eu me senti um lixo. Eu não queria que você me perdoasse, por isso eu fiz aquela cena e disse todas aquelas coisas. Eu não queria, mas eu estava me sentindo tão mal por tudo que eu fiz que só queria afastar todos vocês de mim, só queria achar uma forma de parar de ser tão tóxico para todos e a única forma era se eu conseguisse que ninguém mais quisesse me ter por perto. Por isso eu escolhi cada mínima palavra pra atingir cada uma das pessoas que estavam naquela sala, mas eu não queria. Tudo que eu queria era dizer que eu sentia muito, Isabelle. Eu sinto. Eu sinto muito mesmo.

— Bem, você conseguiu o que queria. — afirmei. — Porque eu me lembro de cada uma das coisas que você me disse e não vou esquecer nunca, Gabriel. Assim como não vou me esquecer que de fato, te afastar da minha vida, foi a melhor coisa que eu já fiz por mim mesma, porque de fato você é um lixo, de fato você é tóxico e de fato todo mundo estaria melhor se não te tivesse por perto.

— Você não é muito melhor que eu, Isabelle. — rebateu Gabriel.

— Como você tem coragem de dizer isso?

— Você não é a única que se lembra de tudo que foi dito aquela noite. Eu me lembro perfeitamente do que você disse, você lembra?

Eu não tive resposta porque sabia do que ele estava falando. Sabia exatamente o que ele jogaria na minha cara.

— O que eu fiz? Parti seu coração? Ok, me desculpe. Mas e você? Você falou da minha irmã morta, Isabelle. Sabendo que eu faço terapia há quatro anos por causa disso e não sabendo de nada do que aconteceu no dia da morte dela. Lembra? Lembra que você disse: “Você deveria ter morrido naquele carro ao invés de Alice”? Pois é, foi o mesmo que meu pai me disse pouco antes de eu tentar suicídio pela primeira vez.

Senti uma lágrima escorrendo por meu rosto e foi nesse momento que saí dali. As pressas e sem olhar para trás. Sendo guiada automaticamente pelas minhas pernas por um caminho qualquer que só depois descobri não ser o do colégio, eu acabei voltando para casa. Elisa se assustou quando me viu entrando com a cara vermelha e chorando. Tentou perguntar o que havia acontecido, mas tudo que conseguiu de mim foi um “não conta pra minha mãe que eu to matando aula”. E eu sabia que ela não contaria porque felizmente ela sempre foi minha maior cúmplice.

Assim que entrei em meu quarto fechei a porta e me enfiei debaixo do edredom sem nem mesmo tirar o uniforme. Jurei para mim mesma que Gabriel não faria eu me sentir mal, mas não consegui. Ele foi escroto comigo, mas revidar da mesma forma talvez me colocasse quase no mesmo patamar que ele. Eu me lembro de ter escolhido aquelas palavras propositalmente, porque eu sempre soube que Alice era seu ponto fraco, eu sabia que aquilo o machucaria. Eu também escolhi o machucar. E eu não sou esse tipo de pessoa.

Meu celular vibrou em meu bolso e eu o peguei com a intenção de jogá-lo longe, mas de relance pude ver o nome de Leticia na tela e resolvi ver o que era. Era uma mensagem dela: “As pessoas estão comentando que você e o Gabriel sumiram juntos. É verdade? Onde você tá?”. É claro que as pessoas estão comentando, é a única merda que elas sabem fazer, fofocar sobre a desgraça da vida dos outros como se soubessem alguma coisa sobre elas, como se tivessem esse direito. “Estou em casa, depois te explico tudo”, respondi apenas para acalmá-la. Depois de fato taquei meu celular longe.

Depois de tanto refletir sobre esse drama sem fim que é minha relação com o Gabriel, me peguei pensando no que Lisa me pediu. Talvez eu deva mesmo procurar a psicóloga que ela me indicou, porque talvez esteja realmente na hora de eu falar sobre ele. Eu preciso de alguma forma superar isso ou toda e qualquer coisa vinda dele ainda iria me atingir, por mais pequena ou insignificante que fosse. Gabriel me causa uma sobrecarga de sentimentos que me cansa, me exausta e me faz perder qualquer rumo que eu tente seguir.

Eu não sei quando, mas acabei pegando no sono e em algum momento acordei com alguém chamando meu nome. Abri os olhos com muita dificuldade tentando me acostumar com a luz do sol sobre minha cara e de repente enxerguei Leticia sentada na beirada da cama ao meu lado.

— Bom dia, dorminhoca! — disse Leticia com um sorriso no rosto. — Sabe o que a Elisa fez de almoço? Batata assada recheada com bacon, calabresa e muito queijo! Então será que você poderia levantar a bunda daí pra almoçarmos? Porque ao contrário de você eu acabei de assistir seis horários de aula e estou com muita fome!

Sabendo que eu não tinha opção, me levantei preguiçosamente e a acompanhei até a mesa praticamente me arrastando.

— Que horas são? — questionei enquanto me sentava.

— 13h20. — respondeu Leticia se sentando de frente para mim. Me assustei por ter dormido por tanto tempo. Eu cheguei em casa não era nem oito horas.

Quando Elisa surgiu com a comida e a colocou sobre a mesa meu estômago roncou de fome e minha boca salivou. Eu sabia que ela tinha feito batata só porque eu tinha chegado triste em casa, é uma das minhas comidas preferidas e Elisa sempre me mima quando não estou bem.

— Obrigada, Elisa. — agradeci. — Você é um anjo.

— Eu sei disso. — ela respondeu conseguindo me arrancar um sorriso.

Nós nos servimos e eu realmente achei que almoçaria tranquilamente, mas quando coloquei a primeira colher de comida na boca Leticia se pronunciou, revelando o motivo de ela estar ali.

— Pode começar a contar. — ela ordenou. — Sem esconder nada.

Eu realmente contei tudo, detalhadamente. Que Lisa não poderia mais me atender, que ela é a psicóloga do Gabriel e que foi Gabriel que armou para que ela me atendesse. Toda a conversa que tive com Lisa, toda a conversa que tive com Gabriel quando fui confrontá-lo. E infelizmente inclusive a parte sobre o que eu disse em relação a Alice. O que talvez eu não devesse ter feito já que Leticia esqueceu todo o resto da história por ter ficado chocada com isso. Eu havia me esquecido que ninguém sabia de Alice.

— Ele tem uma irmã morta? — ela indagou parecendo verdadeiramente surpresa. — E ele tem depressão por causa da irmã morta? E você disse pra ele que ele deveria ter morrido no lugar da irmã?

— Eu estava muito magoada aquela noite. — tentei me justificar.

— Isabelle, eu não sei nem o que te falar. — confessou Leticia. — Não vou te dar sermão nem nada porque eu entendo como ele te machucou, mas eu to realmente sem palavras pra tudo isso. Eu não acho que foi legal, mas eu jamais vou me esquecer de tudo que ele fez e disse, então eu não vou me pronunciar. O que eu posso dizer é que pelo menos quanto a Lisa, eu não acho que ele tenha feito por mal.

— Mas ele não tinha o direito de se intrometer na minha vida de novo, Leticia! Querendo bancar o herói ainda por cima depois de tudo?

— Eu concordo. Mas ele tinha a opção de não fazer nada e continuar sendo um escroto ou tentar ajudar de alguma forma, que foi o que ele fez.

— Tá, chega. — respondi emburrada. — Não quero mais falar disso.

Nós passamos o resto do almoço sem dizer nada. Comemos e voltamos para o meu quarto, onde resolvi quebrar o silêncio.

— Você fez a inscrição pro vestibular? — perguntei me jogando sobre a cama. Ela fez o mesmo ao meu lado.

— Sim e você?

— Infelizmente. — resmunguei. — E nós não podemos perder as inscrições pros demais vestibulares. Quais iremos fazer? USP, UNESP, UFRJ, UFRGS, UFMG? São muitas as possibilidades, precisamos pensar.

Ao olhar para o lado a vi me encarando com um sorriso reprimido.

— Tá falando sério? — perguntou Leticia.

— Não tá achando que vou te deixar ir embora sozinha, né?

O que recebi como resposta foi um abraço que quase me sufocou.

Nós passamos o resto do dia pesquisando sobre todas as nossas opções de faculdade. Chegamos a conclusão de que nossos pais não aceitariam pagar para viajarmos e fazermos um milhão de provas, então teríamos que decidir nossas prioridades. Conversamos bastante e a noite fiz a primeira coisa sensata que deveria fazer para de fato ter chance de estudar em qualquer lugar que não seja Curitiba: fui visitar meu pai e pedir por ajuda. Não sabia sequer como abordar o assunto com ele. Não esperava que ele fosse me barrar ou repreender, mas precisava ser realista de que não posso simplesmente pedir para me mudar sendo sustentada por eles e esperar que eles aceitem e concordem numa boa. A vida não funciona assim e dinheiro não tá caindo do céu.

Estávamos nós dois sentados na sala esperando a janta ficar pronta quando resolvi começar a falar.

— Pai, chegou a época dos vestibulares e eu andei pensando sobre algumas coisas. – introduzi o assunto.

— Que coisas? – questionou papai.

— Eu e Leticia estamos querendo fazer faculdade em outra cidade. – expliquei. Ele que até então mantinha seu olhar na televisão a nossa frente, se virou para mim e ajeitou sua postura. Isso significava que ele queria ouvir o que eu tinha a dizer. – Nós sabemos que para viajar e fazer as provas necessita dinheiro e que também tem a questão de perder aulas, então não temos condição de ficar viajando. Por isso pesquisamos sobre as melhores faculdades, qualidade de vida de suas respectivas cidades, custo de vida e chegamos a algumas opções.

— E quais são?

— Bom, decidimos que além do próprio vestibular, no ENEM também vamos tentar a UFPR, mas como segunda opção a UFRGS. E acabamos decidindo por fazer o vestibular da USP E UFMG. A USP é uma das melhores faculdades do país e teremos muita oportunidade em questão de carreira e a UFMG além de ser ótima, Belo Horizonte é considerada uma cidade com ótima qualidade de vida.

Nós tínhamos muitas outras opções, inclusive de usar a primeira opção do ENEM para alguma dessas outras. Mas cursar a UFPR é de fato a opção mais econômica e fácil que temos no momento e chegamos ao consenso de que continuar em Curitiba não significa necessariamente continuar na casa de nossos pais, basta a gente se mover, trabalhar e se organizar para isso. Quanto as demais universidades, apesar de ficarmos tentadas com a opção de morar no Rio de Janeiro, por exemplo, cercadas de homens gatos com sotaques maravilhosos, decidimos que somos medrosas demais para mudar para um local com índice de violência tão alto e descartamos a UFRJ. Com isso ficamos com apenas quatro opções de universidades, mas seja o que deus quiser.

Papai me ouviu falar sobre tudo atentamente e pareceu satisfeito com o fato de não estarmos pensando em fazer tudo isso a cegas, de estarmos de fato correndo atrás das coisas. Porém, quando terminei de falar sua expressão não era muito boa e ele resolveu ser sincero.

— Olha, filha, eu e sua mãe não esperávamos que você fosse querer ir embora de Curitiba, mas eu jamais vou te impedir de correr atrás do que você quer. Eu vou conversar com ela pra gente te dar a oportunidade de fazer todas essas provas e eu preciso que você entenda que se você conseguir passar para qualquer lugar que seja e decidir realmente ir, eu vou fazer o possível pra que você vá. Mas nós vamos precisar sentar nós três pra discutir tudo direito porque isso vai demandar um dinheiro pro qual não estávamos preparados. Precisaremos pagar seu aluguel e ainda dar dinheiro pra todas as suas despesas. Nós precisaremos nos organizar melhor financeiramente daqui pra frente.

— Eu não quero que vocês se matem por isso, ok? Se nós tivermos condições, tudo bem. Se não vida que segue também.

— Eu vou fazer o possível. – ele garantiu. E eu sabia que realmente faria.

No dia seguinte quando cheguei no colégio grande parte das pessoas ficaram me encarando. Tentei ignorar mesmo que tenha momentos que me dê vontade de mandar tomar no cu. Eu definitivamente não vou sentir falta de sentir como se minha vida fosse um grande espetáculo para pessoas que só querem me julgar e rir da minha cara. Foi uma péssima manhã, até chegar o final da aula, quando algo inesperado aconteceu.

Estava atravessando o pátio rumo ao portão de saída quando alguém chamou meu nome. Olhei para trás procurando por quem quer que tivesse me chamado e avistei Bruno acenando. Ele vinha em minha direção com Gustavo ao seu lado. Me senti apreensiva, mas sorri e esperei eles se aproximarem.

— Oi, loira! — cumprimentou Bruno me dando um beijo no rosto. — Indo pra casa?

— Não, vou almoçar aqui perto. — respondi quando ele se afastou. Para minha surpresa, Gustavo sorriu, se aproximou e também me cumprimentou com um beijo.

— Ótimo! Então você vai almoçar com a gente. Também vamos comer aqui perto.

— Não quero incomodar. E eu tenho que voltar daqui a pouco pras aulas de apoio, perdi bastante nota e to precisando recuperar.

— To pensando em começar a vir também. — disse Gustavo. — Com o vestibular chegando, to sentindo que todo tanto que estudo nunca é o suficiente.

— Pelo amor de deus, por que de repente todo mundo resolveu falar de vestibular? — reclamou Bruno. — E você não vai incomodar, Isa. Não aceito não como resposta. Só estamos esperando a Carol voltar da secretaria.

Carol? Carol também? Isso é loucura. Uma coisa é eles resolverem falar comigo do nada, outra é nós irmos almoçar juntos como se nada nunca tivesse acontecido. Só falta daqui a pouco Gabriel também se juntar a nós.

— Pronto, gente! — disse uma voz feminina. Era exatamente Carol se aproximando, tentando guardar um monte de papéis em sua mochila. Quando me viu ela sorriu abertamente e me cumprimentou.

— A Isa vai com a gente. — contou Gustavo.

— Que bom! Temos muita conversa para colocar em dia. — respondeu Carol ainda sorrindo.

Foi com isso que apesar de bastante envergonhada com toda a situação, eu acabei decidindo ir com eles. Nós caminhamos por alguns quarteirões enquanto eles conversavam animadamente e eu tentava apenas entender por quê haviam me convidado. Não podia negar que estava me sentindo desconfortável e deslocada, não porque eles estavam me deixando de lado porque não estavam, muito pelo contrário, tentavam me inserir em qualquer assunto que começassem. Mas porque eles são os amigos do Gabriel e eles sabem que eu e Gabriel jamais voltaremos a sequer conversar normalmente, então não tem sentido retomarmos nossa amizade. Eu quero muito, de verdade, ficar bem com todos eles novamente, porque sinto falta deles, porque gosto deles, porque eles foram as melhores coisas que aconteceram comigo esse ano. Mas as circunstâncias são claras e não haveria forma de fazer com que tudo voltasse a ser como antes. Porque eu e Gabriel, jamais voltaremos a ser os mesmos de antes.

Quando eles finalmente pararam de andar, estávamos em frente a um bar com uma pegada rústica, paredes marrons e mesas de madeira. Foi exatamente onde eles entraram e apesar do estabelecimento parecer bastante agradável e aconchegante, definitivamente não parecia um restaurante que serviria comida.

— Nós não íamos almoçar? — indaguei estranhando o lugar.

— Aqui tem uma porção de maia com queijo que é maravilhosa! — respondeu Bruno passando o braço sobre meu ombro e forçando um sorriso inocente. Foi aí que percebi que havia sido enganada e levada para um bar em plena quarta-feira a tarde. — E a vida está difícil demais para se negar um copo de cerveja gelada.

Apesar de ser 13h e saber que eu tinha de voltar para a aula em breve, Bruno tinha razão. A vida está difícil demais para perder a oportunidade de ficar bêbada num dia útil com os amigos. E faltar um dia em aulas que nem sou obrigada a ir não vai matar ninguém. Eu me rendi. Nós nos sentamos em uma mesa e pedimos um litrão para o garçom.

— Sabem o que eu estava pensando hoje enquanto o professor de Biologia falava alguma coisa sobre diferenciar as pirâmides de energia, biomassa e números? — disse Bruno enquanto servia nossos copos. Quando dei o primeiro gole em minha cerveja agradeci mentalmente minha decisão de acompanhá-los.

— Certamente não em aprender a matéria. — deduziu Gustavo.

— Não, não mesmo. — respondeu bruno. — Estava pensando que nós deveríamos fazer nossa própria festa de formatura. Além da que já vamos ter, claro! Fazermos uma festa para só nós amigos podermos comemorar que finalmente terminamos essa porra de Ensino Médio.

— É uma boa ideia! — disse Carol. — Podemos chamar o pessoal do colégio de quem ainda gostamos, se é que ainda gostamos de alguém, e nossos amigos de fora.

— Podemos fazer lá em casa. — ofereceu Gustavo.

— Mas é claro que será na sua casa! — exclamou Bruno. — Porque eu pensei em uma pool party! Piscina, música e bebida. Essa é possivelmente a melhor combinação de todas.

— Mas isso seria quando? — questionei. — Porque se não me engano nossas aulas terminam numa sexta e já viajamos na segunda.

— Vamos verificar... — anunciou Bruno pegando seu celular para olhar o calendário. — Devemos pegar nossas notas no máximo até dia 13, que dá numa sexta, e viajamos na segunda, dia 16. Podemos fazer na própria sexta depois da aula, descansamos no final de semana e depois partiu viagem.

— Por mim pode ser. — concordou Carol.

— Já vou falar com meus pais pra ficar combinado deles liberarem a casa pra gente. — disse Gustavo também concordando.

— Se não der pra ser na sua eu ia falar pra gente fazer na do Gabriel. — disse Bruno. — Mas com certeza até lá ele já deve ter mudado até dezembro.

Assim que Bruno tocou no nome de Gabriel, Gustavo pigarreou e Carol o lançou um olhar reprovador. Isso me deixou extremamente sem graça e envergonhada.

— Se for pra gente fazer isso é melhor vocês não agirem desse jeito toda vez que o nome do Gabriel for citado na minha frente, porque isso vai acontecer. — os repreendi e fingi indiferença. Felizmente eles riram. — Ele vai se mudar? — perguntei voltando minha atenção para Bruno e tentando fingir que aquilo não havia acontecido.

— Os pais dele estão se divorciando. Assim que o divórcio sair ele vai ir morar com a mãe e a Babi em outro lugar. — respondeu Bruno.

Ao ouvir ele dizer isso automaticamente me lembrei da minha última noite com Gabriel, antes do aniversário de Amanda, que apareci em sua casa de surpresa. Foi a própria Patrícia que me recebeu e me lembro dela dizer que teve algumas desavenças com o marido, que por acaso ela chamou de ex-marido. Estava tão preocupada com meus próprios problemas que nem dei atenção para isso.

— A Babi tá bem com tudo isso? — indaguei, percebendo que na verdade queria saber como Gabriel estava. Apesar de sua família ser definitivamente a família mais conturbada que já conheci e de saber que ele e seu pai não se dão bem, ás vezes uma coisa assim pode ser difícil de se enfrentar. — Divórcio geralmente é complicado pra crianças.

— Ah, a Babi é bem inteligente e esperta, ela tá lidando bem. — respondeu Carol.

— Que bom!

— Eu tava pensando em como ser rico é difícil, né. — Bruno começou a divagar. — No meio dessa coisa toda o Gabriel descobriu que um dos imóveis do pai dele tá no nome dele. Sabe o que meu pai vai me deixar de herança? Conta pra pagar.

— Nossa, tudo que eu queria era descobrir um imóvel no meu nome. — confessei. — Resolveria metade dos meus problemas.

— E quais são seus problemas? — indagou Gustavo se inclinando sobre a mesa.

— To querendo fazer faculdade em outra cidade, mas pra isso preciso de dinheiro.

— A gente podia tudo vazar nesse mundo, né? — disse Bruno. — Sei lá, se mudar pra Salvador! Viver de sol, carnaval e praia!

Era tudo que eu queria. Viver vendendo minha arte e das coisas que a natureza nos dá. Pena que nem arte eu sei fazer.

— E você vai deixar seu amor pra trás? — disse Carol num tom provocativo e com um sorrisinho no rosto. Olhei para Bruno bastante curiosa.

— Cala a boca! — resmungou Bruno.

— Você sabia que o Bruno conheceu uma garota, Isabelle? — insistiu Carol. — Tá levando ela pra sair e tudo!

— Não é nada disso que eles tão falando! — se defendeu Bruno. — Eu conheci a guria, ela é gata pra caralho, beija bem, mas é difícil pra porra! Aí levei ela pra sair pra fazer aquela moral, um barzinho topzeira porque eu sou esperto. Mas no final da noite ela me deu um beijo, pegou um taxi e foi embora, você acredita? Aí eu fiquei possesso! Saí com ela de novo porque eu não gastei meu dinheiro pra um beijo. E dessa vez deu certo, rolou uns amassos fodidos. Aí o que eu pensei? Na próxima vai rolar! Por isso que eu vou levar ela pra sair de novo!

Eu gargalhei porque era Bruno sendo Bruno e eu percebi que senti muito mais falta disso do que imaginava. Senti muito mais falta deles do que imaginava. Passamos o resto da tarde bebendo, colocando a conversa em dia e rindo de um jeito que só consigo quando estou com eles.

Infelizmente quando o dia começou a escurecer, decidi que era hora de ir embora. Se eu chegasse em casa tarde e bêbada ainda por cima minha mãe me mataria. Teria inclusive de rezar para chegar e não encontrá-la antes de tomar um banho e me livrar do cheiro de álcool.

— Você mora perto do Shopping Curitiba não é? — perguntou Carol.

— Sim. — respondi.

— Eu preciso passar lá, vou te fazendo companhia então.

— Ok.

Nós nos despedimos dos meninos e fomos. Apesar do dia ter sido bom e de estarmos bêbadas, o começo do caminho teve um silêncio um tanto quanto constrangedor. Acho que não ficávamos sozinhas desde o dia em que ela descobriu sobre mim e Gabriel.

— Sabe que eu senti sua falta? — disse Carol de repente.

— Eu também.

— Não, de verdade. A Luiza é minha melhor amiga, mas a gente geralmente se vê só nos finais de semana. Na maior parte do tempo somos só eu e os meninos. Quando você apareceu foi legal ter mais uma menina na roda e uma amiga pra compartilhar o dia a dia, as chatices da escola, aturar os meninos e tudo mais. Senti falta disso. Pensei em te procurar, mas lembrava que você devia estar com raiva de mim e por vergonha acabava deixando pra lá.

— Raiva de você? — questionei sem entender. Eu nunca estive com raiva dela ou dos meninos. Minha raiva era única e exclusivamente do Gabriel.

— É, por causa do Gabriel.

Continuei a encarando com uma expressão confusa e ela percebeu que eu realmente não entendi do que ela estava falando.

— Na noite da briga Gabriel contou que nós estavamos transando. — ela esclareceu. — E bem, como você gostava dele...

— Ah. — foi tudo que consegui responder. É verdade. Eu nem me lembrava disso.

— Em minha defesa eu só gostaria de dizer que ele distorceu as coisas, Isa.

— Relaxa, Carol. Você não precisa me explicar nada nem me dar satisfação.

— Preciso sim. Você é minha amiga. Nós não estávamos transando, nós transamos uma única vez e foi porque eu estava mal pelo meu término com o Gustavo. Nós saímos pra beber, ficamos bem loucos e o Gabriel consegue ser bem persuasivo quando quer.

Eu sei bem disso.

— Na hora eu estava me divertindo, sabe? — continuou Carol. — E não me parecia ser um problema, até porque eu e Gabriel começamos nossa amizade assim. Mas depois me bateu um puta peso na consciência e quando você veio me falar do Gustavo eu senti vontade de te contar e dizer “tudo bem, você acredita que eu acabei pegando o Gabriel?”, mas quando pensei em falar isso me veio à tona minha desconfiança quanto aos seus sentimentos por ele e fiquei travada, não tive coragem. Mas aconteceu uma vez e foi antes de você me confirmar que gostava dele, porque eu jamais faria isso tendo certeza disso.

— Tudo bem, sério. — a tranquilizei. Eu realmente não me importava com isso. Não tinha como Carol saber que nós estávamos juntos.

— Sabe, o Gabriel fez tudo parecer muito pior do que realmente era aquela noite. — disse Carol. — Ele falou e fez muita coisa propositalmente. Ele estava tentando fazer com que todo mundo sentisse raiva e se afastasse dele. Ele não é… aquele monstro. — Eu me lembrei automaticamente da conversa que tivemos, dele ter dito: “aquela noite tudo que eu fiz, disse e encenei foi porque eu não podia deixar margem pra perdão”. Aquilo tinha ficado na minha cabeça. — Enfim, acho que você não quer falar disso.

— Eu fui muito apaixonada por ele, Carol. — respondi sendo completamente sincera. — Ele me machucou muito. Mesmo que existisse uma justificativa, nada mudaria o que ele fez.

— Eu sei. Mas, ele também foi apaixonado por você, Isabelle. E o Gabriel não mentiria pra mim. Nem eu pra você.

Eu olhei para ela sem entender por que ela estava me dizendo isso e principalmente tentando assimilar que ela havia acabado de me dizer que Gabriel realmente foi apaixonado por mim, porque isso é uma coisa que eu simplesmente não conseguiria acreditar. Talvez eu não acreditasse em mais nada envolvendo ele.

— Eu só espero que algum dia vocês consigam ficar em paz um com o outro de novo. — completou Carol. — Ou pelo menos que sejam capazes de conversar abertamente sobre a verdade.

Eu sorri apenas para não ter de dizer nada e percebi que havíamos chegado em frente ao shopping.

— Nós nos vemos amanhã na aula? — ela perguntou. Eu concordei e nos despedimos. Mais uma vez naquela semana fui para casa com um milhão de coisas para pensar. Eu só queria desligar minha mente por alguns minutos.

Assim que cheguei em casa tomei um banho e deitei na minha cama. Acabei mandando uma mensagem para o Gustavo:

“Eu não tive a oportunidade de dizer, mas obrigada pela mensagem que me enviou quando todo aquele desastre aconteceu. Eu não respondi porque só a vi muito tempo depois, mas me deixou verdadeiramente grata. Conhecer você, o Bruno e a Carol foi um verdadeiro presente que a vida me deu. Uma das coisas que mais me deixaram mal foi pensar que eu perderia isso e hoje, eu me senti muito feliz. De verdade.”

Pouco tempo depois recebi sua resposta.

Gustavo Manzam: “O que depender da gente essa amizade só tem a crescer, Isa. Sentimos muito sua falta, todos nós. Então só volta pra gente, ok? Hahahaha Ainda temos muita aventura pra viver juntos.”

***

Se passou uma semana sem que nada mais de diferente ou inesperado me acontecesse. Graças a deus. Era quarta-feira de novo e eu estava no intervalo com Leticia e Vitor enquanto ela tentava me convencer de comemorarmos nosso aniversário juntas sendo que nem fazemos aniversário perto.

— Esse ano eu não to no clima de aniversário, Leticia. — disse pela milésima vez. — Esse negócio de ser o centro das atenções, de juntar todo mundo e ter que ser simpática. Deixa isso quieto. Comemoraremos só o seu mesmo.

— Mas você ama aniversário, Isa! Eu não vou deixar passar batido assim.

— Não vai passar batido, no dia vocês vão lá pra casa, a gente enche a cara de vinho, ri, fala besteira e pronto. Tá ótimo pra mim!

— Afff! — ela mais uma vez resmungou. — Mas então vamos conversar sério.

— Diga.

— Eu pretendo convidar a Amanda...

— E a Amanda vai levar o namorado. — completei já sabendo que ela tocaria nesse assunto. — Relaxa, Leticia. A gente consegue ficar no mesmo ambiente sem se matar.

— Eu posso pedir pra ela não levar ele se você quiser. — propôs Leticia. Eu fiz questão de olhar para ela e revirar os olhos, mesmo que no fundo era tudo que eu queria.

Seu aniversário seria naquela sexta e ela decidiu fazer uma reunião em casa. Eu me ofereci para ir ajudar a arrumar as coisas, mas ela disse que não precisaria. Por isso, fui no horário marcado para todo mundo. Assim que cheguei fiquei encantada. Para quem havia dito que seria só uma comemoração com os amigos mais próximos, a decoração tinha ficado linda. Sua mãe montou uma mesa com o bolo, alguns petiscos e muitos enfeites. Espalhou algumas mesas pela varanda para que o pessoal pudesse se sentar e preparou um mini bar com bebidas. Tudo bem simples, mas a cara da Leticia. Queria que minha mãe me conhecesse um terço do quanto a mãe de Leticia realmente a conhece e entende.

As primeiras pessoas a chegarem fomos eu e Vitor. Logo depois chegaram alguns amigos da sala de Leticia. Pedro e Leandro também apareceram e contaram que Arthur não viria por causa de Gabriel. Não o julguei, se não fosse por Leticia talvez nem eu apareceria. E falando em Gabriel, infelizmente ele apareceu, acompanhando Amanda, a Novata e Bruno. Felizmente Bruno veio até mim para me cumprimentar, assim não precisei fingir educação com os outros três. Infelizmente não sentamos juntos porque ele foi sentar com eles.

Não vou mentir dizendo que não me senti desconfortável com a presença de Gabriel, porque fiquei extremamente quieta na minha a partir do momento que ele chegou. Estar na mesma sala que ele todos os dias já é algo que me incomoda, mas estar no mesmo lugar que ele e Amanda me deixa quase claustrofóbica. Talvez porque Amanda faz tanta questão de mostrar que ele está com ela, que sinto medo de sequer olhar para o rumo dos dois e ela cismar comigo.

Pena que estava um pouco difícil não olhar. Gabriel estava absolutamente lindo. Seu cabelo está bem cortado, sua barba tá crescendo e ele definitivamente está mais forte. Bufei de frustração.

— Desembucha. — ordenou Vitor percebendo minha inquietação.

— Quando foi que esse desgraçado ficou tão gostoso? — realmente desembuchei e nem precisei citar nomes para que ele soubesse de quem eu estava falando.

— Ele sempre foi gostoso. — constatou Vitor e eu revirei os olhos. Ele sabe muito bem que eu estou me referindo a Gabriel estar mais musculoso do que era. — A Amanda não fala muito dele pra gente, o que eu acho um pouco estranho já que todos nós sabemos que ela é exatamente o tipo de pessoa que namorando só falaria do cara e nada mais, mas lembro dela ter dito algo sobre ele estar fazendo muito exercício físico. A psicóloga dele recomendou atividades que pudesse fazer ele esvaziar a mente e se sentir bem, aí ele tá indo pro parque correr, se exercitar, alimentar capivaras, algo assim.

— É, tá mesmo fazendo bem pra ele. — admiti, mesmo sabendo que eu deveria ficar calada. — Mas por que você acha estranho a Amanda não falar sobre eles? Ela deve se sentir desconfortável em falar disso com vocês por vocês também serem meus amigos.

— Não, eu não acho que seja isso. A impressão que tenho é que eles não tem o relacionamento mais feliz do mundo. Quer dizer, é estranho. Eles ficam juntos como um casal, ele tem paciência pra ouvir ela falar de todas as coisas fúteis que só a Amanda consegue falar, é atencioso e tudo mais, mas eu nunca vi ele dar um beijo apaixonado nela. Na verdade, acho que nunca vi eles darem um beijo que não fosse um selinho. E sei lá, tenho pensado que ela não fala justamente pra manter uma aparência de que tá tudo bem e feliz, sabe? Pelo menos é o que automaticamente a gente deduz.

Eu nunca parei pra pensar sobre como é o relacionamento de Amanda com Gabriel, porque não consigo sequer pensar nesse relacionamento. Mas de repente, isso não saiu mais da minha cabeça. Quanto mais o tempo passava e mais álcool eu bebia, mais eu ficava imaginando que tipo de coisa eles fazem juntos, se ela sabe tudo sobre Alice, sobre seu pai perturbado, se Patrícia gosta dela. E principalmente, se ele é tão apaixonado por ela quanto eu fui por ele, se ela consegue fazê-lo feliz mesmo com todos os problemas que eu sei que ele tem.

Era tão estranho vê-lo ali com Amanda e lembrar da gente. Lembrar de tudo que vivemos juntos. Quanto mais eu o olhava, mais eu lembrava da sua boca colada na minha e do gosto do seu beijo. Do seu corpo junto ao meu e do frio na barriga que eu sentia quando suas mãos entravam sorrateiramente por debaixo da minha roupa e passeavam por minha pele. Do quão boa era a sensação de sentir seus olhos me olharem com desejo quando ele tirava minha roupa. De como eu sentia uma mistura de vergonha com tesão com todas as baixarias que ele gostava de me dizer. De como eu sentia que ele poderia realmente fazer o que quisesse de mim enquanto transavamos. E principalmente, de como eu me sentia tão leve e segura quando adormecia nos seus braços. É estranho pensar que agora é Amanda quem sente todas essas coisas que eu costumava sentir. Me peguei por um breve momento de inveja, desejando só por uma noite poder reviver tudo isso.

Antes que eu acabasse enlouquecendo ou fizesse alguma merda, voltei a interagir com a roda e principalmente com Leticia. Funcionou por um tempo, mas não muito. Acabei olhando mais uma vez para Gabriel e dessa vez o flagrei me olhando. Foi só nossos olhares se cruzarem que senti meu estômago se revirar.

Eu virei o resto da cerveja que estava no meu copo e me levantei da mesa depressa na intenção de ir até o banheiro. Não queria fazer xixi, queria apenas respirar. Foi quando estava no banheiro que percebi que já estava bêbada e muito. Minha coordenação motora já não estava das melhores e meus olhos estavam vermelhos. Ri sozinha pensando que Amanda ao contrário de mim consegue ficar plena até o último segundo do rolê. E falando em Amanda, eu nem imaginava tudo que aconteceria no momento em que eu saísse do banheiro.

Assim que abri a porta dei de cara exatamente com a pessoa que estava perturbando minha mente. Gabriel. Praguejei mentalmente, mas não consegui me mover muito menos ir embora. Me encostei na soleira me permitindo por alguns segundos poder olhá-lo sem me repreender ou me sentir culpada. Ele também não se moveu. Queria perguntar se ele havia me seguido até ali, porque não parecia uma simples coincidência, mas a pergunta que saiu da minha boca foi outra.

— É bom? — questionei impensadamente.

Ele franziu a testa mostrando confusão.

— O que? — indagou Gabriel.

— É bom transar com ela? É melhor do que era comigo?

Ele ficou em silêncio, provavelmente sem saber o que responder. Nem eu acreditei que havia de fato dito aquilo em voz alta. Foi então que outra pessoa resolveu responder por ele.

— Provavelmente não já que ele já disse seu nome enquanto transava comigo. — disse uma voz feminina próxima a nós. Me assustei ao olhar para o lado e ver Amanda nos observando. Eu não tinha a visto chegar. Fiquei tão envergonhada que meu rosto automaticamente corou e senti vontade de ir embora correndo. Como eu não poderia fazer isso, minha reação automática foi apenas abaixar a cabeça e seguir pelo corredor até o quarto de Leticia.

Assim que entrei procurei por qualquer coisa para me sentar, o que acabou sendo a cama de Leticia. Queria afundar minha cabeça dentro de um buraco no chão e nunca mais a tirar de lá de tanta vergonha que estava sentindo. Estava prestes a resolver passar a noite inteira ali escondida, quando Amanda também entrou no quarto. Cheguei a prender a respiração. Ela se sentou ao meu lado, mas demorou para que tivesse a atitude de dizer algo.

— Posso te fazer uma pergunta. — pediu Amanda. Eu apenas assenti. Ela poderia me pedir qualquer coisa. — Aquele dia que o Gabriel foi até sua casa tentar conversar, quando você tentou me alertar no colégio, o que você disse pra ele?

— Muita coisa, por que?

— Você disse que só o perdoaria algum dia se eu o perdoasse?

— Sim. — respondi. Essa sempre foi minha prioridade. Sempre me preocupei mais em vê-la superar toda aquela situação do que em eu mesma superar. No mesmo instante ela tombou a cabeça para trás, fechou os olhos e vi uma lágrima descer por seu rosto. Eu não entendi o que estava acontecendo.

— É por isso que ele está comigo. — ela esclareceu com a voz baixa e trêmula. — Ele não está comigo porque gosta de mim, ele só está tentando concertar toda a merda que fez. É tão óbvio! Ele só está me fazendo feliz porque sabe que é isso que você quer. Ele não está fazendo isso por mim, ele está fazendo isso por você. Eu deveria ter entendido tudo antes. Nós não somos um casal. Ele se esforça e faz coisas por mim, mas eu percebo que ele não está verdadeiramente feliz. Ele não me beija com a mesma vontade que eu beijo ele. Ele nem sequer me deseja como me desejava antes.

Eu não sabia como responder, porque nem sequer fazia sentido para mim o que ela estava falando. Acabei optando por permanecer calada, mas então de repente, ela desabou. Amanda começou a chorar na minha frente, coisa que poucas vezes a vi fazer.

— Eu não aguento mais isso, Isabelle. Até quando vocês vão ficar envolvendo outras pessoas nisso? Você acha que pra seguir em frente é só colocar um ponto final em tudo, mas você nunca vai colocar um ponto final antes de concluir essa história. Vocês estão andando em círculos. Você anda e anda e anda, mas nunca vai chegar a lugar algum, porque você sempre volta pro ponto de partida. Vocês nem sequer querem colocar um ponto final nisso de verdade, então por que vocês não ficam logo juntos?

— Do que você tá falando, Amanda? — tentei a acalmar. — Ele nem gosta de mim, ele gosta de você. Ele tá contigo. Ele escolheu você.

— Ele tá comigo por você, Isabelle. Porque ele gosta de você! Eu não sei como você não percebe isso, até o jeito que ele te olha é diferente. Parece que você fecha os olhos pra verdade de propósito. O Gabriel foi um filho da puta com a gente? Foi. Mas aconteceu. Em algum momento aconteceu. Ele aprendeu a gostar de você de verdade e não é pouco.

— Ele não gosta de mim! O Gabriel é um filha da puta e sempre vai ser!

— Chega. Pra mim deu. — disse Amanda tentando limpar suas próprias lágrimas. — Sejam felizes, mas por favor, não envolvam mais pessoas nisso. Resolvam sua própria bagunça.

— Amanda, para. — pedi. — Eu não quero brigar.

— Eu não to brigando, Isa. Eu to fazendo o que já devia ter feito há muito tempo. As coisas nunca estiveram tão claras pra mim quanto estão agora. Não dá mais, eu vou terminar com ele hoje.

— Não faz isso, por favor. Não faz isso por minha causa. — supliquei. Quando percebi já havia começado a chorar. — Eu juro que nunca quis trazer problema pra vocês. Nunca quis trazer problema pra ninguém.

Amanda suspirou, se virou pra mim e segurou minhas mãos.

— Eu não vou fazer isso por você, Isa. Eu vou fazer isso por mim. Eu mereço alguém que goste de mim de verdade e não alguém que esteja comigo por remorso. Eu não estou brava contigo muito menos chateada. Não estou chateada nem mesmo com Gabriel. Estou chateada apenas comigo mesma por ter demorado tanto pra perceber o fardo que eu sou na vida de vocês dois. Eu tentei me iludir de que conseguiria fazer ele gostar de mim como eu gosto dele, mas eu só to me fazendo de trouxa e eu não mereço isso. Ás vezes a gente tem que aceitar que desistir da luta pode ser melhor do que perder todas as forças nela.

Eu queria dizer que ela não é um fardo e que nunca foi, queria dizer qualquer coisa, mas não conseguia. Minha voz não saia.

— Agora, por favor, só vamos voltar lá e fingir que nada aconteceu, ok? — terminou Amanda. — A gente já trás problema demais pra Leticia nos dias normais.

Eu sabia que não conseguiria dizer ou fazer mais nada, então apenas concordei. Amanda me deu um beijo na testa e saiu, me deixando ali chorando. Eu não sei por mais quanto tempo chorei, mas foi até eu conseguir aliviar um pouco da culpa que estava sentindo e até eu me tocar que se demorasse demais ali uma hora Leticia apareceria me procurando, então usei suas próprias maquiagens para disfarçar ao máximo minha cara de choro e voltei para a festa.

Gabriel não estava mais lá, nem Bruno. Eu não sei o que Amanda disse para Leticia, mas ela com certeza inventou alguma desculpa. E nós, prosseguimos o resto da noite com um sorriso no rosto sem deixar Leticia perceber nada. Cantamos parabéns pra ela, fizemos ela beber até começar a enrolar a própria língua na hora de falar, nos esforçamos para que ela se divertisse ao máximo e fomos as últimas a ir embora. Quer dizer, Amanda foi. Eu fiquei. Ainda tinha uma coisa importante para fazer.

Assim que Amanda se foi eu fui até o quarto de Leticia e busquei o presente que havia comprado para ela. Era uma caixa de veludo pequena que ela segurou curiosa.

— A gente sempre se dá presentes, então pensei que eu poderia te comprar qualquer outra coisa em qualquer outro dia. Esse foi um ano crucial pra eu conseguir entender como meus amigos são importantes pra mim e principalmente como você é importante pra mim. — desabafei. — Por isso dessa vez resolvi te comprar algo simbólico. Algo que te fizesse lembrar de mim.

Assim que ela abriu a caixinha encontrou o pingente de ouro que eu e minha mãe mandamos fazer. Em formato de coração, ele se abria e quando aberto relevava a primeira foto que tiramos em toda nossa vida, ainda crianças, descabeladas, usando roupas ridículas, mas sorrindo abertamente. Uma foto tirada em uma câmera ainda analógica. No começo de toda nossa amizade.

— É pra você me levar sempre com você. — completei.

Eu não esperava que ela fosse chorar, mas ela chorou. E me puxou para um longo abraço apertado.

— Obrigada, Isa. — ela agradeceu emocionada. — Eu te amo muito.

— Eu também te amo, Lê. Feliz aniversário!

Quem visse aquele presente pensaria que era algo muito simples e talvez realmente fosse, mas se tem uma coisa que ficou evidente para mim é que minha amizade com Leticia é a coisa mais importante que tenho nessa vida. E eu queria que ela se lembrasse disso, todos os dias.

Ainda naquela noite mandei uma mensagem para meu pai dizendo que decidi ir para a fazenda com ele, eu precisava de um momento só pra mim. E eu fui, passei o fim de semana todo tentando colocar meus pensamentos em ordem, pensando em tudo que já aconteceu e tudo que tem acontecido. Pensei em absolutamente cada coisa que passei durante esse ano. Sobre mim, sobre Gabriel, sobre Amanda, sobre Vinícius, sobre todos os meus amigos. Mas foi voltando para casa no fim da tarde que acabei tomando uma decisão.

No som do carro tocava The Messenger do Linkin Park. O vento gelado batia em meu rosto e bagunçava meu cabelo. Coloquei minha mão para fora da janela e brinquei com o ar. Enquanto a melodia me embalava, pensei em todas as lições que tenho tentado desesperadamente aprender com a vida e de como tenho tentado me encontrar. Parece que por mais que eu tente não estou seguindo pelo caminho correto, não tenho conseguido me distanciar do passado. E pensar nisso me fez lembrar do que Amanda havia me dito. Eu estou andando em círculos.

Sem me permitir pensar duas vezes, fiz o que acreditei que precisava fazer. Peguei meu celular e mandei uma mensagem clara e objetiva para Gabriel.

“Daqui 1 hora, naquela praça. Nós precisamos conversar.”

Assim que cheguei em casa, apenas troquei de roupa e saí. Senti medo de que qualquer minuto a mais pensando me fizesse desistir. Só a ideia de estar cara a cara com o Gabriel, só nós dois, para conversar sobre tudo que nos aconteceu me deixava em pânico, eu não sabia sequer como reagiria ao vê-lo, até porque existia a opção de ele não aparecer. Mas quando cheguei na praça e me encaminhei para a arquibancada onde sabia que ele me acharia, ao longe pude o ver já sentado me esperando. Minha pressão caiu, meu estômago se embrulhou e minhas mãos começaram a tremer. Tive de ser forte para fazer com que minhas pernas continuassem andando até ele.

Quando me aproximei ele deu um meio sorriso e eu retribui. Me sentei ao seu lado, distante o suficiente para conseguir enxergar seu rosto, queria olhar em seus olhos enquanto aquela conversa acontecesse.

— Fiquei surpreso com sua mensagem. — admitiu Gabriel.

Sem delongas, eu resolvi ir direto ao ponto.

— Eu quero saber de tudo. — pedi.

Ele respirou fundo, ajeitou sua postura e começou a falar. A contar nossa história desde o começo.

— Acho que tudo começou no ano passado, na feira de ciências do segundo ano. — contou Gabriel. — Quando eu fui até sua sala ver a exposição dos projetos de vocês, você me chamou a atenção. Eu te achei muito bonita e fiquei sem entender por que eu nunca tinha te notado antes. Porque todo mundo se conhece naquele colégio e obviamente eu já tinha te visto por aí, mas eu nunca tinha parado pra reparar você.

“Eu fui até a mesa de vocês com todo um plano arquitetado de pedir para que você me explicasse o projeto e assim eu conseguisse puxar assunto, mas o que aconteceu não foi bem isso. Quando eu cheguei até a mesa você não me notou, muito pelo contrário, você estava conversando animada com o cara do seu lado e então vocês deram um selinho. Eu fiquei muito decepcionado porque achei que ele fosse seu namorado e eu não mexeria contigo sabendo que você estava com alguém. Hoje eu sei que era apenas o Pedro, seu amigo, e que vocês só ficavam. Na mesma hora quem falou comigo foi Leticia e bem, eu já estava ali.”

— Foi o dia que vocês se conheceram. — lembrei e ele apenas assentiu. Eu me lembrava perfeitamente disso, mas eu sabia outro lado da história. Tanto eu quanto Leticia sempre soubemos quem o Gabriel era por ele sempre ter sido popular, mas ela o achava extremamente bonito e quando sua amiga declara que quer um cara, você automaticamente o descarta como opção e ele deixa de ser interessante para você. Foi o que aconteceu, eu nunca me permiti reparar direito no Gabriel porque ela o queria. E nesse dia, ela me falou um monte sobre como eles haviam se conhecido e que ele havia flertado com ela. Foi assim que eles acabaram ficando em uma festa. — Ela me disse que no dia que vocês ficaram você contou que tinha ido saber do projeto só como desculpa para conhecê-la. Mas você não foi lá conhecer ela...

— Eu fui pra te conhecer. — completou Gabriel. — Eu só disse isso porque se eu não tinha chance com você pelo menos teria com ela. Até porque ela estava claramente afim e ela também é muito bonita. Foi assim que eu acabei ficando com a Leticia, mas eu ainda estava muito intrigado quanto a você. Eu comecei a te notar mais depois disso, te via no intervalo ás vezes ou na porta do colégio esperando seus pais irem te buscar. Até sondei um menino que era da sua sala e que eu conhecia para descobrir mais sobre você. Ele me contou seu nome, que o Pedro não era seu namorado, que as pessoas geralmente gostavam muito de você, mas que você era bem fechada com seu grupo de amigos e bem encrenqueira. — ele riu sozinho. — Disse que você era calma na maioria do tempo, mas que nunca levava desaforo pra casa e por isso vivia arranjando problema que te levava pra diretoria. Por ironia do destino foi isso que te colocou de vez na minha vida.

“O ano acabou e quando as aulas começaram você entrou na sala. Eu fiquei verdadeiramente surpreso e sem reação. Foi quando eu finalmente tive minha chance de tentar algo contigo, mas por puro azar eu tinha conhecido a Amanda semanas antes e a gente estava ficando casualmente. Pra mim não era nada sério, até porque eu não queria ficar sério com absolutamente ninguém. Eu estava só me divertindo e ela estava bancando a desapegada, então me pareceu tudo ok. Ela virou essas ficadas de balada, sabe? Aquela pessoa que você sabe que sempre vai estar no rolê e que você acaba beijando.”

“E bem, a primeira coisa que eu quero que você entenda é que me aproximei de ti porque eu já estava interessado em você fazia tempo, não foi com nenhuma outra intenção. Nós começamos a conversar, você era divertida, se deu bem com meus amigos que por acaso nem sabiam que eu te queria e aí acabou que você se aproximou da minha turma. Isso não estava nos meus planos, até porque isso era uma coisa ruim pra mim. Eu sabia que se você virasse amiga dos meninos eles não me deixariam ficar contigo. Aí aconteceu a festa que ficamos pela primeira vez.”

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“Aquele dia você mexeu muito comigo, eu resolvi te beijar e você correspondeu. Só que então aconteceu toda aquela coisa com a Leticia. A forma com que ela ficou nervosa comigo me fez entender que a Amanda estava levando a sério o que tava rolando entre a gente, mas depois que eu e você ficamos eu fiquei ainda mais atiçado quanto a você. Apesar de eu ter te achado uma garota legal desde o começo, a gente não se conhecia direito até então, naquele momento minha atração por ti era exclusivamente física. Usando toda sinceridade do mundo, eu te achava gostosa e te queria muito. E já tinha sido gratificante ficar contigo depois de tanto tempo te querendo, quando eu descobri que você beijava bem, eu fiquei com muito tesão em ti e o fato de quase termos ido pra um quarto ou qualquer coisa do tipo naquela noite me fez perceber que você também tava com tesão, então por que não insistir?”

“Acabei te procurando no dia seguinte e aquele dia na casa do Gustavo eu me diverti muito, eu bebi muito e eu te contei sobre Alice. Foi a primeira merda que eu fiz. Eu nunca tinha contado sobre Alice para alguém que não fosse meus amigos. Mas eu tinha tido problemas em casa recentemente, aquilo estava rondando a minha cabeça, eu estava verdadeiramente bêbado e você tem uma coisa que eu não sei explicar, de alguma forma eu senti que podia confiar em você. Obviamente quando o álcool passou eu me arrependi amargamente, mas eu sabia que você não contaria pra ninguém.”

“Até então era isso, você era uma garota que eu estava paquerando e pronto, não havia nada de errado nisso. Mas aí tudo mudou quando te vi com o Arthur. Eu tinha muita raiva dele na época por tudo que já tinha acontecido entre eu, ele e Bianca. Ao descobrir que vocês já tinham tido um rolo e que ele se importava com você, tive minha primeira atitude de babaca: percebi que eu podia conseguir duas coisas numa tacada só, você e irritar ele. Mas você começou a me ignorar do nada e eu tava determinado, resolvi aparecer na sua casa bêbado pra ver no que dava e naquela noite, na mesma noite em que eu descobri que o que rolou entre você e o Arthur tinha sido muito mais sério do que eu imaginava, você me fez acreditar que a gente transaria e caiu fora de última hora me deixando frustrado e excitado. Eu não conseguia entender se você tava se fazendo de difícil ou se você ainda gostava do Arthur, mas qualquer que fosse a opção certa eu entendi que você não ia se entregar fácil, eu teria que te conquistar. Foi aí que você acabou virando um desafio pra mim. Mas mesmo que eu te quisesse, eu não tava afim de parar minha vida por sua causa e com a Amanda tudo tinha sido muito mais simples e fácil, ela me queria e queria sexo, então por que não ficar com as duas ao mesmo tempo? É completamente normal pessoas solteiras estarem ficando com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Só que por vocês serem amigas eu sabia que se uma soubesse da outra eu poderia acabar ficando sem as duas, então eu decidi que esconderia as coisas. Eu comecei a mentir pras duas. E nunca mais consegui parar.”

“Apesar de até então minhas intenções não serem propositalmente ruins, parecia que a vida tava brincando com a nossa cara. Na primeira festa que nós fomos depois disso acontecer, foi a festa em que eu saí nos murros com o Arthur e você o beijou. Eu fiquei possesso. Se eu já tinha raiva dele, minha raiva triplicou. Naquele dia, Isabelle, eu decidi que não tava nem aí se você e Amanda eram amigas, se eu realmente gostava do tempo que passava contigo ou o que quer que fosse. Naquele dia eu decidi começar a jogar. Eu ia ser o cara mais legal do mundo pra te convencer a transar comigo e depois cair fora. Mas você sempre foi tão você e no dia seguinte, quando minha raiva já tinha passado e nós fomos na casa de sua avó, você me disse coisas que me fizeram repensar minha vida inteira. Você tem uma mania de ser extremamente sincera e doce e incrível que me fez perceber que eu não conseguiria fazer aquilo com você, não com você. Eu fui embora pelo seu bem e apareci no colégio no dia seguinte determinado que poderíamos ser amigos. Mas acontece que eu já tava envolvido e nem percebi.”

“Poucos dias depois eu estava num bar com Bruno e meu irmão e recebi uma mensagem sua perguntando onde eu estava, me lembro de ter mentido que estava em casa para saber o que você queria. Eu queria te ver e se você tivesse me chamado pra fazer qualquer coisa eu provavelmente teria ido embora do bar pra te encontrar. Depois descobri que você tinha me visto, tinha me visto com uma menina e tinha ficado com ciúmes. Também me lembro de ter me divertido com isso. Mas você ficou verdadeiramente puta, porque não queria nem falar comigo. Aí aconteceu a noite que você resolveu bancar a popstar no pub. Eu esperava tudo, menos que você fosse ficar com o Bruno. Eu fiquei com muita raiva. De você, do Bruno, de todo mundo. E sabe por que? Porque eu estava com ciúmes. Você queria ir embora com ele e queria transar com ele. E eu ficava mais puto a cada segundo que imaginava vocês dois transando. Eu não ia deixar isso acontecer nem se eu tivesse que sair nos murros com o Bruno, até porque você estava muito bêbada e eu não te deixaria ir embora com cara nenhum naquela situação. Eu te levei embora e pra variar, nós brigamos. Dessa vez por causa de Alice. Você basicamente me disse que eu deveria parar de agir como se eu tivesse morrido junto com ela e começar a viver, porque é o que ela queria. Eu fiquei com muita raiva porque eu já tava cansado de saber disso, mas não era algo simples e fácil pra mim. Nunca foi.”

“Eu nunca gostei de quando você falava da Alice, tinha medo de que quanto mais você se aproximasse de mim, mais seria difícil pra mim me desvincular de você. Porque por algum diabo de motivo eu queria estar com você. O que era um problema já que durante todo esse tempo que passamos sem ficar eu continuei transando com Amanda.”

“No domingo eu tive mais uma das recorrentes brigas com meu pai e passei a noite pensando em uma caralhada de coisas, tudo que eu queria era passar um tempo longe de tudo e de todo mundo. Um tempo sozinho. Era meu plano pra segunda depois da aula e naquele dia você estava chateada com Amanda por causa de uma coisa que ela costumava fazer com muita frequência e que me irritava bastante, que era sempre tentar parecer superior a você. Acabou que eu resolvi te incluir nos meus planos e te levei pra sair comigo. Nós almoçamos no pizza hut, fomos até minha loja de discos preferida e acabamos no Jardim Botânico. Me lembro perfeitamente daquele dia, porque me lembro de me sentir bem e em paz. Eu costumava sentir muito isso quando estava com você.”

“Aquela noite eu te beijei porque senti muita vontade. O que eu não esperava é que você fosse me cobrar alguma coisa. No dia seguinte quando ficamos de novo você insistiu em querer saber o que estava rolando entre a gente. Foi aí que surgiu o problema. Primeiro que mesmo que eu quisesse te beijar mais vezes, eu não queria assumir nada com ninguém, nem mesmo só estar ficando. Segundo que se fosse pra começar a realmente ficar contigo eu teria que ser honesto sobre Amanda e você provavelmente ficaria puta e não se envolveria mais comigo. Terceiro que se a própria Amanda descobrisse surtaria e eu também não queria dar um fora nela, talvez porque eu pensava que todo aquele rolo com você ia acabar em algum momento, nós poderíamos continuar amigos e eu poderia continuar ficando de boa com Amanda ou talvez porque sendo sincero houve muitos momentos em que eu gostava da sensação de saber que eu tinha as duas. Foi quando pedi segredo sobre nós, se ninguém soubesse de nada ninguém estragaria nada e poderíamos fazer o que quiséssemos. Até porque, eu não vou mentir que eu queria muito tarnsar contigo. Inclusive, eram os meus planos pra festa do Renan.”

“E sabe o que eu acho engraçado? O quanto você é imprevisível. Me lembro perfeitamente de ter deixado claro minhas intenções contigo para aquela festa e o que você decidiu? Que seria babá do seu irmão mais novo e da menina mais introvertida da sala. Porém, independente das coisas não terem corrido como eu queria, aquela festa foi algo realmente marcante pra mim. Dentre todas aquelas loucuras que nós fizemos e que eu ainda não sei como não fomos presos, aconteceu aquele desastre com o meu pai. Aquele dia foi muito complicado pra mim. Muita coisa voltou a tona. Eu me senti muito perdido, humilhado, desesperado. E você tava lá do meu lado. Você nunca saia do meu lado. E ao mesmo tempo que eu queria gritar pra você me deixar em paz no meu próprio mundo porque você não fazia ideia de nada pelo que eu passava, eu não queria que você fosse porque eu me sentia melhor com você. Eu queria ser melhor com você. Eu percebi isso aquela noite. Eu percebi porque naquela noite eu senti ciúmes de você com Arthur, eu me senti inseguro e senti medo de te perder pra ele. Principalmente porque minha ficha caiu de que você nunca mais olharia na minha cara quando soubesse que eu estive aquele tempo todo iludindo você e Amanda.”

“Foi por isso que eu te perguntei, na casa do seu pai, deitado ao teu lado, na noite em que transamos pela primeira vez, se alguém já tinha feito algo tão ruim a você que te fizesse desistir dela, eu estava perguntando se você desistiria de mim, porque naquela noite eu tinha conseguido o que eu queria e eu nunca me senti tão mal em toda minha vida. Naquela noite eu não transei contigo por todos os motivos do início de tudo, eu transei contigo porque tudo que eu queria naquele momento era você.”

“Mas quando eu voltei pra casa eu não tenho como explicar o inferno que eu vivi. Eu briguei tão feio com meu pai, ele me falou tantas coisas que eu não queria ouvir e de repente lá estava eu de novo, sem me importar, porque ninguém se importava comigo. Parecia que constantemente a vida queria jogar na minha cara que viver é um ciclo sem fim sobre magoar e ser magoado. Também briguei feio com meu irmão por sua causa. Ele jogou muita coisa na minha cara, sobre o quão fodido eu sou e sobre o quão inocente você era. Jogou na minha cara que você não ia resolver meus problemas e minha vida, eu é quem ia foder com a tua. E por isso mandou eu dar um jeito de resolver isso e sumir da tua vida. Eu desapareci por dias porque eu não conseguia olhar pra cara de ninguém, quebrei metade do meu quarto no soco, machuquei feio minha mão. E principalmente, pensei muito em nós dois. Percebi que meu irmão tava certo e chorei muito pensando que eu tava te envolvendo naquela bagunça, na minha bagunça. Mas eu não queria me afastar e eu sabia bem o por que, foi quando por desespero comecei a tentar me convencer de que eu não sentia nada por ti. Como? Ao invés de ser sincero com você, eu insisti na merda de ficar contigo e Amanda. Porque toda vez que eu sentia que estava tendo uma recaída, eu ia lá e transava com a Amanda. Isso não deu nem um pouco certo, porque…”

Ele parou de falar por um instante e de repente me olhou no fundo dos meus olhos.

“Eu não sei quando ou como exatamente aconteceu, porque não foi uma coisa da noite pro dia, mas aconteceu... No meio desse caminho eu me apaixonei por você, Isabelle. Eu queria estar contigo. Eu queria fazer coisas que te deixavam feliz. Eu gostava de fingir que se não fosse por todo o resto do mundo eu poderia me permitir gostar de você e ter algo de verdade contigo. Eu gostava de quando estávamos só nós dois e eu fingia pra mim mesmo que não tava fazendo a pior merda da minha vida.”

“Foi tudo piorando quanto mais você descobria sobre mim, porque você não desistia de mim e eu não conseguia entender por que. Eu sabia que precisava te afastar, mas eu precisava ainda mais de você. Você foi minha sanidade em tantos momentos que eu não sabia mais o que seria de mim se você não estivesse lá. Mas quanto mais você fazia por mim, mais eu me odiava e mais eu enlouquecia, mais eu pensava que eu não queria te magoar. Mas se eu te contasse a verdade, você não me perdoaria. Era tudo muito instável. Momentos felizes, momentos de remorso, momentos de raiva. Contar a verdade e te ver me odiando pra sempre? Não contar e continuar surtando? Tentar fingir pra mim mesmo que se eu ignorasse meus sentimentos conseguiria sair dessa de boa? Eu não sabia o que fazer e foi por isso que eu prossegui nessa merda até o final. Principalmente porque negar pra mim mesmo meus sentimentos e tentar me convencer de que você não significava nada ainda me parecia a melhor opção. Eu precisava fazer isso porque eu não suportaria, Isabelle. Eu não suportaria admitir pra mim mesmo que eu tinha feito tudo que eu fiz com a única pessoa que viu vida em mim.”

“O ápice de tudo foi no dia do meu aniversário. Eu repensei tudo que me aconteceu, tudo que eu fiz. Foi naquele dia que eu finalmente assumi pra mim mesmo todos os sentimentos que eu tinha por você. E eu não te merecia, Isabelle. Eu não merecia meus amigos. Eu não merecia estar aqui. Eu não aguentava mais meu pai, não aguentava mais minha mãe e não aguentava mais carregar toda minha responsabilidade com Babi. Não aguentava mais fazer tanta merda e só tomar as decisões erradas. Eu surtei e tentei suicídio porque eu precisava acabar com tudo. Eu não queria mais, eu precisava.”

“Não deu certo e mais uma vez eu te fiz passar por algo que você não merecia. Me lembro de que quando você me visitou no hospital, você decidiu me deixar e eu sabia que já tinha te machucado o suficiente, então pensei que se eu apenas te deixasse ir, talvez você não precisasse saber de nada, talvez você não precisasse se machucar mais. Mas eu não consegui. Não consegui te deixar ir. Porque quando o Vinícius apareceu eu não conseguia imaginar você com outro cara sem ficar mal. Eu tentei colocar na minha cabeça que qualquer cara te merecia mais do que eu, mas não adiantava. Então eu fui atrás de você, mas determinado que daquela vez seria diferente.”

“Eu decidi que te contaria tudo, estava só esperando o aniversário de Amanda passar, porque não queria estragar aquele dia pra vocês. Eu sabia que seria um dia importante. Mas as coisas começaram a sair do controle. Carol descobriu sobre nós e você não tem noção de como nós brigamos feio, porque ela sabia que eu estava ficando com Amanda. Ela me pressionou e disse que se eu não contasse, ela contaria. Foi aí que comecei a te evitar. Eu sabia que precisava conversar contigo logo, mas não sabia como. Eu tava tão apavorado que não conseguia comer, não conseguia dormir, não conseguia fazer nada. Eu queria tentar não estragar mais ainda as coisas, porque eu ainda tinha esperança de não te perder, mas a verdade é que eu já tinha estragado tudo e há muito tempo. Foi então que aconteceu tudo da pior maneira possível. Eu já tinha parado de ficar com Amanda desde o meu aniversário, mas naquela noite, na noite do aniversário, ela me procurou chorando, dizendo que era apaixonada por mim, pedindo pra eu não deixar ela. Ela tava muito mal e eu sabia o quanto ela tinha se esforçado pra fazer com que aquela festa fosse perfeita, a Amanda sempre quis que tudo fosse perfeito. Eu não sei o que se passou pela minha cabeça, mas eu queria que ela ficasse bem e achei que se ficasse com ela apenas mais uma vez, antes de tudo ser esclarecido, não daria em nada. Afinal a merda já tava feita. Mas aí, bem, você nos viu. E o resto você já sabe.”

“Eu só sei que quando eu olhei nos seus olhos e vi toda a decepção, mágoa e raiva que eles passavam, meu mundo desestruturou. Eu perdi toda e qualquer esperança que tinha de tentar conversar, me explicar e me desculpar. Não tinha volta e não tinha concerto. Dali pra frente eu só tentei ser o mais babaca possível pra que eu conseguisse afastar todo mundo e nunca mais fizesse mal pra ninguém. Era o mínimo que eu merecia. Por isso eu disse todas aquelas coisas, por isso fiz tudo aquillo..”

“Eu sei que te pedir perdão é muito, eu sei que te pedir pra esquecer tudo é algo que eu nem sequer posso. A única coisa que eu posso te pedir é pra acreditar em mim quando digo que o que senti por você é real e infelizmente na vida real as coisas não funcionam como a gente quer. Eu sou um cara traumatizado pela vida, com uma família problemática, um passado que tento esquecer e muitos problemas psicológicos, um cara ainda imaturo que achou por muito tempo que não ter sentimentos era a melhor saída e brincou com o sentimento de muita gente, inclusive os seus. Nada justifica minhas atitudes e eu sei, eu tenho plena consciência disso, mas não dá pra eu voltar atrás e concertar tudo. Não tem como eu mudar ou apagar todas as decisões erradas que tomei. Só me resta pedir desculpa por ter te envolvido em tudo isso. Essa é a vida real e eu ainda não aprendi a lidar com ela, mas eu to tentando de verdade começar a acertar.”

O que se seguiu foi um completo e absoluto silêncio. A única coisa capaz de se ouvir talvez fosse o barulho do vento mesclado ao barulho das pessoas ao longe, conversando, rindo e se divertindo tranquilamente. Ali, naquela arquibancada, ficamos eu e Gabriel olhando pro horizonte. Cada um perdido em seus próprios pensamentos, chorando quietos e em absoluto silêncio.

Notas finais
Obrigada a quem ainda está lendo. Amo vocês!