Please, kill me.
6 Quem tem ciúmes quer... Sorvete? (Cap. Especial)
Notas iniciais
Ontem foi estranho para mim, sei que vou longe quando quero descobrir alguma coisa, mas ontem eu realmente passei dos limites, o mais impressionante é que eu não me sinto culpado pelo Sakamoto, ele é tão bonitinho, às vezes me lembra duma criança. Quero que ele esqueça tudo o que aconteceu ontem depois do filme, o beijo, as caricias, o calor... Especialmente o abraço; acho que o levarei para a sorveteria aqui perto. Será que ele gosta de sorvete?
- Sakamoto... – Cutuquei seu braço, mas não tive resposta. — Sakamoto!- O cutuquei novamente e da mesma forma sem resposta. Droga, como se acorda alguém?! Ah! Já vi isso na televisão. Bem, peguei um copo de água na cozinha, espero que funcione.
- Sakamoto! – Joguei toda a água fria no rosto dele e em menos de segundos ele estava de pé. Encharcado, mas de pé.
- Ah que bom que você acor...
- Nomura Tomoko! O que diabos você acha que está fazendo?!
- Te acordando... O que você acha? – Eu disse, mas ele parecia bastante irritado.
- Existem várias formas de acordar uma pessoa por que recorreu logo a essa?
- Parecia mais eficiente... – Disse com um tom talvez muito mais indiferente do que gostaria que soasse. Sakamoto estava me olhando com uma cara emburrada e estranhamente infantil. Que vontade de rir, mas eu simplesmente coloquei a mão fechada sobre a minha boca.
- Eu quase morri afogado!
- Como você é dramático. — Disse olhando para sua expressão ainda irritada — Vá se trocar, nós vamos à sorveteria.
- O que? Mas eu ainda nem tomei café. – Ele disse já com uma cara de dúvida.
- Nós vamos tomar agora! Se apresse.
Ele ainda parecia chateado, foi andando pesadamente até o banheiro e eu me deitei na cama que era sua; por esses tempos. Botei minha cabeça apoiada em minhas mãos sobre o travesseiro, talvez esse quarto fosse a parte mais iluminada da minha casa, o engraçado é que eu nunca notei isso. As coisas parecem ficar mais divertidas com o Sakamoto aqui. Ridículo. O aroma dele estava no travesseiro, era algo indefinido, mas se assemelhava ao cheiro de uma garota. Uma garota; eu já senti isso em algum lugar. Fechei os olhos e senti a brisa entrar pela pequena janela do quarto de hospedes, o cômodo também era pequeno e não era utilizado havia muito tempo. O ultimo que dormiu aqui foi o meu pai. Lá estava ele, Sakamoto, de pé em frente à porta, olhando para mim e com o rosto ao que parecia levemente corado.
- O que foi? – Eu disse apenas com um dos meus olhos abertos.
-N-N-Nada!! – Ele gritou. – Então vamos?
Ele realmente é uma incógnita, levantei da cama e passei por ele. Aquele cheiro era tão diferente. Descemos as escadas do meu prédio velho e logo estávamos caminhando na calçada, era Sexta-Feira; normalmente aquilo estaria cheio de gente, mas era cedo demais para isso. Era fácil andar na rua, até mesmo calmamente. A brisa acariciava os meus cabelos assim como os do Sakamoto, sabia disso porque estava olhando para ele, era tão pequeno e frágil. Eu tirei uma carteira de cigarros do bolso e quando estava prestes a puxar um...
- Nomura-kun pare. – Isso me surpreendeu, os olhos dele estavam em mim. – Por favor, não fume. Isso vai fazer mal a você um dia.
- Felizmente esse dia não é hoje. – Eu disse com o tom de voz de sempre, mas que poderia ser interpretado pelos outros como: arrogância, frieza, indiferença entre outros. Sakamoto é o tipo de garoto mimado que acha que só pedir “por favor” vai mudar tudo. Ele acha que tudo é simples. Mas não é. Eu estava levanto o cigarro em direção a minha boca.
- Pare! – Ele tomou o cigarro da minha mão; aquela atitude já estava me deixando irritado, eu estava prestes a puxá-lo pela camisa como sempre e... – Se ouviu o que eu disse naquele dia que esteve em minha casa, sabe que eu me importo o bastante com você para não deixar se acabar desse jeito.
- Sakamoto. – Eu ia ameaçá-lo e brigar com ele, mas minha voz soou como um sussurro, sempre que eu faço algo que provavelmente vai me prejudicar, ele reage dessa forma. Que tipo de sentimento é esse?! Não sei, mas é como se eu gostasse disso. Eu já não estava mais com o olhar sério, apenas o estava olhando. Ele percebeu, assim como eu, que ele estava muito perto e nós estávamos nos olhando por muito tempo, vi algumas garotas passando atrás dele, nos olhando e fazendo comentários acompanhados de risadinhas femininas. Aquilo me enjoava.
- Se é isso que quer. – Disse voltando ao normal. – Só não chame a atenção da cidade toda com seu dramatismo.
- Não é dramatismo. – Ele falou baixo com um tom chateado e com as bochechas novamente coradas. Bobo e ainda sim bonitinho. Continuamos caminhando em direção à sorveteria, faltava pouco a chegarmos, se não fosse por uma garota. Uma garota bonita — cabelos encaracolados e ruivos, olhos verdes e sardas no rosto. Ela não tinha nenhum traço oriental, disso eu tinha certeza, era tão bonita que o fato dela estar indo na direção do Sakamoto me impressionou.
- You-chan! – Ela gritou abraçando-o.
- O-oi Marceline. – Senti um tom de descontentamento em sua voz, mas a garota parecia não ter notado.
- You! Você sumiu! – Seus olhos brilhavam ao falar com o Sakamoto, aquilo me incomodava e não sabia dizer o porquê. – Como está sua mãe? Ainda trabalha no mercado?
- Ah sim, heh. – Ele sorriu sem graça colocando a mão atrás da cabeça. A garota nem havia me notado ali. – Bem... Marceline! Esse é meu amigo Nomura Tomoko-kun. – Ela olhou surpresa para mim, com certeza não havia me percebido antes, aquilo estava me deixando irritado. Ela se curvou a minha frente de uma forma inesperadamente nipônica.
- É um prazer conhecê-lo, Nomura-san. – O vento soprou em minha direção trazendo o cheiro de seus cabelos. Aquele cheiro era idêntico ao do Sakamoto. Cerrei meus punhos, já estava ficando mais que irritado. Por quê?! Eu não tinha motivo algum para isso tudo.
- É um prazer conhecê-la – Disse tentando não mostrar raiva, o que, para mim, era realmente difícil. Acho que raiva é o único sentimento que eu não sou capaz de conter.
- Bem, Marceline, eu e o Nomura-kun estamos indo tomar café, podemos nos encontrar outra hora se você quiser.
- Certo! Aqui está o meu número novo You-chan! – Ela retirou mais que rapidamente uma caneta de sua bolsa e começou a escrever no braço dele. – Me ligue quando quiser.
Ela o abraçou novamente e saiu acenando para nós. Bonita, mas irritante. Caminhamos o resto do percurso calados, talvez ele não se atrevesse a falar comigo pela expressão irritada que eu mantinha no rosto, não era proposital; isso eu posso garantir. Finalmente chegamos à sorveteria, ele pediu sorvete de morango e creme, já eu, de amora. Sentamos nas cadeiras do lado de fora do estabelecimento e algumas dúvidas sobre aquela garota me irritavam.
- Quem era ela? – Disse tentando não parecer irritado.
- Uh? Ah... Minha... — Ele hesitou por um instante, isso despertou mais ainda minha curiosidade.
- Sua o que? – Disse sem controlar a raiva misturada com o meu desejo perturbador de saber quem ela era.
- Minha ex-namorada. – Aquela frase foi muito mais chocante para mim do que eu esperava, chegou a me dar um nó na garganta, meus olhos estavam arregalados. Parei instantaneamente de comer o sorvete. Namorada? Por que isso não passou pela minha cabeça? Talvez eu não quisesse pensar nessa possibilidade. Mas o Sakamoto... Ele não parece ser o tipo de cara que sai com garotas tão bonitas assim.
- Então... – Disse tentando me recuperar. – Você faz sucesso entre as garotas não é?! – Ele riu sem graça.
- Na verdade não é bem assim. – Ele coçou a bochecha com a ponta do indicador. – Ela me conheceu em uma perfumaria, estávamos lá para comprar o mesmo perfume, foi uma coincidência incrível. Ela havia pego o ultimo e já estava prestes a pagar, isso me deixou um pouco triste e acho que ela percebeu, então decidiu comprá-lo para mim, Marceline disse que costumava usar aquele perfume e que um garoto que o usasse era algo realmente surpreendente, disse que tinha outros dois em casa e que poderia me dar de presente. Depois disso começamos a sair e... – Ele parou com um suspiro colocando a colher de sorvete na boca.
- Você a pediu em namoro... – Disse com uma certeza quase absoluta. Mas ele acenou negativamente com a cabeça me espantando um pouco. Ele então retirou a colher de sua boca.
- Ela me pediu em namoro. – Que ridículo! Aquilo me deu uma vontade de rir tão grande que eu não sei como consegui me conter. O Sakamoto conseguia ser submisso o bastante para não ter atitude em horas como essa. – Eu ia dizer não. – Ele continuou. – Mas ela era tão linda e estava tão apaixonada por mim que não sabia como reagir, então aceitei. Mas o namoro não durou muito.
Ele parecia triste, era estranho ele não gostar de namorar uma garota tão bonita que o amava tanto. Ainda havia uma pergunta que me irritava profundamente, mas não me sentia tão à vontade para perguntar.
- Vocês já transaram? – Eu disse colocando levemente a colher com sorvete em minha boca. Ao ouvir a pergunta ele se engasgou e começou a tossir, realmente, tossir muito. Estava chamando a atenção de todos que passavam; isso estava me deixando constrangido.
- Nomura-kun! – Ele disse tentando parar as tosses involuntárias. – Que tipo de pergunta é essa?
- Uma pergunta de sim ou não. – Disse ainda tomando o sorvete.
- Bem... Eu... – Ele abaixou as mãos colocando-as sob a mesa e virando o rosto para o seu lado direito. Ele estava um tanto corado, meus olhos logo se viraram para ele. Era tão bonitinho vê-lo daquele jeito. –... Ainda sou virgem.
Ele fez bico, com certeza todo aquele sentimento de quando conheci a tal da garota Marceline, se dissipou quase que instantaneamente, estava realmente feliz, deixando até um sorriso escapar enquanto tirava a colher da boca.
- Uh? – Ele olhou para mim. – Não ria de mim, isso é constrangedor!
De certo, não era dele que eu estava rindo, mas fingir que era talvez fosse o melhor a fazer, afinal, tudo aquilo que eu estava sentindo era... Ciúmes.
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