Poltrona 19
48 Depressão
Notas iniciais
Levantar daquele chão foi uma das coisas mais difíceis que já tive de fazer. Mas apoiei minhas mãos na calçada e com o corpo trêmulo, me reergui. Continuei caminhando descalça, sentindo o chão gelado sob meus pés. Só então percebi que minha bolsa havia ficado para trás, com todas as minhas coisas. Eu não tinha dinheiro para pedir um taxi, não tinha um telefone para pedir por ajuda. Não tinha nada. Minha casa era longe e aquela hora qualquer caminho seria perigoso, mas eu não conseguiria voltar e encarar tudo de novo. Por isso assumi o risco.
Eu não parei de chorar por um sequer segundo, porque me parecia impossível. Estava com frio e terrivelmente assustada. Abracei meu próprio corpo todas as vezes em que vi alguém estranho e chorava um pouco mais quando carros buzinavam para mim ou homens grotescos assobiavam. Em um certo momento um desses imbecis diminuiu a velocidade e começou a mexer comigo, senti tanto medo de que algo me acontecesse que quase travei no lugar, mas meu instinto me fez continuar andando na tentativa de fugir. O cara só me deixou em paz quando pareceu ter percebido meu estado.
Eu andei por muito tempo, tempo para que os últimos meses passasse como um filme na minha cabeça. Mas dessa vez eu sabia a verdadeira história. Me lembrei de quando o vi na sala, em nosso primeiro dia de aula, usando uma camiseta do The Killers. Eu não imaginava que tudo isso fosse acontecer. Se eu tivesse direito a um único pedido, seria poder voltar a esse dia e fazer tudo diferente. De preferência, jamais ter conhecido Gabriel Fornazier.
Após quase duas horas andando, quando finalmente cheguei na porta da minha casa, percebi que minha dor de cabeça estava apenas no início. Eu seria obrigada a tocar a campainha porque não tinha sequer minhas chaves para abrir o portão. Não fazia ideia de que horas eram e sabia que minha mãe ficaria desesperada ao me ver naquela situação. Eu estava decadente. Por isso a toquei e tentei limpar meu rosto enquanto aguardava, mesmo sabendo que isso não melhoraria nada. E foi completamente em vão, pois quando minha mãe abriu o portão e eu enxerguei seu rosto maternal e familiar, a surpreendi com um abraço e desabei em choro novamente.
— Meu deus minha filha, o que aconteceu? Te aconteceu alguma coisa? Isabelle, ta tudo bem? — ela indagou completamente desesperada, como eu previ. Me segurou tão forte dentro do seu abraço que desejei desaparecer entre seus braços e pela primeira vez naquela noite me senti segura. — Querida, fala comigo! Te assaltaram, Isabelle?
Eu não conseguia responder, mas precisava despreocupá-la.
— Não, mãe. Eu só... — e então eu percebi que não sabia como responder ou o que responder. Eu não tinha sequer coragem. Gabriel havia sido baixo a ponto de envolver minha família em tudo isso. Sua atitude mais baixa foi ter envolvido as pessoas mais importantes da minha vida nisso, meus pais. Lilian. Nicolas. Natália. E até mesmo meus avós. Gabriel teve a capacidade de entrar dentro da casa de meus avós e bancar o bom moço para minha família, quando pedi para que ele não fizesse isso se sua intenção fosse brincar comigo. Eu não conseguiria contar a verdade para eles.
— Eu briguei com meus amigos. Só isso. — foi a única resposta na qual consegui pensar. Eu não menti, apenas omiti o restante da história e assim seria melhor.
— Olha o seu estado, minha filha. Onde estão suas coisas? Onde estão seus sapatos? Como você chegou aqui?
— Não importa, mãe. – sussurrei. – Não importa.
E naquele momento, ela me provou que mesmo com todas as brigas, todos os desentendimentos e todos os nossos problemas, no final das contas, ninguém nos ama mais que nossa própria mãe, quando me levou para dentro e me deitou no sofá, colocando minha cabeça em seu colo. Ela ainda questionou se eu queria conversar e quando neguei, apenas respeitou meu momento e continuou ali. Ela permaneceu ali em silêncio, enquanto eu chorava em seu colo, mostrando que de alguma forma ela queria poder aliviar minha dor.
Mas nada aliviria.
Foi a típica história hollywoodiana que venderia milhões. A mocinha que vê sua vida transformando pelo cara mais popular do colégio. Já vi esse enredo milhares de vezes. A diferença é que talvez eu não me encachasse muito bem no papel de mocinha. Não era a típica nerd, tímida e introvertida, eu era apenas normal. Apenas inteligente o suficiente para ter boas notas. Tímida em situações que não me deixassem confortáveis. E definitivamente nunca introvertida, muito pelo contrário, sempre fui extrovertida com meus amigos. Apenas uma garota qualquer. Uma garota normal. Mas talvez esse tenha sido o problema.
Gabriel me apresentou a um mundo que seria tentador para qualquer garota comum e não tente negar. Um mundo onde eu não era a garota que não gostava muito de festas por se sentir deslocada e inferior as minhas amigas, as pessoas me queriam por perto e eu tinha amigos, muitos amigos. Onde meus dias não eram mais monótonos e eu não parecia mais estar presa a rotina que sempre detestei. Em que sem perceber me tornei uma garota com a autoestima melhor, passei a cuidar mais de mim mesma. Ele me fez entender que sou um espírito livre, eu quero bater asas e voar, quero viver. Minha ânsia por viver é muito grande para que eu deixe a sociedade colocar amarras em mim e ditar como ou quando eu devo viver.
Gabriel pode ter sido o maior canalha que já conheci, mas eu preciso confessar que foi ele quem me ensinou a ser eu mesma, independentemente de qualquer coisa ou pessoa. Ele fez com que eu me descobrisse. Fez com que eu me tornasse alguém de quem passei a gostar mais. Mas principalmente, fez com que eu me sentisse especial. E que garota não gosta de se sentir especial? Ele fez com que eu me amasse, porque me fez acreditar que eu era amada. Foi assim que acabei comprando essa mentira na qual ele me envolveu e talvez essa tenha sido a pior coisa que ele fez. Não foi sequer me iludir, foi jogar com meu ponto fraco. O meu maior erro foi sempre achar que eu só poderia me amar, se alguém me amasse. E ele nem sequer me amou.
Não foi fácil assimilar que cada mínima coisa que vivemos não passou de um jogo arquitetado por ele. Principalmente por tudo pra mim ter sido tão intenso. Não parecia mentira quando ele sorria pra mim e seus olhos sorriam junto, quando me beijava, quando transávamos e ele me olhava nos olhos. Não parecia mentira quando ele me confessava seus segredos, seus medos, suas dores e mágoas, quando me contava sobre Alice, quando me deixou saber sobre todas suas perturbações mentais, quando chorou por mim numa maca de hospital. Mas era.
Eu me lembro perfeitamente de que minha primeira discussão com Leticia este ano fora por eu ter ficado com Gabriel. Me lembro até mesmo de que eu e Arthur voltamos a conversar apenas porque ele tentou me alertar assim que soube dos acontecimentos. Me lembro da reação de Gustavo também quando descobriu. E principalmente da conversa que tive com Henrique, pois ele sempre soube de tudo. Ele praticamente me contou a verdade, mas fui burra demais para entender.
Eu fui tão burra!
— Eu sei que isso não tem a ver só com seus amigos... Tem certeza que não quer conversar? – mamãe tornou a perguntar. – Não quer me contar o que é que o Gabriel fez?
Isso me fez chorar mais e mais e mais. Ouvir o nome dele da boca da minha mãe e perceber que até mesmo ela sabe da influência que ele tinha sobre mim, me fez sentir raiva novamente.
— Se você puder nunca mais tocar nesse nome, eu te agradeço. Só isso que te peço. – supliquei.
— Vocês terminaram?
Um nó se formou em minha garganta. Minha vontade era de gritar que nós nunca sequer tivemos algo, que o cara que estava frequentemente sob o teto de sua casa não queria nada além de me foder, em todos os sentidos. Mas me contive. Percebi que eu estava transitando entre tristeza e fúria. Por mais que eu entendesse o que aconteceu, uma parte de mim ainda estava em choque e continuava a reviver e reviver os fatos com um pouco de negação e era isso que me fazia chorar. Mas entender o quanto fui tola, me fazia sentir raiva.
— Sim, mãe. – respondi, sabendo que aquela seria a melhor resposta e a melhor forma de fazer com que Gabriel morresse dentro dessa casa.
— Sinto muito, querida. – ela lamentou parecendo verdadeiramente triste.
Eu também.
Aquela noite foi eterna. Chorei por tanto tempo que adormeci no colo de minha mãe e não sei nem como, acordei em minha cama. Abrir os olhos naquele momento foi como quando estamos tendo um pesadelo e tomamos consciência disso dentro do próprio pesadelo, então você deseja acordar e acaba acordando. Mas parecia que eu não havia acordado. Meus olhos ardiam tanto que mantê-los abertos era difícil. O relógio em minha escrivaninha apontava ser 5h28 da manhã.
Tirei a coberta de cima de mim e me levantei da cama sentindo meu corpo tão pesado quanto chumbo. Era como se algo insistisse em me puxar para baixo. Estava fazendo tanto frio que meu corpo se arrepiou instantaneamente e comecei a tremer involuntariamente. O piso abaixo dos meus pés descalços e doloridos, parecia muito mais gelado que comumente. Caminhei até o banheiro e me assustei ao ver meu reflexo no espelho. Eu estava acabada. Tanto meu rosto quanto meus olhos estavam inchados e vermelhos e haviam apenas resquícios da maquiagem que havia usado na noite anterior.
Me despi, entrei dentro do box e liguei o chuveiro na temperatura mais quente possível. Senti a água bater em minhas costas e escorrer pelo meu corpo finalmente me aquecendo, então apoiei minha cabeça na parede, fechei os olhos e permaneci imóvel. Era estranho o que eu sentia por dentro. Um misto de sentimentos indecifráveis, mas ao mesmo tempo nunca me senti tão vazia.
Ao abrir os olhos a primeira lembrança que me veio na mente foi de estar encostada naquela mesma parede, transando com ele. Minha respiração chegou a falhar e senti meus olhos começarem a acumular lágrimas novamente. Soquei a parede sentindo raiva e comecei a me ensaboar com força, como se pudesse de alguma forma apagar cada toque dele de mim. Eu queria apagar cada toque e cada mínima lembrança, porque eu percebi que choraria sempre que me lembrasse. E eu sempre lembraria.
Quando voltei a mim minha pele já estava vermelha. Eu estava me machucando sem perceber. O que diabos estou fazendo? Desliguei o chuveiro depressa e segurei minha cabeça entre as mãos. Me senti como uma criança perdida. Tão amedrontada, aterrorizada e vulnerável, que me permiti chorar. Achei que não seria capaz de chorar mais, mas eu fui e chorei até que sentisse meus olhos já irritados.
Sai do banheiro sem sequer lavar meu cabelo, apenas enrolada em uma toalha, sentindo novamente o frio me alcançar ao não estar mais protegida pelo vapor quente. Corri até meu guarda-roupa na intenção de vestir a roupa mais quente que eu tivesse e parecia algum tipo de perseguição. A primeira coisa que avistei foi uma blusa de moletom dele que eu estava usando para dormir sempre. Já não havia nem sequer o cheiro dele na peça, era apenas o meu, mas era como ter um pedaço dele comigo. E eu percebi que havia um pedaço dele em todo lugar. No meu guarda-roupa, nos porta-retratos, nos discos do Oasis. Mas principalmente em mim.
Vesti uma roupa qualquer, saí do quarto e passei na porta do quarto de minha mãe que estava com a porta aberta. Ela estava dormindo, mas sabia que com certeza muito mal. Sabia o quanto deveria estar preocupada comigo. Andei até a cozinha com passos lentos e preguiçosos e procurei dentro da caixa de remédios por um que ela costumava tomar antigamente, quando teve problemas de saúde e consequentemente de insônia. É um remédio chamado Valium que não tem como finalidade exatamente fazer dormir, mas é uma de suas consequências. O tomei porque não tinha pretensão alguma de enfrentar aquele dia, muito menos os próximos.
Voltei para o meu quarto, coloquei meus fones de ouvido de volta e me deitei. Permaneci quietinha sentindo meus músculos se relaxarem e meus olhos já pesados se renderem pouco a pouco ao sono que se alastrava por mim. Conseguia ouvir a música que agora me parecia um som distante, vindo de dentro da minha própria cabeça: “Youth”. Pouco antes de perder a consciência, me peguei pensando em como seria não acordar mais e surpreendentemente me pareceu uma boa opção, quando com olhos marejados cantarolava mentalmente:
“I've lost it all, I'm just a silouhette, a lifeless face that you'll soon forget. My eyes are damp from the words you left ringing in my head when you broke my chest. And if you're in love, then you are the lucky one. Cause most of us are bitter over someone. Setting fire to our insides for fun, to distract our hearts from ever missing them. But I'm forever missing him.”
(Link para tradução: https://www.letras.mus.br/daughter/youth/traducao.html)
Eu dormi o dia inteiro, porque mesmo depois de acordar me sentia dopada e não conseguia levantar. Tudo bem por mim porque eu não queria mesmo levantar. O problema foi minha mãe que tentou insistentemente me fazer ir comer, mas eu não tinha apetite nenhum. Na última vez que despertei já era noite e quando olhei para minha escrivaninha percebi que a bolsa que eu tinha esquecido na festa estava ali em cima. Não sabia como ela foi parar ali e nem queria. Mas me levantei apenas para que pudesse pegar meu celular e olhar uma única coisa. Não, não havia uma sequer mensagem.
Desliguei o aparelho, o guardei numa gaveta e voltei para a cama. Eu preciso aceitar que não tenho mais ninguém. E a pior parte é que não consigo sentir rancor de qualquer um dos meus amigos, porque sei que de repente foi como se a vida de todos tivesse virado do avesso e tudo porque me envolvi com o cara errado. Sei que Gustavo, Bruno e Carol não estão com raiva de mim, mas sei que eles não me procurariam, porque eles com certeza não sabem o que fazer em relação ao Gabriel. Eu nem sequer imagino o que será da amizade deles daqui pra frente. Agora eles estão ocupados demais com seus próprios problemas para se lembrarem de mim.
Quanto as meninas, sei que tudo é muito complicado. Leticia deve estar chateada, magoada e principalmente se sentindo traída. E Amanda, não acredito que ela esteja com raiva de mim, mas sei que ela não deve estar conseguindo digerir tudo muito bem. Eu não estou. E é por isso que sei que ela sumirá por um bom tempo, porque ela vai precisar de um tempo para si mesma. Acho que é exatamente isso que todos nós precisaremos: de tempo. Eu só não sei se ele aliviará ou piorará tudo.
Eu não tive coragem de ir ao colégio na segunda. Sabia que todos de alguma forma já estariam sabendo e sei que esse seria o único assunto comentado. Conseguia imaginar os olhares de pena e deboche sobre mim e principalmente, conseguia visualizar como Bianca se divertiria rindo da minha cara. Eu não conseguiria passar por isso e não conseguia sequer me imaginar entrando na mesma sala que Gabriel. Eu nunca mais vou conseguir olhar pra ele novamente. E foi assim que tive certeza de que eu não conseguiria voltar ao colégio.
Minha mãe respeitou os dois primeiros dias em que faltei, mas no terceiro ela já me deu um leve sermão em tom de conselho dizendo que eu não deveria deixar problemas afetarem meu desempenho no colégio, porque meu futuro depende disso. Ela sabe que as provas finais estão chegando. Eu sei. Mas incrivelmente não estava ligando para isso. Notas, colégio, futuro. Tudo de repente parecia uma grande bobagem.
E no quinto dia minha irmã apareceu. Eu soube que minha mãe havia ligado pra ela no exato instante em que ela apareceu na porta do meu quarto. Mas eu não queria vê-la, muito menos conversar. Eu realmente não estava afim de ouvir nenhum conselho ou inspiração para seguir em frente. Só queria ficar em paz. Por isso ignorei sua presença e voltei minha atenção para o filme que estava assistindo.
— Você não ta com uma cara muito boa. – disse Natália entrando no quarto. Continuei a ignorando. – Mamãe me contou dos últimos acontecimentos.
Ela se sentou na beirada da minha cama, pegou o controle da TV e a desligou conseguindo finalmente minha atenção.
— Natália, eu não estou afim de conversar. Agora dá pra me devolver o controle e me deixar em paz?
— Seu plano é ficar definhando aí assistindo “A culpa é das estrelas”? – ela rebateu.
— Meu plano é ficar sozinha no meu quarto sem que ninguém me perturbe, mas pelo visto ninguém entendeu isso ainda.
— Nós vamos conversar quer você queira ou não. A mamãe está preocupada, disse que você não foi pro colégio a semana inteira e que mal sai desse quarto pra comer.
— Nem vou. – respondi me referindo ao colégio. – Se quer me fazer um favor é melhor já avisar pra ela procurar outro colégio pra eu terminar o ano, porque pra lá eu não volto.
— Só porque você e um cara terminaram? Esse é seu nível de maturidade?
— Não. Toque. Nesse. Assunto. – disse pausadamente, com os olhos fechados, sentindo meu sangue ferver de raiva involuntariamente.
— Nós vamos falar do Gabriel! – insistiu Natália. E eu surtei. Repentinamente.
— Sai do meu quarto, Natália. – gritei levantando abruptamente e a empurrando. – Sai do meu quarto!
— O que foi que aconteceu, Isabelle? – ela perguntou tentando se desvencilhar do meu empurrão, mas eu só sabia continuar a gritar e gritar e tentar tirá-la dali. – O que diabos foi que aconteceu?
Eu parei de repente e olhei para ela com fúria. O problema é que eu não queria falar disso. Não queria conversar porque não queria ser forçada a dizer aquilo em voz alta. Não queria admitir. Não queria ter que contar pra ninguém.
— Ele estava transando comigo e Amanda ao mesmo tempo! – gritei. – Ele só tava comigo pra brincar com a minha cara e deixou isso bem claro na frente de todo mundo! E por causa disso eu perdi todos! Perdi tudo! Perdi Amanda, perdi Leticia, perdi todos os meus amigos!
Natália ficou paralisada em silêncio parecendo surpresa e eu consegui ver em seus olhos pena. Eu não quero ninguém sentindo pena de mim.
— Satisfeita? – gritei antes de dar o último empurrão que a tirou de meu quarto e bati a porta com força, a tranquei e disparei um chute pelo primeiro móvel que apareceu em minha frente. É obvio que doeu. E então eu não soube mais quando me sentei no chão se estava chorando pela dor do meu pé ou pela dor que sentia por dentro. Talvez fosse pelos dois. Às vezes basta um dedinho mindinho pra nos fazer chorar por uma vida inteira.
Aquela noite quando deitei, me lembrei do dia em que eu e Gabriel estávamos num pub e a banda da noite estava fazendo cover de várias bandas de rock famosas, inclusive Oasis. O dia em que cantamos Live Forever juntos. Um pouco antes disso, tivemos uma conversa em que referindo a si mesmo ele me disse a seguinte frase: "Às vezes algumas perguntas têm respostas que preferíamos não ter encontrado". Eu não imaginava como ele estava sendo sincero. Eu sempre quis saber quem era o verdadeiro Gabriel Fornazier, agora não sei mais se queria de fato ter descoberto.
A próxima intervenção apareceu no domingo, com um olhar sereno e um sorriso reconfortador. Papai me acordou com uma bandeja de café-da-manhã na cama, trazendo nela uma coisa que me chamou a atenção, uma caneca dos Teletubbies em que eu bebia leite quente todas as manhãs quando criança.
— Eu me lembro de acordar cedo pra trabalhar e você acordar exatamente no mesmo horário. – ele começou a contar, sentado na beirada de minha cama. – Você se levantava, colocava seu bico e saia arrastando seu cobertorzinho amarelo pelo chão da casa até o sofá, onde se deitava e esperava que eu ligasse a televisão. Então eu fazia meu café e seu leite quente, e você bebia enquanto assistia o tal dos Teletubbies. Era assim todas as manhãs.
Me lembro vagamente disso, porque eu era muito nova, mas quando peguei a caneca e tomei o leite, foi como sentir sabor de infância.
— Sinto falta daquela época. – confessei.
— Eu também. – concordou papai. – Era mais fácil cuidar de você.
— Você veio até aqui me dar sermão?
— Não, vim te chamar para almoçar com seus avós. Eles estão com saudade.
Eu concordei em ir porque também estava. Nesses dias trancada em meu quarto cheguei à conclusão de que um dos meus maiores arrependimentos é ter deixado Gabriel me afastar da minha antiga vida. Eu costumava dar mais atenção aos meus amigos e a minha família, costumava visitar meus avós sempre que possível, e de repente deixei que minha vida girasse em torno do Gabriel. Era tudo sobre ele e para ele.
Ao entrar na casa de minha avó acompanhada dos meus pais, senti um cheiro familiar que fez meu estômago roncar.
— Fiz pão de queijo pra minha neta preferida. – ela disse me recebendo com um sorriso e um abraço apertado. Seu perfume doce invadiu minhas narinas. Era engraçado como ela sempre tinha cheiro de rosas ou de comida gostosa, talvez porque sempre passava o tempo cozinhando delícias para mim. – E seu amado suco de laranja com frutas fresquinhas. Seu avô que buscou!
— Mandei ela colocar uma acerola no meio pra deixar mais gostoso, mas ela insistiu que é desse jeitinho que você gosta. – disse vovô se aproximando, sendo o próximo a me dar um abraço. Ele ao contrário de vovó sempre teve um cheiro mais forte. Cheirava a café e cigarros. E mesmo não gostando do cheiro de cigarro, estranhamente nunca me incomodei com isso, talvez por ser acostumada desde criança. Era o seu cheiro.
— Homem é tudo igual. – rebateu vovó. – Pode passar uma vida inteira com a gente que mesmo assim não aprende do que gostamos.
— Isso é verdade. – concordei. – Em dezessete anos meu pai ainda não aprendeu que eu não gosto de milho.
— Mas você não gosta de nada, menina! – se defendeu papai. – Aí fica difícil memorizar.
Aquele foi um dia bom. O primeiro desde que minha vida perdera totalmente o sentido. Mas foi o primeiro e único. Minha irmã se juntou a nós praticamente logo depois que chegamos. Eu me senti um pouco mal ao vê-la, pela forma com que a havia tratado na última vez que nos vimos, mas ela se portou como se compreendesse. E eu sei que de fato compreendia.
Nós tomamos café-da-manhã, depois ajudamos vovó a preparar o almoço e no final da tarde ainda descobrimos que ela tinha feito bolo e pavê. Minha vó e sua mania de cozinhar pra nós como se não comêssemos há séculos. Estávamos sentados na varanda, relembrando boas histórias e me lembro de ter observado atentamente o sorriso no rosto de cada um e me sentir tranquila por pelo menos naquele momento, poder fingir que meus problemas e medos não existiam, estar rodeada de pessoas que me amam e que não me deixariam.
Meu avô havia colocado uma música para tocar ao fundo, bem baixinho, num som velho do qual ele nunca se desapegou, mesmo que eu tenha dado um novinho para ele. “Esse aqui é meu companheiro de vida. Não se troca um velho amigo só porque não são bons tempos”, disse ele. Me lembrei instantaneamente das meninas e senti meu peito apertar.
A vida passa muito rápido e o tempo não volta. Me dei conta disso quando me peguei olhando para meus avós, sentados lado a lado, rindo abertamente quando me contavam sobre minha infância.
— Você sempre foi a queridinha da escola. Era escolhida pra tudo. – contou vovó. – Me lembro de uma vez em que os professores estavam preparando uma apresentação de dança com alunos de uma série pra frente da sua e faltava uma menina, então eles pediram aos seus pais para que você participasse. Sempre foi assim. Você era muito mimada!
— Até que uma vez vocês iriam apresentar uma peça na formatura da quarta série e os papeis seriam sorteados. – continuou vovô. – Você foi sorteada para ser nada mais nada menos que uma árvore. No dia você chorou muito dentro daquela fantasia e nós só conseguíamos rir. Você ta de cara fechada em todas as fotos.
— Contem do dia do desfile. – pediu mamãe.
— Ah, esse dia! – exclamou vovô rindo. – Você tinha o sonho de ser modelo e teve um dia que participaria de uma competição de desfile em que a vencedora conheceria aqueles dois que você amava tanto.
— Sandy e Junior. – revelou papai.
— Isso! E no mesmo dia você teve de tomar uma vacina na bunda e cochilou. Quando acordou para arrumar pro desfile, sua perna tinha paralisado por causa da vacina. Foi um desastre. Não conseguíamos te arrumar porque você não parava de chorar e no final das contas você desfilou mancando. Obvio que você não ganhou, querida, mas sabe de uma coisa? Ainda era para mim a menina mais linda de todas! Não era qualquer uma que atravessaria uma passarela com apenas uma perna funcionando.
Todos nós rimos.
— Seu avô já foi feirante, você se lembra disso? – perguntou vovó.
— Lembro sim. – respondi. Eram memórias distantes, por volta dos meus oito anos.
— Toda quinta-feira nós fazíamos feira no Batel. – vovô começou a contar mais uma das histórias. – Mas pra fazer feira você tem que acordar cedo, 5h da manhã, porque tem de arrumar as coisas, ir, montar a banca e preparar tudo antes que as pessoas cheguem. E aí toda quarta-feira depois da aula você fazia seus pais te trazerem pra cá. Dormia com a gente e acordava cedo, junto comigo. Ia pra feira, comia seu precioso pastel de carne e queijo, depois queria vender farinha.
“Era 1 real apenas. Então não tinha dificuldade. E você se orgulhava em responder o preço pras pessoas, pegar a farinha, colocar na sacola, entregar e receber a nota de 1 real. Mas coração de vô é mole, eu sempre dizia “pode ficar com o dinheiro pra você”. E de 1 real em 1 real, você ficava no final do dia com uma graninha boa e eu falido com minhas farinhas”.
Eu senti tanta paz com suas gargalhadas preenchendo meu peito que desejei poder eternizar aquela sensação. Mas esse desejo se tornou mais forte do que nunca dias depois. Tudo aconteceu no meu primeiro dia de provas finais.
Fazia tanto tempo que não acordava as 6h da manhã que não consegui dormir pela ansiedade que sentia com medo de não conseguir acordar. Também não consegui comer. E minha mãe estava visivelmente preocupada comigo pela forma com que me olhava de canto de olho enquanto estávamos dentro do carro seguindo rumo ao meu colégio.
Eu tive de repetir umas três vezes que estava tudo bem, mesmo que em todas elas tenha mentido. E vacilei quando tive de abrir a porta do carro. Estávamos em frente a entrada de funcionários do colégio e naquela altura eu me sentia ridícula por ter pedido que minha mãe fizesse isso por mim. Pedi que ela conversasse no colégio para que eu não fizesse as provas em sala e seu pedido foi concedido. Me sentia ridícula, mas sabia que não estaria ali se não fosse por isso. Tive ainda mais certeza quando finalmente adentrei aquele lugar. Meu estômago se embrulhou todinho.
Fui recebida por uma funcionária que me pediu para sentar e esperar que ela chamaria a diretora Rosângela. Dali era possível ouvir o burburinho das conversas de centenas de alunos provavelmente desesperados com as provas finais que os separam das férias. A maioria deve viajar para algum lugar interessante ou fazer algo minimamente divertido. É uma das épocas do ano em que ocorre a maior disputa de ego de todas. A disputa de “eu tenho uma vida melhor que a sua e preciso fazê-lo acreditar nisso para que quem sabe assim eu também acredite”. Vidas e vidas projetadas em likes de fotos em redes sociais. É triste ver como nossa geração é estupidamente infeliz por sermos crianças mimadas tentando ser melhores que aquilo que achamos que o outro é.
Não demorou muito para que Rosângela aparecesse, mas ela estava acompanhada de duas garotas, então sorriu em minha direção e fez um sinal para que eu esperasse. As três entraram na sala da diretoria e não demorou mais que alguns segundos para que as meninas saíssem carregando alguns papéis. Mas pra minha infelicidade uma delas olhou em minha direção e ao me reconhecer, me encarou parecendo perplexa. Abaixei a cabeça constrangida, mas ainda fui capaz de ouvi-la comentar baixo com sua amiga:
— É a Isabelle Nemitz! Caralho, ela ta aqui! Ela não aparece no colégio há semanas!
E foi assim que só não saí correndo dali porque não tive força em minhas pernas para isso. Eu sabia que era uma questão de minutos até que essa informação estivesse circulando pelo colégio inteiro, mesmo que em dias de prova ninguém possa sair da sala antes do horário pré-determinado e que eles já estivessem reclusos em suas respectivas classes esperando os envelopes serem entregues. Tentei ao máximo não pensar em como todos estariam falando sobre a pobre e coitada iludida da Isabelle que está escondida na área dos funcionários morrendo de vergonha por ter sido tão otária e tentei principalmente não pensar que Gabriel estaria ali, com seu ego inflado e provavelmente rindo de mim, mas obviamente não consegui. E de repente comecei a sentir dificuldade em respirar. Comecei a me sentir afobada. Foi como se minha garganta se fechasse e impedisse que o oxigênio chegasse aos meus pulmões. Tive certeza de que acabaria passando mal, mas de repente senti uma mão tocar meu ombro e foi como se eu voltasse a mim.
— Está tudo bem, querida? – perguntou Rosângela me olhando preocupada.
Demorei alguns segundos para assimilar a pergunta e mais ainda para me lembrar que eu deveria responder, o que só fiz com um aceno de cabeça.
— Vamos pra minha sala? – ela chamou e mais uma vez apenas assenti. A segui até a mesma e ao entrar pude perceber que havia uma carteira ali, provavelmente onde eu faria minhas provas. Aquilo era tão patético que senti mais vergonha ainda de mim.
Rosângela sentou em sua poltrona e pediu para que eu me acomodasse na cadeira em frente sua mesa.
— Querida, as normas são as de sempre e valerão da mesma forma pra você. – ela começou a explicar. – Entregarei suas provas às 8h e o horário mínimo para ir embora é às 10h40. Em cima da mesa só o material necessário, não pode calculadoras ou qualquer tipo de aparelho eletrônico. E pedi para colocarem uma carteira aqui, porque imaginei que não ficaria confortável em fazer as provas na minha mesa comigo te olhando. Quero que se sinta à vontade.
— Obrigada. – agradeci, mas nada à vontade.
Rosângela permaneceu calada por um tempo, me observando e de repente me fez uma pergunta que não entendi o intuito.
— Isabelle, você sabia que é sempre dolorido para mim quando meus terceiros anos se vão?
Olhei para ela curiosa e neguei com a cabeça.
— Mas é! Porque a maioria de vocês chega aqui no primeiro ano, alguns antes, outros depois, e eu vou me acostumando com os mesmos rostinhos, conhecendo vocês, os vendo crescer, amadurecer e caminharem em direção ao futuro. Acontece que alguns sempre deixam marcas maiores. E nunca tive dúvida de que você seria um desses alunos. Sempre vi em você um potencial muito grande e alguém com um futuro extraordinário. Sabia que me orgulharia imensamente ao vê-la de beca em sua formatura.
“E onde quero chegar com isso é no quanto estou preocupada com você e seu futuro. Você já perdeu 13 dias de aula. Não lhe reprovaria por falta, mas você está perdendo muito conteúdo. Até mesmo seus professores estão preocupados, Marise já me procurou para saber o que havia acontecido. Sua mãe entrou em contato com o colégio para explicar que está passando por alguns problemas pessoais e eu queria de coração poder te dar um conselho. Às vezes a vida nos golpeia pelas costas da forma mais covarde possível e nos parece meio impossível se levantar novamente, mas isso só depende de nós. E não deixe que qualquer golpe lhe impeça de continuar.”
“Nós estamos sentindo sua falta no colégio, Isa. E não quero que deixe de lado seu futuro. Aqui você tem o meu suporte e você sabe que pode ter acompanhamento com o psicólogo. Só não deixe o que quer que esteja lhe acontecendo interfira no destino brilhante que eu sei que está reservado pra você.”
— Obrigada. – agradeci de coração, realmente feliz por saber de todas essas coisas. Mas tudo tem sido muito complicado.
— O sinal já vai tocar em breve, então pode se sentar em seu lugar. – avisou Rosângela.
Me sentei e encarei a mesa em branco me sentindo nervosa. Eu não fazia a mínima ideia do que cairia naquelas provas e tinha certeza de que não me sairia bem. Havia perdido não somente parte do conteúdo, mas também as revisões que são a maior ajuda que recebemos dos professores. No entanto, eu não estava mesmo me importando, sabia que minhas notas finais já estavam fadadas ao fracasso, porque também não entreguei os últimos trabalhos e devo ter perdido algum teste e pontos diversos.
O sinal indicando que os alunos poderiam começar tocou e Rosângela colocou as provas sobre minha mesa.
— Boa prova! – ela desejou e eu soube que precisava mais era de um “boa sorte”.
Me foquei primeiro em fazer as provas das matérias que tenho mais facilidade, mas mesmo nessas travei em diversas questões. Me distrai por um bom tempo e estava tudo indo até bem. Estava até me esforçando para tentar salvar o máximo de pontos que conseguisse. Até que pouco mais de 2 horas depois, o silêncio foi tomado por algumas vozes e pouco a pouco essas vozes foram se tornando mais audíveis de forma que percebi estar acontecendo algo. Rosângela também pareceu ter percebido, pois encarou a porta aberta com as sobrancelhas arqueadas. Parecia alguma discussão, mas não dava pra entender do que se tratava. Até que de repente ouvi o nome que não queria ouvir.
— Gabriel Fornazier, eu já disse que você precisa retornar para sua sala ou anularemos todas as suas provas.
— Cadê a Rosângela? Eu exijo falar com ela. – ele rebateu e percebi que sua voz estava muito próxima. Rosângela se levantou de sua poltrona imediatamente, mas naquele instante ele invadiu a sala e o ar literalmente parou em minha garganta. Meu coração se acelerou de uma forma que podia sentir meus batimentos cardíacos até mesmo na ponta dos meus dedos. E minha pressão caiu de uma vez, me fazendo pensar por um breve instante que meu corpo não fosse mais sólido.
Ele logo notou minha presença e quando seus olhos me alcançaram, eu desejei sumir naquela cadeira. As lágrimas brotaram automaticamente em meus olhos, como tem sido costumeiro nos últimos dias. Ele não estava como eu imaginava. Usava um moletom com aparência velha, todo amarrotado e chinelos nos pés. O cabelo estava grande e muito mais bagunçado que o normal, de uma forma desleixada. A pouca barba que tem estava por fazer e em seus olhos haviam olheiras fundas, sua expressão era de alguém cansado, parecida com a que tenho enxergado no reflexo dos espelhos.
Os poucos segundos que nos encaramos pareceram quase horas para mim e eu me senti zonza, enojada, tão pequena e frágil que era como se qualquer coisa pudesse me quebrar. Mesmo sabendo que não havia mais formas para que me quebrassem. Principalmente se tratando dele.
— Isa – disse Gabriel com a voz tão baixa, que tive a impressão de que meu nome simplesmente escapou de sua boca. Mas foi ao ouvir sua voz que todo o horror que eu vivi naquele dia 22 voltou à tona de uma só vez em minha cabeça e eu me encolhi abraçando meu próprio corpo, encarando o chão abaixo de mim, agora já chorando.
Não sei bem o que aconteceu, mas sei que retiraram ele da sala quase que a força e Rosângela foi junto, me deixando sozinha. Passei tantos dias pensando que quando o visse novamente sorriria com a maior cara de superioridade que conseguisse, mas o que fiz foi desabar em choro.
Respirei fundo e me forcei a parar de chorar antes que alguém voltasse. Limpei o rosto na manga da minha blusa de frio e ainda ouvindo vozes me levantei. Espionei pela porta e pude ver Rosângela conversando com ele, mas Gabriel estava chorando, em prantos.
— Me deixa ir embora, por favor. – pediu Gabriel.
— Gabriel, vocês só podem ser liberados daqui mais de 1 hora!
— Por favor. – ele insistiu.
— Você ao menos terminou suas provas? – Rosângela perguntou e ele assentiu. – Com quem você as deixou?
— Com a professora.
— Você sabe que não deu tempo de fazê-las direito, não sabe?
— Eu só quero ir pra casa. – respondeu Gabriel tentando limpar o próprio rosto.
— Eu não vou autorizar sua saída, Gabriel. Ligarei para seus pais e pedirei para que alguém lhe busque, tudo bem?
Ele assentiu parecendo satisfeito em saber que pelo menos sairia dali e eu voltei para meu lugar sem querer de fato querer saber mais. Apenas sentei e tentei me acalmar, mas minhas mãos tremiam tanto que eu não era capaz sequer de segurar de volta minha caneta. Fechei os olhos e tentei respirar fundo diversas vezes, mas não funcionava. Eu não voltaria ao normal.
Quando Rosângela apareceu de volta, estava trazendo um copo de água e me entregou o mesmo.
— Está tudo bem? – ela questionou e eu assenti, mesmo que a última coisa que eu estavisesse naquele momento era bem. – Tem certeza?
— Só quero terminar minhas provas, por favor. – foi o que consegui responder. Era mesmo o que eu queria. Porque eu só queria poder ir embora logo daquele lugar e chorar tudo que eu estava segurando.
Rosângela assentiu e sentou novamente em seu lugar, mas dava para perceber que ela estava me observando. Estava ridículo a forma com que a caneta tremia junto com minha mão e eu não conseguia escrever nada.
— Posso te fazer uma pergunta? – indaguei repentinamente e ela permitiu. – Mais cedo quando conversou comigo, disse saber que estou passando por alguns problemas pessoais, como minha mãe alegou. Mas você sabe a verdade, não sabe? Você é a diretora daqui. Você sabe das coisas que acontecem aqui.
Ela demorou um pouco para responder, parecendo ponderar se deveria ou não dizer a verdade, mas disse.
— Sei sim. – respondeu enfim.
— Você poderia, por favor, não contar aos meus pais? – pedi. Se ela resolvesse fazer uma intervenção nisso tudo e contasse aos meus pais, eu pioraria mais ainda.
— Não caberia a mim fazer isso.
— Obrigada. – agradeci um pouco aliviada, mas de repente ela disse algo que me pegou de surpresa.
— O Gabriel sempre foi um aluno problema, mas ele também não tem vindo às aulas, Isabelle.
— Desculpa, mas eu realmente não quero saber. – afirmei tentando parecer forte, mas eu estava desabando.
— Tudo bem, sou eu quem peço desculpa. – desculpou-se Rosângela.
Eu não consegui fazer mais nada. Tentava ler as questões e não conseguia sequer entender o que elas estavam pedindo, porque meu cérebro não focava naquilo. Minha cabeça estava muito longe. Eu ficava lembrando e relembrando o rosto e a voz de Gabriel, até que vi que a folha da minha prova de Química estava molhada. Tentei disfarçadamente limpar meu rosto me sentindo mais constrangida do que já estava. E então eu simplesmente desisti, não conseguiria mais salvar minhas notas nem se quisesse. Por isso mesmo sabendo que as respostas do gabarito só são aceitas com as resoluções expostas na folha da própria prova, eu comecei a simplesmente chutar todas as questões.
Só demorei um pouco ainda porque era insuportavelmente chato ter de ficar preenchendo os quadradinhos do gabarito. Quando acabei faltava meia hora ainda para atingir o horário mínimo que nos permitia começar a ir embora, por isso tive de engolir meu orgulho para pedir permissão pra sumir daquele inferno.
— Eu já terminei. – anunciei. – Você pode me liberar, por favor?
— Sua mãe vem te buscar? – questionou Rosângela.
— Não, ela está trabalhando. Eu vou a pé. – expliquei. Mais uma vez ela ficou pensativa. Fazer isso seria quebrar as normas, mas eu já não estava muito seguindo o padrão fazendo aquelas provas quase que em regime especial. Ela só estava preocupada em me liberar sozinha, por isso tentei argumentar. – Falta menos que meia hora pra sermos liberados, se for ter de atrapalhar minha mãe no trabalho só por causa disso eu vou simplesmente esperar, mas você sabe que pode muito bem facilitar minha vida, Rosângela. Eu só quero ir pra casa.
Felizmente consegui convencê-la e quando ela recolheu minhas provas, sai praticamente correndo dali. Quando cheguei na calçada deixei que minha mochila caísse no chão e inspirei profundamente procurando por oxigênio, mas eu percebi que não era exatamente de oxigênio que meus pulmões precisavam. Muito menos eu. E eu desabei ali mesmo.
Só consegui me levantar quando o sinal tocou e eu percebi que a qualquer momento teria alunos na rua. Não queria que ninguém me visse, por isso saí em disparada rumo a casa. E se eu achava que minha manhã já havia sido horrível, não imaginava o pesadelo que ainda me aguardava.
Quando entrei em casa estranhei porque minha mãe estava ali sendo que ela deveria estar no trabalho. Meu pai também estava. E minha irmã. Estranhei toda a situação, mas estranhei mais ainda quando todos eles permaneceram em silêncio ao me verem. E aí percebi olhos inchados e vermelhos. O aperto que senti no peito provavelmente foi por meu subconsciente já saber do que se trataria, mas eu não tive coragem de perguntar. Não tive coragem sequer de me mover quando minha mãe pediu para que me sentasse. E ao perceber meu estado de choque, meu pai resolveu que seria melhor dizer de uma vez.
— Seu avô sofreu uma parada cardíaca, querida. – explicou papai. – Os médicos fizeram tudo que era possível, mas ele não resistiu.
Eu compreendi aquelas palavras, mas foi como se elas não fizessem sentido algum. “Como assim, ele não resistiu?”, tive vontade de perguntar. “Do que diabos você pensa que está falando? Meu avô estava comigo no domingo, bem, feliz e saudável, como sempre foi”. Tive vontade de dizer muitas coisas, mas nada saiu da minha boca. Eu estava em choque. Meu pai caminhou em minha direção e me abraçou forte, mas não caiu uma lágrima sequer do meu olho.
— Eu preciso ir com a avó de vocês resolver todas as questões. – disse mamãe se levantando. – Vocês podem ficar aqui? Seu pai irá me levar.
— Claro, mãe. – respondeu Natália por nós duas.
Levar onde? Resolver o que? Eu não conseguia assimilar nada. E continuei assim durante todo o tempo. Enquanto recebíamos telefonemas dando notícias, enquanto vesti um vestido preto e fui obrigada a seguir rumo a uma funerária, enquanto vi minha mãe completamente arrasada ter de tirar forças de onde ela nem tinha para agradecer a palavras como “meus sentimentos” e “meus pêsames”.
Minha ficha só caiu quando homens usando ternos pretos passaram em minha frente carregando um caixão fechado até uma das salas branca e fria daquele lugar sombrio. Foi ao ver o caixão ser aberto e revelar o corpo de meu avô que eu entendi. Eu finalmente entendi que nunca mais o veria novamente. Nunca mais sentiria seu cheiro. Nunca mais ouviria o som de sua risada.
Me lembro de ter chorado como se tivessem acertado meu coração com um punhal. De ter debruçado sobre aquele caixão e ter visto seu rosto ainda sereno, como se estivesse apenas dormindo e ter pedido com meu coração e alma que ele acordasse. Desejei tanto despertar daquele pesadelo, mas eu não despertaria. E fui consolada pelos braços de minha avó. A mulher que acabara de perder seu companheiro de vida me emprestou um pouquinho de sua força, como a guerreira que sempre foi. E eu a abracei com toda minha força porque foi quando percebi que ele não estaria mais aqui e que vai chegar o dia em que ela também não estará. Muitas das pessoas que eu amo não estarão.
Cada momento foi pior que o outro. Pior do que ver o caixão ser aberto, foi vê-lo sendo fechado. Vê-lo sendo colocado dentro de um túmulo e terra ser jogada sobre ele. Meu avô deixaria pra sempre um buraco dentro de mim que não seria preenchido por nada nem ninguém. E estranhamente era como se de repente tudo que houvesse dentro de mim fossem apenas buracos deixado pelas pessoas. Nunca me senti tão vazia.
Na noite em que voltamos para casa, fiz algo que não deveria fazer, mas senti que precisava. Vesti um moletom do Gabriel e me encolhi na cama. Chorei porque quis tanto contar para ele sobre esse inferno que estou vivendo, quis tanto contar pra ele como tem doído, quis tanto que ele me abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem. Mas não ficaria. A vida estava me dando uma surra.
A pior parte foi perceber o que é a realidade. Saber que diferente de em qualquer fantasia minha, Gabriel não me procuraria em alguns dias após ter percebido a burrada que cometeu, o quanto me machucou e o quanto sente muito por ter me magoado. E não procurou. Foram longos dias culpando a realidade por ser tão cruel, até finalmente entender o que é a realidade. Até entender que ela não é cruel, a realidade não é fria a ponto de não se importar com o quanto dói, com o quanto os dias parecem compridos e as noites ainda mais, ou com quantas lágrimas você consegue derramar quando parece não ser mais capaz de chorar, ao som de quantas músicas de melodias tristes você acabou adormecendo, vencida pelo cansaço de seus próprios olhos maltratados, vencida pelo cansaço de sua própria mente atordoada. O problema é que a realidade, diferente de qualquer fantasia, não pode ser controlada por nós. A crueldade não está na realidade, está nas próprias pessoas. A realidade não poderia obrigá-lo a me amar e concertar todo o passado e ela definitivamente não tem culpa de eu ter me apaixonado pela pessoa errada.
Foram longas noites com a dúvida martelando minha cabeça. O que havia sido real e o que havia sido mentira? Tudo que vivemos havia sido apenas uma grande fantasia, mas o que eu sentia por ele parecia real, muito real. Mas como poderia ser, se o cara por quem me apaixonei nunca existiu? Meus sentimentos nunca foram reais? Então, o que explicaria o quanto cada nascer do sol parecia pior que o anterior? Ou como cada amanhã parecia tortura e não esperança? A dor nunca me pareceu irreal. Até o momento em que finalmente consegui entender que não importa se me apaixonei por alguém irreal, em cada dia que nutri esse sentimento, o fiz por acreditar no que estava vivendo, era fantasia para ele, mas era realidade para mim. Nesse momento fui finalmente capaz de parar de me sentir culpada pelo quanto estava doendo e o momento em que não mais tentando me conter, me entreguei ao sentimento mais obscuro de todos.
O assustador foi que aconteceu de uma só vez. Quando percebi, eu não me reconhecia. Me lembrar da garota que eu era antes de tudo acontecer não fazia o menor sentido. Eu realmente não sentia disposição para fazer qualquer mínima coisa que fosse. Desde levantar da cama até comer e tomar banho se tornaram tarefas difíceis. Mas a pior parte foram as crises de choro. Eram do nada, nem sequer precisavam de um motivo e geralmente vinham acompanhadas de um grande e doloroso vazio. Ficava encarando as coisas sem pensar em nada, sem sentir nada. Era apenas vazio.
Eu percebi o que estava acontecendo, estava me entregando de corpo e alma a uma depressão. Só parecia diferente de tudo que eu sabia. A depressão não é caracterizada apenas pelo sentimento de tristeza, há picos de diversos outros sentimentos. Mas os sintomas variam de pessoa pra pessoa justamente por termos bagagens distintas e os fatores envolvidos em cada situação serem diferentes. E tristeza era o único sentimento que eu conseguia sentir. Talvez o diferencial para mim tenha sido a solidão. Foi através de tudo isso que fui capaz de perceber que a solidão é o sentimento mais destrutor que somos capazes de sentir.
Somos seres naturalmente sociáveis, até mesmo por uma questão de sobrevivência. E não conseguimos nos adaptar bem a solidão, ao sentimento de completo isolamento. Eu não consegui. Era difícil saber que não havia ninguém por mim, não havia com quem contar ou confiar, que nenhuma espécie de distração poderia me tirar o sentimento de vazio e de enclausuramento.
Eu tinha de carregar sozinha um fardo pesado, sem sequer saber como fazer isso, e ainda tinha de lidar com a estigmatização e discriminação que só então percebi ser coisas enraizadas na sociedade. Meus pais foram pacientes e prestativos até onde lhes foi possível, mas até mesmo eles não conseguiam entender por que eu simplesmente não me levantava e tentava fazer qualquer coisa para melhorar. Eles não entendiam. Ninguém entendia.
Meus pais pediam para que eu desse uma volta, que saísse para passear, que fizesse coisas que gostava. Tentavam me levar para comer e me compravam coisas. E tentavam conversar, mas não dava certo. A única coisa que eu aceitava fazer era ir pra casa de minha vó passar os dias em sua companhia revivendo a falta que meu vô fazia. Mas aquilo era uma forma de me machucar mais e não ajudar. Chegaram a se reunir para conversar comigo uma vez e foi a pior conversa que tivemos. Lembro-me de que eles sentaram na lateral da minha cama e depois de dizerem várias coisas desconexas, minha mãe soltou a seguinte frase:
— O que queremos dizer, querida, é que você não deve levar a dor tão a sério por causa de um namorico qualquer. Nós sabemos o quanto você gostava daquele garoto, mas ele foi apenas seu primeiro amor. Foi seu primeiro coração partido, mas não será o último.
Nunca senti tanta raiva em minha vida. Lembro-me de gritar e esbravejar, mas me sentir incapaz de conseguir explicar.
— Eu não estou assim por causa de garoto nenhum, estou assim porque se vocês não perceberam, eu não tenho mais amigos, eu não tenho ninguém. – foi o que consegui dizer. Mas era como se não houvesse dito nada.
Eu não conseguia explicar como cheguei nessa situação, não conseguia explicar o que exatamente eu estava sentindo, não era como se eu tivesse uma longa lista de motivos que tornassem plausíveis e aceitáveis minhas atitudes e sentimentos. Foi então que percebi que uma pessoa deprimida jamais conseguirá explicar a alguém o que é a depressão e que essa é a doença mais incompreendida. Talvez esse seja o problema. Se sentir sem voz mesmo conseguindo falar.
Eles estavam certos quanto ao Gabriel, na verdade ele era exatamente o motivo que engatilhou tudo isso, mas eu me negava a confirmar. Parecia tão ridículo aos olhos dos outros estar assim por causa de um cara e realmente é, eu sei que é, mas não era apenas o Gabriel. Foi toda a situação. Foi tudo que aconteceu. Foi meu mundo inteiro desabando repentinamente. Ninguém jamais entenderia e eles não queriam entender, eles só queriam que eu melhorasse logo.
No começo foi um pouco mais difícil, porque eu ainda discutia, depois passei a simplesmente ignorar. Houve um dia em que meus pais convidaram a família inteira para almoçar em minha casa, achando que de alguma forma isso pudesse me animar. Não sei da onde eles tiraram essa ideia, visto que me neguei até mesmo a sair do quarto. Então uma de minhas tias veio até mim e disse:
— Por que você não levanta dessa cama e tenta fazer algo divertido? Aposto que vai se sentir melhor.
E sem pensar eu rebati:
— Por que você não cala a sua boca e cuida da tua vida? Parece tão improvável quanto eu fazer isso, não é mesmo?
Ela ficou em choque. Minha mãe ficou em choque. E eu apenas virei para o lado e voltei a dormir. Foi quando entendi que não adiantava discutir. Eu sempre ouviria esse tipo de coisa. Era melhor apenas fingir não ouvir, pelo meu próprio bem.
Após o dia da conversa que tive com meus pais em que acabei me alterando, eles pareceram finalmente perceber como tudo havia ganhado uma dimensão um pouco maior do que estavam achando. Minha mãe chegou a tentar questionar o que havia acontecido, o motivo de eu não estar falando com Leticia e Amanda e tentar me convencer a ir atrás delas. Essa foi uma conversa na qual na verdade ela foi a única a conversar.
E foi assim que ela pareceu ter esgotado todas as opções que tinha para me ajudar e tomou uma decisão. Eu estava sentada no sofá em um dia qualquer quando mamãe e papai se sentaram no outro sofá e olharam para mim.
— Nós precisamos conversar. – avisou mamãe. Eu odeio essa frase mais que tudo na minha vida. Ela nunca precede alguma conversa boa e pelos meus dois pais estarem ali, eu tinha mais certeza ainda de que ouviria algo que não quero.
Desliguei a televisão e me virei para eles, pronta para ouvir o monólogo que se seguiria.
— Dia desses a mãe de uma amiga sua me procurou no trabalho. – ela começou a contar, mas minha curiosidade a interrompeu.
— Que amiga?
— Ana Carolina. – respondeu mamãe. Eu fiquei meio em choque, porque não conseguia pensar em motivo algum pra mãe da Carol ter procurado a minha mãe, então apenas dei sinal para que ela prosseguisse. – E ela me explicou que sua amiga está muito preocupada com você. Ela disse que aconteceu uma confusão muito grande e que todos brigaram e que ela sabe que não adiantaria vir atrás de você, mas está verdadeiramente preocupada. E pediu que a mãe dela fosse até mim pra tentar me convencer a te levar num psicólogo.
— Nós já havíamos pensado nisso, Isa, mas não sabíamos como introduzir o assunto com você. – interferiu papai. – Não sabíamos se você aceitaria, mas achamos que seria importante você passar por um profissional que realmente possa te ajudar, porque infelizmente não estamos conseguindo fazer isso.
— E a mãe da Ana Carolina contou que ela faz acompanhamento há alguns anos e que isso a ajuda bastante. Inclusive, recomendou a psicóloga dela. Então eu liguei pra psicóloga, fui conhece-la e ela me pareceu uma pessoa muito boa, eu acho que você irá gostar dela. Ela pediu para que eu te levasse para conhecê-la sem compromisso algum, apenas para vocês terem um primeiro contato e aí você decidir o que quer.
Eles pararam de falar e ficaram apenas me olhando. Percebi que era porque estavam esperando que eu dissesse alguma coisa ou tivesse alguma reação, mas eu ainda estava tentando processar o pedido. Como futura estudante de psicologia normalmente não me oporia a passar por acompanhamento psicológico de forma alguma, muito pelo contrário, costumava pensar que isso faria bem até mesmo praqueles que não acreditam precisar. Mas de repente, me imaginar confidenciando a alguém tudo que havia acontecido, não me deixou confortável. Ter de relembrar mais uma vez tudo em seus mínimos detalhes e admitir em voz alta que eu havia sido usada por tanto tempo, me deixou um pouco apavorada.
Mas então eu olhei para as duas pessoas sentadas em minha frente que nas últimas semanas dedicaram seus dias a tentar resolver os meus problemas e perderam suas noites de sono preocupadas demais comigo. As duas pessoas que acabaram sofrendo as consequências de tudo junto comigo e não era justo que eu estivesse fazendo isso com eles, não era justo fazer isso com meus próprios pais. Eu não tenho sido nada justa com eles e nem sequer percebi isso.
— Tudo bem. – respondi enfim, mais por eles do que por mim.
— Nós podemos ir amanhã mesmo, pode ser? – perguntou minha mãe animada vindo em minha direção e me dando um abraço.
— Pode. – permiti.
— Vai ser bom pra você, querida.
— Me desculpem por tudo isso. – pedi. – Eu não queria que tivessem de passar por isso. Me desculpem, por favor.
— Você não tem que se desculpar, filha. Nós amamos você. Tudo que queremos é seu próprio bem. – respondeu papai.
— Eu sei.
No dia seguinte foi estranho entrar no carro com minha mãe sabendo que estávamos seguindo em direção a um consultório psicológico. Eu não sabia o que esperar ou como seria, só tinha uma certeza: eu seria bem exigente quanto ao profissional que me atenderia. Quando chegamos à clínica me senti muito nervosa. Era como qualquer consultório médico, tudo muito branco, com uma tentativa forçada de passar tranquilidade. Não sei porque esses lugares tem sempre que ser assim.
Quando chegamos fomos recepcionadas por uma mulher que avisou que eu seria atendida de imediato e questionou se eu gostaria de entrar sozinha ou acompanhada de minha mãe. Essa talvez fosse a única certeza que eu tinha: eu jamais faria isso com minha mãe por perto. Mas quando a deixei na sala de recepção aguardando e segui a recepcionista, me senti exatamente com aquela sensação de quando somos crianças e nos perdemos dentro de um supermercado. Eu estava assustada. Muito assustada.
Assim que a recepcionista abriu a porta da sala para mim, avistei uma mulher de cabelos pretos lisos na altura do ombro, usando roupas formais.
— Você deve ser a Isabelle. – ela disse sorrindo abertamente e caminhando em minha direção.
— Eu mesma. – respondi também sorrindo, tentando parecer o mais simpática possível. Ela estendeu o braço em minha direção e demos um aperto de mão.
— Prazer em conhecê-la, Isabelle. Eu sou a Lisa.
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