Notas iniciais
Olha, me desculpem por ter desregulado vocês com essa metralhadora de posts, mas eu finalmente me decidi! Teremos um capítulo por fim de semana (agradeço a um de meus leitores pela ideia) e espero que aproveitem bem isso, pois eu escrevo muito por dia e vão ter bastante conteúdo daqui para a frente.

Anthony ergueu-se por entre os rochedos caídos, flexionando os músculos dormentes. Cuspiu uma ordem desajeitada para um de seus companheiros. Uma borboleta mastigou um largo movimento, remexendo as asas sem muito esforço até se pôr no ar, deslizando sobre o vento cavernoso que assolava o grupo. Ela grunhiu quando descarregou seu poder, filtrando a corrente de ar para manipula-la e varrer os escombros.

Meowth foi o segundo a aparecer, dessa vez ileso. Estava mais forte do que da última vez, uma semana e meia atrás. Horsea pendia dentro de sua esfera, no bolso de Anthony, querendo sair. Os dois outros estavam completamente exaustos depois do árduo caminho. O rapaz, que nos últimos dias treinara demasiadamente para aprender novos truques, deslizou por uma pedra com cuidado e caiu de cócoras antes de se por de pé em um salto. Bufou. Mesmo com tanto ar lá dentro Anthony sentia-se sem ar. A luz mal lhe dava caminho para seguir, confiando que o seu próximo passo não fosse desfiladeiro abaixo.

A borboleta faria uma semana junto ao grupo... Sim, ela havia sido capturada por Anthony na floresta de Viridiana após uma longa travessia por ela. Ainda era uma lagarta quando caiu de um galho e se espatifou, dando a deixa de captura-lo de uma vez só, sem combate ou perseguição. Era um dia para se lembrar.

A relva verde escurecia junto ao dia que se tornava noite. Um tom alaranjado tomou as águas dos lagos e as esferas maciças de folhas e galhos, ou seja, os arbustos aventavam com a brisa do fim de tarde. No topo de um grande arvoredo, uma pequena lagarta esverdeada descia, correndo vagarosamente as suas ventosas pelo tronco gasto de madeira. Respirava dificultosamente devido ao cansaço, os músculos doíam muito e ele não sabia se conseguiria alcançar o chão sem se machucar. Desgrudou de forma acidental e foi abaixo, cortando o ar como um meteoro verde musgo e acertando em cheio um arbusto gordo e grande.

Folhas e pedaços de madeira voaram para os lados.

A criaturinha grunhiu desorientada. Cuidadoso, deu uma olhadela na rota com o intuito de localizar possíveis inimigos. Nada. Suspirou aliviado. Foi quando se arrastou para o solo de terra úmida e fétida, tocando-o com o seu corpo longo e fino. O seu chifre avermelhado tocou de leve uma pedra enquanto ele se movia. Na verdade, ele estava contente de estar vivo, por isso não ligou para quando se chocou de raspão com aleatoriedades.

Ser um inseto é bem difícil. Primeiro há a dificuldade de não conseguir se locomover de uma maneira simples como andar, apenas rastejar. Segundo que tem sempre um pássaro idiota tentando lhe devorar por inteiro. Terceiro... Não é fácil fugir desses pássaros.

Guinou o pequeno corpo para ficar de “pé” e da boquinha com poucos dentinhos originou-se um filete gosmento e branco acinzentado que se alongou até tocar um galho bem no alto. Foi produzindo mais daquilo, desde um órgão lá dentro até a sua garganta e interior da boca, onde elimina aquilo em rajadas de grande comprimento. O filete se tornou um fio e depois uma pequena corda trançada e tecida pelo contato com seus dentinhos. Retraiu a fiação para jogar a si mesmo para cima, onde se engalfinhou e se manteve incrivelmente preso. Assistiu o quê ocorria mais embaixo por algum tempo, entediado.

Eis que ouve algo interessante. Passos. Dos bem pesados. Sentiu as duas lâminas afiadas e altas passarem perto de si, prontas para dividirem-no ao meio. As cores amarronzadas, curvas extensas e músculos rijos lhe davam medo. Pequenos braços pendiam nas laterais esquerdas e direitas do seu corpanzil portando garras que lembravam dedos. A boca oval comportava uma dezena de dentes estranhos, sem uma ponta efetiva para perfurações. O grande ser passou por baixo de árvore e seguiu reto na direção oposta da qual veio.

O perigo passou, pelo menos era o que ele pensava. Desceu em um movimento brusco, escorrendo sobre o chão e espatifando a sua cabeça redonda. Ficou bem tonto. Deslizou a cabeça na direção da rota e viu apenas um vulto tricolor voar rapidamente e impactar o seu rosto, engolfando-o em uma espiral de fumaça.

– Sucesso! – exclamou Anthony.

O garoto ergueu a Pokéagenda, deixando que ela apitasse e soltasse suas informações: Caterpie é um Pokémon inseto de cor esverdeada, seu chifre avermelhado causa danos sérios quando usado para ferir inimigos, presas ou caçadores. Um bom produtor de teia e ótimo bicho de estimação. Eles se locomovem pelas superfícies usufruindo de ventosas espalhadas pela barriga bege amarelada bem clara, aderindo em qualquer plano, até de cabeça para baixo. Cuidado: Usam de sua teia poderosíssima para capturar aqueles que tentam invadir o seu território e/ou mexer com as suas crias.

– Um inseto? – disse. Levou a mão em frente aos lábios para tossir, dando uma espiada na face de Meowth. – Estamos chegando, se acalme.

Prosseguiram pelo caminho de lama, terra e poças de água. Fazia um dia e meio que estavam pela floresta e a exaustão vinha aos poucos como um predador pairando para capturar a sua presa com dentes longos. Sabiam que aquele lugar abrigava seres perigosos, mas até então não encontraram porcaria alguma, só um ou outro Pokémon mais ou menos interessante. Afundou a esfera no bolso de sua jeans azul enegrecida e estreitou os olhos para avistar uma clareira não muito distante.

– Finalmente. – analisou-a ainda longe, percebendo uma fraca luz acariciar o tapete de folhas na tentativa de revelar as suas entranhas. – Vamos descansar um pouco e em breve seguiremos. Tudo bem?

O Meowth assentiu.

Depois de minutos, os dois repousavam sob uma árvore e sobre uma cama de folhas, algumas mortas e outras irradiando uma vivacidade natural. Valia a pena reunir energias, afinal ninguém sabe o quê espera mais a frente. Anthony sentia saudade de Luke, de Dali e de Lisanne, mas não poderia voltar para lá sem ter cumprido com o seu dever. Uma extensa planície com encruzilhadas e montanhas lhe aguardava... Quem sabe um mar também não lhe esperava pelo caminho? A trilha sumia e reaparecia como um garoto que se esconde de sua mãe para provocar a sua ira. Meowth tornou-se realmente um grande amigo de Anthony. Sabiam quando o outro estava sem poder continuar.

O rapaz conferiu o mapa em sua Pokéagenda e disse:

– Não estamos muito afastados de Pewter. – relatou enquanto apontava para a tela do aparelho. – Se seguirmos rumo pela estrada de terra eu acho que podemos chegar lá ainda hoje.

O felino não pareceu muito contente de ter que avançar mais.

– Tenho agora três companheiros. – informou. Não podia conter o sorriso. – Já progredimos tudo isso...

Ele tinha razão de ficar feliz. A maioria dos treinadores não passava de uma semana de viagem. Anthony trouxe a mochila para si e retirou a esfera do Horsea de lá, em seguida recolheu a de Caterpie que estava em seu bolso. Observou-as com certo orgulho próprio e pressionou seus lacres, deixando a parte de cima ir para trás subitamente e liberando uma fumaça branca e densa cuja função seria originar aqueles aprisionados em seu interior. O inseto pôs-se grudando as ventosas no solo ao lado do cavalo marinho.

– Certo, vamos treinar!

Desceram junto o resto da caverna Anthony, Meowth e Butterfree. Acabaram famintos por ter pouco o que comer enquanto cruzávamos o labirinto de rochas, esperando que um treinador bondoso aparecesse para ajudar, mas se depararam só com ladrões gananciosos cujo valor era tão baixo quanto o de um grão de areia. Arfou mais uma vez por causa da exaustão. Um ou outro Pokémon surgia das sombras com o intuito de lutar e logo era rechaçada escuridão adentro por Meowth e Butterfree. A luz da saída vinha entrando aos poucos, iluminando o chão rochoso amarronzado e um mar de areia que engolia os tornozelos de quem quer que fosse andar por ali.

– A saída está próxima. – Anthony anunciou. Uma sensação borbulhava no peito. Estava ansioso por estar próximo de concorrer pela sua terceira insígnia. – Retorne Butterfree.

A cápsula abriu e sugou o ser para o seu interior em uma cortina de fumaça. Meowth observou as paredes, vendo alguns Zubats atacando treinadores distraídos lá no fundo. Assistiu o nascer de Paras pelas paredes, brotando de cogumelos alaranjados. Lá atrás escutava o cantarolar de uma Clefairy inocente. Deram mais três passos para cruzar o limiar da caverna e serem mergulhados na luz ardente do dia.

Árvores, arbustos, muita grama e flores, além de pequenas ilhas de terra circundadas por um mar verdejante. De cara, Anthony presenciou um treinador digladiando com uma Ekans arisca. A serpente ergueu seu corpinho e deslizou até penetrar em um arbusto alto e bem cheinho. Anthony viu que o garoto não estava muito acostumado com combates, mas decidiu não atrapalha-lo na esperança de vê-lo consertar os seus próprios erros.

Pokédex: Ekans é uma serpente astuta que fisga as suas presas usando os dentes afiados e o corpo esguio e forte. Muito bem acomodados pelas rotas em torno de cidades como Cerulean, Celadon e Fuchsia, predam viajantes entregues ao acaso e sem nem um pingo de preocupação com os acontecimentos em sua volta. Adoram lutar. Cuidado: O veneno que impregna os seus dentes é tão mortal quanto o de um Nidoran macho.

– Rattata, pegue-o! – gritou uma ordem voraz para o seu companheiro.

O pequeno roedor de pelagem roxa lançou-se contra o arbusto em uma velocidade sobrenatural, varando-o. Folhas e galhos foi o resultado do impacto, a Ekans rolou por instantes e se amontoou novamente em um anel arroxeado, reclamando da dor. Da nuvem verde saltou o roedor mostrando os enormes dentes prateados e os cravando no inimigo incapaz de fugir, mas capaz de lutar. Ekans agonizou por um momento antes de uma esfera explodir em seu corpo e a encapsular em uma espiral de fumaça branca.

– Isso! – exclamou o menino para o seu Pokémon. – Em pouco tempo teremos como enfrentar a líder de Ginásio.

– Líder? – Anthony perguntou mesmo distante do garoto.

– Sim. – ele virou-se para encarar o treinador. – Essa cidade tem uma líder de ginásio a comandando faz algum tempo. – informou. – Aliás, bem vindo a Cerulean! O meu nome é Wallace.

– Prazer, eu me chamo Anthony. – sorriu para Wallace, um pouco desconfortável. – Onde é o Centro Pokémon?

– Subindo a colina e indo reto. – disse enquanto gesticulava o trajeto.

– Certo obrigado. – Anthony foi se adiantando para ir embora quando o menino perguntou-lhe:

– Você é um treinador também, não é, Anthony?

Assentiu em silêncio, indicando o Meowth com o cotovelo.

– Haverá um torneio no Centro daqui a três dias, sabia?

Os Torneios são uma espécie de competição comum em Kanto. São eventos, para ser mais específico, que exigem dos participantes um esforço gigantesco para passar de fase em fase até as finais. Geralmente eles resultam em uma série de prêmios excelentes para o vencedor, e isso logicamente atraiu a atenção de Anthony.

– Não, eu não tinha ideia sobre. – respondeu o rapaz, pensativo.

– Que tal participar?

Anthony trocou olhares com o seu parceiro e voltou a observar Wallace.

– Eu vou pensar nisso mais tarde. – começou a andar. – Até mais, Wallace.

– Até mais, Anthony.

A cidade de Cerulean era muito linda. Muito mesmo. Fontes de água cristalina emergiam de praças movimentadas. Uma mescla perfeita de um ambiente rural e urbano, sendo evidente a vegetação local e também o tanto que ela evoluiu nesses anos. O Centro Pokémon ficava bem no meio de um cruzamento, como uma ilha no nada. Carros corriam ao redor do enorme edifício de teto vermelho. Treinadores iam e vinham com grande frequência, abrindo e fechando a porta de vidro automática da entrada e enchendo e esvaziando o seu interior.

Anthony caminhou tranquilamente, deixando a sola de seus sapatos rasparem no asfalto escaldante. Espectadores inocentes presenciaram o rapaz vestindo roupas farrapilhas e completamente sujo de poeira e areia entrar no Centro ao lado de um felino de pelagem desgrenhada e ranhuras pelas costas e braços. Um velhinho chegou a perguntar se os dois precisavam de ajuda, mas Anthony agradeceu e disse que ia se trocar quando estivesse dentro do estabelecimento e ia tratar de Meowth após isso. O interior não era tão chamativo quanto o exterior, mas exibia diversos adornos metálicos, como um hospital para humanos. Não havia maca alguma como no de Viridiana, nenhuma infestação de feridos ou algo do gênero.

– Está tudo normal, pelo visto. – afirmou o rapaz. – Retorne Meowth. – A ordem foi concretizada em um momento, o felino fora encapsulado antes mesmo dos demais criticarem o seu estado.

Andou rapidamente até a recepção onde uma enfermeira de cabelo azulado trabalhava. A cabeça baixa sinalizando sua concentração no que fazia.

– Há quartos sobrando para essa semana? – Anthony indagou gentilmente. Naquela altura do campeonato ele não queria ser taxado de grosseiro por qualquer um.

A enfermeira espaçou suas ações por um momento e encarou-o, coletando informações só de passar os olhos sobre a sua expressão. Em seguida ela sorriu, deixando seus belos traços irradiarem luz sobre a retina do menino.

– Sim, sim. – ela conferiu. – O 202 está vago.

– Pode ser esse mesmo. – disse.

– Vai precisar de alguma mordomia ou algo do gênero para agora?

Ele olhou precisamente para as três esferas no cinto.

– Pode tratar de meus companheiros, por favor?

– Posso. – respondeu ela sem pestanejar. – Aqui está a chave. – e disse, entregando um molho com duas pequenas peças de metal. Antes de Anthony ir, ela mirou a maior delas, uma chave prateada e brilhante. – Essa maior é a da entrada e a menor a do banheiro, entendeu?

– Certo, eu entendi.

Retirou as três do cinto e os botou em uma bandeja na bancada. Deu uma breve olhada neles e partiu escadaria acima com as chaves em mãos. O quarto era grandinho até. Uma cabine cubica de mais ou menos seis metros de lado poderia ser um luxo nas outras cidades, mas nessa parecia ser o único modelo de quarto que vigorava. Anthony tomou um bom banho e pesquisou na Pokéagenda, gastando por volta de uma hora e meia antes de descer para o térreo.

– Está tudo certo? – perguntou.

– Foram apenas ferimentos rasos. – disse a enfermeira. Os cabelos azulados jaziam aprisionados em um coque e alfinetados por uma agulha negra de madeira, daqueles maiores que dois dedos de comprimento. – Poderão lutar ainda hoje se você deixa-los comigo.

– Hoje? – espantado ele checou o relógio. – Poxa vida! São só uma hora da tarde ainda?

Ela confirmou com um aceno de cabeça.

– Então está certo. – disse por fim. – Eu irei dar uma volta por aí e retornarei daqui uma hora, tudo bem?

– Dá tempo. – ela deu uma breve piscadela para Anthony e continuou a mexer nos equipamentos da recepção. – Ah, é verdade! Estão tendo algumas batalhas de demonstração em nosso estádio. – informou, captando o interesse do menino. – Por que não vai lá assisti-las?

– Boa ideia. – comentou. – Já começaram?

– Não, só às duas e meia. – ela respondeu enquanto analisava o panfleto do evento.

– Ótimo. – abriu um sorriso de orelha a orelha e completou. – Irei ver depois de almoçar. – virou para ela e se despediu: — Até mais!

E partiu em uma caminhada depois de ouvi-la despedir-se também. Muitos treinadores gostavam de aproveitar a tarde conversando ou treinando nos arredores da cidade, mas Anthony teve o azar de ter se atrasado um pouco em Pewter. Por que azar? Simples, Luke disse que precisava seguir depressa para Cerulean e acabou ficando bem adiantado. Conhecendo o jeito de Luke, ele já devia estar chegando a Vermilion. Anthony escutou a conversa de duas garotas mais a frente, e, não muito interessado em saber dos problemas alheios, seguiu Centro Pokémon afora.

Transeuntes quaisquer circulavam pelo grande emaranhado de ruas que vistas de cima lembrariam um enorme sistema de veias e nervos, sendo uma às vezes maior que a outra. Anthony deu a sorte, ou talvez o ar, de deparar-se com um pequeno grupo de treinadores novatos. Todos eram peculiares na visão do adolescente

– Esse torneio já tá no papo. – disse um deles. Era magro e mais ou menos alto, um pouco mais baixo que Anthony.

– Eu também acho. – concordou um gordinho de bochechas rubras. – Depois do que vimos na última competição, não há maneira de perdermos.

– Acho que é melhor não arriscar. – frisou um terceiro, fortinho, nem tão gordo e nem tão magro. – Podemos ser surpreendidos.

Eles passaram reto por Anthony e entraram no Centro Pokémon. De fato seria fácil lutar, mas nada lhe garantia a vitória certeira. Gente como Luke poderia estar vagando por ali, pensou o rapaz enquanto observava a natureza bem instalada em praças ao redor da zona mais importe da cidade. Caminhou sozinho por minutos, conhecendo vizinhanças de casas e prédios lindos, deslumbrado pelas suas características marcantes. Cores chamativas como o marrom subdividiam os limites de um andar ao outro, contornavam as janelas e as portas de entrada no térreo. Estava realmente feliz por ter conhecido um pouco de Cerulean.

Conferiu no relógio e descobriu o horário: Duas horas da tarde. Faltava meia hora. Anthony concluiu seus pensamentos e pediu informações para pessoas aleatórias na cidade. Depois de algumas indicações de lugares para almoçar, ele finalmente desistiu e seguiu para o estádio sem ter comido. Era um edifício de dois andares e arredondado que lembrava um pouco o ginásio de Pewter, mas só um pouco.

...

Afinal, o quê aconteceu em Pewter?

Cinco dias antes.

Anthony havia chegado a Pewter no começo de seu quinto dia de viagem. Havia encontrado Luke há poucas horas, ainda na porta da cidade e logo teve de se despedir devido a pressa que ele tinha de ir para Cerulean. A cidade de Pewter também era uma mescla de um ambiente rural e urbano, mas bem menos desenvolvida que Cerulean, com certeza. O lugar entregava aos visitantes uma sensação de aconchego ao se postarem na lareira do Centro Pokémon e jogarem conversa fora, bem melhor do que o de Viridiana. Anthony conseguiu uma vaga no segundo andar do estabelecimento. Um quarto com um banheiro, uma suíte, para ser mais exato. Uma cama bem forrada com lençóis e cobertores dispostos ao clima frio daquela área se destacava entre mobílias vãs como um criado-mudo, um armário e uma pequena escrivaninha, todas coladas nas paredes do quarto.

– Ótimo, não é, Meowth? – Perguntou o treinador.

O felino concordou, observando o teto, superfície que comportava uma espécie de lâmpada que no momento estava apagada. Um ar condicionado fora suspenso perto da janela, recebendo os ventos do exterior para serem filtrados. Até onde o garoto sabia também tinha a função de aquecedor embutida nele. Conforme o menino respirava, o ar saia em pequenas nuvens quase condensadas e por isso Meowth providenciou a ativação do aparelho de aquecimento, escalando pelas cortinas espessas de lã, linho e lona que mantinha o exterior alienado do que fosse acontecer no quarto.

Anthony deitou-se sobre a cama, relaxando os seus músculos. A mente poderia ter se elevado mais enquanto o tempo passou. O ginásio de Pewter era completamente diferente do que o rapaz viu em Viridiana. Os seus integrantes treinavam juntos e conduziam eventos semanais com o intuito de divertir e ocupar os cidadãos, eles ofereciam lar a Pokémon desabrigados desde a grande guerra de Kanto. E o líder... Um treinador austero de face robusta e severa, olhar implacável e sorriso desafiador. Dono de cabelos desgrenhados, tão tempestuosos quanto os do Meowth quando depois de alvoroçar a sua pelagem.

Mais cedo naquele dia, Anthony fora inesperadamente desafiado a lutar no dia seguinte... O homem de nome Clay inquiriu certa tarefa para Anthony ao vê-lo acidentalmente na hora em que atravessava o Centro Pokémon.

Amanhã. Disse.

Amanhã o quê? Perguntou Anthony.

Amanhã você deverá vir me enfrentar. Completou, olhando-o nos olhos. Entendeu?

Tudo bem. Disse mesmo incomodado com aquilo. Eu pretendia te desafiar uma hora ou outra, mas por que tão cedo?

Pois você é o filho de Asher. Anthony nunca se esqueceria daquele olhar que emanava uma espécie de imponência e ao mesmo tempo confortava quem quer que fosse corajoso de estar sob a sua mira.

– Então você era tão importante assim, pai? – disse em um tom que só ele mesmo ouviria. Respirou profundamente enquanto Meowth repousava sobre um dos criados mudos, Metapod dormia para recompor-se e Horsea passeava pelas águas da banheira.

Encarou o teto pelos próximos minutos, perdendo-se no silêncio de seus pensamentos e esperando que o dia seguinte não fosse carregado de surpresas.

Notas finais
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