Poltrona 19
49 Avanço ou regresso?
Notas iniciais
Eu entrei numa sala espaçosa e aconchegante. Suas paredes eram brancas, mas possuía uma decoração alegre que me transmitiu uma certa tranquilidade. Nas paredes haviam alguns quadros e em uma delas uma enorme janela de vidro tampada por uma cortina rosa bem clara. Uma mesa de vidro com uma luminária, um notebook e alguns papéis ocupava um dos cantos da sala, com uma cadeira estofada atrás de si e mais duas a sua frente. No outro canto da sala havia uma poltrona reclinada que me pareceu ser muito confortável e em sua frente uma outra menor.
Lisa me guiou justamente até a poltrona confortável.
– Fique a vontade, Isabelle.
Eu me deitei na poltrona e impressionantemente a única coisa que não me senti foi a vontade, não estava nem um pouco confortável com toda aquela situação. Eu estava em um consultório prestes a ser analisada e o assustador era que não se tratava de um consultório medico ou odontológico, era um consultório psicológico. Alguém estava prestes a tentar entrar na minha mente e entender o que se passa dentro dela. Seria possível alguém entender o quão atordoada ela está?
– Então Isabelle, meu nome é Lisa. Lisa mesmo, não é nenhum apelido. Eu tenho 39 anos e já atendo há 14. Trabalhei grande parte da minha carreira com psicologia hospitalar, atuando em instituições de saúde, e já faz alguns anos que estou atuando na psicologia clínica, sendo a maior parte dos meus pacientes adolescentes e jovens adultos. Você gostaria de saber algo mais sobre mim?
Neguei com a cabeça.
– Eu gostaria de saber um pouquinho sobre você, pode ser?
Assenti.
– Eu tenho 17 anos e to no terceiro ano do ensino médio. – comecei pelo óbvio. – Meus pais são separados e eu moro a maior parte do tempo com minha mãe. Tenho uma irmã mais velha de 21 anos, ela se chama Natália, faz faculdade de Nutrição e não mora mais com nós. Sou muito apegada com meus avós maternos, mas perdi meu avô recentemente.
– Você tem bastante contato com sua família?
– Bem mais com a por parte de mãe, minha família por parte de pai não é muito unida e grande parte não mora em Curitiba. Mas tenho um bom relacionamento com todos.
– Certo. Você disse que seus pais são separados e você mora a maior parte do tempo com sua mãe, mas você tem um bom relacionamento com os dois? – indagou Lisa.
– Sim. Na verdade eu diria até que tenho um relacionamento melhor com meu pai, porque ele é uma pessoa muito mais tranquila e negociável. Já minha mãe tem um temperamento muito difícil e a gente se desentende bastante, mas acho que isso é mais por ela ser muito superprotetora. – expliquei. – No mais não tenho problema com nenhum dos dois. Eu acabo passando mais tempo com minha mãe porque sou acostumada com nossa casa que é onde já morávamos antes da separação e porque meu pai já tem uma nova família, ele tem uma mulher e um enteado, enquanto minha mãe não. Principalmente depois que minha irmã saiu de casa senti que não podia deixá-la sozinha.
– Você se dá bem com a família nova do seu pai?
– Sim. – afirmei. – Eu já era grande quando o divorcio aconteceu e isso não me atingiu de forma negativa, entendi que meus pais não se davam mais bem e que seria melhor assim. Minha madrasta se chama Lilian e ela é uma pessoa muito amável, se manteve receptiva comigo desde o início e me tratou muito bem, foi fácil aprender a gostar dela. E o seu filho, o Nicolas, eu realmente aprendi a vê-lo como um irmão e o amo tanto quanto amo Natália.
– Ok Isabelle, me parece que você tem mesmo um bom relacionamento familiar e isso é ótimo. Uma boa base familiar é muito importante em diversos aspectos da nossa vida.
— Sim. – concordei.
— Você citou que é apegada aos seus avós e que perdeu seu avô recentemente, gostaria de falar sobre isso?
— Tem umas três semanas que isso aconteceu e foi num momento muito difícil pra mim. Não acredito que em algum momento estejamos preparados pra perder alguém que amamos, mas me pegou realmente de surpresa. E o que tem sido mais estranho pra mim é que minha família sempre teve o costume de se reunir em sua casa, tenho lembranças daquele lugar desde minha infância. Mas neste ano especialmente eu estive um pouco ausente, então é como se eu tivesse me acostumado com a ausência e agora quando vou lá, parece que ele ainda está lá em algum lugar. Eu sempre soube que ele estava lá e é como se ainda estivesse. Ainda não me parece real. Eu me lembro de ter sentido uma dor que possivelmente nunca senti antes durante seu enterro, mas foi apenas aquilo e eu tenho medo de não ter aceitado. Acredito que preciso de fato entender que ele se foi.
— De certa forma, Isabelle, essa sua ausência funcionou basicamente como funciona durante um luto crônico. Como quando uma pessoa morre após passar muito tempo enferma, é como se a família fosse vivendo o luto aos poucos. Ao final do processo, existe uma sensação de alívio ao mesmo tempo em que o enlutado pode sentir culpa por esse alívio experimentado. No seu caso, esse tempo afastados fez com que você fosse capaz de se acostumar com a ausência dele de forma que ela agora não te atinge tão profundamente e te causa um certo alívio pelo qual você está se culpando. Isso não é ruim, pensar que ele ainda está lá não é algo ruim, porque faz com que a representação de sua saudade se transforme em lembranças que oscilam entre o sentimento de falta e o carinho pela pessoa que se foi. O que você está fazendo de errado é transformar isso em culpa, a culpa de não ter passado ainda mais tempo com ele.
— É exatamente isso que sinto, que deveria ter passado seus últimos dias com ele, devia ter me importado mais com ele e menos com coisas banais. Sinto que deveria ter lhe dito muitas coisas.
— Um dos grandes problemas da morte é a despedida. O que mais nos dói é a falta de oportunidade de dizer adeus, mas precisamos entender que na vida é assim que funciona. A morte não tem hora e nem piedade, ela não espera o melhor momento. – disse Lisa. – A primeira coisa que você precisa fazer é parar de focar nos momentos não vividos e sim naqueles vividos. E a segunda é dar a si mesma a chance de dizer adeus, passar por um ritual que te faça ter a sensação de finalmente tê-lo deixado ir.
Olhei para ela esperando que ela me dissesse como fazer isso e ela de fato disse.
— Tenho uma ideia, que tal você escrever uma carta para ele, dizendo tudo o que gostaria de ter dito e se despedindo? – propôs.
— Pode ser. – aceitei. – Eu gosto de escrever.
— Gosta?
— Sim, escrevo diários desde que tinha 12 anos. Sou um pouco apegada a memórias e lembranças e sinto que essa é uma forma de mantê-las vivas. Todas elas.
— Isso é uma coisa muito interessante! – ela afirmou anotando algo na prancheta que tinha em mãos e eu permaneci em silêncio esperando que ela continuasse. – Então, Isabelle, e quanto aos seus amigos, me fale um pouco sobre eles.
Senti um nó se formar em minha garganta e engoli seco.
— Eu tenho duas melhores amigas, Leticia e Amanda. Nós nos conhecemos desde crianças. Posso dizer que elas sempre foram muito mais minhas irmãs que amigas.
— Há mais alguém de quem você queira falar?
Eu hesitei em responder, sem saber de fato se deveria falar de todos os outros.
— Acho que não... – respondi sem confiança e ela me olhou com mais curiosidade.
— Você tem tido algum problema com suas amizades?
— É complicado. – disse por fim.
— Você quer falar sobre isso? Se não quiser tudo bem, mas seria importante.
Eu percebi o que ela fez. Ela percebeu meu desconforto ao tocar neste assunto e insistiu, porque ela encontrou uma brecha pro problema que me levou até aqui. Afinal, ela precisa me fazer falar justamente sobre isso. Mas eu não estava pronta pra falar sobre isso.
— Parece bobo quando pensamos em dizer em voz alta. – confessei.
— Se nos faz mal por dentro, nunca é algo bobo. Independente do que seja.
Permaneci um bom tempo em silêncio pensando se deveria dizer ou não e Lisa respeitou isso. Cheguei a conclusão de que se não dissesse, eu teria ido até ali em vão. Seria como rasgar o dinheiro da minha mãe e tacar no lixo, porque eu continuaria estacionada na estaca zero. Então respirei fundo e procurei pela melhor forma de dizer, não encontrei. Contei como consegui.
— Tudo começou no início do ano quando fui mudada de sala no colégio. Fui afastada dos meus antigos amigos e conheci novos, mas até aí tudo bem, eu me adaptei fácil. Inclusive, muito mais fácil e rápido do que imaginava. Acontece que também conheci um garoto chamado Gabriel e nós fomos nos conhecendo, se envolvendo e me lembro de começar a gostar dele tão rápido que nem sei quando nem como exatamente aconteceu.
“A primeira coisa que preciso deixar claro é que ninguém nunca me apoiou quando descobriram que eu fiquei com ele. Me alertaram o tempo todo de que ele era o típico cara galinha que nunca valeu nada, principalmente Leticia. Mas é que ele não parecia ser esse cara quando estava comigo e eu não imaginava o que de tão ruim poderia acontecer me entregando a algo que eu queria muito, mesmo que ele de fato fosse esse tal cara.”
“Justamente por não ter tido apoio eu acabei caindo na dele quando ele me pediu para que tentássemos ter algo sem que ninguém soubesse e fechei os olhos pra verdade que estava escancarada na minha cara, por inúmeros motivos. O primeiro é que eu realmente aprendi a gostar dele. O segundo é que ele era um garoto-problema e eu acreditava que a resposta pra todo o seu jeito e tudo que ele fazia estava nisso. O terceiro é que me envolvi nisso de forma que acreditava um dia ser capaz de concertar toda sua vida. E por último, é que talvez no fundo, eu sempre quis provar pra todos que eles estavam errados. Mas não estavam.”
“E bom, pra ser bem direta no final das contas eu descobri que ele me enganou durante todo o tempo. Ele estava apenas fazendo algum tipo de joguinho doentio comigo e Amanda, em que ele estava ficando com nós duas ao mesmo tempo e mentindo, enganando e iludindo as duas. Eu descobri tudo no dia do aniversário de Amanda, quando peguei os dois no flagra. E foi tudo muito dramático. Eu fiquei arrasada. Amanda ficou arrasada. Leticia ficou furiosa por ter se sentido traída por mim. Os amigos de Gabriel que também se tornaram meus amigos ficaram furiosos com ele. E desde então eu tenho estado sozinha.”
“E não sei bem como foi que cheguei no estado onde cheguei, mas acredito que o ser humano passa por diversas momentos durante sua vida. Descobri a existência de um deles que é deplorável, pior que qualquer período de depressão intensa, é o que denominei por vazio. Um momento em que há uma inexistência do sentir. É quando você está sufocado, mas não sente tristeza, não sente alegria. Não sente vontade de sorrir, nem de chorar. É o momento em que você se encontra sufocado pela falta do que sentir.”
“O que torna este momento pior que qualquer outro, é o que ele causa. Você acorda um dia e percebe que sua vida está ligada a mera sobrevivência. Você vive em estado automático, sem esperar por nada, sonhar com nada, acreditar em nada. Você continua respirando, porque é assim que a vida dita que tem que ser, mas você não tem um porquê para respirar e sinceramente não se importa com isso. Bem, é assim que tenho me sentido. Como se todas as cores dentro de mim tivessem desaparecido pouco a pouco e tivesse sobrado apenas um cinza. E, sabe? Eu nunca gostei de cinza.”
Eu soltei tudo de uma só vez, porque sabia que se parasse por um mísero segundo, que fosse apenas para respirar profundamente, eu não conseguiria continuar.
— Vamos tentar pensar em tudo aquilo que você manteve preso dentro de você até chegar nesta situação. – pediu Lisa. – Quais eram esses sentimentos?
Tantos que me perdi entre eles.
— Raiva. Por ter sido enganada, por ter sido estúpida e ingênua. Mágoa. Por esses mesmos motivos, mas acima de tudo por ter amado tanto Gabriel e ter feito tanto por ele. Decepção. Por Leticia ter me abandonado mesmo que ela tivesse motivos pra isso, porque ela era a única pessoa que eu esperava que continuaria ao meu lado independente de qualquer coisa. Desamparo. Por me sentir tão sozinha. Vergonha. Por não saber como encarar as pessoas depois de tudo isso. Impotência. Por ter me desestruturado tão facilmente.
— São muitos sentimentos pra uma pessoa sentir você não acha?
Concordei com a cabeça sem olhar para ela.
— Então por que acha que é bobo? Porque eu não vejo como isso poderia ser. – ela replicou. – É só pensar em tudo isso como uma mochila que você carrega nas costas. Coloque lá dentro um objeto pesado e será um pouco cansativo caminhar. Adicione outro objeto e ficará bastante difícil continuar. E adicionando ainda mais objetos, não importa se mais leves ou mais pesados, chegará um instante em que suas pernas não terão mais forças para suportar e então, se torna impossível dar sequer mais um passo a frente. E não adianta virar a mochila de cabeça pra baixo e atirar tudo ao chão. Nós precisamos nos livrar desses objetos pouco a pouco, um por um.
— Eu não sei se consigo.
— Acreditar é o primeiro passo. – incentivou Lisa.
Suspirei sem saber o que fazer. Olhei para o lado e avistei um relógio sobre sua mesa demarcando que nossa sessão estava próxima do fim. Eu precisava decidir o que faria.
— Por que você fez psicologia? – indaguei voltando minha atenção para ela.
— Pelo mesmo motivo que continuo trabalhando. – ela respondeu. – Nos últimos 14 anos acompanhei pacientes de todas as idades com todos os tipos de problemas. E minha satisfação ao deitar a cabeça no travesseiro todas as noites é saber que eu posso ser a pessoa a fazê-los querer ver o sol mais uma vez.
Sorri sozinha pensando no quanto foi uma boa resposta e fiquei em silêncio por longos segundos apenas pensando.
— Quanto vai custar cada sessão e como funciona? – tornei a perguntar.
— Se você me prometer se comprometer a se ajudar, eu fecho um pacote com sua mãe. 400 reais a mensalidade, com um horário fixo pra você de 1 hora de duração em algum dia da semana que preferir, e então se você precisar me encontrar em qualquer outro dia fora do nosso horário não te cobrarei nada a mais. – propôs Lisa.
— Não é esse o valor que cobra normalmente, né?
— Não. – ela respondeu sincera.
— Por que faz tanta questão de me atender?
— Porque sinto que se não te convencer agora, ninguém mais vai.
Mais uma vez, uma boa resposta.
— Qual o horário mais tarde que você tem as segundas?
— Às 18h.
— Ok, segundas, às 18h. – me rendi. Ela abriu um enorme sorriso.
Ela me explicou como funcionaria a forma de pagamento, disse que minha mãe poderia acertar diretamente com a recepcionista e antes que eu fosse embora ainda disse algo.
— Posso te indicar a leitura de um artigo? – pediu.
— Claro.
— Se chama “Como viver um luto” do Contardo Calligaris, ele é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Talvez você possa gostar!
— Obrigada. – agradeci.
Naquela noite antes de dormir, de fato procurei pelo artigo e o encontrei:
“Qual é o melhor jeito de viver um luto? Agora que ele/ela morreu, agora que perdi a saúde, agora que a casa caiu, como é que eu faço para continuar com minha vida?
Quase sempre, quem coloca essa pergunta de fora (ou seja, pensando generosamente nas perdas dos outros ou em eventuais perdas futuras) parece acreditar num pressuposto pelo qual, antes de mais nada, quem perdeu um ente querido gostaria de sofrer quanto menos possível e pelo tempo mais curto possível.
Quando passamos por um luto, muitos amigos e parentes apostam no mesmo pressuposto e sugerem que a gente dê um jeito para se distrair e para "esquecer" logo.
Pois bem, o tal pressuposto é errado: "fazer o luto" nunca significa esquecer quem e o que perdemos –ao contrário, para "fazer o luto" e sair minimamente da "fossa" é necessário se lembrar.
Talvez isso aconteça porque se lembrar de quem morreu é um jeito de manter o morto em vida, dentro de nós; sei que essa observação pode parecer mais bonita do que verdadeira, mas aqui vai um exemplo.
Anos atrás, conheci uma senhora idosa, que acabava de perder o único filho (o qual, por sua vez, era jovem e celibatário). Ela ficara sem família alguma, sozinha no mundo; a vida não fazia mais sentido: logo daria um jeito de acabar "esta lástima".
Detesto mentir para consolar. O único argumento que me veio foi o seguinte: se ela se matasse, o filho morreria de novo, com ela, e desta vez definitivamente, pois não haveria mais ninguém para se lembrar dele.
Encontrei uma curiosa confirmação das minhas palavras, quando li uma crônica de David Eagleman, em "A Soma de Tudo" (Rocco): no Além, todos os mortos estão juntos até o momento em que, na Terra, seu nome é pronunciado pela última vez.
Quando isso acontece, alguém vem e leva o morto embora. Não se sabe para onde ele vai, mas a impressão dos que ficam na sala é que a morte verdadeira é aquela –quando chega a última vez em que o nome é pronunciado na Terra.
Por isso talvez, para todos os autores sérios que tratam do tema, o luto nunca seja esquecimento. E, quanto a mim, faço esforços propositais para me lembrar de meus mortos, para mantê-los naquela sala do Além, antes da chamada final.
Uma outra coisa com a qual quase todos os autores sérios concordam é a recomendação que o luto se expresse numa atividade concreta. Você pode fazer algo que a pessoa que você perdeu gostava de fazer ou que você fazia com ela.
Ou, então, criar algo que torne sólido, tangível o trabalho de sua memória –por exemplo, escrever um diário do luto, contando como ele ou ela lhe fazem falta, mas continuam na sua vida.
Boris Fausto, justamente, nos últimos três anos, depois de perder Cynira, a companheira de uma vida, escreveu o diário de seu luto: "O Brilho do Bronze" (Cosac Naify, R$ 39,90, 240 págs.), lançado em novembro.
Fazia muito tempo que não eu lia nada tão verdadeiro, tão honesto e tão justo. Terminei o livro numa sentada só e guardo ele ao alcance da minha mão; claro, é porque posso querer reabri-lo de vez em quando, mas não é só por isso: "O Brilho do Bronze" é uma obra companheira, como os "Ensaios" de Montaigne ou as melhores coisas de Roland Barthes –quero que o livro fique comigo e me acompanhe durante um tempo.
Talvez seja por causa do próprio luto, talvez seja por causa da idade (84 anos), mas o fato é que Boris Fausto escreve com a liberdade de quem não tem nada para esconder, nem de si mesmo.
Entende-se que livro seja um companheiro e amigo para qualquer um que esteja vivendo um luto. E não diga que ter amigos em carne e osso com quem conversar seria melhor do que ter um livro para ler.
O livro de Boris Fausto é mais sábio do que a média dos amigos. Além disso, uma grande parte dos nossos lutos são inconfessáveis e são vividos sem poder falar nada para ninguém: pense no luto de quem perde o homem da sua vida, que não é o marido –ou a mulher de sua vida, que nem a própria sabia que era.
Kenneth Doka, um famoso gerontologista da Faculdade de New Rochelle, em Nova York, descobriu a importância (quantitativa e qualitativa) dos lutos não autorizados ("disenfranchised"), que precisamos viver sozinhos, em silêncio – porque os sentimentos eram e devem continuar escondidos, porque a sociedade não leva a sério a perda que sofremos, porque o laço era de alguma forma vergonhoso e a dor seria uma confissão.
Enfim, com ou sem luto, o livro de Boris Fausto é um amigo para qualquer um que, por qualquer razão, esteja perdendo sua fé na escrita e na leitura.”
Ao terminar de ler de alguma forma eu soube que Lisa não o indicou apenas para que eu pensasse em meu avô, ela queria que eu entendesse que eu estava vivendo meu luto pelo meu amor por Gabriel. E eu precisava respeitar esse luto.
“Uma grande parte dos nossos lutos são inconfessáveis e são vividos sem poder falar nada para ninguém”.
***
Acordei sendo chacoalhada por minha irmã que me gritava euforicamente. Meu cérebro ainda não desperto completamente não conseguia acompanhar aquela Natália exaltada e entusiasmada a minha frente, repetindo palavras que não me faziam sentido. Então ela apenas me puxou da cama e saiu literalmente me arrastando pela casa até que estivéssemos paradas em frente a janela de vidro da sala. E eu finalmente entendi o que estava acontecendo.
Observei embasbacada flocos brancos caírem do céu sobre nosso jardim. O vento forte que atravessava a janela se chocava contra a pele de meus braços desnudos, mas não me incomodava. Eu estava admirada, presa àquele momento como uma criança. Estava nevando em meu próprio jardim, numa manhã de terça-feira.
Eu corri em direção a porta e sai para fora ao som dos gritos de minha mãe ordenando que eu voltasse já e vestisse uma roupa adequada para não adoecer, mas apenas ignorei. Corri para a rua onde avistei alguns dos vizinhos também maravilhados com o acontecimento. Eram poucos os flocos, mas ainda era surpreendente. Sabíamos que acabaria depressa e talvez fosse por isso que parecesse tão mágico. Não é algo que se acontece sempre e eu tive a chance de estar presenciando aquele momento.
Olhei para cima e fechei os olhos, sentindo a neve atingir meu rosto e pela primeira vez em semanas senti algo verdadeiramente bom dentro de mim. Senti algo que havia me esquecido de como era a sensação. Me senti feliz. Me lembrei de algo que costumava saber, sobre como são as pequenas coisas que nos lembram como é bom estar vivos e agradeci com todo o meu coração, aquele breve e simples momento.
Como imaginávamos a neve não durou por muito tempo. Então voltei para dentro, vesti uma roupa quente e peguei uma mochila. Quando passei pela sala encontrei minha mãe vestida para trabalhar, segurando uma xícara de café nas mãos e assistindo ao telejornal que noticiava ao Brasil que após 38 anos, os curitibanos voltaram a ver neve nesta manhã.
“De acordo com o Instituto Meteorológico Simepar, a neve foi registrada em alguns bairros da cidade por volta das 8h, quando a temperatura era de 2ºC. Além de Curitiba, algumas cidades da Região Metropolitana como Araucária, Campo Largo e Lapa, também foram atingidas pelo fenômeno metereológico. Em São José dos Pinhais, a Infraero confirmou a ocorrência de neve no aeroporto Afonso Pena. Ainda segundo o instituto, deve ser difícil a ocorrência de mais neve, já que a área de instabilidade que favoreceu o fenômeno começou a se deslocar para o leste”, anunciava a jornalista.
— Mãe, estou saindo. – avisei.
— Onde você vai? – ela indagou.
— Até a casa da vovó.
Estava fazendo frio. Frio pra caralho. Era definitivamente o dia mais frio do ano. E eu caminhei encolhida dentro de dois casacos, arrependida por não ter vestido um terceiro. Tentando em vão esquentar minhas mãos trêmulas dentro dos bolsos. Vendo uma fumaça branca sair de minha boca sempre que arfava.
Vovó me recebeu com um sorriso no rosto, pão de queijo quente, um copo de leite com achocolatado e a história de como ela e o vovô presenciaram a última vez que nevara em Curitiba, em 17 de julho de 1975.
— Tudo começou no dia anterior quando fez um frio insuportável, e pela madrugada, por volta das 5h, surgiram os primeiros flocos. A nevasca causou uma espécie de festa na cidade. – contava vovó. – As ruas estavam diferente, estavam mais cheias de gente. Gente feliz, encantada. Nevou por toda parte o dia todo. Haviam muitas pessoas pobres e houve quem morresse de frio, mas nada esmoreceu a alegria coletiva provocada por aquela manhã.“Infelizmente o acontecimento não gerou só alegria, enquanto as pessoas se divertiam com a neve na cidade, a geada estava destruindo os cafezais no interior. O acontecimento ficou conhecido como geada negra, por ter sido uma geada escura e que queimou totalmente os pés de café plantados na época, gerando um grande desespero entre quem trabalhava nos cafezais.”“Mas para mim e seu avô foi sim só alegria. Nós nos divertimos, tomamos algumas doses para nos aquecer e compartilhamos aquele momento que ficou gravado eternamente em nossa memória. Na nossa época, as coisas não funcionavam como são hoje e ter a chance de presenciar algo assim, que só acontecia do outro lado desse nosso mundo, fora magicamente fantástico.”Enquanto contava ela me mostrou uma foto sua com meu avô no meio de toda aquela neve, no centro da cidade. Os dois abraçados sorrindo verdadeiramente. E ainda me mostrou um jornal que havia guardado, da Gazeta do Povo, onde sua matéria principal era “Neve maravilha os curitibanos”. Achei incrível ter um pedacinho da história em minhas mãos.Tudo aquilo me inspirou ainda mais a fazer o que havia ido fazer ali. Me sentei no balanço enferrujado do jardim, com meu diário em mãos e comecei a escrever.
“Oi Vô,
Pra ser bem sincera, não sei como começar essa carta, não sei ao certo nem ao menos o que quero escrever, então vou deixar apenas que as palavras saiam de dentro de mim.
Tenho pensado em você desde que se foi. Quase sempre quando estou com a vovó. Tenho passado mais tempo com ela. E, sabe? Nunca tive tanta certeza de que ela é a mulher mais guerreira que já conheci. Vovó não quis deixar essa casa, não quis se mudar e ir embora. E não é porque está de alguma forma desesperadora se agarrando às memórias. Ela apenas garante que este é seu lar. E ela está bem. Com o meu sorriso no rosto. A mesma disposição pra aguar suas plantas e cuidar delicadamente de seu jardim, pra ir a feira comprar os legumes mais frescos e não dar tempo da poeira se ocupar de algum espaço. Inclusive, a casa continua cheirando a rosas.
Tive um pouco de dúvida para entender como isso era possível, até hoje. Ontem a noite li um texto que falava sobre como somos nós os responsáveis por mantermos vivas as pessoas que se foram. Mas aqui, dentro de nós. E eu olho pra ela, vô, e vejo o quanto você está vivo dentro do seu coração. E é por isso que este fora o momento perfeito pra eu escrever essa carta.
Senti um pouco de culpa nas últimas semanas, por ter estado tão ausente contigo em seus últimos momentos. Pensei em como gostaria de ter compartilhado mais lembranças e principalmente no quanto estava ocupada com coisas e pessoas que julguei serem erradas. Mas, vô, eu estava amando, e eu sei que você jamais me culparia por isso. Muito pelo contrário. E eu resolvi me perdoar. Resolvi porque me lembrei daquele último domingo que estivemos juntos e tive certeza de que você sempre soube o quanto eu te amava. Resolvi porque esse amor ainda vive dentro de mim tanto quanto vive dentro de vovó. E é por isso que eu não precisava ter dito adeus. Não é um adeus. Você ainda é uma parte de mim e sempre será.
Gostaria apenas de agradecer pela vida feliz que proporcionou a mim e a todos que tiveram a sorte de lhe conhecer. Você foi um grande homem, o homem que gostaria de ensinar meus filhos a ser. Mas mais do que isso, você foi capaz de me fazer ver o quanto o amor é o sentimento mais bonito que existe dentro de nós.
Por isso, por uma última vez: Te amo.
Obrigada por tudo.
Um beijo, da sua Isa.”
Ao terminar de escrever apertei o papel contra meu peito e sorri enquanto uma lágrima solitária desceu pelo meu rosto. Vovô havia finalmente ido e meu coração estava em paz.
***
Naquele mesmo dia ao chegar em casa eu estava impressionantemente feliz e talvez tenha sido por isso que não me incomodara com a ideia repentina de minha mãe de fazer um jantar lá em casa no final de semana. Apenas aceitei quando ela propôs.
— Mas você quem vai cozinhar? – ainda zombei.
No sábado eu me arrependi no exato momento em que minha mãe apareceu no quarto anunciando que eu deveria vestir uma roupa bonita pois seria um jantar formal. Tudo que eu queria era continuar com meu pijama, mas me rendi e me arrumei.
As primeiras pessoas que chegaram foi Natália e Marcos. Em seguida papai e Lilian, e logo atrás deles, Nicolas entrou acompanhado de Barbara. Sim, você leu corretamente. Eu posso dizer que meu queixo literalmente caiu. Senti um misto de emoções enorme ao vê-los de mãos dadas. Primeiro surpresa, depois felicidade e por último... Inveja.
— Dá pra vocês me explicarem o que está acontecendo aqui? – pedi eufórica abraçando os dois.
— Nós estamos namorando. – respondeu Nicolas.
— Ai! Meu! Deus! – exclamei. – Estou imensamente feliz por vocês! Meu deus! Eu fiz esse casal acontecer!
Eu estava de fato feliz em vê-los juntos, porque tinha certeza de que eles fariam imensamente bem um para o outro. Só tinha uma coisa martelando na minha cabeça: eles transaram? Eu perguntaria isso na primeira oportunidade que tivesse.
Nós embalamos em uma conversa animada que durou algum tempo e de repente comecei a perceber uma movimentação estranha. Primeiro vi minha mãe cochichando com Natália. Depois a vi conversando com meu pai em um canto e ela parecia um tanto quanto aflita. Sua conversa foi interrompida pela campainha tocando, o que não entendi, pois não havia mais ninguém para chegar.
Me levantei na intenção de ver quem era e um homem de roupa social atravessou a porta, o qual mamãe cumprimentou com um beijo no rosto. Ela se virou para mim, sorriu apreensiva e meu cérebro não precisou mais que isso para entender de imediato o que estava acontecendo. Foi como somar 1+1. O comportamento diferente dela há meses, as saídas que aumentaram significativamente e o fato de ela estar sempre preocupada com onde deixou seu celular.
— Isabelle, eu quero te apresentar uma pessoa. – ela anunciou se aproximando de mim com o homem a seguindo. – Esse é o Marcelo.
— Oi Isabelle, é um prazer finalmente conhecê-la! – disse o tal Marcelo estendendo a mão em minha direção, mas continuei apenas encarando sua cara sem saber exatamente qual era minha expressão. Quando percebeu que eu não o cumprimentaria apenas abaixou o braço sem graça.
— Quem é ele? – perguntei olhando diretamente pra minha mãe e ignorando completamente qualquer outra presença.
— Querida, Marcelo é um cliente que atendi um tempo atrás, depois que concluímos seu caso tivemos alguns encontros... – ela começou a explicar, mas parecia não encontrar as palavras certas. – E agora achamos que é o momento de assumir um relacionamento, por isso queria que o conhecesse.
— Vocês estão namorando? – perguntei com a voz um pouco mais alterada do que pretendia.
— É, acho que sim.
Eu olhei dela para o cara a minha frente e não sabia o que exatamente estava sentindo por dentro. Minha mãe estava namorando. Namorando um estranho qualquer que de repente começaria a frequentar minha casa e seria um intruso na minha vida. Então eu olhei para o meu pai e todas as pessoas que estavam ali e percebi algo.
— Vocês já sabiam disso? – perguntei olhando diretamente para o meu pai.
— Sim, querida. – papai respondeu com sua calma de sempre e impressionantemente isso despertou em mim a raiva que eu estava esforçando para conter. Muita raiva.
— Você contou pra todo mundo antes de contar pra mim? – perguntei à minha mãe.
— É que você tem passado por um momento difícil, minha filha, não queria te incomodar com esse assunto.
Eu estava com tanta raiva que tive de apertar minha mão com força para me conter, de forma que senti minhas unhas se enfiando em minha pele. Minha mãe estava escondendo coisas de mim, assim como toda minha família. De repente eu não fazia mais parte de nada.
Eu fiquei parada tentando respirar e percebi como todos me olhavam como se eu fosse uma criança dando chilique. E apenas, unicamente, por querer sair por cima sem parecer uma garotinha mimada, da forma mais seca possível, disse:
— Eu gostaria que o jantar fosse servido, por gentileza.
Segui em direção a mesa de jantar e me sentei em meu lugar de sempre, sem me importar com qualquer disposição de pessoas. Pouco a pouco todos foram se sentando e eu não tirei meu olhar do meu próprio prato por nenhum segundo até que toda a comida estivesse sobre a mesa. Alguém havia tido a ideia de puxar assunto na tentativa de aliviar a tensão do clima e eu me foquei em ignorar e me servir.
Tentei ao máximo ficar quieta no meu canto, mas as pessoas insistiam em socializar com o estranho sentado em minha mesa e minha raiva só aumentava.
— Minha mãe disse que você é economista, né? Mas o que exatamente você faz? – perguntou Natália.
— Eu atuo em um banco, então acompanho a conjuntura econômica, realizo estudos de mercado para identificar novos clientes, proponho e analiso projetos, avalio a concorrência, o planejamento e a programação empresarial frente aos planos econômicos e ainda mantenho contato com órgãos públicos.
– A pressão deve ser muito grande! – observou Lilian.
– Com certeza, mas costumo dizer que o salário de um economista é medido justamente pela pressão que ele sofre no trabalho, quanto menos se tem o que fazer menos é o dinheiro que cai na sua conta no final do mês. Então eu ganho muito bem e gosto muito do que faço! – respondeu o cara e eu revirei os olhos.
Eles emendaram em uma conversa animada sobre trabalho, futuro e um monte de coisas para as quais eu não estava dando a mínima, acompanhados de um bom vinho e o melhor cardápio que minha mãe já preparou pra alguém. Olhei pro rosto de cada uma daquelas pessoas: Meu pai e Lilian. Natália e Marcos. Nicolas e Bárbara. Minha mãe e Marcelo. Todos felizes.
— Com licença, perdi o apetite. – anunciei me levantando da mesa abruptamente e segui em direção ao meu quarto. Já no corredor ouvi a voz de meu pai me chamando e me virei para trás. – Apenas continue o jantar feliz de vocês. Eu não vou voltar pra mesa, não quero jantar, não quero conversar e não quero ninguém me enchendo o saco. Então apenas me deixe sozinha e não tentem bater na porta do meu quarto.
Dito isso voltei ao meu quarto e me joguei sobre minha cama onde comecei a chorar. No fundo eu sabia que estava agindo estupidamente. Eu sempre fui a primeira pessoa a apoiar minha mãe a seguir sua vida e ser feliz, mas infelizmente tudo aconteceu num momento muito errado. Era como se a vida de todos estivesse bem e em seu devido lugar e eu ficasse cada vez mais para trás.
E por causa de uma coisa tão boba, eu regredi tudo que havia avançado.
Não falei com mais ninguém pelo resto do final de semana. A única palavra que troquei com minha mãe foi quando ela bateu na porta do meu quarto no final do domingo para intensificar ainda mais meu desespero.
— Eu só preciso saber se você vai a aula amanhã. – disse mamãe e eu senti um frio percorrer minha espinha. Foi difícil fazer a voz sair da minha boca, mas eu consegui responder.
— Sim.
Me arrependi antes mesmo de terminar de pronunciar aquelas três letras.
Na segunda, ao abrir os olhos, pela primeira vez em semanas eu fui capaz de sentir um sentimento bem forte dentro de mim: pavor. Senti pavor de me levantar e lavar o rosto com a água fria escorrendo da torneira. Tão fria quanto a realidade. Tão fria quanto o rosto que encontrei no reflexo do espelho.
Confesso que não sei o que me amedrontou mais, olhar para aquele reflexo e perceber que não sei mais quem sou, ou quem serei. Eu precisava de uma fantasia para vestir e encarar aquele pavoroso dia, mas quanto mais eu olhava dentro dos meus próprios olhos, mais eu tinha certeza de que não queria ser como Gabriel. Fingir ser alguém que não sou.
Abri o armário ao lado do espelho e peguei o delineador preto que permaneceu guardado por tanto tempo. Demarquei pálpebras caídas, olheiras fundas, de um olhar vazio. Penteei meus cabelos com calma, desfazendo nós que eu sabia que uma hora ou outra sempre se refazeriam. Exatamente como funciona a vida. Observei os fios dourados terminarem na altura do meu umbigo e pensei que talvez fosse o momento de cortá-los. Assim como de cortar velhos hábitos e costumes que podem ou me fazem mal.
Escovei meus dentes e voltei para o quarto a passos lentos. Segurei minha camiseta de uniforme nas mãos por muito tempo olhando para o símbolo do colégio. Não imaginava que algum dia aquele lugar se tornaria o maior pesadelo que eu enfrentaria. Vesti a camiseta, coloquei uma calça, um casaco e calcei um tênis qualquer. Peguei minha mochila há tanto tempo abandonada e a coloquei nas costas.
Quando cheguei na cozinha minha mãe havia preparado todo um café da manhã para mim numa tentativa falha de me animar o mínimo que fosse e cheguei a me sentir mal quando acabei com seu sorriso ao dizer apenas “estou sem apetite, podemos ir logo?”. Não vi sequer se ela concordou, apenas caminhei até o carro e me sentei no banco do passageiro. Coloquei meu cinto de segurança e segurei as laterais do banco. Dentro daquele carro, sozinha, sabendo o que me aguardava, senti que não seria capaz. Eu não conseguiria passar por tudo aquilo.
Eu tentei segurar o choro pra não borrar todo meu delineador, mas quando percebi já estava limpando as manchas com as mangas do meu casaco. Ao ouvir minha mãe abrindo a porta do motorista tentei ao máximo me recompor, mas não consegui.
— Isabelle... – ela começou a dizer, mas a interrompi.
— Dirige, mãe, apenas dirige.
Existem alguns momentos na vida em que não temos força, mas precisamos ter. E eu soube que precisava, porque percebi que se eu não fizesse aquilo, eu não conseguiria mais. Não conseguiria tentar. Não conseguiria me recuperar. Não conseguiria simplesmente seguir em frente. Soube que se eu descesse daquele carro e voltasse para dentro do meu quarto seria meu fim. De alguma forma eu soube que aquela simples decisão era o que me separava de um suicídio. Naquele momento eu pensei em suicídio.
Algum tempo atrás eu costumava acreditar que era capaz de entender o quanto pode ser doloroso e devastador ter uma mente doente, mas eu não era. Me lembro de imaginar que tudo de ruim acontece apenas em noites sombrias, de solidão e silêncio. Não imaginava que quando de fato atingimos o insuportável em nosso íntimo, é a vida quem se torna sombria e não apenas as noites, de modo que em plena luz do dia e mesmo acompanhado, você pensa em algo assim.
Parecia a única forma de escapar de tudo. De tudo que tenho sentido, de tudo que ainda vou sentir. De ter de encarar a vida, principalmente quando ela tem sido tão cruel para mim. Mas mesmo quando tudo parece absolutamente horrível, mesmo naquele momento, enquanto eu chorava tanto que mal conseguia enxergar qualquer coisa a minha frente, algo dentro de mim não queria que aquela fosse a última vez que eu visse o sol, não queria que eu desistisse antes de saber tudo que ainda me espera. Eu me esforcei com todo o meu ser para me lembrar de todas as coisas puras que existiam dentro de mim quando eu era apenas uma criança e eu quis sentir tudo aquilo novamente. Eu queria tanto ser feliz de novo. Existia algo dentro de mim chamado esperança e eu descobri que a esperança pode ser o sentimento mais cruel que existe, mas talvez seja o único capaz de salvar vidas.
Ao perceber que estávamos nos aproximando do colégio pedi que minha mãe parasse o carro um quarteirão antes. Ela estava extremamente preocupada e eu não conseguia sequer acalmá-la, porque eu estava ocupada demais tentando me acalmar. Limpei meu rosto o máximo que consegui e não havia nada que eu pudesse fazer em relação a vermelhidão de meus olhos e bochechas, então apenas desci do carro do jeito que estava. Quando desci senti que minhas pernas falhariam comigo e eu não conseguiria andar. Precisei de tempo para conseguir e cada passo que dava parecia que alguém me acertava com um punhal nas costas.
Foi quando avistei a multidão de alunos ao longe que tive de me encostar num muro. Me senti como uma criança com asma que necessitava urgentemente de ajuda pra simples missão de apenas respirar. Continuei encostada ali até me tocar de que logo o sinal tocaria e que era muito melhor que todos me vissem de uma vez do que ter de passar por isso de novo. E não sei como eu consegui voltar a andar e seguir rumo àquela multidão. Juro que realmente não sei.
Quando estava próxima o suficiente para que as primeiras pessoas me avistassem, seus olhares se fixaram em mim. Percebi que todos se calavam instantaneamente apenas para me observar e logo em seguida trocavam olhares com quem fosse que estivesse ao seu lado. Parecia de fato um pesadelo e eu me senti como uma garotinha amedrontada, desejei mais do que em qualquer outro momento que meu pai estivesse ali segurando minha mão e meu mundo também de certa forma. Abaixei a cabeça na tentativa de ignorar os olhares e adentrei o colégio.
Enquanto atravessava o pátio o sinal tocou e percebi que mesmo assim ninguém se moveu. Era como se eles assistissem a um espetáculo e aquela fosse a cena principal, o clímax do roteiro, ninguém perderia por nada. Eu era literalmente o foco de atenção de todo o colégio e percebi que continuar de cabeça baixa seria pior, então a ergui e fui muito mais valente do que jamais imaginei que seria. Atravessei um mar de pessoas que me encaravam com expressões diversas: surpresa, curiosidade, pena, deboche. Não foi fácil em nenhum momento, mas percebi que aquilo era fichinha pro que ainda me aguardava, quando vi rostos conhecidos na porta da minha sala.
Senti enjoo instantaneamente e cheguei a pensar que vomitaria no meio do corredor. Continuei andando até que finalmente cheguei na porta e eu juro, juro, que cada mínima pessoa dentro daquela classe me olhou e um silêncio absoluto se formou. Ninguém se mexia, ninguém falava nada. Eu perdi alguns segundos encarando essas pessoas e então procurei por rostos conhecidos. A primeira pessoa que enxerguei foi Bárbara e na carteira ao seu lado, ali no primeiro lugar de uma das fileiras, estava Gustavo. No meio da sala enxerguei Carol. Em seu lugar de sempre estava Bruno. E por fim, meus olhos finalmente alcançaram Gabriel, sentado onde sempre sentou, na carteira ao meu lado.
Seu olhar encontrou o meu e eu paralisei, queria andar mas minhas pernas não me obedeciam, queria olhar para outra direção mas não conseguia. Meu corpo simplesmente não respondia aos meus estímulos. Ele estava bem. O cabelo arrumado, usando um de seus moletons preferidos e seu típico copo térmico de café sobre a mesa. Deixando bem claro que durante todo o tempo em que minha vida parou por ele, a dele continuou como se nada tivesse acontecido.
Foi apenas quando senti uma mão em minhas costas, que pareceu me dar um choque e me trazer de volta a realidade que me movi. Olhei para o lado e avistei o rosto de Marise sorrindo gentilmente para mim.
— Bem-vindos de volta, pessoal! – ela anunciou e eu comecei a andar sem saber exatamente o que estava fazendo. Sei apenas que não segui o caminho que comumente seguia, ao invés disso me direcionei até um dos únicos lugares vazios que meus olhos encontraram, na última carteira da penúltima fileira do outro lado da sala. Bem longe de Gabriel.
Os olhares me acompanharam e pareceu que eu havia criado algum tipo de tensão no ar. Parecia que eu havia tirado todas as coisas do eixo e tudo estivesse fora de seu devido lugar. E de fato estava. Ali do fundo observei Gustavo e Carol sentados em lugares diferentes de onde comumente sentavam e me perguntei se eles estavam conversando com Gabriel, no que havia acontecido com todos eles. Ao desviar o olhar ainda haviam curiosos me olhando e percebi que ou eu tomava alguma atitude ou isso não pararia tão cedo.
— Perdeu alguma coisa aqui? – perguntei com minha maior cara de bosta olhando para um alvo qualquer que acabou sendo Tatiane.
— Não. – ela respondeu sem graça e o resto da turma entendeu o recado porque se viraram instantaneamente para frente e se focaram em Marise.
Eu poderia dizer que os primeiros cinquenta minutos foram difíceis, mas os primeiros cinquenta segundos que foram. Os próximos cinquenta foram insuportáveis. Eu peguei meu material e tentei ao máximo me focar na aula. Eu precisava me focar em qualquer coisa que fosse, mas falhei na missão. Havia um zumbido em minha cabeça que não me deixava ouvir nada do que Marise falava e minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia copiar a matéria. Por fim desisti e me foquei apenas em não olhar para Gabriel. Era a única coisa que eu precisava fazer.
Os dois primeiros horários se passaram com a lentidão que se espera que passe quando você olha as horas de minuto em minuto e quando o sinal do intervalo tocou minhas mãos suaram. Todos começaram a se levantar e sair da sala, mas não antes de olhar mais uma vez para mim, é claro. Eu fingi estar escrevendo alguma coisa, até que um barulho me chamou atenção.
Olhei para o lado e avistei Gabriel jogando todas as suas coisas dentro da mochila. Ele a pegou e saiu da sala empurrando quem fosse que estivesse a sua frente, inclusive Bruno. Percebi Bruno olhar para Gustavo e depois para mim, mas ele nem sequer sorriu. Não vi nada em seu olhar. Então ele o desviou e também saiu da sala.
Abaixei a cabeça com vontade de chorar porque de repente senti como se de fato ninguém me quisesse ali. E foi exatamente o que fiz. Chorei com o rosto escondido durante os poucos minutos que tive sozinha, com uma única certeza: Eu realmente não conseguiria continuar ali. Eu teria de mudar de colégio. Talvez fosse mesmo melhor assim. Poder recomeçar de um lugar onde ninguém me conhece, fazer novos amigos, me dedicar mais aos estudos. Tentar imaginar um futuro.
Não sei como eu consegui aguentar até o final daquela manhã, mas meu maior alívio foi quando o sinal indicando o fim das aulas tocou. Eu só deveria ter imaginado que se tratando da minha vida, as coisas não tinham acabado.
Esperei o movimento passar, guardei meus materiais na mochila e sai da sala. Estava atravessando o pátio quando tudo aconteceu.
— Olha ela aí... – ouvi uma voz feminina logo atrás de mim e estremeci. Infelizmente eu conhecia aquela voz. Respirei fundo e continuei andando na tentativa de fugir de tudo que aconteceria a seguir, mas é claro que foi em vão. – Onde você pensa que ta indo? A valentona ta fugindo? Não é você que é muito mulher? Vira aqui pra mim então, idiota.
Meu sangue subiu e eu me virei. Bianca me olhava com um sorriso sarcástico no rosto e já haviam pessoas nos observando atentamente esperando por qualquer coisa que as distraísse. Ataques verbais ou físicos, tanto faz, elas só queriam um show para entretê-las. Isso é doentio.
— Você não imagina o quanto é bom olhar pra você e ver estampado na sua testa a palavra “trouxa”. – zombou Bianca. – Afinal, você se achava muito melhor que eu, não é mesmo? E olha só, você foi muito mais idiota, muito mais usada, muito mais humilhada. Aliás, eu até admiro sua coragem de aparecer aqui depois de tudo, Isabelle.
Eu fiquei apenas calada ouvindo tudo que ela dizia sem força pra rebater nada. Eu rebateria com o que? Ela não estava dizendo mentiras.
— Só me responde uma coisa... – ela continuou. – Você não achou mesmo que um cara como o Gabriel pudesse gostar de você, né? Você nunca foi ninguém, querida. Nunca vai ser. Você não é nada. Ta me ouvindo?
Eu tive que me esforçar tanto pra não chorar que tive medo de que as pessoas percebessem meus olhos cheios de água.
— Eu lembro de como você andava por aí se achando a garota especial, a garota que seria o amor da vida de Gabriel e meu deus... – ela começou a rir. – Isso é engraçado em proporções inimagináveis. Acho que agora deu pra perceber que ninguém nunca vai gostar de você, né. Nem Arthur. Nem Gabriel. Nem ninguém.
E de repente, alguém simplesmente avançou na direção de Bianca. Foi tão rápido que me assustei. Por reflexo dei um passo para trás e logo em seguida o que vi foi Amanda segurando sua garganta com uma das mãos. Amanda tinha no rosto uma expressão que nunca vi antes, mas ela estava com raiva. Muita raiva.
— Eu vou falar só uma vez e eu espero que você ouça bem, Bianca. Tu não passa de uma garotinha mimada que não aguenta apanhar mais que alguns minutos e você sabe disso. E eu não to nem um pouco a fim de ficar debatendo com merdas como você, então eu vou deixar um recadinho bem simples e claro. Você vai deixar a Isabelle em paz. Não quero te ver perto dela ou então tu fica esperta, garota, que eu não vou te pegar não é dentro desse colégio não, eu vou te pegar lá fora. Porque aqui dentro você é muito mulher, quero ver lá fora. Se eu te encontro na rua, eu arrebento tua cara no meio sem medo nenhum dos seus papaizinhos. Será que deu pra entender? Ou vai querer pagar pra ver quem de nós é mais aqui?
Bianca negou com a cabeça e Amanda a soltou. A primeira reação de Bianca foi levar as mãos diretamente ao pescoço, onde estava visível marcas dos lugares em que as unhas de Amanda haviam se cravado.
— Sabe o que é deprimente em você, Bianca? É tu fazer tudo que faz por causa de macho. – disse Amanda parecendo verdadeiramente enojada. – Eu tenho realmente pena do lixo que você é.
Dito isso ela não veio até mim como eu esperava. Não me olhou. Não disse nada. Apenas foi embora. Mas pelo menos seu recado pareceu ter feito efeito em Bianca, porque ela também saiu andando sem passar sequer por perto de mim.
Só sei que senti falta de Amanda.
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