Pokémon - A Tale of Kanto
6 O duelo no Ginásio de Pewter
Notas iniciais
No dia seguinte, antes mesmo do sol chegar à metade do caminho, Anthony estava de pé em frente ao ginásio. Era um edifício arredondado e cheio de características rochosas. Parecia ter sido esculpida em um grande rochedo, como todo o resto da cidade composta por minas. Caso um dia você, leigo, vá a Pewter, perceba que todas as casas são parecidas, pois nenhuma delas é simétrica (são esféricas). Deu um passo a frente, mantendo Horsea sobre o ombro e Meowth que carregava o Metapod nas costas em seu encalço.
O engraçado foi ver um interior completamente limpo. O chão lembrava aqueles corredores de estádio de futebol com azulejos brancos forrando um piso de cimento que um dia fora plano, mas ainda assim não havia um grão de poeira perceptível. O responsável pela visão deslumbrante foi um senhor de idade que varria o chão e esfregava as paredes com um pano estranhamente branco.
– Bom dia. – disse sem ao menos ligar para a determinação nos olhos do garoto. – Como posso ajuda-lo?
– Eu vim ver o senhor Clay. – falou. Meowth deu uma leve guinada de empolgação, não controlando os seus instintos de combate direito. – E se possível, queria cumprir o desafio dele ainda hoje.
– Ah! – exclamou o velhote, espalmando a própria testa como uma súbita (e surpreendente) autopunição. – Então é você quem o jovem mestre queria enfrentar. – deu uma leve risada bem humorada e completou. – Desculpe o jovem mestre, garoto, ele é meio objetivo demais para um líder de ginásio.
Anthony notou que as suas respostas poderiam ser entregues ali mesmo.
– Poderia me dizer o porquê dele ter me desafiado tão repentinamente?
– Claro. – disse sem demora, não desviando os olhos de sua tarefa. – Foi você que destituiu o Klaus, não foi?
– Então essa informação já chegou aqui? – indagou.
– Sim, sim. As coisas correm rápidas por Kanto... Ainda mais quando um delinquente como aquele acaba sendo derrotado por um moleque que acabou de sair das fraldas e recebeu a sensação de mover-se livremente.
– Isso foi bastante ofensivo. – comentou. Dessa vez Meowth pareceu enraivecer bastante.
– Não ligue tanto para um velhaco como eu, menino.
– Afinal... Ele está lá dentro ou não? – tentou ser o mais breve possível, encurtando o espaço entre si e a porta da arena.
– Obviamente ele está. – disse. – Pode ir.
Suspirou aliviado e caminhou na direção do portão de pedra polida quase reto. Botou as mãos na maçaneta e arrancou todo o esforço possível do inconsciente para puxar as placas pesadas e abrir uma pequena passagem. Quando prestes a passar pela fresta, Anthony ouviu o senhor de idade dizer.
– Boa sorte, Anthony. – e completou. – O seu pai teria orgulho de você se o visse.
E com essa chave de ouro inflada de surpresa e indignação o garoto seguiu na direção do Rochedo de Pewter...
Os holofotes se acenderam, mergulhando o grupo em meio a uma luz poderosíssima. Anthony bloqueou a visão por um momento e viu Meowth fazer o mesmo, largando o Metapod no chão. Horsea tentou fechar os olhos, mas não conseguiu, ficando bobo por alguns momentos. Foi então que o ambiente foi se estabilizando até o ponto de estar totalmente visível para o rapaz. A sala era um enorme cubo rompido por um retângulo em seu centro, com as medidas exatamente iguais as da arena em que enfrentou Klaus. Por um momento ele recordou-se de Lisanne e Dali, sentiu saudades dos dois e da cidade de Viridiana.
– Malditos sentimentos. – praguejou e voltou a atenção para o seu oponente nos fundos da sala.
Clay estacou na aresta menor oposta da que estava próxima da entrada, tinha duas pokébolas no bolso da calça. Anthony frisou que aquele era um ginásio justo e por isso fez questão de retornar Metapod, Horsea e Meowth. Sabia sobre o tipo do ginásio e por isso não arriscaria usar o seu Metapod dessa vez. Sustentando uma concentração invejável, o rapaz guardou duas delas e mostrou a de Meowth para o poderoso treinador. O sorriso de incomodava demais Anthony.
– As regras são simples. – uma voz soou não muito distante. Era o velho faxineiro. – Cada um terá dois Pokémon para usar e os combates serão mano a mano. Vence quem nocautear o outro, não vale o uso de itens durante o confronto. – Ele preparou um bloco de notas sobre o palmo direito. – Estão preparados?
– Sim. – disse Clay.
– Estou. – confirmou Anthony.
Os dois começaram a ouvir pessoas falando e aos poucos a arquibancada do ginásio foi se enchendo, rente ao retângulo do combate. Notou também os familiares do homem diante dele se sentarem para contemplar o espetáculo.
– Então comecem!
Sem esperar, Anthony disparou a esfera do felino por sobre rochas e mais rochas, dispersando u cortina de fumaça branca e densa pelo campo. O gato escalou uma das rochas maiores para observar todo o perímetro. Surpreendentemente, uma das rochas mais abaixo subiu no ar, mostrando músculos sólidos pregados junto do corpo esférico. Junto os dois punhos e martelou o pico do lugar com o objetivo de enterrar o Meowth ali mesmo.
– Saia daí! – Alertou Anthony.
O felino escapou por pouco. Teve um pequeno intervalo de tempo para mostrar as suas garras e, ao ouvir a ordem de seu parceiro, avançou contra o inimigo com o auxílio de uma pedra menor na hora de pegar impulso. Descarregou uma barragem de cortes inúteis contra a pele impenetrável do ser rochoso. Em instantes fora rechaçado, golpeado pelas duas mãos robustas do Geodude.
A Pokédex apitou: Geodude é um Pokémon rochoso cujos músculos fazem até um Machop ter inveja. É de longe um adversário a ser temido devido à resistência contra golpes corpo a corpo que não envolvem força bruta e também não são muito afetados por calor. Odeiam água. Cuidado: Quando eles têm em mãos uma ótima chance para esmagar o oponente, eles vão o fazer com uma perfeição cirúrgica.
– Não me diga que pretende me vencer só com isso. – disse Clay, sem tirar o sorriso do rosto.
– Vou devolver esse insulto!
Meowth esquadrinhou o campo de uma vez só e colou no corpo do inimigo. Embolou a cauda para manter-se equilibrado no chão, exercendo um esforço colossal na hora de empurra-lo consigo, rolando-o aos poucos até um rochedo onde o cravou. Só que isso durou pouco. O Pokémon do líder abafou o impacto com as duas mãos gigantes, chegando até a rachar o grande objeto ao cravar os seus dedos na superfície.
– Rock Throw! – o ser abriu um sorrisão convencido quando Clay ordenou.
Inacreditavelmente a esfera soltou do solo e foi arrebatada em um golpe na horizontal sobre o gato que voou até os limites da arena com uma enorme chaga no ombro. Quicou e equilibrou-se nas duas patas traseiras, sendo que amorteceu a queda com os joelhos.
– Acabe com ele, Geodude!
– Por cima e Bite! – Quando as mãos ameaçaram enganchar o seu pescoço, Meowth deixou de mover os braços e usou da cauda e das patas traseiras para driblar o atacante e forçar a superfície rugosa abaixo de si. Jogou-se pelo vão sobre a cabeça do Geodude e mostrou os dentes, mordendo com firmeza as suas costas.
– Tackle! – Clay irrompeu o silêncio. Geodude rodopiou no próprio eixo para desvencilhar-se do felino e finalmente bombardeá-lo usando do corpo como uma arma.
Meowth tornou-se letárgico. Geodude brandiu a pedra e a espatifou no chão, abrindo uma fenda pequena abaixo de si. Preparou outro avanço ao retirar uma porção de pedras dali de dentro, mantendo alguns estilhaços densos entre os dedos.
– Retorne Meowth! – Trocando repentinamente o combatente, Anthony enviou Horsea de imediato. Ainda mais quando o Geodude estava muito próximo de tocá-lo. – Water Gun!
Impecável. Horsea borrifou uma única rajada por sobre o inimigo, arrastando-o na direção dos limites da arena, além de enfraquecê-lo. Os adversários estavam surpresos com a vinda repentina de um segundo oponente, ainda mais quando a luta esquentou.
– Não se dê por vencido! – Clay gritou, mas não parecia estar com raiva.
– Twister, como treinamos!
O cavalo marinho estufou o cilindro bucal e bateu as asinhas crescidas para só então projetar um vórtice de ar que conforme crescia, levava tudo pelo caminho antes de impactar o Geodude e manda-lo rolando para trás, fora de combate. A plateia não se manifestou até então, mas agora rugia com o inesperado acontecimento.
– Ótimo Horsea! – exclamou Anthony.
Clay analisou seu companheiro desmaiado e o retornou, ainda sorrindo.
– Você é bom, Anthony. – disse sem se desestabilizar. – Parece que Klaus perdeu mesmo para você. – gargalhou de modo breve e apanhou a segunda esfera. – Mas não quer dizer que eu vá perder para você tão fácil como ele perdeu!
O compartimento eclodiu, desmanchando uma cortina de fumaça branca com o surgimento de uma constelação de pedras enormes precisamente empilhadas e conectadas para montar um Onix, um Pokémon temido pelo seu poder esmagador em todas as partes do corpo.
Pokédex: Onix é um Pokémon composto por diversas rochas de materiais diferentes cuja capacidade física seria vital para combates. Responsável por cavar túneis e canais profundos que adaptam o solo para a construção de estruturas ou até mesmo para a permanência de fenômenos naturais como dunas, colinas ou montanhas. Cuidado: O gigantesco corpo esmaga facilmente as suas presas sendo que o seu modo preferido de abater suas vitimas é a estrangulando com a cauda.
A plateia rugiu em uníssono com o soldado mais poderoso de Clay. Horsea estava bem tenso, mas poderia persistir no combate sem problemas. Anthony parou alguns instantes para pensar em sua situação atual, analisando o que lhe restara para enfrentar aquele colosso, inclusive a técnica secreta de Meowth. Gritou logo em seguida:
– Não dê tempo para essa coisa! Twister! – Horsea esquadrinhou rochas e meteu-se por um pequeno espaço entre duas delas. Estufou o cilindro e despachou toda a carga aérea que encontrou nos destroços.
Houve um momento de silêncio antes de cinco rochedos partirem contra o Onix. As pessoas se manifestaram com berros tremendamente surpresos quando o pequeno cavalo marinho dobrou-se abaixo dos destroços para reunir energias.
– Rebata isso! – A ordem foi atendida com um abano da enorme cauda, espatifando os projéteis, mas sem conseguir devolvê-los.
– Water Gun! – Lançou-se na direção do alvo e um borrifo de água engolfou o maldito ser rochoso que, de um jeito quase impossível, resistiu e avançou.
– Bind! – A cauda do enorme Onix engalfinhou-se com o Horsea, prendendo-o de uma forma extremamente rígida e a partir daquele momento tentando nocauteá-lo.
– Ataque novamente! – Mais um borrifo que dessa vez umedeceu bastante o piso rochoso, tornando-o escorregadio. A força vital do Pokémon de Clay estava se esvaindo e era possível perceber a oscilação de a estrutura ao procurar finalizar o Horsea.
– Finalize! – Cravou o aquático em uma rocha com tanta brutalidade que a esmigalhou da base. Nem sequer o Meowth aguentaria um impacto daqueles, ou seja, Horsea veio a desmaiar.
Anthony sentiu-se tonto. Adrenalina demais corria pelo seu corpo, fazendo-lhe automaticamente rosnar e mostrar os dentes. Não tinha jeito de continuar, precisava planejar algo naquele pequeno espaço de tempo. Recolheu o seu parceiro para dentro de sua esfera e em sequencia preparou para lançar a do seu felino predileto quando vacilou, deixando a sola deslizar levemente e quase cair de glúteos no solo. Uma ideia lhe veio na cabeça de repente. Meowth saltou de seu compartimento, acelerado pela força imposta no braço e sem o arremesso do objeto.
Segundos foram o suficiente para que ambos os treinadores entrassem no clima de disputa final. Anthony sorriu sem pestanejo quando o felino ergueu-se, lambendo a ferida em seu ombro para de alguma maneira estranha estanca-la. E estava dando certo. Mesmo depois de úmido, o Onix mantinha-se sem mostrar fraqueza alguma, apenas arfando e bambeando um pouco mais do que antes. Clay finalmente sorriu.
– Vamos acabar com isso nos próximos instantes. – disse o líder.
– Tudo bem. – concordou Anthony.
As vozes do público se tornaram um coro interminável durante aquele minuto. Os gritos se tornaram uma rajada massiva que alarmou os dois lados. Era o principio do fim.
– Ataque usando o Iron Tail! – Clay ordenou. Usando de todo o seu esforço para não deixar a umidade vence-lo, a serpente rochosa controlou a cauda para chicotear o seu adversário, criando uma longa demora conforme movia a extensão de seu corpo.
– Segure todas as suas forças! – Meowth reforçou o seu olhar avassalador e movimentou-se, deixando que Onix o seguisse com o ataque por todo um caminho, varrendo rochas e absorvendo mais água espalhada pelo ambiente.
– Pegue-o!
– FAKE OUT! – Meowth saltou na direção da cauda e no último momento desapareceu, aparecendo rente ao reto. Caiu numa velocidade absurda na direção do inimigo e de seu ataque.
– VAI, PAPAI! – Clay ouviu o grito de seu filho na plateia. Viu a sua mulher de esguelha carregando o garotinho e engoliu a angustia.
O Onix tentou aumentar a sua velocidade, mas era tarde demais quando o felino mergulhou diretamente contra a sua testa, explodiu um soco esmagador na superfície e o quedou sobre o solo frio e úmido. Perplexos, todos os espectadores mantiveram-se em silêncio quando o Meowth tocou o chão e deslizou até uma pedra, sentado.
– Acabou! – O faxineiro exclamou num ímpeto de glória. – O vencedor é o treinador de Pallet, Anthony!
O Onix tombou em um baque absurdo e sumiu em sequência numa espiral de fumaça. Clay mal se mexeu. Suava muito, estava pálido e os músculos permaneciam tensos. Mas o sorriso não se quebrou em nenhuma hora. Ele sorria como se a melhor das coisas lhe tivesse acontecido. Seguiu até Anthony e retesou o braço para ele em forma de cumprimento. Meowth estava de pé ao lado do rapaz e não aparentava ter condições de andar depois daquilo.
– Foi um prazer enfrenta-lo. – disse o grande homem.
– Eu que o diga. – Cumprimentou-o.
– A partir de hoje essa insígnia é sua, portanto use seus privilégios de modo aceitável. – Os dois gargalharam enquanto o treinador arquivava seu primeiro espólio de batalha. – Espero que possa voltar em breve para termos uma revanche.
– Pode esperar sem falta. – disse.
Quando o menino se foi, o faxineiro sentou-se na arquibancada vazia diante de Clay e seu filho. A criança mexia nos cabelos do seu pai no processo da conversa sendo que a sua mãe não estava por ali, pois fora levar os Pokémon de Clay para a enfermaria.
– Você já esperava por isso, não é? – perguntou o líder.
– Nunca planejamos essas coisas, rapaz. – respondeu com o intuito de desviar atenções. – Sempre tentamos fazer tudo na surdina e por isso adoramos quando somos surpresos.
Clay suspirou.
– Pelo menos foi divertido. – disse. – Espero que ele consiga lidar com os próximos.
– Não se preocupe. – o faxineiro falou enquanto ria. – Ele pode parecer fraco, mas o seu espírito de luta é poderoso.
E foi isso que aconteceu em Pewter.
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