Notas iniciais
Obrigada pelo feedback do capítulo anterior! ansiosa para saber o que vocês vão achar desse ♥

10 de Outubro, 1910 — 15 de Outubro, 1910

Elisabeta se sentia mal. E não pelo fato de não saber se estava namorando Darcy ou por ter esquecido de perguntar quando Camilo voltaria para o Vale. Talvez ela tivesse ficado distraída demais no encontro. Mas ela se sentia mal. Mal do tipo pele suando e estômago embrulhando. A estava cabeça tão tonta que ela teve certeza que se não descesse de Tornado ela cairia em praça pública e seria o assunto do mês na cidadezinha.

“Meu Deus, o que está acontecendo?” Ela se perguntou enquanto pulava do cavalo e firmava os pés no chão. Arrastou-se até a fonte e sentou ali, torcendo para que a água fria clareasse sua mente. Já estava tarde e ela precisava chegar em casa antes que ficasse perigoso demais, mas ela se preocupava se conseguiria até mesmo levantar nessas condições.

“Elisabeta! Está tudo bem?” a voz parecia turva e seus ouvidos estavam latejando mas ela pôde reconhecer a face do homem que ajoelhou na sua frente.

“Diogo!”, ela suspirou com alívio. “Eu acho que vou morrer.”

“Bom, de certa forma estamos todos fadados ao triste e solitário fim.”

Ela riu e fechou os olhos. “Eu agradeço as palavras bonitas, mas acho que não estou com cabeça para poesia agora.”

“Alguém te fez mal?” ele perguntou parecendo verdadeiramente preocupado.

“Não”, Elisa negou com a cabeça mas quando tudo pareceu girar ela se manteve parada. “Acho que foi algo que eu comi. Ou bebi, para ser mais exata. Acho que a combinação de barriga cheia e Tornada não foi muito boa.”

Ele sorriu tristemente e colocou a mão na água da fonte, logo em seguida pressionando os dedos no seu rosto. “Coloque a cabeça entre os seus joelhos. Ouvi falar que isso pode ajudar com a vertigem.”

Ela fez o que ele mandou e no fundo se sentia agradecida por ter um rosto familiar lhe ajudando. Claro, havia uma vozinha no fundo da sua mente repetindo as palavras de Darcy quando ele viu Uirapuru no Vale mas, como já mencionado, ela estava mal.

“Acho que já estou melhor”, ela anunciou.

“Tem certeza?”

“Sim.”

Mas seu corpo negou suas palavras assim que ela tentou levantar e suas pernas cederam. Uirapuru segurou seu braço e sacudiu a cabeça.

“Com todo o respeito, você está péssima”, ele comentou e ela riu, concordando. “Eu te levo até em casa.”

Elisabeta estava fraca demais para argumentar e as pessoas já estavam encarando-a com aquele olhar que deixava claro que esse momento iria virar algum tipo de fofoca ampliada mil vezes. Ela agradeceu e ele segurou as rédeas de tornado com uma mão e sua cintura com a outra.

Conversaram muito pouco no caminho de volta. Na verdade, Uirapuru liderava a conversa. Elisa tinha se esquecido como ele poderia ser auto absorvido às vezes. Bastou ela perguntar como estava a vida em São Paulo para ele disparar a falar sobre os diversos teatros que ia e sobre como a cidade era uma fonte de inspiração diária para suas poesias. Ela não importou que ele falava demais — poupava que ela pensasse em algo além de colocar um pé na frente do outro e não desmaiasse ali mesmo. Mas depois, quando sua mente parecia mais leve, ela acabou comparando sem querer este homem que parecia não ter nenhuma restrição para falar com o outro homem da sua vida que se fechava quando ela fazia alguma pergunta que ele não gostava.

“Uirapuru”, ela interrompeu um de seus devaneios e viu as palavras saindo da sua boca involuntariamente. “Espero não estar sendo inconveniente, mas o que aconteceu entre você e Darcy Williamson?”

Ele pareceu surpreso com a pergunta mas logo um sorriso sarcástico tomou lugar no seu rosto. “Darcy Williamson. Faz tempo que não escuto o nome desse homem. Devo dizer que fiquei bastante surpreso quando descobri que vocês estavam namorando. Não esperava isso de você, Elisabeta.”

“Por que?”

“O caráter de Darcy não é grandes coisas.”

“Acho que ele diria o mesmo sobre você”, ela defendeu e Uirapuru riu amargamente.

“Com certeza”, ele respondeu e ele parecia disposto a explicar o que tinha acontecido. Mas Elisa nunca escutou o que ele tinha para dizer porque suas pernas bambearam e sua visão foi coberta pela escuridão.

Elisa ia e vinha durante a noite. Ela viu o rosto de Jane, Cecília, Uirapuru e até de Rômulo. Talvez estivesse alucinando. Sentia o corpo tremer de frio mas sua pele estava pregando de suor. Ou talvez fosse as toalhas geladas que estavam na sua testa. Ou as cobertas pesadas cobrindo seu corpo. Ela estava péssima.

“É algum tipo de vírus que está causando a febre”, ela escutou Rômulo falar em algum momento da noite. Seus olhos estavam cansados demais para abrirem e olharem o relógio, então ela ficou ali fingindo estar dormindo enquanto escutava à conversa. “Ela deve ficar melhor daqui uma semana.”

“Ah, que bom! Seria muito trágico se perdêssemos Elisabeta dessa maneira”, Uirapuru comentou e foi repreendido por Lídia. Ela escutou seus pais e suas irmãs conversando e talvez ela estivesse realmente delirando porque todas as vozes pareciam estar longe demais mas havia alguém do seu lado alisando seu rosto. Ela podia sentir com toda certeza porque sua pele estava pegando fogo e os dedos gelados faziam arder onde encostavam. Ela ignorou a dor nas pálpebras e forçou seus olhos a abrirem.

É, eu estou delirando.

“Bem-vinda ao mundo dos vivos, Elisabeta”, ele falou baixinho com um sorriso. Darcy estava tão perto que ela conseguia sentir a sua respiração batendo no seu rosto.

“O que você está fazendo aqui?” Aqui na minha casa. Aqui no meu quarto. Aqui, sentado na minha cama com minha cabeça no seu colo e o rosto tão perto que se eu tivesse mais forças eu puxaria sua boca para a minha, ignorando minha família logo ali.

“Mariana foi até a Casa de Chá, fez um telefonema para a Fazenda Bittencourt e me avisou que você não estava bem. Acho que ela esperava que eu pudesse te trazer de volta com um beijo como naqueles contos de fada”, ele disse com um sorriso lindo. Ela segurou a mão dele na sua e beijou sua palma.

“Você é muito lindo”, ela disse e ficou surpresa com o quanto sua voz parecia lenta e arrastada. Talvez ela estivesse sonhando. “Você poderia ser um príncipe.”

Ele riu alto e sua família virou para os dois. Ofélia correu até ela com os braços erguidos aos céus.

“Obrigada, Senhor, por trazer minha filha de volta!”, ela gritou.

“Mamãe, abaixe o tom de voz, por favor” Jane protestou.

Rômulo abriu caminho entre a bagunça das suas irmãs e ajoelhou do seu lado. “Como você está se sentindo?”

“Péssima”, ela respondeu e levantou com a ajuda de Darcy e Rômulo. Ela observou com carinho enquanto Darcy empilhava os travesseiros atrás dela e a ajudava a sentar.

“Você irá se sentir assim por alguns dias”, Rômulo disse. “Lembre-se de se hidratar e comer coisas leves nos próximos dias. E nada de sair com Tornado.”

Elisa concordou prontamente. “Que horas são?”, ela indagou.

“Um pouco depois das dez. Da noite, é claro”, Uirapuru respondeu.

Bom, isso era constrangedor.

Darcy estava com um olhar de desgosto que fazia parecer que ele queria sumir dali o mais rápido possível, mas suas mãos no seu rosto eram gentis e asseguradoras de que ele permaneceria ali do seu lado. Uirapuru, por outro lado, mantinha um sorriso descontraído no rosto, como se ver a tortura na face de Darcy fosse a coisa mais animadora do seu mês.

“Diogo, o que você está fazendo aqui mesmo?” Rômulo perguntou enquanto guardava seus utensílios médicos em uma mala.

“Ah, foi eu quem encontrei a Elisa”, ele respondeu felizmente. “Achei que a coitadinha fosse morrer quando chegou na Casa de Chá.”

Elisa sentiu o silêncio instaurar no quarto e fechou os olhos para ignorar a bomba que ameaçava explodir ali. Darcy apertou sua mão fortemente.

“Pera aí, o senhor disse quando ela chegou na Casa de Chá?” Ofélia questionou. “Eu achei que a senhorita já estivesse lá!”

“Não, não! Eu estava com Dona Agatha a noite toda! Elisabeta não apareceu lá hora nenhuma”, Uirapuru respondeu antes mesmo que ela pudesse abrir a boca. Ela o encarou com os olhos pedintes mas, ou ele não entendeu ou ignorou seu desespero. Elisa apostava na segunda opção porque ele parecia estar tendo prazer com a confusão instalada no quarto.

“Mas você não iria encontrar Darcy lá?” Ofélia continuou.

“Darcy não estava lá”, ele retrucou.

Darcy se virou e cuspiu as palavras raivosamente. “Por que você não para de falar e deixa Elisabeta responder?”

Uirapuru levantou as mãos em redenção mas sorriu abertamente ao ver que estava visivelmente irritando Darcy. Ele se calou e todos os olhos se voltaram para ela e seu rosto queimou, mas não era pela febre dessa vez. Rômulo acabou vindo para seu resgate.

“Eu acho que Elisabeta deveria descansar agora. A febre pode fazer com que o raciocínio fique um pouco lento, então acho melhor esse assunto ser discutido amanhã.”

Elisa concordou veementemente e se afundou nos travesseiros, fechando os olhos logo em seguida, com a desculpa de que estava com muito cansada. Enquanto todos saiam do seu quarto, Darcy se aproximou e beijou sua bochecha.

“Você é uma péssima atriz, Elisabeta Benedito”

E ao som dessas palavras ela mergulhou no sono.

Quando ela acordou novamente o sol já brilhava e iluminava o quarto. Ela se sentia melhor, apesar do corpo ainda doer como se Tornado tivesse pisoteado seus ossos. Jane, que estava lendo na cama que ficava do lado oposto do quarto, levantou rapidamente quando escutou ela se movimentando na cama.

“Elisa?”

“Estou viva?”

A irmã riu. “Creio que sim. Vou chamar nossos pais.”

Elisa segurou sua mão em desespero. “Por favor, não”, ela suplicou. “Eles vão me matar.”

“Infelizmente não tenho opção”, ela respondeu tristemente e saiu do cômodo.

Elisabeta se preparou para o pior quando os pais entraram no quarto. Felisberto parecia decepcionado e Ofélia parecia intrigada mas seu rosto às vezes retorcia involuntariamente como se ela quisesse rir.

“Elisabeta, ficamos muito felizes que você aparenta estar bem” Felisberto começou. “Mas acho que a senhorita nos deve algumas explicações.”

“Sobre o quê?” ela tentou fingir não saber o que eles estavam falando. Não funcionou.

“Obviamente temos um caso de contradição aqui. Se você estava na Casa de Chá, por que o Uirapuru disse que não te encontrou lá?”

“Vocês já pararam para pensar que talvez ele estivesse mentindo?” ela argumentou mas assim que as palavras saíram da sua boca ela se sentiu péssima por estar tentando difamar uma pessoa apenas para aliviar sua situação.

“Claro” Felisberto respondeu. “Mas se você estava com Darcy por que ele não te trouxe aqui quando você passou mal?”

Touché.

“Eu estava com Darcy”, ela começou. “Mas não na Casa de Chá.”

Ela acabou optando por falar a verdade. Se mentisse mais uma vez e eles descobrissem eventualmente onde ela realmente estava, toda a situação poderia ficar pior. E ela realmente odiava mentir para eles.

Dona Ofélia parecia que teria um infarto quando ela disse que eles estavam na casa de Julieta... sozinhos. Ela até mesmo ameaçou a desmaiar, mas Felisberto reclamou que já havia doentes o suficiente naquela casa. Seu pai parecia mais decepcionado com a mentira da filha do que com a revelação de onde ela estava. Se ele soubesse o que mais ela tinha escondido sobre esse relacionamento... Ela afastou rapidamente esse pensamento. Ninguém iria descobrir sobre o acordo inicial entre ela e Darcy.

Felisberto acabou decretando que ela estava proibida de encontrar Darcy enquanto não melhorasse, o que gerou protestos dela e da mãe. Ofélia estava preocupada que o tempo longe fosse “apagar a chama da paixão” mas Felisberto comentou sarcasticamente que eles tinham paixão de sobra e saiu do quarto, deixando mãe e filha sozinhas.

“É, talvez seja melhor que o senhor Darcy não te veja”, Ofélia comentou depois de analisar seu rosto com os olhos. “Você tá horrorosa, Elisabeta.”

“Obrigada pelas palavras de apoio, mãe”

E talvez realmente fosse melhor que ele não a visse. Se Elisa achava que estava melhor, ela estava enganada. Passou o resto do dia enrolada no chão de mármore do banheiro principal. Suas irmãs estavam sendo uma dádiva de Deus. Jane trançou seu cabelo, tirando-o para fora do seu rosto e Cecília fez um chá diferente a cada hora para ela. Mariana fez com que ela bebesse um pouco de água e esfregou suas costas enquanto ela não fazia nada além de despejar bile no banheiro. Lídia foi sua companhia de quarto na tarde com a desculpa de que ela também estava de repouso pelo pé machucado, mas na verdade ela parecia extremamente feliz que a doença da irmã mais velha a obrigava a passar tempo com ela. Elisabeta tentou ignorar o quão triste era isso e decidiu que iria deixar Lídia ciente sobre tudo assim que estivesse melhor. Talvez uma versão recortada e editada dos eventos da sua vida, mas ainda assim.

A proibição de Felisberto não impediu que Darcy não aparecesse em sua casa, no entanto. Ele apareceu todos os dias querendo notícias sobre ela e todos os dias ela escutava a conversa dele com os pais através de um relatório impecável de Jane. Todos os dias ela ganhava flores também. Houve um dia em que Darcy e Uirapuru chegaram no mesmo horário e foi o único dia que ela agradeceu por não ter que sair do quarto. Desta vez foi Lídia quem chegou correndo para dar o relatório completo e, segundo ela, houve uma discussão intensa e “ela nunca havia visto dois homens brigando por uma mulher. Foi muito romântico.” Elisa acusou a irmã de estar mentindo mas Jane confirmou a história.

Camilo também apareceu no quarto dia de resguardo o que foi um alívio, pois confirmou a fala de Elisa quando ela afirmou para a irmã que Darcy havia dito que ele voltaria em breve (quando ela, na verdade, não fazia a mínima ideia de quando ele voltaria). Ele foi até o seu quarto com Jane para desejar melhoras e, talvez ela estivesse ficado tão paranoica quanto a irmã, mas ela podia ver claramente um afastamento entre os dois. Não entendia o que estava acontecendo mas adicionou essa questão na lista de coisas para resolver quando estivesse melhor.

O pior tinha passado no quinto dia. A imagem no espelho ainda a assustava. Ela parecia mais magra que o normal e seus olhos estavam fundos graças às noites mal dormidas. Mas apesar da aparência horrenda, seu estômago estava melhor e a febre havia passado. Ela estava voltando para seu quarto depois do banho, o cabelo molhado deixando um rastro no chão e o corpo enrolado em um roupão, quando ela viu Darcy entregando as suas flores do dia para Dona Ofélia. Ela correu na direção dos seus braços antes mesmo que ele pudesse perceber que ela estava ali.

Ele a abraçou fortemente, enfiando o rosto nos seus cabelos e ela se sentiu em paz.

“Senti sua falta”, ela admitiu baixinho.

“Eu também. Mais do que você imagina.”

“Elisabeta, acho que você deve voltar para o seu quarto”, Ofélia protestou.

“Mas o papai disse que eu estava de castigo enquanto eu não melhorasse. Eu estou melhor!”

Ofélia ponderou por alguns segundos mas acabou sacudindo a cabeça. “Ara, tudo bem! Cinco minutinhos apenas”, ela disse e foi para a cozinha.

Darcy segurou seu rosto nas mãos e sorriu. “Eu queria muito te beijar mas eu estou com medo dos seus vermes me contaminarem.”

Ela bateu no seu ombro, rindo. “Eu não tenho vermes!”

“Tem certeza?”

“Absoluta”, ela respondeu e colou sua boca na dele. Ela nunca pensou que pudesse sentir tanto a falta de alguém. Ela sentia sua falta quase como uma dor física que esmagava seu coração e fazia ela querer gritar para ter algum alívio. Mas naquele momento ela se sentiu em paz. Seus lábios eram tão macio e ele tinha um gosto doce que ela não parecia ter o suficiente. Queria afogar na sua boca ao mesmo tempo que queria respirar tudo que envolvia ele.

“Se eu ficar doente, a culpa é única e exclusivamente sua, Elisabeta Benedito”, ele comentou sem se afastar muito, os lábios encostando na sua pele enquanto ele falava. Elisa voltou a sentir o corpo febril – mas de uma maneira completamente diferente.

“Acho que a sua saúde ficará bem, senhor Darcy Williamson”, ela respondeu, trançando as linhas do seu rosto com a ponta dos dedos.

“É, verdade. Acho que tenho a saúde boa como a de um... príncipe”, ele disse e ela podia ver na sua face que ele estava tentando muito não explodir em uma risada.

“Não sei o que o senhor está falando”, ela mentiu.

“Não?”, ele perguntou e ela negou com a cabeça. “Ah, talvez tenha sido Susana quem me disse que eu pareço um príncipe. Confundi vocês duas.”

Ela semicerrou os olhos e ele não pôde conter o riso que segurava. Elisa pegou o travesseiro do sofá ao lado e arremessou na sua direção, mas ele segurou com facilidade.

“Acho que vou voltar para o meu castigo. O senhor pode ser insuportável às vezes. Na verdade, você é insuportável sempre”, ela disse com o dedo levantado como se uma ideia tivesse surgido em sua mente. “Creio que esse tempo afastada me fez esquecer o quanto você me irrita.”

Ele concordou com a cabeça mas o olhar presunçoso no rosto deixava claro que ele não acreditava em nenhuma palavra do que ela dizia. De qualquer forma, Ofélia apareceu logo em seguida avisando que Elisabeta deveria voltar para o quarto logo. Darcy sorriu e se despediu com um beijo na sua bochecha, e quando Dona Ofélia se virou ele falou baixinho no seu ouvido palavras que a deixaram tensa pelo resto do dia.

Ouvrez la fenêtre de votre chambre la nuit.”

Abra a janela do seu quarto à noite.

O que ele queria? Não era possível que ele teria coragem de entrar no seu quarto de noite. Não quando ele sabia que Jane dormia logo ali do lado. O que ele estava planejando?

Ela estava impaciente na hora do jantar e quando ela e a irmã foram para o quarto, Jane questionou se ela estava se sentindo bem porque, segundo ela, Elisa estava agindo como uma pessoa louca. Ela assegurou que estava bem e esperou até que a irmã entrasse em sono profundo para correr até a escrivaninha que ficava bem na frente da janela. Abriu uma pequena fresta e observou a movimentação do lado de fora da casa mas não viu nada fora do comum. Ficou esperando por alguns minutos que pareceram horas até que um papel caiu no beiral da janela.

Elisabeta Benedito,

Te ver sentada na cadeira que te dei

Faz coisas com o meu coração que eu nem sei

Penso que seria melhor te escrever

Já que às vezes não sei o que dizer.

A senhorita me surpreende

Pois não há sensação mais ardente

Do que ver você mesmo doente

Ser a pessoa mais linda do ambiente.

— DW

Elisabeta tentou muito não rir enquanto puxava seu caderno da gaveta e pegava sua caneta tinteiro. Darcy estava sentado logo ali na frente e claramente observava as suas reações.

Darcy Williamson,

Talvez seja melhor deixar a rima para quem sabe rimar. Não que o senhor não saiba, é claro. O problema é que minha criatividade jamais será tão ampla quanto a sua. Não me surpreende que o senhor prefira escrever do que falar – o senhor fala tão pouco, sinto que às vezes estou conversando com a parede. Mas, por favor, sinta-se livre para discorrer sobre o que você quiser.

— EB

Ela colocou o pedaço de papel no beiral e ele facilmente pegou. Ela percebeu que ele tinha também uma caderneta nas mãos, mas ele apenas virou o papel que tinha pego e escreveu atrás.

Elisabeta Benedito,

A sua sorte é que você é linda demais, o que faz ser impossível eu ficar ofendido com a sua crítica à minha rima. Seu sarcasmo está evidente até na escrita. Na verdade, eu vim até aqui para te fazer uma única pergunta. Mas acabo de me lembrar que tenho tantas outras. Como por exemplo... o que você estava fazendo com Uirapuru?

— DW

Ela revirou os olhos e escreveu em baixo.

Darcy Williamson,

Sinto muito em ser rude, mas creio que isso não seja um problema seu, a menos que você esteja disposto em apresentar algum motivo para que eu não converse com um homem que eu conheço há bastante tempo... Caso você não tenha nenhum, eu posso tomar a liberdade de assumir que isso não passa de um ciúmes besta.

— EB

Ele guardou o papel no bolso e começou a escrever em uma folha nova.

Elisabeta-irritantemente-sensata-Benedito,

A senhorita tem razão. Talvez eu tivesse ficado com ciúmes quando soube que foi ele quem te segurou nos braços quando você desmaiou. Não que eu queira que a senhorita tenha algum problema de saúde. Longe disso! Por favor, não interprete mal as minhas palavras como você parece fazer frequentemente. Mas se você tivesse de passar mal, eu queria que fosse eu quem estaria ali para te salvar. E venho percebendo que esse sentimento não passa. Eu quero estar ali, com você, o tempo todo mesmo que seja para te irritar, como você afirma tão eloquentemente que eu faço.

—DW

Darcy-irritante-e-nem-um-pouco-sensato-Williamson,

Talvez você deva se acostumar. São poucas as vezes que eu não tenho razão. Uirapuru foi uma infeliz coincidência. Ele realmente estava na praça quando eu me senti mal e foi a única pessoa que veio ao meu socorro. E não se preocupe, na próxima vez que eu estiver doente farei questão de te avisar. Talvez possa até te contratar como enfermeiro! Mas não quero falar sobre isso agora. Estou mais interessada na sua pergunta.

—EB

Darcy leu suas palavras com um sorriso e, para sua surpresa, ele retirou um papel no bolso do paletó que ele estava usando e entregou para ela. A carta já estava pronta.

Elisabeta Benedito,

Você sabia que há exatos 23 dias eu te conheci? Mas há apenas uma semana eu te beijei pela primeira vez. E acho que talvez você tenha me colocado num feitiço tão forte que eu não posso mais me manter longe. A senhorita é uma feiticeira, Elisabeta Benedito. É isso que você é. Eu sei que o compromisso te assusta e não é nem de longe sua prioridade. Eu sei tudo isso. E talvez possa parecer absurdo para outra pessoa, mas para mim faz sentido. Você faz as coisas mais bizarras parecerem normais. Eu poderia acreditar até que o fogo não arde você dissesse que acredita nisso. E o que eu estou te pedindo não é um compromisso eterno. É um compromisso agora. No presente. Com você. Eu quero estar do seu lado nos momentos felizes e do seu lado nos momentos tristes. Talvez seja puro egoísmo meu querer te manter aqui por perto, mas eu não me importo. Você é a melhor, mais amável, mais terna e mais linda criatura que eu já conheci – e isso é um eufemismo. E eu vou esperar o tempo que for para que meu egoísmo seja suprido e eu possa ouvir você me chamar pelo o que eu quero. Mas, por enquanto, eu me sinto satisfeito de ouvir você me chamar, oficialmente, de namorado.

Você aceita namorar comigo?

— DW.

Elisa não sabia como ela conseguiu terminar de ler as palavras pois sua visão estava turva com as lágrimas que acumularam no seus olhos. Darcy a encarava apreensivo através da janela, sem saber qual seria sua resposta. Ele tinha dúvidas que ela diria sim? Não estava tão óbvio para todos o quanto ela o queria? Suas irmãs pareciam falar disso o tempo todo, mas talvez Darcy fosse tão desatento quanto ela.

Ela guardou a carta na gaveta e se levantou, tentando não fazer muito barulho. Correu na ponta dos pés pela sala e saiu de fininho pela porta da frente, dando a volta pela casa até onde ele estava. Quando ela o encontrou, ainda encarando sua janela, ela correu até ele e pulou nos seu braços, falando repetidamente a única palavra de três letras possível.

“Sim.”

Notas finais
lindíssimas leitoras! gostaria de fazer uma pergunta aqui. como vocês sabem, eu tive que atrasar a postagem dos capítulos devido aos contratempos da vida mas o meu plano original era postar os capítulos mais ou menos na data que aconteceram. obviamente não foi possível ahahaha eu mantenho anotado as datas de cada acontecimento (para um controle meu mesmo) mas vocês gostariam que eu colocasse as datas no início dos capítulos? acho que as vezes pode ficar um pouco confuso para vocês já que eu demorei meses pra publicar, mas na fic passou apenas dois dias kkkkkk me deixem saber! no mais quero saber o que vocês acharam desse pedido de namoro!!!!!! (um beijo para scott e zelda fitzgerald por escreverem as cartas de amor mais lindas que eu já li e me darem inspiração pra fazer esse pedido!) beijos! ♥