Policial Sujo

36 A Última Ceia


Antes de iniciar a nossa história atual, visto que podemos avançar e retornar no tempo a hora que quisermos para tomarmos ciência da situação de forma abrangente, vamos dar uma pequena volta pela cidade, mais especificamente em um ponto não muito amigável: a prisão.

Em uma data no passado recente que ocorrera, um certo ruivo estava na cadeia. Eustass Kid, um presidiário acusado por uma série de homicídios, teria sua vida não só alterada, como finalizada naquele curto período de tempo, sem nem mesmo saber disso. Junto a ele, estava Joseph.

Ambos rapazes estavam no pátio da prisão, contando o dinheiro que haviam ganho juntos após terminarem um jogo chamado Drug Roullet, o qual divertiam-se graças a Drake, que enviada, como presente anônimo, inúmeras drogas ao seu primo, tanto para contrabando como por passatempo pessoal.

– Ah, isso é um ótimo jeito de ganhar dinheiro! – Joseph deitou no colo de Eustass, contando o que havia ganhado.

– Eu trocaria tudo isso pra ter o Law aqui de volta... – Kid retrucou e, embora suas mãos estejam cheias de dinheiro, estava triste e deprimido.

– Eu ganho o triplo do que eu ganhava lá no laboratório! – Começou a jogar dinheiro para o ar, atirando até na cara do ruivo. – É tanto dinheiro que eu nem faço questão de comentar o quanto você fica ridículo chorando por macho.

– Como eu fui acabar com você?! Que merda, sete bilhões de humanos no mundo e eu preciso te aturar!

– Ain, tá com raivinha porque levou um pé na bunda do maridão...

– Puta que pariu...

– Mas relaxa! – Joseph se ajeita mais no colo do outro. – Enquanto eu estiver aqui, nós ainda vamos ser ricos!

– Eu trocaria todo esse dinheiro de merda por um dia com o Law.

– "Eu trocaria todo esse dinheiro de merda por um dia com o Law." – Começa a imitar, usando voz fina. – Ah, para...

– Que saco, você é insuportável! Me relembra o porquê de eu ainda não ter te matado.

– Porque eu sou muito melhor que aquele garoto nojento. Eu já mencionei que eu bati nele, antes de vir pra cá?

– Não, imagina, você só fala isso TODOS OS DIAS.

– E eu deveria ter matado quando tive a chance, ele continua sendo o ninfomaníaco pecaminoso e asqueroso de sempre.

– É, só não se esquece de que foi VOCÊ que deixou ele assim!

– Fui eu também que tirei ele dessa.

– Isso não importa, graças a você e aquele filho da puta a minha relação com o Law nunca mais foi a mesma.

– Para de choro, ficar relembrando isso não vai trazer a sua paixão adolescente de volt–

– Ora, ora, ora... que visão mais interessante! – Interrompendo todo o clima harmônico de amizade entre os dois homens, uma pessoa surgiu. – Não é todo dia que vemos Joseph Miller deitado no colo de Eustass Kid. Posso saber de quem vocês estão falando?

– V-Vo... v-vo... v-voc... v-você....

Eustass até mesmo se espantou ao ver Diez Drake, que apareceu naquela prisão em frente aos dois, depois de cerca de treze anos sem se verem. Ficou sem reação e com a visão alterada, apesar do de cabelos laranjas parecer o mais calmo possível.

– Lorde Lúcifer! – Entretanto, a reação de Joseph, que não o via há quinze, foi mais espontânea. O moreno se levantou com um misto de raiva e surpresa nos olhos, indo bater de frente com o primo. – Você por aqui?

– E aí. – Respondeu seco, sem nem se importar.

– “E AÍ”? – Grita, puxando a camisa do outro e quase o levantando. – “E aí” O CARALHO! Que merda tu tá fazendo aqui?

– Eu não vim aqui por você.

– Não vem com essa, eu não te vejo há quinze anos! Não te vejo há tanto tempo e mesmo assim você ainda me persegue como quando era criança, desgraçado!

– Hã? Eu nem falei contigo, que mania de perseguição.

– Mania de perseguição é o que VOCÊ tem! Eu sempre disse que daria merda se te deixassem livre, tu tem ideia de como eu me senti quando soube que você era o novo chefe da Yard?

– Não vai ficar feliz por mim? O que isso tem a ver contigo?

– Feliz? Você me joga nesse inferno e quer que eu fique FELIZ? Escuta aqui. – Puxa a gola do outro, aproximando o rosto dele para que pudesse falar bem de perto, cruzando os olhos. – Eu não aceito que você consiga esse posto na Yard!

– Eu não preciso que você aceite nada! – Tenta se desaproximar dele. – Não é minha culpa que a minha vida tenha dado certa e a sua, não.

– VOCÊ É A PORRA DE UM ASSASSINO! – Grita com ódio, praticamente cuspindo na cara do ruivo. Todos os prisioneiros olhavam atentos. – Você matou a porra da minha família e fudeu com a merda da minha vida!

– Aham, aham. – Finge não se importar.

– E nunca tá satisfeito! Fala a verdade, você me jogou aqui de propósito só pra suprir essa sua arrogância escrota, não foi?

– Você fala como se fosse inocente.

– Eu não fiz nem METADE das coisas que disseram que eu fiz! Larga de ser covarde e ficar se escondendo, admite logo as merdas que você veio fazendo aqui agora, na minha cara.

– Eu não tenho nada pra admitir pra você. – Segura o peito dele, o empurrando para se afastar. – Se não quer ser preso, basta não fazer coisas erradas.

– Então pelo menos me diz. Como é que tá o laboratório?

– Laboratório?

– É! – Joseph tenta se acalmar, mesmo ainda ansioso. – Você sabe que eu amo aquele lugar, é a única coisa que eu ainda tenho, e mesmo assim... aquele maconheiro metido a ator de Hollywood tá lá?

– Sinceramente, eu não tenho tempo pra ficar respondendo às su–

– SÓ ME DIZ! – Mas logo volta a se aproximar do ruivo, novamente puxando a camisa dele para aproximá-lo. – Aquele merda cismou que eu tinha deixado ele ficar lá, eu nunca disse nada disso! Ele tem todas as características que eu odeio numa pessoa!

– E eu com isso?

– E ele fica falando umas coisas estranhas sobre orixás, sei lá que porra é essa, mas deve ser alguma dessas merdas satânicas, só tira aquele imundo do meu laboratório, é muita tortura!

– Tortura? – Drake agora se dirige até ele, falando calmamente em tom baixo. – Tortura é ter que dividir sangue com um merda como você.

– E você acha que eu gosto? Eu mudei meu sobrenome justamente pra você sumir da minha vida, nós não temos mais ligação familiar nenhuma!

– A ligação sempre vai existir, por mais infeliz que seja. Eu não suporto a sua existência, você é um fresco que continua chorando por coisas que aconteceram há anos. Vê se cresce, Joseph.

– E como você supera as coisas, continuando a me perseguir pro resto da vida?

– Você quer saber mesmo se eu te botei aqui de propósito? É, talvez eu tenha inventado algumas coisinhas, mas você merece mesmo passar o resto da eternidade aqui.

– Você fez eles me darem perpétua, eu não teria pego nem uma pena de seis anos!

– Problema seu, e não se dirija a mim! – O ruivo se vira e, em seguida, ordena aos guardas da prisão em voz alta. – Beleza, podem tirar esse merda da minha frente!

Indeferivelmente, três policiais já chegaram puxando o moreno pelo braço, que não hesitou em se debater.

– ME SOLTA! – Joseph fica com raiva e acaba se desprendendo, indo até o primo. – EI, LORD LÚCIFER!

– Hã? – Que se vira para olhá-lo.

– Vai à merda, seu covarde do caralho! – Sem mais, pega impulso com o braço e acaba disferindo de punhos cerrados, um soco no meio da face do ruivo. – Se tu tem algum problema comigo, resolve como o homem que você nunca foi!

– EI! – O que faz os guardas irem na direção dele e o segurarem, mas o completo êxito. – O que você pensa que tá fazendo?

– DESGRAÇADO! – Joseph se joga contra o primo, o derrubando no chão e caindo em cima dele, dando mais inúmeros socos em sua face. – Perseguidor, você acha mesmo que eu vou te deixar sair assim? – E continua a tentar bater.

– Para com isso! – Só não conseguia totalmente graças aos guardas na prisão, que tentavam o impedir. Mesmo assim, Drake já sangrava pela boca. O resto dos prisioneiros assistiam aos gritos, sendo que Eustass observava surpreso.

– Tsc, me deixa em paz! – Drake consegue se levantar assim que os outros policiais pegam o moreno, limpando sua boca em seguida. – Porco imundo, eu não preciso resolver as coisas desse jeito retrógrado.

– Me larga, argh! – Os três guardas começam a dar uma verdadeira surra em Joseph utilizando cassetetes pesados e canos de armas, mas ele continua gritando e tentando ir atacar o ruivo. – Por que é que vocês não percebem que ele é o vilão?!

– Tirem logo esse baderneiro daqui! – Drake ordena. – Deixem ele descansar uns três meses na solitária pra ver se aprende a respeitar alguém superior.

– Tsc, que saco, vai à merda! – Joseph ia sendo arrastado pelos guardas, debatendo-se junto até sair dali, aos gritos. – Eu juro, eu juro que quando eu sair daqui eu vou te fazer experimentar a MORTE por cada ANO que você vêm me PERSEGUINDO, DESGRAÇADO!

Finalmente arrastaram o moreno até a solitária, onde seria jogado por um período de três meses. Todos os presos ao redor que observavam a briga tiveram que retornar aos seus respectivos dormitórios devido a confusão, com exceção de Eustass Kid, que continuava olhando sem reação.

– Argh, que perda de tempo. – Drake afirma, dando um longo suspiro com as mãos na cintura, olhando pra Kid. – Que pessoa chata, como você consegue aturá-lo?

– O que é que você quer? – O outro ruivo pergunta, com aparência séria. – Eu ainda prefiro muito mais ele que você.

– Que triste ouvir isso, mas que seja. Eu vim falar contigo em particular.

– E quem disse que eu vou aceitar? Eu não tenho nada pra ouvir de você.

– Tem certeza? É sobre o Law.

– Vêm perseguindo muito ele agora que é “Chefe” da Yard?

– Vai saber... você vai ouvir o que eu tenho pra dizer ou não?

– … – Kid fica pensativo. – E eu tenho muitas escolhas?

– Vem logo, você vai gostar, acredite.

(…)

♠ Início das gravações ♠

– PFFFFFFFFFFFFFFFFFFFF, AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! – Eustass Kid, naquele exato momento, estava praticamente tendo um ataque cardíaco e chorando de tanto rir. – HAHAHAHA! Hoje é o dia mais feliz da minha VIDA!

– Cara, você grita muito alto... – Drake estava já cansado de ouvir os risos e cutucava sua boca por ainda estar doendo graças aos socos de Joseph. – Ai... tsc, tá dormente.

– Hahahahahahaha, foi mal! Foi mal! É que é... hahahahaha, é inevitável!

– Que saco, eu não devia ter deixado aquele idiota me bater, foi muita exposição. – Ignorou as risadas do ruivo, resmungando para si. – Pelo menos não são tão fortes quanto os socos do Kaidou...

– Hahahaha... ai, ai, ai. – Eustass vai parando de rir aos poucos e volta a prestar atenção nele. – Quem?

– Deixa pra lá. Tá se divertindo?

Depois de toda a confusão recente na prisão, Diez Drake havia arrastado Eustass até uma sala particular, onde só havia uma mesa e duas cadeiras. Entretanto, em cima dessa mesa, haviam vários pratos lotados com a carne de maior qualidade, garrafas de bebidas conservadas espalhadas e outras comidas que fez com que o ruivo, já cansado da vida da prisão, babasse só em ver. Era um verdadeiro banquete.

– Tô, muito! – Eustass estava bebendo e comendo como um louco, era como se toda a sua existência fosse fútil se comparado aquele momento. – Cara, depois de seis anos comendo o vômito que servem nessa porra, isso tudo... isso tudo é tão... – E começa a chorar. – Tão bom...

– Fica à vontade. Quer que eu peça mais comida?

– Zabe, bozê adé gue é uba bezoa dem zentil. – Comia um pedaço de carne enquanto falava. – Viga bandando brezente bra gá. – Mas logo engole, colocando uma garrafa de rum na boca. – Arh! Por que você fica mandando esses presentes? Você não deveria ser gentil.

– Eu sempre fui um poço de gentileza.

– Mas nada supera esse vídeo! – Além das comidas, Drake havia entregue seu celular e mostrado ao ruivo o vídeo de Trafalgar levando um fora de Luffy, após pedi-lo em casamento em público. – O Law se fudeu muito bonito, tadinho! Hahahahaha!

Em suma, Kid estava se divertindo como jamais esteve durante toda sua vida. Depois de passar seis anos em condições precárias, agora esbanjava comida farta e já se encontrava totalmente bêbado. Drake também estava contando histórias a ele sobre o período em que Law e Luffy trabalhavam juntos, inclusive sobre o episódio de Adams estar vivo, tudo para deixar o outro feliz.

– Beleza, agora vamos falar sério. – O de cabelos laranja afirma, pegando seu celular de volta.

– Falar sério? – Kid tomava uma garrafa inteira de vodka naquele momento. – Nah, pra quê falar sério? Me fala mais do Law...

– É sobre ele também, relaxa. Tá felizinho, Kid?

– Aham... – Estava com um estranho sorriso embriagado. – Tô...

– Que bom, porque eu vou te dizer o motivo de eu ter vindo até aqui.

– Ah... – Resmunga. – Você não veio só pra me dar carne e bebida? Poxa...

– A grande verdade é que o Law não tem muito tempo de vida.

– Ahn? – Com a frase direta, Kid não consegue muito bem processá-la, apenas para de beber e fica olhando atentamente nos olhos azuis do outro sem conseguir dizer nada.

– É triste, mas é verdade. Ele vai morrer em breve.

– Do que você tá falando? – Somente sente uma pontada no peito.

– Kid, eu não planejava te dizer isso pra você não ficar mal, mas eu acho que seria injusto não te contar toda a verdade.

– Verdade? – Foi quando ele dá uma leve acordada e fica com raiva, serrando o cenho. – E-Ei, do que você tá falando? Não fala essas coisas!

– O Joker quer o Law de volta como Corazón e vai matá-lo se ele recusar. Você sabe tão bem quanto eu que aquele garoto jamais aceitaria isso.

– Então é isso que você tem pra me dizer? – Kid se levanta e bate na mesa. – Que você vai matá-lo quando ele recusar? É isso mesmo, você veio aqui pra dizer isso?

– Não foi só por isso e não adianta jogar a sua raiva pra cima de mim agora, então procura ficar calmo.

– F-Ficar calmo?!

– É, pelo visto você ainda gosta dele do mesmo jeito. Eu fiquei com medo de você estar com ressentimento.

– É óbvio que eu gosto! Passei a minha vida amando ele, não vai ser agora que eu vou parar, apesar de tudo. – Eustass volta a ficar sentado, meio cabisbaixo. – Eu não consigo mesmo não gostar dele.

– Foi o que eu pensei.

– E esse tempo todo eu odiei o Luffy por esse motivo, eu achava que eles já estariam vivendo juntos depois de tanto tempo. – Mesmo triste, Eustass esboça um pequeno riso no canto dos lábios. – Aí você vem e me mostra que o Law levou um fora desse pirralho em público, eles não estavam juntos então?

– Pois é, ele corre atrás do Luffy do mesmo jeito que você corria atrás dele, é ótimo de se ver.

– O destino é tão engraçado... eu queria tanto vê-lo agora, apontar pra cara dele, dizer “bem feito” e começar a rir.

– Se ajuda, é o que eu faço no meu dia a dia.

– Mas nada disso importa agora, também não vai adiantar nada eu te dar uma surra agora, por mais que eu queira.

– Que bom que já passamos da fase da violência física gratuita contra mim.

– Que merda... – Eustass sente dor de cabeça e olha para baixo, puxando seus cabelos como se quisesse arrancá-los de ódio. – Então é isso, o Law vai morrer e eu não vou poder fazer nada?

– Eu não fico feliz com essa situação também, eu gosto dele.

– Ele nunca aceitaria essa proposta do Mingo... eu sei que não tinha nem como eu voltar a vê-lo, mas saber que ele vai morrer é totalmente diferente. Eu não gosto nem de dizer essa palavra. – Kid deita seu rosto na mesa, escondendo-se com os braços como se estivesse prestes a chorar. – Law...

– Eu tentei te dar essa notícia o mais calmo possível, até te dei comida pra ver se você não ficava tão triste.

– Isso não importa. – Dizia baixo por esconder o rosto. – Eu vou perder a pessoa mais importante pra mim sem poder fazer nada, eu sou um merda. – Mas tenta se acalmar e volta a levantar a visão. – O Luffy sabe disso?

– Nem o próprio Law sabe ainda, mas provavelmente o ele vai contar quando souber. Por quê?

– Porque ele não iria conseguir aguentar isso sozinho, se ele escondesse do Luffy iria deixá-lo pior ainda. Eu não quero ficar pensando que o Law vai sofrer. Se eu não puder protegê-lo, então eu prefiro que o Luffy fique no meu lugar.

– Mesmo que isso signifique que eles venham a ficar juntos de verdade?

– Eu já pensei muito nisso, não faz sentido eu ficar odiando o Luffy. Eu sei que o Law ama ele e eu nunca vi ele gostar de ninguém daquele jeito, eu nunca via ele tão feliz como quando ele falava desse garoto. Nem na época do Rosinante era assim.

– E se eu te disser que o Luffy acabou aceitando o pedido do Law, depois de negar?

– Sério? – Eustass olha para ele com um outro brilho nos olhos, apesar de fosco. – Ele aceitou?

– Aqui a outra parte do vídeo.

Drake entregou seu celular ao ruivo novamente, mas dessa vez mostrando-lhe a parte do vídeo em que Luffy aceita o pedido de namoro. Eustass agora não resistiu mais; colocou a mão no cabelo e estremeceu os lábios, deixando um surto de lágrimas caírem por seu rosto junto com uma voz trêmula e sem vida.

– Que bom... – Murmurou.

– “Que bom”?

– O Law sempre foi tão sozinho. Eu tentava fazê-lo se sentir seguro, fazê-lo gostar de mim pra ele saber que tinha alguém do lado, mas eu fiz muita merda também. Eu me sentia culpado por não conseguir deixá-lo feliz.

– Ele mudou bastante nesse tempo, nem parece o mesmo garotinho indefeso. Pode ficar tranquilo, ele e o Luffy sempre foram bem unidos mesmo não estando juntos oficialmente.

– Isso me acalma um pouco. – Kid limpa as lágrimas, devolvendo o celular do outro. – Aqui.

– Fica com isso. Eu te disse que não tinha vindo aqui só pra te dar essa notícia, certo?

– Vai me mostrar outro vídeo?

– Dá uma ligada pro Law, o número dele é o segundo dos meus contatos.

– L-Ligar? – Se assusta um pouco. – Tipo... ligar, ligar?

– É, pra se despedir. Diz logo tudo o que você tem pra dizer, já que ele não tem muito tempo de vida, você não vai ter outra oportunidade.

– S-Sério? Posso mesmo fazer isso?!

– Por que não poderia?

– Você tá sendo legal demais comigo... tem coisa errada.

– Quê? Kid, por favor, nós não somos mais adolescentes. Eu também mudei, sabia? Eu sou uma boa pessoa.

– Não força, vai.

– Você vai ligar ou não?

– E-Eu vou, é só que... – Ficou nervoso. – E-Eu não sei o que dizer.

– Manda um oi, diz que vai sentir saudades, sei lá, mas vai rápido porque se eu ficar demorando muito aqui uma certa pessoa vai ficar no meu pé pro resto do dia.

– Tá, tá, não me apressa! E-Eu vou ligar.

Eustass toma coragem para ligar para Law, sendo atendido pelo mesmo em seguida.

“Alô?”

– … – Mas ele fica sem voz.

“Alô?”

E não consegue dizer nada.

“Oi..?”

Somente ouvia a voz do outro, sem reações.

“Tsc, se não é pra falar nada porque tá ligando?”

“Quem é, Torao?”

“Sei lá, é um número secreto e não diz nada. Deve ser aquele ruivo idiota tentando me irritar de novo.”

“Desliga logo isso.”

“Tá bom, tá bom.”

Telefone desligado.

– Law... – Kid estava hipnotizado pela voz do outro e não resistiu, começou a chorar de novo.

– Não falou nada? – Drake estranhou.

– E-Ele... ele me chamou de “ruivo idiota”...

– Ahn, eu acho que ele estava falando de mim.

– Eu não ouço isso há tanto tempo... – Kid abriu um sorriso em meio às lágrimas. – Ele adorava me chamar assim, com essa mesma voz irritada... eu pensei que nunca mais ouviria...

– Por que você não disse nada?

– Ah, cara... – Enxuga as lágrimas. – No tempo em que nós estivemos preso juntos, eu fui o mais escroto com ele possível. Fui justamente a pessoa que eu sempre dizia que nunca seria e fiz coisas horríveis.

– Disso eu já sei.

– Eu fui até pior que você.

– Não, eu sou melhor em tudo, até em ser pior.

– Enfim, eu nunca vou me perdoar pelas coisas que eu fiz. Depois que o Law se apaixonou eu perdi totalmente a consciência, eu forçava ele a ficar comigo porque eu sabia que nunca iria conseguir isso e eu deixava ele triste. Eu nunca quis deixá-lo triste.

– Ah, mas isso faz tempo, você poderia ter falado com ele.

– Quando ele saiu da prisão, nós terminamos a nossa ligação ali. Ele me disse que seguiria em frente sem mim, foram muitos anos vivendo juntos. Tudo o que eu tinha pra dizer a ele eu já disse, mas foi bom ouvir a voz dele uma última vez. Obrigado.

– Então é isso?

– É, eu acho que é isso.

– Ótimo, só mais uma pergunta.

– O quê?

Pouco antes de obter a resposta, Eustass acaba virando o olho um pouco para o lado, até perceber que, escondida, havia uma pequena luz vermelha piscando em um determinado ponto da sala. Aquela luz era da câmera secreta que estava filmando tudo para, posteriormente, ser mostrada a Law.

E nesse momento, no presente, Law estava assistindo a gravação junto com Luffy, completamente estagnado e trêmulo devido às palavras usadas pelo melhor amigo ruivo, o qual sentia falta no fundo. Quando Kid olhou diretamente para a câmera, foi como se seu olhar se cruzasse com o de Trafalgar, que sentiu o impacto.

Law conseguiu, por uma última vez, olhar bem no fundo dos olhos sinceros de Eustass, ainda que indiretamente. Seu peito apertou, as batidas de seu coração estavam completamente instáveis e aqueles curtos segundos foram tão impactantes que um silêncio fúnebre fora criado, mas logo voltou ao normal.

– Por que tem uma luz vermelha piscando ali? – Kid perguntou após perceber.

– O que você acha que vai fazer sabendo que o Law vai morrer? – Mas é ignorado.

– … – Kid olha ressentido. – Eu sempre soube que a minha vida havia acabado no momento em que eu resolvi segui-lo. Eu não sou nada sem ele.

– Era só isso que eu precisava ouvir.

Após a última frase, a gravação fora cortada, mas não encerrada. Depois do corte, apareceu outra cena de vídeo que se passava dentro da cela dos prisioneiros, onde Eustass vivia sozinho. Drake havia deixado um papel em branco junto com uma caneta e uma corda em cima do colchão que o ruivo usava. Assim que viu, ele logo entendeu o significado.

A fita de gravação, intitulada como “A verdade sobre a morte de Eustass Kid”, acabou ao mostrar o ruivo pegando a corda, olhando para ela por vários segundos, com lágrimas nos olhos. O vídeo foi encerrado junto com a vida de Eustass, que a dedicou toda por seu melhor amigo de infância. Morreu com um sorriso, aguardando reencontrar o amado na outra vida.

♠ Fim da gravação, de volta aos tempos atuais na casa de Law. ♠

– Caramba. – Luffy foi o primeiro a comentar, assistindo a gravação atentamente.

Law, por outro lado, não conseguia dizer absolutamente nada. Sua pele estava pálida e seus olhos olhavam atentamente à TV, mesmo ela estando desligada. Sua boca entreaberta tentava proferir palavras que expressassem sua indignação, sem êxito.

– Kid... – Mas acabou por chamá-lo, esperando ter uma resposta que jamais viera. A culpa que sentia era forte, junto com a saudade e arrependimento, que corriam suas veias até chegar em seus pulsos cerrados e trêmulos de ódio. – Aquele... desgraçado... – Sentia um gosto horrível em sua garganta.

– Torao... – Luffy ficou atento, esperando o que o outro iria fazer depois de ver o vídeo.

– Ele acha que pode fazer mesmo o que quer? – Por mais que dissesse, sua visão já estava embassada de tanto ódio e as batidas de seu coração pulsavam rápido e forte, como se pudesse matar alguém só por pensamento. – Isso é ridículo...

– Fica calmo, por favor. – Luffy olhava para ele e percebia sua raiva pulsante.

– Ficar calmo? – Fala com o tom de voz alterado. – Ele passou a vida inteira se sentindo superior a mim! Tirou tudo o que eu tinha, acabou com a minha vida, matou a pessoa que eu mais gostava e agora eu descubro que acabou com a vida do Kid também! Como eu posso ficar calmo?!

– Eu sei, eu ainda não acredito como uma pessoa que todo mundo confiava consiga ser tão horrível e nojenta, mas não vai adiantar nada ficar com mais raiva ainda!

– Não vai adiantar ficar aqui, sem fazer nada! – Law revolta-se, levantando do sofá e pegando uma camisa qualquer que estava no chão, vestindo-a.

– O que você vai fazer? – Ato que assusta Luffy.

– Eu já cansei de ficar esperando. Nada vai acontecer com esse filho da puta, a Yard não vai prendê-lo e ele vai ficar fazendo o que quiser sem que ninguém nunca o impeça!

– N-Não é bem assim, a gente tem esse vídeo, dá pra mostrar pra alguém! Só vai demorar um pouco, mas nós precisamos agir juntos. Você vai fazer o quê?

– Eu vou atrás dele, isso já se tornou pessoal há muito tempo.

– Vai atrás dele? Mas é exatamente isso que ele quer!

– Ele quer me arrastar pro submundo e me matar, eu não vou deixar isso acontecer. – Law já estava vestido e Luffy tentava o impedir. – Só que eu cansei de ficar esperando, eu vou acabar com esse merda pessoalmente.

– Eu não vou deixar você sair de casa assim! Você nem sabe onde ele tá, não tem nenhum plano nem nada, nem parece você de verdade.

– Tsc... eu não sei onde ele tá.

– Então se acalma e vamos pensar em alguma coisa juntos.

– … – Law ainda estava com uma fúria sobressaindo, mas procurou fazer o que o menor havia dito. Foi até a parede, dando um soco na mesma para estravazar sua raiva, ficando com o pulso dolorido logo em seguida. – Que saco... você tem razão.

– Nós vamos conseguir acabar com ele, tá bom? Eu prometo.

Luffy, vendo o verdadeiro nervosismo no qual o outro se encontrava, foi até Law e o abraçou. O mais velho logo foi se acalmando nos braços do menor, sentindo seu doce cheiro e dando-lhe um beijo no pescoço. Ficaram um bom tempo juntos, até se separarem, quando ambos já estavam se sentindo melhores e unidos.

– Obrigado, Luffy...

Porém, todavida, entretanto, como a vida do nosso pobre médico não pode ter um segundo sequer de sossego, ele logo recebeu uma mensagem em seu celular. Assim que leu, sua reação de espanto foi inevitável, seus olhos voltaram a estremecer e sua sobrancelha cerrava em ódio.

– O que houve?! – O que acabou assustando o garoto do chapéu de palha.

– V-Você... – Olha para o garoto, porém, com raiva. – Eu não acredito nisso...

– O quê? O que tem eu? O que dizia a mensagem?

– Tsc...

O médico fechou os olhos e respirou fundo, já completamente tomado por ódio. O pobre garoto se assustou assim que percebeu que as mãos de Law se encontravam puxando a gola de sua camisa com força, o jogando contra a parede violentamente, fazendo até mesmo os quadros caírem no chão.

– O-O-O que voc–

– TÁ DE SACANAGEM COMIGO? – Trafalgar gritou, praticamente cuspindo na cara do menor que o olhava com as pupilas dilatadas, não entendendo o significado daquilo.

– Hã, o qu–

– VOCÊ SÓ PODE TÁ DE BRINCADEIRA! – Nem o deixou falar. Suas mãos o prensavam agora pelo pescoço, quase o esganando. Luffy segurou o braço dele, tentando se soltar, assustado com sua reação. – Você acha mesmo que eu vou aceitar um negócio desses?

– M-Mas... arh... – Law o apertava forte demais contra parede, impossibilitando-o de falar. – D-Do que você...

– VAI À MERDA! – Ultrapassando todos os limites possíveis e imagináveis, Law acaba o soltando, porém, não sem antes disferir um soco no rosto do menor, que cai no chão imediatamente, com a boca sangrando. – Tudo tem um limite, Monkey D. Luffy!

– T-Tora, mas o quê... – O garoto estava caído no chão, tentando se afastar e querendo entender o que se passava ali, limpando sua boca. – Do que você tá falando?

– Como assim “do que eu tô falando”?

– O que dizia na mensagem?

– O que dizia não importa! – E assim, ele volta a pegar o menor e o joga contra a parede novamente, gritando e olhando bem no fundo de seus olhos. – O QUE IMPORTA É QUE EU VOU MATAR VOCÊ!

Notas finais
Capítulo bem emocionante, certo? Certo! Gente, sobre o capítulo seguinte: ele será conhecido como o pior capítulo da fic inteira, então se preparem. :3 Bejão! Ah, e não me matem. ♥ ☺