Pokémon - Reconquest

7 Capítulo 6: Oculto


Notas iniciais
Boa leitura. :~

Na sala mal iluminada, as baforadas de fumaça incomodavam bastante a jovem iniciante, mas ela não reclamava. Admirava seu chefe o suficiente para tolerar-lhe os defeitos: o fumo constante, a mania de limpeza e as explosões de humor.

Sentada comportadamente ao lado do computador em que ele teclava ininterruptamente, ela via as próprias feições enfeitadas pelos cabelos ruivos presos encarando-a de um monitor desligado com aqueles olhos verdes muito sensuais.

O chefe era um homem corpulento de bigodes grisalhos e já praticamente sem cabelos, que parecia nunca estar de bom humor. Seus dedos amarelados voavam sobre o teclado e o cigarro pendurado em sua boca se consumia como se tivessem atirado ácido nele. Mesmo detestando cigarros, ela sempre achara uma habilidade impressionante o fato d’ele respirar normalmente sem tirar o cigarro da boca.

- Mas que merda! – berrou ele repentinamente batendo com os dois punhos no tampo da mesa. A menina procurou ignorar o copo de café que virou a duas mesas de distância – Não é possível que tantas pistas dêem num beco sem saída desses, agente Lucy. Estamos deixando passar alguma coisa...

- Fique calmo, chefe. O senhor é um investigador competente e está trabalhando nisso com tanta dedicação... mais cedo ou mais tarde alguma pista fará sentido.

- Não vou ficar esperando cair uma solução do céu! Preciso pensar... se nenhuma das pistas deu em algo, então precisamos remontar a estratégia... traçar outra linha. Já faz quatro dias que o trabalho daquele pobre doutor se foi e nós ainda não...

Repentinamente ele se levantou, com a boca aberta. Lucy também se levantou, com sua prancheta diante do tórax, feliz ao reconhecer uma das epifanias do chefe Baromy.

- É isso! O trabalho! Preciso que interrogue novamente as pessoas presentes nos dias anteriores ao incêndio. Preciso saber quem são os treinadores que fizeram encomendas com o Dr. Guren! Interrogue todos, da recepcionista aos outros cientistas, não deixe ninguém passar. Entendido, agente Lucy?

Lucy sorriu e confirmou, deixando a sala pela primeira vez com a convicção de que teriam um suspeito. Ou vários.

Como sempre, ela acordou muito depois do pontual canto dos Doduos. O sol que entrava pela janela não a incomodava e ela ainda se revirou manhosamente na cama por vários minutos antes de levantar.

Quando finalmente saiu da cama, bocejando e esfregando os olhos, a primeira coisa que lhe ocorreu foi ver as horas. O grande relógio em forma de Chansey na parede avisava que faltava pouco para meio-dia, o que explicava a fome intensa que sentia.

Caminhou até a janela, contemplando a vasta paisagem atlântica do outro lado da rua. Dois andares abaixo de sua janela, Kristen estava parado diante de uma palmeira, socando e chutando seu tronco repetidamente. Ela não entendia nada de lutas, mas imaginava que ele devia ser realmente bom, afinal treinava duramente daquela forma todos os dias, além de ser o campeão mundial, claro.

Retornando à cama, ela viu o ovo embolado na roupa de cama. Kristen pagara-lhe o único quarto disponível com aquecedor na cama, ocupando de bom grado o cômodo ao lado e pedindo apenas que ela mantivesse o ovo entre os lençóis durante todo o dia e o limpasse ao acordar e antes de dormir.

Indo até o luxuoso banheiro branco, ela tirou a camisola branca pela cabeça, contemplando seu corpo nu no grande espelho preso à parede com a tristeza de sempre. Carregava consigo a insatisfação pessoal presente em toda mulher com complexo de inferioridade; achava que nada em si era suficiente.

Mas não era mais criança; seus demônios interiores não a faziam mais chorar e ela desviou os olhos do espelho sem lamentações. Ligou o chuveiro e deixou cair o primeiro jato de água fria, medindo a temperatura com uma mão. Somente quando a água esquentou, ela entrou no chuveiro de corpo inteiro, carregando consigo a camisola.

Saiu do banho quente só meia hora depois, sentindo-se finalmente acordada. Carregou o ovo até o banheiro e envolveu-o na camisola molhada, limpando-o sob o vapor que cobria o banheiro enquanto ouvia o chuveiro do quarto ao lado sendo ligado. Ela mesma começava a ter sentimentos maternais pelo Lapras que ainda não nascera e se perguntava se Kristen não lha incumbira daquela tarefa de propósito.

Quando estava totalmente vestida, ela deixou o quarto, trancando-o e deixando suas coisas sobre a cama e a camisola lavada estirada sobre o parapeito da janela. Quase ao mesmo tempo, a porta de Kristen também rangeu. Ele sorriu abertamente para ela.

- Boa tarde, Ryla-chan! Boas notícias... Tyrogue acaba de ter alta.

- Sério? – ela perguntou, radiante.

- Sim! Arrume suas coisas, vamos descer.

No térreo do prédio, ambos estavam ao lado de Alice enquanto Tyrogue girava os dois braços com um olhar decidido no rosto. Havia duas feias cicatrizes no ombro e na perna feridos contra o Totodile e o tom de pele parecia bastante diferente em ambas.

- Bom, tive de fazer enxertos de pele e repor o sangue perdido, mas ele está inteiro novamente. Nenhuma seqüela, apesar de que as cicatrizes não sairão mais.

- Tudo bem, Joy-san. – respondeu Kristen, genuinamente feliz – Cicatrizes fazem parte da vida de um lutador. São marcas de orgulho, não vão nos incomodar. Mais algo, Joy-san?

- Nada, Kristen-kun. Vocês estão liberados para seguir viagem.

Kristen fez um longo cafuné em Tyrogue, que gritou em resposta, parecendo bastante motivado. O jovem lutador olhou muito sério para Alice Joy e Ryla percebeu que ele ia mais uma vez tocar no desagradável assunto.

- Tem certeza de que não quer que eu assine alguma queixa, Joy-san?

- Já respondi a isso, Kristen. – ela repreendeu-o – Nenhum dos rapazes quis dar queixa de nada.

- Mas e a senhora? A senhora presenciou um ato que deveria ser denunciado à Liga, de acordo com as regras.

- Ah... não esquente. Você não devia ter batido neles, mas a sua atitude foi correta. Precisamos de mais treinadores como você por aí. Vamos apenas fingir que nada aconteceu.

Kristen sorriu para ela, finalmente ausente de culpa. Todos se despediram e logo ele e Ryla seguiam viagem, com Tyrogue andando ao lado. Ambos carregavam suas mochilas às costas e o pequeno Tyrogue ia entre eles, com uma sacola branca estufada.

A Rota 31 estava repleta de carros em ambos os sentidos. O bom asfalto fazia com que eles andassem apressadamente e mal se podia reparar nos modelos. O trio parou diante da estação de trem, aguardando que a mesma se fechasse para a passagem de um trem, de modo que pudessem atravessar ao outro lado da Rota.

- A comida do Centro é ótima. – comemorou Ryla — Não fazia idéia de que fosse tão boa. Agora temos estoque suficiente pra uns três dias.

- Sim. Gostei do quarto também, vai ser bom estarmos perto de um em noites de chuva.

Ambos atravessaram, penetrando na mata do outro lado. Andavam apreciando as árvores cada vez mais juntas e o ar cada vez mais puro. O clima estava ameno e um sol bastante tímido era visível no alto.

- Uma pena que não tinham barracas pra vender por aqui. – disse Kristen.

- Ah... – começou Ryla – Kristen. Eu queria dizer que não precisa mais dormir do lado de fora.

- O que está dizendo? Eu não vou te deixar do lado de fora enquanto durmo em paz protegido do frio, já disse isso um milhão de...

- Não... eu quis dizer que não me importo mais se você estiver na barraca. Sei que você não vai me atacar ou coisa do tipo. – ela fez um enorme esforço para continuar – Eu... confio em você.

Kristen disfarçou imediatamente o sorriso, com medo que ela se fechasse outra vez se ele brincasse com a situação.

- Eu... medi a barraca. Meu saco de dormir cabe lá dentro sem problemas.

- Que bom ouvir isso, Ryla-chan. Isso também quer dizer que você decidiu realmente vir comigo?

- Eu...

Ela abaixou a cabeça, sentindo a face se ruborizar. Estava bastante dividida. Descobriu que, pela primeira vez na sua vida, adorava a companhia de outro ser humano. Kristen era gentil, preocupava-se genuinamente com ela e não parecia querer se aproveitar nunca. Sem falar que ela o admirava; achava corretos os seus princípios e especialmente a forma com que ele os defendia até o fim.

Por outro lado, sabia que esses mesmos princípios fariam com que ele continuasse comprando barracas, comida, roupa, hospedagens e o que mais ela precisasse e isso a estava deixando cada vez mais incomodada. Seu orgulho próprio estava num enorme conflito com a felicidade que sentia ao acompanhá-lo.

Preferindo não responder, ela olhou ao redor para procurar por outro assunto e viu que Tyrogue não prestava atenção à conversa. Carregava a sacola de comidas, parecendo bastante pensativo.

- Kris... por que não o está carregando na Pokébola?

- Ah, se ele caminhar diariamente, as pernas dele vão se fortalecer. O treinamento de um lutador não é feito apenas durante as batalhas ou durante os treinamentos oficiais. O condicionamento para lutar tem de ser feito dia-a-dia em cada detalhe do que você faz e come. Seus hábitos são uma poderosa forma de treinamento, por isso a pontualidade e a disciplina são tão importantes nas artes marciais.

- Então eu estou ferrada só porque eu acordo meio-dia e não tenho hora pra comer?

- Hahaha. Digamos apenas que você não vai ter o condicionamento de um lutador. Falando em comer...

Haviam chegado a um pequeno espaço circular com a grama rala e um toco de árvore em meio a várias outras mais distantes.

- Aqui está bom. Vamos parar pra comer e treinar um pouco.

Devidamente instalados em volta do toco, ambos comiam os peixes e frutas frios, preguiçosos que estavam de acender o fogo para aquecer a comida. Enquanto isso, Eevee, Cyndaquil e Tyrogue comiam ração em um gordo pote. Os dois Pokémon de Ryla pareciam decididamente satisfeitos, mas Tyrogue comia de forma ainda pensativa, com a testa franzida.

- Você ainda não me respondeu – disse Ryla com a boca cheia de mamão – por que vamos subir pela floresta e não pela Rota.

- Indo pela floresta podemos evitar alguns lugares desagradáveis. – respondeu Kristen sombriamente.

- Que lugares?

Kristen se levantou sem avisar, engolindo com pressa tudo que tinha na boca. Também tinha seus segredos e também sabia esquivar-se dos assuntos quando julgava necessário.

- Tyrogue! Terminou de comer?

Este pôs-se imediatamente de pé, engolindo com pressa o pedaço de ração que mastigava e gritando em resposta.

- Excelente... vamos começar.

Nos minutos seguintes, Ryla observou-os correrem, fazerem flexões e abdominais e se alongarem demoradamente. Quando os Pokémon haviam terminado de comer e se juntado a ela para observar, Tyrogue desferia golpes na perna de Kristen, que apenas recuava, bloqueando-os com as mãos baixas, ocasionalmente desferindo um golpe displicente contra ele, a maioria defendidos com sucesso.

- Vamos, Tyrogue, mais agressividade! Diminua esse intervalo entre os golpes, não pode dar chance do oponente se recuperar depois de ele defender o primeiro golpe... o segundo precisa entrar antes dele recuperar a guarda!

Tyrogue aumentou o ritmo dos golpes, mas Kristen continuava sem dificuldades para desviar ou aparar os golpes. Após uma seqüência bastante veloz de seis socos, Kristen chutou Tyrogue nos joelhos com força e este caiu para o lado de cara na grama.

- Sua guarda está muito concentrada em cima! – ralhou Kristen, muito sério — Não deixe as pernas abandonadas assim. Defender o rosto é importante, mas sem uma base boa, você não tem sustentação!

Tyrogue levantou concordando e retomando os golpes com ainda mais dedicação. Pouco depois, Kristen atingiu-o com a mão fechada na lateral do rosto, sem força e logo estava lhe dando uma bronca pelos golpes abertos demais.

- Se encontrar um adversário bom de esquiva, ele vai observar o seu padrão e vai pegá-lo nessas falhas. Precisa limpar a sua movimentação desses vícios.

Ryla notou o quanto Kristen era rígido com Tyrogue, apesar da amabilidade e preocupação visível entre ambos. Mas o que realmente a impressionava era o quanto o próprio Tyrogue era rígido consigo mesmo. Ele não questionava nenhuma crítica e a cada falha ele parecia mais furioso. Levantava-se cada vez que Kristen o derrubava, golpeando com mais afinco do que antes.

Algum tempo depois, ele estava estirado no chão com os braços e pernas abertos e o peito arfante, enquanto Kristen o observava, parecendo feliz.

- Excelente progresso hoje, Tyrogue! Você foi incrível, mesmo estando parado. Vamos manter esse ritmo por mais uns dias e logo estará em forma de novo.

Kristen estendeu a mão para seu Pokémon e ele levantou com sua ajuda, descansando curvado sobre uns joelhos por uns segundos antes de se levantar, sacudir o suor e andar ao lado dele na direção de Ryla. Esta, por sua vez, ficou novamente intrigada.

Não havia nenhum vestígio do exigente treinador em Kristen, ele parecia meramente um amigo satisfeito agora que o treino acabara, sorrindo abertamente e mantendo uma das mãos na cabeça de Tyrogue.

- Vamos seguir, Ryla-chan? Acho que ainda podemos cobrir alguns quilômetros antes de escurecer.

Ryla concordou silenciosamente e retornou seus Pokémon às Pokébolas, começando a guardar as coisas. Kristen ajudou-a enquanto Tyrogue se alongava.

- A energia dele não acaba nunca? – perguntou Ryla

- Bem... ele esteve de cama por vários dias, ele pode dar mais que isso. Mas ele realmente foi além do que eu esperava, está muito decidido a ganhar a próxima luta, pelo que parece.

Logo os dois se embrenhavam ainda mais na floresta. Ryla, que dizia ser muito boa com mapas, afirmava que já estavam quase alcançando a parte paralela à Dark Cave.

- Então estamos progredindo bem, não?

- Diria que sim. – ela fez contas rápidas de cabeça – Nesse ritmo nós devemos chegar em Violet à tarde se acordarmos cedo. – ela percebeu imediatamente o que tinha dito – Mas claro que podemos dormir até um pouco mais tarde, não estamos com tanta pressa assim, né?

- Claro que estamos. – Kristen achou graça – Vou te acordar quando ainda estiver escuro.

- Seu palhaço! – ela socou de leve o braço dele, que ria bastante — Não tem graça isso. Só porque você não sente sono como as pessoas normais, não pode fazer isso.

- Hahaha. Que sensível. Hey – ele pareceu perceber alguma coisa fora do alcance e tanto ela quanto Tyrogue imediatamente olharam ao redor -, não está ouvindo isso?

- Claro que não. Você me ouviu gritar a sei lá quantos metros de distância no escuro, seu ouvido não é normal, não é? O que exatamente está ouvindo?

- Parece... água.

- Whoooa! Onde? – agora ela procurava com bastante vontade, inclusive andando entre os troncos e arbustos, procurando enxergar o mais longe que conseguia – Eu não agüento mais esses pés sujos de lama!

- É pra lá, mas... hey, espera!

Ryla saiu correndo na direção que Kristen apontava, sumindo entre as plantas com um viva de alegria. Kristen e Tyrogue foram atrás, sem tanta pressa, o primeiro ainda achando graça da alegria genuinamente infantil dela com algo simples como achar água na mata.

Toda a graça se evadiu quando ouviram Ryla gritar alguns metros adiante. Ambos se atropelaram, correndo entre as plantas de forma bastante atrapalhada até cair numa pequena clareira.

A menina estava deitada no chão, tentando rastejar de costas, enquanto um grande cavalo com crinas de fogo se empinava sobre as patas traseiras, relinchando perigosamente.

- SOCORRO!

Kristen se colocou entre elas, de braços abertos. Era bem mais alto que a Ponyta e agora que ela estava empinada, ficavam praticamente da mesma altura.

- CALMA! ÔÔÔÔÔÔÔÔ!

Ela recuou alguns passos, tirando e colocando as patas dianteiras no chão alternadamente. Kristen abriu os braços, preocupado que ela pisoteasse Ryla, e acompanhou o bicho enquanto Tyrogue se acercava a Ryla, que parecia ter visto um fantasma de tão pálida e agitada que estava.

- Fique calma... calminha... não vou te machucar.

Sem relutância nenhuma, Kristen pôs a mão sobre a testa da Ponyta, sob um grito de protesto de Ryla. Para surpresa dela, porém, o cavalo se acalmou e parou de se erguer sobre as duas patas traseiras. Ele sentia apenas um calor agradável na mão.

- Shhh... fique quietinha. Vamos ver o que a está agitando.

Kristen olhou por todo seu corpo, identificando o problema: um ramo de espinhos que envolviam uma de suas patas traseiras, da qual o sangue escorria discretamente. Tateando pelo corpo dela para não romper o contato, Kristen se agachou ao lado da Ponyta.

Ela protestou bastante quando ele tocou os espinhos e procurou se afastar, mas ele acariciou a lateral de seu tronco de forma bastante paciente.

- Shhh, confie em mim. Daqui a pouco não estará mais doendo, prometo.

Kristen desenrolou os espinhos cuidadosamente. Ponyta protestou, mas não se debateu mais e logo Kristen a tinha livrado do problema. Ryla estava de pé com Tyrogue, ainda amedrontada pelo Pokémon que cruzara seu caminho do nada.

- O que é isso? Uma floresta de Pokémon de fogo?

Kristen já estava de pé novamente, fazendo carinho na cabeça de Ponyta, que abaixava a cabeça para ele, lambendo seu outro braço em resposta.

- Não faço idéia. Nunca ouvi falar que houvesse Ponytas à solta por essa região...

- PONYE!

Todos se viraram para a origem do grito. Uma mulher vinha galopando entre as árvores num cavalo de fogo muito maior. Parou derrapando ao lado de Kristen.

- O que está fazendo?

Ela desmontou de sua Rapidash com os dentes arreganhados, fazendo menção de partir para cima de Kristen, que se afastou da Ponyta, com as mãos para o alto. Os cabelos azuis dela vinham enrolados numa faixa marrom desgastada e as primeiras rugas já começavam a surgir no rosto severo, embora ainda conservasse alguma juventude.

- Fique calma! Ela só prendeu a pata em alguns espinhos, estava agitada, então eu os tirei!

A mulher não parecia muito convencida, mas Ponyta se estendeu para Kristen, lambendo-o no braço com gosto. Ele apenas riu e retribuiu com um profundo cafuné, esquecendo-se da mulher.

- Isso faz cócegas, pára, pára!

- De onde vocês são? – perguntou a mulher, parecendo incapaz de acreditar no que via.

- Meu nome é Kristen, sou do sul de New Bark. Aquela é Ryla...

- Esta Ponyta é minha.

A mulher se adiantou, coçando atrás das orelhas de Ponyta, que imediatamente parou de lamber Kristen, dando atenção a ela.

- Meu nome é Lara. Caso não tenha reparado, esta Ponyta é cega, não deveria sair de casa sozinha. Eu fiquei louca de preocupação quando vi que ela tinha conseguido sair do celeiro.

- Cega?

Kristen realmente não reparara. Os olhos dela pareciam normais e só agora que estava informado da condição dela, ele percebeu que ela não os virava muito, mantendo o olhar fixo em frente praticamente o tempo todo.

- Mas nem parece...

- Ela não nasceu cega nem feriu os olhos ou algo assim. É uma doença rara. Escuta, por que não vêm tomar algo na minha cabana? Podem até passar a noite. Quero me redimir pela minha atitude de antes.

- Tudo bem, nós vamos. – sorriu Kristen – Mas não esquente sobre antes. Eu fico feliz que defenda o seu Pokémon dessa forma.

Alguns minutos depois todos se reuniam à mesa de madeira na cabana, alguns metros a leste de onde acharam Ponye. Do lado de fora, um grande celeiro anexado à cabana abrigava duas dúzias de Ponytas, pelo qual Lara conduziu Ponye e pôs sua Rapidash para tomar conta de todas elas.

Três fumegantes xícaras de chá de Sunflora repousavam na mesa quando Lara se sentou de frente para o banco que Ryla, Tyrogue e Kristen dividiam. Tyrogue roía uns flocos de ração molhados em leite de Ponyta, parecendo achar delicioso.

- Você podia ter se machucado, rapaz. Ponye sentiu que seu toque era amistoso ou você teria se queimado feio quando encostou nela

- Sim, eu sei.

- Você sabe e mesmo assim tocou nela? – Lara ergueu as sobrancelhas, surpresa.

- Não faz diferença. Eu percebi que ela estava com dor e quis ajudar. Se ela me queimasse, tanto fez como tanto faz. Mas deixe isso de lado... me fale da cegueira dela.

- Hum. É uma doença que faz com que ela perca a visão aos poucos. Na fase atual, ela enxerga alguns poucos vultos, já deixou de usar a visão e se concentra nos outros sentidos.

- Que triste. Deve ser horrível... não poder enxergar.

- É sim. Passam muitos treinadores por essa mata e minhas Ponytas não se afastam muito ao pastar. Mas especificamente Ponye eu não posso deixar solta em momento algum... porque ela ainda não se acostumou totalmente à cegueira e às vezes perde o caminho de casa, como aconteceu hoje, e fica presa em espinhos, galhos... Fica agitada, acha que está sendo atacada... essas coisas.

- Que horrível. – Ryla entrou na conversa – Não tem cura?

Lara abaixou a cabeça, parecendo bastante deprimida enquanto brincava com a borda da xícara.

- Tem sim... o doutor disse que tinha uma cirurgia que reverteria essa condição definitivamente, mas...

Ryla imediatamente compreendeu. Sabia que cirurgias Pokémon eram caríssimas.

- Bom, não é exatamente um absurdo o custo. Ele disse que é uma das simples... mas ainda assim é muito mais do que eu posso pagar. É uma grande ironia, não?

- Ironia? – perguntou Ryla. Agora era Kristen que se mantinha afastado da conversa, imerso nos próprios pensamentos.

- É... eu fui uma rica fazendeira em Kanto.

- Oh... a senhora faliu?

- Não exatamente.

Kristen olhou-a de maneira discreta e percebeu que ela trazia um sorriso melancólico de arrependimento no rosto.

- Eu tinha muitos Pokémon. Ganhava bastante dinheiro com turismo e outras coisas. Organizava uma corrida Pokémon mensal que também rendia fundos altos. Ocasionalmente eu dava um filhote a este ou aquele treinador que merecessem... mas aí o mundo ficou louco. As pessoas invadiam minha fazenda e roubavam os Pokémon ou ficavam insistindo para que eu vendesse. E pior, o meu sócio começou a fazê-lo... Vendia-os sem me consultar pelas minhas costas, dava desculpas esfarrapadas, até que eu cansei e resolvi acabar com a empresa.

Kristen tamborilava os dedos sobre o tampo da mesa, ouvindo com atenção apenas parcial. Não conseguia tirar da mente a expressão de Ponyta e o fato de não ter percebido que havia algo errado àquele nível com ela.

- O fato é que... felizmente eu consegui na justiça que a minha parte da empresa fosse convertida nos Pokémon, deixando o cara com praticamente todo o capital. Eu os libertei na Safari Zone e decidi viajar com Rapidash, procurar um lugar tranqüilo pra viver. Acontece que ela tinha quatro filhotes amamentando e não podia simplesmente abandoná-los, então vieram conosco. Vagamos bastante por aí até acharmos esse lugar... e a família cresceu. Aqui tem pasto de graça sem agredir a floresta e eu ganho algum dinheiro do pessoal da Safari Zone, suficiente pra comer e vestir.

- É realmente difícil pagar uma cirurgia assim...

- Pois é. Eu quis acabar com todo aquele império que eu tinha porque achei que seria bom pros Pokémon. Mas naquela época eu podia pagar por uma cirurgia dessas sem que isso sequer arranhasse a minha conta bancária.

- Acho que você fez certo. – disse Kristen taxativamente – E é por isso que vou te ajudar.

Lara riu de forma debochada, olhando o jovem tolo de expressão decidida, sem conseguir deixar de pensar que ele lembrava muito uma pessoa de quem ela gostava imensamente.

- Como vai me ajudar, criança?

- Eu tenho minhas economias.

- Estou falando de alguns milhares... uma criança andando a pé na floresta como você não deve ter isso dando sopa na carteira, não é?

- Esses dias eu paguei por duas cirurgias plásticas e bastante enxerto de pele pro meu Tyrogue... e digamos apenas que isso sequer arranhou a minha conta bancária. – respondeu Kristen com um sorriso.

Longe dali, agente Lucy encontrava-se fechada numa sala totalmente branca sem janelas e com uma única porta. A mulher na casa dos quarenta anos que a encarava do outro lado da mesa era elegante mesmo em seus períodos de folga e parecia querer estar em qualquer outro lugar. Sobre a mesa, apenas uma folha de papel que Lucy analisava, sem desfazer seu sorriso.

- E há quanto tempo mesmo é recepcionista do Instituto Oak?

- Dr. Guren me contratou pouco mais de uma semana depois de alcançar a chefia. Por que isso é importante?

Lucy notou a hostilidade e dobrou a folha, sem desfazer seu sorriso amável do rosto. A mulher se sentia intimidada com aqueles olhos verdes analisando-a, mas disfarçava bem.

- Tem razão. Não é. Vamos direto ao ponto: por que não diz logo quais treinadores encomendaram Pokémon com o Dr. Guren?

- Porque é informação confidencial. Dr. Guren não morreu – ainda, pensou com um arrepio – e ele sempre proibiu estritamente que comentássemos a identidade dos clientes com qualquer pessoa, até mesmo nossos cônjuges.

- Eu estou te entendendo perfeitamente, Sra. Mully, mas receio dizer que meu chefe não será tão compreensivo. Você tem ciência de que o assassino talvez seja um desses clientes? Pelo que vejo, vocês vendiam Pokémon super-fortes com um método muito caro, talvez ele não quisesse que essa possibilidade fosse aberta a todo mundo e tivesse dado um fim ao trabalho.

- Escuta, dona... acontece que o Dr. Guren muito provavelmente não vai voltar do coma e eu sei que ele não ia querer que eu ficasse falando disso com a senhora. Eu não quero ninguém puxando o meu pé se ele for descansar, a senhora me entendeu?

- Tudo bem, tudo bem, Sra. Mully, não precisa ficar brava. Vamos mudar de assunto...

Lucy teria que tentar dobrá-la depois, já que a mulher parecia bastante relutante em falar sobre os clientes. Puxaria outro assunto qualquer e acharia um padrão nas suas respostas, que usaria para contorná-la e obter a informação que queria. Era tudo questão de paciência e já fizera isso inúmeras vezes.

- Então, Sra. Mully, pode me falar sobre os outros então? Sobre os clientes que não fechavam negócio?

- O que tem eles?

- Me dizer que falha eles encontravam nesse método científico... Me parece genial.

- Não tinha falha nenhuma, dona. Mas alguns deles não podiam pagar e normalmente saíam bem irritados quando o doutor dizia o preço. Mesmo assim tinha fila de espera pra se inscrever, porque demorava várias semanas até cumprir uma encom...

- O que disse? – cortou Lucy, boquiaberta.

- Ah, demorava muito pra produzir esses...

- Não, não. Sobre ficarem irritados. Você viu claramente algum treinador irritado nos dias próximos ao incêndio?

- Ah, não lembro, sabe... – a mulher parecia realmente estar espremendo a memória – Desculpa, dona, mas o doutor vivia recebendo pessoas. Várias por dia. E a gente não anotava pessoas que não fossem fechar negócio formal, então não sei realmente...

Mas Lucy não respondera. Saiu da sala, apanhando o celular no bolso e deixando a recepcionista sozinha lá dentro. O telefone foi atendido antes do segundo toque e ela ouviu a voz impaciente do Comandante Baromy do outro lado.

- Acho que temos uma pista das boas, chefe.

- Estou ouvindo, agente Lucy.

- Parece que, por causa do preço do negócio, vários treinadores saíam dali desiludidos. A mulher disse claramente que vários deles ficavam com raiva.

- Maravilha. Então ela te deu nomes. Temos suspeitos, até que enfim!

- Calma, chefe, ela não se lembrou de nenhum nome.

- Então continuamos sem nada! – respondeu ele, depois de vários segundos em silêncio.

- Não exatamente, podemos usar as câmeras.

- Claro, que gênio que você é, Lucy. Devia ganhar um prêmio de investigação, já que nenhum dos investigadores burros, incluindo eu, pensou em examinar as câmeras do laboratório. Talvez você deva realmente ganhar o meu cargo. Oh, não, acabei de lembrar! PARECE QUE ELAS SUMIRAM!

- Calma, chefe. – disse Lucy, bastante habituada aos deboches e grosserias – O laboratório não tinha mais câmeras, mas todos os visitantes entram e saem pela porta principal. Se o senhor analisar as câmeras da recepção, vai ver algum treinador saindo irritado, como disse a Sra. Mully, e aí teremos um suspeito. Ou vários.

Notas finais
Semana que vem estarei em Floripa de 17 a 20, a trabalho. Então, excepcionalmente essa semana, tentarei postar o próximo capítulo na quinta-feira, antes de viajar. Caso não consiga, posto na segunda ou na terça, quando voltar. Forte abraço!