Notas iniciais
NÃO É SEGUNDA FEIRA MAS EU TÔ POSTANDO tá, dessa vez vocês podem me matar. Eu definitivamente atrasei bastante com a postagem desse capítulo, não? Uuuugh. Peço desculpas por isso. Estive enfrentando mais problemas do que somente uma dificuldade absurda de narrar com outro personagem (SIM ESTAMOS NA NARRAÇÃO DA CHIYO AGORA), o que me atrasou bastante. Além disso, de alguma forma eu voltei a procrastinar, o que me obrigou a tomar uma medida bem drástica de baixar uma extensão pro Opera que literalmente não me deixa fazer nada no navegador pra enfim escrever, ou minha animação não deixaria. MAAAAAAAAAS aqui está o capítulo. Provavelmente com alguns erros, porque eu literalmente acabei de dar uma revisada rápida pra vir aqui postar, pra arrumar mais tarde, quando eu chegar do curso. eeee como o capítulo é da Chiyo, eu recomendo que, para vocês pegarem a vibe dela, botem isso daqui pra ouvir em loop enquanto leem: https://www.youtube.com/watch?v=2br7I6CLeos For now, I'll see you guys lá embaixo. Boa leitura o/

Chiyo se revirou na cama, mais uma das muitas vezes que fazia durante a noite. O corpo não parecia disposto a acordar ainda, embora Chiyo soubesse que os sonhos já estavam se dissipando. Resmungou quando enfim se deu conta do fato, agora notando os raios de sol, penetrando o pano fino da cortina da janela apenas para incomodá-la, quase uma ordem para que se levantasse logo da cama.

Alguns segundos a mais se passaram até que enfim abriu os olhos. Com um pouco mais de preguiça do que gostaria, Chiyo afastou os cobertores e pôs-se de pé. Certo. Aquele seria um dia cheio, então era melhor que ela acordasse logo. Foi direto a janela, abrindo a cortina e permitindo que o sol iluminasse o restante do quarto, para só então dirigir-se para o banheiro. Depois disso, o que tinha para fazer mesmo? Arrumar a mochila com os pertences restantes espalhados pelo quarto, ou algo assim? É, isso.

Cinco minutos de banho gelado depois e com todos os pertences organizados, só lhe restava acordar Natsuhi, o que, ela devia dizer, não seria uma coisa muito interessante de se fazer.

— Natsuhi, hey — chamou ela, aproximando-se do beliche. A menina estava enrolada em seus cobertores, com os cabelos bagunçados espalhados por todo o travesseiro. Chiyo cutucou-a com um braço. — Acorda. Já está na hora de irmos.

“Mhm...” ela resmungou, remexendo-se na cama. “Já...?”

— Já. Levanta logo. Ainda temos que passar pra ver o tio.

“Aham...” um bocejo, e lá estava a menina saindo da cama, as pálpebras pesadas, ameaçando fecharem e caírem no sono mais uma vez. Por fim, Natsuhi saltou para chão. “É o dia de ir para Azalea, não?”

— Isso. Acordar o Alex, falarmos com o tio e irmos pra Azalea.

“Ahh...” A conversa morreu por alguns segundos. “Acha que é mesmo uma boa ideia continuar acompanhando o Alex?”

Ela deu de ombros.

— Não tenho certeza. Ele não me parece tão perigoso assim. — Muito pelo contrário, aliás. Chiyo estava quase declarando que Alex não oferecia perigo algum, que ele só... Era alguém afetado pelas circunstâncias. Que sabia atrair coisas ruins para o seu lado, talvez. Ainda não se sentia segura o suficiente para confirmá-lo, porém. Apesar da aparência e do jeito simpático que possuía, o garoto poderia muito bem estar escondendo alguma coisa, algum segredo que revelasse que ele não era lá tão ingênuo assim. E nesse caso, Chiyo preferia continuar prevenindo do que remediar. — Qualquer coisa se ele fizer algo a gente joga ele pro Akatsuki.

“É, pode ser. Ele não tem um tipo físico muito ameaçador, de qualquer forma. E com os Pokémon...”

Definitivamente, Alex não poderia fazer nada com Margareth e Linus. Era mais provável que Akatsuki os engolisse ou alguma coisa assim se sequer tentassem atacá-los. De qualquer modo, Chiyo apenas se preocupou em arrumar as camas do quarto, tomando cuidado para não acabar acordando Yataragasu sem querer, dormindo pacificamente na cabeceira da cama de baixo. Aquele era um assunto para depois. Agora tinha que se preocupar com outras coisas. Como, por exemplo, com o fato de que ainda tinham de visitar o vidraceiro para ver sobre o olho de vidro de Yatagarasu, para que só então o Pokémon decidisse o que fazer.

Apesar de seus esforços, Yatagarasu acabou acordando do mesmo jeito, reclamando alguma coisa sobre estar cedo demais para essas coisas. O corvo esticou as asas, uma a uma, e olhou para Chiyo. Quem falou primeiro, porém, foi ela:

— Então... Hoje é o dia de buscar o seu vidro.

“Ah, já estava na hora. Não sei como é que os humanos podem demorar tanto tempo pra fazer só um vidrinho.”

— É porque é sob medida. Enfim. — Ela limpou a garganta. — Depois disso, nós vamos seguir direto. Se quiser ir embora depois, pode ir. Se não quiser, pode ficar também.

Agora, Yatagarasu estava esticando uma das pernas, movendo os dedos para aliviar os músculos.

“Prefiro ficar” declarou ele, por fim. “Com você eu tenho comida de graça. E caçar é chato quando só se tem um olho para enxergar coisas. Além disso,“ ele ainda fez questão de adicionar, um sorriso presunçoso no rosto “quem sabe você não compre mais algo brilhante pra mim?”

— Não. — Fez uma careta. — Eu não tenho dinheiro pra isso. O seu olho de vidro já me custou o olho de um Sableye.

“Quem sabe? Talvez se eu conseguir quebrar esse meu novo olho de vidro, você me compre alguma coisa.”

— Nem pensar. Você sabe quanto essas coisas custam?

Yatagarasu deu de ombros, um grasnar baixo para sinalizar que ele pouco se importava. Chiyo resmungou novamente, ressentida. Ao menos ela tinha mais alguém no time agora, o que poderia ajudar em algum Contest, coisa que Chiyo certamente estava precisando participar.

Não precisaram de muito depois disso. Yatagarasu, sem fazer quaisquer cerimônias, instalou-se no ombro de Chiyo, enquanto Natsuhi ficou ao seu lado, os cabelos consideravelmente menos bagunçados que antes.

Dirigiram-se ao quarto de Alex logo em seguida, felizmente próximo ao dela. O garoto já estava acordado a esse ponto, uma toalha nos ombros e apenas uma bermuda no corpo, sinal de que provavelmente havia acabado de sair do banho. Quando o viu, ela o encarou por um momento. Alex a encarou de volta, as sobrancelhas erguidas, embora nada em especial tenha sido dito. Suas coisas já estavam arrumadas, então não foi preciso esperar muito para enfim saírem. Encaminharam-se direto para a entrada da Bellsprout Tower, mais especificamente a recepção do lugar, onde Mitsurugi deveria estar, quase dormindo no balcão devido ao horário. Além dele, seu tio também estaria ali para vê-los partir.

De fato, quando chegaram a recepção, Mitsurugi estava com o queixo apoiado em uma das mãos, os olhos baixos, de pálpebras que ameaçavam se fechar a qualquer momento. Próximo ao balcão, estava o seu tio, já com os trajes usuais que sempre usava quando estava no templo.

Ao vê-la, o homem deu um sorriso.

— Ah, aí estão vocês dois — disse ele, alegremente. — Já estão prontos para sair?

— Opa, estamos sim. — Alex retribuiu o sorriso rapidamente, mas foi só isso. Que curioso. Ela não sabia que Alex ficava sem jeito diante das pessoas tão facilmente.

— Que a viagem de vocês seja segura, então.

— Obrigada, tio Matayoshi — Chiyo fez uma breve reverência. Alex retribuiu o gesto junto com Natsuhi apressadamente, um sorriso nervoso no rosto. — E obrigada pela hospitalidade.

— É sempre um prazer alojá-la aqui. Sempre que precisar, pode vir falar comigo.

— Obrigada. — Uma pausa. — Bem... Então vamos indo.

— Espera só um momento — pediu ele, e foi o que Chiyo fez. Matayoshi pôs as mãos nos bolsos da túnica dourada e vermelha que usava, procurando alguma coisa que, se ele não estivesse remexendo os bolsos, Chiyo nunca imaginária que estaria ali. — Queria te dar algo. Pra ajudar nos Contests. Você tem só esse Murkrow aí no seu ombro, não?

Ela limitou-se a assentir, ignorando completamente o olhar estranho que recebeu de Alex. Matayoshi, por sua vez, finalmente encontrou o que estava procurando. Em seus dedos, equilibrado entre o indicador e o dedo médio, havia uma pequena Pokéball rosa e branca, com um coração também rosa no centro, logo acima do botão usado para expandi-las e liberar o Pokémon contido ali. A garota não deixou de ficar surpresa.

— Essa é uma Pokémon que estava conosco aqui no templo — explicou Matayoshi, com um sorriso alegre no rosto. — Uma Cherubi. Um bom Pokémon para se usar em Contests. Você participa de Contests, não?

— Sim, sim, participo. — Assentiu ela, ainda estupefada demais para dizer qualquer outra coisa.

— Oh, então acho que ela pode ser de grande ajuda. Não precisa se preocupar em explicar a situação também, já fiz isso. — E entregou-lhe a esfera, o sorriso ainda no rosto. Céus. Sabia que Matayoshi era bastante gentil quando se tratava dela e de pessoas com tanta intimidade assim, mas um Pokémon para Contest...?

— Muito obrigada, tio. — Fez mais uma reverência. — Muito, muito obrigada mesmo.

Matayoshi apenas dispensou seus agradecimentos com um breve gesto de mãos.

— Boa sorte na sua viagem, então. E tenha cuidado, Natsuhi.

Natsuhi, por sua vez, respondeu-o com as mãos, sendo a última a agradecê-lo pela quase excessiva hospitalidade. Alex também o fez, murmurando algo baixinho, e após suas últimas despedidas, deixaram o lugar.

Felizmente, a chuva de dois atrás havia sido apenas passageira, de modo que o céu estava consideravelmente limpo quando saíram. Havia poucas nuvens no céu, e a treinadora arriscava dizer que havia um clima frio pairando no ar, que os leves raios de sol da manhã ainda não haviam sido capazes de afastar. Pelo fato de ainda estar cedo demais, as ruas estavam, em sua maior parte, vazias. Um ou outro carro, criança saindo para a escola, ou mesmo algum treinador andando lentamente com seu Pokémon era o máximo que viam, porque, de resto, as ruas estavam quase desertas. Até temeu a possibilidade de que o seu último lugar de visita antes de enfim deixar a cidade pudesse estar fechado devido ao horário, porém a caminhada do templo até a loja tomou mais tempo do que o esperado. O templo, é claro, ficava nas extremidades da cidade, consideravelmente longe das coisas do que o Centro Pokémon que ficaram.

Assim, quando finalmente deixaram a cidade pela saída mais próxima depois desse ponto, o sol já estava alto no céu, iluminando o dia e permitindo que a vida enfim começasse enquanto o grupo deixava a cidade. O orvalho reluzia na mata, fazendo-se cada vez mais visível à medida que deixavam a cidade.

Segundo Alex, a rota que iriam percorrer era uma das maiores vistas até então, sua maior parte formada por planícies e um longo caminho reto, sem tantas árvores quanto estavam acostumados a ver. Primeiro, é claro, passariam por uma parte de floresta não tão grande assim, para logo depois começarem a ver as planícies de fato. Depois disso, ainda havia um túnel dentro de uma montanha, e logo após mais e mais planícies. Em outras palavras, aquela seria uma viagem cansativa. Longa e cansativa.

Longa, cansativa, e cheia de desconforto.

Silenciosa também deveria ser adicionada a lista, principalmente quando Chiyo notou que, no trajeto todo até a saída da cidade e a área urbana ser deixada de lado a cada segundo que se passava. Os únicos sons que podiam ser realmente ouvidos eram o de seus próprios passos. Vez ou outra, uma conversa entre os Pokémon soltos; o grasnar de Yatagarasu misturado aos resmungos curtos e diretos de Linus, ou mesmo os sons guturais de Akatsuki, envolvido em algum conversa particular com Natsuhi. Porque, de resto, nenhuma conversa em particular estava sendo mantida entre Alex e Chiyo.

Não que a garota estivesse interessada em manter uma conversa. Chiyo já tinha o suficiente para se preocupar, e resignar-se o silêncio era a melhor das opções que tinha no momento para resolver seus assuntos. A presença de Alex no grupo, levando Margareth no colo, sempre por perto e se certificando de tempos em tempos que ninguém estava sendo deixado para trás a impedia de tentar conversar com a irmã mais nova — surpreendentemente, eram sempre nesses momentos que ela desejava partilhar o conhecimento de uma língua desconhecida com Natsuhi e Akatsuki, apenas para dizer coisas que ninguém mais entenderia. Só assim conseguiria a liberdade para lidar com os próprios pensamentos e decidir, o que, afinal, deveria fazer agora.

Chiyo suspirou enquanto caminhava, pousando seus olhos sobre o garoto que seria a maior fonte de seus problemas. Ele era a única coisa sem solução no momento, a única que fazia Chiyo começar a duvidar se realmente fizera a escolha certa ao continuar viajando com ele. Ele parecia inocente, sim, alguém livre de suspeitas e que pouco poderia fazer contra ela e a irmã, ainda mais com uma Shinx e um Poochyena como os que possuía, mas, ainda assim...

Talvez a imbecilidade que demonstrara até então não fosse uma característica sua de fato. Talvez Alex soubesse sim batalhar. Talvez tivesse algum Pokémon mais forte consigo, escondido na mochila cheia de coisas que levava nas costas, apenas esperando o momento certo para ser usado. Talvez ele oferecesse mais perigo do que aparentava, e se isso fosse verdade, então o que seria de Chiyo e Natsuhi? O que poderiam fazer elas contra os dois, mesmo que tivesse confiança em suas habilidades e em sua capacidade de se defender sozinha?

Não. Definitivamente não. Chiyo saberia se Alex estivesse trazendo outro Pokémon consigo.

Em uma situação mais realística, porém... Alex podia não ser um perigo por si só, mas ainda podia ter algum segredo que não estava lhe contando. Alguma coisa que, quando revelada, determinaria se suas suspeitas em cima do treinador estavam certas ou não. Se ele estava ou não envolvido na maior de duas preocupações. Se estivesse... Então Chiyo teria mais problemas com que conseguiria lidar.

Por isso, só por isso, ela não conseguia se sentir confortável com a presença do treinador. Alex podia dizer o que fosse, podia parecer tão inocente e sincero quanto quisesse, no entanto sempre haveria uma parte de Chiyo que tinha dúvidas, receios de permitir que baixasse a guarda em sua companhia. Não poderia haver uma conversa genuína enquanto as dúvidas que assolavam sua mente não recebessem respostas. Não se permitiria mostrar e deixá-lo ver mais do que já conseguira.

Nesse momento, inclusive, Chiyo quase se sentia mal por isso. As tentativas de Alex de iniciar e manter uma conversa que não fosse meramente técnica era de se admirar. Principalmente agora, com o nervosismo evidente em suas atitudes. Os olhos constantemente indo em sua direção, apenas para desviar para outro lugar, trêmulos. Os braços, parecendo quase a ponto de apertarem Margareth mais do que o necessário, e talvez por isso pareciam tremer de tempos em tempos. Pela expressão, ele claramente desejava dizer alguma coisa. Mas Chiyo, é claro, não queria conversar agora. Quer dizer, queria sim conversar, mas com Natsuhi e sobre assuntos que não seriam seguros de serem ditos agora.

— Uhm... — Como se estivesse notando seus esforços no momento certo, a treinadora o ouviu dizer. A voz estava mais relutante que de costume. — Então, uh... Acha que vai chover?

Murmurou alguma coisa em resposta, levantando os olhos momentaneamente para olhar para o céu. Não havia nuvens.

— Não, não tem nuvens no céu.

— Ah... — Alex caiu no silêncio novamente. Mais alguns momentos se passaram, e ele tentou de novo: — É bem ruim que a gente vai demorar pelo menos uns quatro dias pra chegar a Azalea, não? Quer dizer, bem que podiam ter feito um caminho alternativo ou algo assim.

— Não daria para ter um caminho alternativo. A distância entre as cidades ainda é grande.

— É verdade, mas... — Se calou novamente, desviando o olhar. — Porque será que tem esse espação entre as cidades?

Deu de ombros.

— Provavelmente Azalea não quis fazer nada com essa parte ainda.

— Entendi. Já esteve em Azalea antes?

— Nunca.

Ele soltou um murmúrio ressentido. Mais alguns momentos de silêncio — pelo menos entre os dois — se passaram, e os olhos de Alex pousaram em Natsuhi. Assim como antes, parecia envolvida em sua conversa particular com Akatsuki.

— Mas afinal — ele resolveu falar mais uma vez —, porque é que a Natsuhi estava falando em língua de sinais com o seu tio?

Suspirou. Ele era bem persistente, não?

— As pessoas não aceitariam ela como minha irmã se ela não fosse humana.

— Faz sentido. Até porque não tem como ela falar normalmente com as pessoas, né? — Limitou-se em assentir.

“É por isso que uso as mãos” interveu Natsuhi, as palavras incompreensíveis de antes subitamente tomando forma.

— Ahh bom. Então você se faz de muda pras pessoas continuarem achando que é uma pessoa?

Ela decidiu não ouvir mais a conversa. Ao menos Alex conseguira mais alguém para conversar durante algum tempo, até que os rosnados de Akatsuki chamassem sua amiga de volta a seja lá qual assunto estivessem conversando. Alex ficou com um sorriso torto no rosto, observando Chiyo com o canto do olho na esperança de que ela pudesse estar exibindo uma expressão de quem queria socializar. Não estava.

Felizmente, o garoto parou de tentar depois disso, preferindo voltar-se para Margareth, finalmente deixando-a em paz com seus pensamentos. Chiyo, é claro, não se via capaz de achar solução para seus problemas, então apenas deixou-se caminhar num passo lento, porém rápido o suficiente para não ser deixada para trás, muito menos receber uma advertência de Alex por isso. Os sons do grupo e da floresta eram muito poucos, de modo que os pensamentos de Chiyo por vezes caminhavam por qualquer um de seus assuntos, preocupações levianas que, parando para pensar, era melhor do que se estressar com o que não tinha solução próxima.

O assunto da chuva, por enquanto, não parecia lá tão preocupante assim, pelo menos não com o clima ameno e agradável que encontravam, de um céu azul praticamente sem nuvens. Não demorou muito para adentrarem numa floresta, cortada pela estrada principal da rota; uma estradinha de terra cheia de folhas, galhos, e grama crescendo aqui e ali, em alguns pontos ameaçando tomar completamente o espaço oferecido. A quantidade de árvores, em comparação a última floresta que haviam percorrido era relativamente pequena, de modo que o sol, e até mesmo o que havia por aí pudesse ser visto, até ser completamente oculto pelas partes mais densas da floresta. Quase um bosque, na realidade. Se a chuva realmente resolvesse aparecer, poderiam procurar abrigo para proteger a si mesmos e seus pertences. E, se a suposição de Alex estivesse certa, então pelo menos no primeiro dia de viagem não teriam de se preocupar em dormir a um céu aberto de planície.

Almoçaram próximo à estrada de terra, onde as árvores estavam bem mais separadas, oferecendo um local perfeito para encostar-se próximo a fogueira e preparar o almoço. Este também foi tão calado quanto a viagem. Alex quem preparou as coisas dessa vez, remexendo a panela com a comida dos Pokémon enquanto Chiyo descansava com as costas numa árvore, de olhos fechados.

Não houve mais nenhuma tentativa de conversa por parte de Alex, nem mesmo quando terminaram o almoço e voltaram a seguir viagem, preocupados com a distância que ainda tinham de percorrer até alcançar as planícies. Em determinado momento, até mesmo os Pokémon pareceram ser afetados por isso, fazendo o grupo cair num silêncio tenso, nervoso. Um clima pouco agradável, considerando como haviam levado a viagem até agora.

E foi mais ou menos nesse momento da viagem, em que tudo estava silencioso e tenso, que Chiyo começou a preocupar-se.

Não era nem com a possibilidade de as nuvens juntarem-se durante aquele resto de tarde — ou talvez quem sabe a noite —, tampouco com os outros perigos que um quase bosque como aquele podia oferecer — sabe se lá que tipo de Pokémon selvagem podiam encontrar por ali. Era, ao invés disso, um desconforto semelhante ao que estava sentindo com a presença de Alex; a sensação de que não podia de fato relaxar, nem mesmo cansada e com os pés doloridos pela caminhada forçada. A sensação de que, talvez, houvesse algo a mais para se preocupar ali. A diferença era que o talvez dali não era tão talvez assim. E que essa sensação parecia bem mais forte, quase como um dedo frio passeando pelo braço exposto, alertando-a do... Perigo? Talvez. Não sabia ao certo.

Em diversos momentos lançou olhares para Natsuhi e sua bola de pelos repleta de dentes, grunhindo vez ou outra para a Mawile. Sempre que Natsuhi o respondia, desejava mais do que nunca saber aquela língua estranha também. Chiyo tinha a impressão de que suas preocupações eram dignas de ser relatadas.

Novamente, porém, Alex estava ali para atrapalhar.

Ou melhor, ele estava, mas não tão perto assim. Provavelmente em algum momento de descuido por parte do garoto, mergulhado em sua depressão por ter pouca gente com quem conversar, estava muito mais a frente de Chiyo e Natsuhi do que o esperado, quase deixando-as de lado. Nem mesmo olhava mais para trás, para se certificar que as duas estavam sendo deixadas. Distância essa que, ao seu ver, parecia o suficiente para que não os ouvisse.

— Natsuhi — chamou ela, um momento mais tarde de olhar para Alex. Margareth, Linus e Yatagarasu caminhavam com ele, em um passo apressado.

“Hm?” A Mawile olhou para ela, Akatsuki acompanhando seu olhar com um mover de cabeça.

Hesitou por mais alguns momentos.

— Acha que deve ter alguma coisa por perto?

“Alguma coisa o que?” Ela pareceu confusa.

— Não sei... — Mais um momento de hesitação. — Parece... Ter alguma coisa. Estou com uma sensação bem... — Ela não soube descrever. — Incômoda.

“Estranho. Não notei nada por perto até agora. Akatsuki?”

Um grunhido foi a resposta de Akatsuki, seguido de um erguer de olhos. Mais um grunhido, e Natsuhi traduziu:

“Também nada. Tem certeza de que é algo tão incômodo assim?”

— Tenho sim. Só... Não sei muito bem o que é. Não sei, só é ruim.

“Quem sabe não seja um Pokémon? As presenças deles sempre podem confundir.”

— Deve ser. — Ponderou ela. — O problema é: e se for algum Pokémon hostil que esteja nos seguindo?

“Akatsuki morde eles.” Como resposta, Akatsuki ergueu-se orgulhosamente. “Ou a gente manda o Alex ver o que é.”

— É, pode ser.

Certo, parecia um tanto cruel, porém era uma solução bem melhor do que as duas irem olhar o que a estava incomodando. E se não fosse um Pokémon hostil, Alex poderia muito bem entender quais eram suas intenções muito antes de Natsuhi e da própria Chiyo. Definitivamente, um alívio a mais para a garota, porém não total. O silêncio do grupo continuou, tanto por parte de Chiyo quanto de Alex, ainda consideravelmente a frente dos dois.

Por todo o restante do dia, além de Chiyo teve de lidar com a sensação incômoda cada vez mais presente, teve também de lidar com o silêncio. Ninguém mais ousou puxar conversa, muito menos deixar o grupo completamente junto novamente até que os sinais de exaustão começaram a se mostrar, quando o sol já estava retirando-se para repousar atrás das nuvens.

Foi antes do pôr do sol que decidiram enfim parar, completamente exaustos pela caminhada constante. Foi um pouco frustrante até, considerando que na verdade conseguiram sim vencer uma quantidade considerável de distância. Se Chiyo apertasse os olhos, poderia ver que a saída da floresta não estava tão longe assim; não passava de alguns minutos de caminhada. Alex, porém, alegou que seria bem mais seguro passarem a noite na floresta ainda, mesmo que em seus limites, pois não tinham garantia de que haveria um abrigo que não os fizessem se sentir completamente expostos ao mundo; visíveis e vulneráveis. Procurar no escuro também não era uma opção.

Portanto, acabaram encontrando um abrigo próximo a estrada principal da rota, a esse ponto quase invisível por conta de diversos fatores naturais. Ninguém parecia preocupado o suficiente em retirar a mata espessa que crescia na terra, ocultando boa parte do caminho. O espaço que escolheram não era exatamente uma clareira, e sim um lugar onde as árvores estavam bem mais afastadas uma das outras, fornecendo espaço o suficiente para duas pessoas e seus Pokémon passarem a noite. De resto, praticamente toda a floresta estava assim, de modo que, em qualquer lugar que Chiyo olhasse, podia ver os arredores, até que ou os olhos perdiam-se na saída da floresta, ou nas partes de mata mais densa.

De alguma forma, aquilo a fez se sentir... Exposta. Exposta a quem quer que fosse o Pokémon que atrapalhava sua percepção, com uma presença ainda forte e incômoda do que antes. Ruim, incômoda, ela já não tinha mais certeza. A única real certeza era que Chiyo tinha a impressão de que deveriam fazer alguma coisa sobre o assunto, e logo.

Mas, bem, ela não podia mais informar Natsuhi da situação com Alex tão próximo quanto agora. E lançar olhares com mensagens criptografadas também não era uma opção. Não seria tão fácil fazer Natsuhi compreendê-los... Seria?

Em um momento de irritação completa, Chiyo quase recorreu seus olhares para Yatagarasu, descansando num galho baixo de uma árvore próxima a Alex. Ambos os seus olhos, tanto o de vidro quanto o que ainda enxergava estavam cravados no pequeno acampamento, curioso com qualquer coisa interessante que pudesse se seguir por ali. O novo olho encaixara perfeitamente no espaço vazio que a perda do globo ocular deixara. Quem olhava não sabendo desse fato, poderia quase dizer que aquele era o seu olho real, uma esfera sem vida e que nada podia enxergar.

Balançou a cabeça. Não, a menos que magicamente algum deles desenvolvesse telepatia, seria impossível compreender suas mensagens silenciosas.

Chiyo então optou por fazer a única coisa que estava em seu alcance para resolver parte de sua situação.

— Alex, porque não deixa que eu cuide das coisas aqui? — perguntou ela, com um sorriso no rosto.

— ...Ahn? — Ele levou um momento para compreender.

— Para buscar lenha, quero dizer. Você poderia ir.

— Ah. Entendi. — Ele meneou a cabeça diversas vezes. — Entendi. Pode deixar que eu vou, então.

Mais um sorriso rápido, dessa vez para agradecê-lo, e Alex se levantou do cantinho em que mantivera o corpo encostado até então, Margareth sendo a única que se disponibilizara para segui-lo. Alex tinha uma expressão quase emburrada no rosto, o que não era pra menos, considerando como fora a viagem para o garoto até agora. O que, afinal, Alex havia feito de errado? Será que ele era tão chato assim a ponto de Chiyo querer fazê-lo sair do acampamento? Claro, talvez ele fosse um pouquinho insistente em querer conversar, mas... O que havia de errado com isso?

O menino bufou, caminhando para cada vez mais longe do acampamento. Podia notar que Margareth estava em seu encalço, de vez em quando pegando algum galhinho seco com a boca, carregando-o alegremente enquanto acompanhava os passos de seu treinador. Aquilo o fez sorrir.

— Deixa que eu levo isso aí, Maggs — pediu ele, parando para pegar o galho da Pokémon.

— Mmfr. — Margareth ergueu a cabeça, entregando-lhe o galho. Assim que estava livre do peso extra, continuou: — E você, não fique com essa cara de quem começou uma Oran estragada.

Ele fez uma careta.

— Não tô com nenhuma cara assim.

— Tá sim — provocou a Shinx, um sorriso divertido no rosto. — E tá com essa cara ainda só porque não te deram atenção o dia todo.

— Ah, é claro. Imagina você receber uns corte tramontina tipo aqueles, claro que vai ficar emburrada também.

— Verdade, verdade. — Ela meneou a cabeça, sem deixar o sorriso fugir do rosto. — Mas não é pra tanto, né. Ainda tem eu e o Linus pra conversar. Ou só eu mesmo. Linus fala tanto que não conta.

Alex sorriu. Realmente, se dependessem de Linus, então a viagem provavelmente seria mais silenciosa do que caminhar com Chiyo e Natsuhi. Esse pensamento, porém, não serviu para distraí-lo completamente de sua irritação. Tão logo o sorriso divertido surgiu em seu rosto, já se foi novamente. Pelo menos Linus não iria mandá-lo para longe com um pedido tão simples quanto ir buscar lenha. Certo, admitia que podia ser um pouco chato queria, e talvez quem sabe sua insistência podia realmente encher o saco às vezes, mas... Realmente era necessário mandá-lo para longe assim, quando nem ao menos estivera falando tanto? Será que sua presença era tão incômoda assim para Chiyo? Não, Alex sabia quando estava sendo chato demais, e felizmente tinha o bom senso de reconhecer o momento para parar. E fora o que ele fizera, ora essa.

Bom, mas ainda assim a culpa daquilo era toda dele. Sabia que Chiyo era uma garota bastante suspeita, reclusa, e que não iria se dar ao luxo de contar-lhes seus segredos tão fácil assim. Provavelmente ela o mandara para longe justamente porque tinha algum assunto para conversar com a Mawile ou algo assim. De qualquer forma, soubera dessas consequências no momento em que a chamara para acompanhá-lo no restante da viagem. Não seria agora que iria se arrepender de sua decisão, certo?

Além disso, havia um certo risco em continuar pensando nesses assuntos. Por esse motivo mesmo, limitou-se a suspirar enquanto pegava galhos e troncos para levar consigo, por vezes carregando os que Margareth também levava, sempre entregando-os com um sorriso no rosto. Ou melhor, com um sorriso que durou pouquíssimos segundos, substituído rapidamente por um cenho franzido da Pokémon.

Alex também franziu o cenho, confuso.

As orelhas da Pokémon moviam-se para os lados, mais especificamente para a direção que estavam seguindo, quase nunca mantendo-se na posição original. E oh, Alex já vira aquela cena antes.

— O que foi, Maggs? — perguntou ele, ainda agachado, porém agora com um joelho apoiado no chão. De certo modo, Alex esperava que não fosse nada. — Está ouvindo alguma coisa?

— Mhm. — Assentiu a Shinx, agora virando a cabeça para a direção que suas orelhas insistiram em se mover. Com o cenho ainda franzido, ela levou alguns segundos para continuar: — Parece... Que tem alguém discutindo por perto.

— Não vai me dizer que é outro Igor discutindo com um Caterpie, vai?

— Não, criatura. — Bufou ela. — Até porque dessa vez parecem estar rebatendo argumentos.

— Ah tá. — Silêncio. — Deveríamos ir lá ver, ou...?

— Você quer?

Ele ponderou por um momento. Claro que ele queria. Agora que sua curiosidade havia sido atiçada, certamente que queria descobrir o que havia atraído os ouvidos de Margareth. Quem sabe não fosse alguma coisa interessante, ou, melhor ainda, um Pokémon novo?

Ainda assim, ele resolveu perguntar:

— Acha que é seguro irmos?

— Sei lá. Mas agora eu quero descobrir.

Alex assentiu sabiamente, e com certa dificuldade pelo peso que levava, se levantou novamente. Margareth foi caminhando na frente, guiando-se pela audição, ignorando completamente o fato de que os dois ainda não tinham lenha o suficiente para voltar para o acampamento. Bom, se o que Chiyo queria era manter Alex afastado do acampamento, então ela estava com sorte, porque ele definitivamente demoraria um tempo.

Momentos depois de caminhada, os ouvidos de Alex enfim conseguiram captar os sons que Margareth mencionara. Estavam um pouco fracos e confusos, mas pelo menos Alex não podia dizer que não os estava ouvindo. Era alguma coisa entre vozes finas. Duas vozes finas e irritadas, mandando palavras confusas, quase como uma briga de criança. Mas isso não podia ser uma opção, podia? Crianças não podiam seguir em jornadas, e crianças não viajavam em florestas como essa.

Os dois resolveram aproximar-se cautelosamente, tentando esconder-se por entre as árvores, tarefa esta que facilmente foi descartada; a floresta era aberta demais para isso. Portanto, ficaram com a única opção possível: caminharam direto para as vozes, pouco se importando se iriam ou não vê-los. E, pelo o que se revelou, eles provavelmente não os notariam.

Alex ficou especialmente surpreso em descobrir que as vozes pertenciam a um par de Pokémon, talvez mais do que ficaria em encontrar duas crianças discutindo. Quer dizer, pareciam duas crianças pequenas discutindo, mas olhando mais de perto, estava claro de que as semelhanças eram muito poucas. Pela aparência humanoide que ambos detinham, porém, parecia muito fácil confundi-los de longe.

A primeira Pokémon, à direita de Alex, tinha a pele branca, e uma expressão muito, muito irritada no rosto. Estranhamente, possuía cabelos verdes, curtos, mais ou menos na altura do queixo, com uma franja que se tivesse crescido mais um pouco, cobriria seus olhos. Apesar disso, boa parte de seus cabelos estavam presos no topo de sua cabeça, por um pente com belos detalhes adornados. Havia também o que parecia ser um par de chifres vermelhos curvados para trás, um um pouco acima da testa e outro próximo a nuca. Vestia o que parecia ser um manto branco, de mangas pesadas e um pano que se arrastava no chão.

O outro Pokémon era praticamente a mesma coisa da primeira, a exceção de alguns poucos detalhes. Os olhos eram azulados, os cabelos mais soltos e com franja posta para trás, porém com um corte parecido o suficiente — a diferença provavelmente provinha de alguns centímetros a mais de fios verdes. No mais, tudo parecia igual entre os Pokémon, tanto que Alex já começava a se perguntar se eles não seriam irmãos ou algo do tipo.

Ele e Margareth apenas continuaram ali, em silêncio, observando a cena.

— Idiota! — quase berrou a primeira Pokémon, numa voz furiosa. Fina e furiosa. — Como você acha que a gente vai conseguir sobreviver se você continuar com essas merdas? Como vamos arranjar comida assim?

— Mas... — O outro tentou, visivelmente assustado. Os olhos tremulavam bastante, e ele não parava de procurar outra direção para observar.

— Falei pra você que essa não era uma boa ideia. Mandei você tomar cuidado, e é isso que você me faz, Nagi? É?!

Dito Pokémon soltou um barulhinho assustado parecido com um pedido de desculpas, enquanto encolhendo os ombros. A ameaça na voz da outra apenas parecia aumentar ainda mais.

— Mas... Mas Nami...

— Mas Nami é o caralho. Seu pedido de desculpas não vai resolver que o dia está quase acabando, que estou cansada e sem saco pra procurar comida.

— Não, não é isso — murmurou, voltando a observá-la. Alex sentiu pena por ele.

— O que é então? Por acaso tem alguma ideia milagrosa?

Ele fez um sinal negativo com a cabeça.

— É que... Tem esses dois nos observando, sabe.

— ...Ahn?

“Ah, merda, nos descobriram”, foi tudo que Alex conseguiu pensar no momento. Imediatamente, ele lançou um olhar a Margareth, suplicando uma solução para a embaraçosa cena que veriam. Mas já era tarde demais para fazer alguma coisa. A Pokémon já tinha se virado para os dois, os olhos violeta exibindo um misto de surpresa e confusão.

— Um humano?! Daonde foi que saiu essa coisa?

— Ah, erm... — Alex tentou, imediatamente endireitando sua postura. Agora, olhando diretamente para ele, a raiva da Pokémon parecia ainda mais ameaçadora. — Ahhh, desculpa, eu não quis... Não quis escutar a conversa de vocês. A gente só... Eu e a Maggs só... Estávamos passando.

— Sem problemas. — O outro Pokémon adiantou-se, fazendo um gesto com a mão. Em seguida, ignorou completamente o olhar incrédulo da companheira, e aproximou-se da dupla. — Você é um treinador, não?

A Shinx olhou para ele de volta, praticamente ordenando que Alex fizesse alguma coisa sobre o assunto. Aquilo já estava ficando estranho demais. E céus, e se aqueles Pokémon fossem hostis? Ou se esse tal de Nagi acabasse se irritando também? Oh não, Margareth provavelmente não conseguiria lidar com os dois. Se pelo menos Linus estivesse ali...

— Izanagi! — berrou a outra Pokémon, antes mesmo que Alex pudesse pensar em fazer alguma coisa. — O que pensa que está fazendo conversando com um humano?

— Relaxa, Nami — respondeu ele, fazendo apenas um breve gesto com as mãos em sua direção. — Esse aqui é idiota, não perigoso.

— Pfft. — Margareth segurou o riso, quase inutilmente. Alex lançou um olhar irritado para ela. Poxa, aquilo tinha ofendido. E eles deveriam estar numa situação ruim ali, não rindo com comentários como aquele!

— Então, cê é um treinador, né? — Izanagi continuou, a cabeça levantada na direção de Alex. Olhando assim, podia constatar que os olhos tinham um tom de azul muito mais intenso do que ele jamais vira.

O garoto travou, analisando ambos os Pokémon. Nami pareceu ter desistido momentaneamente de fazer alguma coisa, e apenas observou seu companheiro caminhar na direção de Alex, ficando apenas alguns metros distante dele e de Margareth. De perto, assim, ele parecia ser ainda menor do que deveria, quase como uma criança de dois anos. Uma criança humana de pele branca como vela e pais com gostos muito peculiares, a julgar pela cor dos cabelos.

Apesar dessa aparência aparentemente inofensiva, Alex sabia muito bem que não deveria subestimar um Pokémon. Quem sabe que poderes aquele pequeno poderia esconder? Quem sabe de Margareth realmente poderia atordoá-los caso fosse necessário? Quem sabe se realmente seria seguro conversar com ele e sua aparente irmã?

Ele analisou suas opções. Sair dali até que seria uma a se considerar, se não fossem novamente os riscos que o travavam na resposta. Na verdade, não importando na opção que considerasse tomar, todas elas mostravam-se inúteis, restando-lhe apenas uma coisa: conversar. E só daí tentar achar uma solução para a situação em que havia se metido.

Pois bem.

— Ahn... Sim, sou um treinador.

— Ohh, então você estava saindo pra fazer uma fogueira, que nem aquelas que os treinadores fazem pra preparar a comida?

— Isso — dessa vez, foi Margareth quem respondeu. Com um miado, continuou: — Foi a Chiyo quem pediu. Eu tô ajudando.

— Hmmm. Então também é hora do jantar pra vocês, hmm. — Izanagi assentiu. — Bom, eu e a minha irmã aqui também estamos indo jantar.

— Estávamos, você quis dizer — interviu a Pokémon, como um resmungo dito alto o suficiente para o Pokémon ouvir.

— Estávamos, certo. Mas ainda assim, você humano quer vir jantar com a gente?

— Eu não vou jantar com ele. Nem tem nada mesmo.

Izanagi continuou a ignorá-la:

— Não temos nada por um, hm... Descuido meu. Mas posso dar um jeito.

— Esse palerma aí não vigiou a toca e acabamos sendo roubados — explicou a Pokémon. — Falei que não seria uma boa ideia colocar uma toca perto da fodendo planície, mas nããão.

Dessa vez, Izanagi lançou um olhar de ameaça para ela, fazendo visível esforço para continuar ignorando-a. Ele apenas voltou seu olhar para Alex e Margareth, um sorriso amigável no rosto para esperar sua resposta.

Alex ergueu uma sobrancelha.

— Não é mais fácil vocês dois irem jantar com a gente? Digo, a gente não foi roubado, então dá pra todo mundo.

— Oh, tudo bem por mim então. Vai ser interessante ver um acampamento humano. — Virou-se para a companheira, que limitava-se a dar de ombros. — Nami?

— Estamos sem comida mesmo.

— Ótimo! Aliás, me chamo Izanagi, e essa... coisa aí é a Izanami, minha irmã.

De resposta, a Pokémon aproximou-se de Alex, deixando um cascudo em Izanagi no caminho. E como se não tivesse feito nada de mais, apenas deu um sorriso forçado para Alex.

— Certo... — Ele pigarreou. — Eu sou o Alex, e essa é a Maggs.

— Margareth — corrigiu a Shinx. — Mas pode Maggs também.

Por um momento, houve silêncio entre o grupo, com um Alex engolindo em seco. Precisou de alguns momentos para assimilar o que, afinal, estavam fazendo, e mais um momento para enfim notar o detalhe.

— Ah é — continuou ele. — Mas eu ainda tenho que buscar lenha e tudo o mais. Pra fogueira, sabe.

— Ugh... — dessa vez, foi Izanagi quem começou, a mão esfregando o local dolorido do cascudo da irmã. E pela expressão, ele não parecia lá tão animado assim. — Okay então, pode ser.

E, tão fácil assim, Alex ficou encarregado de guiar Margareth e os outros Pokémon para o acampamento, no caminho buscando o máximo de galhos e troncos que podia carregar para a fogueira. O fez sem muitos comentários, e sem realmente prestar atenção na conversa que Margareth passou a ter com os dois, já que, afinal, as coisas ainda pareciam... Surreais demais. Como ele havia passado de temer um possível ataque dos Pokémon para convidá-los para jantar? Okay, certo, agora não pareciam lá tão hostis assim, pelo menos não com Alex e Margareth. Continuava estranho.

Foi suspirando vez ou outra até o acampamento, decidindo que iria deixar o assunto para depois. No fim das contas, ele estaria fazendo uma boa ação, então não seria um problema tão grande assim.

Quando enfim voltaram para o acampamento; ou melhor, quando enfim conseguiram ver o acampamento organizado com pertences de Alex e Chiyo aqui e ali, assim como Chiyo e a irmã, foi que se deu conta da quantidade de tempo que havia passado fora. Oh. Isso era outro problema.

— Alex! — Natsuhi foi a primeira a notar sua presença, um grunhido de Akatsuki servindo de aviso. Imediatamente, ela se levantou. — Por que demorou tanto?

— Arceus, Alex, estava quase saindo pra te procurar. Onde você estava?

O menino quase suspirou de alívio. Ao menos Chiyo ainda podia se preocupar com o tempo que ele estava saindo.

— Ahh, é uma história... Complicada — respondeu ele, apressando o passo para deixar a quantidade quase absurda de lenha para fogueira num canto qualquer. — Pra resumir, olha. — E apontou para os dois Pokémon que o seguiam, ainda de espécie desconhecida pelo garoto.

Chiyo pareceu confusa, mas ainda assim olhou na direção apontada por Alex. Um segundo depois, e ergueu as sobrancelhas, dessa vez de surpresa. Izanami e Izanagi olharam para ela de volta, Nagi abrindo-lhe um sorriso.

— Olá — disse, simplesmente, fazendo um breve aceno com a mão.

Chiyo o encarou de volta. O silêncio se instalou pelo grupo, até que, lentamente, ela voltou seu olhar para Alex:

— Por que você trouxe esses Ralts pra cá...?

— Ralts? É a espécie deles então? — Como resposta, Izanagi assentiu. — E sei lá, ué. Só... Aconteceu.

— ...Certo.

— Quem são eles, afinal? — perguntou Izanagi, novamente ignorando a reação não tão amigável assim de Chiyo. Alex limitou-se a nomeá-las, um gesto vago com a mão para cada um.

A conversa não continuou muito a partir daí. Izanagi e Izanami apresentaram-se apenas, enquanto Chiyo e Natsuhi preocuparam-se em montar a fogueira, Chiyo praticamente ignorando a rodinha de conversa que se formou entre os Pokémon ali. Até mesmo Linus pareceu interessado nos novos Pokémon que haviam se juntado ao grupo, trocando algumas poucas palavras com eles. Eram boas companhias. Quando não estavam brigando, pelo menos, podiam ser Pokémon realmente agradáveis para se conversar.

Em pouco tempo, a noite caiu sobre o bosque, seu teto de escuridão sendo a única coisa que podiam ver. Não era uma noite com lua, ou se era, alguma nuvem estava bloqueando sua luz prateada, de modo que a única iluminação que tinham para se situar ali era da fogueira; felizmente, com chamas altas o suficiente. Ainda assim, não demorou para que a fadiga de ter caminhado o dia inteiro surgisse novamente, externando-se em sono. Cansaço e sono, de um Alex que bocejasse muito frequentemente até que a comida enfim estivesse pronta.

Quase, quase considerou pular o jantar para adormecer, mas isso não seria algo muito inteligente de sua parte. Portanto, o que fez foi perguntar ao par de Ralts se queriam passar a noite em sua companhia, coisa que foi aceita sem muitas reclamações. Aparentemente, seria melhor aos dois fazê-lo, já que estava escuro demais para tentarem voltar.

Com isso feito, Alex deixou de lado qualquer outra coisa que houvesse para fazer, apenas para terminar seu jantar. Chiyo que o desculpasse mais tarde, mas ele estava cansado demais para ajudá-la com alguma coisa. Fora um dia cheio.

Aconchegou-se da melhor forma que podia em seu saco de dormir, posto num cantinho próximo à árvore que se instalara mais cedo. Margareth juntou-se a ele, e, assim mesmo, Alex deixou-se adormecer.

Notas finais
Porque relembrar sempre é bom: as falas aqui mudam de travessão para aspas de acordo com a narração dos personagens. Para Chiyo, como ela não entende a fala dos Pokémon completamente, uso aspas, e para o Alex, que pode muito bem confundir e entender completamente, são as travessões. EEEEEE eu meio que fiz um stealth edit sobre o olho do Yatagarasu EHEUEHEU Finjam que tá ali desde sempre -n MAS AAAAAAAAAAAAAH, literalmente morri depois de terminar esse capítulo. De cansaço, talvez, pq eu deveria estar dormindo porque tenho curso cedo amanhã, MAS NÃO, aqui tou eu, tomando vergonha na cara para postar um capítulo de nada acontece feijoada com final quase corrido. Oh well. Ao menos foi bem divertido brincar de narrar com a Chiyo ao invés. Difícil, porém bem divertido~ OH, de qualquer forma, minha beta já me fez começar o outro capítulo (14), PORÉM é capaz de ele também atrasar. De novo, my dears, porque ele vai ser uma coisa difícil de fazer, porque estou postando no meio da semana com uma semana de atraso, e porque problemas estão me impedindo. Estarei fazendo o meu melhor, porém não posso prometer nada. Sobre os comentários, se você não receber resposta imediata, é porque eu estou ocupada escrevendo/num mar de coisas que me impedem de fazer uma resposta a altura aos lindos comments (s2) que sempre recebo de vocês. Não se acanhem em continuar mandando críticas, coisas que deixei passar e tal, though u_u Eu apareço. I should go but first CRÉDITOS AO TIO KURONO! A expressão "me custou o olho de um Sableye" foi casualmente pega emprestada dele e daquela fic linda que ele tem, a Um mês de Desespero (umdd). Recomendo muito a leitura porque tem ambientações legais e uma escrita bem daora, além de também ser Nuzlocke 8D Here's the link: https://fanfiction.com.br/historia/616704 Agora sim eu vou u_u Até a próxima 8D