Pokémon - Reconquest
9 Capítulo 8: Espetáculo
Notas iniciais
Lucy aguardava pacientemente do lado de fora da porta, com as costas coladas à parede, tentando, em vão, ignorar as seguidas explosões sonoras que emanavam lá de dentro. Somente ajeitou a postura quando o Comandante Baromy escancarou a porta. Ela teve apenas um lampejo de sua face completamente púrpura e os bigodes arrepiados, dando-lhe um ar assustador de pura loucura, antes d’ele seguir pelo corredor pisando firme sem olhar para trás.
Espiando para dentro da sala, ela viu Dan às lágrimas. Literalmente. O jovem e empolgado agente parecia ter mergulhado o rosto numa tigela cheia d’água. A tipóia escura em seu braço esquerdo agravava-lhe a aparência de refugiado de guerra. De seu curativo branco no meio da testa, um filete de sangue escorria, manchando uma das sobrancelhas.
Lucy aguardou até o Comandante Baromy ter se afastado o suficiente antes de entrar na sala, sentindo compaixão e até alguma identificação para com Dan. Tirando do bolso o próprio lenço branco, ela limpou o sangue em sua testa e percebeu que ele tremia bastante.
- Ele disse... que eu sou inútil.
- Hum.
- Disse que eu devia tentar catar lixo ou virar hippie. Que eu não servia pra ser policial.
- Oras...
- Disse que se não fosse a atenção da mídia, ele tinha me demitido ontem mesmo com desonra.
- Ele não ia fazer isso, Dan.
- Ele ia sim! Francamente, você não o ouviu gritar!
Na verdade era impossível não ouvir cada palavra do que ele dissera. Lucy suspeitava que até mesmo o mais surdo civil que passasse na rua, isolado por todas aquelas paredes, tinha ouvido o quanto o Comandante berrara com ele nos últimos trinta minutos.
De qualquer forma, Lucy não precisava ter ouvido nada. Já fora alvo dos humores do Comandante incontáveis vezes. E dessa vez, sequer podia culpá-lo. Ele emitira um memorando inter-agências minutos antes da operação, garantindo que a ação seria discreta e que o alvo seria capturado e interrogado sem que ninguém soubesse, de modo que pudessem vazar a notícia apenas quando tivessem certeza de que estavam em posse do culpado.
Era tudo muito simples: entrariam três agentes vestidos informalmente, incluindo o próprio comandante, que queria informar o mínimo necessário de pessoas. Um dos outros dois chamariam a atenção de Kristen e mostrariam discretamente o distintivo, atraindo-o para um canto e emitindo a ordem de prisão, levando-o pela porta da frente sem algemá-lo ou mostrar armas.
Mas era a primeira missão de Dan em campo e ele sonhara com isso. Afobado do jeito que sempre fora, ele interpretou um movimento simples de Kristen – bocejar, estalar o pescoço ou algo do tipo que nem ele soubera explicar – como um indicativo de que ele ia correr. Dan tentou dominá-lo de forma totalmente fora de qualquer protocolo e o resultado eram um pulso fraturado, ligamentos rompidos e nove pontos na testa, todos garantidos com movimentos precisos em menos de dois segundos.
O objetivo era carregar Kristen a uma sala de interrogatório e sugá-lo à exaustão e, só quando tivessem absoluta certeza de que ele não tinha nenhuma defesa razoável, soltariam a notícia e abririam o processo legalmente. Mas graças a Dan, agora tinham um dos oito Centros Pokémon mais movimentados do país repleto de testemunhas, o que obrigou o comandante a dar uma declaração formal à imprensa.
Os efeitos colaterais vinham de todos os lados. A imprensa fez especulações e perguntas impossíveis e, na impossibilidade de Baromy responder, interpretaram como má vontade e o pintaram como um monstro nos jornais matinais. Lucy estava habituada às comparações que o Comandante fazia entre os jornalistas e urubus, que quando não tinham linhas suficientes para escrever, voavam em busca de outra carniça, nesse caso revertendo a animosidade em cima do próprio Comandante, como uma malcriada retaliação a quem os atrapalhou a fazer seu sensacionalismo livremente.
Os chefes de outras agências questionaram pública e covardemente o motivo da declaração dele, visto que ele havia informado através de documento oficial que seria uma ação discreta sem participação de imprensa, o que lhe gerou diversos problemas para explicar o mal entendido sem crucificar Dan em seu lugar – ele nunca traía seus homens.
Como se não bastasse, um imenso movimento se erguia por todo o país. Alunos da AMP espalhados por todos os cantos se reuniam em protesto próximos aos portões da Ruins of Alph, liderados por Adolf Gartic. Entre os alunos que treinavam ativamente na AMP, pessoas e Pokémon que haviam feitos treinamentos temporários com Kristen ou com seu pai e até adversários nos mais variados níveis se uniam sob uma única bandeira: Kristen Jounochi não é assassino. Baromy ficou boquiaberto ao saber que somavam mais de dois mil, entre humanos e Pokémon.
Nada era para ser assim. Se Dan não fizesse cagada, agora ninguém saberia que Kristen estava sob custódia e eles não teriam que perder tempo com imprensa, protestos civis e demasiada burocracia interna.
Tentando deixar tudo isso de lado, Baromy foi abrindo porta atrás de porta até alcançar a de Kristen, que sentava-se sozinho com um cotovelo apoiado sobre a fria mesa de metal, o pulso algemado ao pé do móvel com uma corrente curta e fria. Baromy encarou-o irritado, atirando grosseiramente o envelope sobre a mesa e batendo a porta com tamanha força que teria feito as vidraças tremerem se houvesse janelas.
Todas as suas tentativas de intimidar Kristen tinham sido em vão desde a noite anterior e não fora diferente com estas. Kristen apenas encarava-o com os lábios igualmente crispados, ignorando os barulhos excessivos de Baromy, inclusive o arrastar da cadeira que ele puxara e se sentara.
- Foi realmente um bom movimento de auto-defesa aquele no Centro Pokémon. Os exames de meu subordinado chegaram hoje. As contusões são sérias... seis meses encostado, com direito a fisioterapia. Se eu não estivesse lá vendo pessoalmente, diria que armaram isso para ele pegar o seguro.
Kristen sustentou seu olhar por longos quinze segundos sem alterar sua expressão. Baromy sabia que homens muito mais velhos, homicidas, estupradores e até pedófilos tremiam só em ouvir falar o seu nome. Mas o jovem Kristen parecia não ter o menor pingo de medo. Ele era um dos bons. Ou simplesmente não era criminoso e não havia o que temer.
- Obrigado pelo favor de ontem, comandante. Fico realmente agradecido. Mas isso ainda é um erro... eu não deveria estar aqui. Está atraindo publicidade negativa desnecessária para mim e para o senhor.
- Eu decido o que é necessário.
Na noite anterior, Kristen implorou que alguém entregasse a Ryla o dinheiro pela estadia e os tratamentos de Cyndaquil, além de algo para que ela pudesse passar a noite. O comandante compreendeu que não eram os pedidos escusos de sempre por parte dos suspeitos – contratar advogados, realizar subornos et cetera – e permitiu o saque do dinheiro, contanto que este fosse entregue sob supervisão dos seus subordinados. Em troca, Kristen prometeu contar-lhe qualquer coisa que ele quisesse saber.
- Vamos repassar o seu depoimento, Kristen. – disse Baromy, tirando duas folhas do calhamaço presente no envelope e ligando o gravador – Dr. Guren o aborda no cemitério, falando sobre seu pai, elogiando-o por lutar pelo laboratório, usando sua posição na Elite Four para isso...
- Correto.
- Você se sente orgulhoso de falar sobre seu pai e aceita o convite, maravilhado pela chance de conhecer o trabalho de um velho amigo dele. Correto?
- Sim.
- E então a conversa toma um rumo desagradável, você descobre que sente nojo do trabalho dele e o atira no chão...
- Corr...
- O que eu quero entender – cortou Baromy – é como você treina Pokémon na sua academia e não sabe o que eram DVs ou o que o Dr. Guren estava fazendo
- Com todo o respeito, comandante, eu tinha uma academia para cuidar, além de ter de achar tempo para meus próprios treinamentos viagens e competições. Não restava muito tempo pra ver TV. Agora que estou viajando para cumprir meus objetivos pessoais, resta menos ainda. E não é que eu não soubesse o que era, apenas não tinha me aprofundado no assunto. Não sabia como funcionava... muito menos que tinha um maluco brincando com isso pra ganhar dinheiro.
Baromy olhou para Kristen por cima dos óculos, já começando a perder as esperanças de que estivesse diante de um suspeito.
- Está afirmando que acha a vítima... um idiota?
- Mais que isso. Ele era um preconceituoso babaca. Na sociedade dele só tinham lugar os fortes e bonitos. Deficientes, fracos e todo o resto eram jogados no lixo como se fossem objetos. Os povos antigos do Antropoceno chamavam a isso de nazismo, não é? Quando era feito com humanos. Os Pokémon são seres vivos, na minha cabeça é a mesma coisa.
Baromy simplesmente não podia acreditar no que ouvia. Kristen estava fazendo uma declaração de ódio à vítima do assassinato que investigavam, citando inúmeras razões pelas quais o achava prejudicial ao mundo. Razões políticas sérias, que geravam fanatismo ao redor do mundo. Razões que levariam alguém a matar.
Há muito não estivera diante de um suspeito tão controverso. Apesar de conceder-lhe uma enxurrada de motivos para trancafiá-lo, era justamente essa sinceridade que fazia Baromy ter incontáveis pontos de interrogação na cabeça.
Será que ele era realmente tão estúpido ou era apenas inocente? Qualquer outro delegado naquela situação usaria aquela gravação para mandar prendê-lo. Divulgá-la-ia na imprensa, pichando a imagem dele com frases radicalistas e deixaria a opinião pública condená-lo. Mas para Baromy não era suficiente: ele era um delegado que buscava a verdade.
- Você sabe que está fazendo sérias críticas ideológicas a uma pessoa assassinada... – disse ele, aproximando os rostos e desligando o gravador, tomando o cuidado de fazê-lo com um gesto perfeitamente visível – sendo que você é o principal suspeito. Está tentando me confundir?
- Não, senhor. – respondeu Kristen, sustentando o olhar mais uma vez – Eu não gostava do homem. Tive vontade de estourar a cabeça dele nos experimentos e fazer sopa de tudo isso, confesso que tive e falaria isso publicamente. Mas não o fiz. Eu não tenho motivo pra mentir se minha consciência está limpa, comandante. Não gostar dele não me torna o assassino, ou torna?
- Algumas pessoas da corporação achariam que torna. – devolveu Baromy, tentando manter algum padrão.
- Certamente o senhor não é uma delas, não é? – propôs Kristen calmamente — Se fosse teria mantido o gravador ligado, capturando o máximo de asneiras que conseguisse anexar ao relatório.
Baromy estudou sua face por longos segundos. Ele era realmente muito idiota. Mas concluiu que gostava dele mesmo assim. Sua sinceridade era algo com que Baromy raramente lidava em seu trabalho.
- Eu... – começou o comandante, mas foi interrompido por urgentes batidas na porta – Entre.
Lucy e Dan se atropelaram para dentro da sala, ofegantes, antes mesmo de Baromy terminar sua ordem. Ele olhou para os dois, estupefato, enquanto Kristen estava apenas curioso.
- O que significa isso? – explodiu – Será possível que vocês não assimilam os esporros que levam?
- Comandante... – interrompeu-o Lucy, o que não era comum – Temos outro caso preocupante nos arredores.
- Desembucha, mulher, o que houve?
- Um garoto... de dezesseis anos... foi encontrado decapitado à beira da Rota 30. Ao lado dele tinha um braço amputado... que não era dele, mas era igualmente jovem.
- O que? – perguntou o comandante, se levantando.
- E o pior... exames preliminares confirmam marcadores de DNA Pokémon nos ferimentos de ambos. Os dois foram atacados por um Pokémon, não por um humano.
- O QUE?
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A alguns edifícios de distância da delegacia, Ryla estava ao lado de uma cama gigantesca forrada com muitos lençóis brancos. Um pônei branco estava deitado de lado com as crinas de fogo apagadas e o olhar perdido de quem começava a sentir os efeitos do sedativo.
A garota usava uma roupa azul de plástico por cima do próprio conjunto surrado, acariciando a cabeça de Ponye com o coração apertado. Ainda trazia o bilhete amassado no bolso da própria calça: “cartão mochila 23071 cuide da Ponye”.
Ela ainda não podia acreditar. Certamente nem a bondade absurda de Kristen lhe permitiria dar a ela, de certa forma uma estranha, por escrito, a senha de um de seus cartões e a localização deste por escrito, tudo isso apenas pelos Pokémon.
Não sairia do lado da Ponyta antes e depois da cirurgia, cumpriria sua promessa. Cyndaquil adormecia no mesmo quarto onde estavam suas Pokébolas e as de Kristen, também anestesiado para não sentir os dolorosos efeitos da queimadura que, segundo Dr. Tanuri, estaria curada no dia seguinte, quando ele lha entregaria as receitas dos remédios.
Ouvindo a Ponyta protestar baixinho, Ryla acariciou-a com as duas mãos enluvadas.
- Shhhh... ele não pode vir. Mas ele me mandou pra cuidar de você. Não se preocupe. Você tem o melhor treinador do mundo.
- Srta. Mazoku?
Ryla se virou e viu um médico completamente vestido de branco se aproximar, portando uma seringa de tamanho assustador e já com a máscara e a touca cobrindo praticamente todo seu rosto. Com uma palmada carinhosa em seu flanco, Ryla deixou sua despedida:
- Fique tranqüila... em breve tudo isso terá passado. Prometo que ficarei aqui o tempo todo.
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Um rugido alto interrompeu a troca ríspida de palavras entre Lucy e seu chefe. Toda a estrutura do prédio tremeu perigosamente e Kristen pôs-se de pé por instinto, ignorando a advertência do metal. Ele e os policiais olhavam para as paredes, abismados, como se pudessem ver através dela se olhassem com espanto suficiente. Fora daquela sala, pessoas gritavam.
Na segunda vez, ao rugido seguiu-se um barulho assustador que lembrava um prédio desabando. Baromy foi até a porta e enfiou a cara no corredor, praguejando, mas não teve tempo de registrar nada.
Um terceiro golpe sobreveio e choveu concreto sobre todos os presentes. Kristen sentiu o ar frio da noite englobá-lo antes de perceber que o teto fora arrancado de cima de suas cabeças e uma enorme silhueta se movia a vários metros, recortada contra a lua.
Era gigantesco. Kristen puxou o braço compulsivamente, mas a mesa sequer se mexia. O enorme dragão negro que voava acima deles reduziu bruscamente a altura de seu vôo e, com um rasante sobre eles, cuspiu um jorro de chamas na parede interna que fez todos se encolherem e protegerem os olhos da fumaça. Kristen foi o único a ouvir os dois pares de pés que pousavam sem delicadeza alguma sobre o chão à frente deles.
Viu uma sombra se aproximar em meio à fumaça enquanto os policiais tossiam compulsivamente. Uma pessoa passou correndo ao seu lado na direção de um dos policiais, mas o vulto que se aproximava dele não era humano.
Com uma cabeça grande de inseto e grandes lâminas cinzentas de aspecto bastante perigoso ladeando o corpo marrom, o Pokémon encarava-o com aqueles olhos inexpressivos e fazia-o temer por sua vida pela primeira vez em muito tempo.
- Merda...
Kristen continuava, em vão, tentando desesperada e ilogicamente arrebentar a algema na força bruta, mas o Kabutops subitamente brandiu sua lâmina e o jovem lutador pôs a mão livre diante do rosto, aceitando o golpe final.
Tudo que ouviu, porém, foi um urro insano de dor atrás de si e o metal se partindo junto ao seu corpo. As algemas jaziam inertes no chão e ele demorou a perceber que estava livre. A fumaça começava a se dissipar e Kristen sentiu a estrutura balançar novamente quando o colossal Charizard negro pousou sobre a lateral destruída da parede.
O choque elétrico que sentira sob a axila fez com que sua testa encontrasse rapidamente o chão. Ele não registrou qualquer ferimento, pois sentiu seu corpo ser erguido do chão como um boneco e carregado na direção do Charizard.
Ainda imóvel de dor, não viu quando Dan se colocou entre eles e o objetivo, nem quando o homem que o acompanhava deu uma ordem silenciosa com o braço livre. Mas enxergou perfeitamente – sem nada poder fazer — quando uma das lâminas de Kabutops destruiu a garganta do jovem policial iniciante, que caiu no chão tentando conter o sangue que jorrava da fenda na traquéia com a mão livre, inutilmente.
- DAN! – berrou Lucy, observando Kristen ser atirado com força ao Charizard, que o aparou no ar e o colocou em suas costas, esticando as garras para o homem caricato que invadira e distribuíra os choques elétricos que agora os faziam estar no chão, inutilizados – ESSE ASSASSINO DESGRAÇADO TEM AMIGOS!
- NÃO! – gritou Baromy de volta, lutando como ela para ficar de pé – Kristen não é o assassino! Ele é inocente. Este homem o está seqüestrando!
O homem de estatura mediana vestia-se totalmente de preto com as letras FLAK em vermelho estampadas bem claramente na frente da blusa. A máscara cobria-lhe todo o escalpo e ia até acima do nariz. Virou-se para encarar os policiais caídos com desprezo uma última vez antes de retornar seu Kabutops à Pokébola e se alojar confortavelmente entre as escamas de seu Charizard.
Segurando Kristen firmemente pelos ombros, o homem deu enérgicas palmadas no pescoço do dragão de fogo, que levantou vôo pedantemente, obrigando os policiais a proteger os olhos contra a poeira levantada.
Por toda a cidade pessoas apontavam, umas com medo, outras julgando que era um espetáculo não anunciado, quando Charizard abateu com um único jorro de chamas os três Pidgeots que voavam em sua direção; estes rodopiaram ao chão, com as asas bastante chamuscadas.
- Você está bem? – perguntou o estranho, sacudindo Kristen.
Kristen apalpou as escamas ao redor e se pôs de pé, abobalhadamente apoiado a uma das asas que abria e fechava, sentindo-se cambaleante por causa do solo móvel. O homem deu-lhe espaço enquanto Charizard procurava ganhar altura e se afastar, notando que Kristen já aprendera a se apoiar na asa em menos de um minuto montado em seu primeiro Charizard.
- O que... o que significa isso? Quem é você?
Kristen sentia uma dor lancinante no lado direito do corpo, mas ficou feliz de constatar que já conseguia se mover livremente. Nada feliz de constatar que estava a muito mais metros de distância do solo do que gostaria.
- Maravilhosa sua pergunta. – respondeu o estranho de forma teatral, gritando para ser ouvido contra o vento — Eu vim te resgatar.
- Me resgatar? Do que está falando?
- Esses homens querem apenas um bode expiatório para culpar pela morte de Guren. Você seria relegado ao status de culpado sem a menor chance de defesa!
- Seu desgraçado! Você derrubou um prédio e feriu um policial daquela maneira só por isso? Eu sou capaz de me virar! Quem é você e por que quer me resgatar?
- Eu sou da Revolução, amigo. – anunciou o homem, apontando a própria camisa – Frente de Liberação Ash Ketchum. Para pessoas como você, que querem expurgar o mundo dos humanos que se acham melhores que os Pokémon.
Kristen parecia não acreditar no que ouvia. Por um instante julgou estar sonhando, mas a brisa gelada contrastando com o calor do dragão abaixo deles era bastante real.
- Você é doente?
- Eu venho observando você, Kristen, desde que entrou no laboratório do Professor Guren. Me vinguei daqueles garotos assassinos por você, não precisa mais se preocupar com eles.
Com um embrulho no estômago, Kristen imediatamente associou o tal menino decapitado à perigosa lâmina do Kabutops.
- Você ficou maluco? Está usando Pokémon para sair por aí assassinando humanos? – berrou Kristen
- Depois de anos de repressão e escravidão, é hora dos Pokémon darem o troco, não acha? – berrou ele de volta – Precisamos de pessoas como Ash-sama, que respeitem e amem os Pokémon pelo que eles são! Precisamos nos unir, Kristen. Venha comigo para a base secreta, junte-se à Revolução!
- Seu lunático!
Sem pensar direito, Kristen chutou na direção do rosto do homem, que desviou habilmente. Pela total ausência de equilíbrio, Kristen percebeu que cometera um erro, mas conseguiu se ajeitar de pé com alguma dificuldade, usando a asa novamente.
- Julguei-o mal, Kristen. – começou o homem, parecendo profundamente decepcionado – Achei que teria a força suficiente para se juntar a nós.
- Vocês são malucos! Aquilo que você aprontou lá embaixo não tem nada a ver com Ash Ketchum!
Sentindo-se mais confiante, Kristen largou a asa do Charizard e ele e o homem se encaravam, duas silhuetas sob a lua montadas num enorme Pokémon de fogo sobre uma cidade movimentada. Todas as emissoras de televisão interromperam o que transmitiam para passar esse momento diante das telas e pessoas se amontoavam sobre árvores, casas e quaisquer outros lugares altos que pudessem encontrar.
Com um grito, Kristen lançou-se contra o homem, preocupado com a total falta de equilíbrio. Este, por sua vez, sabia lutar razoavelmente. Aparou os dois socos de Kristen e retribuiu bem, mas ele desviou.
A alguns quilômetros de distância, o espetáculo era bem visível no céu enluarado e o protesto da AMP cessara seus gritos para observar. Ninguém enxergaria os detalhes àquela distância, mas Adolf tinha um péssimo palpite sobre o teor daquela luta no céu.
Poucos golpes depois, Kristen logo percebeu que o homem era tecnicamente razoável, mas que não tinha, nem de longe, a capacidade de lhe dar trabalho. O problema era que estava em clara desvantagem, pois seu solo se mexia e o adversário parecia acostumado a isso.
O homem, notando sua dificuldade, tentou golpeá-lo no joelho, mas Kristen já previa isso e retirou o pé, evitando o chute. Cambaleou, mas não hesitou: o mesmo pé atingiu o homem em cheio no rosto e este caiu de costas na junção de asas de Charizard.
- Nos faça descer agora ou vamos morrer os dois! – gritou Kristen.
- Negativo. – respondeu ele, levantando sem muito esforço.
Ambos continuaram a trocar golpes sobre o dorso cada vez menos seguro do Charizard e Kristen já parara de mapear seus movimentos. Se ele estava subindo, descendo, se afastando ou voando em círculos... era demais para a cabeça dele.
Após quase um minuto inteiro de golpes imprecisos, Kristen desviou-se de um soco e sentiu o pé direito escorregar numa escama. Mergulhava de costas para a noite e viu o inimigo projetar-se sobre ele.
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Kristen lembrava-se claramente de suas dificuldades quando iniciara seus treinos de Tae Kwon Do. Habituado desde as fraldas às bases mais estáveis, como as do Karate, ele não teve problemas em executar os movimentos em simulações, atacando instrumentos de espuma. Mas as primeiras lutas foram terríveis.
Caía no chão a todo momento, completamente desacostumado a brincar com seu equilíbrio daquela maneira. Os movimentos instintivamente lhe aconselhavam a erguer a perna e contra-atacar mesmo em situações em que claramente não havia como ficar de pé depois.
- Não é uma base pior, filho. – entoava seu pai, observando seus primeiros insucessos — É apenas uma base diferente. Ela é muito menos segura, mas se você se adaptar, ela pode reverter lutas impossíveis.
- Mas eu não consigo ficar de pé depois do golpe! – reclamava Kristen, ainda muito criança para aceitar o fracasso prévio ao sucesso, inerente às artes marciais – Pra que serve atingir o oponente se eu cair no chão?
- Se o seu golpe for suficientemente rápido e forte para derrotá-lo, terá valido a pena. Você levantará depois... mas ele não. Para isso, não é pecado sacrificar o próprio solo. Se você conseguir se equilibrar nessa base, nenhuma outra será mistério para você. Nenhuma situação de desequilíbrio será impossível de reverter.
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Ele via, como em câmera lenta, o próprio corpo perigosamente projetado para fora do lombo do Charizard com uma perna fora do chão e o homem misterioso a centímetros dele, pronto para empurrá-lo e garantir a vitória.
“Eu vou cair... perdi o meu solo. Então eu preciso que meu golpe seja suficientemente rápido e forte para derrotá-lo!”
Recobrando seu espírito, Kristen girou o corpo numa velocidade absurda para um ser humano. Apenas sentiu o calcanhar da perna perdida fazer contato com uma cabeça e sorriu satisfeito, sabendo que ninguém se manteria acordado diante daquele impacto.
O chute, entretanto, o projetara ainda mais para trás. Agora ele mergulhava em queda livre de cabeça para baixo em direção à floresta.
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