Notas iniciais
EI, VOCÊ AI, NÃO PASSA DIRETO SEM LER ISSO AQUI Você que comenta sempre Você que só comenta as vezes Você que nunca comentou Você que é leitor fantasma Você que tem preguiça de comentar Você que ta cansado de comentar e ter que esperar 137 dias por uma resposta Meu apelo hoje é pra TODOS vocês... Eu PRECISO que comentem esse capítulo. Seja com uma ou mil palavras! POR FAVOR, É IMPORTANTE! Eu tinha dito no twitter que montaria uma playlist pra indicar a vocês para que pudessem ouvir, mas enquanto eu mesma ouvia as músicas, fiquei pensando que tenho medo de escolher algo que acabe estragando o momento. Então só coloquem a playlist mais triste de vocês aí e BOA LEITURA! (Indico Stop crying your heart out e I'm outta time do Oasis)

Aquele era o meu conto de fadas.

Posicionada ao lado direito de Amanda, com Leticia ao seu lado esquerdo, cantávamos parabéns pra ela junto ao coro de pessoas que estavam ali. Todos os meus amigos, os nossos amigos. Ela estava mais feliz do que nunca a vi, com um sorriso largo nos lábios que explicitava bem isso. E sua felicidade fazia a minha.

– Não esquece de fazer um pedido. – a lembrei, quando ela estava prestes a soprar a vela do bolo. Amanda segurou minha mão, soprou a vela e depois puxou a mim e Leticia para um abraço.

– Eu já tenho tudo que preciso. – ela declarou.

"E os meus tão esperados 15 anos chegaram. Eu juro que achei que seria um dia normal. Tudo que tinha combinado é que sairia para jantar com meus pais, porque não quero eles gastando ainda mais dinheiro comigo, não com tudo que já estão gastando pra eu poder viajar pra Disney com as meninas. Então minha mãe me levou para ir ver minha avó e quando voltamos para casa, descobri que meus amigos haviam preparado uma surpresa pra mim.

Estavam todos eles ali, com a varanda decorada e usando até chapeuzinhos de festa. Todas as pessoas que eu amo se dedicando para fazer do meu dia algo especial. Todas as pessoas mais importantes da minha vida, me lembrando que ela só vale algo, porque os tenho comigo.

– Não esquece de fazer um pedido. – disse Amanda, assim que terminaram de cantar os parabéns.

Eu olhei ao meu redor, fechei os olhos e soprei a vela. Mas não pedi nada.

– Eu já tenho tudo que preciso. – declarei.”

Assim que o parabéns foi cantado, um mar de pessoas se juntou ao redor de Amanda para poder abraçá-la e soube que a perderíamos por um bom tempo. Eu sabia que ela deveria estar completamente animada com toda essa atenção. As vezes as pessoas não a entendem muito bem, mas eu entendo. Amanda é apenas alguém que se sente sozinha. Sua história se parece muito com a de Gustavo, a diferença é que cada um de nós lida de um jeito com determinada situação. Gustavo se tornou uma pessoa introvertida. Já Amanda alguém extremamente extrovertida, porque ela precisava se sentir notada.

Amanda é filha única. Ela sempre amou a escola mais do que qualquer coisa na vida, tudo porque é o lugar em que ela está sempre rodeada pelos amigos. Mas quando volta para casa, é apenas ela novamente. Sozinha. Quando criança o pai trabalhava o dia todo e a mãe além de trabalhar, fazia faculdade a noite. Ela mal via qualquer um dos dois, porque dormia antes da mãe chegar em casa e acordava cedo para a escola antes mesmo do pai acordar. Amanda nunca culpou seus pais por nada, porque eles nunca deixaram faltar qualquer coisa pra ela e sempre a amaram. A questão é que todos parecemos ter alguém nesse mundo, menos ela.

Me lembro de diversas vezes chegar em casa e deitar no colo de minha irmã quando precisava de um carinho, confessar a ela todas as coisas que não podia dizer a mais ninguém, compartilhar um dia de domingo. Amanda nunca teve isso. Era sempre ela, deitada sozinha no próprio quarto. E a pior parte é que a mãe dela sempre cobrou muito dela, em relação a tudo. Estudos, comportamento, personalidade. E por tudo isso, ela amadureceu muito mais rápido do que o restante de nós. Amanda se parecia com uma adulta ainda quando criança e os pais a tratavam como tal.

Foi assim que ela se tornou obcecada por ser perfeita em tudo que fazia, porque ela não queria decepcionar as expectativas dos próprios pais. Ela se tornou alguém com tanto medo de errar, que os erros a abalam mais do que normalmente faz com as pessoas. Amanda se desespera quando não sabe o que fazer. Ela foi a filha que os pais sonhavam, mas eles não percebem que esse amadurecimento forçado e prematuro, causou nela uma desestruturação emocional. Ela construiu tanto essa imagem de garota forte e independente, que no fundo, por dentro, ela foi se tornando alguém que carecia cada vez mais de atenção, carinho e suporte.

Me lembro de um dos momentos cruciais em sua vida. Sua mãe engravidou e seria uma menina. Havia tanto brilho nos olhos de Amanda enquanto ela acompanhava sua mãe em cada passo da gestação. Nos acompanhamentos médicos, na preparação do quarto, na compra de tudo que sua irmã precisaria. Até que quando sua mãe completou 7 meses de gravidez, sua bolsa estourou. Ainda não era a hora e tiveram que correr com ela pro hospital.

“Amanda finalmente dormiu, mas agora sou eu quem não consigo parar de chorar, enquanto a vejo tão abalada. Hoje ela me ligou aos prantos, estava no hospital. Sua mãe sofreu complicações na gravidez e foi obrigada a entrar em trabalho de parto. Mas com apenas 7 meses de gestação, as chances de tudo dar certo eram equivalentes a de tudo dar errado. Eu corri pro hospital para ficar com ela e foram as horas mais torturantes pelas quais tive que passar. Ninguém tinha respostas ou informação.

Até que em um determinado momento, a médica apareceu segurando um bebê no colo. Era a irmã de Amanda. Já dando seus últimos suspiros. Seu pulmão não estava completamente formado e ela não conseguiria sobreviver. Foi permitido que Amanda entrasse para ver sua mãe, que deixou que ela segurasse a criança até o ultimo momento. E Amanda viu a irmã morrer nos próprios braços.

Mais uma vez ela teve de ser forte pela própria mãe, que com certeza estava mais abalada que qualquer outra pessoa. Ela teve de ser forte pelo próprio pai, que teria de registrar no cartório uma criança morta, pois como ela nasceu viva, é obrigatório o registro. E teve de ser forte por si mesma, ao ver a enfermeira questionando porque a encubadora saíra vazia da sala de parto. O brilho do olhar dela, desapareceu. E eu só queria poder recuperá-lo de alguma forma.”

Suspirei vendo Amanda agora abraçar Carol. Sempre tentei mostrar todo o amor que sinto por ela. Sempre tentei dar todo o suporte que posso. Sempre tentei mostrar que ela não precisa enfrentar a vida sozinha, porque eu estou aqui com ela. Sempre estarei. Porque ela sempre esteve comigo. Nos momentos bons e principalmente nos ruins.

"Hoje talvez tenha sido o dia em que mais senti medo em toda minha vida. O telefone de lá de casa tocou em plena madrugada. Telefone tocando de madrugada nunca me causou boas sensações e não deveria causar mesmo, pois era a vovó implorando por socorro porque meu vô estava sofrendo um enfarto. Eu nunca perdi alguém próximo a mim e meu avô com certeza era. Ele sempre foi meu segundo pai e sempre me mimou como o verdadeiro coruja que é.

Nós poderíamos não chegar a tempo e pior ainda, poderia haver o que o hospital não possa fazer. Quer dizer, ainda há. Enquanto escrevo ele está lá dentro e não temos notícias nenhuma. Nada faz passar esse aperto aqui dentro do meu peito e o medo de que amanhã, eu não possa mais enxergar seu sorriso ou agradecer por todas as vezes que ele foi meu porto seguro. Principalmente porque olhar para minha vó e mãe, faz com que esse sentimento se torne triplamente pior.

Mas estou tão grata por Amanda. Eu liguei pra ela assim que tudo aconteceu e ela largou tudo para vir pro hospital. Ela não saiu de perto de mim por nem um segundo sequer e não me deixou perder as esperanças. Quando ela me diz que tudo vai ficar bem, por um breve momento realmente acredito nisso e esse aperto no peito diminui, porque eu sei que ela ta roubando um pouquinho da minha dor pra ela, só pra que eu sofra menos."

A próxima pessoa que Amanda abraçou foi Arthur. Ri sozinha pensando que ela realmente estivera comigo em todos os momentos ruins. Inclusive na hora de me ajudar a superar a primeira vez que partiram meu coração.

"Eu passei a noite pensando em tudo que aconteceu e chorando como qualquer garotinha que acredita no amor. Pensando em como ele me beijou com tanto desejo quando nos despedimos na saída do colégio que eu deveria ter desconfiado. E já quando cheguei em sua casa na mesma tarde, ele parecia nem sequer saber como me cumprimentar. Eu devia ter percebido pelo jeito com que ele parecia inquieto e em como ele parecia medir cada uma de suas atitudes. Talvez assim o choque não teria sido tanto. Talvez assim, quando ele se sentou de frente pra mim e segurando minhas mãos, disse que queria acabar com tudo entre nós, eu teria conseguido segurar as lágrimas e fingido ser forte.

Passei as últimas horas me fazendo inúmeras perguntas, me perguntando o que de errado fiz e pensando que talvez essa história de se entregar a alguém não valha tanto a pena. Mas enquanto eu pensava em tudo isso, estava com a cabeça deitada no colo de Amanda, que mexia em meu cabelo e segurava minha mão com força. Ela me cedeu seu colo e não se importou em me ouvir chorar. Ela me mostrou que amigos são verdadeiros anjos, são aqueles responsáveis por nos fazer sorrir mesmo quando parece impossível. E enquanto eu resmungava coisas como 'ninguém nunca vai me amar', eu quase conseguia ouvi-la me chamando de tola, porque eu sei que ela me ama."

Quando Amanda abraçou Gabriel, ele deu um forte abraço nela e um beijo em seu rosto. Sorri olhando para os dois. E inevitavelmente me lembrei de tudo que acontecera antes de irmos pra festa. Cada vez que me lembro do olhar de Gabriel e sua voz dizendo que me amava, meu coração falha uma batida. É como se não fosse real, como se a qualquer momento eu fosse acordar e descobrir que tudo não passou de coisa da minha própria cabeça. Mas aconteceu e talvez esse seja o motivo de eu estar tão terrivelmente sentimental. Sinto que posso começar a chorar a qualquer momento, apenas porque agora, nesse momento, eu sinto que minha vida finalmente entrou no eixo.

A música voltou a tocar alto e reconheci ser uma do Fifth Harmony. Não demorou mais que alguns segundos pra galera voltar a dançar e beber. Eu estava tão distraída apenas observando tudo ao meu redor, que me assustei quando Leticia surgiu segurando um copo de dose na frente da minha cara.

– Tequila! – ela gritou e me entregou o copo. Leticia já possuia um em mãos e Amanda se uniu a nós logo em seguida também segurando a dose.

– Vamos brindar! – ordenou Amanda.

– E ao que vamos brindar? – questionei.

– A essa noite. A tudo que nós já vivemos juntas. E principalmente a nós. – ela respondeu.

– Pra sempre. – disse erguendo meu copo e elas imitaram minha ação.

– Pra sempre. – repetimos juntas.

E sorrimos, antes de virarmos o líquido amargo e dourado por nossas gargantas, com o qual já nos familiarizamos com o gosto. Não tossimos, cuspimos ou fizemos caretas. Mas gargalhamos.

"Os pais de Amanda possuem uma grande coleção de bebidas, mas não do tipo que permanece guardada pela eternidade. Eles costumam servir para suas visitas, se elas quiserem. Por isso uma garrafa ou outra está sempre faltando um pouco do líquido ou meio vazias. Foi daí que Amanda teve a ideia:

– Se nós pegarmos só um poquinho, ninguém vai perceber ou sequer saber que fomos nós.

– Se seus pais descobrirem nós estamos encrencadas. falei.

– Eles não vão. Shiu!

– Mas alguém aqui já bebeu tequila? – interviu Leticia. Dizem que é horrível.

Vamos descobrir agora. – disse Amanda nos fazendo rir.

Então vamos fazer um brinde. – propus.

Ao que? – perguntou Leticia.

– A essa noite. A tudo que nós já vivemos juntas. E principalmente a nós. – respondeu Amanda.

– Pra sempre. – disse erguendo meu copo e elas imitaram minha ação.

– Pra sempre. – repetimos juntas.

E sorrimos, antes de virarmos o líquido amargo e dourado por nossas gargantas, sem nunca termos provado seu gosto. Tossimos, cuspimos e fizemos caretas. Mas gargalhamos."

­– Agora vamos dançar! ordenou Amanda nos puxando para a pista de dança. – Porque eu fiz essa festa pra no mínimo, quebrar meus saltos na pista de dança, só pra depois tirá-los e aí cair de bêbada.

– Me parece um bom plano. – afirmei rindo e nós quase seguimos ele a risca.

Em um determinado momento, o mundo pareceu ficar em câmera lenta, enquanto eu observava o que estava acontecendo. Absolutamente todos os meus amigos numa mesma roda dançando, animados, com seus copos em mãos e sorrisos largos no rosto. Meus olhos se encheram de lágrimas e sorri.

Fico constantemente pensando que a vida é uma grande caixinha de surpresas. Nós nunca sabemos do amanhã e muito menos se esse amanhã chegará. As vezes as coisas mudam repentinamente e nos pegam desprevenidos, mas as mudanças são parte dos ciclos da vida. Nós mesmos não permanecemos os mesmos para sempre e conforme nossas próprias mudanças acontecem, o mundo ao nosso redor também se trasnforma.

Apesar de entender isso, não consigo me adaptar as mudanças pelo simples fato de que elas geralmente são acompanhadas de despedidas. E talvez, esse seja o ano em que eu esteja com mais medo das despedidas com as quais lidarei. Então me pego em alguns momentos, já sentindo saudade. É como se eu olhasse ao redor e absorvesse de fato o momento. Eu sinto plenamente a felicidade que sinto vivendo aquilo com aquelas pessoas e tenho a consciência de que em breve aquele momento será só lembrança.

É nesses momentos que as vezes sinto vontade de abraçar todas as pessoas que amo e dizer a elas tudo que sinto. Ok, isso talvez também seja o efeito do alcool. Mas eu aprendi que temos a mania de viver como se tudo fosse para sempre. Nossas amizades, nossos amores, nossos sonhos e nossas próprias vidas. Mas o pra sempre é a maior ilusão que carregamos conosco. Uma vida deveria durar 100 anos, mas a infância acaba, a juventude acaba, a vida adulta acaba e a velhice acaba. Tudo acaba. E essa fase da minha vida irá se acabar. Essa é a grande questão. Não se trata do tamanho de uma vida, se trata do tamanho de um momento.

Vai existir um momento em que não me sentirei mais tão viva, jovem e infinta. E eu quero aproveitar enquanto posso sentir isso dentro de mim. Enquanto posso sentir como se meus pulmões respirassem todo o ar do mundo e meu coração batesse tão forte como ele nunca mais baterá. Quero sorrir como se nunca mais houvesse a chance de sorrir tão abertamente. Quero viver sabendo que a beleza de tudo está justamente em sua finitude.

Só parei de dançar quando meus pés imploraram por socorro e eu resolvi tirar meus saltos. Já havia perdido a noção da hora, mas não me parecia muito tarde. As pessoas ainda pareciam razoavelmente sóbrias. Quer dizer, algumas. Procurando um lugar para sentar avistei Barbara sentada na beirada da piscina com os pés dentro da água. Caminhei até ela e me sentei ao seu lado. Tirei os sapatos e fiz o mesmo.

– Uma festa digna de Amanda, né. – observou ela.

– Sim. – concordei. – Mas acho que a galera ta até sobria, porque nenhum louco pulou na piscina ainda.

– Eu acho que é por causa do frio, não duvido que alguém sairia daí de dentro com uma hipotermia. E esses balões flutuando estão muito fofos.

– Obrigada, passei a tarde inteira os enchendo. – agradeci em bricadeira e nós duas rimos.

– E como ta a vida? Você e o Gabriel?

– Nós estamos bem. – respondi sorrindo e olhei para ela percebendo que Barbara é a unica amiga com quem posso falar disso. Foi então que as palavras simplesmente saíram da minha boca. – Ele disse que me ama hoje.

Pude ver de relance que ela estava sorrindo.

– E como foi? – perguntou Barbara. – A sensação?

– Como se tivessem colocado toda a felicidade do mundo dentro do meu peito. – confessei.

– Eu imagino.

– Mas e você e meu irmão, ein? O que ta rolando, senhorita Barbara?

Ela sorriu sem graça e demorou alguns segundos para responder.

– Nós ficamos muito amigos e começamos a nos ver. Até que um dia fomos dar uma volta no parque e ele me beijou. Acho que a gente ta ficando agora, não sei, eu nunca fiquei com alguém antes.

– É claro que estão, ele te mandou um buquê de rosas no colégio!

– Nem me lembre! – ela pediu corando.

Assim que Nicolas apareceu trazendo bebida para os dois, me levantei na intenção de não atrapalhá-los. Se eu estivesse no lugar deles, não iria querer ser incomodada. E enquanto saia, ao olhar para trás pude vê-los dando um selinho. Fiquei com tanta gana que quase voltei para esmagá-los. Como sempre Gabriel estava certo, ele previu tudo isso antes mesmo de eu imaginar que poderia acontecer.

Resolvi ficar um pouco sozinha, então me joguei sobre um puffe. Começou a tocar uma música ao fundo que a melodia me era muito familiar. E por isso os primeiros acordes de Yellow do Coldplay me fizeram sorrir sozinha. Enquanto ouvi a voz de Chris Martin cantar os versos que sei de cor, abri os olhos e encarei o céu. Senti o vento em meu rosto e pensei: Como é bom estar viva.

"Look at the stars, look how they shine for you and everything you do, they were all yellow"

Fui surpreendida quando Amanda se jogou sobre mim, rindo, me fazendo xingá-la enquanto também ria.

– Não poderia faltar Coldplay. – disse ela me abraçando e se espremendo ali comigo, então acompanhou um dos versos da música. – "You know I love you so".

Nós rimos juntas e ficamos em silêncio, absortas em nossos próprios pensamentos.

– Os planos mudaram, não é mesmo? – ela perguntou de repente e eu fiquei confusa. – Os planos pro futuro.

"– Vamos prometer uma coisa. – pedi, com Amanda e Leticia abraçadas a mim. Que o futuro jamais irá conseguir nos separar. Nós vamos pra mesma faculdade e iremos morar juntas. Dividiremos um apartamento e ficaremos enjoadas de olhar uma pra cara da outra, mas estaremos sempre juntas. Nós provaremos que todas as nossas promessas não são palavras em vão jogadas ao vento.

– Eu prometo. – disseram Amanda e Leticia em uníssono."

– Quer dizer... – disse Amanda. – Agora nós sabemos que as coisas não são tão simples quanto imaginávamos. Sabemos que as chances de irmos pra mesma faculdade são poucas e que não temos dinheiro para morarmos sozinhas, nós nem sequer temos empregos.

– Você tem razão. – concordei. – Mas sabe uma coisa na qual tenho pensado muito nos últimos tempos? Que não importa o que vai ser do futuro. Nada realmente importa se não deixarmos a vida destruir nosso elo. E eu não pretendo deixar.

– Promete?

– É claro que prometo. Eu amo você, Amanda.

– Eu também amo você. – ela afirmou.

Não demorou muito para que roubassem Amanda de mim e eu nem reclamei, é a festa dela, ela precisa dar atenção pras pessoas. Então apenas permaneci ali curtindo meu próprio momento. Só me levantei quando percebi que já havia um tempo que não via Gabriel e resolvi o procurar. Já havia bebido o suficiente para querer que fugissemos um pouquinho.

– Isa, você viu a Amanda? – indagou Leticia me parando no caminho.

– Não, por que?

– Um cara quebrou um copo e cortou o pé. Já limpamos a bagunça, mas queria saber se tem alguma caixa de primeiros socorros por aqui. – ela explicou. – Você sabe de alguém que tá com a chave da casa? Se tiver algo aqui, deve estar nos banheiros lá de dentro e se não, acho que a Amanda deve estar lá com o Arthur arrumando os freezeres. Tinha chegado mais uma remessa de cerveja.

– Acho que a mãe da Amanda deixou chave com os garçons, até porque eles estão buscando as bebidas lá dentro, né? – lembrei.

– Verdade.

– Vou tentar pegar com algum deles e aí procuro lá dentro pra você.

– Ta bom, obrigada!

Foi um custo encontrar um garçom que tivesse a chave, porque obviamente não tinha uma chave pra cada. E o cara ainda teve relutância em me entregar sem a autorização de Amanda. Só entregou porque uma mulher que também estava servindo havia se lembrado de mim ajudando na organização mais cedo.

Segui rumo a entrada da casa, destranquei a porta e entrei. Estava um silêncio total e foi só então que percebi o quanto a música lá fora estava alta. Foi inteligente mesmo da parte de Amanda deixar trancado, porque, com certeza, bagunçariam tudo. Pelo menos é um gasto a menos pros pais dela. Sem contar que vamos todos dormir aqui pra continuarmos a festa amanhã só entre os amigos mais próximos. Sabe-se lá o que esse povo faria nos quartos.

Chamei por Amanda e não a encontrei. Nem na cozinha e nem em lugar algum do primeiro andar. Procurei a caixinha dos primeiros socorros nos banheiros e também não achei. Quando resolvi subir pro segundo andar, vi Arthur descendo as escadas e ele literalmente paralisou quando me viu.

– O que você tá fazendo aqui? – perguntou Arthur parecendo assustado.

– To procurando a Amanda, você viu ela?

– Lá em cima ela não tá, acabei de voltar de lá. Ela com certeza deve estar lá fora no meio do povo. – ele respondeu terminando de descer com pressa e segurou minha mão. – Vamos, eu te ajudo a procurá-la!

– Preciso ver se acho uns negócios pra Leticia lá em cima. – expliquei o soltando.

– Não! ele patricamente gritou e fui eu quem me assustei agora. – Do que você precisa? Não tem nada lá em cima.

– De uma caixa de primeiros socorros, um cara tá com o pé cortado.

– Por que teria isso aqui?

– Porque tem em toda casa! – respondi como se fosse óbvio, porque realmente é.

– Mas aqui não é uma casa normal, é uma casa alugada pra festas. – argumentou Arthur.

– Aí que tem que ter mesmo!

– Mas então deve estar nos banheiros lá de fora. Vamos! – ele chamou novamente me puxando pela mão para que saíssemos dali. Ele parecia verdadeiramente empenhado nisso, não importa o que eu dissesse.

Foi então que eu entendi o que estava acontecendo. Parei bruscamente no lugar e olhei séria pra ele.

– Você não quer que eu suba. – afirmei. – Por que?

– Não é isso, eu só queria conversar com você. – disse Arthur.

– Então me deixa ir lá ver se acho os negócios e a gente conversa depois. Eu disse pra Leticia que procuraria.

– Mas eu já disse que não tem nada lá!

– E como você sabe? – perguntei começando a ficar irritada. – Eu vou subir e pronto, Arthur.

– Por favor, Isa. Vamos lá fora e a gente conversa. – ele pediu. Eu vi desespero em seu rosto. – Eu não posso deixar você subir.

– Por que? – perguntei.

Ele não foi capaz de responder e esse foi o estopim da minha curiosidade. Tem algo lá em cima que Arthur quer esconder de mim por algum motivo e eu preciso saber o que é. Sem nem dizer mais nada comecei a subir as escadas com pressa. Arthur correu atrás de mim, mas só conseguiu me segurar mesmo quando já havíamos chegado no segundo andar.

– Por favor, Isa. Eu só estou tentando te proteger. – ele disse olhando nos meus olhos. A forma com que ele disse isso me fez querer ir, me fez querer deixar pra lá seja lá o que estava acontecendo, mas agora eu sei que tem algo acontecendo. Essa é a questão.

– Do que, Arthur? Eu preciso saber.

– Eu não sei como te contar. Eu não quero fazer isso com você.

– Então me deixe ver. – pedi já completamente nervosa.

E ele deixou. Arthur apenas apontou para o final do corredor, onde havia um cômodo com portas de vidro. Eu caminhei com medo do que encontraria lá e de repente aquele corredor pareceu muito mais extenso do que de fato era. Desejei internamente enquanto dava cada passo, que não encontrasse nada, que tudo fosse apenas uma pegadinha comigo. Desejei de verdade, mas não era. E quando eu parei em frente a porta, meus olhos viram a única coisa que desejaram jamais ter visto. Simplesmente porque aquela cena veio acompanhada de toda a verdade.

Vi Amanda e Gabriel se agarrando com tanta vontade que comecei a chorar instantaneamente. Ela estava sentada sobre um móvel, com as pernas entrelaçadas no quadril dele. Seu vestido já estava pra cima de seu quadril e a blusa de Gabriel jogada no chão. Sua unha cravada nas costas dele, enquanto Gabriel segurava seu cabelo com força e beijava seu pescoço. Eu quase conseguia ouvir os gemidos de Amanda dali.

Não foi a primeira vez que eu vi aquela cena, mas doeu mais do que qualquer outra vez, porque aquele cara estava me tocando horas antes, quando olhou nos meus olhos pra dizer que me amava. Porque tudo que eu tenho pensado desde então é nessas três malditas palavras que saíram da boca dele. Eu não esperava por aquilo, ele não precisava ter dito aquilo, mas ele disse, como o grande filho da puta que ele é. E se eu achava que vê-lo quase transando com a minha melhor amiga bem na minha frente, já tinha sido motivo suficiente pra começar a chorar feito uma criança, é porque eu não fazia ideia de tudo que ainda estava por vir.

– Desculpa, Isa. – ouvi a voz de Arthur dizer logo atrás de mim. – Desculpa, principalmente porque se eu não disser o que tenho pra dizer agora, provavelmente não terei mais coragem pra dizer.

– Não, por favor. – pedi me virando para ele, segurando meu rosto. – Por favor me diz que não tem mais.

– Eles estão juntos desde que se conheceram, sempre estiveram. – soltou Arthur. – O Gabriel ta fazendo com vocês exatamente o que ele fez com Bianca e Paola, quando eu estava com a Bianca. Tudo aquilo que eu tentei te alertar, Isabelle! Ele ta transando com você e Amanda ao mesmo tempo e brincando com a cara das duas. Tudo isso não passou de mais um dos joguinhos do Gabriel.

– Não, Arthur! Isso não é verdade! – rebati mal conseguindo sustentar minha voz.

– Você sabe que é! Você sabe que tudo faz sentido agora, Isabelle! Pelo amor de deus, não faz comigo o mesmo que Bianca fez. Você se lembra, quando eu contei pra ela, ela não acreditou em mim e ele ainda conseguiu manipular ela de novo. Por favor, Isa! Você precisa enxergar as mentiras desse cara, você sabe que eu não estou inventando isso.

– Não, Arthur! Não! Não! – repeti em negação.

– Ele nunca te assumiu, pra vocês ficarem juntos tinha que ser sempre do jeito dele e o jeito dele era as escondidas e quando ele tava disponível, porque quando ele não estava, ERA COM A TUA MELHOR AMIGA QUE ELE TAVA TRANSANDO!

Levar um soco no estômago talvez teria doído menos, porque eu sabia que Arthur estava certo, eu não tinha dúvidas disso. E se ele não estivesse ali eu teria me estabanado no chão, porque perdi as forças das minhas pernas. Literalmente. E enquanto caia senti ele me segurar até que eu estivesse ajoelhada no chão, colocando praticamente meu coração pra fora de tanto chorar.

Eu me senti tola por tudo ter estado tão óbvio durante todo aquele tempo e eu não ter percebido. É como se eu tivesse fechado os olhos pra verdade e tudo no que eu acreditaria, seria o que Gabriel dissesse pra mim. Me senti verdadeiramente enojada ao pensar que tudo, absolutamente tudo, não havia passado de uma grande mentira. Que durante cinco meses, enquanto me iludia, inflava seu próprio ego e se divertia comigo sofrendo por ele, tudo que Gabriel queria de mim não era nada mais que sexo. E de repente me passou pela cabeça todas as inúmeras vezes em que todas as pessoas me alertaram sobre ele e eu não ouvi, porque não, pra mim era amor, era de verdade, só eu sabia o que nós passamos e sentíamos. Não passei da vítima perfeita. A doce e ingênua garotinha que se encaixou perfeitamente no papel de otária.

Eu juro que senti como se meu mundo todo estivesse se desestruturando naquele momento, porque não é facil perceber que tudo no que você acredita, não é real. Eu conseguia imaginar o que todas as pessoas pensarão quando descobrirem a verdade, consegui ver o olhar de desaprovação de Leticia sobre mim, consegui imaginar Gustavo pensando "eu te avisei" e principalmente, percebi que em uma única tacada, Gabriel quebrou a mim e Amanda. Eu não sei como ele a iludiu, mas sei que seja lá o que tenha feito, ele causou nela exatamente o mesmo que em mim. E contar pra ela toda a verdade, destruiria Amanda.

E esse era o verdadeiro Gabriel Fornazier. Finalmente conheci o cara de quem tanto falam. E daqui pra frente eu serei apenas mais uma trouxa da sua listinha. Porque esse jogo é dele e não importa o que aconteça, ele vai sair por cima. Ele vai sair como o galinha fodedor que é e continuar pegando quem ele quiser. E foi pensando nisso que a raiva me dominou por completo. Eu passei noites e noites em claro chorando por esse cara, deixei ele fazer de mim o que bem entendesse, dei pra ele o mundo e mais um pouco, me dei pra ele de corpo e alma, fiz da vida dele a minha.

Acho que o grande o problema do amor é justamente o quanto ele nos cega. As vezes nos esquecemos de que um sentimento só pode ser bom, a partir do momento em que ele nos faz mais bem do que mal. Faz algum tempo que eu me esqueci do que é a linha tênue que separa essas coisas, quando passei a utilizar todos os momentos e sentimentos bons, para justificar todas as coisas ruins que Gabriel me causara. E depois de tudo, ainda descubro que ele nunca quis me causar bem sequer.

Isso não vai ficar assim.

– Vem, Isa. – chamou Arthur tentando me levantar. – Vamos sair daqui. Eu te levo pra casa ou onde você quiser.

– Não. – respondi começando a limpar meu rosto. – O Gabriel brincou com a garota errada.

Me apoiando no Arthur eu me levantei, sequei meu rosto e segui em direção a porta de vidros que separava um pesadelo da realidade.

– O que você vai fazer, Isabelle? – perguntou Arthur parecendo uma mistura de confuso com assustado.

– Nada demais. – respondi forjando um sorriso.

Eu abri a porta com tudo e pude ver Amanda já sem roupa, apenas de calcinha e Gabriel apenas com sua cueca.

– Amanda. – chamei com a voz firme e o mais alto que consegui. Eles se assustaram tanto, que ela ficou paralisada olhando pra minha cara. Gabriel que estava de costas pra mim, não ousou se mover. – A Leticia está te chamando lá embaixo e é pra você descer agora.

– Isa... – ela começou a dizer, mas nem sequer deixei que ela formulasse a frase.

– Veste sua roupa e sai daí agora, Amanda. – gritei.

Ela estava tão assustada que segurando os próprios peitos com um braço, empurrou Gabriel e começou a pegar suas coisas no chão. Pude ver o constrangimento explicito na forma com que ela andou em minha direção, com a cabeça baixa. E quando passou por mim, ainda tentou conversar de novo.

– Isa, me ouve, por favor. – pediu Amanda com os olhos cheios de lágrimas. Queria dizer que ela não faz ideia do que está acontecendo, mas nem sequer sabia por onde começar.

– Vai se vestir, Amanda. – ordenei.

Ela apenas abaixou a cabeça de novo e saiu andando. Arthur se mantinha paralisado no lugar me observando.

– Vai cuidar dela e mantém ela longe daqui. – disse pra ele.

– Eu não vou te deixar aqui sozinha, Isabelle. – rebateu Arthur.

– Não me faça repetir duas vezes, é melhor você não testar minha paciência agora.

Nem sequer dei tempo pra ele responder, apenas entrei no cômodo e fechei a porta. Assim que me virei para Gabriel, pude vê-lo vestindo a calça com pressa. E olhar para ele naquele momento me causava uma mistura de ansia de vômito com vontade de socá-lo. Assim que seus olhos encontraram os meus, ele tentou argumentar.

– Eu juro que era sobre isso que eu queria conversar. – disse Gabriel.

E ouvi-lo dizer aquilo, ouvir ele insistindo nessa mentira, ouvir sequer a voz dele, fez meu sangue ferver de raiva. Eu andei até ele inspirando e expirando sem parar tentando não explodir e assim que cheguei na sua frente, acertei na sua cara o tapa mais forte que eu já dei em alguém.

– Tudo bem, eu mereci isso. – ele disse levando a mão ao próprio rosto, como se estivesse tudo bem porque ele autorizou aquilo, como se ele ainda ditasse a situação, como se ele estivesse sempre por cima de tudo. Filho da puta.

Levantei minha mão com tudo e acertei o outro lado de seu rosto. Dessa vez ele não disse nada. Eu soube que aquele tapa tinha doído muito, mas também sabia que não tava doendo nem metade do que tava doendo dentro de mim. E foi por isso que quando percebi estava espancando o Gabriel.

– Para, Isabelle! – ele gritou tentando segurar meus braços, mas o empurrei com toda minha força.

– Não me toca, Gabriel. – gritei. – Não. Me. Toca.

– Você não vai me deixar explicar o que aconteceu aqui antes de surtar feito uma louca? – ele gritou de volta.

– Cala a boca, Gabriel! Eu já sei de tudo! Eu já sei do seu joguinho doentio! Você é doente, garoto! Doente! Mas eu vou te avisar uma vez só. – disse me aproximando dele e coloquei meu dedo bem na sua cara. – Eu acho bom você concertar a vida inteirinha da Amanda, ta me ouvindo? Porque se não, eu vou fazer da tua vida um inferno. Eu vou acabar com você, Gabriel. Eu vou te dar um motivo pra se arrepender de viver, que não seja a Alice.

Eu nunca falei tão sério na minha vida e tive certeza de que isso estava explícito no ódio que eu transmitia em cada palavra. E ao ouvir o nome de sua irmã, sua expressão mudou completamente. Ele ficou sério.

– Você não vai contar nada pra Amanda, Isabelle. – respondeu Gabriel calmamente. – Não vai porque você é boazinha demais e sabe que vai ser a única responsável por partir o coração dela.

– Não sou eu quem vou partir o coração dela, foi você quem já fez isso.

– Eu? Sou eu a melhor amiga dela que aceitou continuar transando com o cara que ela ama mesmo sabendo disso? – ele disse sarcasticamente. – Não, peraí, não sou eu não.

– Cretino desgraçado! – gritei avançando na direção dele e daquela vez, minha intenção era matá-lo. Minha raiva era tanta que eu cheguei a fechar o punho pra acertar um murro bem em seu nariz e consegui. Pude ver um filete de sangue escorrendo pelo mesmo enquanto alguém me puxava para trás.

– O que ta acontecendo aqui? – indagou Amanda completamente confusa.

– Conta pra ela, seu desgraçado! Conta! – gritei. Bruno correu até Gabriel para ver seu nariz, mas Gabriel só o empurrou. Eu o conheço bem o suficiente para saber que ele estava furioso. Ou melhor, acho que não o conheço nada.

Gabriel começou a andar em direção a Amanda e segurou o rosto dela com as duas mãos ao dizer:

– Não liga pro que a Isabelle ta falando. Vamos sair daqui eu e você e nós conversamos. Sozinhos.

Ele disse aquilo calmamente, olhando nos olhos dela, como se explicasse a uma criança que não se deve desobedecer aos pais. E cada palavra aumentava mais e mais minha fúria.

– Não deixa ela acabar com nós dois, Amanda. – terminou Gabriel.

Naquele momento, foi como se a sanidade esvaísse do meu corpo. Eu me soltei da pessoa que estava me segurando, tomei uma garrafinha de cerveja da mão de alguém que estava próximo a mim, avancei em direção ao Gabriel e acertei a garrafa em sua cabeça. Foi apenas quando senti os cacos em minha mão e ouvi seu grito, vendo o sangue escorrer de sua testa, que percebi o que eu tinha feito. A garrafa tinha pegado na lateral de sua cabeça.

Eu fiquei em choque por alguns segundos, enquanto todo mundo corria em direção ao Gabriel e uma quantidade imensa de sangue escorria pelo seu rosto. Foi só então que eu percebi que todo mundo estava ali. Até então meu cérebro não havia prestado atenção em nada ao meu redor. Bruno tirou a própria camiseta para colocar sobre o machucado e tentar interromper o fluxo de sangue, mas não adiantava.

De repente vi Gabriel olhar para mim com tanta raiva, que eu soube que seu choque havia passado. E foi então, que a verdade veio à tona. Ele empurrou todo mundo que estivesse em sua frente e agarrou o braço de Amanda com força. Amanda gritava mandando ele a soltar e perguntava o que ele estava fazendo e o que estava acontecendo, mas ele estava cego de ódio. Com sangue escorrendo pelo rosto, ele andou a passos largos e pesados em minha direção, enquanto arrastava Amanda consigo. Eu senti medo naquele momento e realmente devia ter sentido, porque ele agarrou meu braço com tanta força, que eu soube que ficaria roxo.

Ele começou a nos arrastar para algum lugar e pude ouvir gritos, mas não vi o que estava acontecendo. Estava tudo acontecendo rápido demais. Gabriel praticamente me arremessou em cima de uma cadeira e fez o mesmo com Amanda em outra ao meu lado. Quando percebi estavam Gustavo, Bruno, Arthur e Leticia ao redor dele. Bruno tentando impedir o Arthur de socar a cara dele e Gustavo tentando empurrar Leticia para longe.

– Eu quero que todo mundo suma daqui. – gritou Gabriel para que qualquer um daquele cômodo pudesse ouvi-lo. Em seguida, se virou para mim e Amanda. – Ela não quer a verdade? Então vamos contar a verdade.

Ele apoiou as mãos nos braços da cadeira de Amanda e falou olhando nos olhos dela:

– Sabe o que ta acontecendo, vadiazinha? Eu to comendo você e sua melhor amiga ao mesmo tempo e me divertindo muito com a cara das duas.

Pude ver pela forma com que Amanda olhou para ele que ela havia sentido o mesmo que eu quando Arthur me contou. Vi sua expressão passar em segundos de confusa para triste e tão instantaneamente quanto aconteceu comigo, pude ver uma lágrima descendo pelo seu rosto. Seu coração estava destroçado e eu sabia que Amanda deveria estar repetindo para si mesma, sem parar, mentalmente, que: garotas fortes não choram. Mas mesmo assim ela estava chorando e foi por isso que senti vontade de me levantar e socar a cara dele mais uma vez, mas Gabriel estava apenas começando seu show.

– Sabe que tudo aconteceu meio sem querer? – disse Gabriel com um sorriso no rosto. – Eu fiquei com a Amanda e depois fiquei com a Isabelle, simplesmente porque as duas eram gostosas. E com a Amanda foi tudo muito fácil, nós ficamos e transamos. Que transa sensacional, a propósito! Mas quando eu fiquei com a Isabelle e nós íamos transar, apareceu a Leticia pra atrapalhar tudo. Eu sabia que vocês eram melhores amigas, mas não havia plano nenhum, eu só queria comer as duas e nada mais. Mas quando Leticia atrapalhou tudo, ela transformou aquilo num desafio. Eu ia transar com a Isabelle de qualquer jeito.

“Só que a Isabelle também dificultou as coisas e enquanto ela me enrolava, eu pensei: Então eu vou continuar comendo tua melhor amiga, porque ela sabe muito bem como chupar um cara. E eu decidi que as duas seriam minha nova diversão, a nova duplinha de amiguinhas com quem eu iria brincar por pura falta do que fazer. Pra aumentar meu ego, sabe? Passar o tédio... Gozar mais. Assim como fiz com a Bianca e Paola.”

“Foi tudo tão fácil que eu nem acreditava no quanto vocês são burras! Eu dizia pra Isabelle que ela não podia contar pra ninguém, porque os amigos dela não nos deixariam ficar juntos por todas as coisas que eles achavam de mim, e que por acaso estavam certíssimos, e depois basicamente porque eles ficariam bravos por termos mentido por tanto tempo. Enquanto pra Amanda eu apenas dizia que ela não podia contar pra ninguém, porque a coitadinha da Isabelle é apaixonadinha em mim e ela machucaria a pobre coitada. Duas trouxas!”

“Era tão óbvio! Eu nunca ficava com nenhuma das duas em locais públicos demais ou que tivessem suas rodinhas de amigos. Era basicamente pegar a Amanda no bar porque a galera da faculdade conhecia ela, depois sair com a Isabelle pra pegar ela e no sábado ainda sair com todo mundo pra ver no que dava e qual das duas eu ia comer no dia. Mas eu sempre comia uma num dia e a outra no outro e as duas idiotas nunca sequer percebiam as marcas de unha e chupões, porque achavam que eram elas mesmas que haviam feito aquilo. Sério, como podem ser tão burras? E meu deus, o que eu tive de aturar nesse tempo! Como vocês conseguiram pensar que eu pudesse gostar de alguma das duas?"

Ele se virou para Amanda e praticamente gritou pra ela:

– Amanda, você é tão chata! Puta merda! Possessiva demais, ciumentinha demais, irritantesinha demais! Arrrrgh! Tinha hora que eu tinha vontade de enfiar uma rolha na sua boca pra ver se você calava! Pra você tudo foi sempre uma questão de imagem, né? Sempre querendo aparecer, sempre se achando demais! Você não é nem metade do que acha que é! Acorda, caralho!

E então se virou para mim.

– Agora a Isabelle... Meu senhor amado. Como pode alguém ser tão dramática e sentimentalista? Você nunca saiu dos seus 15 anos né? Fala sério! É tudo uma questão de metáforas e perguntas e reflexões sobre o amor, a vida e o universo. Minha filha, você não ta dentro de um livro do John Green! Você é só mais uma garota infantil, mimada e chata, que não vai viver uma história épica, nem encontrar o príncipe dos seus sonhos e será eternamente insignificante! Ta bom? Entendeu ou quer que eu repita?

Eu sentia tanto nojo olhando para ele e ouvindo tudo que ele dizia, que meu estômago se revirava.

– É Amanda, acho que você ainda é minha preferida! Você pode ser chata pra caralho, mas pelo menos não é tão lunática! – finalizou Gabriel.

Ouvi dizer certa vez, que palavras podem doer mais que socos no estômago, naquele momento eu entendi isso. Foi como se cada palavra destruísse uma parte de mim. E eu não soube o que dizer, foi como se as palavras ficassem entaladas em algum lugar da minha garganta. Eu queria tanto gritar, dizer qualquer coisa que pudesse acabar com ele, defender Amanda que mantinha o olhar prezo na madeira do chão chorando baixinho. Era o aniversário dela. O dia mais importante da vida dela. E aquilo doia em mim muito mais do que já doia por eu estar naquela situação. Mas eu não consegui dizer nada. Simplesmente não havia o que eu pudesse dizer.

– Eu estou com nojo de você, Gabriel. – foi Gustavo quem disse, fazendo com que todo mundo da sala olhasse para ele, transformando em palavras exatamente meu sentimento naquele momento. – Você extrapolou todos os seus limites. É melhor você calar a boca.

– O que? Ficou irritadinho? – disse Gabriel parecendo se divertir. – Mas eu ainda nem contei que peguei tua namorada!

– Cala a boca, Gabriel! – gritou Carol. – Não distorce as coisas!

– Não distorcer as coisas? – ele repetiu rindo. – Eu não to distorcendo nada. A questão é que quando vocês terminaram... – disse Gabriel voltando a atenção para Gustavo. – Enquanto você se consolava com a Isabelle, a Carol se consolava comigo. A diferença é que nós nos divertimos de verdade e os dois trouxões aí ficaram nessa de "não vamos ferir os sentimentos de ninguém". Ai meu saco. Vocês acham que a Carol aceitou o pedido de desculpa da Isabelle tão facil, por quê? Porque ela tava transando comigo também!

E então ele começou a rir sozinho batendo palmas.

– Mano, fala sério, eu sou o cara. – disse Gabriel e quando eu menos esperei, vi o vulto de alguém avançando na direção dele e acertando um soco em sua cara que o derrubou no chão. Era Bruno.

Gabriel demorou para se recompor e com a mão sobre o próprio lábio agora sangrando, ele olhou pro Bruno desapontado.

– De você eu não esperava isso, Bruno.

– Eu também não esperava que meu melhor amigo tivesse se transformado nesse grande babaca. – respondeu Bruno e se virou para o pessoal. – Alguém me faz o favor de chamar o segurança e dizer pra ele que tem alguém pra ele tirar dessa festa.

– Não precisa. – interviu Henrique correndo em direção ao Gabriel. Ele o levantou do chão e começou a puxá-lo. – Eu vou levar ele embora.

Gabriel parou bruscamente no lugar, fazendo com que Henrique o soltasse e encarou Bruno e Gustavo, passando o olhar de um pro outro.

– Então é isso? É aqui que acaba nossa amizade? – perguntou Gabriel e eles não responderam. – Por causa de duas putas que vocês conheceram esse ano?

– Se você chamar qualquer uma delas de puta de novo eu juro que vou quebrar tua cara, filho da puta. – gritou Arthur avançando em sua direção, mas uma galera se juntou ao redor dele para segurá-lo.

– Parte pra cima, otário! – revidou Gabriel. – Deve estar doendo ter perdido duas minas pra mim, né?

Ouve um alvoroço que só se calou quando Gustavo gritou:

– Calem a boca. – ele ordenou. – E some daqui, Gabriel.

– Beleza então. – respondeu Gabriel. Deu pra perceber que não estava em seus planos perder seus amigos ali, mas foi justamente o que aconteceu. E ele saiu andando.

Mas antes dele atravessar a porta daquela sala, havia uma única coisa que eu precisava dizer.

– Gabriel. – chamei e ele parou no lugar. Todo mundo que estava naquela sala me encarou. Cada pessoa. E então Gabriel se virou de lado, apenas o suficiente para que pudesse me ver. Eu respirei fundo e olhando no fundo dos teus olhos, da mesma forma com que ele havia me olhado naquela noite e disse. – Você devia ter morrido naquele carro ao invés de Alice.

E foi assim que eu soube que acabei com ele. Quando Henrique o puxou para fora dali, sem que ele conseguisse desviar os olhos dos meus.

Se eu pensava que tudo tinha acabado, não tinha mesmo. O cômodo ficou em silêncio por alguns segundos e eu percebi que estava com vergonha de olhar para cima, porque eu havia mentido para todos os meus amigos, por causa de um imbecil. Foi Amanda quem se levantou primeiro, secou os olhos e tentou colocar em seu rosto a melhor expressão possível, mesmo que não houvesse um sorriso ali.

– Todos poderiam descer, por favor? – ela pediu com a voz fraca. – Eu vou mandar alguém vir limpar a bagunça. A festa continuará lá embaixo.

O pessoal consentiu e pouco a pouco foram se retirando. Meu olhar cruzou com o de Gustavo por um breve momento antes dele sair e só então pensei que fui eu a responsável por ter acabado com a amizade dele, Bruno e Gabriel. E de alguma forma eu soube que, por mais que todos tenham defendido a mim e Amanda, não significava que agora tudo seria o mesmo. Eu também havia perdido todos eles.

Sobraram na sala apenas eu, Amanda e Leticia.

– Amanda, podemos conversar? – perguntei com receio.

– Eu não quero conversar, Isabelle. – ela respondeu sem ao menos me olhar e também saiu andando. Leticia começou a segui-la.

– Leticia? – chamei e ela parou no lugar. – Você ta brava comigo?

Ela se virou, me encarou e eu nem precisaria de uma resposta para saber.

– Brava não, decepcionada. – respondeu Leticia. – Porque sinceramente não sei pra quem estou olhando agora. Se parece muito com a minha melhor amiga, mas ela não faria tudo que você tem feito nos últimos cinco meses. Ela não teria mentido pra mim como mentiu, não teria mentido pra todos os seus amigos, não teria trocado todos nós por um cara.

– Eu tinha medo de contar, Leticia. – tentei justificar. – Você não aceitava tudo isso.

– E eu estava errada? Se você tivesse me ouvido tudo isso teria acontecido? – ela rebateu.

– Você quer dizer "eu te avisei"? Então diz logo.

– Não, eu só quero te lembrar que mentiras é a unica coisa que eu jamais suportei. E sabe qual é a pior parte? É que Amanda me contou que estava ficando com ele e pretendia conversar com você. Ela teve a capacidade de ser mais verdadeira.

– Porque vocês estavam muito mais unidas do que nós.

– Não, porque você trocou tudo que tinha pelo Gabriel e incluso nisso estava nós. – gritou Leticia. – Você acabou com nossa amizade cinco meses atrás. E pelo que, Isabelle? Pelo que? Me diz.

Eu não soube o que responder. Mas ela também nem sequer esperou por uma resposta. Leticia apenas virou as costas para mim e vê-la fazer isso, foi o ápice da minha dor naquela noite. Comecei a chorar desesperadamente. Havia cacos pelo chão, sangue em minha mão e absolutamente nada dentro de mim que não fosse dor.

Tudo aconteceu tão rápido que meu cérebro não conseguia raciocinar completamente o que estava acontecendo. Bati inúmeras vezes em minha própria cabeça desejando que tudo não passasse de um pesadelo. Eu só queria acordar na minha cama e descobrir que nada era real. Mas era. Era tudo assustadoramente real.

Eu precisava sair dali e tentei. A cada passo que eu dava parecia que eu desabaria no próximo. Sentia como se tivessem roubado de mim todas as minhas forças. Senti como se toda minha vida tivesse se desmoronado dentro daquele maldito cômodo que deixei para trás. Ao sair da casa me deparei com uma festa inteira que não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. E a pior parte foi passar pelos presentes de Amanda e ver o meu ali. Um livro que montei tirando de meus diários, trechos de diversos momentos que passamos juntas. Trechos das nossas memórias.

Continuei andando sem parar de chorar, passando por pessoas que se assustavam ao ver meu estado, provavelmente se questionando o motivo das minhas lágrimas. Mas o engraçado é que nenhuma delas sequer pensou em tentar me ajudar. Eu estava sozinha. Eu nunca estive tão sozinha.

Atravessei o portão de entrada e continuei a andar sem rumo. Mas eu repetia e repetia tudo que acontecera em minha própria cabeça e cada vez doia mais e mais e mais. Eu desabei na calçada e segurando minha própria barriga, chorei como nunca havia chorado. Chorei de soluçar. Chorei gritando. Eu havia perdido tudo. Tudo. Eu me perdi.

Notas finais
Por favor, não me odeiem. E COMENTEM! Beijosssssss