Pleasures

69 Um belo esporro


Narrador POV

– Você troca de roupa aqui mesmo? – Giulia concorda ainda abraçada a Harry. – Enquanto você se arruma vou ligar para umas pessoas, tudo bem?

– Sim, me espera na entrada. – ela o soltou e foi dar um beijo na bochecha de Harry que virou o rosto e roubou um selinho e uma leve mordida no lábio inferior. – Abusado!

– Isso é só o começo, Giu... vai pagar caro por me provocar! – ele ri e sai porta a fora, Giulia foi cercada pelas suas dez companheiras com olhos arregalados.

– Você e Harry...? – questiona a mais alta de cabelos loiros.

– Estão...? – a mais nova da turma leva a mão na boca surpresa, seus pequenos olhos negros arregalados.

– Não gente, é a primeira vez que nos vimos pessoalmente. – murmura Giulia e empurra as meninas indo até a sua bolsa.

– Pessoalmente? Isso quer dizer que conhece ele de outra maneira. – uma das meninas fala como se fosse um detetive, as outras concordam tanto que parecem aqueles cachorros que colocam no carro e ficam balançando a cabeça.

– Converso com ele por Skype! – Giulia tira toda a roupa branca e troca por um vestido florido com um cinto rosa na cintura. – Acabaram as perguntas? – arqueia a sobrancelha e as meninas se entreolham sorrindo.

– Fala pra ele tirar uma foto conosco! – berram em uníssono, Giulia tapa os ouvidos e gira os olhos. Ignora os dez pares de olhos e se vira para o grande espelho começando a tirar toda aquela maquiagem exagerada.

– Não. – diz simplesmente enquanto limpa o resto de demaquilante do rosto, as meninas encolhem os ombros e antes que elas perguntem algo Giulia se vira para elas já com o rosto todo limpo. – Nem eu tenho uma foto com ele.

– Tira junto com a gente, problema resolvido! – grita a morena lá do fundo.

– Só me respondam uma coisa. – elas assentiram prontamente. – Tenho escolha?

– Nenhuma! – elas exclamam juntas e Giulia revira os olhos e se vira novamente para o espelho fazendo uma nova maquiagem, básica.

– Vamos cambada! – ela chama enquanto solta os longos cabelos escuros que caem em cascatas revoltas sobre seus ombros, as meninas a seguem nas pontas dos pés, os sorrisos tão grandes que se podia vê-los de costas. Giulia bufava enquanto puxava a fila de bailarinas.

Harry havia acabado de desligar o telefone e esperava Giulia frente as portas do grande teatro. Estava muito feliz e nervoso ao mesmo tempo, não sabia como se portar perto de sua pequena brasileira, as mãos não paravam num único ângulo por mais de dois segundos e seus dedos se enrolavam e se agarravam incessantemente. Então, quando a cabeleira morena dela apareceu dentre as fileiras de cadeiras vermelhas, seu estúpido coração também não sabia como se comportar. Rápidos e ávidos pulos seguidos e outros tão lentos e tortuosos que quase podia sentir falta do sangue que era bombeado devagar.

Ele espreme os olhos verdes em direção a pequena que caminha para ele e captura mais dez cabeças a seguindo firmemente, todas com coques perfeitamente arrumados. Ele sorri e acena para as garotas e Giulia que vinha com uma cara nada agradável.

– Ola meninas. – Harry as cumprimentou assim que pararam, em fila indiana, a sua frente.

– Harry, a maioria delas não fala inglês. – comentou Giulia má humorada, Harry sorriu.

– Oi meninas, como estão? – fala Harry agora em português e elas se agitam cochichando todas juntas. – Fala para elas que não entendi uma única palavra do que disseram. – Giulia ri e transmite o recado para as meninas que sorriem sem graça. – O que elas querem que te deixa tão brava, baixinha?

– Uma foto com você, apertar você, beijar você, sequestrar você, estuprar você... tantas coisas... – Giulia sorri irônica e Harry levanta uma de suas grossas sobrancelhas escuras, desconfiado.

– O que é isso, baixinha? Ciúmes? – Harry ergueu a mão para tocar sua bochecha, mas Giulia esquivou, ele riu. – Não precisa ficar assim por que só você pode fazer tudo isso comigo. – ele piscou maroto e as duas ou três meninas que entendiam o que ele falava puxaram um coro de “huuum” malicioso que fez as bochechas de Giulia queimarem.

– Não sei qual a parte sua que odeio mais, seu egocentrismo propenso a se achar o centro do mundo, ou seu lado sensível predisposto a fazer promessas sem fundamentos. – ela ri em deboche, as sobrancelhas grossas de Harry se unem em aborrecimento. As meninas viram o rosto para ele esperando a resposta, olhavam de um para o outro como telespectadores de um hábil jogo de ping-pong.

– Esqueceu de dizer o lado que te agrada, Giu. Não precisa, eu sei qual é, você ama esses dois lado que diz odiar e ama também quando esqueço de todos meus princípios para fazer algo que te agrada, como, por exemplo, pegar o primeiro avião para cá e cancelar duas entrevistas apenas para te ver dançar. – solta um longo suspiro e sorri levemente. – Eu não estava mentindo quando disse que tinha uma viagem para hoje, os meninos estão nesse momento dando uma entrevista para um programa na Nova Zelândia... – sua voz diminuía gradativamente enquanto observava o riso perder força no rosto de Giulia. – E quanto as “promessas sem fundamentos” se depender de mim é cheias de fundamentos, serão sem fundamentos apenas se você quiser que assim seja. – ele completa seu raciocínio com sua irritante maneira calma, lenta, torturante, de proferir as palavras. Um ofego escapou da boca de Giulia, que foi pega de surpresa, e o mesmo som foi ouvido através dos lábios das outras, até mesmo as que não entenderam nada. Onze pares de olhos avaliavam as expressões assustadas de Giulia esperando sua defesa ou rendição a par da pequena discussão estabelecida ali. Ela, porém, preferiu sair pela tangente e sorrindo aquele sorriso falsamente desentendido virou para as meninas e as puxou para perto de Harry.

– Vocês não estavam doidas para tirar uma foto com ele?! – as meninas rapidamente esqueceram a conversa dos dois e Giulia suspirou aliviada, virou para Harry e moveu os lábios lentamente “terminamos isso mais tarde, Harold, mais tarde...” disse sem som e ele apenas concordou com o sorriso elegante, cheio de dentes, o sorriso que sabia ter ganho a guerra antes mesmo da batalha começar.

–

– Você vai insistir em me ignorar? – questiona Harry já sem esperanças, Giulia gira a cabeça para a janela do carro, nada discreto, que Harry alugara.

– Vai lá tirar foto e agarrar as suas bailarininhas, vai. – desdenha Giulia como resposta. Harry bate a mão no volante e com uma virada brusca estaciona o carro numa calçada qualquer. – Ficou louco? – grita com as mãos presas, com força, nos bancos.

– Não! – ele rosna, Giulia se encolhe no banco e espera seu longo discurso. Mesmo longe dela ele já havia o feito algumas vezes e ela sempre se perdia no meio.

– O que foi? – insiste num suspiro, Harry se vira para ela, as narinas inchando com o ar que passava duramente por elas e os olhos flamejando algum sentimento nada bom, é incrível como Harry tem um humor instável.

– Eu acho que você não entendeu o que eu disse mais cedo no teatro, Giu. – ele balança a cabeça lentamente e o nome dela escapa tão suave dos lábios que quase podia enganá-la a respeito de seu humor. – Eu vim aqui por você, foi por você que deixei o meu trabalho de lado, não foi por elas. É apenas por você que eu desejo que aquele oceano todo simplesmente evapore para eu poder dar dois passos e esticar a mão para te ter ao meu lado. É você que está aqui ao meu lado agora, é com você que eu durmo todas as noites, mesmo a distância. É em você que eu penso quando canto ou ouço uma música romântica, entenda Giulia, é você que me deixa assim tão trêmulo. – ele levanta a mão que tremula no ar. – Eu não entendo como ou por que, mas é por você que a porra do meu coração está assim! – ele puxa a mão dela para sobre o peito e ambos podem sentir perfeitamente o coração dele batendo de maneira errônea. – É só com você que ele fica assim, não importa se do outro lado do oceano, ou aqui no banco ao lado, é só por você que ele bate errado.

Harry suspira pesadamente e fecha os olhos com força, parecia ter tirado um peso enorme das costas dizendo tudo isso, Giulia continuava em silêncio, os olhos verdes levemente abertos em surpresa e a boca tremulava como se ela estivesse segurando o choro. Mais devagar do que fechou, Harry abriu os olhos e encontrou as esmeraldas de Giulia o analisando sem expressão. A maneira como ela escondia todos os sentimentos quando queria era horrível, não era a primeira vez que Harry se remoia de vontade de entender esse apático olhar dela. De fato tudo que está acontecendo agora que estão juntos, a forma de olhar, a maneira de falar e se portar continua a mesma de quando se falam por Skype, porém agora com o dobro de sentimentos e sensações ruins, agora um ao lado do outro eles não podiam dar uma simples desculpas e encerrar a chamada, tinham que simplesmente aguentar o olhar verde um do outro tentando descobrir os mínimos detalhes de cada frase e ação. Era estranhamente desconfortável e horrivelmente intimidador.

– Você não vai dizer nada? – sussurra Harry quase inaudível, ele tinha medo do que ela podia falar, porém ela apenas negou com a cabeça. – Por favor, diga algo...

Negando novamente Giulia solta seu cinto de segurança e se vira para Harry, num lento e tortuoso movimento ela percorre o dedo indicador sobre a linha do maxilar dele, suavemente, com veneração. Calmamente os dedos finos de Giulia envolvem as maçãs e bochechas de ambos os lados do rosto de Harry, uma leve carícia se inicia com o polegar, Harry fecha os olhos e quase se pode ouvi-lo ronronar. É de maneira suave, incerta, com medo talvez, que os lábios de Giulia tocam os dele. O céu fica sob seus pés e a respiração é presa quase automaticamente. De inicio uma leve e doce carícia, seus lábios se abrindo e fechando em torno um do outro, ficam assim por vários segundos aproveitando a deliciosa e clichê sensação de corrente elétrica acender todo o corpo, em especial o coração que bombeava o sangue com tanta pressa que os deixavam com a cabeça pesada.

Tão rápido quanto começou acabou, Giulia se afastou antes que Harry pudesse aprofundar o beijo. Ela estava de olhos fechados e não pode ver o sorriso bobo no rosto dele.

– E agora? – Harry quebra o acusador silêncio entre os dois. – O que vamos fazer?

– Você prometeu me surpreender, Harold. Começou bem, agora estou esperando as outras... – implica Giulia com um sorriso zombeteiro no rosto. Harry solta seu sinto de segurança e levando a mão até a nuca de Giulia agarra os cabelos com certa força e a puxa de encontro aos seus lábios.

Suas línguas se chocaram com brutalidade e se enlaçaram de maneira perfeita. Um sentindo o gosto peculiar da boca do outro, era uma mistura de hortelã com framboesa que virou um delicioso novo sabor que era absorvido com veneração por ambos. Dentes repuxavam lábios e os corações dispararam ainda mais rápido que no primeiro beijo, atingindo um ritmo que eles desconheciam existir, a corrente elétrica que acendeu todo o corpo deles antes, agora, parecia quase insuportável de se aguentar de tão forte que corria arrepiando cada fio existente no corpo. Era um beijo diferente de todos os antes, eram tantos sentimentos e desejos que não podiam distinguir cada um. Era, apenas, diferente.

– Estava torcendo pra você dizer isso! – sussurra Harry ao separar seus lábios por milímetros e abriu um sorriso malvado, dando um ultimo selinho de Giulia ele acelera para longe dali.

–

– Estátua da Liberdade? – interroga Giulia enquanto entrava no barco que os levariam até a estátua. – Isso é um passeio turístico, cadê a surpresa?

– Fica quieta, Giu. – brinca Harry e ela começa a falar em português só pra irritá-lo. – Tudo bem pode perguntar. – ele suspira vencido pela cansativa Giulia. – Odeio quando você fala em português!

– E quando fala em francês! – mostra língua pra ele como uma criança de quatro anos. – Onde estão os outros turistas? – ela une a sobrancelha desconfiada.

– Surpresa! – Harry fala com voz de falsete e abre os braços de forma idiota.

– Você fretou o barco apenas pra nós? – retruca com tédio, Harry gira os olhos e ela ri. – O que é então?

– As visitas há essa hora já acabaram. – explica. – Olha! – aponto o sol que começava a sua decida magistral rumo ao horizonte. – Logo o sol se põe.

– E? – ela mexe as sobrancelhas o incentivando a continuar, Harry bufa.

– Já você vê! – ele a abraça de lado e encosta a cabeça em seu ombro, os dedos de Giulia alcançam os cachos dele e começa a brincar ali. Harry sorri, deliciado com o carinho. Uma música romântica-dramática começa a soar pelo pequeno barco que os deixavam mais próximos a dama de cobre, Giulia ri e Harry balança a cabeça. – Não fui eu, juro!

– Até que é bonitinha... – brinca Giulia e Harry gargalha.

– Não mesmo! – eles ficam os próximos dez minutos em silêncio assistindo a lenta caminhada da enorme bola de fogo. – Espero que tenha bom fôlego e pernas fortes. – comenta Harry descendo do barco, Giulia rola os olhos e Harry finge se bater. – Esquece, falei bobeira.

– Se eu não tivesse essas duas coisas já estaria aposentada do Ballet. – zoa Giulia já subindo os primeiros degraus dos 389 existentes. – Quero ver se você consegue.

– Eu acho uma injustiça uma coisa tão grande não ter elevador... – resmunga Harry quando eles terminam o primeiro lance de degraus. – Mais... pelo menos vai... compensar quando chegar lá... – completa entre resfôlegos.

– O que vai ter lá em cima?

– Você é meio lerdinha, não?! – caçoa Harry, Giulia bufa subindo as escadas rapidamente, ele tentava acompanhar mais era quase impossível, ela era rápida. – É brincadeira, linda! – ele fala quando param nos degraus que levam para a tocha. – Finalmente, vem! – pega na mão de Giulia e a arrasta os últimos 54 degraus, quando chegam ao salão da tocha tem uma pequena mesa montada com frutas ao lado da grande vidraça, um balde com champanhe junto a duas taças vermelhas, e uma única margarida descansava ao lado de tudo. Harry caminha lentamente até a margarida a ergue nos dedos com cuidado e após dar um beijo nela entrega para Giulia que sorria feito boba.

– Não podemos beber aqui, Harry. – avisa Giulia observando ele destampar a garrafa sem derrubar uma gota. Ele finge olhar para os lados e depois sorri cúmplice pra ela.

– Não estou vendo ninguém aqui... – entrega a taça cheia pra ela e a puxa até a vidraça. – Olha. – ele a coloca a sua frente e a abraça por trás descansando o queixo em seu ombro, aponta o pôr do sol magnífico que se via lá de cima e finalmente Giulia entendeu o porquê do passeio. Era simplesmente, perfeitamente, deslumbrante. Os tons de laranja pintando todo o céu e se mesclando ao rosa do fim de tarde, azul turquesa do tempo levemente fechado para chover e branco das grossas nuvens que perto deles pareciam pedaços fofos de algodão.

– Harry... isso é...

– Indescritível? – pergunta beijando seu pescoço ela chacoalha a cabeça em concordância. – Igual a você... – sussurra ao pé do ouvido de Giulia que se arrepia. Harry a vira pra ele e ergue a taça. – A nós? – pergunta receoso.

– A nós! – exclama Giulia. E assim eles terminam o dia, com um brinde e o lindo pôr do sol como cena de fundo.