Pokémon - Reconquest
20 Capítulo 18: Mudança
Notas iniciais
Kin mantinha os dois braços cruzados diante do rosto, protegendo-se do ar quente que bagunçava seus cabelos e lha fazia lacrimejar. Seu Pokémon, que ainda se mantinha de pé, não parecia se importar com o fogo; avançava pacientemente contra o mar de chamas, passo a passo, alternando as patas na função de proteger o próprio rosto.
“A energia dele nunca acaba?” perguntava-se Kin.
Quando finalmente ganhara espaço suficiente na trilha de fogo, Snorlax saltou os últimos metros, atirando-se com os dois braços estendidos contra Charizard. O enorme dragão escapou por pouco da pesada investida e revidou com um potente soco exatamente no mesmo ponto em que Nidoking o atingira anteriormente.
Sem se abalar, o urso devolveu afundando uma das mãos pesadamente sobre a cabeça de Charizard. Este, por mais resistente que pudesse ser, sentiu como se o próprio crânio tivesse rachado, ficando sem ver e ouvir por alguns instantes. Quando recobrou a consciência reativa, descobriu que era alvo de outro golpe ainda mais forte.
Snorlax urrou de dor quando a labareda da cauda de Charizard resvalou próxima de seus olhos; mantinha-os praticamente fechados o tempo todo, mas agora sentia suas pálpebras em brasas e começou a sapatear no mesmo lugar, espanando as mãos sobre o rosto desajeitadamente.
- Lax, cuidado!
Charizard aproveitou-se da confusão instintiva de Snorlax e cravou as garras de ambas as patas dianteiras em seus ombros, começando a bater as asas freneticamente.
A única demonstração de dor de Snorlax foi um rugido irritado, apesar das torrentes de sangue que escorriam das perfurações. Ele agarrou a lateral do pescoço de Charizard com uma das mãos, enquanto a outra continuava se debatendo sobre as pálpebras chamuscadas.
- Ele nunca vai ter força pra levantar o Lax. Agora dominamos o pescoço dele. Vencemos! – comemorou Kin precocemente.
Um grotesco arroto de chamas envolveu o rosto de Snorlax. Este largou Charizard com o susto, apesar de quase não ter sofrido ferimentos reais com o fogo. Com um esforço sobrenatural por parte de Charizard e diante da expressão atônita de Kin, ambos deixaram o solo lenta e gradualmente.
- Não pode ser... – gemeu Kin – Meu Snorlax pesa mais de meia tonelada. Não é possível que um Charizard consiga erguê-lo, não importa o quanto ele seja forte. Tem algo de errado com esse Charizard, eu tenho certeza!
Ambos sobrevoaram Kaya, que corria na direção dos dois Pokémon gigantes caídos, aproveitando-se da pequena pausa concentrada na descomunal batalha. Ela olhou para cima momentaneamente, engolindo em seco ao se dar conta do que acontecia. Depois se lembrou de que talvez não dispusesse de outra oportunidade e tornou a seguir seu caminho.
Ela se abaixou ao lado de Lance, a meio caminho de seu destino. Reparou nas rugas e no cabelo grisalho salpicado de fios vermelhos esporádicos. Na altura de seus cinqüenta e oito anos, Lance abandonara as cores extravagantes, vestindo-se apenas de preto e cinza, das botas à capa.
Ele não respondeu às sucessivas sacudidelas de Kaya e ela começava a entrar novamente em pânico, tentando ignorar os gritos distantes da irmã.
- Droga, responda!
- CUIDADO, KAYA!
Kaya pressentiu que era algo relacionado ao perigoso Snorlax voador. Localizou-o pouco antes dele cair sobre os dois Pokémon que jaziam desacordados a alguns metros.
- Merda!
Um feixe vermelho de luz deixou a Pokébola de Kaya e atingiu Aerodactyl, recolhendo-o no último segundo. O urso descomunalmente pesado caiu sobre o dorso de Gyarados, fazendo-o acordar por um instante. Com o meio do corpo completamente espremido contra o chão, ele urrou duas vezes de dor antes de sentir a voz se perder. Perdeu completamente as forças e parou de se debater, tendo espasmos na parte superior do corpo e babando uma espuma avermelhada em grandes quantidades.
- Mas que merda! Quantos Pokémon ele vai conseguir abater sozinho?
A indignação de Kaya não era nada perto da de Snorlax. Ignorando todos os ferimentos e até mesmo o imenso dragão que ele acabara de esmagar, ele se levantou pesadamente com um rugido capaz de gelar a espinha até mesmo de sua dona.
Vasculhando o local obsessivamente com os olhos, Snorlax finalmente encontrou o que procurava. Correu debilmente na direção do último carro que atirara, simplesmente ignorando as chamas que o acompanhavam, como se estas sequer o afetassem. O carro estava perigosamente próximo de Kin, mas Snorlax sequer pensou nisso; estava tomado pela raiva de ter sido ferido de forma desleal.
Charizard, percebendo os planos de seu oponente, abandonou o lança-chamas que de nada adiantava. Abriu bem a boca e começou a concentrar uma esfera de energia multicolor extremamente densa. Kaya sorriu de forma triunfante.
“Não importa o quanto ele tente. Nenhum Snorlax é mais resistente que o de Kin.”
O Charizard, porém, virou sua cabeça, ajustando a mira quando estava prestes a atirar sua técnica e Kaya ficou pálida. Kin olhava de frente para o golpe concentrado dele, sentindo o suor frio escorrer pelo pescoço.
“Essa não...”
O urso raivoso parou em meio à atividade de erguer o irreconhecível carro do chão, notando o perigo que sua dona corria. Quando o jorro de energia pura rasgou o ar na direção de Kin, Kaya gritou sem se esforçar para conter as lágrimas de desespero.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
- Tyrogue, você está bem?
O pequeno Pokémon lutador endireitou o corpo, espanando o sangue do rosto. Não demorou muito para seu cérebro começar a registrar a dor de ter uma órbita ocular rasgada por legítimas garras felinas e logo Tyrogue não conseguia se focar em outra coisa: alguns segundos após a pergunta de Kristen, ele se curvou, vomitando no cimento.
- TYROGUE!
Esquecendo completamente da batalha que ainda se desenrolava, Kristen terminou de correr até Tyrogue. Kabutops, apesar de ser muito mais forte que seus oponentes, encontrava dificuldades para enfrentar três ágeis Pokémon ao mesmo tempo.
Ryla se esforçava ao máximo para comandar todos ao mesmo tempo; estes não conseguiam causar danos consideráveis a Kabutops, mas o mantinham distraído, dando tempo aos demais.
Lucy encarava o Coronel deitado. Seu cabelo aparado recentemente era azulado, mas tinha meia dúzia de manchas grisalhas irregularmente distribuídas por sua superfície. Os olhos verdes – um deles arroxeado e fortemente inchado por culpa de Kristen – estavam cheios de um rancor indisfarçável e agora havia uma mancha sangrenta em seus lábios.
O comentário de Kristen despertara algo em Lucy. Mesmo com todos os ferimentos, agora que ele estava sem a máscara, era possível notar nele algo de familiar. Contudo, ela não tinha como saber se era sua mente investigativa lhe pregando peças ou se realmente o reconhecia.
- Acabou pra você. – incapaz de decifrar o enigma pessoal, comentou para regozijar-se com a derrota dele – Você e esse seu grupo infeliz vão começar a ser desbaratados. Essa é apenas sua primeira derrota.
- Pff... olhe ao seu redor, garota. – sibilou o Coronel, cuspindo uma pelota de sangue para o lado antes de continuar – Eu sou um homem acompanhado de apenas três Pokémon. Acha que eu represento todo o nosso exército? Suas leis não permitem que treinem Pokémon para uso militar. Não existe poderio militar no mundo que possa se defender de Pokémon treinados e acostumados a matar humanos.
- Existem brechas legais para corrigir isso. Não podemos usá-los de forma militar por um acordo internacional; isso evita que façamos guerras com eles. Mas contra esse tipo de ataque terrorista covarde, nós podemos usar a Liga.
- Liga? – riu-se o Coronel de forma doentia – Ah sim, aqueles velhos ultrapassados do Conselho? Aqueles nerds acomodados da Elite Four? Francamente... com o dinheiro que eles ganham, você acha que estão preocupados em treinar os Pokémon deles para guerras de verdade? Estão habituados a batalhas com regras e limite de tempo. Recolhem seus Pokémon quando estão perdendo. Olhe aquele Charizard lutando – empinou o nariz na direção do Charizard que, naquele momento, erguia vôo com Snorlax preso em suas garras – e me diga se terá tempo de trocar de Pokémon antes de virar churrasco quando o estiver enfrentando. Aqui fora é diferente. Não interessa o quanto treinem seus Pokémon, vocês lutam por fama e dinheiro. Nós lutamos por uma causa. Nunca vencerão uma guerra contra nós...
- Não subestime a Liga. – respondeu Lucy friamente. Sabia que a opção sensata seria parar de alimentar a discussão, mas havia um turbilhão de sentimentos dentro dela que não lhe permitia ignorá-lo – A influência deles não veio do nada. Ainda estamos nos habituando à metodologia repulsiva de vocês. Nos pegaram de surpresa, por isso estamos tendo dificuldades. Desde que Giovanni foi preso e a Equipe Rocket desmantelada, nós não...
- Equipe Rocket! – exclamou o Coronel, cuspindo mais uma vez, agora com uma expressão de profundo asco no rosto – Não nos compare àquele lixo imundo e egoísta! Eles eram piores que a Liga, não tinham escrúpulo algum.
- Ora, vamos. – ironizou Lucy – Acredite na causa que quiser, mas não venha agir como se tivesse moral pra fazer julgamentos.
A comprida e afiada lâmina de Kabutops finalmente resvalou em Eevee. O golpe atingiu-o de raspão entre a escápula direita e o pescoço, mas foi suficiente para atirá-lo no chão, ganindo de dor.
- Eevee, não! – berrou Ryla, já sob lágrimas.
Um novo lança-chamas em conjunto atrasou Kabutops o suficiente para que Ryla pudesse recolher Eevee. Mas ela estava ficando acuada.
- Kristen, Eevee está fora de combate! Não posso segurar aqui por muito tempo.
O jovem lutador já recolhera seu Tyrogue à Pokébola, embora este houvesse relutado bastante. Por mais que analisasse toda a situação, nenhuma idéia salvadora lhe ocorria. Simplesmente não havia Pokémon com eles que pudessem conter ou vencer aquele Kabutops; suas únicas esperanças eram fugir, mas para isso precisariam deixar para trás o Coronel e sabia que Lucy ficaria ali até o fim por isso, sem medir conseqüências.
Foi interrompido de suas conjecturas quando um distante ruído semelhante ao de uma panela de pressão lhe chegou aos ouvidos. Todos – inclusive os Pokémon – observaram espantados quando Charizard invocou uma poderosa e contundente técnica. A única dúvida era se estava sendo usada para desintegrar humanos ou para combater Pokémon.
- Não... por favor, não... – murmurou Kristen, desamparado.
- Façam o que quiserem comigo. Vocês NUNCA serão capazes de derrotar esse Charizard. – escarneceu o Coronel de forma triunfante, pouco antes de ter o ferimento à bala cruelmente pisoteado por Lucy.
~~~~~~~~~~~~~~
Kaya caíra de joelhos ao lado de Lance. Olhava para toda a fumaça e poeira de cimento erguida pelo golpe de Charizard, bastante desolada. O dragão de fogo pairava no ar, parecendo recobrar o fôlego enquanto aguardava para ver o resultado de seu golpe.
A irmã era tudo que ela tinha. Estavam sempre juntas, não importando o que acontecesse. Não podiam ser mais diferentes e, apesar disso, não havia como se amarem mais. Kaya não acreditava em deus algum, mas naquele momento rezou com tudo que tinha para não ter perdido seu anjo em meio àquele caos, sem nem conseguir se despedir decentemente.
Quando a poeira abaixou o suficiente para permitir entrever os contornos do que se passava, Kaya mal teve coragem de erguer a cabeça. Respirando fundo de uma só vez, limpou as lágrimas com uma das mangas e sentiu a respiração parar de tanto alívio ao contemplar as costas em carne viva de um imenso urso esverdeado.
- LAX! LAX, VOCÊ ESTÁ BEM? DIGA ALGUMA COISA! – Kin gritava, mesmo estando agarrada aos pêlos de Snorlax.
O bem treinado urso a envolvia num abraço assustador, suportando todo o dano do Hiper Raio de Charizard sem se mover um centímetro. Sua raiva estava maior do que nunca agora que sua dona fora ameaçada diretamente; ele a largou no chão e urrou para cima como se lhe tivessem acordado de madrugada em pleno inverno.
- KIN! VOCÊ SE MACHUCOU?
- ESTOU BEM, KAYA! – gritou Kin em resposta, ainda escondida pelo Snorlax – NENHUM ARRANHÃO!
Snorlax ergueu Kin do chão, colocando-a com cuidado sobre sua nuca. Novamente precisaria se deslocar e agora sabia que não poderia ficar longe dela ou ela correria perigo. Atirara o carro contra o Hiper Raio de Charizard, o que o atrasou o suficiente para salvar Kin, mas agora estava sem armas. Caminhou de lado até a entrada de um pequeno jardim, mantendo a cabeça voltada para o Charizard.
- O que está fazendo, Lax? – perguntou Kin, sem entender.
Sem dar nenhum sinal de que sequer ouvira a pergunta, Snorlax agarrou uma das árvores com uma pata e puxou-a. A árvore era grossa como um poste e quase de sua altura, mas foi arrancada do solo sem nenhuma dificuldade, ficando presa apenas por uns fios de raiz.
Charizard arrotou uma pequena brasa, parecendo finalmente demonstrar algum cansaço. Além disso, agora a retaliação seria pesada por parte do oponente. Um longo ruído peculiar como o gargarejo de um inseto foi ouvido ao longe e, para surpresa geral, Charizard simplesmente bateu as asas de forma ampla, ganhando mais altitude.
- O que ele está fazendo? – perguntou Lucy, observando de longe.
- Nossa missão está concluída. – anunciou simplesmente o Coronel – Já recebemos o sinal. Nosso ataque chegou ao fim. Ele não tem motivo para continuar aqui.
De fato, Charizard engendrou um vôo veloz, mas, inesperadamente, ele mergulhou na direção do foco de sua batalha. Cuspiu um discreto jorro de chamas em Snorlax, que teve apenas o trabalho de afastá-lo do rosto com a pata livre – como se faria a uma nuvem de insetos – enquanto Charizard se aproveitava para agarrar o desmaiado Nidoking, pinçando-o pelas patas dianteiras com suas próprias garras. Ele tornou a alçar vôo, desviando-se da árvore que Snorlax atirava e ganhando cada vez mais altitude até sumir no horizonte.
- Desgraçado! – exclamou Kaya entre dentes – Quando finalmente conseguimos cansá-lo!
~~~~~~~~~~~~~~~
Ponye agora era a atingida. O corte em seu dorso era bem mais sério que o de Eevee e Kabutops já desferia uma segunda investida imediata, que fez com que fincasse uma de suas garras no solo, pois Kristen recolhera seu Pokémon no último instante.
“Droga! O que vamos fazer?” pensava Ryla, bastante preocupada com seu Cyndaquil.
Enquanto observavam Kabutops crescer para cima da pequena eqüidna, um tropel era ouvido, cada vez mais próximo. Logo as balas começaram a chover sobre o corpo de Kabutops. Este encolheu-se instintivamente, embora a munição de chumbo pouco machucasse sua carapaça de pedra.
Ryla se atirara no chão sobre seu Cyndaquil quando o tiroteio começou, assim como Kristen. Lucy apenas se agachara ao lado d’o Coronel, vislumbrando a pequena equipe de policiais uniformizados, liderados por Baromy, um tanto cômico com a roupa social desconjuntada e atirando precisamente com uma pistola automática.
Dando as costas à confusão, Kabutops se moveu aos saltos por entre as ruas atrás dele. Para um enorme Pokémon de pedra, movia-se razoavelmente rápido e logo ganhou a mata atrás da cidade, desaparecendo enquanto Baromy dava o comando para cessar fogo e se aproximava das pessoas caídas, gritando ordens para seus homens.
- Vocês quatro, eu quero um três-meia-zero aqui! Vocês três, vão checar o outro lado, Lance deve ter chegado lá. Verifiquem o que houve e mandem alguém de volta para me informar! Agente Lucy, você está bem?
- Estou! Tenho um detido aqui, comandante!
Baromy se aproximou dos dois, ignorando momentaneamente Kristen e Ryla. Mesmo com o cabelo cortado, os inchaços grotescos e a ausência de máscara, Baromy reconheceu o homem que tanto procuravam.
- Pegamos você, seu desgraçado. – disse, em tom de triunfo – Não deve estar se sentindo tão esperto agora que seu Charizard te abandonou, não é? O que foi, do que está rindo?
O Coronel gargalhava de forma cada vez mais doentia.
- O que é tão engraçado, filho da puta? – disse Baromy, apontando a pistola para o rosto dele.
- Ele não me abandonou. Ele estava cumprindo ordens ao me deixar para trás.
Baromy ia retrucar, mas notou que o homem não parava de rir até ter crises de tosse. Evidentemente não era o tipo de homem com quem podia debater saudavelmente àquela altura do campeonato. Desgrudou os olhos dele apenas quando Kristen se aproximou alongando o pescoço e o pulso esquerdo com uma careta de dor.
- Você de novo, Jounochi? Está querendo um emprego na polícia? Posso lhe arrumar alguma coisa. – ironizou Baromy.
- Eu e Agente Lucy nos cruzamos na padaria antes dessa confusão toda começar. Aqui está, Lucy-chan.
Kristen empurrou a pistola na direção de Lucy. Esta apanhou-a com a mão boa, guardando-a no coldre com a expressão confusa.
- Se estava com ela o tempo todo, por que não...?
- Não adianta atirar com armas de fogo num Pokémon de pedra. Também não tinha motivo para atirar nesse cara aí se eu podia dominá-lo de mãos nuas. Eu ia usar para atrair atenção do Kabutops para mim... pra dar tempo a Ryla de recolher o Cyndaquil. Mas, pelo visto, nem foi necessário...
- Por que demorou tanto, comandante?
- Ficamos presos na sala do hospital onde estava a testemunha. Algum retardado passou a chave na porta por causa do protocolo de segurança para as testemunhas, mas esqueceu que nós também estávamos lá.
Um policial alcançou o grupo correndo, atraindo as atenções de todos. Parou ao lado de Baromy, tentando disfarçar a falta de fôlego atropelando as informações.
- Lance-sama está desacordado, mas parece que está bem. Seu Gyarados foi seriamente ferido e tem mais duas meninas e um Snorlax por perto. Parece que o ajudaram a lutar contra o Charizard.
- São as irmãs de Kristen. – balbuciou Lucy antes de reparar que Kristen havia sumido de vista – Ué? Cadê ele?
~~~~~~~~~~~~~
“Então é assim... a sensação de morrer?”
Após rolar metros a fio como um boneco de plástico pelo cimento, Meowth não tinha dúvidas de que seria difícil encontrar em seu corpo um único osso inteiro. Estava deitado de lado às sombras de uma casa bastante afastada do foco da batalha. O lado bom era que estava nas sombras e provavelmente não o incomodariam antes que morresse de vez.
Não conseguia mover sequer a cabeça, de modo que podia ver apenas o lado de uma lixeira e uma discreta fresta entre ela e a parede. Ele derrubara-a no caminho que percorrera, desacelerando e parando ali.
“Curioso... pensei várias vezes em como seria morrer, mas certamente não tinha considerado morrer olhando para uma lata de lixo gigante. Talvez alguém passe e me atire dentro dela quando notar que estou morto. Não é realmente uma idéia animadora, talvez eu devesse tentar rolar para outro canto pra morrer em paz.”
Por conta de seu campo de visão limitado, Meowth não pôde constatar que era Kristen quando ouviu uma pessoa caminhar pacientemente até ele, parando a alguns centímetros de suas costas.
- Por que fez aquilo, Meowth?
Meowth improvisou um discretíssimo miado de dor, mas Kristen passou por cima dele, abaixando-se até encará-lo de uma distância razoavelmente próxima. Ele carregava um sorriso triste.
- Acho que você cegou meu Tyrogue de um dos olhos. Espero sinceramente que não. Mas, em todo caso, deve haver um motivo para você ter feito isso, não?
Novo miado, desta vez um pouco mais audível.
- Ora, vamos. Só estamos nós dois aqui. Eu sei quem é você. Não precisa fingir que não sabe falar, não pretendo contar pra ninguém ainda.
Com um longo suspiro, Meowth se deu por vencido. Seria irônico se um dos poucos Pokémon em toda a história que aprendera a falar como humano morresse sem comunicar suas últimas palavras.
- Tudo bem. Tenho trinta e dois anos de vida e nunca conheci outro Meowth que soubesse falar. Também não me lembro de nos termos visto antes... então acho que tenho o direito de saber de onde me reconhece.
- Não reconheci você. – disse Kristen, sentando-se no chão de pernas cruzadas – Reconheci James quando tirei a máscara dele. Está um pouco mais velho do que as últimas fotos. Com os cabelos mais curtos também, mas tinha certeza de que era ele. Quatorze anos atrás, vocês e Jessie se arrependeram de seus crimes e ajudaram Ash Ketchum a prender Giovanni, destruindo, com isso, a Equipe Rocket. Ash ajudou-os em seu julgamento e conseguiram escapar da prisão, mas ainda assim optaram por sumir no mundo. Isso levantou rumores que iam desde assassinatos até migrações.
- Vejo que andou estudando, moleque.
- É meu trecho favorito da biografia do Ash. Bom, nunca tive uma versão favorita dentre essas, mas uma nova organização criminosa é o último lugar onde eu esperaria ver vocês.
- Pois é, o que dizer? Criminosos acabam voltando aos crimes, está na sua natureza...
- Não. Vocês seguiam cegamente Giovanni até descobrirem que ele usava os Pokémon que vocês e os outros Rockets roubavam pra financiar todo tipo de imundície, desde treinos cruéis até experiências científicas anti-éticas. Isso fez com que sentissem nojo de seu trabalho e mudassem de lado. Não creio que voltariam a participar desse tipo de atividade.
- Você acredita demais no melhor dos outros, moleque. Tome cuidado... é por causa desse tipo de atitude que seus Pokémon voltam pra casa com o olho sangrando.
- Onde está Jessie? – perguntou Kristen de súbito, satisfeito de constatar que essa simples pergunta era suficiente para calar Meowth indefinidamente – Na escola, quando discutíamos por onde andariam Jessie, James e Meowth, cada um tinha uma teoria, uma opinião... mas numa coisa todo mundo concordava: onde quer que os achassem, estariam os três juntos.
Meowth refletiu longamente antes de responder:
- Escute... a expectativa de vida de Meowths saudáveis é algo entre vinte e cinco e trinta anos. Eu tenho trinta e dois e tenho osteoporose. Seu Tyrogue não devia ter me batido com tanta força... Agora, será que pode me deixar morrer em paz?
- Desculpa, mas não vai dar.
Kristen puxou da cinta uma Pokébola e pressionou seu botão do meio, fazendo-a crescer até assumir o tamanho exato da palma de sua mão. Meowth olhava para ela – a cinco centímetros de seu rosto -, bastante preocupado.
- Vou te colocar aqui dentro e te levar ao Centro. Ver o que podemos fazer por você.
- Eu ceguei seu Pokémon, garoto. Devia estar terminando de quebrar minha espinha, não tentando me ajudar.
- É claro que eu não queria que você tivesse machucado Tyrogue... mas o que está feito está feito. A luta já acabou e eu estou interessado em saber seus motivos antes de formar meu julgamento.
- Eu não sei se estou com vontade de falar a respeito contigo.
- Talvez não esteja agora. Mas eu sei que você e James não eram maus. – Kristen tocou-o no rosto com o botão no centro da Pokébola – Quero descobrir o que mudou.
~~~~~~~~~~~~~~~
Ladeado por dois policiais grosseiros, James andava a passos curtos. O rosto destruído por sucessivos golpes estava quase completamente dormente. Seu ombro baleado ainda ardia e agora sentia os pulsos serem cortados às suas costas pelas algemas exageradamente apertadas. Ele era arrastado pelos dois policiais sem a menor delicadeza, embora não retirasse o sorriso doentio de triunfo do rosto.
Bombeiros e demais cidadãos ajudavam a dissipar os efeitos colaterais do caos causado enquanto todos os protagonistas da longa batalha agora se reuniam próximos às gêmeas. Kaya estava sentada, bastante introspectiva, enquanto um socorrista jovem lhe examinava. Ryla estava sentada a alguns metros dela, abraçando os joelhos e tentando sufocar os soluços.
Snorlax estava sentado ao lado de Gyarados, de costas para as pessoas que chegavam. Com um grito desesperado, Lance finalmente se livrou de seus paramédicos e correu até eles. Um longo filete de sangue seco manchava seus cabelos e as costas de sua capa, mas ele não parecia se importar. Contornou o enorme urso e derrapou de joelhos diante de seu Pokémon.
Kin estava sentada ao lado dele. Quando se voltou, Lance registrou o rosto manchado de lágrimas dela como uma péssima moldura para seu Gyarados, totalmente inerte ao fundo.
- Lance-sama... – ela murmurou, praticamente sem voz – Eu realmente sinto muito. A espinha dele foi esmagada, eu... eu sinto muito.
Lance abaixou a cabeça e todos ao redor silenciaram em respeito ao seu luto, incluindo o próprio James. Snorlax levantou-se, olhando Lance de cima para baixo. Ao virar sua cabeça para cima, Lance se surpreendeu ao notar uma chuva de lágrimas grossas caindo sobre ele.
Snorlax tinha o rosto inchado e chamuscado, grandes perfurações inflamadas nos ombros e a pele das costas crua e maltratada, mas tudo isso não era nada perto da culpa que sentia pelo cadáver ao lado deles. Kin ensaiou-lhe um abraço à altura da pata com força.
- Lax, não fique assim. Não foi culpa sua.
Apesar das palavras de consolo, ela chorava tanto quanto ele, procurando esconder seu rosto entre os pelos do grande urso. Lance se adiantou até ele e apalpou-o na outra pata, fazendo-o voltar sua atenção para o antigo líder da Elite Four.
- Está tudo bem, Snorlax. Eu sei que a culpa não foi sua... posso ver nos seus olhos. Tenho certeza de que Gyarados se sentiu orgulhoso de lutar ao seu lado. Vá descansar, rapaz.
Kin entendeu o recado e recolheu-o à Pokébola. Voltou-se para Lance limpando as lágrimas dos olhos, mas agora ele olhava fixamente para o enorme dragão azul, que parecia extremamente frágil com os olhos inchados e os dentes partidos.
- Ele era um dos meus Gyarados mais antigos. – disse Lance, inexpressivamente – E um dos mais ciumentos. Não deixava nem minha esposa chegar perto de mim. Também é o único capaz de enfrentar meu Dragonite de igual pra igual.
- Sinto muito, Lance-sama. – disse Kin, chorando mais e mais – Quando eu cheguei, já não...
Sem conseguir continuar, Kin se deixou envolver num terno abraço de Kaya, que fazia contato visual com Lance.
- É uma pena que nos reencontremos numa situação dessas, Lance-sama. Talvez o senhor nem se lembre de nós. Sinto muito não podermos ter feito nada pelo seu Gyarados.
Lance sorriu melancolicamente em resposta.
- Como eu poderia esquecer as belas filhas de meu grande amigo Bruno? E eu tenho certeza de que fizeram tudo que podiam.
- Não, senhor. – Kaya abaixou a cabeça – Em meio a batalha, eu...
- Não se desculpe por erros de batalha. – cortou Lance, dando-lhe as costas e voltando a encarar seu Gyaradis – Quando está lutando, você tem milésimos de segundos para tomar decisões que não queria tomar nem mesmo se tivesse anos pra pensar. É evidente que nem tudo sairá como planejou, por mais bem preparado que você seja. Qualquer que tenha sido seu erro durante a batalha, não se torture por causa dele.
- Mas eu...
- Nem mais uma palavra. Está no passado. Agora tudo que eu preciso é dar um enterro digno a um dos meus amigos mais antigos. Acreditem, ele era orgulhoso demais para permitir que outras pessoas fossem responsabilizadas por uma derrota dele.
Toda a luz parecia ter se extinguido dos olhos de Lance. Ele tornou a se ajoelhar, acariciando as escamas do Gyarados morto como se pudesse vê-lo acordado uma última vez.
- Aquele Charizard era realmente impressionante. – comentou impessoalmente – Nunca antes um Pokémon de fogo suportou a Hidrobomba de Gyarados por tanto tempo e ainda levantou pra lutar depois.
- Não deviam tê-lo subestimado. – disse James, falando pela primeira vez desde que chegara ali – Aquele Charizard não pode ser derrotado.
Os policiais nem se esforçaram para defender James quando Kaya avançou sobre ele, golpeando-o seguidamente com as duas mãos fechadas. Apenas após o quarto ou quinto golpe, Baromy entrou no meio, lutando para separá-los.
- Muito bem, chega, chega! Srta. Jounochi, controle-se, por favor!
Kaya encarou-o ofegante. James estava curvado, já livre de um de seus captores. Ele cuspiu um dente e olhou para Kaya com o canto do olho.
- Tire essas algemas dele e me dê dois minutos. – disse Kaya, completamente fora de si – Ele vai descobrir rapidinho quem não deve ser subestimado.
A mão que acalmou Kaya foi a de Kristen.
- Lembre-se do que papai dizia. Quando terminou, terminou. Ele está rendido e preso, não pode ameaçar mais ninguém...
Kaya se desvencilhou da mão dele grosseiramente, embora estivesse, de fato, mais calma.
- Por onde andou, Jounochi? – perguntou Baromy.
- Fui... ahn... apagar um pequeno foco de incêndio. – mentiu Kristen descaradamente – Fiquei com medo de se espalhar pra floresta e não tinha tempo de chamar ninguém pra ajudar.
James estava novamente de pé. Kaya batera exatamente no mesmo lugar que Kristen e ele agora tinha certeza de que havia quebrado pelo menos umas duas costelas. Mas ele ouvira o sinal, tinha certeza. Nada mais importava. Toda a dor e o sofrimento não importavam. Tudo que precisava era ficar sozinho para cumprir com seu juramento.
- Qual é a graça? – perguntou Baromy, notando o sorriso d’o Coronel.
- A graça são vocês... se pavoneando como se tivessem saído vitoriosos.
- Nós impedimos vocês, palhaço. Até capturamos você. Não sei o que sua visão lunática considera uma vitória, mas...
- Eu cumpri minha missão, Delegado. – disse James com o sorriso cada vez maior – O que vai acontecer comigo não importa, já disse.
- Pode blefar o quanto quiser. Você matou um de meus subordinados e mais umas cinqüenta pessoas, contando com as vítimas de hoje. Agora você está preso. Pode dizer o que quiser, tenho certeza de que meus homens e esses garotos aqui fizeram um bom trabalho hoje.
- Será mesmo, Delegado? Por que não pega seu rádio e bipa um dos quatro homens que colocou guardando sua testemunha – a Sra. Lillian Komet? Por que não pergunta a um deles onde e como ela está?
Sentindo uma discreta crescente de pânico interno, Baromy puxou o rádio da cintura e apertou um de seus botões laterais.
- Aqui é o Delegado Baromy. Pilar 1 na escuta?
Só estática. Sentindo o estômago embrulhar, Baromy chamou pelos outros três, um por um. Tornou a chamar todos mais de uma vez, mas apenas o ruído da estática lhe respondia.
- Enquanto continuar nos tratando como lunáticos sem propósito, vocês vão perder essa guerra, Delegado. – declarou James, mais triunfante que nunca – Ninguém procura por buracos de bala em explosões.
Fale com o autor