Pokémon - Reconquest

1 Prólogo: Maturidade


Notas iniciais
Sou paranóico com revisões e correções, mas se algum erro tiver escapado às minhas releituras compulsivas, peço que me alertem via comentário ou como acharem melhor. Aceito sugestões, elogios e, principalmente, críticas. Divirtam-se.

Os ruídos eram bastante característicos ao local; qualquer um que freqüentasse aquele meio saberia onde estavam mesmo de olhos vendados. Apenas o discreto gemido das maltratadas solas dos pés se arrastando por sobre a borracha era suficiente para denunciar a movimentação agressiva sobre o tatame. A respiração descompassada alertava que ele servia, naquele momento, ao seu propósito natural.

O primeiro rapaz era enorme e também muito corpulento. Sua altura colossal fazia-o andar de forma inevitavelmente curvada, mantendo os dois braços longos à frente do rosto e abaixando a cabeça ainda mais, por instinto, para protegê-la atrás. Suas costas e ombros absurdamente largos escondiam o oponente de quem olhava por trás dele.

Ele avançou com um urro baixo e seu cruzado de direita errou o alvo; agilmente, um garoto igualmente grande, porém muito menos largo se esgueirou sob seu braço direito no momento exato, rodeando o outro rapaz vigorosamente e sem se dar ao trabalho de erguer a guarda.

A franja negra suada agregada à testa era o único sinal da atividade física que praticava, pois sua respiração permanecia tranqüila, como se estivesse caminhando calmamente ao ar livre. Seu olhar cinzento e frio se pousava analiticamente sobre o rosto do oponente, que também parecia muito bom; rapidamente se virara quanto o rosto do mais magro escapou à sua luva por centímetros.

A cabeça completamente raspada e os traços duros lhe conferiam um aspecto assustador, principalmente se somado ao fato de que usava luvas e trazia a mandíbula visualmente deformada pelo protetor bucal. Abriu a boca inconscientemente e partiu para outra investida, mas as mãos frouxamente dependuradas ao lado do corpo do adversário não eram descaso nem deboche: eram estratégia.

Agora optando por se abaixar, Kristen aparou o antebraço esquerdo de Adolf com a mão direita de forma bastante firme; ele não usava luvas. Em menos de um segundo, a outra mão voara em direção ao mesmo braço e ele girava pelo flanco esquerdo do oponente, fazendo-o desequilibrar-se para a frente com o braço esquerdo perigosamente torcido que Kristen soltara na última hora; se fosse uma situação real e não uma luta dentro do dojan¹ ele já teria o mesmo osso quebrado em dois pontos diferentes.

Antes que pudesse se recompor, Adolf recebeu um chute nas costelas do mesmo lado que o fez se desequilibrar. Apesar dos quase cinqüenta quilos que o distanciavam de Kristen e do insano treino abdominal a que se submetia todos os dias, a potência e, principalmente, a precisão do golpe tornavam impossível conter a precipitação do próprio corpo ao chão de borco, onde apenas os antebraços calejados impediram-no de, literalmente, beijar o tatame.

Não precisou sequer virar a cabeça para saber que o pé de Kristen certamente pairava sobre seu rosto, em sinal de finalização simbólica, pois os gritos e as palmas dos cento e quarenta alunos que lotavam as bordas do dojan eram impossíveis de bloquear.

Pessoas se amontoavam junto a Machops, Mankeys e Hitmons por todo o lado no espaço de 80 x 80 m revestido de tatames, deixando livre um pequeno espaço de 12 x 12 m onde os dois antes lutavam. Outros tantos ocupavam espaço junto aos equipamentos de treino mais ao fundo, alguns trepados sobre os aparelhos de musculação, em um dos quais um imenso Machamp urrava, em comemoração à conclusão da luta, erguendo seus quatro braços embaixo do lendário símbolo da equipe gravado à parede: as letras AMP estilizadas, acima da figura das silhuetas de um homem e um Hitmonlee cruzando seus chutes no ar.

Quando Adolf se virou, foi para aceitar sorridente a mão que seu amigo Kristen estendia para ajudá-lo a se erguer. Ambos riram com orgulho um para o outro e se abraçaram sem hesitar, Adolf sentindo as lágrimas pressionarem o interior das pálpebras e o barulho ao redor tornando-se cada vez mais estridente, despertando neles a sensação calorosa que só um lutador conhece de ser aplaudido de pé pelos próprios alunos.

Os dois se separaram, em seguida afastaram-se respeitosamente e Kristen deu o discreto sinal com a cabeça, mantendo a expressão bastante serena. Como se tivessem cortado o volume, todo o local silenciou de súbito. Um comando curto e alto tomou forma na voz de Adolf e ouviu-se o som militar de mãos encontrando pernas por todo o local. Um segundo comando e cabeças viraram-se para o pequeno mestre Kristen Jounochi como se fossem uma só pessoa.

Sem conseguir mais conter as duas lágrimas que queriam cair há semanas, ele curvou-se em resposta. Quando finalmente conseguiu se desvencilhar dos abraços e cumprimentos, mais de uma hora depois, saiu do local abafado sob aplausos, acompanhado apenas de Adolf.

Mais tarde, com o sol começando a deixá-los, Kristen e Adolf, já banhados e socialmente vestidos, descansavam às margens do córrego raso que passava por trás da academia e cortava todo o vilarejo, para o qual nem era necessário uma ponte. Kristen brincava com uma esfera vermelha e branca numa das mãos, dividida por uma única linha preta, centralizada por um botão circular.

Ambos recostavam-se na parede ao lado de fora da academia, imediatamente abaixo das janelas, e ouviam os sons dos golpes abatendo-se sobre a espuma, os gritos de luta e o metal dos aparelhos de musculação se chocando febrilmente: uma típica noite de treinos dedicados.

- Então quer dizer que eu perdi... – gemeu Adolf, tentando fingir uma depressão fajuta – Não tem mesmo jeito de você ficar.

- Ora, vamos... – gargalhou seu amigo em resposta – Sabia desde o início que essa aposta era uma desculpa para uma despedida digna.

- Verdade... afinal eu não ia ganhar do campeão mundial, não velho e acabado do jeito que estou.

- Não diga isso, são só dez anos de diferença. – disse Kristen, com uma leve palmada no ombro do amigo.

- Hahaha, estava brincando, cara. Mas me conte, por que escolheu levar logo esse?

Os olhos de ambos se voltaram para a diminuta Pokébola que Kristen girava compulsivamente entre os dedos. Havia uma porção de pequenos garranchos sobre a parte vermelha frontal, mas a velocidade com que Kristen brincava com ela tornava impossível de ler. Apesar disso, Adolf, sabia exatamente o que ela carregava; todos sabiam e todos tinham ficado igualmente espantados.

- Bom... digamos apenas que ele é o mais merecedor.

- Ora, vamos... temos campeões aqui em várias esferas: regionais, nacionais, até dois mundiais em categorias diferentes. Não quero menosprezá-lo, mas precisa treinar muito ainda antes de ter o direito de ser a sua escolha. Por que não leva o Machamp?

- Estou iniciando agora, Aldo... não posso simplesmente pegar um Pokémon já treinado, não seria justo. Preciso começar com um novato. Inclusive acho que pra passar na inspeção precisa estar no level 5. Não entendo bem como eles estabelecem essas coisas, mas tenho certeza que a maioria dos nossos campeões já deve ser level 100, principalmente aquele Machamp.

- Verdade, não tinha pensado nisso... Mas mesmo assim, tem os outros dois dessa mesma leva dele que são mais talentosos.

- Nenhum é tão esforçado. Esse aqui caiu como uma luva... desengonçado, mas ainda assim esforçado, dedicado. Teve o pior desempenho nos quatro primeiros treinos tradicionais dos novatos, mas a cada falha treinava mais tempo depois da hora... eu preciso valorizar esse espírito, entende? Tenho certeza de que ele será o companheiro perfeito.

Adolf apenas sorriu. O amigo agora encarava com orgulho a face da Pokébola voltada para ele, sobre a qual se estampava “Tyrogue” numa caligrafia horrível em caneta de marcação de tecidos grossos, como os de kimonos marciais.

Pessoalmente, ele teria escolhido um dos outros dois, mas sabia que ninguém teria uma idéia precisa de mérito como aquela de seu amigo. Com o treinamento e a motivação pessoal aplicados por ele, o maior dos fracassados poderia se tornar um célebre campeão muito facilmente. Ele mesmo era prova viva disso.

- Que seja, Kris... você é muito melhor em reconhecer talentos que eu, não vou discutir. Estava apenas curioso. Deixando isso de lado, como fez aquele movimento lá atrás? Fazia tempo que não lutávamos, mas não sabia que estava num nível tão acima assim...

Kristen sorriu antes de responder.

- Não estou, Aldo. Só que você pesa muito mais que eu. Aquele movimento não seria muito inteligente com alguém que pudesse me acompanhar de perto, mas ele é útil quando aplicado em alguém mais pesado. Fez com que você não pudesse parar a própria força e não tivesse mais alvo pra frear... então se desequilibrou tempo suficiente pra eu finalizar. O que achou?

- Achei fantástico, como sempre... só estranhei, na hora, nunca tinha visto em nenhuma das suas lutas. Então era por isso...

- Pois éééé. Ótimo golpe de academia... péssimo pra competições. – ele pôs-se de pé num salto jovial, limpando a poeira das calças de tactel e batendo os chinelos na parede antes de calçá-los. — Vamos caminhar? Ainda preciso me despedir da Mila e do pessoal da farmácia.

- Ah, vai ser ótimo esticar as pernas.

Adolf repetiu o processo higiênico de seu amigo, que guardara a nova Pokébola no bolso carinhosamente e, em poucos segundos, ambos haviam atravessado o curtíssimo corpo d’água e seguiam a trilha de barro até as luzes do escondido vilarejo, ligeiramente afastados da academia e da casa de madeira ao lado dela, completamente escura e com as cortinas puxadas pela primeira vez em quase vinte anos.

Notas finais
1 - Romanização do nome dado ao local de treinamento para artes marciais coreanas.

Aguardo as reações de vocês. Forte abraço e até o Capítulo 1!