###Gerard##

O que os olhos não vêem, o coração não sente. É. Pode soar piegas, mas é a verdade. Não vou dizer que tava tudo bem antes de eu ver aquilo, mas ficou muito pior depois. Ver não, ouvir, eu quis dizer. Nem imagino o que eu teria feito se eu tivesse visto.\" Acho que tinha vomitado ali mesmo.

Então o que eu fiz? Fui no único lugar que eu achava que eu realmente pertencia: um show. Eu sempre fico com alguém em show. É muito fácil, e eu aproveitei que tinha um 2 dias depois do dia do banheiro.

Eu devo dizer que me dediquei bastante a esse show. Eu estava particularmente pegável. Até eu me agarraria. Com o cabelo mais ou menos caindo na minha cara (porque eu sei o efeito que o meu cabelo comprido faz, apesar de não ser lavado há 2 semanas, mas ninguém precisa saber disso), uma camiseta preta até nova e a minha jaqueta de couro destroçada. Até aí normal. Mas as calças...escolhi cuidadosamente a que eu sabia que fazia o maior efeito: uma cinza escuro rasgada que era folgada mais pra baixo mas justa em cima, pra realçar as partes que os caras realmente gostam. E óculos escuros. Com o cabelo na cara e meus óculos escuros, eu fico muito style. Cego, mas style (sendo que tava tudo escuro lá). E dessa vez eu estava completamente solteiro, livre como um pássaro.

Eu cheguei no show, e não vi ninguém conhecido. Resolvi ir pro bar, como de comum. Sabe como é. Lá ficam os caras, além da bebida. Facilita tudo. Pedi uma dose de vinho. É o que me fazia ficar mais atirado e tarado. E quando eu fico tarado, protejam-se.

Tinha uma banda que eu não conhecia tocando. Eles não eram muito bons, então eu só fiquei no meu canto, bebendo e caçando.

- Achei que eles eram melhores.-Ouvi uma voz masculina dizendo, ao mesmo tempo em que ele se escorava ao meu lado na parede. Já era.

Ele me olhava de cima a baixo. Dava pra ver a fome nos olhos dele. Eu sabia que eu estava gato. Eu também o examinei. Ele era até bonito. Quer dizer, eu teria visto melhor se eu estivesse sem óculos, mas enfim. Detalhes. Mas do que eu notei, ele tinha um cabelo bem glam, estilo beatles, e uma calça meio folgada, mais uma jaqueta jeans arrumadinha. Na verdade, ele era arrumado demais. Hm. Dava pro gasto, mas eu era capaz de mais. Tava muito gato pra me render assim pro primeiro. E ele nem era lá essas coisas. Então eu acabei o vinho e simplesmente saí. Ele não veio atrás, mas eu senti que ficou me olhando de longe. Patético.

Mas foi quando eu tava chegando perto do balcão que eu vi. De longe ele chamava a atenção. O cabelo comprido preso num rabo de cavalo, usava lápis no olho, e uma jaqueta jeans velha bem estourada. Tinha um olhar tão inocente, mas ao mesmo tempo tão faminto. Você sabe que eu tenho um fraco pelos inocentes.

Então, ele também tinha piercing. No lábio. OK, não preciso dizer quem isso me lembrou.

Eu deixei ele se aproximar de novo, e então notei (com um pouco de dificuldade, por causa dos óculos) o quanto ele era bonito. E tinha um sorriso lindo. Dei bola pra ele. Sorri. Ele também.

Bom, ele tava sentado no balcão. Sentei do lado. Pedi outra dose de vinho. Ele pediu a mesma coisa, quase junto comigo. Tava querendo agradar.

-Oi.

- Oi -falei, com o meu tom desinteressado.

-E aí, tá curtindo o show? -Meio idiota, eu também pensei. Mas vamos dar uma segunda chance pro garoto.

- É, tá legal. — respondi. Me aproximei um pouco mais dele. — Você conhece a banda?

-Ah, sim. São uns amigos meus. Eles são meio novos nisso, mas são legais.

- Hum. Então é por isso que o som deles é tão... — ruim, pensei. — diferente.

-É, deve ser. -As bebidas chegaram. — Mas eu não acho diferente. Acho uma merda mesmo.

Sorri pra ele. Honesto. Bonito. Interessante. Me aproximei do ouvido dele e falei:

- Me segue.

E fui até o banheiro, com ele me seguindo de perto.

A gente entrou no banheiro. Ouvi ele fechando a porta atrás de mim, e então eu o agarrei. É. Joguei ele dentro de um dos boxes.

Comecei logo tirando a calça dele enquanto ele tirava o meu casaco e a minha camiseta.

Mordi o pescoço dele com força enquanto metia minha mão dentro da sua roupa debaixo. Ele agarrou a minha costela com força, o que só me fez mordê-lo mais forte.

Senti nossos quadris se encontrando quando nos beijamos de novo. Dessa vez senti que ele estava pronto pra ir. O sorriso que ele deu me mostrou que estávamos quase no estágio aqui-e-agora. Quando ele começou a desabotoar a minha calça, parei e falei:

- Vamos pro meu apartamento.

***

Nesse dia, eu não quis saber de nada. Eu só queria sentir. Sentir o calor da pele dele contra a minha, sentir o toque dele, sentir... qualquer coisa. Desde o meu rompimento (oh, que palavra bonita) com o Frank, que eu não sinto porra nenhuma. Tá, nos dois sentidos da frase. E isso tá começando a me fazer falta. Nos primeiros dias, foi aquele drama que eu já contei, que pra mim tem proporções 15 vezes maiores do que pra vocês por EU não estar acostumado a agir assim. Então eu tinha que tirar o meu atraso, e muito bem tirado. Aquele cara era gato, bom de cama, e eu estava pronto.

Mas... foi aí que eu percebi que eu não conseguia sentir nada.

Bom, estou sendo dramático. Eu senti quando ele me chupou, me senti muito bem, aliás. Também me senti muito bem quando comi o fulano (nem sabia o nome dele. Não que isso importasse muito), mas era apenas físico. Sabe? Não que eu fosse pensar se eu gostava ou não romanticamente de cada cara que eu fosse foder. Não, muito longe disso. Mas eu tava sentindo uma puta falta de sexo. E a melhor maneira de matá-la era fazendo, obviamente. Mas aquilo estava vazio. Tudo o que eu sentia era apenas o meu corpo respondendo aos estímulos físicos que o fulano me proporcionava. E eu já tava ficando irritado com aquilo. Então fui lá e usei e abusei da violência que eu até sentia falta. Foi ótimo me sentir dentro dele, ouvir ele gemendo por MINHA causa. Mas por algum motivo, aquilo não foi suficiente para eu me sentir completamente satisfeito.

Não foi suficiente eu sentir o toque dele, sentir a sua pele sob a minha boca, sob os meus dedos, senti-lo ofegando no meu ouvido e até gritando ás vezes.

E o pior é que eu nem sabia o que faltava sentir. E com esse pensamento, eu apenas fiz com mais força ainda, até ouvir o fulano gritando. Nunca soube se ele estava gritando para que eu continuasse ou se era para eu parar. Não importava. Eu continuei mesmo assim, cada vez mais forte, até eu me satisfazer, na esperança de se eu fizesse mais e mais forte, talvez eu pudesse sentir algo mais.

Finalmente, caí de costas ao lado dele, ofegando como se tivesse corrido uma maratona. Ele falou algo sobre eu ser bastante agressivo, mas nem prestei atenção. Eu estava mais preocupado com o fato de que, mesmo estando com um cara lindo e pelado me abraçando, eu nunca tinha me sentido tão só como naquela hora.

***

Aquilo tinha que acabar. Eu tinha que por um fim naquilo. Não podia deixar qualquer coisa me afetar. Por isso resolvi voltar para o meu eu-familiar. Ou seja, comecei a passar mais tempo com o meu irmãozinho.

Devo dizer que estranhei o tom de surpresa dele ao telefone quando liguei para anunciar que estava indo vê-lo no seu apartamento. Quer dizer, eu não sou um irmão tão desnaturado assim, sou?

O ruim com o Mikey é que você tem que conseguir fazer com que ele esqueça um pouco da maconha e do videogame pra prestar atenção em você. E o único jeito de fazer isso é fumar e jogar com ele. Então, foi isso que eu fiz. Não que eu esteja reclamando.

- Então... — falei devagar sem tirar os olhos da tela da TV enquanto tentava raciocinar o suficiente pra apertar os botões certos do controle. O baseado me deixava lerdão. — Como você vai, cara?

- Ganhando de você.- Mikey falou. Ele estava como eu, só que mais chapado e mais maníaco pelo jogo.

- Não, eu quero dizer... como vai a sua vida?

- Porquê tanta preocupação? — ele falou puxando outro trago.

- Eu não posso mais me importar com o meu irmãozinho?

- Eu... to bem.

- Legal. HÁ! GANHEI!

Eu era o único que ganhava dele e ele sabia disso. Nessa hora eu estava fazendo a minha comemoração regada a mais um trago muito bem puxado, e alguém bateu na porta. Eu estava mais preocupado com o fato de que eu ainda não estava chapado o suficiente e também com a minha dança da vitória, então Mikey foi atender.

- Hey.

Mesmo morgado como eu tava, reconheci a voz. Me virei lentamente no sofá, e vi Frank olhando pra mim com uma cara não muito feliz.

Saí de lá quase sem me despedir de Mikey, de tanta pressa. E talvez do tanto que eu tava chapado.

***

Então meu irmão e meu ex eram melhores amigos agora. Eles se encontravam pra jogar e fumar maconha. Bom, na verdade, ser amigo do Mikey consiste nisso mesmo naturalmente. Mas... por que o Frank? E por que logo depois que a gente terminou?

Ah, deve ser pra fumar. O Frank gosta disso. Não tanto quanto o mikey, mas gosta. Ou também tem a opção B. Ele pode ter começado a passar mais tempo com o meu irmão por minha causa. Afinal, nada mais lógico do que se aproximar mais do Mikey pra depois voltar a de aproximar de mim. Que bonitinho. Ele tava sentindo aminha falta.

Só de pensar nisso eu já começo a ficar feliz. Ele sabe que eu também to me reaproximando do Mi, então... ele vai lá pra me ver. Oh cara, então eu ainda tenho esperanças.

Urgh, eu e essas esperanças. O que está havendo comigo?

Então, eu fui mais no Mikey durante a semana, e na maioria das vezes o Frank tava lá. Pelo menos ele não tinha mais o olhar hostil. Eu ia lá, a gente jogava e fumava, mas sem trocar palavra. Era assim: eu, Mi e Frank no sofá, nessa ordem. Eu falava com o Mi, que respondia. Aí o Frank falava com o Mi também, que respondia de novo. Nunca falamos um com o outro. O que estava começando a me irritar. Se ele ia lá por minha causa, por que o desgraçado não falava comigo? Ah, já sei. Do mesmo jeito que eu não cedia e não falava com ele, ele também não cedia.

Até que isso me cansou. Eu sentia falta do Frank, e ficar naquele negócio de não-falar me irritava. Eu sabia que eu tinha a minha pose de ser sempre o fodão, mas... estava na hora de ceder.

Então fui no Mikey (sem avisar, mas ele já estava acostumado com as minhas visitas) um pouco mais tarde que o normal, tipo umas 5 da tarde, porque eu passei um tempão ensaiando o que eu ia dizer pro Frank.

Eu repassava as palavras na minha cabeça enquanto o elevador subia. Dessa vez, eu seria sincero. Acho que eu até falaria que eu amava ele. Mas talvez fosse só a saudade. Com saudade suficiente você tende a amar qualquer coisa.

Abria porta do apartamento com a minha chave extra que Mikey tinha me dado, pra caso eu batesse e ele não pudesse atender porque estava jogando. Respirei fundo, abri a porta, e vi Mikey e Frank.

Seria normal, se eles não estivessem trepando no sofá nessa hora.

Ora essa. Como eu passei de fodão a fodido.

***

###FRANK#####

As últimas semanas tinham sido muito bem aproveitadas. David havia sido apenas o primeiro de muitos com os quais eu me diverti a partir dalí. Era sempre aquele mesmo esquema: ia pro bar, encontrava o pessoal, falava com os novos, cantava um ou outro, ia embora acompanhado. Sempre íamos pros apartamentos deles, é claro. No meu seria impossível. O Gerard tava sempre lá. Nos primeiros dias, não vou negar que me consumi de vontade de ir lá para vê-lo. Cara, que saudade. Mas eu não ia ceder, não mesmo. E também, quem disse que ele tava se importando? Eu até que ouvi uns boatos. E ele também tava sumido. Ninguém o via, ninguém sabia dele, nada.

Ah, e eu tinha as minhas coisas pra ir pegar. Eu não podia aparecer de dia, porque aí eu ia realmente encontrá-lo e isso ia dar em merda. Por isso eu ía à noite. De madrugada, melhor dizendo, no horário em que eu sabia que ele estava dormindo. Eu chegava mudo e saía calado, sem fazer barulho algum. Gerard sempre tivera o sono pesado, e eu acho que ele nem havia notado essas minhas visitas às escondidas. Devia estar preocupado com qual cara novo ele ia trepar, ou coisa que o valha.

Então eu arrumei uns bicos nesses dias. Tava sem emprego mesmo e não tinha nada pra fazer na rua. E eu não podia aparecer em casa, porque, como eu já disse, o Gerard tava lá. Eu não queria encontrar com ele acordado de jeito nenhum. Então comecei a ajudar o Larry no bar, servindo os caras e tudo o mais. Assim ficava até mais fácil de pegar eles. E tinha o banheiro pra gente usar à vontade, caso eu não pudesse sair dalí pra trepar.

Foi num dia desses que aconteceu. Eu tava lá no bar trabalhando, quando o pessoal de sempre chegou. Mikey estava com eles. Não era a primeira vez na semana que eles apareciam. Eu corri os olhos pelos rostos dos caras, esperando encontrar em um deles aquele do qual eu sentia falta. Mas ele não estava alí. Então eles se sentaram no balcão e a gente começou a conversar.

Eu não queria perguntar do Gerard pro Mikey. Na verdade, eu não queria falar do Gerard com ninguém. Então a gente começou a falar de video game, vejam só. Eu gostava, mas era péssimo. Conversa vai, conversa vem, eu comecei a perceber uma coisa. Merda, eu tava ficando a fim do Mikey. Logo do Mikey, irmão do meu ex! Puta que pariu. Ele não ia querer ficar comigo. Quer dizer, eu tava reparando nele e eu até percebi uns olhares, daqueles tímidos que ele dá por cima da armação dos óculos. Eu poderia jurar que havia segundas intenções alí. Pensando bem, eu e o Gerard nem tínhamos mais nada mesmo, e ele devia estar pouco se fodendo pra mim. Até podia ter dito isso pro irmão dele. Aí é que rolava a idéia de que o Mi podia estar querendo alguma coisa.

Bem, eu nunca ia saber se eu não tentasse. Então eu chamei ele pelo nome, que demorou um pouco pra olhar visto que tava chapado e lerdo como sempre, e me escorei do lado dele sobre o balcão. Sussurrei umas coisas no ouvido dele e percebi que ele ficou arrepiado de ouvir. Então eu o agarrei. E ele não resistiu. Mas foi só um beijo, o que foi suficiente pra gente sair correndo dalí pra um lugar mais... íntimo? É, é isso. O bar tava meio vazio mesmo, Larry nem ia dar falta de mim. Fomos pro apartamento do Mi. A partir daí, começamos a ficar direto.

Mas tipo, eu não fiquei com ele por causa do Gerard. Não fiquei, não fiquei, não fiquei. — pausa. — Ok, talvez, eu estivesse querendo me vingar um pouquinho. Tá, eu sou vingativo. Eu já disse isso antes. Hm. Bom, o que eu queria mesmo ver o gerard se fuder. Pronto, falei.

Mas não era só isso e tal. Eu tava gostando de ficar com o Mi, era divertido. Passei a frequentar direto o apartamento dele. E, nossa, eu juro, foi uma surpresa quando o Gerard começou a aparecer. Enquanto a gente tava junto, ele raramente visitava o irmão. Mas né, agora ele tava sozinho, não me tinha mais pra ocupar o tempo dele.

Foi estranho. Eu queria mas ao mesmo tempo não queria ver ele. Só que eu tava com o Mikey agora, e, apesar disso, eu sentia um pouco de saudade do Gerard. Ele chegava no apartamento, sentava do lado do irmão dele no sofá e ficava mudo. Eu estranhei isso demais. Gerard nunca foi de ficar calado. Talvez ele apenas estivesse chateado comigo, mas não seria eu quem quebraria aquele gelo todo. Longe de mim. Eu não tava fazendo muita questão de parecer simpático.

Enfim, numa tarde dessas eu cheguei no apartamento e o Mikey tava fumando um. Pra variar, é, eu sei. O Gerard não tava lá. Tinah brecha melhor pra gente se agarrar? Não. Então a gente começou ali mesmo, no tapete da sala e, quando vimos, estávamos trepando no sofá.

Foi nessa hora que o Gerard chegou.