*****FRANK

Eu não esperava aquilo. Tipo, eu sabia que era provável, mas eu não queria ver. Todos os indícios, todas as desconfianças-quase-certezas, as suspeitas, tudo tinha se juntado para bater na minha cara. E eu ali, sem reação. Patético.

Mas não vou dizer que eu não achei que fosse ser diferente. É, eu achei. Seria hipocrisia negar. É que eu sempre gostei dele. E eu não sei gostar sem parecer um completo idiota que deixa todo mundo passar por cima. E, de fato, eu deixo. Eu brigo, faço caso, mas no fim eu sempre cedo. E o Gerard sabe disso. Ele conhece os meus medos, e me deixa saber desse fato o mais indiretamente possível. Tenho certeza que é por isso que eu fiquei esse tempo com ele. O medo.

Mas a história do chupão foi a gota d'água. Caramba, ele acreditou mesmo que eu ia engolir aquilo. Tá, tá. Eu até cheguei a me sentir culpado, achando que tinha realmente magoado ele com o meu ciúme e tal. Mas tudo isso foi embora no momento em que eu bati os olhos naquele pescoço. Cara, todas as dramatizações perfeitas dele me vieram à cabeça naquela hora. E toda a minha cegueira diante do que ele fazia também. Tenho vontade de me mandar à merda, se quer saber. Como alguém pode ser tão patético? É, eu também não sei.

Daí eu fico me lembrando e remoendo as coisas que ele disse. O que dizer sobre quando ele falou em confiança mútua? Ah, vai se foder. Não existia mais confiança ali há muito tempo. Ou ele realmente achava que eu acreditava nas mentiras descaradas que ele contava? Não, eu nunca acreditei. Eu fechei os olhos, foi isso que eu fiz. Quer dizer... no começo eu acreditava. Até demais. Merda, eu sempre detestei ser tão ingênuo. Só que simplesmente não dá pra controlar. Quando eu me dou conta, ele já me enrolou e mudou de assunto. Algo como começar divagando sobre a cor da parede do quarto e terminar falando no cabelo do vizinho do 201 sem que eu percebesse a mudança de assunto.

Eu não esperava que ele gostasse de mim tanto quanto eu gosto dele. Só que ele gostasse mais de mim do que de qualquer outra coisa. Mas não dá, porque nesse posto está ele mesmo. Prepotente, sempre foi. E eu possessivo. Ele sempre reclamou do meu ciúme mas é tão difícil de entender que essa é a forma mais lógica de demonstrar que eu me importo e gosto dele? Com alguém como o Gerard, nem dá pra ser diferente. Mas eu precisava me vingar. Aliás, se tem um sentimento que eu realmente sinto prazer em sentir, é o da vingança.

Hm, OK. Voltando ao apartamento.

Saí de lá e fui direto pro bar do Larry. Eu não estava com cabeça pra dirigir, e fica aqui perto, então fui a pé. E, aliás, à essa hora da madrugada nem adianta querer exigir muito dos bares. Só tem mais os bêbados neles mesmo.

Eu entrei e nem vi nada, fui direto pro balcão. Tinha que beber. O Larry é meu amigo, deve ter visto na minha cara o motivo por eu ter pedido logo a dose de uísque. Por isso não fez perguntas.

Bem, mais algumas doses foram suficientes para que eu começasse a procurar alguém. Qualquer, qualquer um que tivesse um pau no meio das pernas serviria. Eu só precisava me sentir vingado, pensando que o Gerard estava se fodendo sem nem saber, só isso. Foi então que vi o David.

Ele estava fumando, eu não. Eu ainda tinha o meu maço dentro do bolso, mas ignorei.

—Oi. Tem um cigarro?

Ele me olhou de canto. Deus, ele era bonito. Bem magro, tinha os olhos verdes, a pele clara, os cabelos castanhos meio mechados. E um piercing no lábio que nem o meu.

Ele só acenou com a cabeça e pegou seu maço. Me estendeu um cigarro, eu coloquei na boca. Nem deu tempo de pedir o fogo. Quando vi, ele já estava com o isqueiro aceso bem na ponta do meu cigarro.

—Valeu.

Acenou com a cabeça de novo. Por um segundo, achei ele familiar. Quer dizer, eu tava bêbado o suficiente para não reconhecê-lo totalmente, mas sabia que já o tinha visto antes.

—Você não lembra, né?

—Do quê?

Ele riu.

—Ou faz muito tempo mesmo ou você tá bêbado.

—Não tô. — Que mentira.

—Hm. Posso estar enganado. Você tem uma banda, certo?

—Tenho.

—E namora/namorava o vocalista, né?

Droga, ele precisava me lembrar?

—É. Namorava.

—Hmm. Então, a gente já se pegou.

Acho que as minhas sobrancelhas devem ter ido parar na nuca essa hora. Não pude deixar de pender o queixo com a surpresa.

—Já? Desculpa. É, eu tô bêbado.

Sorriu de novo. Sorriso perfeito.

—Percebi. Tudo bem, nós dois estávamos muito bêbados naquela noite. Mas é estranho você não lembrar de nada. Quer dizer, eu realmente acreditei quando você me disse que não costumava fazer aquilo.

Eu tava começando a ficar intrigado, minha cabeça girava. Foi aí que eu lembrei. Cara, que tipo de idiota eu sou para ter esquecido daquilo? Bom, é, eu tava bêbado, muito bêbado aquele dia. Por isso só me vieram os flashes da gente se agarrando no banheiro. David tinha sido um dos primeiros caras com quem eu tinha ficado, antes ainda do Gerard. Naquela época, eu ainda achava que podia estar pegando homem só por curiosidade. Doce ilusão.

—Caralho, isso faz tempo.

—É. Você não namorava o carinha lá ainda. Eu lembro que ele estava lá, um branquelo meio gordinho, mas vocês não estavam juntos.

—Pois é. A gente começou a namorar logo depois disso.

Realmente. Eu já era apaixonado pelo Gerard naquela época. Pra ser sincero, eu só tinha pego o David pra fazer ciúmes nele. Ver se ele me notava, qualquer coisa, sei lá. Bom, eu tinha quase certeza que ele não sentia nada por mim, mas vai saber?

—Ah. É, eu fui num show de vocês um tempo depois, e vi vocês juntos. Me disseram que estavam namorando. Por isso eu sei.

—Legal. É. Hm.

Eu vi ele olhando o relógio na parede.

—Então, tá tarde. O bar vai fechar daqui a pouco.

Não precisei pensar muito pra entender o que aquilo significava.

—É. — Dei um sorriso de canto. Ele tirou uma chave de carro do bolso e me olhou com um sorriso bem safado.

—Você vem?

E eu fui. É, fomos pra casa dele e fizemos sexo pelo resto da madrugada. E sabe? Foi bom. Foi muito bom. É legal variar de vez em quando. Ainda mais com ele que, Deus, sabia o que fazia. E como fazia, nossa. Primeiro que eu não me lembrava mais como era pegar outro cara. Depois, não me lembrava mais de como era pegar ele. E o David ainda era lindo. Não lembrava de quase nada, como do beijo, por exemplo. Era muito bom. Mas eu não consegui deixar de pensar no Gerard por muito tempo.

Tipo quando a gente entrou na casa dele. Me lembrou a primeira vez que eu fui na casa do Gerard. E quando ele abriu a geladeira e tirou uma garrafa de água, exatamente como o Gerard fazia. Merda, aquelas lembranças estavam começando a me irritar. E alguém teria que sentir o peso dessa indignação. E quem estava comigo ali mesmo? É. E eu estava sem paciência.

Então eu caminhei até ele, que tava mexendo em algo na pia.

—Quer? — ele disse, me estendendo a água. Eu fuzilei os olhos dele com os meus. Acenei negativamente com a cabeça, e dei um sorriso maroto. Então ele bebeu mais um gole e largou a garrafinha ali.

Senti o corpo dele me empurrando contra a pia. Quando percebi, sua boca já estava grudada na minha e eu nem tive tempo de fazer nada. Por uns instantes fiquei esperando ele descer para beijar o meu pescoço, como sempre fazia. Quer dizer, eu pensei que fosse o Gerard. Ou pelo menos esperava que fosse, por isso antecipei o gesto que não veio. Mas o show não podia parar por causa disso. Muito pelo contrário.

Ele colocou as duas mãos na minha bunda e me puxou para mais perto dele. Eu podia sentir direitinho aquele volume comprimindo o meu. Enquanto isso, deixei as minhas mãos subirem por debaixo da camiseta branca dele, até tirarem-na. Ele tinha o peito todo tatuado. Sexy.

Foi aí que a minha paciência acabou de vez. Eu, que estava acostumado com a tal brutalidade do Gerard na cama, comecei a achar aquilo muito monótono. Então comecei a morder o seu pescoço com voracidade, enquanto abria cinto da calça dele. Ele colocou uma das mãos por dentro do meu zíper, e começou a me tocar. Eu gosto disso. Mas eu queria comer ele. E eu vi a expressão de surpresa dele quando percebeu. Por que eles sempre ficam surpresos quando notam? Eu tenho tanta cara de passivo assim? Merda.

Arranquei aquelas calças folgadas com um puxão, assim como a roupa debaixo dele. Ele tinha um corpo bonito. Muito magro pro meu gosto, mas bonito. Nisso a minha camiseta e o meu casaco já tinham ido embora há muito tempo. Aí eu dei uns passos pra frente e girei o corpo, assim, deixando ele de frente para a bancada. Isso em lembrava... aquela vez em que eu fiz o mesmo com o Gerard. Caramba, eu realmente não conseguia parar de pensar nele.

Abri os olhos, e bem claramente vi que era o David quem estava na minha frente. Eu o segurei forte pelo cabelo e puxei sua cabeça pra trás. Colei minha boca no seu ouvido e só Deus sabe os palavrões que eu disse ali. Então começou.

Ele gemeu, gemeu bastante. E eu gosto dos gemidos, sempre me deixam excitado. Gerard nunca gemia, e isso me irritava. Espera, eu falei no Gerard de novo?

Enfim. Eu mandei ele gritar a porra do meu nome, e ele chamou por mim. Uma, duas, três, várias vezes. Estava começando a ficar mais agressivo, e eu nunca tinha sido assim com ninguém. Mas era tudo culpa do Gerard. Tá aí, é isso. Agora tudo vai ser diferente. Acabou o Frankie meigo e bonitinho, que deixa os outros usarem ele e aceita numa boa. Agora era a vez do Frank hardcore. O Frank vazio e aproveitador, que não quer mais saber de ser submisso.

Acho que até o David percebeu isso, aliás. Eu empurrei ele mais pra frente, e levei a minha mão até o meio das pernas dele. E eu bati. É, eu bati uma pra ele. Bati nos dois sentidos, na verdade. No sexual e no violento, porque eu dei uns tapas nele. E ele parecia estar adorando. Ele gritava, chamava o meu nome, me pedia para comer ele e mais um monte de palavrões. E eu gostei. Mas puxar o cabelo era mais divertido, porque aí eu podia lamber ele também. Eu acho que quase arranquei o lóbulo da orelha dele uma hora... outra coisa que me lembrou o "outro" lá. Ele adorava isso com todas as forças e tesão possíveis.

E eu pude satisfazer seus desejos até de manhã. Acordei na cama dele, sozinho. Sei lá onde ele estava, só sei que não era ali. Eu estava destruído de cansaço. Levantei, caminhei até a cozinha. A casa estava vazia, e as nossas roupas ainda no chão. Me vesti e fui embora. Estava literalmente satisfeito.

***

Gerard POV

O tempo passou depois da grande briga. Agora era ele que não aparecia mais em casa, e eu dava uma de dona de casa. Engraçado, enquanto eu sabia que tinha ele, eu ficava com todo mundo. Agora, não tem mais graça. Realmente, eu não sinto mais vontade de sair pra catar algum cara, porque eu sei que não vai ter ninguém se preocupando comigo. Eu sou um fdp desgraçado ou o quê?

Eu só saí pra ir num bar depois de uma semana estando de molho em casa, esperando Frank atravessar a porta com aquele sorriso e falar que tinha me perdoado. Mas claro que isso não aconteceu. Olhe só, Gerard Way tendo esperanças. Culpa daquele Frank safado, que fica... querendo que eu tenha emoções humanas.

Tá, me chame de robocop, ou rei do gelo, ou seilá que merda. Mas o que tem de errado em ser um pouco fechado?

Eu cheguei no bar, e dei de cara com o meu irmão. Caramba, com toda essa bagunça com o Frank eu percebi que faz um tempão que não vejo nem o meu próprio irmão. Ele sorriu pra mim aquele sorriso amaconhado que ele sempre tem.

Falei oi pra todo mundo (o povo de sempre, que tá sempre no bar), e logo me perguntaram qual foi o motivo do meu sumiço. Eu falei que foi por causa de uns problemas aí. Ser vago é a minha especialidade. Então...

Então.

Eu notei logo que havia algo estranho nas expressões do povo. Eles sabiam da briga. Puxei Mikey num canto e perguntei:

— Vocês já sabem da briga?

— Já. E... ahm...

— Que foi?

Ele parecia preocupado com a minha reação.

— Bem... a gente tem visto o Frank. E... ele está bastante...

— Fala logo, porra!

— Ahm... sociável.

Eu apenas fiquei encarando o meu irmão, imaginando o que significaria sociável. Mandei ele explicar.

— É... que... – ele suspirou. – Ele tá como você! Ele tá igual a você, merda! Tá catando um cara diferente a cada noite, e depois eles voltam pra cá pro bar no dia seguinte falando que...

— Falando o quê? – me afobei sem querer.

Mesmo no escuro eu vi Mikey ficando vermelho.

— Que... nunca mais vão ser os mesmos, e que... – ele falava cada vez mais baixo. – ele é realmente ativo.

— QUÊ? – gritei, com tanta surpresa. Frank nunca foi ativo, nunca. Só aquela vez, mas foi porque ele estava... seil á, inspirado, mas era sempre EU que era o ativo! Tá certo que foi bom naquela vez, mas mesmo assim... – Bem... que bom pra ele. Você tem visto alguém novo por aí?

— Tem o Kyle. – ele apontou um cara bonitinho, com cara de mal, que tinha um moicano e uns piercings. Hum, eu gostava de piercings. Espera. Não, pensamentos ruins na minha cabeça. Respirei fundo e limpei minha mente. Fui até o cara com o meu sorriso campeão.

— Oi.

— Oi. – ele sorriu pra mim. Em outras épocas, eu saberia que ele estava ganho. Mas nessa noite, por algum motivo (“algum motivo” que por acaso também tem um piercing), eu não estava a fim. Aí dei um sorriso fraco e fui no banheiro.

Agora, pra quê que eu fui fazer isso?

Assim que fechei a porta do banheiro, notei o que estava acontecendo lá. Um casal, num dos boxes. Pelo menos estava fechado. Normal, sempre tinha gente se agarrando lá. Mas dessa vez... estava óbvio que eles estavam trepando. Porra, essas coisas só acontecem comigo.

Até que eu ouvi eles suspirando, e tal. Eu até pensei em sair, mas o meu lado voyeur falou mais alto, e também, eu tava na seca há um tempão, presenciar aquilo não faria mal.

Então, quando eu estava quase começando a ficar animado, ouvi uma voz familiar:

— Fala o meu nome. – gelei ao ouvir aquela voz. Mas por algum motivo, não consegui sair dali. – Fala o meu nome, porra!

— Fran... – ouvi uma voz masculina ofegante. Meu estômago gelou. Fiquei em estado de negação, e o pior é que eu nem consegui sair dali. – Ah, Frank...

— O que você quer que eu faça com você, ein? Fala!

— Ah Frank... Me come. – o outro falou baixinho. Ouvi a voz que eu não queria ouvir, cada vez mais alta e mais agressiva.

— O quê? Não ouvi.

— Me come! Me come logo, caralho!

— Demorou.

E então veio a pior parte. Eu ouvi a voz desconhecida dar um gemido súbito que eu reconheceria em qualquer lugar, e nessa hora eu recuperei o movimento das pernas e saí de lá correndo. Saí logo do bar, e estava tão enjoado que passei mal no beco que ficava lá perto.

***