Pokémon - Reconquest

2 Capítulo 1 - Asco


Notas iniciais
Sou paranóico com revisões e correções, mas se algum erro tiver escapado às minhas releituras compulsivas, peço que me alertem via comentário ou como acharem melhor. Aceito sugestões, elogios e, principalmente, críticas. Divirtam-se.

Uma chuva fina fustigava os túmulos, limpando a poeira acumulada nos cantos mais esquecidos do Cemitério de Azalea. A água não pegara ninguém desprevenido; escorria dessa forma desde a madrugada, de modo que a colossal multidão que lotava os espaços entre as tumbas, mausoléus e covas rasas estava quase totalmente revestida de capas plásticas.

Os repórteres tinham certo trabalho em manter suas câmeras e microfones a salvo da água, mas não se deixavam abalar, analisando de forma faminta tudo ao redor, praticamente farejando uma personalidade ilustre que pudessem entrevistar para obter seus vinte segundos de espaço na televisão.

Sentado de pernas cruzadas sobre os escorregadios galhos de uma árvore, Kristen observava com respeito a cerimônia que se desenrolava, constatando com certo divertimento que até mesmo os repórteres mais abusados não ousavam se aproximar da velha encarquilhada mais próxima do túmulo, apoiada a um lado por uma bengala de madeira nodosa e ao outro por um enrugado Mr. Mime, que segurava sobre as cabeças de ambos um enorme guarda-chuva florido.

Ela vestia-se completamente de preto, deixando de lado qualquer proteção plástica contra a chuva e, apesar de Kristen não poder ver sua expressão, sabia que devia estar rangendo os dentes para todos aqueles logos da imprensa tomando as pessoas de assalto enquanto tudo que desejavam era se despedir dignamente do defunto.

Afinal de contas, Delia Ketchum não era famosa por sua tolerância para com os jornalistas. Desde o desaparecimento de Ash, era evidente que todo mundo gostaria de uma entrevista com o parente mais próximo da maior lenda do mundo Pokémon.

Diversos jornalistas a abordaram em casa ou na rua nas mais diversas situações. No início Delia apenas respondia de forma grosseira, declarando de que a imprensa era constituída por um bando de urubus, que se aproveitavam da desgraça alheia para obter o próprio sustento.

Depois de algum tempo, porém, eles passaram a montar extensas vigílias na frente de sua casa e a segui-la onde quer que fosse, na esperança de apanhá-la em flagrante encontrando-se com o filho. Sua paciência começou a se esgotar rapidamente e eram cada vez mais frequentes os episódios com bengaladas, vassouradas, paneladas, câmeras caríssimas atiradas no rio, microfones atulhados na boca de repórteres e até pneus furados de veículos da imprensa.

Os jornalistas finalmente aprenderam a deixá-la em paz diante do comportamento amalucado e até violento que acumulava pilhas de processos, mas nunca se abrandava.

O caixão finalmente chegou, carregado por seis homens de variadas idades. Kristen conhecia apenas aquele que liderava a fileira da esquerda. Ele estava entre os poucos que dispensavam a capa de chuva; os cabelos castanhos molhados, a barba malfeita que ocupava quase toda a face e o imenso colar com um pingente de uma Pokébola verde e amarela tornavam impossível confundir Gary Oak mesmo em meio a uma enorme multidão como aquela.

Gary agora era um importante cientista em Kanto, perto de sua cidade natal, dividindo-se entre as obrigações do laboratório e o Ginásio Pokémon de Viridian, do qual era um líder licenciado pela Liga de Kanto. Antes disso, porém, viajara o mundo inteiro fazendo pesquisas e orgulhando seu avô. Era tão assediado quanto Delia pela imprensa e, infelizmente, sua posição frente à Elite Four e às suas pesquisas não o permitia ser tão ranzinza quanto ela.

Entre as inúmeras aparições que tivera antes de sumir — entre colunas de jornal, programas de televisão e pronunciamentos públicos -, Ash o definira como um amigo cuja amizade nascera da forma mais estranha possível.

Fora um adolescente excessivamente empolgado e arrogante, mas há muito já havia abandonado seu fã-clube de garotas e o carro conversível que o acompanhava para todo lugar, tomando posse do jaleco e de sua imensa criação de Pokémon, que ele mantinha sob a verdadeira filosofia de Ash. Era uma prova viva de que até mesmo o mais ambicioso treinador podia aprender a respeitar os Pokémon.

Eles sumiram com o caixão dentro do mausoléu por um tempo, mas logo saíram para prestar as últimas homenagens do lado de fora, para que o restante do público também pudesse fazê-lo. Kristen saltou da árvore e ficou respeitosamente de pé, entrelaçando os dedos das mãos às costas e ignorando os pingos de chuva que o açoitavam.

Um a um, diversos homens e mulheres subiram alguns degraus no mausoléu e discursaram, tendo sua visão congestionada pelos repórteres e microfones que disputavam espaço sob suas bocas deslealmente. Kristen observou com atenção as pessoas, embora não desse importância às suas palavras.

Mais de meia hora se passou e nem Gary nem Delia se adiantaram. Gary havia passado um braço pelo ombro da mãe de seu velho rival e ambos ficaram postados em silêncio, de costas para Kristen, olhando as pessoas subirem e descerem dos degraus, sob aplausos.

Kristen foi subitamente tomado por uma vontade de vê-los de perto. Abriu espaço educadamente entre as pessoas, o que não era uma tarefa nada fácil, dado seu tamanho e o formigueiro que se instalara no local. Contornando alguns últimos, ficou a poucos metros do mausoléu, bem no momento que um velho de bigodes asseados e cabelos grisalhos muito em falta – falsamente penteado numa tentativa frustrada de ocular a calvície — adiantou-se para falar, acompanhado por uma asmática adolescente que brandia um guarda-chuva sobre ele.

- Obrigado, senhores... e senhoras. É um pesar enorme, mas ao mesmo tempo também um enorme orgulho estar aqui para falar de meu grande amigo. Sem ele, eu não estaria hoje onde estou. Nem eu nem boa parte da comunidade científica que estuda os Pokémon. Este é um dia triste. É impossível mensurar para mim o quanto perde a ciência... e o quanto perdemos pessoalmente vários de nós com a ausência do Professor Oak.

O homem parecia sinceramente comovido, mas Kristen não pôde deixar de sentir algum sensacionalismo no que ele dizia, como se quisesse teatralizar os próprios sentimentos.

- Apesar de já não estar há meses à frente do Instituto Oak, por causa da doença que enfrentava, ele é e continuará sendo para sempre o nosso símbolo de luta e procuraremos nunca nos desviar de seu caminho. Eu sinto-me muito honrado em assumir o posto que um dia foi desse grande pioneiro. Só posso dizer muito obrigado, Professor.

Sob aplausos contidos, o homem desceu e mais ninguém se prontificou a falar. Kristen novamente recolheu-se à sombra de uma árvore e observou enquanto a multidão se adiantava, fazendo fila para cobrir de flores o caixão que estava dentro de mausoléu, antes que ele fosse vedado com o mármore adequado.

Kristen não foi o único a reparar que Gary saía apressado na companhia de Sra. Ketchum e seu Mr. Mime; um modo bastante eficaz de evitar jornalistas sem ser questionado era andar bem próximo a ela.

Somente vários minutos depois, o movimento diminuiu o suficiente para que Kristen se postasse diante do mausoléu. Calado, ele encarou o monumento da família Oak respeitosamente durante algum tempo, até que foi despertado de seus devaneios por uma mão leve em seu braço. Ele se virou e encarou, muito surpreso, o homem responsável pelo último discurso fúnebre. De perto, seu sorriso e comoção pareciam ainda mais amáveis.

- Bom dia, meu rapaz. Você é Kristen, não é? Puxa, como você cresceu... Sou o Dr. Silas Guren. Atualmente dirijo o Instituto Oak.

Kristen apertou a mão que o velho estendia, notando, mais uma vez, que sua altura o frustrava socialmente com freqüência. Habituado às artes marciais desde antes de conseguir falar com fluência, para Kristen a reverência era uma forma necessária de tratar pessoas importantes. Porém a diferença de altura entre eles era tão grande que mesmo a exagerada curvatura dele não lhe pareceu suficiente. O gesto não passou despercebido por Dr. Silas, que logo gesticulou sob sua capa para que ele se endireitasse:

- Vamos, não precisa disso, meu rapaz. Vim apenas conversar... lhe dar os parabéns por ter sido aprovado na seleção de ontem e lhe fazer uma proposta. Mas talvez não seja aqui o local mais adequado, não sob toda essa água, não é? Posso lhe fazer um convite para vir ao meu laboratório agora? Prometo que será breve.

Kristen abriu um largo sorriso, sinceramente lisonjeado pelo convite. Nada precisou responder com palavras e ambos deixaram juntos o cemitério pela porta da frente, onde Kristen se dirigiu ao bicicletário junto às capelas externas e começou a destrancar o cadeado com a pesada chave que tirara do bolso. Dr. Silas depositou a mão sobre o ombro curvado dele gentilmente.

- Não precisa disso, Kristen. Podemos colocá-la no carro e então os rapazes depois levam você e a bicicleta em casa, o que acha?

Kristen nem tivera a chance de responder e dois rapazes magricelas que agora rodeavam o doutor apanharam a bicicleta e a puseram numa das quatro seções de portas da maior limusine que Kristen já vira na vida. Tentando suprimir o constrangimento, ele seguiu o Dr. Silas à porta indicada. Este teve tempo de abrir o frigobar e despir a jaqueta plástica molhada, atirando-a a um canto, antes do carro arrancar.

- Aceita um suco, meu rapaz?

- Ah... não, obrigado, Doutor.

- Certo, certo... não vou querer desvirtuar a dieta de um atleta, haha. Mas e então, por que maltratar essa bicicleta com uma chuva dessas?

- Na verdade, sou dado a caminhadas... gosto delas mais ainda na chuva, mas hoje tinha pressa por causa do horário, então tive que apelar para as rodas.

Dr. Silas gargalhou profundamente antes de responder:

- Você é bem parecido com seu pai, garoto.

- Conheceu meu pai, Doutor?

- E como conheci... eu ainda era um estagiário no humilde laboratório do Professor em Pallet e eles já eram grandes amigos. Hoje o Instituto Oak é um grande laboratório lucrativo e auto-sustentável, mas no passado passamos por períodos difíceis. Seu pai era um dos poucos que lutava para que parte da verba da Elite Four continuasse a ser destinada para nossas pesquisas, enquanto outros lunáticos defendiam que deviam nos dar apenas o suficiente para que criássemos Pokémon para as novas gerações. Não entendiam a grandeza das pesquisas dele...

- Hum. De fato eu me lembro de ter visitado o professor um sem-número de vezes enquanto meu pai era vivo.

- Pois é, tantas perdas e tão próximas uma da outra... é realmente uma pena que pessoas como Professor Oak e Bruno tenham que deixar este mundo. Mas veja o Professor, por exemplo... quase um ano lutando contra aquele terrível câncer. Oito meses entrevado na cama de um hospital, acompanhando seu laboratório, o que mais amava fazer, apenas por artigos científicos que os médicos limitavam por causa do estresse... isso é morte em vida, às vezes é melhor descansar. Lamento por termos tocado nesse assunto, Kristen – acrescentou, ao ver que o jovem lutador parecia mais pensativo e menos descontraído.

- Está tudo bem, Doutor. Na verdade, tenho muito orgulho em falar no meu pai.

Esse foi o máximo de conversa que conseguiram desenvolver antes do carro parar. O Cemitério de Azalea fora construído por necessidade após o boom que atraía treinadores, cientistas e jornalistas para a rota traçada por Ash Ketchum – com seus muitos mistérios, mitos e heranças -, aumentando muito rapidamente o quantitativo populacional de Kanto e Johto. Uma área razoável fora construída ao lado da rota 32, encostada à Union Cave, para que as pessoas pudessem se despedir de seus mortos.

Por outro lado, o Professor Oak sentira a necessidade de trabalhar em paz face ao grande assédio jornalístico em cima das pessoas que cercavam a história de Ash, sendo obrigado a deixar seu pequeno laboratório em Pallet aos cuidados de outros cientistas e refugiar-se em Johto, onde transformou as pequenas campanas próximas às Ruínas de Alph num enorme complexo científico, futuramente batizado como Instituto Oak.

Da criação de Pokémon às pesquisas genéticas, históricas, evolutivas, sociais e comportamentais que os cercavam, de tudo se fazia naquele complexo, que alguns anos antes inaugurara também a Universidade de Alph, que já começava a formar suas primeiras turmas em seis diferentes cursos relacionados aos estudos dos Pokémon.

O único e simples caminho que precisaram fazer foi subir a Rota 32 do cemitério aos laboratórios, explicando-se então o caráter curtíssimo da conversa. Acompanhado do Dr. Silas e dos outros dois adolescentes, Kristen adentrou em um dos prédios, sacudindo a água da roupa e dos cabelos o mais discretamente que conseguiu. Lá dentro vislumbrou um enorme balcão de recepção e um fluxo absurdo de pessoas; só de onde estava podia ver quatro corredores diferentes lotados de portas e pessoas que surgiam e desapareciam de todos os cantos, como num grande ninho de baratas.

Lembrava-se, quando criança, de ter visitado várias vezes o laboratório do Prof. Oak em Pallet acompanhado do pai, onde o velho cientista mostrava-se atencioso e jeitoso com crianças, querendo saber dos progressos de Kristen nas artes marciais, onde já mostrava ter muito talento. Lembrava-se também de se divertir com os Pokémon de outros treinadores, que ficavam sob os cuidados quase paternais do Professor. Entretanto, depois de sua adolescência, com a rotina pesada de treinos e campeonatos, sabia que seu pai continuava a visitar o Professor em seu novo endereço, mas nunca o acompanhara até ali.

Dr. Silas trocou uma dúzia de palavras com a bela recepcionista, mas a curiosidade de Kristen era demais para prestar atenção. Recebeu das mãos do Doutor um crachá, que colocou sobre a gola encharcada. Seguiu, em seguida, o rumo do cientista, que enveredou à direita, tomando um corredor à esquerda logo à frente e fazendo Kristen perceber que havia se perdido.

- Soube que obteve sua Licença com um Tyrogue próprio. – emendou Dr. Silas como se nunca tivessem interrompido a conversa.

- Ah, sim. Era um dos novatos lá da academia, achei que nada poderia ser mais apropriado.

- Muita coragem, rapaz. Novatos costumam preferir elementais, são mais fáceis de treinar.

- Sim, Doutor. Mas eu treino com Pokémon como ele desde criança. Acredito que pra mim seja mais fácil,apesar de não ter sido o motivo exato da minha escolha.

- Naturalmente, jovem. Não se preocupe, eu não o estava criticando, haha.

Atravessaram uma série de portas com laboratórios e salas de aula com nomes complexos, passando também por cientistas e estudantes de diversas idades que cumprimentavam Dr. Silas com reverência e olhavam Kristen com curiosidade. Subiram um lance de escadas e Kristen pôde ler na porta antes de entrarem:

“LASGENP – LABORATÓRIO DE SEQÜENCIAMENTO GENÔMICO POKÉMON”.

O interior do laboratório era bem diferente do que qualquer outro que Kristen tivesse visto em filmes. Uma montoeira de papéis e aparelhos estranhos se abarrotavam nas mais estranhas ordenações naquela ante-sala que possuía, no mínimo, mais três portas. Era impossível precisar o tamanho dela, tão atulhada que estava de tralhas.

Contornando cuidadosamente a mesa, Kristen seguiu Dr. Silas até a porta mais ao fundo, onde o ambiente mudou completamente. Uma gigantesca capela química tomava todo o lado direito da saleta de vinte metros quadrados, sendo interrompida por um biombo que sugeria que a sala seria, de fato, muito maior. Apesar de desligada, Kristen deduziu pela série de botões por toda sua extensão que era usada para trabalhos muito mais complexos do que os que fazia em seus opacos ensinamentos de química na escola.

O cientista reduziu um pouco o passo, olhando ao redor e limpando a garganta e Kristen percebeu que ele estava tentando impressionar o garoto com a opulência do laboratório. À esquerda uma infinidade de móveis criogênicos de vidro liso deixavam entrever seu interior, abarrotado de frascos contendo líquidos de cor indistinguível por trás da vidraria azulada sem iluminação.

- Então, Kristen... quer dizer que decidiu largar sua carreira como lutador a nível mundial para tornar-se um treinador. Seu pai ficaria orgulhoso de qualquer uma das duas formas...

- De fato... Existe um ponto de vista a respeito dos Pokémon que eu pretendo provar a mim e ao mundo, por isso decidi partir nessa jornada.

- Espero que consiga provar isso então.

- Obrigado, Doutor.

- Não me agradeça ainda, rapaz... talvez no final dessa conversa haja algo a agradecer, de fato. Talvez eu possa te ajudar com seus objetivos.

Ambos caminhavam entre os biombos, dentro dos quais havia mesas e aparelhagens discretas, algumas forradas de pilhas de papel, outras limpas e organizadas, cada qual com sua própria lixeira de chão e mural.

- O que quer dizer, Doutor?

- Ora, rapaz... a maioria dos jovens da sua idade hoje sai em jornada sem muito conhecimento científico a respeito de seu principal material de trabalho: os Pokémon.

Kristen não gostou nem um pouco da forma como o Dr. tratou os Pokémon, mas foi obrigado a engolir as próprias opiniões para não ser descortês.

- Hum.

- Digamos que... com o suporte científico necessário, fica muito mais fácil para um jovem inteligente como você tornar-se um mestre Pokémon. O que me diz?

- Bom, não posso negar que umas aulas viriam a calhar. Qualquer coisa que possa me ajudar a tratar melhor os Pokémon é bem-vinda.

- Haha, decerto vou lhe ensinar algumas coisas, mas a ajuda que proponho vai além disso.

- Como assim, Doutor?

- Vamos por partes... o que sabe sobre os DVs?

- Hum...

Kristen vasculhou a memória, amaldiçoando pela enésima vez a própria falta de tempo para pesquisar profundamente sobre todas as coisas que achava interessantes.

- Não muito... só o que passa na TV ou nos jornais. Sei que dizem que eles determinam quais Pokémon são mais fortes que outros ou algo do tipo... perdoe a ignorância.

- Deter Values, rapaz... são como genes de batalha dos Pokémon.

- Hum.

- É claro que apenas um treinamento árduo é capaz de levar seu Pokémon ao limite de seus poderes... mas esses genes de que estou falando são o que determinam o que realmente é esse limite. Por isso é comum entre os treinadores atuais colocar os DVs quase no mesmo patamar de importância que um treinamento eficaz.

Colocar o treinamento no mesmo nível do talento genético era uma ofensa pessoal a um artista marcial competente como Kristen e Dr. Silas parecia ter plena consciência disso, pois escolhia as palavras com cuidado, tornando suas afirmações impessoais e, portanto, passíveis de serem desmentidas a qualquer momento.

- Acontece que nossas pesquisas nos permitem hoje facilmente testar e descobrir os DVs de um Pokémon com exames simples, rápidos e indolores.

- Hum... disso eu não sabia.

- Pois é... e tornou-se uma prática igualmente comum entre os treinadores de melhor condição financeira encomendar conosco o que chamamos de Pokémon TOP: aqueles que possuem todos os seus DVs elevados ao máximo possível. Se você tiver o talento de seu pai para treinar os Pokémon, será imbatível com Pokémon TOP.

- Compreendo.

Kristen estava começando a detestar o rumo da conversa, mas não conseguia pensar numa forma educada de dizer que abominava escolher como seria seu Pokémon, criando um laço de poder com ele, ao invés de conquistar sua confiança como deveria ser.

- Essas câmaras que vê atrás de você... são nossa mais recente encomenda. Um Lapras TOP, iniciamos hoje as fecundações e retomaremos amanhã a segunda leva. O material está todo pronto nessas câmaras criogênicas.

- Então vocês promovem criações em massa e testam Pokémon por Pokémon até encontrar um TOP?

- Correto, meu rapaz.

- Não entendo nada dessas coisas, mas por que não podem simplesmente manipular o nascimento para que venha um bebê do jeito que querem? Ficou confusa a pergunta, acho...

- Não se preocupe, eu entendi perfeitamente, meu rapaz. Realmente seria a melhor solução óbvia, não é preciso ser cientista para concluir isso... mas é muito custoso. Unir pares de gametas em laboratório e fazê-los procriar indefinidamente em cápsulas é bastante simples com a tecnologia e a gama de Pokémon em cativeiro que temos, mas a manipulação de DVs inclui mexer numa porção de genes entrelaçados e de difícil localização. É um processo que levaria meses até para os melhores cientistas e continua sendo quase impossível reduzir a margem de erro a um nível aceitável. Os equipamentos e materiais para isso são caríssimos também. Em suma, eu creio que, em alguns anos, seja um procedimento simples, mas hoje está fora da nossa realidade. Contamos um pouco com a sorte também. Cobramos o suficiente para lucrar em cima de cem mil cruzamentos, o que é um dinheiro razoável, embora nada com que um rapaz de vida confortável como um grande campão das artes marciais possa arcar. – completou o gracejo com uma piscadela. — Levamos cerca de três semanas para concluir o serviço, caso sejam realmente necessários todos os cruzamentos.

- Nossa, tantos assim?

- É... a probabilidade de que nasça aleatoriamente um filhote TOP DVs em qualquer espécie é de uma em 65536. Colocamos cem mil como uma margem de segurança. Apesar de a matemática ser uma ciência exata, a estatística não o é, rapaz... sempre existe uma possibilidade não muito desprezível de que dentro dos cem mil filhotes não consigamos sequer um TOP. Por outro lado, fazemos os cruzamentos em lotes de sete a oito mil por dia de produção, de modo que muitas vezes conseguimos um TOP bem antes de chegar aos cem mil, então economizamos tempo e lucramos mais, já que o preço não abaixa por isso. Entretanto, também temos prejuízos e atrasos ocasionais quando não conseguimos nenhum, por isso tem se investido tão pesadamente na manipulação genética de Pokémon, para que esse serviço seja menos instável.

- Hum... e o que vocês fazem com todo esse montante de Pokémon que sobra?

- Bem, dentre eles alguns normalmente são Shiny, conseguimos vendê-los por ótimos preços para colecionadores e donos de mansões que gostam de usá-los como bichos de estimação. Os de DVs mais altos são vendidos no mercado comum para os treinadores que não têm dinheiro para pagar por um TOP de fato... não é exatamente lucrativo, mas ajuda a abater alguns custos da produção.

Kristen começara a conversa desconfiado, sentira decepção e depois até ficara irritado. Agora o que sentia era nojo. Já havia se tornado impossível esconder o desprezo que sentia pela atividade desenvolvida ali. Não conseguia parar de imaginar uma máquina gigante separando Pokémon de cores diferentes num antro de conforto enquanto pencas de outros eram despejados em celas imundas e apertadas.

- Sei... os fortes e bonitos viram comércio. Mas e os outros? O que fazem com eles?

- Ah... os que não têm valor comercial nos dariam prejuízos fixos com comida e exigiriam espaço de acomodação que não temos.

O Doutor apanhou sobre uma das mesas de passagem um ovo entre cobertores, dentro de uma pequena estufa sobre a mesa cheia de anotações e artigos científicos. Era bastante grande e possuía desenhos irregulares em forma e cor por toda a casca, além de uma etiqueta com pequenos números e letras garranchados.

Revirou-o entre os dedos e estendeu-o a Kristen com um sorriso. Este apanhou o ovo quase do tamanho de sua cabeça e analisou-o, pela primeira vez maravilhado desde que entrara naquele lugar. Em seguida devolveu-o às mãos estendidas do Doutor, que voltou a aninhá-lo entre os cobertores enquanto tagarelava:

- Este é para o meu sobrinho. Ele ainda é muito criança para ser treinador, então decidimos dar-lhe um de estimação. Assim como eu, outros de nós contrabandeamos alguns desses sem valor para família e amigos. – completou o comentário com uma repugnante piscadela para trás, tornando em seguida a se concentrar na acomodação do ovo. – Mas de maneira geral, alguns são bem úteis para pesquisas controladas em outras áreas, o que mantém o nosso Instituto bastante abrangente... testes de cosméticos, alimentos, medicamentos, essas coisas. E o restante nós desprezamos, naturalmente.

O Doutor finalmente se deu por satisfeito com as condições de acomodação do ovo e virou-se, assustando-se ao perceber que Kristen encarava-o de boca aberta como se fosse incapaz de acreditar no que ouvira.

- O que foi que o senhor disse?

O Doutor se concentrou em procurar compreender por um segundo, mas em seguida um lampejo de compreensão perpassou seu rosto e ele deu um tapinha na própria testa, rindo-se e interpretando erroneamente a indignação de Kristen como mera ignorância.

- Desculpe pelo linguajar técnico. Desprezar é o termo que usamos no laboratório quando descartamos o material que não serve mais.

- VOCÊS O QUE?

Kristen deu dois passos ameaçadores na direção do Doutor com os punhos cerrados. Este, por sua vez, começou a recuar, conseqüentemente afastando-se da mesa com as mãos na frente do corpo.

- A...acalme-se, meu rapaz. O que foi que eu disse?

- O senhor ficou maluco? – cuspiu Kristen com os olhos em chamas e a voz se alterando perigosamente — É isso que estão fazendo com o trabalho do Professor Oak?

- Mas... meu rapaz, ele foi pioneiro na genética Pokémon. Eu não entendo sua indignação. Estamos aprimorando os estudos dele. Dando continuidade a...

- CALADO!

Sem conseguir se controlar mais, Kristen pôs as duas mãos com violência sobre o jaleco do franzino doutor e ergueu-o do chão como se este fosse um boneco e começou a vociferar as palavras a cinco centímetros de seu rosto:

- Vocês... vocês podem ter décadas de estudo na minha frente. Mas no fundo vocês não entendem nada do trabalho do Professor Oak. Ele era um homem honrado e um amante dos Pokémon antes de ser um cientista. Vocês são só aproveitadores nojentos. Ele queimaria todo esse laboratório hoje se pudesse ver no que ele se tornou. Seu imundo.

E com a última ofensa, Kristen atirou o velho Doutor de costas no chão sem cerimônias. Suas mãos tremiam e ele sabia que estava usando de todo seu autocontrole para não agredir covardemente aquele pobre velho indefeso.

- Isso... que vocês desprezam como mero material... são vidas. – Sua voz furiosa era incapaz de sustentar uma frase inteira entre os inúmeros descompassos respiratórios, de modo que ele falava em pulsos – São bichos que sentem... que pensam... que amam seus treinadores e os defendem... que riem e choram junto com eles... No futuro... vocês serão lembrados como monstros... não como homens da ciência. E isso... vai pesar muito mais na sua biografia... do que a adoração de que gozam hoje. Escreva as minhas palavras.

Com esse recado, Kristen enfiou as mãos dentro da estufa e retirou dela o ovo etiquetado junto com um dos cobertores, com o qual envolveu cuidadosamente a casca e saiu pisando firme do laboratório, batendo todas as portas atrás de si e sem cumprimentar a recepcionista, que logo interpretou-o como mais um treinador decepcionado com o preço abusivo do negócio oferecido.

Notas finais
Aguardo as reações de vocês. Forte abraço e até o Capítulo 2!