Pokémon Nuzlocke: Sky Above Us
14 Chapter 12: Proud
Notas iniciais
A princípio, as coisas pareceram surreais demais para ele sequer considerar como parte da realidade. Alex teve de piscar, teve de apertar a insígnia com os dedos, teve de esperar alguns segundos para ver se aquilo não seria um sonho, e ainda assim, a sensação de que aquilo simplesmente não era real continuava a assombrá-lo. Não, não, ele ganhando uma insígnia de Toshiharu? Tinha que haver uma coisa errada ali.
Porém, toda vez que ele apertava o pequeno objeto entre os dedos, sentia sua textura e concluía que era um pouco fria, Alex sabia que aquilo tudo era a realidade.
Em resumo, ele realmente havia vencido o líder do ginásio de Violet. Com todo o seu esforço de até agora. Com todas as lembranças ruins da sua última visita, com todo o seu medo, com todo o receio por Chiyo estar ali e talvez com muitas outras coisas que não podia identificar agora. Vencera, e conquistara o prêmio maior de um ginásio: uma insígnia.
Sua insígnia.
Dava até vontade de rir diante de um fato como aquele. Alex nunca tivera uma dessas antes, tampouco pudera segurar e chamar de sua, mas agora que o tinha, parecia imensamente engraçado que um objeto tão pequeno pudesse tomar um significado tão grande. Até então, esforçara-se tanto para conseguir sequer sair de casa. Enfrentara dificuldades, perdera na primeira tentativa e descobrira que tinha que treinar um pouco mais, se preparar melhor... Havia coisas demais para se preocupar, e o sonho de ter uma insígnia entre seus dedos para chamar de sua parecia tão distante...
Mas agora ele vencera.
Vencera e conseguira sua própria insígnia para segurar.
Conseguira sua própria prova de que, apesar de tudo, Alex podia conduzir seus Pokémon para uma vitória Podia ajudá-los, por mais que tecnicamente o trabalho todo tivesse sido feito por eles mesmos, e podia dizer que, pelo menos agora, ele não era totalmente imponente. Tinha sua própria força.
Por deuses, ele tinha que piscar diversas vezes para se convencer de que ninguém estaria pregando uma peça de mau gosto nele. Ele, conseguindo sair de casa e vencendo um líder de ginásio? Não, tinha que ser algum tipo de sonho muito bom e muito longo.
Porque a realidade parecia muito doce para aquilo ser realmente verdade. Bom, sendo verdade ou não, o corpo de Alex ainda retomou o controle por si próprio, e os pensamentos todos ainda se culminaram num sorriso. As pernas tremeram, ameaçando vacilar. Os dedos apertaram o pingente, e tudo que Alex pôde oferecer ao sorridente Toshiharu foi o seu sorriso, repleto da mais pura felicidade.
Quase não ouviu a voz de Margareth comemorando, e talvez até não ouvisse se não tivesse que dar um jeito naquilo tudo. Mais um pouco e seus olhos estariam embaçados com lágrimas, como uma forma de anunciar ao mundo de que, afinal, Alex estava orgulhoso de si mesmo. E feliz. E ansioso. E havia também uma adrenalina carregada pelas batidas de seu coração, correndo por suas veias para deixar ali rastros de uma sensação que entorpecia e inebriava.
— Alex, Linus! — Margareth os chamava com animação digna de um sorriso. Apesar do cansaço que certamente estaria sentindo, ela estava correndo na direção dos dois. — Foi isso mesmo que eu ouvi? A gente ganhou? Conseguimos mesmo a insígnia?
— Conseguimos, Maggs — Alex respondeu, a voz embriagada. Sentiu um olhar curioso de Aizawa sobre si, mas aquilo já não tinha mais importância. — Olha só pra ela.
E se agachou, um joelho apoiado no chão. Não demorou muito para que tanto Margareth quanto Linus estivessem ali, analisando o objeto.
— Então assim que é uma insígnia? — perguntou a Shinx, observando-a por mais alguns momentos antes de levantar o olhar para o treinador. — Por Arceus, eu ainda nem acredito que a gente tenha conseguido mesmo. Nem acredito. Eu estava com medo, e achei que fosse perder e desperdiçar todo o esforço do Linus, mas olha só pra isso...
— Você lutou bem. — Era Linus quem dizia agora. Mais uma vez, o olhar da Shinx reluziu. — Os dois.
Alex sorriu novamente. Margareth não se aguentou, e simplesmente pulou para o colo do treinador, pouco se importando se aquilo acabaria fazendo Alex cair. Se Alex fosse ser sincero, diria que pouco se importava com isso. Apenas riu com a atitude da Pokémon, puxando-a para o peito para que a Shinx, em resposta, esfregasse o rosto contra o seu peito.
Com um pouco mais de dificuldades que ele esperava ter, Alex deu um jeito de deixar a insígnia na mão e ainda assim erguer a Pokémon. Levantou-a na direção de seu rosto, e sem mais conseguir conter as lágrimas, encostou sua testa contra a de Margareth. Aquela era a primeira vez que fazia isso, mas assim de perto, era como se toda a gratidão que Alex desejava expressar para a Pokémon pudesse simplesmente ser dita assim, sem palavra alguma.
— Vencemos, Maggs — ele repetiu as palavras, como quem testava a forma delas em seus lábios. — Vencemos. Conseguimos a insígnia.
— Nós três conseguimos. — A gatinha de pelos azuis tentou sorrir, mas o tom de embriagada felicidade de Alex parecia ser contagioso. — Foi mais você, acho. Treinou tanto para esse momento, e agora...
— Não — Alex a cortou, a voz firme. — Nós conseguimos. Eu, você, Linus, nós três juntos. Vocês dois quem fizeram a maior parte do trabalho. Principalmente você, Maggs. — A Pokémon abriu a boca para retrucar, mas Alex foi mais rápido: — Você merece essa insígnia mais do que eu.
Teve que ser mais rápido que ela para conseguir por a Pokémon no chão, ou Margareth provavelmente iria protestar até os fins dos tempos contra o próprio treinador. No fim, ela foi ao chão sem muitos problemas, então Alex simplesmente pegou o pingente de dente de Sharpedo e colocou-o em Margareth. Ficava muito largo, sim, mas duas voltas em volta de seu pescoço e parecia uma bela coleira envolta em pelos negros.
Aquela ação pareceu desconcertar Margareth durante alguns segundos. Na verdade, a Margareth, Linus, e por tabela, Aizawa-san também. Parecia haver um silêncio entre o pequeno grupo, ocasionado justamente pelo pequeno gesto de Alex. Talvez pelas lágrimas escorrendo por suas bochechas também, mas isso eram detalhes.
Aquilo, porém, era o que parecia ser certo para Alex: a Pokémon realmente merecia a insígnia mais do que ele. Depois de ter passado por tudo aquilo, o natural era que a Pokémon o ignorasse e ficasse com raiva de seu treinador por quase ter deixado-a morrer. Contudo, Margareth aguentara, e ainda estava ali por Alex, ainda batalhara apenas para que Aizawa entregasse a insígnia.
Somente esse fato era o suficiente para que Alex se sentisse no dever de entregá-la a Shinx. Sim, aquele era um momento inoportuno para pensar esse tipo de coisa, já que acabaria com a felicidade dele se permitisse, mas o fato era que Alex estava racionalizando demais e não sabia como parar as lágrimas salpicando-lhe as bochechas.
Num resumo muito grande das coisas, ele estava feliz que Margareth ainda estivesse com ele, e por isso, a insígnia deveria ser dela.
O silêncio (e por consequência os pensamentos de Alex) foi quebrado logo depois, assim que o treinador se pôs de pé novamente. Os sons dos passos invadiam a arena, ecoando pelo espaço aberto. Quando Alex se virou para ver quem era, um arrepio percorreu por toda a extensão de sua espinha, até parar na nuca. Chiyo. Ela vinha na direção dele, com Natsuhi ao lado, um sorriso de orgulho colorindo suas feições.
— Vocês realmente me surpreenderam na batalha. — Chiyo foi a primeira a falar. A irmã apenas meneou a cabeça, um sorriso no rosto. — Realmente, os três foram muito bons ali, principalmente na batalha contra a Sandshrew. — O sorriso se alargou. — Quase achei que estivessem perdidos lá.
— Eu também achei — Aizawa riu, a voz que cantarolava de volta. — Mas parece que os dois fizeram a lição de casa e conseguiram me derrotar com um movimento novo, né?
O líder de ginásio pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas acabou apenas deixando um sorriso no rosto enquanto, silenciosamente, dava espaço aos dois.
Um momento desconfortável de silêncio se passou. Subitamente, Alex se lembrou que tinha lágrimas — ou resquícios delas — nos olhos, e tratou de limpá-las com a manga da blusa. Ainda assim, mais lágrimas insistiam em rolar por suas bochechas, então tudo que Alex tinha para oferecer era um olhar resignado.
— Parabéns pela vitória, Alex. — Chiyo finalmente quebrou o silêncio, o sorriso acompanhando o da irmã.
Alex apenas desviou o olhar, murmurando um "obrigado" baixinho. Certo, ele estava feliz por receber os parabéns da amiga, mas ele também não estava acostumado a receber muitos desses. Como deveria agir diante disso?
Chiyo e Aizawa pareceram se divertir com a situação, a julgar pelo olhar divertido que recebeu dos dois.
— Bom, agora que as congratulações já foram dadas e todo mundo já teve tempo de ficar feliz... — Aizawa começou, mais uma vez voltando a ficar ao lado de Alex. — por que não damos uma passada lá na enfermaria? Tenho certeza que os seus Pokémon devem estar cansados da batalha.
Alex concordou de muito bom grado. Levou Margareth em seus braços, que aparentemente continuava animada o suficiente para relatar à Natsuhi toda a batalha, mesmo que, tecnicamente, o corvo tivesse assistido tudo da arquibancada.
O menino quase riu da situação, e só não o fez porque, se Alex fosse confessar, diria que estava prestes a fazer isso com Chiyo também. Por enquanto, ele tinha que cuidar dos Pokémon da melhor forma que podia.
Com exceção da Shinx conversando com a Pokémon de Chiyo, a caminhada até a enfermaria foi rápida e silenciosa. Felizmente, ainda era no mesmo lugar de antes, então assim que chegaram, foram inundados por um forte odor de medicamentos e desinfetante, assim como um burburinho das pessoas que se encontravam ali.
Foi o líder de ginásio quem chamou a atenção de uma enfermeira e explicou-lhe a situação para que ela levasse Margareth e Linus consigo. Alex até pensou em segui-la, mas agora que estava com a mente mais calma, ele pôde perceber rapidamente que havia mais um som além das vozes de médicos e Pokémon. Um som que havia um tempo já que o menino o ouvira pela última vez, e que imediatamente o lembrou de como estava o céu quando saiu da Bellsprout Tower.
Chuva?
Tão logo fez essa pergunta, o som passou a aumentar gradativamente, até chegar ao ponto em que Alex teve a certeza de que sim, estava chovendo, e sim, estava trovejando.
— Você tem um guarda-chuva? — perguntou Chiyo, um breve momento depois.
Respondeu com um movimento negativo de cabeça.
— E você?
— Também não.
— Droga. — Crispou os lábios. — Isso é um problema.
Como que para enfatizar a afirmação, mais trovões soaram, apenas para raios iluminarem as janelas da enfermaria. Estava aberta, e alguém já estava reclamando do vento no rosto para fechá-la.
De fato, aquilo havia se tornado um problema. Como nenhum dos dois havia trazido um guarda-chuva consigo, se quisessem sair agora, levariam chuva durante toda a uma hora de caminhada de volta a Bellsprout Tower. Não era como se Alex estivesse muito preocupado em pegar uma gripe mais tarde, mas ele estava mais preocupado com os Pokémon e no fato de que ele não trouxera as Pokéballs dos dois consigo. Chiyo também, não, muito provavelmente. Será que os Pokémons dela ao menos tinham uma Pokéball...?
De todo modo, sair agora era implorar para ficar gripado, então estava fora de cogitação. O jeito seria pedir permissão ao líder de ginásio para continuarem ali até a chuva pelo menos abrandar a um nível aceitável. Ou sair dali assim mesmo, qualquer um dos dois.
Mas é claro que Alex estava mais interessado em continuar ali, e foi por isso que ele se virou para procurar Toshiharu.
O líder de ginásio estava no canto da sala, conversando com um dos jovens enfermeiros sobre algo não muito agradável, a julgar pela expressão do rapaz.
— Ah, Alex, você está aí. — O homem chamou-lhes a atenção. Disse mais algumas palavras para o médico, e lá estava Aizawa indo até os dois. — Então, tá caindo um toró lá fora. Cê não acha melhor ficar por aqui até ela melhorar? Sua namorada pode ficar também.
Imediatamente, o rosto de Alex enrubesceu.
— Ela não é minha namorada. — Aizawa o encarou de volta, o olhar dizendo claramente que não acreditava naquilo... Ou algo do tipo. — Mas eu estava indo perguntar isso pra você.
— Perfeito. — Felizmente, o homem ignorou completamente o assunto de antes. — Então podem andar por aí se quiserem, eu só vou mandar prenderem vocês se incomodar as pessoas trabalhando. Se precisarem de mim, provavelmente estarei ali na recepção, mas qualquer coisa falem com quem estiver por lá e vão saber me encontrar. E ah, não se esquece de passar na recepção pra ter seus prêmios.
— Certo, certo. — Assentiu em resposta, um pequeno resmungo antes de Aizawa desaparecer no meio das pessoas mais uma vez.
Ao menos as últimas palavras dele foram interessantes. Se tinha uma coisa que Alex admitia que era, seria um puto curioso. O suficiente para ter uma vontade grande de sair andando pelo ginásio para ver tudo o que ele tinha a oferecer e o que não estava aberto ao público, que só não estava sendo feita antes por — felizmente — existir um lado de sua mente com bom senso o bastante.
Ouviu mais trovões soarem ao se virar para Chiyo, o olhar dizendo tudo o que queria fazer no momento. Ela pareceu relutante no começo, mas, no fim, apenas deu de ombros e passou a segui-lo para fora da enfermaria, Natsuhi a acompanhando.
O ginásio de Aizawa, apesar do título, continuava sendo apenas um prédio comum em meio a tantos outros. Tinha provavelmente uns três ou quatro andares, se a memória de Alex não estivesse falha, o que era bom, porque pelo aspecto da chuva, ela levaria algum tempo para passar.
A primeira coisa que descobriram foi que, naquele mesmo corredor, estavam os banheiros e mais uma pequena sala destinada a exames, como se quem o tivesse feito estivesse preocupado em deixar tudo de importante por perto. As coisas mais interessantes, porém, começavam a aparecer além daquele corredor. Havia salas e mais salas espalhadas por aí, a maioria fazendo com que até o próprio Alex erguesse as sobrancelhas, se perguntando para que, afinal, aquilo tudo servia.
Era além do corredor, também, que o lugar se mostrava não ser tão vazio quanto na recepção. Funcionários, Pokémon, guardas, e até jovens estavam perambulando por aí, e por deuses, como eram muitos.
Interessou-se em observá-los por algum tempo, se perguntando o que fariam e para onde levavam as salas e corredores em que a maioria sumia. De fato, Alex era um puto curioso e estava adorando aquilo tudo, e só não estava comentando nada do tempo porque, de algum modo, Chiyo e Natsuhi conseguiram instalar ali um silêncio quase assustador.
Com o canto do olho, ele tentou buscar na expressão de alguma das irmãs se havia algum motivo para a chuva ser a única coisa que estaria ouvindo, mas parecia que o silêncio já dizia aquilo por si próprio. De repente, Alex começou a se sentir nervoso, e ele já não estava achando a ideia de vasculhar os cantos de um prédio de ginásio tão legal assim.
É claro. Chiyo e Natsuhi aceitaram acompanhá-lo apenas por educação. Ou porque acharam apropriado para alguém que havia acabado de vencer o ginásio. Sei lá. O fato era que elas claramente não estavam interessadas em andar por aí e que ele estava sentindo o monstro da culpa cravar as garras em seus braços novamente. Sim, Alex estava sendo um chato. Sim, aquele monstro era um chato que acabaria com os resquícios de sua felicidade antes mesmo que ele pudesse impedir.
Foi por isso que, em determinado momento, ele simplesmente parou próximo a um corredor vazio o bastante, e se virou para as garotas.
— Uhm... Desculpa por arrastar vocês comigo. — Ele tentou dizer, sem sucesso. Pelo menos tinha mais uma coisa para colocar na lista de coisas que não sabia fazer.
— Mhm? — Demorou um momento para que notassem as palavras de Alex. Quem o fez primeiro foi Natsuhi, o único olho visível exibindo curiosidade. — Ah, não pense que não estamos interessadas. Chiyo só deve estar um pouco distraída.
— ...É? — Ergueu uma sobrancelha.
— É sim — dessa vez, foi Chiyo quem lhe respondeu. A menina caminhou até a parede, e encostou as costas ali, um suspiro escapando de seus lábios. — Estava distraída pensando sobre o Contest.
— Aquele lá que vai ser daqui a três meses? — Ele perguntou, e em resposta, a menina assentiu. — Eu tinha quase me esquecido da existência disso.
— Eu também.
Um silêncio quase desconfortável se instalou entre os dois por um momento. Alex, é claro, tratou de quebrá-lo:
— Agora que eu não tenho mais o ginásio pra me preocupar, o que acha que devíamos fazer?
— Não sei. — Chiyo suspirou mais uma vez. — Não estou com paciência o suficiente para esperar três meses só pra um Contest. — Uma pausa, e ela estava olhando para algum ponto qualquer. — Tem a próxima cidade pra tentar alguma coisa, de qualquer forma.
Alex arregalou os olhos.
— Vai desistir?
— Acho que sim. Não estamos tendo muitos problemas com dinheiro, certo?
Ele fez um sinal negativo com a cabeça. Depois do ginásio, pelo menos, não teriam problemas financeiros durante algum tempo, embora ele não tivesse certeza de quanto dinheiro Chiyo tivesse consigo. Ainda assim, a atitude dela era um pouco estranha.
— Mas porque vão desistir assim? — ele finalmente perguntou. — Não estavam saindo em jornada pelas fitas?
Chiyo deu de ombros.
— A Natsuhi não é muito boa pra Contest.
Emitiu um murmúrio como resposta antes de se juntar a ela na parede. Verdade, mas... Estranho. Fora impressão, ou Chiyo acabara de desviar sua pergunta?
De repente, ocorreu a Alex que ele não sabia o motivo de Chiyo estar saindo em jornada.
Na verdade, ele não sabia praticamente nada sobre ela. Depois do pequeno interrogatório no caminho até Violet, praticamente não houve nada que lhe fora revelado. passado, motivos, para onde iria depois disso e por que estava tão interessada em Alex... Nada. As conversas também pareceram só piorar quando chegaram em Violet. Não se viam muito, e as conversas acabaram se limitando aos treinos e a comentários aqui e ali, nada muito relevante.
Mas Chiyo tinha seguido-o porque ele conseguia entender os Pokémon. Havia ajudado-o quando desmaiara mesmo sem saber quem era, tinha aceitado seguir viagem com ele e o arrastara para a Bellsprout Tower porque tinha sabe se lá quais ligações com os monges de lá.
E agora, ela estava simplesmente desviando sua pergunta por motivos que Alex duvidava muito serem por apenas desconforto de estar na companhia de um desconhecido.
Não. Chiyo e Natsuhi eram totalmente suspeitas. De todas as formas que ele olhasse para a situação, aquilo estava ali, claro e quase estampado na testa de uma das duas — ou por entre os... pelos... (será?) de Akatsuki. Só com isso, Alex conseguia pensar em pelo menos cinco motivos para dizer que estavam escondendo alguma coisa e que ele deveria ir embora sem sua companhia.
Por que, então, ele não se sentia disposto a fazê-lo?
— E quanto a você? — A voz de Chiyo o tirou de seus pensamentos. Alex precisou de um momento para olhar para ela. — Tem mais alguma coisa pra fazer aqui na cidade?
— Nem. — Talvez visitar o laboratório de Igor fosse uma opção, mas Alex não estava muito interessado em ouvi-lo falar, falar e falar. — Quer seguir depois daqui, então...?
— Pode ser. — Ela então olhou para Natsuhi.
Prontamente, a Mawile respondeu:
— Por mim tudo bem também.
— A gente pode tirar esse dia pra preparar as coisas então — sugeriu o menino. — Deve ter algumas coisas que a gente precisa comprar, não?
Chiyo deu de ombros. Certo, ela provavelmente não estava muito interessada em saber disso. Okay. Alex sempre quis liderar alguma coisa mesmo.
O som da chuva foi a única coisa que ele pôde ouvir nos momentos seguintes. Os pensamentos continuavam ali, atormentando-o e instalando a desconfiança sobre ele, mas por mais que Alex pensasse sobre o assunto, lá estava ele, encostado na parede ao lado de Chiyo e Natsuhi, confuso demais para organizar os pensamentos.
Aquele momento em especial se estendeu até que ele acabasse esquecendo o desconforto e acabasse conseguindo o completo oposto disso. A chuva, apesar da intensidade, pareceu apenas ajudar para o momento calmo que se desenrolava ali, com Chiyo olhando para frente. Hoje, seus cabelos estavam um pouco bagunçados: a maioria dos fios estavam tão bagunçados quanto o seu próprio cabelo, com algumas mechas caindo-lhe por sobre o rosto. Parecia tão adorável que uma dessas mechas estava cobrindo parcialmente os olhos âmbar, e...
Ele encerrou o momento estranho rapidamente, quase se dando um tapa por ter encarado a garota tão abertamente quanto agora. Céus, Natsuhi estava ali também. E se as duas pensassem alguma coisa dele...?
— A chuva parece um pouco menor agora. — Como se a própria menção de seu nome em sua mente fosse o suficiente para invocá-la, Natsuhi se fez presente mais uma vez.
Oh. Ela estava certa. O som havia diminuído, e apesar dos trovões ao longe, a chuva provavelmente não passava de uma garoa agora.
— Quer ir embora então, ou...? — Era Alex quem falava agora. O clima estava tão desconfortável agora...
A garota apenas assentiu novamente. Alex fez um som qualquer novamente, então, assim mesmo, o trio fez o caminho de volta à enfermaria.
Aizawa não estava ali, porém, uma enfermaria que ele jurou ter visto ali antes os reconheceu e os guiou até os Pokémon, alegando que já haviam sido tratados e podiam ir embora sem problemas. Teve de sorrir quando Margareth se instalou em seu ombro, e quase riu de Linus murmurando alguma coisa incompreensível quando estava no chão novamente, pronto para acompanhá-lo.
Quando chegaram à recepção silenciosa para pegar os tais prêmios de Alex, o som da chuva não se passava de um ruído fraco do gotejar de água, abafado algumas poucas vezes por trovões aleatórios. Não era Toshiharu que estava ali, mas ainda assim a recepcionista da vez parecia tão animada quanto ele.
Ela comentou alguma coisa sobre Aizawa ser rigoroso com os novatos depois de parabenizá-lo, e no fim, lhe explicou que o dinheiro estava sendo transferido para a conta bancária vinculada ao cartão, onde ele poderia usar o dinheiro em lojas que o aceitassem como pagamento. Por último, foi entregue um conjunto de Ultraballs (olha só), duas caixas relativamente grandes de comida Pokémon e mais alguma coisa que ele não tinha muita certeza do que era, mas suspeitava ser um TM — e isso era muito legal.
Certo, aquelas coisas todas iam dar um pouquinho de trabalho para levar de volta, mas ele podia dar um jeito. A chuva também não parecia que ia prejudicar as coisas caso fossem andando rápido, então...
O grupo sairia logo em seguida, isso é, se não fosse pela recepcionista metida a Aizawa não os chamasse de volta.
— Eu já ia me esquecendo... — disse ela, sem tirar o ar sorridente do rosto. — O Aizawa-san pediu pra que o Sr.Nielchard fosse falar com ele lá no escritório antes de sair. Sem a sua namorada.
— Maldito Aizawa — reclamou Alex, entre dentes. Como se já não bastasse ele o fazendo corar no meio da enfermaria, tinha que espalhar uma informação falsa pros funcionários também? — Ela não é minha namorada.
— Deixa, ele é assim mesmo — a recepcionista riu. — Posso te acompanhar até lá, se não souber o caminho.
Só então ele notou o estranho da situação. Azawa o chamando até seu escritório? Que escritório? E por quê? Será que ele mudara de ideia e queria a insígnia de volta? Aliás, por que raios ele tinha um escritório no ginásio?
— Vai lá. — Chiyo pousou uma mão em seu ombro, apenas por um curto momento. — A gente espera aqui.
— Mas eu quero ir também. — Margareth cutucou-o com o focinho.
— Tá bom, tá bom. — Bufou. — Vou tentar ser rápido, okay?
Um menear de cabeça, e lá estavam Alex, Margareth e Linus seguindo a recepcionista pelo corredor. Para a surpresa dele, havia um elevador ali, e ele realmente odiava elevadores.
O tal escritório dele ficava no último andar, um lugar que, aparentemente, era destinado apenas aos funcionários. Aquela parte do prédio, em especial, parecia completamente diferente do que ele conseguira ver do ginásio; poucas pessoas andando por aí, como funcionários e gente não muito mais velha que o próprio líder de ginásio. A maioria, estranhamente, estava com roupas específicas: jalecos ou ternos.
Eles passaram por mais alguns lugares onde cães da polícia perambulavam. A tão dita sala ficava no final de um corredor, onde um segundo se estendia, possuindo janelas enormes e abertas, por onde se tinha uma visão quase panorâmica da cidade.
A mulher o deixou ali, certificando-se de que Alex se lembraria do caminho de volta, e o treinador, mais confuso do que nunca, adentrou a sala.
Ah. Então ele realmente tinha um escritório. Com uma mesa grande e bagunçada e tudo. A única coisa era que Aizawa não parecia nem um pouco com alguém que fosse ter um escritório só para si, ainda mais com aquelas roupas casuais. Ele parecia até um pouco fora de lugar ali, na verdade.
— Alex — ele o cumprimentou, deixando os papéis que vasculhava para olhar para o treinador. Atrás dele, Alex pôde ver que o Combusken de antes estava ali, distraído com alguma coisa. — E Margareth e... Linus, certo? Que bom que vieram. — Ele fez um sinal para um par de cadeiras próximas. — Podem se sentar ai.
— Okay, você é muito estranho — comentou o menino, puxando uma cadeira para se sentar. Linus se apossou da segunda, parecendo interessado naquilo tudo pela primeira vez. — Tem um escritório e tudo, parece um homem de negócios, mas fica vadiando na recepção e totalmente não parece um líder de ginásio.
— Oras, você acha que aqui tem tanta coisa para fazer quanto na recepção? — Ele se queixou, aparentemente irritado, mas pareceu estar brincando com Alex. — E eu só prefiro roupas comuns, oras.
— Mas desde quando um ginásio tem essas coisas? — Foi Margareth quem fez a pergunta, e Alex tratou de repeti-la para o líder.
— É que não é só um ginásio — respondeu ele, parecendo subitamente mais animado que de costume. — O primeiro andar, pelo menos, é o ginásio. Mas é um laboratório também.
Wow. Agora isso sim era estranho.
— Ahn... okay então. Por que é que você me chamou aqui?
— Porque eu estava com uma puta preguiça de descer lá de novo. — Alex ergueu uma sobrancelha, e diante a sua expressão, o loiro tratou de se explicar: — Mentira, é que eu queria falar sobre um assunto particular mesmo. Talvez tenha sido preguiça, sim, mas eu queria falar disso.
Oh, céus, ele ia pegar a insígnia de volta, não ia?
— Eu notei uma coisa estranha sobre você na batalha, na verdade... — Okay, talvez ele não fosse pegar a insígnia de volta, mas aquilo era preocupante. Droga. — Antes eu notei também. Você me pareceu que estava respondendo os seus Pokémon. E não do jeito normal, mas do jeito que me leva a suspeitar que na verdade você talvez possa entendê-los... — Droga, droga, droga. Ele definitivamente não precisava de mais alguém descobrindo os seus segredos. — O que tem a dizer sobre isso?
Alex hesitou. O olhar do líder de ginásio estava cravado nele, repleto de uma curiosidade misturada a fascínio. Já Alex... Devia estar uma bagunça de pensamentos agora. Ele tinha vontade de se estapear por ter sido tão descuidado. Mesmo que fosse um líder de ginásio, não era suposto de qualquer um descobrir seu segredo. Ainda mais alguém que possuia a porcaria de um laboratório.
— Você vai contar pra ele, Alex? — Margareth cutucou-o com o focinho novamente, exigindo-lhe uma resposta. Ele teve de se esforçar para ignorá-la.
— Não sei do que está falando.
— Qualé moleque, tá na cara que você presta atenção quando os Pokémon falam. — Ele tinha colocado um sorriso estranho no rosto, e agora estava com o queixo apoiado nas mãos. — Você acha que eu não sei que você conversou com o Sanji da última vez que veio aqui, mhm? Ou que estava falando com sua Shinx na recepção também?
— E-Eu realmente não sei o que você quer dizer...
— Agora você está gaguejando. Suspeito.
Maldito.
— E se eu dissesse que só gosto de prestar atenção e responder qualquer coisa pra confundir os outros? — Aizawa simplesmente ergueu uma sobrancelha, o olhar dizendo que não estava acreditando nem um pouco naquilo.
— Okay... — Alex suspirou. — E se eu dissesse que é verdade, o que é que tem?
— Nada, só que você tem muito potencial se esse for o caso. — O líder deu de ombros. — E como eu tenho certeza de que é, vou dizer que isso é muito interessante e que quero fazer pesquisas em você. — O menino arregalou os olhos. — Tô brincando. Só dizer que você tem potencial, mesmo.
— Então porque se deu ao trabalho de me chamar aqui? Preguiça eu acho que não foi...
— Porque — ele levantou a cabeça —, eu estou interessado. Se eu pudesse, realmente faria pesquisas em você, mas... — Um suspiro. — Vou só te interrogar.
— ...Me interrogar?
Ele fez um som de concordância, e deixou o silêncio pairar no ar.
Alex se recostou na cadeira, sentindo três olhares sobre si. De repente, o braço com a cicatriz passou a latejar (ou era sua cabeça?), e ele realmente não soube o que fazer.
— Tá bom, eu te dou um incentivo. — O líder se fez presente mais uma vez. — Se você me ajudar, eu te ajudo também. Já saí em jornada por Johto nessa vida, e ainda sou um líder de ginásio com muito mais do que uma Furret e uma Sandshrew. Podemos manter contato!
— Que proposta horrível. — Sim, Linus estava certo. Alex, porém, não podia negar que estava, no mínimo, interessado. Ainda assim, ele repetiu as mesmas palavras do lobo cinza para o rapaz.
— Okay, esse incentivo não deu certo... — Aizawa hesitou por um momento. — Tá, se você não cooperar pelo menos um pouquinho, eu vou... hm, vou... Vou contar tudo pra um cientista doido que tem aqui. E ele é ruim. Você vai morrer do tanto que ele fala sobre mil coisas diferentes.
— Acho que você não sabe ameaçar pessoas.
— Não mesmo, só estou te zoando. Minha intenção nunca foi te forçar a falar o que não quer, de qualquer forma.
Menos mal. Ainda assim, Alex não se permitiu relaxar totalmente. Ele ainda estava com aquele olhar estranho nos olhos verdes, e bem, nunca se sabe o que as pessoas podem fazer, não?
— Apesar de eu querer saber coisas, eu quero te dar um aviso. — O líder de ginásio continuou, tirando Alex de seus pensamentos. — Você realmente tem potencial com essa sua habilidade. Poder conversar com seus Pokémon assim te dá muitas vantagens, a coisa é só você saber como usar e não repetir um erro como o da última vez. — Okay, ele não precisava lembrar Alex disso. — E ter cuidado também na hora de conversar com eles e público. Eu sou uma pessoa muito legal, mas eu conheço no mínimo umas dez pessoas que não seriam tão legais assim não.
O garoto apenas fez um gesto com a cabeça. Ainda havia muita desconfiança por parte de Alex, porque ele sinceramente não acreditava que Aizawa pudesse tê-lo chamado ali só para dizer algo como aquilo. Ele dizia ser legal, mas não, Alex definitivamente não acreditava que ele era tão legal quanto dizia.
Não havia como alguém ser tão legal assim sem segundas intenções.
— Posso ir embora agora? — Alex ergueu os olhos para o louro. Aquilo já estava começando a ficar desconfortável, e o treinador só queria sair dali de uma vez. Aizawa era muito estranho para Alex entender.
— Aham. Eu não estava brincando quando disse que podemos manter contato, porém. — Com isso, ele puxou alguma coisa da gaveta e o entregou. Um cartão com seu nome e um telefone. — Pode me ligar se precisar de alguma coisa ou levar uma pancada na cabeça e quiser ser estudado por um bando de cientistas doidos — riu, tirando apenas um sorriso nervoso de Alex. Não que essa proposta fosse mais reconfortante que a última. — Agora some daqui que a tua namorada deve estar cansada de te esperar.
— Quantas vezes eu vou precisar dizer que ela não é minha namorada?
— Mas você gosta dela?
— Gosto. Não, pera, não desse jeito que você tá pensando, cacete! — Ele quase teve de gritar com o homem, porque meu deus, ele estava fazendo um sorriso muito malicioso. — Só... Não me enche com isso. Não é verdade.
Mas ele tinha aquele odioso olhar que adultos tinham quando acham que sabiam alguma coisa que os mais novos estavam escondendo, e caralho, Alex realmente odiava aquele olhar.
No fim, Margareth o incomodou sobre irem embora logo, e, relutante, ele a obedeceu. Quando ele enfim deixou o aposento, Alex teve certeza de que teria muito para pensar naquela noite.
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