Pokémon - Reconquest
18 Capítulo 16: Abominação
Notas iniciais
A madrugada já ia alta enquanto o Coronel da FLAK andava pelos corredores do edifício central sem conseguir disfarçar a tensão. Vestindo a roupa de vigilante obtida por outros membros da organização e portando o cartão entregue pelo Meowth, ele estava teoricamente invisível. Além disso, àquele horário a circulação era ínfima e os poucos pesquisadores com os quais ele topou sequer lhe prestaram atenção quando o cumprimentaram; passavam muito apressados, a maioria conversando em voz baixa ou examinando papéis com ar grave. Parecera-lhe fácil demais invadir um prédio de alta segurança da Liga.
Lamentava o fato de ter tido de se livrar das mechas azuis que já cultivava havia muitos anos, mas entendia que era necessário. Cortou-o em estilo militar para não chamar atenção entre os vigilantes e pintou-o de preto, o que considerava uma precaução exagerada, mas ainda assim necessária.
Estava andando havia mais de quinze minutos. Quase alcançara seu objetivo quando sentiu uma mão em seu ombro direito. Assustado, virou-se depressa e a mão direita já alcançava o coldre quando notou que era alguém uniformizado como ele, encarando-o de forma curiosa.
- Fique calmo, soldado. – disse o homem de pele morena com a voz grave
- Me desculpe. Estava distraído.
O Coronel leu na lapela da farda do desconfiado vigia: Carlo Malta – Supervisor 2P.
- O que faz aqui?
- Ahn, eu... estava apenas... procurando por um pouco de café. Sou novo por aqui, costumava trabalhar no Centro de Criação, sabe? – improvisou o Coronel.
- Oh, entendo. – respondeu o supervisor, subitamente complacente – Lamento muito pelos seus colegas. Espero que esteja pelo menos conseguindo se distrair um pouco com o novo trabalho.
- Sim. Está sendo duro, mas estou agüentando... – respondeu o Coronel, simulando a tristeza de forma bastante convincente.
- Bem, venha comigo. Vou levá-lo ao nosso centro de repouso, lá tem café, água e a menina que toma conta é bastante simpática. – disse ele, já se virando.
O Coronel seguia pelos corredores. O supervisor falava sem parar, mas o Coronel não lhe prestava a mínima atenção. Procurava analisar o caminho com atenção enquanto avaliava suas possibilidades.
Poderia simplesmente seguir até lá, tomar um café e depois retomar sua missão, mas não sabia onde exatamente estava sendo levado nem quanto tempo levaria para chegar. Soaria estranho se ele perguntasse e, quanto mais o tempo passava, mais perigo corria de ter seu disfarce descoberto. Poderia ser indagado sobre seu posto, procedência da transferência, colegas de trabalho no outro emprego e outras tantas coisas que não saberia responder, que era óbvia a conclusão: seria definitivamente imprudente supor que sairia dessa amigavelmente.
Por outro lado, o que estava prestes a fazer também tinha sua quota de riscos.
- ...e a última informação que chegou aqui é que ela ainda respirava por aparelhos, mas que começava a dar os primeiros sinais de querer despertar. Imagine só não ser acordado porque a dor seria tão intensa que seu corpo poderia se esquecer de cumprir as funções vitais. Definitivamente não é assim que eu quero...
Ele parou de falar e de andar quando ouviu o clique seco da arma sendo engatilhada às suas costas. Virou-se bem devagar e viu uma pequena pistola com um fino silenciador enroscado no cano, apontada diretamente para o seu rosto. Sabia que era inútil resistir ou negociar, pois conhecia bem aquela expressão no rosto do inimigo; uma calma fria que indicava que ele estava completamente habituado àquele tipo de situação e que diria suas exigências, não se deixando levar pelas emoções. Uma negociação profissional.
Olhando ao redor, o supervisor Malta sentiu-se acuado. Estavam num dos corredores secundários onde nunca passava ninguém. A única coisa ali eram duas portas de madeira opostas que levavam a galpões inúteis; o único motivo de estarem ali era cortar caminho.
- Onde arrumou isso? – perguntou Malta, acenando para a arma.
A venda, porte e fabricação de armas de fogo com envolvimento de civis eram terminantemente proibidas e passíveis de pena morte no mundo inteiro, graças aos acordos internacionais, provenientes das sociedades que haviam se destruído com corridas armamentistas.
- Lamento que tenha de ser assim, Sr. Malta. – disse o Coronel sem parecer lamentar nada e ignorando totalmente a pergunta feita pelo supervisor.
- Não faz mal, eu fui descuidado. Dei as costas a um novato sem verificar. Aquela história de trabalhar no Centro de Criação ajudou, acho que fiquei sensibilizado. – ironizou ele – O que pretende?
- Você vai acabar sabendo, mas antes preciso perguntar outra coisa. O que tem atrás dessas portas?
- A da minha direita é a central de segurança, de onde se regulam as câmeras de vigilância. A outra é onde os pesquisadores...
- Mentiroso. – cortou o Coronel em voz baixa – Sei que por esse lado só existem galpões secundários de materiais não perigosos. Tenho uma boa noção da planta do prédio, estava apenas lhe testando para saber se posso confiar nas suas informações. Pelo visto não posso. Vou misturar outras perguntas como essa ao interrogatório e se eu pegar mais alguma mentira vou enfiar uma bala no seu joelho. Estamos bem assim?
O supervisor Malta aplaudiu-o mentalmente pela tática bem sucedida. Estava diante de um mestre do interrogatório e de situações com reféns. A grande questão era se ele havia aprendido suas artes estando do lado dos bandidos ou da polícia.
- Muito bem então. Acho que diante disso não tenho muita opção, não é? O que quer saber? – perguntou Malta, sabendo que sua habilidade de raciocinar rapidamente sobre as perguntas poderia salvar sua vida.
- Quando darão falta de você?
- Hoje nem tão cedo. – sabia que podia haver mais infiltrados, portanto não podia mentir nessa – Em geral o turno da noite não entra em contato comigo, a menos que haja incidentes e só haverá troca de turno daqui a quatro horas.
- Como fazem para contatar um cientista dos laboratórios de segurança máxima caso queiram falar com eles?
“O desgraçado vai matar ou seqüestrar alguém.” Pensou Malta. “Preciso fazer alguma coisa.”
- Olhe aqui... tem câmeras e microfones por toda parte nos prédios. Nem mesmo eu sei onde ficam todas. Você pode até me matar caso eu reaja, mas se eu der um único grito, toneladas de seguranças irão cair em cima de você antes que consiga dar o segundo tiro.
- E está disposto a morrer por isso?
- É o meu trabalho. Eu sabia dos riscos quando aceitei ser o chefe de segurança num edifício tão importante, então claro que estou preparado para morrer por isso.
- E quanto à sua mulher e aos seus filhos? – perguntou o Coronel distraidamente.
- Se minha morte for honrosa, o Estado vai tomar conta da minha família para sempre. Não tenho arrepend...
- Você não entendeu. – cortou o Coronel, sem esconder o sorriso ao ver que o interrogado havia mordido a isca – Temos uma equipe em sua casa agora, Sr. Carlos Malta. – continuou ele, enfatizando o nome do pobre supervisor – Se não tiverem notícias minhas até o fim da noite, vai precisar se desculpar com sua família em outro mundo. Não quer isso, quer?
Malta vacilou pela primeira vez. Por mais que seu lado racional tentasse desesperadamente perceber a armadilha, nada no mundo o faria arriscar o pescoço da mulher e dos gêmeos que tanto amava. Ele agora estava nas mãos do inimigo; lhe diria qualquer coisa que quisesse saber.
- Seu... – conteve o grito que queria sair – Apenas prometa-me que eles ficarão em segurança e eu vou lhe contar qualquer coisa, sem exceções.
- Tem a minha palavra.
- De que me vale a sua palavra, desgraçado? – perguntou Malta entre dentes, incapaz de se conter.
- De nada. Mas você não tem muita escolha. Então... e quanto à minha pergunta?
- Droga...
Malta respirou fundo por um segundo, controlando a própria vontade de pular para a morte tentando alcançar o pescoço do maldito chantagista. Precisava pensar claramente.
- Os laboratórios de segurança máxima ficam no...
- Eu sei onde ficam. – cortou o Coronel com impaciência – Quero saber como entro neles. Eu também sei que em laboratórios de segurança máxima não basta apenas bater na porta e pedir pra dar uma palavrinha.
“Esses desgraçados – sejam lá quem forem – têm informação demais. Isso não é bom, houve algum maldito vazamento.” – Nós da segurança só podemos interromper cientistas em atividade se tivermos uma emergência séria. Precisa de um cartão como esse aqui... – Malta retirou bem devagar um pequeno cartão vermelho de um dos bolsos da farda – Como você também deve saber, a maioria deles trabalha com doenças perigosas, então vai precisar apresentar a identificação e o cartão e esperar ele retirar todo o equipamento dele.
- Quanto contato os cientistas têm com o pessoal da vigilância?
- Quase nenhum. – respondeu Malta, já bastante impaciente — Depende dos rapazes, alguns deles gostam de conversar com os doutores. Eu particularmente detesto todos eles, são uns nojentos arrogantes. Agora posso pelo menos falar com minha família?
O Coronel não fez menção alguma de apanhar da mão suada o cartão suspenso no ar. Estava simplesmente encarando o opositor de forma inexpressiva, percebendo que ele não poderia contribuir mais.
- Espero que o Estado seja mesmo tão eficiente quanto diz, Sr. Malta.
Foi a última frase que o supervisor de segurança ouviu. Sem saber que sua família estava tão livre de perigo quanto quando ele a deixara em casa, tombou no chão com um buraco sangrento no lugar do olho esquerdo.
~~~~~~~~~~~~~~~
Ryla notou que o dia demorava mais a nascer naquela região. Já estava próximo das seis da manhã e ainda não se via um único raio de sol pela janela da academia. Ao lado do banco onde ela se sentava, seu novo Poliwag descansava a cabeça sobre o casco do Lapras de Kristen – já com o dobro do tamanho que possuía quando havia nascido -, ambos ferrados no sono. Eevee estava aninhada aos pés dela, dormindo profundamente também, enquanto Ponye estava deitada de lado perto da parede mais próxima, com Cyndaquil sobre seu dorso, o único dos espectadores acordado além da própria Ryla, que também esfregava os olhos e bocejava.
Um pouco afastados estavam Tyrogue, Adolf e Kristen, apenas este último de pé. Adolf dobrara-se de joelhos sobre uma poça de suor no tatame, ofegando como se tivesse corrido três maratonas. Tyrogue estava deitado com os braços e pernas abertos, respirando ruidosamente e sem força sequer para abrir os olhos.
Kristen olhava para os alunos com a expressão bastante satisfeita. Usava uma camiseta branca encharcada de suor, uma calça preta e bandagens que davam duas voltas em ambas as mãos. Apesar de ofegar bem menos que os outros dois, tinha a expressão muito mais cansada do que Ryla jamais vira.
As alças de uma grande manopla estavam passadas por um dos braços de Kristen e o saco de pancadas pendurado próximo a eles estava amassado em vários ângulos.
- Rapaz... – disse Adolf, pausadamente por causa da respiração curta – Realmente senti falta dos seus treinos. Estamos aqui há... nove, dez horas?
- Algo assim. – Ryla notou que a voz de Kristen não demonstrava seu cansaço – Está bem, Tyrogue?
Como resposta, o pobre Tyrogue ergueu o braço num sinal de positivo, mas apenas por um instante. Seu braço tombou inerte sobre o tronco e ele tentava controlar a respiração, sem muito sucesso.
- Ele está ótimo, Kris. – elogiou Adolf – O condicionamento dele está uma maravilha se for pensar que vocês saíram nem tem um mês. Achei que ele fosse cair muito antes.
- Ele é guerreiro. – disse Kristen, apanhando uma das garrafas cheias de água sobre a bancada e rolando-a pelo tatame até Tyrogue – Mas agora é hora de pararmos. Você precisa comer alguma coisa e descansar, Aldo. Eu e ele vamos seguir viagem em algumas horas.
Vinte minutos depois, despedidas feitas e todos os Pokémon recolhidos às Pokébolas, Kristen e Ryla saíam pela porta da academia. Adolf ficaria mais um pouco para arrumar os aparelhos que haviam tirado do lugar e trancar todas as portas.
- Algo de errado, Kris? – perguntou Ryla, notando o passo irregular de Kristen.
- Oh, nada demais. – disse Kristen com um sorriso cansado e dissimulado – Não existe muita gente por aí que agüente meus chutes em potência total. Sempre me empolgo quando treino com Adolf... agora meu tornozelo está reclamando, mas nada demais.
Apesar de falar em sussurros, mantinham um tom de conversa animado. Kristen estava feliz por rever os amigos, as irmãs e até mesmo o túmulo de sua mãe. A única coisa que não sabia explicar era o motivo pelo qual Ryla parecia tão feliz quanto ele próprio.
Sem estranhar a porta destrancada – já que moravam numa região nada violenta -, Kristen foi logo escancarando a porta. Não esperava, porém, encontrar as luzes da sala completamente acesas. E esperava menos ainda encontrar uma menina de gatas no chão, com o traseiro voltado para a porta.
- KRIS! – ouviu-se a voz furiosa de Kaya embaixo da menina que protagonizava o espetáculo – O QUE DIABOS PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
Ryla sentiu-se completamente em transe diante da confusão de pernas, braços, cabelos e lençóis. Sentiu a face se ruborizar violentamente, mas não conseguiu desviar o olhar dos três pares de seios e do mar de membros que tentavam ocultar suas intimidades, sem muito sucesso.
Kristen estava de lado, com as duas mãos na frente do rosto, afastando-se devagar como se a proximidade com a cama improvisada o estivesse queimando. Ryla distinguiu o rosto de Kaya, muito mais envergonhado do que julgaria vê-lo um dia na vida. Ela agarrava desajeitadamente um chumaço de lençóis e os puxava para cima, expondo, com isso, suas pernas e o busto de sua irmã e o de uma terceira menina, também ruiva, que Ryla não fazia idéia de quem fosse.
- Mas que merda, Kaya! – disse Kristen, embaraçado.
- O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
- Será que custa muito usar a porra do quarto? Ou pelo menos trancar a maldita porta?
- EU VOU ARREBENTAR VOCÊ!
Kaya já se preparava para ficar de pé e correr atrás de Kristen, nua em pêlo, quando Kin puxou-a vigorosamente, fazendo-a cair sentada sobre os lençóis.
- Desculpe, Kris, achamos que fossem ficar até tarde na academia. – disse Kin, ainda mais vermelha que Ryla – Será que podem nos dar licença só um minuto para nos...
~~~~~~~~~~~~~~~~
O Coronel estava parado num corredor bastante afastado da sala onde abandonara o corpo inerte do chefe de vigilância. À frente dele havia uma pesada porta de metal com uma placa azul que continha os dizeres:
LABORATÓRIO INTEGRADO DE MEDICINA MOLECULAR POKÉMON
RESPONSÁVEL: CELIO TANURI, PhD
NÍVEL DE RISCO: 5A
Logo abaixo seguia-se uma lista que continha uma infinidade de outros cientistas dos mais variados níveis de importância na pesquisa, além de pelo menos três avisos – não apenas na porta, mas também no mural afixado à parede oposta – que proibiam expressamente a entrada de pessoal não autorizado.
O Coronel pressionou o indicador sobre o único interruptor próximo. Por causa da acústica hermética do laboratório de alto risco, ele não pôde ouvir o lamento da campainha e ficou em dúvida se realmente funcionara. Esperou pacientemente por longos cinco minutos e estava prestes a soar novamente o chamado quando a placa azul da porta se moveu para cima como uma portinhola e um par de olhos o encarou por detrás da camada de vidro que ela escondia.
- Pois não? – indagou o cientista com a voz ridiculamente abafada, sem conseguir esconder a impaciência.
Dr. Tanuri era um homem gentil e educado, mas era um verdadeiro gênio. Gênios detestavam ser interrompidos no meio de algo importante e ele acabara de ter uma de suas epifanias quando foi interrompido. Considerou longamente ignorar o chamado, mas deixou para trás os filhotes que drogava, ciente de que apenas a equipe de segurança poderia interrompê-lo àquela hora, quando estava sozinho no laboratório.
- Dr. Tanuri, me perdoe, mas é uma emergência. – o Coronel não perdeu tempo; ergueu imediatamente o cartão vermelho que pegara do cadáver de Malta à vista do cientista – Preciso que o senhor saia agora.
Suspirando longamente, Dr. Tanuri sentiu o desânimo tomar conta dele, esforçando-se para não perder o raciocínio do experimento que fazia.
- Estou bastante ocupado no momento, senhor...?
- Malta. Estou no comando nesse turno. E lamento interromper suas pesquisas, mas o senhor precisa vir comigo agora! É uma emergência!
- É sério, o senhor não entende... – retrucou Malta teimosamente – Eu preciso, pelo menos, terminar esse experimento. Faltam só alguns minutos.
- Senhor, lamento ter de ser tão direto, mas existe um assassino no prédio. Sabemos que ele quer assassinar algum dos cientistas em atividade nesse momento, mas não sabemos qual. Precisamos evacuar todos os laboratórios.
- Mas se ele me quiser, não seria mais seguro que eu ficasse aqui dentro? – perguntou Dr. Tanuri, esperançoso, tão focado em terminar seu trabalho que mal parecia registrar a ameaça da palavra “assassino”.
- Senhor... – insistiu o Coronel, tentando não perder o controle – Sumiram maçaricos e outras ferramentas da sala de segurança. Se ele invadir os laboratórios de alta periculosidade, talvez não consigamos conter o dano.
Ao ouvir a possibilidade de ter sua pesquisa ameaçada, o Dr. Tanuri não quis mais discutir. Imediatamente introduziu a palma de sua mão no sensor digital. Um pequeno bipe foi emitido com o reconhecimento de suas digitais e a porta se abriu pesadamente, girando bem devagar no mesmo lugar.
Assim que a abertura foi suficiente para passar, o Coronel entrou de corpo inteiro, barrando a passagem do Dr. Tanuri e apontando-lhe a arma diretamente para o peito. O cientista ergueu as mãos, assustado, recuando aos tropeços enquanto o Coronel fechava a porta às suas costas com um dos pés.
Estavam numa espécie de ante-sala. Era um cômodo minúsculo onde havia apenas uma mesa de ferro e uma imensa cortina de plástico folheado a um canto, denunciando uma passagem. Não havia nenhuma decoração e a parede em volta do estranho cortinado era toda feita de um vidro temperado extremamente espesso.
- Por favor, não me mate! Eu sou só um cientista, não tenho acesso a nada demais além do meu laboratório nesse prédio. Também não tenho muito dinheiro, mas pode levar o quanto quiser! Eu juro que não vou reagir!
- Silêncio. – cortou o Coronel, sentindo que a voz e o pânico do cientista cresciam cada vez mais – Eu não vim machucar o senhor. Mas não estou de bom humor hoje. Se fizer escândalo, tentar avisar alguém ou tentar reagir de qualquer forma, eu não vou hesitar em puxar o gatilho. Fui claro?
Amedrontado pelo que o agressor pudesse considerar escândalo, Dr. Tanuri apenas acenou com a cabeça, cada vez mais pálido e sentindo que ia enjoar.
- Preciso que o senhor ajeite suas coisas da forma que sempre faz ao ir embora. Vai deixar também um bilhete avisando que precisou ir embora cedo por ter passado mal. Vai me acompanhar pra fora daqui como se eu o estivesse escoltando sem dar um único pio. Quando estivermos fora do prédio, eu lhe direi como...
O Coronel parou imediatamente de falar quando seus olhos, enfim, registraram o que havia na primeira sala após o cortinado. Através da vidraça, seus olhos se fixaram numa bizarra mesa que parecia ter sido retirada do mais nauseante filme gore.
Estava repleta de pequenas macas vergadas à horizontal, sobre as quais descansavam dez filhotes de Chikorita idênticos, deitados de lado. Diversos fios passavam por dentro dos corpos dos Pokémon, carregando líquidos de diversas tonalidades e nenhum deles movia uma folha sequer.
- O que está fazendo com eles? – perguntou o Coronel agressivamente, sacudindo a arma diante do rosto do Dr. Tanuri e com a aparência subitamente medonha.
- É apenas um experimento de rotina! Bem, pelo menos era até eu...
- Até você o que? Responde!
Mesmo procurando manter o tom de voz baixo, a oratória furiosa d’o Coronel não deixava dúvidas ao Dr. Tanuri sobre ele estar profundamente enrascado. Desde bem moço trabalhava fazendo experiências em Pokémon e já topara com todo tipo de ativistas contrários a esse tipo de pesquisa, mas era a primeira vez que um deles portava uma arma.
- Eu tive a idéia de testar uma nova fórmula, foi isso. – em seu desespero, falava tudo muito rápido, atropelando as frases como se fazer o outro compreender os processos pudesse salvar sua vida — Pra uma doença teoricamente incurável em Pokémon de planta, mais comum nos que vivem em cativeiro. Eu trabalho com Pokémon iniciais de Kanto e Johto e estava incomodado com essa...
- Poupe-me desse falatório de médico! Quero saber por que diabos eles estão desacordados com aqueles fios passando pelo corpo. Que direito você pensa que tem sobre a vida deles?
- Me desculpe, senhor, mas as pesquisas com Pokémon são a única saída para solucionar uma série de problemas. Apenas assim os treinadores terão seus Pokémon mais saudáveis.
- Ah, é? – enfureceu-se o Coronel – Então você está sacrificando Pokémon aleatórios apenas para que a Liga possa continuar financiando esse mundo nojento de batalhas?
- Não, senhor, por favor não me entenda mal! – se atrapalhou o cientista, cada vez mais temeroso de despertar em seu inquisidor fúria suficiente para ter sua vida ceifada – Esses Pokémon que são usados em pesquisas nascem em cativeiro apenas com esse propósito. Nós os tratamos bem desde seu nascimento, pode ter certeza! Sem sofrimento!
- Eles não me parecem estar sendo bem tratados. – disse o Coronel secamente – Era assim que você gostaria de estar sendo tratado?
- Senhor, por favor... – desesperou-se o cientista – Eu tenho família! Leve o que quiser de mim, apenas não me mate, por favor!
O Coronel pareceu ponderar por alguns instantes, encarando os Pokémon inertes sem, no entanto, afrouxar a mão que segurava a arma nem um pouco.
- Muito bem. – disse, por fim – Eu o manterei vivo se você libertar esses Pokémon.
Dr. Tanuri sentiu um desconforto no estômago ao ouvir aquelas palavras. Era mais fácil que lhe tivessem pedido para fazer chover dentro da sala.
- Senhor... – disse, com o máximo de cautela que conseguiu reunir na voz – Lamento que não seja possível.
- Como não? Por que acha que está em posição de tomar alguma decisão? Você vai arrumar Pokébolas e vai guardar todos esses Pokémon. Iremos soltá-los no caminho.
- O senhor não entendeu, por favor me escute. Por questões de segurança, Pokémon que passaram por procedimentos em laboratório como esses precisam ser abatidos ao final da pesquisa! Assim evitamos a disseminação desenfreada de doenças e outros problemas.
- Acha que eu ligo a mínima pras normas dessa sua ciência nojenta? – sibilou o Coronel entre os dentes.
- Além disso, senhor... – continuou o cientista, rezando para que sua notícia não fosse tão mal recebida quanto esperava -, esses Chikoritas estão em estado vegetativo. Assim que deixaram esses aparelhos, eles irão falecer. Não há mais esperança para eles, então por favor seja compreensivo comigo!
Mas o Coronel já não mais ouvia. Todas as ameaças haviam sido um grande blefe, já que sua missão incluía claramente que o cientista fosse recuperado com vida. Agora ele ruminava o gosto amargo de encarar uma leva de Pokémon subjugados e nada poder fazer. De que servia seu juramento nessas horas?
Pensou em todos os laboratórios obscuros, confidenciais, entrelaçados nas entranhas daquele prédio. Quantos Pokémon estariam naquele tipo de situação em cada um deles? Ele não teria tempo, naquele instante, para olhar por todos, afinal tinha uma missão. Mas havia algo que podia fazer ali, naquele momento, sem prejudicar sua tarefa.
- Qual o protocolo de segurança pra entrar aí?
- Como assim? Por que o senhor quer entrar?
- Se quiser viver, é bom começar a responder as minhas perguntas depressa!
Engolindo em seco, o Dr. Tanuri tentou não entrar em suposições sobre o que aquele homem queria com sua pesquisa.
- Essa primeira sala é de segurança simples. Apenas é necessário passar por um banho dentro daquela câmara! – ele apontou para aquilo que parecia um imenso cortinado plástico – Ao lado da saída existem roupas adequadas para se acessar os outros níveis, mas, para esse, apenas os EPIs tradicionais estão de bom tamanho.
- Você vai na frente. – apontou o Coronel com a ponta da pistola.
Novamente o Dr. Tanuri ia perguntar o que ele queria com sua preciosa pesquisa, mas refreou a língua. O Coronel seguia-o de perto com a arma apontada para o meio de suas costas.
“Vou aliviar o sofrimento dessas pobres criaturas, custe o que custar.”
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
- Olhem!
Sobressaltado pelo grito repentino de Kin, a discreta coruja abandonou prontamente a placa e levantou vôo em direção contrária ao pequeno grupo. Kaya ainda levava a mão à cintura quando ela já havia desaparecido entre as folhagens.
- Mas que droga, Kin! Precisava fazer esse escândalo? – gritou Kaya, irritada.
- Desculpe. – murmurou a irmã, amuada.
- Saco... quando vou ver outro Noctowl shiny perdido por aí?
A coruja denunciava sua natureza diferente pelos tons mais leves na coloração das penas. A placa na qual ela se empoleirara apontava a direção da cidade de Cherrygrove, cuja entrada já podiam avistar.
Haviam prolongado a viagem ao escolherem caminhar por dentro da floresta. Apesar do corte de caminho considerável que haviam realizado, no fundo nenhum deles tinha pressa; todos os quatro se ocupavam de apreciar, cada um à sua maneira, a mata ao redor, recheada de Pokémon dos mais variados tipos.
Sem poder mais enrolar, Kristen e Ryla vinham à frente, lado a lado, dividindo um pacote de petiscos naturais com sabor de peixe, enquanto Kaya e Kin caminhavam logo atrás, de mãos dadas.
- Ainda por cima acordado durante o dia... nunca mais... – remoía Kaya em voz baixa.
Prosseguiram por mais alguns metros. Enquanto Kaya e Kin faziam as pazes aos murmúrios na retaguarda, Ryla apreciava muito mais a paisagem do que os biscoitos. No último mês descobrira que amava a natureza, mas não podia negar que a visão de uma cidade surgindo no horizonte após dias e dias cercados por verde era algo impressionante.
- Por favor...
Kristen virou-se para o lado, tensionando todos os músculos e quase deixando cair o pacote de petiscos. Sentiu-se culpado quando viu que era uma velha mendiga entrevada quem murmurava, apontando para a comida em suas mãos.
Sem pensar duas vezes, Kristen abaixou-se e estendeu o pacote à senhora, que apanhou-o sem acreditar e começou a se servir vorazmente. Apenas tirou os olhos da comida quando os lábios das duas irmãs se uniram num beijo reconciliador logo atrás de Ryla e Kristen; ela encarava-as como se fossem uma aberração saída da mais repulsiva imaginação humana.
- “Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza! Por isso também Deus os entregou às imundícies de seus corações, para desonrarem seus corpos entre si!” – entoou a velha, pálida como um cadáver, parecendo temer legitimamente as irmãs.
- “Conhecendo o juízo de Deus, são dignos de morte os que tais coisas praticam; não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.” – murmurou Kaya em resposta, com o tom mais profundo de desprezo na voz que Ryla já a vira empregar. – Velha nojenta.
Segurando o braço da irmã com mais força, tomou a frente de Kristen e Ryla e ambas apertaram o passo na direção da cidade. A velha mendiga arregalou os olhos incredulamente à resposta de Kaya. Kristen pareceu não saber como agir por um tempo, mas logo alcançou as duas irmãs, no que foi imediatamente seguido por Ryla.
- Achei que essa religião imunda estava morta e enterrada. – murmurou Kaya, escondendo a raiva que sentia atrás de um profundo tom de asco.
- Ora vamos... é uma senhora passando fome na rua, não deveria esperar muita clareza de raciocínio dela. – disse Kristen, apaziguador.
Ryla notou que Kin parecia bastante incomodada com a situação toda, mantendo-se ainda mais grudada em Kaya do que antes. Mas o que realmente chamava sua atenção era a resposta da gêmea mais velha à velha preconceituosa. Encontrou os olhos de Kristen com os seus e estava decidida a perguntar:
- Mas como ela...?
- Mas que merda é essa? – gritou Kaya, parando de repente.
Ryla sentiu sua pergunta morrer quando olhou para a frente. Um imenso tanque blindado do exército bloqueava parcialmente a entrada da cidade e quatro soldados armados com longos fuzis cromados olhavam para o pequeno grupo com feições medonhas.
- Parece que mais uma vez perdemos as notícias importantes... – resmungou Kristen.
Fale com o autor