Pedi que os empregados arrumassem o jantar para Sonya também. Quando fiz isso, Judith estava experimentando um dos temperos e fez uma cara de espanto quando eu fiz o pedido. Dei uma olhada pra ela e saí indo em direção a sala. Percebi que Judith me seguiu. Falou puxando meu braço:

— Menino, o que pensa que está fazendo?

Voltei-me para ela e respondi:

— Já que ela está aqui e a hora do jantar está aí, por que não convidá-la? Ela veio de Washington pra cá. Deve estar exausta e com fome.

— Johnny querido — ela se aproximou mais de mim — esqueceu que pode ter um paparazzo prontinho pra pegar um deslize seu?

— Ah Judith, pelo amor de Deus! Eu só chamei-a para jantar. É pecado isso?

Por incrível que pareça, eu venci Judith. Dando-se por vencida ela falou depois de um suspiro:

— Ok senhor Cage, não tocarei no assunto. E pensando bem, não é todo dia que temos uma senadora aqui conosco.

Não é apenas uma senadora, é o amor da minha vida.

Em seguida, Judith saiu indo em direção a sala, com certeza ia trocar algumas palavras com Blade, no mínimo.

(...)

O jantar não demorou muito para ser servido. Fiz questão de sentar ao lado dela, como fazíamos na outra linha temporal. Ela deu a primeira garfada e depois de engolir disse:

— Você tem sorte de ter cozinheiros tão bons.

— Então, o senado aprova a minha equipe de cozinheiros?

— Se depender de mim sim — ela respondeu com o garfo já cheio.

Continuamos a comer, mas às vezes eu me via perdido em sua beleza. O que doía era que Sonya não era minha esposa, não tivemos uma filha, não brigamos por tantas bobagens… Voltei meu olhar para o prato, para não pensar mais nisso.

Assim que terminamos a sobremesa, Sonya limpou a boca com o guardanapo, se levantou com uma elegância que eu nunca tinha visto e disse:

— Eu adorei esse jantar.

Levantei-me também e disse:

— Se não gostasse, me sentiria culpado pelo resto da minha vida.

Ela me deu um sorriso e ficou olhando para o chão por alguns instantes, como se quisesse falar alguma coisa. Toquei o seu ombro e perguntei se estava tudo bem. Para minha surpresa, ela ergueu a cabeça e pude notar seus olhos marejados. Peguei logo um lenço limpo do meu bolso e entreguei a ela. Sonya secou as lágrimas e falou:

— Eu queria que estivesse.

Olhei de um lado para o outro e perguntei:

— Se quiser conversar…

— Ah Cage eu não deveria fazer isso. Mil desculpas.

Tomei-a pelo braço e falei conduzindo-a para fora da sala de jantar:

— O que você precisa é conversar.

Chegamos numa varanda, que praticamente, era impossível um paparazzo ter acesso a filmar ou tirar uma fotografia. A vista daquela varanda era invejável, o que percebi logo pelo olhar de Sonya à paisagem.

— Que vista linda, Cage.

— Quando eu quero tomar alguma decisão importante, eu venho para cá pensar que caminho tomar. — falei ficando ao seu lado.

— Bem, eu… não sei muito que dizer. Na verdade nem sei como contar pra você o que está acontecendo comigo. Penso que você é uma das únicas pessoas que nunca irá contar nada para ninguém sobre o que vou falar.

Meu coração se aqueceu novamente. Ela estava confiando em mim e era uma coisa que eu menos esperava.

— Eu não tenho pra quem contar e mesmo se tivesse não contaria pra ninguém. — falei tentando ganhar mais sua confiança.

Eu podia ver um olhar perdido em Sonya, como se não soubesse o que fazer diante de uma situação. Ela ficou calada por alguns instantes a olhar a paisagem, respirou fundo e começou a sua história:

— Cage, eu... errei em ter casado com Stryker.

— Como assim?

— Eu nunca fui feliz no casamento. E principalmente agora tem piorado.

— Espera… quer dizer que você está num casamento de fachada é isso?

— É bem isso. Já estamos assim há anos. Tentei várias vezes o divórcio, mas ele nunca quis assinar, alegando que não será bom para a sua reputação.

Eu estava sem palavras diante daquele relato. Eles pareciam amantes mesmo, cúmplices de um relacionamento saudável, grandes parceiros. E eu tive que perguntar a ela:

— Mas o que houve para você querer o divórcio?

Sonya voltou o seu olhar novamente para a paisagem ali presente. Respirou fundo e respondeu:

— Depois de uns anos de casamento, me veio uma imensa vontade de ser mãe. E começamos a tentar a gravidez. Dois, três, cinco anos e nada. Comecei a fazer todos os exames necessários para saber se o problema era eu, e estava tudo normal em mim. Até que pedi a ele pra fazer os exames… Foi daí que ele me contou que era estéril.

Novamente a lembrança de Cassie veio à mente, mais vaga do que antes. Senti um aperto no coração, algo sufocante e um imenso arrependimento de ter entrado naquela maldita fenda. Por que eu não ouvi os conselhos de Bo'Rai Cho? Eu descobria aos poucos que eu havia causado sofrimento a muita gente, principalmente na pessoa que eu mais amava.

Baixei a cabeça e aquela angústia foi aumentando mais. Uma imensa vontade de chorar tomou conta de mim e eu não pude controla-la. Fiquei de costas para que Sonya não me visse chorar, mas foi inevitável. Ela pousou suas mãos suavemente em meus ombros e perguntou atônita:

— Por que está chorando?

Limpei minhas lágrimas, dei um suspiro de alívio, voltei-me para ela e falei:

— Tudo o que você passou é culpa minha, Sonya, culpa minha.

— Eu não estou entendendo.

Decidi então contar tudo para ela sobre minha viagem no tempo. Contei o que ainda conseguia me lembrar de nós dois e sobre Cassie.

Sonya por sua vez, ficou estática, sem reação do que estava ouvindo. Ficou com a mão na boca por algum tempo, acho que estava tentando processar toda aquela informação. Eu fiquei calado, olhando para ela a espera de alguma resposta. Ela, enfim, suspirou e disse:

— Que sentimento nobre de sua parte querer salvar seus amigos.

— Mas olha o que eu causei, Sonya! — falei em lágrimas novamente — Eu que causei essa guerra, a morte de Jax, o sumiço do irmão de Bi-han, sua infelicidade no casamento…

De repente ela segurou meu rosto e disse bem próxima a mim:

— A culpa foi minha de não ter falado os meus sentimentos por você naquela época.

— O quê? — perguntei incrédulo.

Sem hesitar ela colou os lábios dela nos meus, num beijo cálido.