Playboy Irresistivel
2 Capítulo 1 - O sermão
Notas iniciais
Nós estávamos no apartamento mais feio de toda Manhattan, e o problema
não era meu cérebro estar desligado de qualquer senso de apreciação
artística, todos aqueles quadros eram mesmo objetivamente horrorosos.
Em um deles havia uma perna peluda crescendo dentro de um vaso, como
uma flor. Em outro havia uma boca com macarrão escorrendo pelos cantos.
Ao meu lado, meu irmão mais velho e meu pai se mostravam pensativos,
como se entendessem aquilo que viam. Tive que forçá-los a continuar
andando; afinal, essa era a regra social implícita: os convidados de uma
festa precisam primeiro andar ao redor do apartamento apreciando as
obras de arte do anfitrião, e só depois podem se esbaldar nos comes e
bebes. Mas lá no fundo, sobre a grandiosa lareira e entre dois candelabros
extravagantes, havia um quadro com o desenho de uma dupla hélice – a
estrutura da molécula de DNA –, e cobrindo toda a tela havia uma citação
de Tim Burton: Todos nós sabemos que romance entre espécies é algo
Eu tive que rir e dizer para Kentin e meu pai:
– Certo. Aquele é legal.
Kentin suspirou.
– É claro que você tinha que gostar desse aí.
Olhei de novo para o quadro e depois encarei meu irmão.
– Como assim? Só porque é a única coisa neste lugar que faz algum
sentido?
Ele se virou para meu pai e os dois trocaram olhares, como se algum tipo
de permissão entre pai e filho tivesse sido concedida.
– Precisamos conversar sobre sua relação com seu trabalho.
Demorei um pouco antes de digerir suas palavras, seu tom de voz e sua
expressão determinada.
– Kentin – eu disse. – Nós vamos mesmo ter essa conversa aqui?
– Sim, aqui – seus olhos verdes se estreitaram. – É a primeira vez que
vejo você fora do laboratório nos últimos dois dias, com exceção de quando
você está dormindo ou comendo alguma porcaria com pressa.
Eu nunca deixava de notar como os traços de personalidade mais fortes
dos meus pais – vigilância, charme, cautela, impulsividade e obstinação –
pareciam distribuídos precisamente entre seus cinco filhos.
Vigilância e obstinação iriam agora travar uma batalha no meio de uma
festinha em Manhattan.
– Estamos numa festa, Ken. As pessoas esperam que a gente converse
sobre toda essa arte maravilhosa ao nosso redor – eu disse, mostrando
vagamente as paredes da sala de estar cheia de opulência. – E sobre o
escândalo que é… sei lá, alguma coisa – eu não fazia ideia de qual era a
fofoca do momento, e essa minha última demonstração de ignorância social
apenas confirmou o argumento do meu irmão.
Não pude deixar de perceber a força que ele fez para não revirar os
Meu pai me entregou um aperitivo que parecia uma lesma numa
bolachinha, e eu discretamente o dispensei numa bandeja quando uma
garçonete passou por perto. Meu vestido novo me pinicava, e eu desejei ter
perguntado às minhas colegas de trabalho sobre essa nova meia-calça
Spanx que eu estava usando. Assim que a vesti, pensei que ela tinha sido
criada pelo Satã em pessoa, ou por algum homem que era magro demais
até para aqueles jeans apertados que estão na moda.
– Você não é apenas inteligente – Kentin continuou a conversa. – Você é
engraçada. Você é social. Você é uma garota bonita.
– Mulher – eu corrigi, resmungando. – Mulher bonita.
Ele se aproximou, mantendo nossa conversa apenas entre nós. Que Deus
nos acudisse se alguém da high society de Nova York ouvisse sua lição de
como me tornar mais socialmente depravada.
– Então eu não entendo por que estamos aqui visitando você por três
dias e as únicas pessoas com quem eu saí foram os meus próprios amigos.
Sorri para meu irmão e deixei minha gratidão por sua vigilância
superprotetora se esvair antes de sentir uma irritação se espalhar pelo
meu corpo; era como tocar num ferro de passar quente, um reflexo rápido
seguido de uma dor pulsante prolongada.
– Estou quase acabando a faculdade, Ken. Vou ter muito tempo para
viver depois disso.
– Acontece que a vida é agora – ele disse, com olhos arregalados e
urgentes. – Quando eu tinha a sua idade eu mal pensava no meu diploma,
apenas ficava feliz se acordava de manhã sem estar de ressaca.
Meu pai estava em silêncio ao meu lado, ignorando o último comentário,
mas aprovando o consenso geral de que eu era uma perdedora sem
amigos. Joguei um olhar para ele querendo dizer: “Tenho que aguentar isso
do cientista workaholic que passava mais tempo no laboratório do que na
própria casa?”. Mas ele permaneceu impassível, mostrando a mesma
expressão de quando um composto que esperava que fosse solúvel
acabava como uma suspensão viscosa flutuando no topo de um tubo de
ensaio: ele parecia confuso, talvez até um pouco ofendido por uma questão
de princípio.
Meu pai me passou sua obstinação, mas acho que sempre pensou que
minha mãe também me passou um pouco de seu charme. Talvez por eu ser
mulher, ou talvez porque ele pensasse que cada geração deveria
aperfeiçoar a anterior, e por isso eu deveria equilibrar carreira e vida
pessoal melhor do que ele conseguiu. No dia que meu pai fez cinquenta
anos, ele me levou até seu escritório e disse: “As pessoas são tão
importantes quanto a ciência. Aprenda com os meus erros”. E então ele
arrumou alguns papéis em sua mesa e ficou encarando as próprias mãos
até eu me entediar o bastante para me levantar e voltar para o laboratório.
Claramente, eu falhei nesse quesito.
– Eu sei que sou superprotetor – Kentin sussurrou.
– Um pouco – concordei.
– E sei que me intrometo demais.
Lancei um olhar irônico e sussurrei de volta:
– Você é minha própria Athena Polias.
– Só que não sou grego e tenho um pênis.
– Eu tento não pensar nisso.
Kentin suspirou e, finalmente, meu pai percebeu que esse era um
trabalho para duas pessoas. Os dois vieram para me visitar e, embora
parecesse uma estranha combinação para uma visita aleatória em pleno
mês de fevereiro, eu não tinha pensado muito nisso até agora. Meu pai me
abraçou, apertando. Seus braços eram longos e finos, mas ele sempre teve
muito mais força do que aparentava.
– Ariel, você é uma boa garota.
Sorri diante da tentativa do meu pai de me encorajar.
– Nossa, obrigada.
Kentin acrescentou:
– Você sabe que te amamos.
– Eu amo vocês também. Na maioria das vezes…
– Mas… considere isso uma intervenção. Você está viciada no trabalho.
Está viciada na ideia desse atalho que você acha que sua carreira precisa
seguir. Talvez eu sempre me intrometa com palpites sobre a sua vida…
– Talvez? – interrompi. – Você decide tudo, desde quando o pai e a mãe
tiraram as rodinhas da minha bicicleta, até o horário em que eu podia
voltar para casa quando eu era adolescente. E você nem morava mais com
a gente, Ken. Eu tinha dezesseis anos.
Ele ficou parado me encarando.
– Juro que não vou dizer o que você deve fazer… – ele fez uma pausa,
olhando ao redor como se alguém estivesse segurando uma placa
mostrando quando acabar a frase. Pedir para o Jensen não se intrometer
na minha vida era como pedir para alguém parar de respirar por apenas
dez minutinhos. – Apenas ligue para alguém.
– Alguém? Kentin, seu argumento é que eu não tenho amigos. Isso não é
exatamente verdade, mas para quem você acha que eu devo ligar para
começar essa coisa de sair-e-viver-a-vida? Alguma colega cheia de
pesquisa para fazer como eu? Nós somos estudantes de engenharia
biomédica. Não é exatamente um lugar cheio de socialites.
Ele fechou brevemente os olhos, depois ficou encarando o teto até que
algo lhe ocorreu. Suas sobrancelhas se ergueram quando olhou de volta
para mim, e uma esperança encheu seus olhos junto a uma irresistível
bondade fraternal.
– E quanto ao Castiel?
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