Pokémon - Reconquest
21 Capítulo 19: Personalidade
Notas iniciais
- Lamento, mas não posso autorizar isso, Jounochi.
Baromy encarava Kristen, buscando decifrar sua expressão. Apesar de todas as décadas de trabalho policial, sabia que estava longe de ser um perfeito militar. Seus colegas do tempo das forças armadas certamente ririam dele se testemunhassem o quanto ele ainda se abalava com a perda de homens em batalha. Ririam, se estivessem vivos.
Sentado à escrivaninha improvisada na pequena delegacia local, Baromy simplesmente não conseguia dar a menor importância à pilha de papéis que tinha de checar e assinar. Para o Estado eram números, mas ele sentia cada perda como a de um filho. E vendo Kristen parado de pé, percebeu o quanto gostava dele. Rapidamente se convenceu de que era melhor mantê-lo tão afastado daquilo quanto fosse possível.
- É um pedido bastante simples, senhor. – disse Kristen, sem emoção.
- Está tentando ser irônico? Nem sei o que você está fazendo aqui na delegacia. Devia estar no hospital, junto de todos os seus amigos. Imaginei que fossem estar ocupados com seus Pokémon por um tempo.
- Passei o dia todo com eles ontem. Já recolhi todas as informações principais com os médicos, agora é só questão de esperar eles se tratarem. Ficar lá bafejando no pescoço dos médicos só vai atrapalhá-los. Kaya já é suficiente para enlouquecer o hospital inteiro; acredite, eles não precisam de mim por lá.
Baromy se recostou, estudando-o demoradamente.
- Você sabe que as chances de sofrermos um forte ataque com o objetivo de resgatar esse terrorista é alta, não?
- Sim, senhor. Suspeitei.
- Preste atenção, Jounochi. – Baromy se inclinou para a frente, distorcendo propositalmente seu humor para algo bem intimidador – Tem militares armados até os dentes do lado de fora e de dentro desse prédio.
- Então tenho certeza de que estou bem seguro aqui, não? – perguntou Kristen, novamente com a voz incógnita.
- Muito engraçadinho. – ralhou Baromy – Tem a mesma segurança no Centro Pokémon. Com a diferença de que por lá não tem um alvo vermelho piscando, preso no subsolo!
- Eu só quero conversar, senhor.
- Conversar com essa gente, Jounochi? – perguntou Baromy, como se o achasse louco – Você viu do que eles são capazes pela ideologia deles. Viu bem de perto, mais de uma vez. Tenho certeza de que conversar não é exatamente uma boa escolha.
- Eu não ligo pro que ele acredita. Quero saber porque ele matou todas essas pessoas. – disse Kristen objetivamente.
- Porque ele é um lunático perverso com a realidade distorcida! – gritou Baromy, batendo na mesa ao ponto de seu cigarro pular do cinzeiro – Você precisa de um motivo melhor para concordar com isso? Pelo amor de Deus, eles incendiaram um Centro de Criação com filhotes e funcionários que nem treinadores são! Queimaram, destruíram e mataram tudo que cruzou o caminho deles! Esse desgraçado vai pegar pena de morte mais rápido do que algum desses religiosos retardados consiga soletrar a palavra “apelação”. Tudo que posso fazer é tentar extrair alguma coisa dele antes disso.
- Não sou nenhum religioso, muito menos retardado. – retrucou Kristen, espanando o cigarro apagado para longe dele distraidamente – Ainda assim sou contra a pena de morte.
Baromy sacou um maço do bolso interno do terno. Tirou um cigarro habilidosamente e levou-o à boca, acendendo-o com o isqueiro apenas na outra mão.
- Quando eu não tinha nem dez anos ainda de polícia – disse Baromy entre pausas para as baforadas –, investiguei um assassinato triplo. Pai, mãe e filho de quatorze anos; uma família endinheirada. O moleque asfixiado e os outros dois agredidos até a morte com um martelo. Todos os envolvidos na investigação (principalmente eu) suspeitavam de assalto engendrado por alguém próximo da família, pois as gavetas e tudo o mais estavam completamente revirados, apesar da porta não ter sido arrombada. No fim das contas, achamos o assassino através das dicas de uma testemunha: um colega de escola do rapaz. Outro garoto de quatorze igualmente rico que se emputeceu porque pediu um casaco emprestado e foi recusado por ser de estimação. – Baromy falava expirando fumaça direto no rosto de Kristen, que fingia não se importar, embora estivesse com os pulmões semi-virgens ardendo – Eu também acreditava que era arrogância nossa fazer julgamentos sobre quem vive e quem morre. Mas estou falando de um moleque que tinha tudo na vida e destruiu uma família por causa de um casaco feito por encomenda. Francamente... no dia em que o pegamos, ele usava um par de tênis que provavelmente pagaria o meu salário inteiro. Quando você amadurecer (provavelmente quando tiver filhos) vai entender que simplesmente existem pessoas ruins.
- Então se você é rico, precisa ser uma boa pessoa? – perguntou Kristen – Meu pai me ensinou a lidar muito bem com o dinheiro. Eu nem faço idéia do quanto eu tenho ao todo, mas meus gastos são ridículos e eu tenho uma vida bastante simples. Também procuro ser educado e ajudar as pessoas. Mas eu não acho que todas as pessoas ricas têm obrigação moral de ser melhores que as pobres.
- Se você não tem dinheiro para alimentar seu filho e enfia uma arma na cara do padeiro, eu me sinto penalizado em ver você na cadeira elétrica. De verdade. Mas se você tem comida, roupas, casa, carro, escola e ainda dinheiro para farras... não entendo qual desculpa você usa para ser violento.
- O mundo é um grande forno, senhor. – entoou Kristen pausadamente, escolhendo as palavras com cuidado – A temperatura é a mesma para praticamente todos nós, mas nossas reações variam bastante. Algumas pessoas são como queijo ou manteiga e simplesmente derretem sob a pressão que ele exerce. Outras esquentam, mas conseguem se conter em sua forma normal, como a maior parte do que a gente come. Já outras... o senhor por acaso já esqueceu os ovos no forno por muito tempo?
Baromy espetou a guimba no cinzeiro e puxou outro cigarro lentamente do bolso, repetindo seu ritual enquanto encarava o olhar impassível de Kristen. Toda aquela conversa estava ficando filosófica demais para o prático militar de longa data.
- O que quer com esse desgraçado, Jounochi?
- Apenas conversar, já disse.
Baromy aproximou seu rosto ainda mais de Kristen, embora tivesse agora o cuidado de segurar o cigarro afastado do mesmo.
- Eu lhe devo um favor. Se não fosse por você, suas irmãs e a sua namorada, talvez eu estivesse enterrando a Agente Lucy hoje. Posso deixar você entrar naquela sala por uns minutos, mas preciso ter certeza de que não vai fazer nada estúpido.
- Como o que, senhor?
- Como tentar dar uma de detetive. – concluiu Baromy, tornando a se recostar em sua poltrona – Você é um lutador brilhante e parece ser um bom treinador também. Mas você não é policial. Eles vieram atrás de você da primeira vez. Nesta segunda foi apenas coincidência que você estivesse no mesmo lugar que os ataques insanos deles. Não quero que pense que vai salvar o dia sempre ou virar um grande investigador da noite pro dia. Isso não vai acontecer.
- Se é essa sua preocupação, não teremos problemas. Lhe dou a minha palavra de que quero tratar apenas de assuntos pessoais com ele. Nada de investigação, prometo.
Baromy se levantou instantaneamente. Kristen recuou para dar passagem ao velho delegado quando este caminhou até a porta.
- Você é ingênuo, Jounochi. Mas é uma das poucas pessoas em que posso confiar quando diz que me deu sua palavra.
Ambos caminharam pelos corredores. Kristen ia atrás, pensativo sobre a conversa que pretendia ter e sobre as situações delicadas que se desenrolavam no Centro Pokémon naquele exato momento.
- Vou querer um favor em troca, Jounochi. – anunciou Baromy repentinamente.
- Hum?
- Vai ter de me contar como fez pra derrubar o Sanderson naquela final. – disse o delegado, dando uma discreta olhada para trás – Eu jurava que era ele que ia tirar esse cinturão de você, finalmente.
- Ahn... – suspirou Kristen em tom de desânimo – Não tem muito pra dizer além do que eu disse aos repórteres.
- Besteira! Ninguém divulgou aquela lesão no braço dele em lugar nenhum. Você desvia de alguns golpes sem fazer nada, como sempre, e quando revida, acerta justamente o ponto misteriosamente lesionado? Eu comando uma Divisão de Homicídios, garoto, não pode me enganar. – disse Baromy em tom divertido.
- Não sabia que gostava de artes marciais, senhor. Se quer mesmo saber, eu lhe conto, mas prometa que não vai contar a ninguém, sim?
- Pode deixar. Segredos trocados.
- Eu sabia da lesão dele, por isso bati com tanta precisão.
- Rá! Sabia! Quem foi o traidor desgraçado que contou?
- Ninguém contou, senhor. Eu descobri sozinho, durante a luta mesmo.
Baromy parou de andar, se virando para olhar Kristen como se duvidasse da saúde mental dele mais uma vez.
- Está brincando comigo? Fez um raio-x dele durante a luta por acaso?
- Existe um motivo pelo qual eu deixo os oponentes sempre golpearem bastante antes de me mexer.
- Pra estudá-los, sim. Você já declarou isso e, na verdade, é só ter um cérebro pra deduzir isso.
- Pois é. O que é menos dedutível é o que se estuda. Todos acham que estudamos apenas estilo de luta, que medimos velocidade e força dos golpes, essas coisas. Na verdade, vai um pouco além. Ou pelo menos eu vou...
- Está me sacaneando? – perguntou Baromy, desconfiado.
- Não, senhor. A minha audição não é... – Kristen hesitou por um instante antes de prosseguir – como a das outras pessoas. Eu ouvi o cotovelo dele estalar quando ele tentou me socar. Foi bem sutil, mas eu sabia que tinha algo fora de lugar ali.
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Ryla acariciava a cabeça de Eevee com ternura. A pequena raposa estava deitada sobre uma maca cuidadosamente forrada com os olhos caídos enquanto Kin limpava seu corte antes de colocar nele um novo curativo. A um canto, o imenso Snorlax de Kin cochilava esparramado no chão, com o corpo coberto de curativos de todos os tipos.
Diante da intimidade de Kin com as luvas, os produtos e os Pokémon doentes, Ryla sentia um misto de inveja e admiração.
- Nem fazia idéia de que você fosse médica.
- Eu não sou. – respondeu Kin, sempre sorridente – Sou bióloga. Me ofereci para ajudar Joy-sama com os casos mais leves. Ponyta, Lax e Eevee precisam apenas de curativos e aquela asa quebrada do Aero é só uma questão de acompanhamento. Por outro lado, Tyrogue teve de operar e ela disse que está bastante ocupada com um outro paciente em estado bem crítico. Mas disse que não pode revelar detalhes sobre este, a pedido do treinador.
- Estranho. Será aquela Starmie que estava ajudando contra o Charizard?
- Não, ela teve alta hoje cedo. As queimaduras foram bem feias – mesmo ela sendo de água –, mas Starmies se recuperam bem rápido. Ela provavelmente já está pronta pra outra batalha.
- Estranho... Mas Kin-chan... – hesitou Ryla, com medo de parecer arrogante – Se você é bióloga, por que Joy-sama te deixou ajudar? Não precisaria de um diploma na área médica?
- Meu mestrado foi na área de veterinária, mas fiz meu doutorado em ecologia. Eu e Kaya viajamos sempre juntas, apesar de cada uma ter suas pesquisas. Já passamos semanas e até meses acampadas, então foi bem útil ter algum conhecimento médico. Atualmente eu trabalho com ervas naturais de cura... a cada nova publicação, a indústria farmacêutica me odeia um pouco mais.
- Vocês são mesmo incríveis. São tão novas, como já estudaram tanto?
- Ora, não somos mais tão novas. Temos onze anos a mais que Kristen e começamos a estudar bem cedo também. Foi só uma questão de dedicação. – concluiu ela com um leve gesto de ombros enquanto descalçava as luvas – Prontinho, Eevee, já pode se mexer.
Eevee ficou de pé em cima da maca, alongando as duas patas da frente. Após alguns segundos, ela soltou uma série de gemidos baixos e apontou insistentemente para a porta atrás de Ryla com o focinho.
- Ainda não, Eevee. – disse Ryla, parecendo deprimida – Ele ainda está se recuperando da operação. Já já você poderá vê-lo.
Tomando a raposa tristonha em seus braços, Ryla foi para junto de Kin, que havia ido sentar perto de seu Snorlax, recostando-se em sua barriga e olhando pensativa para os próprios dedos.
- Também não sabia que tinha uma sala desse tamanho num Centro Pokémon. – disse Ryla, correndo os olhos por toda a amplitude do imenso galpão com poucos móveis no qual se encontravam.
- Muitos Pokémon, como meu Snorlax, precisam desse espaço. É bom ver que seus Pokémon e os de Kristen são tão amigos. – disse de repente quando Ryla se sentou ao seu lado – Amizade entre pessoas tem ficado muito escassa. Entre Pokémon mais ainda.
- No dia em que se conheceram, Tyrogue salvou a vida dela. – disse Ryla, enquanto Eevee lambia-lhe a mão compulsivamente – Ela também salvou a dele quase imediatamente. Ele é um cavalheiro de primeira, assim como Kristen. É impossível não gostar dele, acho.
- Verdade. Kris é mesmo um doce. E... – Kin hesitou por um instante antes de concluir – Kaya é orgulhosa demais para isso, mas eu preciso te agradecer por nós duas.
- Por que? – estranhou Ryla.
- Nós tínhamos medo de que Kris se tornasse uma pessoa solitária quando começou a viajar.
- Nah, impossível. Ele é simplesmente maravilhoso com todo mundo.
- Sim. Apesar disso, ele nunca foi exatamente muito cercado por amigos. Pra ele era basicamente o papai e o pessoal da academia, desde bem pequeno. Até na escola ele sempre foi meio deslocado por causa das rotinas de viagens e tudo mais.
- Mas e eu? Você fala como se eu tivesse feito algo demais. Na verdade foi ele que insistiu em cuidar de mim.
Kin apenas olhou para Ryla com um sorriso bondoso. Ia responder, mas uma seqüência de batidas na porta interrompeu as duas. Ambas se levantaram como se tivessem levado um choque e andaram ao mesmo tempo até a porta, mas foi Kin que alcançou a maçaneta primeiro.
- Oi, meninas. – disse uma meiga senhora encurvada e sorridente vestida totalmente de branco.
- Joy-sama! – exclamou Kin, abraçando-a pelos ombros – Como estão todos?
- Bem, bem. – disse Joy, tranquilizadora – O pequeno Tyrogue irá acordar em breve e saberemos se conseguimos salvar algo da sua visão do olho machucado. Eu vim porque vocês pediram pra avisar caso Lance-kun voltasse.
- Oh! – exclamou Kin, já se encaminhando para o interruptor para apagar as luzes – Onde ele está?
- Na verdade – disse Joy, estendendo os braços –, ele queria saber como estava o Snorlax e eu o trouxe até aqui. Espero que não haja problema.
Kin sorriu para a velha enfermeira e Ryla escancarou a porta de vez. Lance estava debruçado sobre o parapeito de uma janela no corredor, bastante introspectivo e até um pouco distraído.
- Lance-kun. – chamou baixinho Joy, no que ele se virou como se tivesse sido sacudido durante um cochilo – Pode vir.
Lance caminhou até a sala. Joy abriu passagem para ele e depois fechou a porta educadamente, acenando para as meninas. Lance parecia pouco à vontade, mas Kin quebrou o gelo abraçando-o ternamente. Notando que ele amolecia, Ryla se juntou ao abraço, segurando Eevee com apenas uma mão, e os três permaneceram em silêncio durante pouco mais de um minuto, quando se separaram.
- Como ele está? – perguntou Lance, sacudindo o queixo na direção de Snorlax e fazendo um longo cafuné em Eevee.
- Apenas machucados comuns. Queimaduras, cortes, escoriações, mas todos superficiais. As perfurações nos ombros infeccionaram um pouco – apontou Kin para os curativos manchados de vermelho –, mas não foi nada demais. Snorlax estão entre os Pokémon mais resistentes que já conheci e particularmente esse meu amigão aqui já esteve em situações bem piores. O senhor está bem?
Lance se adiantou e acariciou Snorlax firmemente, parecendo refletir sobre a resposta que daria. Ryla hesitou, mas sentiu que precisava quebrar o gelo de alguma forma:
- O senhor precisava de um tempo pra pensar, não? – perguntou, em tom de consolo – Eu, sempre que...
- Fui me despedir do Gyarados. – disse Lance sem emoção na voz.
Ryla engoliu as palavras. Esperava ouvir qualquer outra coisa.
- Mas o senhor nem nos...
Kin a interrompeu com uma providencial mão em seu ombro. Meneou a cabeça negativamente com os olhos postos na nuca de Lance, que abaixara a cabeça, ainda de costas para ambas.
- Dragões são extremamente leais. – explicou ela pacientemente – Mas não gostam de estranhos. São capazes de dar a vida para proteger aqueles que reconhecem como seus amigos... mas realmente não é muito seguro se aproximar de um se ele não tiver apreço por você. Gyarados não nos conhecia, Ryla-chan, não seria respeitoso com a memória dele que nós olhássemos enquanto Lance-sama...
As palavras foram morrendo, mas não a curiosidade de Ryla. Sabia que seria extremamente indelicado dar corda àquele assunto, mas tinha muitas perguntas a serem respondidas sobre os ritos fúnebres de um Pokémon. Como se adivinhasse seus pensamentos, Lance desatou a falar repentinamente:
- Eu o atirei ao mar. Ele ia gostar disso... que seu próprio ambiente decidisse o que fazer de seu corpo. Fui até perto da Rota 29 e chamei nossos outros amigos para se despedirem.
- Entendo. – disse Kin, parecendo à beira das lágrimas novamente – De quantos Gyarados o senhor cuida atualmente?
- Tenho três aqui comigo, todos muito novos. Dragonite e um Dratini também estão comigo, naturalmente. Red está em viagem com outros quatro; trabalham patrulhando a costa em busca de barcos ilegais de pesca.
- Fascinante. – disse Kin.
- Seus Pokémon viajam sozinhos? – perguntou Ryla, sem conseguir se conter.
Lance virou a cabeça para ela, com um sorriso melancólico.
- Treinar junto com dragões é uma experiência maravilhosa, diferente de qualquer outra coisa. Toda relação saudável entre treinadores e Pokémon deve ser de confiança mútua, mas normalmente você consegue impor uma relação de poder e de hierarquia com eles se forçar a barra. Faz com que eles te obedeçam simplesmente, com que sejam máquinas de batalha. Com dragões, isso simplesmente não é possível. – Lance sorria com orgulho enquanto falava, o que se mesclava estranhamente à sua melancolia, produzindo uma expressão completamente nova para Ryla – Dragões não são domesticáveis. Toda e qualquer tentativa de torná-los seus subordinados terá conseqüências desastrosas e irreversíveis. Nesse exato momento, Dragonite está no cais... preferiu ficar refletindo por lá sozinho após nos despedirmos dele.
Os três ficaram em silêncio por mais um tempo. O único som era dos anéis de Lance se esbarrando enquanto ele acariciava Snorlax. Novamente foi ele quem quebrou o silêncio:
- Isso é curioso. Tenho muitos anos de experiência como treinador, mas enterrei muito mais amigos humanos do que Pokémon. Fico impressionado em ver como a dor não é nem um pouco diferente.
Kin esfregou os olhos para disfarçar. Ryla percebeu que havia uma cumplicidade não combinada entre os dois e concluiu que sua própria incompreensão provavelmente tinha a ver com seu pouco tempo como treinadora.
- Eu pensei que... – hesitou por um instante, pensando que talvez pudesse ser inconveniente – Pensei que a maioria dos Pokémon vivessem bem menos que seres humanos.
- Isso também é diferente com dragões. – disse Lance mecanicamente – Eles costumam viver algumas centenas de anos. Isso também vale pros que não são tipo dragão oficialmente...
- Como assim?
- A genética Pokémon é uma coisa incrível. – dessa vez foi Kin que respondeu – Os genes que identificam os tipos como as pessoas os conhecem são bastante claros, mas no restante do genoma deles existem diversos outros genes que apontam similaridades com tipos teoricamente muito distantes na cadeia de evolução.
Kin franziu as sobrancelhas, sentindo-se muito estúpida. Nunca antes tinha ouvido ou lido uma frase sobre a qual tivesse entendido tão pouco.
- Desculpa, mas... eu não estou entendendo nada.
- Ah, eu que peço desculpas. – Kin sacudiu a cabeça – Vou tentar explicar um pouco melhor. Existem dois tipos de evolução biológica: a genética e a orgânica. A orgânica é que os treinadores conhecem melhor: um Pokémon, estimulado por determinadas substâncias armazenadas em suas células após muito treinamento ou sentimentos específicos (que podem ir desde felicidade até alertas de perigo), passa por uma série de reações químicas e toma uma compleição completamente diferente da que possuía.
- Quando um Magikarp vira um Gyarados, por exemplo? – interrompeu Ryla, franzindo a testa com o esforço para entender.
- Exatamente.
- Mas... achei que só isso fosse evolução. Você falou em dois tipos...
- Pois é. Ao longo dos anos, os seres se modificam. Pra resumir bastante, os genes de uma determinada população de uma espécie qualquer vão se modificando muito devagar, até que um dia se tornam uma espécie diferente.
- Ah! Eu lembro disso vagamente. Na escola, quando diziam a diferença de Pokémon para animais.
- Pois é. – disse Kin, sorrindo – Apesar de serem semelhantes aos olhos de um leigo, os Pokémon são completamente diferentes. O planeta passou por maus bocados e as evoluções trazidas pelos Pokémon em relação aos animais foram fundamentais pra que restasse alguma coisa viva além de nós sobre o planeta. A expressão gênica deles se altera monstruosamente quando evoluem. Um melhor aproveitamento dos genes é o que faz com que eles consigam evoluir... organicamente falando.
- Desculpa, mas eu... Eu realmente não estou conseguindo acompanhar. – disse Ryla, envergonhada.
- Não faz mal. – consolou Kin – Isso é difícil de explicar, às vezes até mesmo pra alguém da área. Onde eu quero chegar é que alguns tipos de Pokémon surgiram bem antes dos outros, mas por causa dessa alteração absurda na expressão gênica, às vezes um Pokémon pode se modificar tanto na evolução orgânica, que chega a carregar características parecidas com as de outros Pokémon. Alguns, como Gyarados, Charizard e até mesmo outros que as pessoas pouco relacionam aos dragões, como Ninetales e Aerodactyl... Eles não possuem o gene do tipo dragão, mas compartilham várias de suas características, como, por exemplo, a longevidade. Isso acontece com outros tipos também. Psyducks possuem grande tendência a desenvolver poderes psíquicos, embora não possuam o tipo. Existem infinitos outros exemplos também...
- Acho que estou começando a entender. – disse Ryla, começando a sentir dor de cabeça – Então os Gyarados costumam viver muito?
- Sim. – disse Lance – Começaram a ser domesticados há pouco tempo, comparados aos demais Pokémon. O registro mais antigo da domesticação de um Gyarados data de pouco mais de trezentos anos atrás, embora nem possamos ter certeza de que ele é honesto. Alguns registros científicos falam em Gyarados que viveram mais do que esse tempo, mas também não são cem por cento confiáveis. No mínimo duzentos e quarenta anos nós temos certeza de que eles são capazes de viver. Por outro lado – Lance deixou transparecer um sorriso amarelo – a maioria dos espécimes vive bem menos que isso, por causa de seus hábitos de vida. É uma ironia.
- Que hábito de vida?
- Eles são brigões. – disse Kin – Ferozes por natureza. Também tem a ver com sua evolução.
- Mas todo Pokémon pode ser controlado! – disse Ryla, indignada – Eles são mais bravos que os outros sim, mas tenho certeza de que não são ruins!
- Não disse que eram ruins. – respondeu Kin, abrindo ainda mais seu sorriso – É uma questão de sobrevivência. Magikarps se reproduzem rápido, várias vezes por ano, mas possuem um ciclo de vida extremamente curto. Coisa de meses. Têm um papel ecológico importantíssimo, pois servem de alimento a uma infinidade de outras espécies. Portanto, em algum momento de sua história evolutiva, precisaram se proteger de predadores e até da condição ambiental em si. Provavelmente assim surgiram os Gyarados. Hoje você pode encontrá-los – em grupos ou sozinhos – onde há grandes grupos de Magikarps acasalando, principalmente se houver ovas na região. Esse instinto mais agressivo se mantém mesmo depois de capturados e, sem dúvidas, é um grande aliado em batalhas. É claro que nem sempre eles ganham a briga. E uma derrota na natureza quase sempre significa a morte, então é natural que a maioria deles não passe de alguns anos de vida, mesmo que tenham capacidade genética para viver muito mais.
- Entendi... – disse Kin, amuada – O seu Gyarados era mesmo tão velho, Lance-sama?
Lance voltou a sorrir. Virou-se de costas para Snorlax, colocando as duas mãos nos bolsos da capa.
- Eu o ganhei de um pescador de Goldeens, já faz bem mais de quarenta anos. O Magikarp de nada servia pro negócio dele de marfim e ele apenas os matava e atirava à água. Eu ia acabar com o negócio ilegal dele e ele pensou que podia me subornar, sabendo da minha paixão por Gyarados. É lógico que eu destruí o negócio do mesmo jeito, mas não podia simplesmente abandonar o Magikarp ferido pelas redes de pesca, então cuidei dele. Depois que evoluiu ainda tinha seqüelas, mas foi alimentado por uma velha mamãe Dragonite de meu pai, que já morreu há anos. Ficou forte e leal e virou uma lenda entre todos os criadores de dragões do mundo. Frustrou uma infinidade de treinadores que almejavam derrotar a Elite Four da minha época.
Ele falava com orgulho e, ao mesmo tempo, com uma alta carga de nostalgia. Apesar disso, encarava algum ponto no teto ao invés de olhar para as meninas.
- Onde está Kristen? – perguntou de repente, forçando-se a interromper suas reminiscências.
- Disse que precisava falar com o delegado e foi pra lá. – respondeu Kin – Ele tem andado estranho desde ontem.
- Será que descobriu algo que queira dividir com eles?
- Talvez...
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O Dr. Celio Tanuri nunca estivera tão temeroso em toda sua vida. Estava praticamente livre de ferimentos, embora os vários dias e noites sem banho o incomodassem vagamente. O seu real problema era o pânico crescente; ofuscava todo o resto.
Enfaixava a asa de um gigantesco Charizard de escamas negras. Às suas costas, embora completamente calado, o General observava seu trabalho. Ele era bem mais baixo que o cientista e pouco imponente enquanto calado, mas sua presença lhe causava calafrios ainda piores que os causados pelo Charizard.
Consciente de que estava diante de um Charizard responsável por matar friamente um sem-número de pessoas queimadas vivas, o Dr. Tanuri era incapaz de controlar o suor frio e a tremedeira enquanto lidava com as gazes e anti-inflamatórios. Sabia que alguns deles ardiam intensamente em contato com os ferimentos e aplicava-os com um medo incontrolável, mas o Charizard não dava um pio sequer nem tinha um único espasmo, não importava o que ele fizesse.
- Então eles dois ficaram para trás...
Charizard bufou em resposta. Em mais de uma ocasião, o General conversara com os Pokémon na frente do Dr. Tanuri e ele agora tinha certeza absoluta de que ele os compreendia, portanto não se surpreendia mais com as horas de falatório contrastadas apenas por ganidos e rugidos.
- Ele sabia de seu risco quando se ofereceu. É um soldado leal, o que é uma pena. Agora ele sabe o que precisa fazer para não nos expor. Tenho certeza de que Meowth foi atrás dele contra minhas ordens e, se não voltou ainda, é porque foi morto ou está escondido ou até está planejando a fuga dele. Suas estratégias são maravilhosas, mas não preciso de um soldado desobediente. Kabutops talvez consiga tomar o caminho de volta se despistar possíveis perseguidores. Ao menos você conseguiu retornar e trazer Nidoking consigo. Arbok também retornou por conta própria, então as perdas foram bastante minimizados. Nada que não possa ser substituído.
Novo grunhido de Charizard e novo calafrio de Dr. Tanuri. Outra característica à qual estava se habituando era ao fato d’o General falar de seus subordinados como se fossem peões de xadrez: ele os usava à vontade em estratégias; não importava se eram feitos suicidas ou simples missões silenciosas com grandes chances de sucesso, mas ele falava fria e igualmente de todas elas.
- Eu preciso retornar ao trabalho ou irão começar a sentir minha falta. Terei uma nova missão para você quando estiver sarado.
O General começava a caminhar daquela estranha maneira deslizante para a porta quando o Charizard levantou-se de supetão, derrubando o Dr. Celio de costas no chão. Ele grunhiu várias vezes e o Dr. Tanuri teve certeza, por sua expressão, que estava tecendo algum tipo de argumento, pois fez o General interromper sua caminhada.
- Eu sei que você está sempre pronto para qualquer missão, a qualquer momento. Mas para essa precisarei que seu corpo esteja tão inteiro quanto seu espírito. Vamos dar tempo ao nosso jovem doutor para trabalhar em você. Preciso que esteja cem por cento novamente, por favor entenda isso.
Vencido, Charizard tornou a se deitar na mesma posição de antes. Acompanhou as costas d’o General com os olhos até ele se aproximar da porta, abri-la sem tocá-la e sair, fechando-a em seguida. Imediatamente olhou de forma ameaçadora para o Dr. Tanuri, bufando e rangendo os dentes, no que o cientista se levantou apressado e retornou à gaze que se desenrolara com o último movimento brusco de Charizard.
Dr. Celio Tanuri perguntava-se quanto tempo mais teria de tolerar aquilo. Estava começando a perceber que até mesmo a morte seria bem-vinda, comparada à situação humilhante a que estava submetido.
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