Pokémon - Reconquest
8 Capítulo 7: Chamas
Notas iniciais
As folhas claras ofuscavam a visão. O sol finalmente abandonara sua preguiça e resolvera castigá-los um pouco. Parados diante da oculta cabana junto à floresta que interseccionava as Rotas 30 e 31, Ryla e Kristen estavam bem alimentados e vestidos para prosseguir viagem.
Entre os dois, Tyrogue parecia bastante animado. Ele e Kristen haviam acordado muito cedo e treinado exaustivamente após um rápido desjejum até a hora do almoço. Lara fazia suas refeições cedo e era por volta de meio-dia quando, já de barriga cheia, eles se reuniam diante do celeiro, aguardando pacientemente.
Lara saiu do celeiro, puxando consigo a rédea de uma Ponyta que agora Kristen sabia ser pequena, comparada às demais. Lara lhe explicara que ela era ainda relativamente filhote, pois havia acabado de desmamar.
Somente agora que sabia da existência da doença, Kristen foi capaz de identificar de imediato o problema: claramente, Ponyta piscava muito menos que outras pessoas ou Pokémon que ele conhecesse e tinha o olhar quase sempre fixo na mesma direção.
- Aqui... boa menina.
Lara acariciou-a demoradamente, sorrindo de forma bastante tristonha.
- Estou velha demais para essas coisas, garoto. Realmente achei que você estava de piadas com a minha cara. Como pode ter tanto dinheiro assim?
- Logo se vê que você não tem televisão num lugar com esse, ainda bem. – gracejou Kristen.
- Ora essa... pra mim tanto faz se não quiser falar. Apenas prometa que vai cuidar bem da Ponye.
- Certo. Bom, infelizmente não sei quanto tempo vai demorar até que ela se recupere, mas prometo que a trago de volta assim que ela puder viajar.
- Deixe de ser idiota, rapaz. – a velha agora sorria abertamente.
- Como? – surpreendeu-se Kristen.
- Aqui, leve isso.
Ela retirou do bolso uma foto bastante antiga e amassada, olhando-a por um segundo com carinho antes de estender a Kristen.
- Gostaria que guardasse bem essa foto contigo.
Kristen olhava para uma menina de cabelos azuis – desbotados na foto de bordas amarelas – e um macacão masculino ao lado de um pequeno rapaz. Ele usava uma jaqueta branca e azul com detalhes em amarelo e luvas verdes. Seu boné vermelho e branco escondia cabelos negros bastante rebeldes e um sorridente Pikachu descansava em seu ombro. Ambos sorriam e, ao lado deles, a mão dela pousava sobre uma viva Rapidash e só então Kristen compreendeu o que via.
Não pôde deixar de se assombrar, pois qualquer pessoa no mundo reconheceria aquele rosto. Aquela era uma foto do lendário Ash, aparentemente no início de sua jornada.
- Gostou? Esse tipo de foto original rende uma grana. Eu estava a ponto de vendê-la, pagaria uma parte da cirurgia. Mas agora fico feliz de não precisar mais me livrar dela dessa forma...
- Não posso aceitar isso. – disse Kristen, sem conseguir desgrudar os olhos da foto.
- Esqueça. O dinheiro não significa nada pra mim. Estou feliz de não precisar vender mais a foto. Você a merece. Poucas são as pessoas que tocaram em uma de minhas Ponytas e não se queimaram. Só duas fizeram isso sem a minha autorização. O primeiro deles foi Ash Ketchum. Vocês se parecem muito.
Kristen finalmente conseguiu deixar a foto de lado, olhando fixamente para a mulher como se tivesse ouvido um absurdo.
- O amor de vocês pelos Pokémon é uma coisa fantástica. Achei que nunca mais veria isso, mas estou contente de ter visto... e é por isso que quero que leve a Ponye com você.
- Oras... mas eu vou realmente levá-la, não precisa me dar a foto em troca nem nada do tipo.
- Você não entendeu, Kristen. Leve a Ponye na sua jornada, depois que deixá-la passar pela cirurgia.
Agora tanto Ryla quanto Kristen pareciam não acreditar no que ouviam. Rapidash saíra do celeiro e lambia o dorso de Ponye, imensamente feliz por reconhecer a proximidade da mãe.
- Lara-san... não... a Ponye é sua. Vai sentir falta da mãe, falta da senhora. Eu não posso tirar tudo isso aqui dela.
- Esqueça, Kristen. É claro que ela vai sentir falta. Como tenho certeza que você sente falta dos seus pais. Mas ainda assim tomou seu rumo. Ponytas e Rapidashs, em geral, são Pokémon que amam o sossego, a vida pacata. Ponye sempre teve avidez pelo novo... sempre gostou de explorar. Eu costumava cavalgar bastante com ela antes dos sintomas começarem a aparecer...
- Lara-san, eu... – Kristen abaixara a cabeça para a foto, outra vez, bastante constrangido.
- Faz anos que não dou um de meus Pokémon para um treinador. Perdi a esperança nos treinadores, achei que nenhum deles seria digno mais de treinar Pokémon. Mas precisamos de mais treinadores como você no mundo e é por isso que eu gostaria de lhe oferecer essa pequena ajuda. Você vai ajudá-la de bom grado... tenho certeza que ela será de grande valia pra sua jornada também.
- Kris... aceita logo! – se intrometeu Ryla — Mas que saco! Todo mundo sabe que você quer. Lara-san está concordando de bom grado. Pega logo ela!
Kristen continuava sem saber o que fazer. Até que sentiu uma língua imensa impondo um rastro de baba em seu pescoço e subindo para o rosto. Assustado, notou que Rapidash o olhava fixamente.
- Eu... você... por você também está tudo bem se eu levar a Ponye comigo?
Em resposta Rapidash lambeu-o no rosto mais uma vez e ele riu bastante antes de puxar uma Pokébola do cinto.
- Ok, ok... vocês venceram. Ponye! Quer vir comigo?
Ponye farejou, aproximando-se dele e aninhando a crista de fogo entre os dedos de sua mão livre. Kristen encostou a Pokébola na cabeça dela de leve.
- Boa menina.
Logo ela era um borrão de energia vermelha encerrado na Pokébola de Kristen, que olhava satisfeito para sua mais nova companheira. Lara abraçava Rapidash pelo pescoço, parecendo bastante feliz.
- Se for ali por trás da cabana, vai encontrar uma fonte e alguns metros depois dela a Rota 30, bem de frente para a montanha que abriga a Dark Cave. Mas vocês disseram que queriam seguir reto... então apenas peguem uma linha reta naquela direção. – apontou Lara – Vão chegar a Violet em poucas horas. Os Pokémon daqui são bastante medrosos... andando em três, vocês farão bastante barulho, dificilmente verão algum. Talvez alguns Mankeys e pássaros em uma ou outra árvore.
- Obrigado, Lara-san.
- Esqueça... apenas me prometa mais uma vez que vai cuidar dela... e que vai vir me visitar um dia.
- Está mais do que prometido. – disse Kristen, entre sorrisos.
Ele e Ryla se despediram e seguiram viagem ao lado de um animado Tyrogue, cada vez mais orgulhoso do próprio treinador pelo respeito e carinho que demonstrava com os Pokémon.
O homem corria atabalhoadamente de cômodo em cômodo, parecendo aflito. Carregava nas mãos uma foto impressa em jato de tinta, com a resolução ruim, mas que cumpria seu propósito.
Ele atropelava pessoas, mesas, lixeiras, abria portas e quase caía no chão, mas não parava de correr. Chegando ao seu destino, ele escancarou a porta sem bater, parando sob o umbral para respirar pesadamente, curvado e suado.
- O que significa isso, Agente Dan? – berrou Baromy de sua mesa.
- Senhor... acho que encontrei o assassino.
O Comandante imediatamente se levantou da mesa, andando até Dan e encarando-o nos olhos bem de perto.
- O que está dizendo é bem sério, Dan. Você tem certeza?
- Absoluta... o senhor disse para procurarmos pessoas irritadas que provavelmente não teriam dinheiro para fechar o negócio, certo? – era quase impossível acompanhar a velocidade com que ele falava.
- Vá direto ao ponto, Dan, não precisa ficar usando pontuações didáticas comigo. – ralhou Baromy.
- Então, senhor. Encontrei algo muito mais suspeito. Encontrei uma pessoa que teria dinheiro para encomendar vários desses Pokémon entrando acompanhada de Guren e saindo possessa de tanta raiva do Instituto alguns minutos depois.
- Como assim, do que está falando?
- Senhor... e se o motivo não for dinheiro? Nós simplesmente deduzimos isso, o que é um bom chute. Mas e se foi um crime ideológico?
- De quem diabos está falando Dan? Desembuche! – berrou Baromy, sacudindo-o pelos ombros.
— O lutador, senhor. Kristen Jounochi. O filho do Bruno!
Quando Baromy viu a foto de Kristen saindo pela entrada da frente, quase derrubando um cientista ao esbarrar nele e com a expressão tão fechada que parecia realmente capaz de pôr fogo em alguém, mal pôde acreditar.
- Vamos supor que faça sentido, Dan. O que te faz pensar isso? E antes... como esse garoto tem tanto dinheiro.
- Bom, senhor... ele é conhecido por ser o bilionário mais novo da região.
- O QUE?
- Ele é hexa-campeão mundial de artes marciais... com apenas dezessete anos.
- Isso eu sei, mas o que tem a ver?
- As bolsas e prêmios que ele ganha são absurdos, astronômicos. A academia dele rende um lucro milionário por mês por causa dos patrocínios, pelo que vi nos relatórios. Também tem a herança do pai recém-falecido, que ele apenas teve de dividir com as irmãs. E, de acordo com os registros dele, ele leva uma vida normal. Come comida de gente normal, se veste normalmente, não costuma viajar sem ser para campeonatos e não tem avião nem barcos nem mesmo carros. Seus principais gastos são com materiais para a academia. Aparelhos de musculação, essas coisas.
- Que absurdo. Ninguém com dezessete anos pode ser tão pão-duro assim. Alguém na idade dele deveria estar metido num iate circulando a costa rodeado de putas.
- Pois é, senhor, mas parece que ele prefere uma vida discreta. Ele nem gosta muito de aparecer na imprensa, apesar de ser sempre educado quando lhe fazem perguntas. E parece que ele está em jornada, não será fácil encontrá-lo.
Baromy foi seguido de perto por Dan quando se sentou à sua mesa. Com os dedos maltratando o teclado, ele acessou sua conta no sistema interno de vigilância da corporação e logo puxava relatórios de onde queria e para os fins que queria.
- Senhor... eu sei que ele iniciou sua jornada em Violet há cerca de uma semana. Podemos falar com as pessoas, levantar perfis e anunciar na mídia que estamos atrás dele. Não é uma pessoa que passe despercebida. – disse Dan de forma afobada, ansioso por dar uma idéia genial que ajudasse a resolver o caso.
- Isso seria estúpido, Dan. – respondeu Baromy, para a tristeza de Dan – Enquanto fingimos não saber de nada, ele confia que nada lhe acontecerá e continua a andar por aí tranqüilamente. Se anunciarmos, ele se esconderá... possivelmente, até sairá do país. Com o dinheiro que ele tem, não é difícil molhar a mão de algumas pessoas e simplesmente desaparecer sem deixar rastros.
- Mas senhor... se não podemos montar uma rede, como iremos pegá-lo?
- Pois nós iremos montar uma rede, meu caro rapaz... sem precisarmos de toda essa indiscrição. Aqui está.
Baromy virou o fino monitor do computador para Dan, que sentiu o queixo cair.
- De acordo com a ID dele, ele parou no Centro Pokémon da Estação 31 cinco dias atrás. Os registros de banco dele indicam que manteve custos de hospedagem, alimentação e despesas médicas na casa dos milhares até ontem à tarde. Ou seja...
- Ele ficou parado no Centro com algum Pokémon machucado! Que coisa!
- Pois é... e se ele saiu ontem e não há outros registros de custo, significa que está acampando.
- Não dá pra acreditar – Dan sacudiu a cabeça – que o cara é bilionário e está por aí dormindo embaixo de barracas. Mas como vamos fazer se ele está simplesmente caminhando por aí, dormindo no mato e comendo coisas enlatadas? Esperar o estoque dele de comida acabar?
- Não precisamos esperar nada. – respondeu Baromy, se levantando – Vamos nos antecipar. Existe um motivo pelo qual os treinadores se registram na Elite Four, apesar da taxa.
- É claro! Eles desejam disputar a Liga!
- Exato. Podemos afirmar com certeza que ele estará indo em direção a um ginásio. E nós dois sabemos qual é a primeira visita de todo mochileiro Pokémon.
Muito conhecida por ainda conservar grandes áreas de mata e por sua turística Sprout Tower, Violet City era pequena para uma cidade, mas ainda assim a maior do leste de Johto.
Já escurecia quando o trio de viajantes chegou à cidade, mas muito rapidamente sentiram o violento impacto urbano atingi-los. O ar que respiravam já não era mais tão puro e o som não era de pássaros, mas sim de motores e buzinas. Àquele horário, todo tipo de veículo lotava as ruas cinzentas da cidade, carregados com seus motoristas impacientes e cansados. Kristen detestava carros.
- Por onde começamos? – perguntou Ryla.
- Bom, Lara-san citou que havia por aqui um hospital que era referência em cirurgias e tratamentos que mexessem diretamente com o sistema nervoso dos Pokémon. Acho melhor nos informarmos melhor no Centro Pokémon, depois podemos passear um pouco e nos preparar para o ginásio.
- Certo.
Ambos atravessaram as ruas confusamente. Notaram que, conforme se aproximavam do centro da cidade, as casas ficavam menos pobres e a quantidade de carros só fazia aumentar.
Aliviado, Kristen enxergou a fachada de um Centro Pokémon pelo menos três vezes maior que o da Estação Rota 31. Constatou com felicidade ainda maior que havia um imenso parque – com fonte e tudo! – entre aquela quadra e o Centro.
Puxando Ryla pelo braço, atravessou a rua no meio dos carros e meteu-se nas árvores arquitetonicamente plantadas para manter uma simetria estética. Caminhou por elas, respirando o ar puro com satisfação, mas quando ia atravessar pela saída oposta, desembocando direto no Centro, uma pessoa que estava de lado encostada na amurada, virou-se de frente para eles, barrando a passagem.
O rapaz era ainda mais baixo que Ryla e trazia nas mãos um mini-game, do qual não desgrudava os olhos – embora Kristen percebesse que ele os encarava por cima dos óculos em movimentos furtivos. Seus cabelos castanhos estavam embaraçados e mal cortados, mas ele estava bastante bem vestido, como um verdadeiro filhinho-de-mamãe. Não parecia ter mais do que doze anos.
- Kristen Jounochi? – ele perguntou com voz impessoal, ainda jogando.
- Sim... – respondeu Kristen, hesitante – E você?
- Pode me chamar de Dark Hunter.
- Ah... ok. – respondeu Kristen, tendo certeza que era algum apelido bizarro que ele usava na internet.
- Eu gostaria de desafiá-lo para uma batalha.
- Eu.. hã, meu Pokémon treinou hoje e andamos o dia inteiro. Pode ser amanhã? Eu vou ficar aqui pela cidade mesmo.
O rapaz desligou ruidosamente seu mini-game, guardando-o no bolso traseiro da calça.
- Não tem importância por mim. Mas eu realmente gostaria de uma batalha agora. Por que não a sua namorada? – perguntou Hunter, apontando para Ryla.
- Não somos namorados. – responderam Ryla e Kristen juntos.
- Oh. Lamento pelo engano. Mas mantenho o desafio, o que acha?
Tanto Ryla quanto Kristen estranhavam o jeito formal e frio dele de falar. Não era algo natural para uma criança, certamente, mas Kristen concluía de que devia ser apenas um dos muitos nerds que andavam por aí, causando o mesmo tipo de estranheza a outras pessoas.
- Por mim tudo bem. – respondeu Ryla, puxando uma Pokébola do cinto. – Quantos Pokémon?
- Dois. O que acha? – perguntou Hunter, também puxando a sua
- Perfeito por mim. Luta!
Ambos atiraram suas Pokébolas. Ryla temia que seu pequeno Cyndaquil fosse ser caçoado, mas inacreditavelmente viu um Pokémon ainda menor surgir do outro lado. Seu filhote já crescera alguns centímetros, adotando quase a estatura de um Cyndaquil normal, mas a ave colorida do adversário caberia facilmente no bolso dela.
- O que é isso? – perguntou Ryla.
- Também não faço idéia. – respondeu Kristen, franzindo o cenho.
Era uma esfera verde com o bico amarelo arredondado e asas, cauda e crista avermelhados. Carregava também garras que deixavam claro que se tratava de uma ave, apesar da aparência inofensiva. Abriu as asas, sem que isso tivesse efeito chocante nenhum em seu visual.
- Natu, levante vôo!
Ryla parecia esperar que uma criatura daquele tamanho não fosse capaz de voar, mas se enganou completamente. Natu voava de forma desajeitada, parecendo mais leve que o próprio ar, mas vinha cambaleando tropegamente na direção de Cyndaquil.
- Evasiva, Cynda!
Cyndaquil desviou-se por pouco da bicada, virando-se na direção da ave, que já descrevia um círculo para retornar. Ele desviou-se da segunda bicada, sendo que dessa vez o impulso fizera Natu ir parar um pouco mais distante. Ryla pensava numa estratégia ofensiva, espremendo o cérebro à procura de tudo que lera sobre os iniciais de Johto na biblioteca de seu pai.
- Use a fumaça para confundi-lo, Cynda!
Grunhindo em resposta, Cyndaquil abriu a boca e despejou uma carreira de fumaça escura, que envolveu-o numa cúpula disforme de dióxido de carbono. Natu bateu as asas parando no mesmo lugar, quando estava prestes a invadir a fumaça.
- Droga! Natu, voe para longe daí!
Mas era tarde. Cyndaquil surgiu em meio à fumaça, saltando e atingindo Natu com força no meio das asas. Este demonstrou não possuir muita resistência; sua asa dobrou-se num ângulo estranho fazendo um ruído nada agradável e a ave tombou no chão, piando baixo de dor.
Um filete vermelho de luz puxou-o de volta para a Pokébola. Hunter parecia se sentir derrotado, estranhamente, notou Kristen.
- Tsc... vou lutar até o fim! Vai, Chikorita!
Materializou-se um pequeno quadrúpede esverdeado com uma chamativa folha na cabeça e uma carreira de sementes em volta do pescoço. Cyndaquil recuou instintivamente para a fumaça que ainda não se dissipara enquanto Ryla sorria de forma triunfante.
“Ele é de planta... Cyndaquil de fogo... tá no papo essa!”
“Tsc... enquanto ela mantiver o Cyndaquil dentro daquela fumaça, eu estou lascado. Preciso bolar alguma coisa...”
- Chikorita, mantenha-se a postos para liberar as folhas a qualquer momento!
Gritando em concordância, Chikorita assumiu uma postura claramente defensiva, mantendo as patas de trás flexionadas e prontas para qualquer movimento brusco que fosse necessário.
- Acenda suas chamas, Cyndaquil!
Podendo apenas ouvir Cyndaquil, todos viram um clarão surgir em meio à fumaça, consumindo-a e explodindo. A combustão já era esperada por Kristen, mas certamente não o era o pavoroso grito de dor liberado por Cyndaquil. Até mesmo Hunter olhava surpreso para a fumaça praticamente dissipada enquanto Ryla, Kristen e Tyrogue corriam até ela.
- O que é isso? – perguntou Ryla, boquiaberta, apontando para o dorso de Cyndaquil.
- Parece uma... queimadura?!
O próprio Kristen parecia não acreditar muito nas próprias palavras. Viu os quatro furos nas costas de Cyndaquil e, em volta deles, a pele machucada e sangrenta de uma feia queimadura de terceiro grau.
- Como pode... um Pokémon de fogo se queimar? – Kristen olhava para aquilo, pálido de descrença.
-Droga!
Ryla retornou Cyndaquil à Pokébola e puxou a outra ocupada. Logo Eevee tomava posição diante de Chikorita.
- Cabeçada, Eevee!
Eevee correu e acertou apenas o ar, pois Chikorita se abaixara na hora certa, buscando sua própria investida, que também atingiu o vento e serviu apenas para inverter os dois Pokémon de posição.
- Use as folhas, Chikorita!
Folhas de aspecto afiado começaram a se erguer dos flancos de Chikorita, mas Eevee atingiu-a com uma testada bem no meio do rosto, de modo que ela capotou para trás duas vezes.
- Estava muito perto, Hunter. – taxou Ryla.
- Essa não!
Chikorita acabava de se pôr de pé e procurava olhar para a frente quando um jato de areia atingiu-a bem nos olhos. Ela gritou de dor por pouco tempo, pois Eevee atingiu-a uma segunda vez com uma cabeçada idêntica à primeira e, desta vez, ela caiu nocauteada.
Retornando-a, Hunter parecia mastigar a própria língua enquanto os analisava. Ryla não comemorava: olhava a Pokébola de Cyndaquil em sua mão com curiosidade e preocupação.
- Precisamos ir logo ao Centro, Kris!
- Pois é... foi um prazer, Dark Hunter ou seja lá qual for o seu nome.
Deixando o jovem nerd absorto nos próprios pensamentos, ambos passaram direto ao lado dele, irrompendo pela porta do Centro. Hunter não era, naquele momento, o único que elucubrava o motivo de Cyndaquil ter se machucado sozinho.
O Centro Pokémon de Violet City era muito diferente do da Rota 31, não apenas no tamanho. Localizado numa das Cidades da Liga – cidades que recebiam esse apelido por abrigarem ginásios –, ele estava repleto de Pokémon e treinadores por todo o canto, de pé, sentados e alguns até deitados nos cantinhos.
Kristen e Ryla correram até a recepção, onde rapidamente a pequena fila de duas pessoas desapareceu e ambos se apresentaram a um rapaz efeminado de cabelos grandes e olhos bondosos.
- Temos um problema estranho, um Cyndaquil...
- Cyndaquil? Tenho a solução perfeita para você.
O homem rabiscou algo num papel minúsculo e entregou a Kristen.
- Primeiro corredor à esquerda, a sala que está no papel. Dr. Tanuri é especialista em iniciais. Obrigado por se consultar conosco, senhor.
Kristen e Ryla não ouviram o final dos agradecimentos, pois já corriam, desviando de macas e treinadores impacientes.
Conhecida por ser uma referência na medicina Pokémon, Violet City gostava desse rótulo e seus governantes faziam o máximo para sustentá-lo, investindo pesado na capacitação e contratação de médicos e enfermeiros competentes, além do treinamento em massa de Chanseys.
Quando encontraram a porta do Dr. Tanuri, Kristen ia bater, mas Ryla abriu a porta sem fazer cerimônias. O médico avaliava alguns papéis, sentado em sua mesa de frente para a maca. Ele pareceu bastante surpreso de ver seu consultório invadido e Kristen reparou que ele não usava jaleco, apenas uma roupa social marrom sem gravata.
- Boa noite, em que posso...?
- Meu Cyndaquil! Ele se queimou!
- Como disse? – perguntou o médico educadamente.
Ryla sacou a Pokébola e soltou Cyndaquil sobre a maca. Dr. Tanuri levantou-se e foi até ele, que se contorcia de dor sobre os lençóis brancos. O médico olhou-o de perto por alguns segundos, sem tocar nele, e então decidiu pegar numa das prateleiras uma seringa.
Calçando luvas velozmente, Dr. Tanuri bateu na seringa de leve, constatando que o líquido saía normalmente. Em seguida, introduziu a ponta da agulha no pescoço do Pokémon, que protestou no contato inicial, mas logo relaxou.
- É uma anestesia de efeito imediato. – explicou o médico diante do olhar indagador de Ryla – Apenas preciso mexer nele um pouco para confirmar, por isso ele precisa estar insensível ao toque.
Dr. Tanuri revirou Cyndaquil de um lado a outro, fazendo sinais afirmativos com a cabeça para si mesmo.
- É como pensei. É uma má formação muito rara... chama-se deficiência de flavina oxidativa.
- Como? – perguntou Ryla.
- Um amigo meu defendeu seu doutorado em cima dessa doença, mas eu mesmo só vi dois casos até hoje, em mais de trinta anos de consultório. – explicava o médico, sem deixar de analisar atentamente cada detalhe das queimaduras – Acontece que em alguns Pokémon, o embrião forma-se antes da fêmea recobri-lo com o ovo, ao invés de formar o ovo e ocorrer a embriogênese dentro dele. Vocês têm o histórico da mãe do Pokémon?
Kristen e Ryla se entreolharam constrangidos, um tentando empurrar ao outro a responsabilidade de responder. Tyrogue preferiu olhar para o outro lado, parecendo bastante incomodado.
- Sabemos – começou Kristen – apenas que ela foi agredida ainda grávida. Encontramos o filhote dias depois.
- Hm, isso explica muita coisa.
- Como assim?
- Simples. Esse bebê aqui ainda nasceu bastante prematuro. O ovo nem havia se formado ao redor dele e normalmente, quando isso acontece, o Pokémon pode até sobreviver, mas apresenta algumas deficiências de formação.
- Que tipo de deficiência, doutor? Diz logo! – Ryla começava a se impacientar.
Dr. Tanuri olhou para ela por um breve instante, tornando, em seguida, a analisar o grogue Cyndaquil.
- Não se preocupe, o tratamento é simples. Quase todos os Pokémon de fogo que conhecemos possuem uma substância que recobre parcial ou totalmente seu corpo, para impedi-lo de sofrer danos com altas temperaturas. Seu Cyndaquil tem uma má formação que faz com que a produção dessa substância nele seja muito baixa... mas não precisa se alarmar! – acrescentou Dr. Tanuri, vendo que ela estava prestes a chorar – Vou lhe passar alguns suplementos químicos. É um tratamento que leva de três a quatro meses. Junto com uma pomada e sol diurno, logo seu Cyndaquil estará queimando Pokémon por aí.
- Ufa. – respirou Kristen aliviado. Ficava realmente feliz quando o problema era resolvido apenas com dinheiro.
Ryla também parecia ter relaxado parcialmente, mas não conseguia deixar de olhar para Cyndaquil.
- Agora – disse o Dr. Tanuri – vou pedir que esperem lá fora e preencham os formulários. Esse rapazinho precisa dormir aqui hoje para que os primeiros socorros das queimaduras. E esse Tyrogue, o que está fazendo fora da Pokébola? – repreendeu o Dr. Tanuri.
- Ah, ele é meu. Não gostamos muito de Pokébolas.
- Pois dentro do hospital ele deve ficar na Pokébola, a menos que seja um paciente. Quer que ele pegue uma infecção ou algo do tipo?
Bastante envergonhado, Kristen retornou seu Tyrogue e logo ele e Ryla caminhavam na direção do balcão de recepção. Havia agora quatro pessoas na fila e apenas o rapaz efeminado atendia. A menina que o ajudava antes parecia ter ido ao banheiro ou algo do tipo.
Kristen apenas tamborilava os dedos no balcão, ainda pensativo sobre Cyndaquil e Ponye, quando sentiu uma mão em seu braço. Não demorou a perceber que era um toque hostil demais para pertencer a Ryla. Ele sentiu o corpo ser virado e o tronco ser chapado contra o balcão por uma mão que segurava seu braço com firmeza.
Num movimento impressionante, Kristen girou o próprio corpo por baixo do braço do agressor, deixando-o se desequilibrar com o peso do movimento. Não só seu rosto atingiu em cheio a lombada de metal do balcão em cheio como um inconfundível estalo de osso partido soou de seu pulso.
Kristen virou-se para perguntar se Ryla estava bem, mas ouviu gritos e logo percebeu que o cano de uma pistola estava apontado para ele. Erguendo as mãos para o alto, ele viu o homem que atingira antes caído no chão, mole, segurando o pulso quebrado com a mão livre, parecendo muito debilóide com um filete de sangue escorrendo da testa para o resto do rosto entre os olhos.
O homem que segurava a arma contra ele tinha uma careca brilhante e os bigodes muito brancos. Várias pessoas gritaram e Kristen procurou Ryla girando apenas os olhos, achando-a ao seu lado completamente apavorada.
- Olha... não sei o que querem, mas podem ficar com o dinheiro. Eu só preciso do suficiente para pagar uma consulta e um tratamento para um Cyndaquil doente, fiquem com o resto, eu não ligo! – Kristen tentava barganhar desesperadamente.
- Não queremos seu dinheiro, Sr. Jounochi. – respondeu o homem, erguendo um distintivo lustroso com a mão livre – Sou Dasshal Baromy, Comandante da Divisão de Homicídios da Polícia Militar de Johto. O senhor está preso.
Como Kristen inutilizara completamente seu primeiro captor, a jovem ruiva ao lado de Baromy se adiantou, enfiando a mão dentro da jaqueta e sacando algemas da parte de trás do próprio cinto, deixando entrever o coldre com uma pistola pesada que em nada combinava com ela. Kristen jamais imaginaria que ela fosse policial se não visse as algemas e a pistola.
- Desacato à autoridade, agressão a um policial, resistência à prisão...
Lucy virou Kristen contra o balcão dolorosamente, onde ele viu de perto a mancha do sangue de Dan enquanto sentia seus pulsos serem feridos pelo metal frio, embora sem reagir.
- ...e pelo assassinato do Dr. Silas Guren.
Do outro lado da sala, a televisão muda passava imagens de homenagem póstuma ao Dr. Guren, com a manchete fixa na parte de baixo da tela anunciando que ele não resistira aos ferimentos sofridos no incidente ocorrido e finalmente tivera lavrado o diagnóstico de morte cerebral duas horas antes no mesmo dia.
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