Play with Fate
12 Uma lembrança familiar
Afastei-me dela e fiquei olhando em seus olhos por um tempo, calado e tentando imaginar o que havia por trás de daquele beijo. Não podia negar que o amor que eu sentia por ela nunca havia se apagado, mas eu não esperava aquele beijo. Isso é a mais pura verdade. Pisquei várias vezes para ter certeza que tudo aquilo não passava de um sonho, mas era real.
— Sonya eu...
Ela se afastou um pouco de mim, voltou o seu olhar para o chão, respirou fundo e disse:
— Eu, eu não sei o que deu em mim, Cage... — ela se voltou para mim — me perdoe, eu não vim aqui para isso...
Em seguida, Sonya colocou a mão no rosto e pude perceber que ela se sentiu envergonhada do que acabara de fazer. A verdade é que não fiquei envergonhado, mas confuso. Era como se, naquele momento, as linhas temporais se encontrassem naquele beijo. Que coisa maluca!
— Não há o que perdoar, Sonya...
Ela decidiu tirar as mãos do rosto e ela estava em lágrimas. O seu olhar queria me dizer algo, mas eu não conseguia decifrar, e como aquilo me angustiava. O seu casamento estava uma droga, isso era um fato, mas será que ela usou aquele beijo para suprir uma carência? Ou ela me amava de verdade? Por favor, não me julgue por tais indagações, eu estava com um nó na minha cabeça.
Então ela se recompôs, passou a mão por sua roupa, que devia custar o olho da cara, secou as lágrimas com os dedos mesmo e disse num sorriso bobo:
— Johnny, vamos fingir que esse beijo não aconteceu, está bem?
Meus olhos se arregalaram e eu não conseguia acreditar no que eu acabara de ouvir. Acabei deixando escapar:
— Não dá, Sonya.
Ela abaixou a cabeça e percebi que ela tinha compreendido essas minhas três palavras. Com um gesto carinhoso Sonya segurou minhas duas mãos, beijou meus lábios novamente, mas fora um beijo rápido, se afastou e disse:
— Tenta voltar no tempo de novo para ficarmos juntos.
Não consegui segurar minhas lágrimas e a abracei logo em seguida. Ficamos ali chorando por um tempo. Em seguida nós nos separamos e ela disse:
— Espero que possamos nos ver novamente.
Em seguida, ela saiu da minha presença, deixando-me sozinho na varanda. Recostei-me no parapeito e chorei como uma criança. Eu não me importava se os meus soluços eram ouvidos pelos vizinhos, eu queria prantear o meu arrependimento por ter entrado naquela fenda.
(...)
A semana se passou de uma forma bem estranha, se esta é a maneira que eu posso descrever. Me chamaram para entrevistas, programas de Talk Show com joguinhos e alguns outros eventos e eu tive que ir, mas a minha vontade era ou de ficar trancado em casa ou até estar no meio da guerra, pelo menos tentar contê-la.
(...)
Ah sexta-feira... você chegou há muito custo! Pela minha agenda não havia nada para eu sair à noite, então resolvi ficar em casa a espera de alguma ligação vinda da parte das FE ou até de alguém que não conseguia sair da minha cabeça. Sim, meus amigos, ela mesmo, Sonya Blade.
Resolvi pegar uma garrafa de uísque, sentar no meu sofá e procurar algum filme na minha TV por assinatura. Mas meus planos foram frustrados por Jessie, que bateu na porta. Judith atendeu e levou-a até mim.
— Pensei que eu tinha lhe dado folga. — falei com o olhar ainda na TV.
— Eu sei — ela respondeu dando uma risada e sentando ao meu lado — é que eu estava entediada em casa e você disse que eu podia vir quando quisesse.
— Sua mãe não acha ruim?
— Ela está na casa da vizinha, uma reunião de oração da igreja que ela vai, eu acho. Mas ela não liga quando eu venho aqui. Ela já sabe.
— E seu pai, ainda não voltou de viagem?
Jessie ficou calada quando perguntei sobre Kabal. Aquilo me incomodou de certa forma e tive que olhar para ela. Jessie estava olhando para TV, mas ela não estava sorrindo.
— O que aconteceu?
Ela suspirou e percebi que ela estava com a marca de uma lágrima em seu rosto. Pousei a mão no ombro de Jessie que logo me olhou e respondeu:
— Meu pai foi para a guerra, Johnny.
— Como assim? — perguntei atônito.
— Ele não queria me falar e isso já faz mais de uma semana.
Recostei no sofá e soltei um suspiro. A qualquer momento eu poderia ouvir a noticia da morte de mais um amigo, por minha causa, por meu egoísmo. Novamente a lembrança vaga de Kabal sendo morto me veio à mente. O que eu ia falar para Jessie naquele momento? Ela estava ciente da besteira que eu havia cometido.
— Jessie, eu nem sei o que dizer...
— Não se preocupe Johnny — ela se recostou no sofá — não há o que dizer. Acho que nada poderá amenizar a angústia que está em meu peito de pensar que eu posso receber uma notícia ruim sobre ele.
Respirei fundo, segurei uma de suas mãos e perguntei:
— Quer tentar esquecer um pouco isso e assistir um filme?
Ela olhou para mim, colocou uma mecha de seu cabelo castanho atrás da orelha e disse voltando o seu olhar para a TV:
— Vamos sim.
Peguei um filme em que eu estava no elenco, é claro. Mas eu não estava prestando a mínima atenção, pois a guerra e o meu amor platônico pela Sonya tiravam a minha atenção.
Quando o filme terminou, e eu nem havia percebido, Jessie havia adormecido no sofá. Chamei Judith e pedi para que ela arrumasse um quarto para ela.
— Você falou com a mãe da menina não é?
— Vou ligar para ela agora — falei já com o telefone na mão.
Não demorou muito para que ela atendesse ao telefone. Para que Jessie não acordasse, me afastei dela para poder conversar com sua mãe.
— Eu já ia ligar para Jessie perguntando que horas ela voltaria para casa. Mas sei que ela está em boas mãos.
— Fico feliz que confia em mim, Stephany. E como você está?
— Ah, senhor Cage, ainda estou tentando acostumar com a ideia de Kabal estar na guerra. Jessie deve ter te contado não é mesmo?
— Sim, ela me disse. Mas saiba que estou na torcida para que essa guerra acabe e Kabal volte para casa.
Eu pude ouvir um soluço vindo do outro lado da linha. Oh fenda maldita! Por que apareceu em minha vida? Por que não fechou antes que eu entrasse? Agora o pranto daquela mulher foi causado por mim, sem intenção alguma, tudo em busca de um futuro feliz. Senti vontade de abraçar Stephany naquele momento e dizer: “Eu sou culpado de sua angústia! Pode me condenar, eu mereço.”, mas eu não falei mais nada. Ouvi apenas um obrigado vindo dela, que desligou logo em seguida.
Quando virei para ver como Jessie estava, ela não repousava mais no sofá. Vi Judith e um dos seguranças descendo as escadas.
— Já levaram a menina?
— Havia um quarto prontinho. Só pedi para um dos seguranças pegar a menina e levar até o quarto.
— Que quarto você a colocou?
— Aquele ao lado do seu.
Anui com a cabeça e fui até o quarto onde Jessie estava dormindo. Abri a porta devagar para não fazer barulho e fiquei admirando-a. Eu ainda lembrava de Cassie, da minha menininha que tinha a mãe mais linda do mundo. Um nó veio em minha garganta. Eu não queria chorar, mas uma lágrima rolou pela maçã do meu rosto. Saudade de quem não existia, saudade que maltratava o meu coração, que tinha a culpa como instrumento de punição. Mesmo você não existindo, Cassie querida, o papai te amava.
Fechei a porta e olhei no relógio, faltavam 15 minutos para meia-noite.
Estava caminhando em direção ao meu quarto, quando Judith veio e perguntou se eu não queria algum chá.
— Aceito um bem calmante. Traga ao meu quarto.
Ela olhava para mim com um semblante de compaixão. Notou a lágrima que escorreu pelo meu rosto e limpou-a com o polegar. Em seguida colocou a mão em meu coração angustiado e disse:
— Tudo isso vai passar.
Segurei a mão dela e respondi:
— Eu sei que vai.
Em seguida ela saiu da minha presença.
Entrei no quarto e meu celular tocou. Era Jacqui.
— Alô!
— Cage? Espero que seja você.
— Sim, sou eu.
— Preciso de você amanhã.
— O que houve?
— Sub Zero conseguiu resgatar uma prisioneira de guerra e ele quer muito te ver.
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