Poemas soltos
2 Nosso próprio universo sem sol
Notas iniciais
Linda,
Teus olhos miram o céu sem cor da grande cidade. Sei o que imaginas, ó Rosalinda, minha Rosalinda. Enxergaste as estrelas e as luas, costuradas num veludo escuro, onde há apenas um nada irrefutável. Onde ninguém mais enxerga e ninguém mais quer enxergar. Tu vives pelas estradas por onde ninguém passa.
Se um dia puderes, tu coloques teus pés no chão. Porque, perdida assim, longe de meus braços, tu és como uma de suas estrelas imaginárias. Tu és tudo onde nada existe. Meu sonho e meu fardo, minha dádiva e minha maldição. Com teus cabelos negros, nosso próprio universo sem sol. Tua alma é uma estrela por si só; uma supernova que está sempre em ebulição.
Tua melodia é a da mais doces. Inveja os deuses, esmaga-os. Tua beleza frágil, uma boneca de porcelana moldada por mãos divinas à perfeição. Teus olhos verdes, a premissa de um pecado. Tua boca é o néctar do qual sou dependente.
Ora, Rosalinda. Tu roubastes meu coração do modo mais gentil possível. Fez-me entregá-lo a ti, pô-lo em suas mãos pálidas — meu presente mais sincero. E mesmo assim ainda dói. Tu me envenenas com sua doçura, rouba-me parte por parte, até que não sobrará nada mais. E basta que tu estejas longe, e já então minas pernas desabam.
Mas eu encho-me de ti. Estás por toda parte da minha alma, Linda. Tu não deixaste nenhum resquício daquele que eu costumava ser. E agora? Tu és tudo o que me resta.
Então, me diga, como isso pode ser justo?
— Pra sempre teu,
Jesse
Rosalinda amassou a carta entre os dedos frágeis e largou de lado. Ela brincou com os cabelos, os negros cabelos. Nosso próprio universo sem sol. Ela balançou as pernas brancas como uma criança. O céu era negro, mas ela via. Via com clareza todas as estrelas geladas.
Ora, Jesse, ela pensou. As estrelas me acusam daquilo que ninguém mais pode.
Ela ergueu a mão. Pelas grades em sua janela, tocou a estrela mais próxima com suas unhas pintadas de azul. O céu era uma cortina a separando do universo. Rosalinda puxou a cortina, mas nada viu. O universo era o que era. Um grande nada. Então ela recolocou a cortina. Sua cortina de insanidade.
As estrelas voltaram à vida. Seu coração aqueceu, e ela se deixou levar pela própria loucura, enquanto, em algum outro lugar fora dali, Jesse se afogava na dele.
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