Notas iniciais
bitch i'm back by popular demand

10 de Outubro, 1910

Haviam muitos sons no mundo que faziam Elisabeta ficar com o corpo todo em alerta. O sino na frente da casa quando a mãe queria que ela voltasse logo. O som de uma charrete na rua da frente quando não estavam esperando alguém. O piar das galinhas quando já era hora de acordar. Mas, de todos os sons do mundo, ela jamais pensou que o motor do carro de Darcy fosse ser incluído nessa lista.

Estava sentada no sofá, ajudando Lídia a trocar a tala que enfaixava seu pé, quando escutou o som inconfundível do único automóvel do Vale. Por pouco ela não soltou o pé de Lídia e isso fez com que a irmã gritasse.

“Meu Deus, Elisa! Assim você vai machucar ainda mais meu pezinho!”

“Ela está empolgada para ver o namorado, Lídia” disse Mariana. Ainda não tinha contado para as irmãs que tinha beijado Darcy na noite anterior e só podia imaginar qual seria a reação delas quando descobrissem.

Assim que ele bateu na porta ela foi correndo abrir, arrancando risadas de Mariana e Lídia. E lá estava ele, com o sorriso que parecia saber todos seus segredos e a tirava do sério.

“Bom dia, Elisabeta. Dormiu bem?” ele perguntou e havia um sarcasmo ali que só eles poderiam entender.

“Não muito. Tive sonhos conturbados.”

“Engraçado”, ele disse e se aproximou, depositando um beijo na sua bochecha. “Eu também. Posso entrar?”

Ela sorriu e abriu espaço, gesticulando para que ele entrasse. Foi só quando ele se abaixou que ela percebeu que ele trazia uma caixa consigo.

“O que é isso?”

“Um presente” respondeu levando a caixa até a sala. Parecia pesada mas ele não fazia esforço. “Bom dia, meninas.”

“Isso é para mim, Darcy?” Lídia perguntou.

“Dessa vez não, Lídia” ele riu. “Mas acho que todas vão poder usar.”

Cecília apareceu no corredor com um olhar confuso. “O que está acontecendo?”

“Darcy trouxe um presente para Elisabeta”, Mariana disse e Cecília começou a rir.

“Ah, claro, é o que namorados fazem”, Cecília respondeu.

Elisabeta revirou os olhos e sentou no chão em frente ao presente. Estava embrulhado num papel vermelho brilhante e ela sorriu pela escolha da cor. Tentou sacudir a caixa mas não conseguiu nem mesmo levantá-la do chão.

“Isso é perigoso?”

“Claro que não, Elisabeta. Abra logo, você está me deixando ansioso.”

Ela sorriu e rasgou o papel. As palavras estavam em inglês mas a imagem na frente não deixava dúvidas sobre o que era.

“Darcy, o que você fez?”

“Eu levo as coisas que você diz muito a sério. Quando você disse que iria roubar minha cadeira eu fiquei preocupado que você realmente fizesse isso, então tive que garantir uma para você”, ele disse com um sorriso. “Além disso, eu quero que essa seja a primeira de muitas cadeiras que a senhorita vai usar quando escrever milhares de textos em São Paulo.”

Elisa abaixou o rosto porque estava prestes a chorar. Ela já havia ganhado muitos presentes na vida, mas esse parecia significar mais do que todos.

“Elisa, o que foi? Você não gostou?” ele perguntou, preocupado.

Ela levantou rapidamente e pulou nos seus braços. Darcy a segurou sem esforço e girou ela pela sala enquanto ela ria.

“Eu amei. Muito obrigada”, ela disse e beijou sua bochecha. Os dois ficaram se encarando com sorrisos bobos e no rosto e se não fosse a interrupção de Lídia ela teria beijado ele ali mesmo.

“Eu não entendi o presente”

Eles riram enquanto Cecilia e Mariana se olhavam com sorrisos cúmplices. Sentaram no chão juntos e abriram a caixa. Eventualmente seus pais apareceram querendo saber qual era o motivo de tamanha algazarra e ficaram felizes quando viram o genro na sala. Felisberto buscou a caixa de ferramentas e entregou para Darcy, avisando que Jane mandava um abraço para ele mas estava cansada demais e ficaria no quarto.

Foi uma experiência diferente ver Darcy ali no chão ajudando a montar sua cadeira. Ele retirou o paletó e puxou as mangas da camisa mostrando uma parte da pele que Elisa não tinha visto antes. Suas bochechas coraram e ela tentou disfarçar mas nada passava por despercebido pelos olhos de águia de Mariana, que sorriu e piscou para a irmã. Darcy pegou as peças e colocou elas juntas e Elisa ajudou com mais coisa do que realmente sabia. Mariana colocou em prática seus conhecimentos adquiridos na oficina de Luccino e Cecília traduzia o manual de instruções do inglês para o português.

Quando terminaram, ela se sentou vitoriosa na cadeira e fez uma reverência, arrancando aplausos da família.

“Darcy, o senhor aceita tomar um cafezinho com a gente?” Ofélia ofereceu.

“Eu adoraria, dona Ofélia. Mas tenho que ir para ferrovia agora”, ele sorriu tristemente. Depois se virou para Elisabeta e seu sorriso se tornou sarcástico quando perguntou se ela o acompanharia até a porta. Foram juntos até a entrada da casa e assim que ela fechou a porta ele segurou suas mãos.

“Tenho um pedido para você.”

Ela sorriu. “Diga.”

“Quero te levar em um date.

Elisa torceu o nariz e fingiu estar muito entediada. “Acho que lembro de te dizer que não há necessidade de usar palavras estrangeiras no Brasil.”

“Creio que não exista uma palavra no português que representa o que é um date”, Darcy respondeu com a expressão irônica no rosto.

“Mal posso esperar para te provar o contrário”, ela retrucou enquanto os dois se sentavam nas escadas da sacada. “Me explique o que é isso.”

“É uma forma de um casal se conhecer melhor, se assim posso dizer”, ele explicou enquanto brincava com o cabelo dela. “Geralmente através de um jantar ou algo do tipo.”

“Isso se chama ‘sair com alguém’”

“Mas não é uma palavra”, Darcy retrucou.

Elisa pensou até que encontrou uma e sorriu. “É um encontro!”, ela anunciou, radiante fazendo Darcy rir.

“Tudo bem, eu aceito. Quero te levar para um encontro, hoje, assim que o sol se pôr na casa de Julieta. Está vazia demais para eu ficar sozinho.”

“Acho que meus pais não vão ficar satisfeitos em saber que ficarei em uma casa sozinha com você”, ela comentou.

“Minta. Nós dois sabemos que a senhorita é muito boa nisso”, ele disse e ela o empurrou para longe. “Estou brincando. Não tinha pensado por esse lado. Podemos ir na Casa de Chá, se você quiser.”

“Não!”, Elisa respondeu rapidamente. “Eu prefiro a ideia original.”

Ela sentiu os olhos questionadores analisando seu rosto e tentou disfarçar o que passava por sua cabeça mas Darcy, que parecia ter a capacidade de ler mentes, sorriu como se soubesse de tudo.

“Bom, eu tenho que ir”, ele anunciou, levantando. “Passo aqui mais tarde para te buscar.”

“Acho melhor eu ir com Tornado”, Elisa disse enquanto subia alguns degraus para ficarem da mesma altura. “Para que eu possa voltar quando quiser.”

Darcy se aproximou, colocando as mãos na sua cintura e Elisa imediatamente se sentiu tensa. Seria sempre assim? Em algum momento ela iria acostumar com seu toque? Tinham passado a manhã toda juntos e no fundo ela só pensava em beijá-lo como tinha feito na noite anterior e a cada segundo que passava Elisa só se sentia mais ansiosa.

“Não sei se eu gosto da ideia de você andando sozinha de noite por aí”, ele disse.

“Primeiro”, ela começou. “Não estou andando por aí. É o Vale e eu conheço esse lugar como a palma da minha mão. E segundo: eu estive fazendo isso desde sempre e não é agora que vou mudar.”

“Tudo bem”, ele levantou as mãos, resignado. “Faremos do seu jeito. Estarei te esperando.”

Ela sacudiu a cabeça concordando e ele desceu as escadas, sem nenhum toque, nenhum beijo e sem olhar para trás, deixando Elisabeta com os nervos à flor da pele.

Mariana e Cecília explodiram em risadas e puxaram ela pelo braço na direção de seu quarto quando ela voltou para dentro da casa. Lídia parecia confusa com as reações das irmãs e Elisa se sentiu mal por não deixar a irmã a par dos acontecimentos da sua vida mas no fundo sabia que toda a história deixaria de ser um segredo se Lídia tomasse conhecimento. Seus pais já não gostavam tanto da ideia dela namorar escondido. Se descobrissem que estavam fingindo era provável que eles a desonrassem ou algo do tipo. Esse pensamento fez surgir uma dúvida na sua mente: estariam os dois namorando de verdade agora? E se sim, o que isso significaria?

No entanto, todos os pensamentos se esvaíram quando as meninas entraram no quarto e ao meio de risadas encontraram Jane chorando. Elas correram em direção à irmã e Elisabeta rapidamente segurou suas mãos.

“Jane? O que houve?”

“Ah, Elisa”, ela suspirou, cobrindo o rosto com as mãos, envergonhada. “Eu acho que Camilo não me ama mais.”

As meninas se entreolharam, confusas com a declaração da irmã. Cecilia se aproximou e a puxou para um abraço tentando reconfortá-la.

“Jane, eu acho que isso é humanamente impossível. Aquele homem é completamente apaixonado por você!”

“Mas por que você diz isso?” Mariana perguntou.

“Ele tem estado tão... distante, ultimamente”, ela explicou, limpando as lágrimas dos olhos. “Sempre nos considerei confidentes, sabe? Mas nos últimos dias ele está se comportando como um estranho, além de ter ido viajar sem nem ao menos me avisar ou comunicar quando volta.”

“Minha irmã, eu acho que isso pode ser coisa da sua cabeça”, afirmou Cecília. “Talvez Camilo esteja muito ocupado, tenho certeza que deve haver uma explicação para esse comportamento. Mas com toda certeza não é falta de amor.”

“E no baile vocês pareciam tão próximos!”, comentou Mariana.

Jane sacudiu a cabeça, dispensando o comentário. “Nós dançamos apenas uma vez. E mamãe disse que ele iria me pedir em casa-“

“Jane, eu vou te interromper agora”, disse Elisa. “Eu já te disse para parar de acreditar em tudo que Dona Ofélia te diz. Ela coloca essas expectativas sobre nossas vidas e depois somos nós que ficamos frustradas quando essas expectativas não se realizam. Ele não ter te pedido em casamento ainda não significa nada. Talvez ele queira fazer o pedido de uma forma mais... intima. Sem a pressão de tantas pessoas num baile. Ele sabe que você não gosta de atenção e deve ser por isso que resolveu adiar o pedido”, ela continuou e Jane sorriu. “Como Cecília disse, deve haver alguma explicação.”

“Você acha?”

“Eu tenho certeza, minha irmã. Mas, se te deixa mais tranquila, posso perguntar de novo para Darcy hoje à noite se ele sabe quando Camilo estará de volta no Vale.”

“Hoje à noite?” Mariana perguntou com a sobrancelha arqueada.

Elisabeta assentiu tentando disfarçar o rubor nas bochechas mas falhando miseravelmente. “Ele me convidou para um encontro hoje.”

Mariana riu alto enquanto Jane sorria, a felicidade de volta no rosto da menina.

“Meu Deus, Elisa!” Cecília comemorou. “Isso é ótimo! Talvez não significaria muito se vocês estivessem namorando de verdade, mas considerando a sua situação atual eu digo que significa. Significa bastante!”

“Talvez ele até tente te beijar!” Jane comentou com um sorriso cúmplice e se Elisabeta achava que tinha algum tipo de autocontrole, ela foi provada o contrário naquele exato momento porque seu rosto se contraiu num sorriso involuntário e queimou ao lembrar da noite anterior.

“Não pode ser...” Mariana começou, com os olhos julgadores sobre ela. “Eu não acredito!”

“Nós nos beijamos ontem”, ela confirmou arrancando risadas altas e um grito de Mariana. “Por Deus, pare com o escândalo! Desse jeito mamãe vai aparecer aqui. Ou pior! Lídia vai se arrastar com o pé torcido para saber o que está acontecendo.”

“Elisabeta Benedito, você é uma hipócrita! Dias atrás estava dizendo que o pobre coitado te irritava extremamente e hoje está aí, com as bochechas coradas só de pensar nele!” Mariana disse quando conseguiu controlar sua risada.

“Eu sabia que você não conseguiria manter essa história por muito tempo”, Cecília falou e Jane balançou a cabeça concordando rapidamente. “Convenhamos que eventualmente o fingimento viraria realidade.”

“Mas e agora? Vocês estão namorando de verdade?” Jane indagou.

Elisa deu de ombros. Talvez os dotes de ler mentes tivessem atingido a irmã que parecia facilmente reconhecer as dúvidas que passavam por sua cabeça. “Não sei. Acho que vou descobrir hoje. Aliás, vocês poderiam me dar cobertura essa noite. Vamos nos encontrar na casa de Julieta mas como não terá mais ninguém lá, terei que dizer para papai e mamãe que vamos na Casa de Chá. Então proíbam eles de saírem de casa, caso eles queiram.”

Mariana se levantou rapidamente e dançou pelo quarto enquanto cantava: “Darcy e Elisabeta... sozinhos... so-ziiiiii”

Ela não pôde terminar a cantoria pois foi atingida no rosto por um travesseiro jogado por Elisa. “Pare com isso ou eu nunca mais te conto nada”, ela ameaçou.

“Você sabe que você não conseguiria. Assim como não conseguiu ficar longe do senhor Darcy Williamson!”

Elisabeta ameaçou correr até ela mas Cecília segurou seus braços.

“Eu acho” ela começou “que se vocês começarem a namorar será incrível. Podemos ir em encontros duplos! Ou triplos! E até mesmo quádruplos quando Camilo voltar e se ajeitar com Jane.”

“Eu adoraria”, Jane disse com um sorriso triste porém esperançoso.

Mariana negou. “De jeito nenhum que vou deixar Brandão se enturmar com a loucura das minhas irmãs.”

“Até parece!” Cecília riu e elas foram se aprontar para o dia.

Se arrumar para o encontro foi talvez uma das experiências mais frustrantes da vida de Elisabeta Benedito. Deveria ir casual? E se sim, ele acharia que ela era desleixada? Mas e se ela fosse arrumada demais e ele estivesse vestido casualmente? Será que ele pensaria que ela tinha expectativas mirabolantes para o encontro? Ela tinha expectativas mirabolantes para o encontro? O que iria acontecer no encontro? O que é um encontro?

No fim, suas indecisões, surpreendentemente, foram acalmadas por uma frase solta de Lídia que já havia perdido a paciência com o falatório de Elisabeta.

“Ai Elisa, vá do jeito que você quiser! No final você sempre faz o que quer mesmo, não sei por que está perguntando nossa opinião.”

E foi isso que ela fez. Escolheu um de seus melhores vestidos vermelhos, um presente de uma coleção especial, comprado numa boutique em Paris no verão europeu que Ema tinha presenciado meses atrás. No mesmo mês que ela havia conhecido Darcy e que supostamente eles estavam trocando “cartas”. Parecia simbólico e no fundo ela queria estar linda e esse vestido realmente fazia isso acontecer. As irmãs ajudaram a arrumar seu cabelo que ficou preso apenas por uma trança na parte de trás, solto em cachos ao redor do seu rosto.

Cavalgou até chegar na mansão Bittencourt quando o sol começou a se pôr e agradeceu aos céus, enquanto prendia Tornado no estábulo, pelo tempo agradável no Vale que manteve a barra de seu vestido sem lama. Já estava chegando na entrada da casa quando a última pessoa do mundo que ela esperava ver saiu pela porta.

“Ah, Elisabeta! Boa noite, minha querida”

“Boa noite, Susana”, ela respondeu com um sorriso amargo.

Ela se aproximou e colocou a mão no seu ombro, um gesto que seria perfeitamente amigável se não fosse a vontade instintiva de se afastar que a menina sentiu. “Minhas felicitações pelo namoro! Não fazia ideia que Darcy se sentia atraído pelas moças do campo.”

“E nem eu fazia ideia de que ele era amigo de alguém como você”

“Assim como?”

“Uma pessoa maravilhosa, Susana”, ela respondeu, não conseguindo evitar o tom sarcástico. “Com licença, acho que ele está me esperando. Até mais!”

Seguiu caminho até a entrada, não esperando pela resposta dela. Susana Adonato nunca havia feito nada de mal para ela mas havia algo na forma que ela sempre falava que fazia Elisabeta ficar constantemente em alerta como se a moça estivesse secretamente desejando as piores coisas do mundo para toda sua família e saber que Darcy era, aparentemente, amigo dela fez seu coração murchar.

Mas então lá estava ele no batente da porta com o sorriso torto que tirava ela do sério e fazia ela esquecer de todas suas preocupações ao mesmo tempo. Estava todo de preto e ela lembrou do dia no baile e como ela queria pular em cima dele.

“Elisabeta Benedito. Deslumbrante como sempre.”

Ela sorriu. “Darcy Williamson. Mozzafiato

“Eu não sei o que isso significa”, ele disse com a testa franzida em frustração enquanto gesticulava para que ela entrasse.

“Eu sei”, ela sorriu.

Ela sempre achou a fazenda dos Bittencourt extremamente impessoal, quase como um hotel que abriga pessoas apenas por um dia. Grande demais para uma família tão pequena. Elisa sempre se sentia perdida e até mesmo angustiada pelo vazio daquela casa. Mas naquela noite, de alguma forma, Darcy conseguiu fazer o ambiente ficar aconchegante. Haviam velas por todas as superfícies, o brilho suave e dourado iluminando a sala dispensava o uso de lamparinas. A mesa da sala de jantar estava posta e no centro havia um arranjo de rosas vermelhas que pareciam estar no ápice de sua vivacidade.

“Acho que o senhor não fez tudo isso para agradar a Susana, não é?” Elisa perguntou com um sorriso enquanto tirava sua capa com a ajuda de Darcy.

“Definitivamente não”, ele riu.

“Então o que ela estava fazendo aqui?” ela indagou, não conseguindo disfarçar o tom crítico.

“Veio me dar notícias de São Paulo. Ela chegou hoje. Na verdade, foi ela quem trouxe sua cadeira para o Vale.”

Bom, talvez a cadeira não seja mais a minha coisa favorita, ela pensou.

“Deixa eu ver se entendi”, ela começou se aproximando dele e passando a mão ao redor do seu pescoço. “Susana tinha tanto para falar que não conseguiu dizer tudo quando trouxe a cadeira hoje de manhã e teve que voltar agora para te deixar ciente sobre tudo?”

“Elisabeta Benedito”, ele sorriu, as mãos fazendo o caminho para sua cintura que ele parecia saber de cor. “Você está com ciúmes?”

“Jamais!” ela respondeu fingindo ultraje. “Estou apenas me questionando se São Paulo está animada demais para mim.”

“Eu acho que São Paulo é perfeita para você”, ele respondeu e se aproximou. Elisa sentiu sua respiração travar mas quando Darcy simplesmente parou a centímetros de sua boca, pareceu ponderar por um segundo, mudou de ideia e beijou sua bochecha ela sentiu um suspiro frustrado escapar involuntariamente pelos lábios. Ele seguiu caminho pela sala, tentando controlar uma risada.

“Eu tomei a liberdade de comprar uma champanhe”, ele anunciou enquanto puxava a cadeira para que ela pudesse sentar. “Não sei se você está acostumada mas pensei que talvez você pudesse gostar.”

“Estou acostumada sim. Quer dizer, apenas em ocasiões especiais.”

“Creio que essa seja uma.” Darcy respondeu com um sorriso.

Ela sacudiu a cabeça, olhando ao redor da sala. “Você pensou em tudo.”

Talvez ele tivesse interpretado erroneamente seu olhar vagaroso porque ela viu o rosto dele murchar. “Você não gostou?”

“Não, não!”, ela se apressou em explicar. “Eu amei. Só estou impressionada. Acho que ninguém jamais fez algo assim para mim.”

Ele sorriu carinhosamente e puxou de uma bacia com gelo a garrafa, estourando-a sem dificuldade, a espuma escorrendo pelas beiradas enquanto Elisa ria e segurava as taças. Por um momento ela sentiu como se estivesse vendo a cena como um espectador de fora. Os dois pareciam jovens, rindo risadas verdadeiras e brindando a companhia de um ao outro. Parecia uma cena de filme, daqueles que provavelmente passavam nos cinemas em São Paulo, ela pensou.

O resto da noite foi de descobrimento. Darcy serviu o jantar e permaneceu insistindo que tudo, incluindo a comida, havia sido feito por ele, mesmo quando Elisabeta apresentou argumentos contrários como o tempero inconfundível de Dona Agatha e até mesmo a sacola da Casa de Chá que ela tinha visto na cozinha quando voltou para a mesa. Ele afirmou que ela estava conspirando contra ele e isso fez com que ela risse alto. Ela se sentia extremamente feliz e decidiu que esse seria um momento que ela teria que escrever sobre assim que chegasse em casa.

Darcy parecia querer saber tudo sobre a sua vida. Não houve um momento em que ela não estava falando e ao invés de se sentir tímida, ela ficou surpresa que a vida pacata no Vale do Café pudesse interessar tanto a um homem que conhecia o mundo. Elisabeta se viu contando tudo desde sua infância que parecia se resumir na cor verde e pelo amor por cavalos até sua adolescência que se sintetizou em evitar que Lídia caísse em problemas e que ela não ficasse muito parecida com Dona Ofélia. Contou sobre a chegada de Tornado em sua casa, sobre o seu relacionamento com os pais, sobre ter quatro irmãs e ser a mais velha, sobre sua primeira vez em São Paulo quando pequena e como naquele dia ela percebeu que o Vale era sufocante demais para ela. Contou tudo nos mínimos detalhes e ele jamais pareceu entediado com seu falatório.

Ela também pôde conhecer melhor quem era Darcy Williamson. Ela perguntou quantos países ele conhecia e ele pareceu tímido em dizer mas afirmou que quase vinte. Seus pais viajavam muito, ele explicou. Quando ela perguntou como eles eram, Darcy desviou o assunto e voltou para as perguntas inquisidoras. Aos poucos ela percebeu um padrão: ele quase nunca falava dos pais ou do passado. Falava dos lugares que já havia conhecido com uma riqueza de detalhes (como na vez que ela perguntou se a Boulevard des Italiens era como Flaubert havia descrito e ele negou rapidamente, explicando com extremo entusiasmo como realmente era em seguida), mas nunca falava sobre o período que tinha passado no Brasil na sua adolescência. Falava sobre Charlotte com um amor e devoção que ela jamais havia visto igual mas não comentava o que ela estava fazendo agora ou o porquê dela não estar no Brasil com ele.

“Eu não acredito que não te conheci quando você morou no Vale”, ela insistiu. Estavam no sofá da sala e, se não fosse as taças de champanhe, Elisabeta se sentiria envergonhada por ter tirado os sapatos e colocado os pés para cima. Darcy, pelo contrário, parecia estar extremamente confortável do seu lado, o braço ao redor dos seus ombros e as mãos brincando com seus cabelos.

“Nós moramos em São Paulo, basicamente. Víamos para o Vale apenas esporadicamente.”

“Mesmo?” Elisa se virou para olhá-lo nos olhos. “Achei que sua residência era aqui”

“Não”, ele respondeu, a face virada, quase que ignorando sua presença, enquanto tomava um gole da sua bebida. Ela segurou seu rosto nas mãos e forçou que ele virasse.

“Por que vocês foram embora?”

Darcy parecia angustiado, como se procurasse nos olhos dela a resposta para sua própria pergunta. Elisa se sentia como uma intrusa e até um pouco chata pela insistência, mas ela havia contado tanto para ele essa noite! Era injusto que ela soubesse tão pouco.

“Fui embora porque não tinha você para me fazer companhia”, ele mentiu e encurtou a distância dos dois ao colocar sua testa na dela.

“Darcy...”, ela tentou falar mas ele rapidamente a beijou. Se fosse em outro momento, ela com certeza teria o empurrado para longe e insistido para que ele falasse a verdade mas ela estava pensando em beijá-lo desde às primeiras horas do dia. Pior! Estava pensando em beijá-lo desde o dia anterior, assim que ele se afastou dela. Então ela o beijou com toda a energia que tinha até que ela teve que parar para respirar. E quando parou, ele continuou beijando seu rosto quase em adoração fazendo seus olhos fecharem em resposta ao seu toque suave. Ela se sentia quente de maneiras que nunca havia sentido antes. Sua pele queimava e formigava ao mesmo tempo e sua mente imaginava diversos cenários possíveis, todo o pudor sendo colocado de lado. Talvez Darcy Williamson estivesse se tornando seu tipo favorito de vício. Ou talvez a presença dele trazia à tona um lado de Elisabeta Benedito que nem mesmo ela conhecia.

“Eu queria que você confiasse em mim o suficiente para me contar o que eu quero saber”, ela disse de repente.

Darcy parou abruptamente e tomou seu rosto e suas mãos, negando suas palavras com a cabeça. “Eu confio em você, Elisa. Eu confiei em você mais rápido do que eu imaginei ser possível. Mas são coisas que não envolvem somente a minha vida.”

“Então sua mudança tem a ver com Chalotte?” ela supôs.

“Sim. E é apenas isso que vou te dizer.”

“É o suficiente.” Ela sorriu e beijou seus lábios delicadamente. “Acho que devo ir. Já está tarde.”

“Tem certeza que você não quer que eu te leve? Posso devolver Tornado amanhã”, ele ofereceu enquanto levantavam do sofá.

Ela negou com a cabeça e os dois foram juntos até a porta. Ele a ajudou a colocar o casaco e segurou seu rosto novamente.

“Elisabeta Benedito, obrigada pela honra de ter você num date, redez-vous amourex, encontro hoje. Espero que você tenha se divertido.”

“Darcy Williamson, eu mal posso esperar para ter outro date, redez-vous amourex, encontro com você”, ela respondeu com um sorriso no rosto. E não estava mentindo. Ter Darcy por perto era uma das maiores certezas que ela tinha no momento. A única dúvida, que ela se recusava a pensar com frequência mas que ocasionalmente aparecia em sua mente, era se se apaixonar por ele já era uma certeza no presente ou um acontecimento em um futuro próximo.

Notas finais
Mozzafiato (italiano) = breathtaking = de tirar o fôlego redez-vous amourex = encontro Acho que devo uma explicação. Para quem não me segue no twitter (alô? o que você está fazendo? vai me seguir! @iauracouto) devo avisar que esses últimos meses foram simplesmente uma LOUCURA. Tive vestibulares que tiraram o meu sono e me fizeram não ter tempo para ser criativa, muito menos para escrever. Entro de férias apenas dia 17 mas agora estou mais tranquila e vou voltar com a fic, ainda num ritmo lento, mas de qualquer forma tô de volta. Se você não desistiu de mim, obrigada! Espero que você curta esse capítulo/comeback. Se você desistiu... poxa! Volta pra cá! Tem muita coisa pra acontecer ainda! (por Deus, me falem o que vocês acharam pq esse é o maior capítulo que eu já escrevi e eu tô surtando por ter ficado muito tempo sem escrever! quero muito um feedback) beijos, beijos, beijos! até breve!