Please don't bribe the witness
3 Capítulo 3
Finral estava nervoso.
O que se pode fazer? Quando o Capitão fica agitado, todos ficam agitados. E Yami estava muito agitado.
O Touro Negro podia até manter o rosto inalterado e seus movimentos lentos, indicando calma. Porém o moreno fumava tanto que parecia uma caieira. Yami chegou ao ponto de acender um cigarro com os restos de brasa de outro. E Finral tinha certeza que ele estava ponderando fumar dois ao mesmo tempo.
Além disso, o Capitão não conseguia ficar parado em um só lugar. Apesar de seu caminhar não ser frenético, era constante. Yami caminhou pelos corredores da base, pela área externa, pelas salas, ele até fez uma leve arrumação no seu quarto! O que por si só deveria ser motivo de preocupação dos outros membros do esquadrão. Porém ficou pior: ele checou a correspondência. Cada uma das cartas padrões que chegaram!
Para completar os atos de inquietação do líder, Yami estava comendo muito mais que o normal – que, diga-se de passagem, já é uma quantidade monstruosa. Durante o jantar todos eles ficaram abismados com a capacidade de Yami acompanhar Charmy até seu décimo segundo prato.
E quando ele acabou, voltou a andar pela casa “para ajudar a digestão”.
— Alguém tem que fazer alguma coisa com o Capitão – Grey foi surpreendentemente a primeira a tocar no assunto que todos estavam pensando durante o dia.
— O que tem o capitão? – Asta perguntou confuso.
— Ele está para cavar um buraco no chão e você não percebeu? – Noelle debochou esticando as costas no sofá.
— Ele só está nervoso – Vanessa comentou com um suspiro preocupado – Não estamos todos?
O silêncio respondeu a pergunta. Afinal, no dia seguinte os Touros Negros tinham 90% de chance de dormir com um membro a menos. Se não fosse Asta, seria Gauche. Embora Gauche tivesse menos chance de ser o condenado, já que muitos cavaleiros influentes estavam na mesma situação.
A discreta porcentagem de chances para manter todo o esquadrão intacto residia na esperança que os nobres ignorassem sua arrogância, aceitassem que ninguém teve culpa da merda que aconteceu e que o único que merece condenação está morto e enterrado.
Quando Yami entrou novamente na base, a tensão aumentou. O mau-humor do capitão estava visível em seu rosto. Todo o esquadrão estava secretamente agradecendo aos céus por já estar ficando tarde e eles poderem se recolher para escapar de uma possível agressão do Capitão.
Bem, nem todos pelo visto. Porque Asta levantou-se do sofá e caminhou em direção a Yami com o rosto fechado e a postura lívida.
— Capitão! – Ele chamou colocando a mão na cintura e estufando o peito
Yami o encarou com a sobrancelha levantada e grunhiu algo ininteligível.
— Vai ficar tudo bem! – Asta afirmou erguendo o polegar e abrindo um sorriso confiante – Não se preocupe. Eu vou salvar todo mundo, nem que para isso eu precise lutar contra toda a realeza.
Yami estalou a língua. Esse era seu medo.
Droga, Julius! Por que você tem que ser sempre tão preciso nas suas porcarias de previsões? O Mago do tempo havia dito que Asta iria morrer. E considerando a situação atual, se ele não fosse condenado, ia acabar se matando.
— Isso inclui você, pivete? – Ele rosnou irritado.
— Claro que sim – Asta retrucou contrariado – Eu não vou morrer antes de me tornar Rei Mago!
Yami esfregou os olhos com força tentando manter-se calmo. Ele levantou, caminhou em direção a Asta, apoiou sua mão na cabeça do garoto – que sorriu confiante – e o ergueu fazendo-o gritar.
— Isso é uma promessa, pirralho? – Yami exigiu. Asta apenas protestou contra o aperto em seu crânio – Responde logo.
— Sim, sim, sim! É uma promessa, capitão!
Yami o soltou.
— Então é melhor cumpri-la, entendeu? – Ele ameaçou olhando de cima – Finral!
O vice-capitão pulou ao ouvir seu nome e soltou um gritinho antes de se recompor.
— Aqui!
— Me leve até as Rosas Azuis – O Capitão ordenou esmagando o cigarro no chão.
....
— É simples, cenourinha, você chama a Espinhosa e nós temos uma conversa amigável de cinco minutos naquela sala fria do caralho que vocês chamam de sala de reunião ou escalo a merda daquela torre e vou bater no quarto dela. O que vai ser? – Yami sentenciou exasperado.
A ruiva à sua frente que mal batia na sua cintura se preparou para uma discussão, abriu a boca e depois piscou, franzindo o cenho.
— Espera, foi assim que você chegou lá essa manhã? – A vice-capitã das Rosas Azuis perguntou.
— Você vai chamá-la ou não? – O Touro Negro rosnou esfregando as têmporas.
Yami já estava perdendo a paciência. Ele passou pelo primeiro portal com alguma resistência, o segundo foi preciso um pouco de charme e uma humildade além da que ele tinha, no terceiro, Finral teve quer ser usado como distração, e agora ele já havia gastado toda a sua cordialidade para falar com a Rainha dos Espinhos.
Tudo bem. Estava um pouco tarde e talvez não fosse a hora mais adequada para uma visita social. Mas, porra, ele só quer olhar Charlote e confirmar que essa maldita ainda está respirando.
Ao invés disso ele foi enviado para falar com a vice-capitã (Seu nome é Greta, a propósito, não que Yami se lembre disso) que “poderia tratar de qualquer assunto relativo aos cavaleiros mágicos tão bem quanto a capitã”. Na mente de Yami isso se transformou em “Charlote apagou de novo e a substituíram para ninguém desconfiar”.
— De novo, qual o assunto? – A mulher insistiu pondo as mãos na cintura – Eu preciso dizer a ela do que se trata, ou ela não vai descer – a ruiva cortou o protesto de Yami antes de acontecer.
— É um assunto oficial – Ele rosnou explicando pela milésima vez.
— De novo – a vice-capitã bufou e revirou os olhos – Fui autorizada pela própria capitã Charlote Roselei a tratar de qualquer assunto oficial e estou a par de todas as operações conjuntas, secretas ou não, de todos os esquadrões – Ela repetiu enfadada.
Yami suspirou. Ele estava seriamente ponderando as consequências de atacar um companheiro de outro esquadrão, na base dele, sem qualquer aviso.
Provavelmente aquele demônio do Kira iria encontrar um jeito de usar isso contra Asta.
Asta!
— É sobre o julgamento – O Touro Negro declarou quase sorrindo ao encontrar um motivo menos indiscreto que “Eu quero vê-la, dá licença?”
— Também estou autorizada a discutir sobre o julgamento dos cavaleiros sagrados no caso da possessão élfica – A ruiva sorriu arteira e cruzou os braços – Na verdade, estávamos esperando pelo inquisidor Damnatio Kira em pessoa.
Yami murchou. A Rainha Tsundere tinha que pensar em tudo nesse caralho? Não pode dar uma brecha para ele fingir que está ali da mesma forma que qualquer outro capitão poderia estar?
— Porra, olha, o que eu tenho para falar com a Rainha Tsun tsun não pode ser tratado com você, Cenoura – Yami começou contendo a frustração, as mãos juntas como se tentasse explicar algo básico a uma criança. A ruiva estreitou os olhos com o apelido e o Capitão decidiu que era melhor não piorar as coisas – É um assunto pessoal.
Ela piscou e torceu os lábios com desconfiança, então encolheu os ombros.
— Bem, isso facilita as coisas. – Ela concordou – Não foi difícil admitir, foi?
Nos primeiros momentos Yami pensou que aquela mulher era burra demais para ser vice-capitã de qualquer esquadrão (até do seu, onde boa parte dos membros são idiotas). Contudo, quando ele viu aquele sorriso diabólico rastejar por seu rosto, o Capitão percebeu que ele foi apenas habilmente manipulado para confirmar as informações que ela queria.
— Espere aqui – Greta comandou ao deixá-lo em uma sala ao final do corredor – A Capitã já se recolheu, então pode demorar um pouco até que ela se vista para descer.
— Aaaah, caralho – Yami gemeu impaciente – É mais fácil de ver o idiota do Rei que a Espinhosa.
Demorou o que parecia uma eternidade para Charlote chegar. Yami já havia acendido um novo cigarro quando ela entrou na sala com as calças e blusa azul de sempre, desta vez sem armadura ou manto.
— Yami? O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? Foi o julgamento? – ela disparou com o cenho franzido.
— Aconteceu. – Ele apagou o cigarro e soltou a fumaça com um pouco de raiva – Você não mandou nem um sinal de fumaça para dizer se estava bem ou não.
— Que? – Charlote soltou com o cenho franzido, tentando encontrar sentido nas palavras de Yami.
— Preciso mandar alguém aqui para te ensinar a escrever de novo? – Ele provocou com os olhos mortos – todos esses dias dormindo apagaram a escrita da sua memória? Não é possível que ninguém do seu esquadrão saiba escrever uma porra de um “estou viva” e enviar para a base dos Touros Negros, temos feitiços lançados que conectam todas as bases, não é impossível ativá-los a menos que você seja o Asta.
Todo o seu discurso parecia apenas um bando de provocações debochadas quando na verdade era exatamente o que Yami queria perguntar.
— Espera, você está aqui porque não mandei nada para a sua base? – A Capitã precisava confirmar, parecia irreal demais para acreditar.
— Não. Eu estou aqui para checar se você está viva. Você disse que ia mandar um sinal de vida e não mandou. Por exclusão, isso quer dizer que você está morta, não é? Queria saber que dia ia ser o velório. Aquelas bolachas que servem são mais gostosas com um defunto do lado.
— Yami, eu estava brincando – Charlote tinha um leve tom de desculpas na afirmação – Não pensei que você fosse esperar por uma mensagem.
— Bem, pois pensou errado – Ele finalmente deixou sua irritação transparecer.
— Me... desculpe? – A capitã começou, avaliando o dano no seu orgulho com um possível pedido de desculpas – Eu... eu não pensei que você realmente estivesse preocupado. Sinto muito, achei que não se importasse.
Ok. Aqui estavam os limites. Então Charlote pegou os limites e passou dos limites.
— Você é muito idiota, sabia? – Yami suspirou deixando os ombros caírem.
— Como é? – Charlote piscou contrariada.
— Quer saber, esquece – Yami gemeu entediado aproximando-se – Só... como se sente?
— B-bem, eu acho.
A Rosa Azul já estava se preparando para uma discussão quando a pergunta veio desnorteá-la com seu tom gentil.
— Achei que já estávamos na fase da honestidade, Espinhosa – O Touro Negro revirou os olhos. – De verdade agora. A cenourinha não está aqui, eu sei que você é durona, não precisa fingir para mim.
Charlote engoliu em seco e corou. Yami nunca foi o tipo gentil e protetor. Foi exatamente isso que a atraiu nele. Ele confiava na força dela e não a desmerecia pelo simples fato de ser mulher.
Porém ela precisa confessar que o tom de voz preocupado caiu tão bem na voz arroqueada de Yami a ponto de causar arrepios na sua espinha.
— E-eu não tenho certeza – Charlote começou com a voz um pouco falha – É como... – ela engoliu saliva e se remexeu para se recompor – É como se ainda tivesse alguma mana estranha no meu corpo. Como se estivesse presa e se alimentando de mim.
— Isso é ruim. – Yami franziu o cenho – O que os magos de cura dizem?
— Que não tem nada. – Ela suspirou – Sou a única que sente. Pode ser só impressão minha.
— Não sinto nada – O Touro Negro concordou
— Talvez amanhã a sensação passe.
— Talvez. — Yami retirou seu grimólio do cinto fitando-a com o cenho franzido. – Mas não vamos arriscar, certo? Não se se vai funcionar, mas meu Black Hole absorve tudo ao seu redor. Talvez, se eu fizer um bem pequeno, possa drenar só a mana. – Ele explicou criando uma pequena massa negra na mão – A sua mana também vai ser drenada, mas pelo menos podemos tirar a que está te fazendo mal.
Yami aproximou a massa negra menor do que a palma da sua mão e Charlote sentiu um leve puxão em sua pele, como se estivesse levando um beliscão. Quando alcançou-lhe a manga da blusa um pedacinho do tecido foi tragado pela escuridão e Yami soltou um palavrão.
Charlote estava lívida e corada. Parte da lividez devia-se ao fato de ter um buraco negro capaz de rasgar sua pele passando agora pelas suas costas. A outra parte se devia pela proximidade de Yami.
Um lado da loira queria reclinar-se contra ele (e, convenhamos, queria muito mais). Enquanto seu lado racional e orgulhoso usava o argumento de que qualquer movimento podia significar uma mordida dimensional do buraco negro.
— Relaxa, Rainha dos Espinhos, eu não vou te acertar com isso – Yami murmurou em seu ouvido, muito concentrado em cumprir sua palavra para notar o efeito de sua voz em Charlote.
— Eu não estou tão certa disso – A Rosa Azul confessou resistindo a tentação de se mover.
— Tsk. Relaxe seu corpo – Yami desfez o buraco negro e apoiou as mãos no ombro de Charlote – Tensa desse jeito só vai reter sua mana.
Quando o Touro Negro começou a massagear seus ombros, o efeito foi totalmente o contrário. O espírito de Charlote quase saiu de seu corpo em um salto, só sendo barrado por sua pele e músculos. Se Yami pudesse ver seus ombros por baixo da roupa os veria tão vermelhos quanto o rosto da mulher.
Com toda a honestidade, a intenção de Yami era só ajudar. Nada de subversivo no processo, ele realmente estava preocupado. Mas a reação de Charlote o deixou um pouco desapontado. Com um suspiro entristecido ele desistiu de tentar ajudar a égua sem freio que parecia querer expulsá-lo dali o quanto antes.
— P-por favor, continue – A voz balbuciada de Charlote o fez estagnar.
Ele estava retirando suas mãos dos ombros dela quando a ouviu pedindo para continuar. Sua voz saiu tão baixo que Yami questionou tê-la ouvido. Então a Rosa Azul recostou as costas em seu peito e o cérebro de Yami deu tela azul por alguns segundos.
— Claro, se você puder – Charlote acrescentou após perceber que o Capitão continuava estático.
Com certa rigidez, Yami repousou as mãos na Capitã e as deixou ali, um pouco incerto. Obviamente o que estava acontecendo aqui não era uma gentileza inocente, ou só uma ajuda de capitão para capitão. Isso deixou o Touro Negro sem reação, especialmente porque foi Charlote quem teve a iniciativa, o corpo da loira estava muito colado ao seu para ter a mínima dúvida sobre suas intenções.
Caralho, ela foi possuída de novo.
É a única explicação plausível.
Nem morta que a Rainha Tsundere ia fazer isso.
Charlote soltou um ruído discreto, tentando alterar a inércia desconfortável do momento. Yami entendeu o recado e, com certa desconfiança, começou a mover suas mãos nos ombros da Rosa Azul. Ele demonstrou suas intenções logo nos primeiros movimentos. Acariciando-a com a ponta dos dedos e deslizando-os para os braços e voltando até o seu pescoço.
A pele de Charlote ardia como brasa. A Rosa Azul chegou a desconfiar que a mana de Yami deveria ter a natureza de fogo, porque essa era a única explicação para todo o calor que ela sentia com apenas uns poucos toques daquele homem. Ela tinha certeza que até seus ossos deviam estar corados no momento.
A Capitã estava tendo um pânico hétero internamente. Sua razão a repreendia com todas as forças por estar sendo tão descarada e irresponsável. Enquanto sua emoção apenas tratava de registrar cada milésimo de segundo do momento em placas de pedra para nunca mais esquecer.
Charlote decidiu chutar o pau da barraca quando Yami trilhou todo o caminho de seus braços e enroscou suas mãos na dela, o corpo do homem curvado em suas costas e a respiração dele em seu cabelo. A loira tomou as mãos de Yami, impedindo-as de continuar perambulando por seus braços e as colocou em sua cintura.
O Touro Negro expirou pesado, internamente comemorando a permissão, e a apertou contra si, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Yami – Charlote chamou, a voz receosa e gasta – O que está acontecendo aqui?
O Capitão parou. Estava bom demais para ser verdade. Bem, já estava mesmo na hora de acordar. Ele só esperava que não fosse tão decepcionante ter que soltá-la.
— Não está acontecendo nada, Espinhosa – Ele respondeu com a voz rouca. Parecia ter ficado dias sem usá-la de tão arrastada que estava – Eu só estou conferindo se você está bem.
— Pensei que já estivéssemos na fase da honestidade, Yami – Charlote insistiu mordendo os lábios e apertou os braços do Touro Negro que estavam ao seu redor – Agora diga: o que está acontecendo aqui?
A Capitã moveu-se para encará-lo. O rosto, pronto para entrar em combustão de tão vermelho, sustentava um olhar decidido e assustado ao mesmo tempo.
A resposta foi um beijo firme e brusco. Yami preferiu não arriscar qualquer mudança de opinião por parte de Charlote. Com sorte, ele a atordoaria por tempo suficiente para fazê-la esquecer de qualquer possível punição sanguinária que ela planejasse como castigo por tê-la beijado.
Charlote respondeu de forma desajustada no começo. Como se não conseguisse acompanhar o ritmo desenfreado do Capitão. Pelo menos até Yami segurar seu rosto com uma mão e a esmagá-la contra si com a outra. Então Charlote enredou os dedos pela juba do moreno e começou a disputar com ele o controle da situação.
É claro que a Rainha dos Espinhos iria brigar até pela condução de um beijo.
Yami sorriu ao perceber que isso é algo que ela com certeza faria. A confirmação de que era mesmo a sua Charlote, a sua Rainha dos Espinhos, aqui, o beijando, fez seu coração palpitar de forma descontrolada.
Ele começou a caminhar inconscientemente para frente enquanto tentava deixá-la mais perto de si, tocar mais partes de seu corpo, explorá-la mais rápido. Yami grunhiu quando imprensou-a contra a parede.
— Espera – Charlote gemeu quebrando o beijo e tentando empurrá-lo pelo ombro.
— Não, não, não – Yami suplicou descendo os beijos pelo seu pescoço – Nada de esperar. Nada de pensar. Se pensar, você vai desistir – Ele balbuciou seu pedido enquanto Charlote remexia-se para retirar seu grimólio de seu cinto.
O livro mágico caiu no chão com um baque surdo.
— Estava machucando minhas costas – Charlote explicou puxando Yami pelos cabelos e praticamente engolindo os lábios do Capitão.
Yami bufou uma risada e puxou-a pelos quadris, alavancando-a e encaixando-se entre suas pernas. O movimento parecia tão familiar... tão natural. Talvez devido às inúmeras vezes que pensou em fazer isso, especialmente quando a via tão altiva e mandona. Seu primeiro instinto nesses momentos era agarrá-la de jeito até que ela quebrar aquela postura de ferro dela.
Hoje mesmo, durante o julgamento, ela estava tão gostosa cortando os argumentos dos acusadores como uma navalha que Yami quis parar a audiência, arrancar aquele manto vermelho e prova-la por inteiro ali mesmo.
— Merda, o julgamento – O Touro Negro sentiu um arrepio gelado e se encolheu ao pensar na possibilidade de estar colocando o pescoço de Asta na guilhotina.
— Que? – Charlote soltou aturdida, os olhos semi-cerrados, a respiração ofegante, sem entender o motivo de Yami ter parado.
— Você é a principal chance do Asta sair vivo – ele explicou ofegante, ponderando os riscos – Tudo o que Kira quer é uma brecha para colocar seu testemunho em dúvida.
E com certeza o Capitão de Asta estar entre as pernas de Charlote poderia suscitar algumas dúvidas sobre a imparcialidade da Rosa Azul.
— É sobre isso que você está pensando agora? – Charlote perguntou levantando uma sobrancelha. Como ele ainda consegue pensar em qualquer outra coisa? A loira mal conseguia lembrar como se respira, quem dirá formar qualquer raciocínio coeso.
Charlote remexeu os quadris, um pouco contrariada, e aumentou o aperto no ombro de Yami. O julgamento era a última coisa em sua mente. Se ela não estivesse com muitas ideias indecorosas em mente, a Rainha dos Espinhos poderia muito bem ficar ofendida.
— Ninguém precisa, saber, certo?
O simples movimento que Charlote fez atingiu a única fraqueza de espírito do Touro Negro.
Asta entenderia. Se ele soubesse o quanto Yami a queria, o tempo que a queria, como ele a queria, qualquer um poderia entender.
Foi assim, sem nenhum arrependimento, que Yami cedeu voltando a beijá-la.
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