Piltover's Finest
18 Capítulo 16 - Parte II - "...Acabou..."
Enquanto trilhava seu caminho, em meio à desolação, destruição e terror da cidade, rumo ao cerne onde aquela batalha fatídica ocorria com uma pressa descomunal, Vi não podia negar-se a partir para a briga e aniquilar algum grupo desgraçado onde quer que surgisse a oportunidade. Viu três caras, três idiotas sarnentos do inferno, arrastarem um homem para fora de sua casa, já todo ensanguentado, com o rosto inchado e deformado e marcas de tortura por todo o corpo. Eles riam enquanto puxavam o pobre homem pelos braços até o meio da rua, e o chutavam por pura diversão, principalmente quando, exausto e próximo da morte, o homem deixava sua cabeça pesar em direção ao chão... Sua mulher e suas crianças berravam como loucos, choravam, imploravam para que parassem, para que deixassem-nos em paz, mas nada aplacava aquele apetite por dor, sofrimento, por gritos e sangue que aqueles psicopatas tinham... Na frente da própria família, colocaram a arma no rosto do homem e atiraram. A mulher, vendo os olhares dos sanguinários cães pestilentos voltados agora para ela e as crianças, imediatamente virou-se e correu com toda a velocidade que pôde de volta para dentro do bloco de apartamentos. Vi, que estava ainda longe quando percebera aquilo, correu como o vento para tentar alcançar os bandidos antes que chegassem à família...
– SEU BANDO DE MERDAS; COVARDES!!!! AAARRGH! — com um soco, ela atravessou dois dos homens, nocauteando um imediatamente e deixando o outro destruído, porém ainda consciente no chão. — Vem aqui, seu filho da puta!! — ela puxou o homem ainda consciente pelo pé quando ele tentava levantar-se para fugir. Desesperado ao sentir aqueles dedos de ferro fecharem-se brutalmente em volta de sua perna, ele começou a tentar resistir a ela a todo custo: esperneou, tentou agarrar-se a um poste, tentou inutilmente agarrar-se até no asfalto, fazendo tanta força com os dedos para tentar prender-se no chão que acabou por ter as unhas arrancadas, com as pontas dos dedos esfoladas por aquele chão áspero. — Nunca te contaram a história da raposa e da cegonha?! POIS AQUI VAI A MORAL DA HISTÓRIA!!!! — a mulher sacudiu o homem no ar pelo pé como se fosse uma toalha e agarrou-o com a outra mão pela cabeça. Foi até a poça gigantesca de sangue ao lado do pai friamente assassinado, e então esfregou a cara do criminoso no asfalto coberto de sangue violentamente. — É ISSO QUE VOCÊ QUERIA?! É ISSO QUE VOCÊ QUERIA VER, DESGRAÇADO; SANGUE?!! ENTÃO OLHA ISSO!! — os gritos do homem eram abafados pela poça de líquido rubro e pelo asfalto enquanto Vi tratava de dar a ele uma prova de seu próprio veneno, esfregando a cara do bandido no chão. Logo, uma resistência áspera era sentida a cada movimento... Já não havia pele, nem quase carne para ser gasta naquele rosto...
...mas um dos homens ainda tinha escapado! A mulher de cabelo rosa percebera, então, que ele entrara no bloco à sua frente, seguindo a mulher com as duas crianças, e precipitou-se a correr apressadamente para dentro do prédio. Subia os lances de escada desesperadamente, detendo-se por um ou dois segundos a cada andar para tentar descobrir onde o homem havia entrado... Eis que, já avançada em sua subida, Vi ouviu uma forte explosão no que parecia ser o andar acima do qual ela estava.
– MÃÃÃÃÃÃÃEEEE!!!!
Uma voz infantil aterrorizada até a morte gritou.
– Ai, caramba!!!...
Vi abandonou sua busca e voou diretamente para a origem daquele som. "Não, não, não; não deixem que ele chegue antes... Não..." Ela pedia incansavelmente em sua cabeça, desejando que o terceiro criminoso não conseguisse atingir aquela parte da família que tinha conseguido escapar. Preferia encontrá-lo ali mesmo, no meio das escadas, e assumir aquele risco para si; aquelas pessoas não tinham motivo nenhum para sofrer com a loucura daqueles psicóticos infernais! Entretanto, ao chegar ao andar certo, o homem já atirava o segundo coquetel molotov para dentro do apartamento, e os gritos da mãe e das crianças cresciam indescritivelmente em desespero e terror, enquanto as labaredas crepitavam até já fora da casa daquela família.
– ...Assassino, DESGRAÇADO! — Vi foi para cima do homem indignada com a crueldade daqueles canalhas em perseguir pessoas indefesas. — Assassino; ASSASSINO!!!
Ela socava-o, com os olhos enchendo-se de lágrimas. Porém, mesmo com o olho inchado, os dentes começando a desprender-se das gengivas e os cortes que sangravam em seu rosto, o homem ainda riu e olhou nos olhos de Vi ao falar-lhe.
– Hahahahuhuhaha!... E o que eu e você temos de diferente então, gatinha, além dessa buceta no meio das suas pernas? HAHAHAHAH!! ASSASSIIIINAAAAA!!!! HUASHUAHUSAHA!!!
– CALA A BOCAAAA!! — ela socou-o com mais força, com mais velocidade, com mais vontade... "EU NÃO SOU UMA ASSASSINA!! EU NÃO SOU UMA ASSASSINAAA!!!!!" As lágrimas tomavam os olhos de Vi, sentindo o peito apertar-lhe enquanto a vida de mais uma pessoa de fato se esvaía por suas mãos... Por fim, atirou a carcaça longe, chorando, num grito. — NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!!!!!!!! — e as lágrimas começaram enfim a desabar em profusão...
Até que ela se lembrou: a família! Virou-se para a porta de onde vinha agora uma fumaça densa; o calor, mesmo ali no corredor, era insuportável! Precisava dar um jeito de entrar e ajudar a mulher e as crianças! Dando três passos para trás e respirando fundo... *COF! COF! COF!!!* ...Não, tinha que tomar coragem de um outro jeito; respirar fundo com toda aquela fuligem suspensa no ar era suicídio! *COF!!!* Mas, tomando coragem, Vi correu com tudo o que pôde para dentro do apartamento em chamas, indo diretamente para o único ponto que o fogo ainda não havia tomado e onde estavam exatamente... a mulher com as crianças!!!! Vi começou a seguir na direção deles; iam conseguir sair dali... mas então a mulher segurou as crianças com força...
– Não!!
...e colocou os pés no parapeito da janela...
– NÃÃO!!!
– Feche os olhos, meu anjo...
...e saltou.
– NÃÃÃÃOOO!!! — por uma diferença de segundos, Vi atingiu a janela, quase pulando junto no momento em que a mulher se jogou com as duas crianças para fora, atingindo fatalmente o chão. Grudada na beirada da janela, Vi assistiu a traumática cena da mãe se suicidando, enquanto uma filha desacordada — já provavelmente morta — caía de um lado, e o menino, com o mais profundo dos terrores estampado em seu rosto e saltando dos seus olhos, caía do outro... Até atingirem o chão.
– Não... — a lutadora lamentou, com sua última lágrima escorrendo e selando um juramento... Ela socou a parede com força, arrancando um pedaço. — DOHRAN, SEU CRETINO!!! EU VOU ACABAR COM VOCÊÊÊÊ!!!!!!
Ignorando as chamas, ela correu novamente para fora do prédio, o suor escorrendo por seu rosto ferido e corado pelo intenso contato com o fogo nos últimos minutos... Aquela caçada já tinha ido longe demais.
Fugindo do fogo que quase acometera-lhe, Caitlyn levantou-se com o rifle e mudou de posição, correndo mais à frente, numa perigosa travessia pelo tiroteio. Precisava apagar o incendiário o quanto antes para voltarem a ter uma vantagem naquela luta!
– EISEN! — o oficial que dera-lhe cobertura antes, mas que a havia perdido de vista no meio daquela loucura de explosões, foi chamado por Caitlyn. Logo que detectou a posição da xerife, entendeu o que tinha que fazer.
Caitlyn derrubou o primeiro desgraçado de seu caminho, iniciando sua corrida até o ponto-chave; Eisen seguia-a com o olhar afiadamente treinado, livrando a xerife de qualquer outro oponente que a ameaçasse enquanto estivesse ocupada, com sua atenção focada em esgueirando-se atravessar aquela merda daquele campo sem tomar um balaço na cabeça.
– CAITLYN, À ESQUERDA! — um cara monstruosamente enorme, com um machete, havia passado despercebido à vista de Eisen quando ele tratava de eliminar um oponente pouco mais atrás de Caitlyn. Desesperado, o rapaz alertou a xerife da ameaça.
A mulher, vendo uma lâmina descomunal baixar em sua direção, só teve tempo de dar uma rasteira para frente, escapando do golpe e fazendo o gigante enterrar o machete no chão com uma força incrível. A xerife girou o corpo, parando de deslizar rapidamente devido ao atrito, e então apoiou os cotovelos no chão, colocou o olho na mira e BAAMM! O gigante de machete tombou para o lado como uma tora enorme de madeira, até mesmo atraindo a atenção de todos por míseros instantes, enquanto Caitlyn se encontrava afortunadamente na mais perfeita posição de camper da forma como havia parado e se posicionado no chão! Mudando só um pouco de direção, o incendiário estava na sua linha de tiro!
– Calibrando... — ela aproveitou o momento de distração do homem com a bagunça ali à frente... Mirou cuidadosamente... BAAMM!
Das ruas da cidade, tinha-se uma prova quase fiel do que significava o termo "inferno": morte. Dor. Medo. Crueldade. Desolação... Mas era dos céus da cidade que se tinha a visão mais angustiante de todas; uma visão de partir o coração de qualquer um que parasse para pensar — nem que fosse por um segundo — que aquilo, um dia, fora a Cidade do Progresso... Que aquilo, um dia, fora um lugar cheio de luzes... Cheio de vida... Naquela noite, as únicas luzes que clareavam Piltover eram das bombas que explodiam e dos prédios em chamas... Não... Tinha... Tinha sido aquilo que ele tinha imaginado para a cidade?! Não! Não... não era isso, ele tinha... Era apenas um contrato! APENAS UM CONTRATO! ELES DESTRUIRIAM AQUELA MALDITA ZAUN; PILTOVER ATACARIA COM FORÇA TOTAL; A GUERRA NUNCA CHEGARIA À NOSSA CIDADE!!! De dentro do dirigível, com a visão ofuscada pela fumaça negra como a sombra da Morte pairando sobre a cidade, Jayce não conseguia entender como havia deixado chegar àquele ponto; não conseguia se lembrar de onde vinha ou como havia começado aquela maquinação horrível... aquele maquinação terrível da qual ele era o culpado!
– PAREM O DIRIGÍVEL!! — gritou, exasperado, enquanto colava o rosto no vidro que permitia-o observar a desolação que ele mesmo trouxera à cidade. — PAREM O DIRIGÍVEL; EU QUERO SAIIIRRR!!! — virava-se, furioso com o piloto, gritando até as veias saltarem-lhe no pescoço.
– Não podemos, senhor! Não há lugar para pousar, é suicídio; a cidade está em guerra!!!
– NÃO ME IMPORTA, IMBECIL! PARE!
Com um suspiro de ódio, o piloto, observando a destruição de sua cidade, de sua vida, colocou o dirigível em velocidade total rumo ao chão. Que se dane se aquele filho da puta morresse ali. Ia largá-lo no meio do pandemônio e deixar que se virasse, canalha...
Vendo que o dirigível começava a avançar rápido em direção de pousar, Jayce, ofegando desesperadamente, passou a mão pelos cabelos... Que... Que agonia estranha era aquela; por que sua mente parecia tão cheia e tão confusa, e ao mesmo tempo completamente vazia, como se tivesse sido roubada de si e usada por outro todo esse tempo... Sentia...
– AAAAARRRGGGGHHHH; DESPREZÍVEL!! VERME MALDITO DO INFERNO!!!
Gritou consigo mesmo, puxando o próprio cabelo com uma raiva peculiar. Havia desejado a ruína de Viktor mais do que tudo quando o desgraçado atacou seu laboratório, mas não... ele não... ele não urgia por vingança; ele era um cientista! Ainda assim... algo... ele... ele construiu o Martelo e teve a audácia de ir até Zaun pagar Viktor com a mesma moeda...
De repente, Jayce começou a sentir um peculiar frio... Estava... congelando. Sentia que o ar parecia ser sugado diretamente de seus pulmões, e então sentia um perturbador e agonizante Vazio formar-se dentro de si, como se pudessem... como se estivessem drenando sua alma... Lentamente, aos poucos, a sombra de Jayce começou a aumentar... crescer... Mas não estavam passando por nenhum ponto de luz... ... ...Não. Não era por causa da luz. As sombras tinham vida. E a de Jayce começou a ficar maior que ele, envolvendo-o e sugando toda a essência de seu ser...
– NÃÃÃOO!!! — sacudindo-se, como se aquilo fosse ajudá-lo a fugir daquele trágico, horrendo, macabro e talvez até merecido destino, Jayce via já o chão aproximar-se...
Abriu a escotilha do dirigível e saltou.
Saindo do prédio em chamas com determinação, Vi começou sua empreitada direta em busca unicamente do grande filho da puta a cargo de tudo aquilo: Dohran. Varria as ruas da cidade como um trator de arado em frenesi, arrastando consigo tudo o que encontrava pelo caminho. Nada seria capaz de detê-la naquele seu ultimato: ela ia acabar com Dohran, aquele diabo desgraçado canalha COVARDE CACHORRO FILHO DA PUTA SEM ESCRÚPULOS!!!
O homem passava como uma brisa mortal, rápido e com seu punhal sempre pronto, ávido, sempre em busca de um novo pescoço para dilacerar. E ele ouviu muito bem quando aquela voz conhecida grunhiu, colérica, e homens voaram, junto com blocos enormes de concreto, pouco mais abaixo na rua...
Vi.
E não é que aquela pequena vespa irritante continuava resistindo?
Novak, ainda tapando a boca e o nariz da mulher aterrorizada dentro da loja, mandou que ela calasse a boca para que ele pudesse se concentrar e ouvir melhor...
– Mais alguém quer uma surra?! — sim, era ela! Mesmo com a voz abafada e distante, era impossível de errar...
Ele deslizou o punhal pelo pescoço da mulher, livrando-se dela logo; aquilo não tinha mais graça... Agora sim havia encontrado uma verdadeira diversão para a noite, um verdadeiro desafio... Vi, aquela cachorra desprezível... Novak trabalhara tanto tempo sob as ordens de Dohran, apagando silenciosamente inimigos, ajudando nas missões de infiltração... Pra, um dia, surgir uma putinha briguenta e, do nada, ele virar o "homem de confiança" do líder do grupo. Sem dúvida, a competência dela era inquestionável... Um tanque de guerra em luta, uma muralha quando precisassem de tempo para agir; não costumava deixar "pontas soltas" nos serviços... Mas temperamental como o inferno, encrenqueira... E tão gostosa...
Ela seguia na direção poente da Avenida Sunset — tinha acabado de chegar ao início dela, no lado nascente — e parecia que era ali mesmo seu caminho; rumo ao olho do furacão. Corria, com os olhos fixos na coluna de fogo em que se transformara o velho prédio no qual estivera, noites atrás, a observar o céu da cidade com Caitlyn... Será que ela estaria lá em cima, com seus olhos de águia, mirando seu rifle na cabeça dos vagabundos e mantendo sua promessa de zelar pela cidade? Será que seu olhar, alguma vez, topara com Vi, ali no meio da confusão? Seu coração por acaso batera mais forte? Uma ansiedade, e pela primeira vez, uma insegurança tomou conta de Vi...
"Céus... Onde está Caitlyn? Será que Barthrax conseguiu tirá-la daqui?"
E esses instantes de dispersão foram a oportunidade perfeita para um vulto sorrateiro avançar na direção de Vi, a tempo de ela apenas conseguir entender que uma lâmina rasgava o ar ávida para encontrar-se com seu pescoço.
– UUUUOOOU!!! — ela se esquivou por centímetros, fazendo com que o metal do punhal cantasse em uníssono com o ferro pesado de sua ombreira quando se encontraram.
Nem ao menos percebera de onde viera o ataque, mas reconhecia naquilo um padrão... O vulto zuniu pelo ar novamente, tentando passar rasteiro a seus pés. O tendão. Ela se desviou, quase numa dança. Exatamente aquele maldito padrão de ataque. "Agora a punhalada pelas costas..". O vento soprou mais uma vez, mas quando o vulto tentou avançar, Vi girou o corpo de súbito, levantando a mão gigante e fechando-a no ar...
– Olá, Novak. Saudades? — as mãos dela haviam se fechado exatamente em volta do pescoço daquele canalha.
– Não muito, Vi. Mas me convide pro seu funeral. — o homem, esguio, torceu o corpo e agarrou o braço de Vi com as pernas, subitamente puxando-o para perto do corpo dela, para que assim conseguisse se prender às suas costas.
– AARGH! Que merda de ataque ensaiado é esse seu, Novak; muda um pouco essa bosta! — Vi falava, abertamente debochando do modo como o homem sempre procedia com seus ataques. Agora, ele se prendia às costas dela como um filhote macaco se prende à mãe, e Vi balançava as enormes luvas atrás das costas, tentando pegá-lo e tirá-lo de lá como uma pulga irritante. Agora ela estava começando a ficar irritada.
Abatendo o incendiário, a vantagem mudou de lado com facilidade, e logo os oficiais já haviam subjugado a gangue e eliminado a ameaça naquele ponto. "Ótimo, ótimo!" Caitlyn se animava com a crescente chance de poderem reaver a cidade e expulsar aquela corja de abutres desprezíveis, mas mantinha-se focada e alerta. Seria loucura contar com uma vitória já àquela altura, as águas ainda estavam por rolar e Piltover resistia com toda a força e toda obstinação de seus bravos e honrados oficiais da Patrulha. O comunicador da xerife toca.
– Na escuta.
– Caitlyn, aqui é Johan! Como as coisas estão indo por aí?! — Caitlyn percebia que, do outro lado da linha, uma certa confusão ainda se erguia. Johan falava rápido e alto, parecia um tanto... nervoso.
– Limpamos a área e estamos avançando. Johan, qual o status da sua equipe; vocês estão com problemas por esses lados? — através do comunicador, ouvia-se o som de tiros; a transmissão era ruim e um forte chiado de fundo fazia parecer que as coisas estavam bem ruins na área em que o oficial desembarcara com sua equipe. Depois de segundos tensos de espera, Johan voltou a pronunciar-se.
– Me parece... — ele ofegava. — Me parece que chegamos exatamente no coração do monstro; aqui está uma zona infernal! Mas estamos resistindo, Caitlyn, nós vamos dar um jeito nisso e... AARGH!
– JOHAN!!
– CAITLYN, DOHRAN SURGIU POR AQUI E... DEUSES! AAAAH!!
– JOHAN, NÃO! PELOS CÉUS; O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!! — os barulhos, chiados e ruídos no comunicador eram piores e mais frenéticos que anteriormente, e só se podia distinguir, no meio daquela algazarra de sons, os gritos e gemidos de dor... — Johan, pelo amor dos deuses... — Caitlyn segurava o comunicador com as duas mãos e encostava-o na testa, pedindo para que nada de terrível acontecesse aos seus oficiais... A Johan... De repente, após todo aquele barulho... A voz ofegante e cansada do velho oficial retorna, fraca... Debilitada... Mas, ainda assim, determinada; como a de um verdadeiro membro da Patrulha deveria ser.
– *Arf! Arf!...* Ca... Cait... Dohran... Ele está se... seguindo em direção à Avenida Sunset...
– Acalme-se, oficial; nós vamos pará-lo!
Ela esperou por mais alguns segundos, mas nenhuma resposta veio. Ofegando e apertando as mãos em volta de seu rifle com fúria e determinação, a xerife virou-se para seus oficiais.
– Dohran está vindo para cá, e a situação não parece nem um pouco bonita, rapazes... Mas sabem o que vamos fazer? Vamos marchar na direção dele, e pegar aquele desgraçado de frente! Vamos lá, este pesadelo já está chegando ao fim... Só falta bater o desafio final.
Inspirados pelas palavras da xerife e pela virada de jogo que conseguiram fantasticamente dar com as últimas horas de trabalho concentrado e esforço intenso, os oficiais gritaram em uníssono, levantando o ânimo da equipe com uma agitação inesperada e intensa. Iam dar tudo de si naquela última batalha, a mais importante. Acabariam com aquele pesadelo, e então poderiam largar-se no chão, aliviados e triunfantes, e respirar os ventos da vitória. Depois, reconstruiriam seus lares. Sua vidas.
Caitlyn seguia na frente, ainda com a voz fraca de Johan ecoando em sua mente. Aquilo a mantinha alerta e completamente focada em sua missão: tinha que agir rápido e sem falhas; derrubar Dohran e ir ajudar as outras equipes, que não sabia como estavam. Começaram a correr avidamente, descendo a Avenida Sunset a fim de dar de frente com o brutamontes canalha responsável por tudo aquilo... Mas, no meio do caminho...
Vi se contorcia tanto quanto podia para tentar tirar aquele otário irritante do caralho de suas costas, mas o homem era leve e esguio e movia-se com agilidade, fugindo das mãos de ferro que tentavam agarrá-lo. Era difícil para a rebelde, com aquelas peças enormes, conseguir esticar-se o suficiente para tocar suas costas. O riso gélido e sádico do homem ecoou pelos ouvidos da mulher, enquanto ele levantava o punhal e lhe sussurrava.
– Sabe por que não mudo esse "ataque ensaiado", Vi?
– POR QUE VOCÊ É UM BOSTA!
– Não... Huhum! É porque ele sempre funciona.
O sussurro do homem foi rápido e fulminante, como o silvo de uma serpente antes de dar o bote, e então a mão dele ergueu-se no ar com o punhal...
Vindo na avenida com seus oficiais, cada vez mais próxima, Caitlyn avistou uma figura conhecida...
– ...Deuses!!! — não podia ser! Era... era... — VIIII!!!
ERA VI! VI! Ela estava ali, e estava... estava mal; o corpo todo sujo de terra e fuligem, com arranhões que escorriam sangue por todos os lados, uma queimadura enorme na perna... Céus! Mas Caitlyn sabia que ela resistiria a tudo aquilo como se fosse apenas um cortezinho com papel; ela sabia, era... o tanque-de-guerra não-oficial da Patrulha. Seu coração disparou ao perceber aqueles cabelos cor-de-rosa distantes no horizonte, as luvas gigantes... "Céus, ela está viva! Viva!!!" E então a xerife saiu em disparada na direção da enforcer, correndo mais que qualquer outro oficial, distanciando-se do grupo — como ela mesma havia dito para que não fizessem — para chegar a Vi mais rápido... Entretanto...
Na metade do caminho, quando pôde realmente avistar a outra mais claramente, percebeu que ela lutava arduamente para conseguir livrar-se de um atacante que a atingia pelas costas. E, por mais que Vi tentasse, a robustez de suas luvas não permitia que alcançasse o homem para tirá-lo dali... No meio daquela confusão, com Vi debatendo-se já desesperadamente, Caitlyn notou um brilho peculiar reluzir por trás das costas de sua querida...
– NÃO!
Novak baixou o punhal com força, ao mesmo tempo que um disparo fora ouvido ao longe. Vi soltou um grito pungente, e o desgraçado finalmente voou para longe das costas dela com um gemido fugaz de dor... Ele... fora baleado! Sentindo o ombro queimar mais que as chamas que já havia enfrentado durante aquele dia, a mulher de cabelo rosa apalpou a região, sentindo o cabo do punhal, que se enterrava na parte de trás de seu ombro. O único lugar possível que Novak conseguiu acertar com toda aquela agitação frenética de sua oponente e o súbito disparo que o derrubara. Vi respirou fundo, segurou o cabo do punhal...
– ...AArgh!
...e puxou-o para fora de seu ombro. Caralho, como aquilo doía!... A dor e o sentimento de queimação alastravam-se por todo seu braço esquerdo, fazendo com que sua luva, desse lado, parecesse pesar mais... Mas, de repente, ignorou absolutamente tudo aquilo. Havia ouvido um disparo. Fora um disparo certeiro, como nenhum outro, que derrubara Novak e salvara-a de ter seu pescoço rasgado... Com o coração começando a bater cada vez mais forte, cada vez mais rápido, ela olhou a linha do horizonte à sua frente...
Levantou a cabeça, procurando loucamente por todos os lados, onde ela poderia estar... E então a viu surgir, correndo em sua direção...!
– ...CAITLYN!!!!
Não podia acreditar, NÃO PODIA ACREDITAR!!! Ela estava ali, e estava a salvo! HAHA! Céus; valeu, valeu, valeu!!!! Vi começou a correr a encontro da xerife. De sua cupcake. Caitlyn, preocupada com o que poderia ter acontecido, corria também em direção àquela louca de cabelos rosa; queria abraçá-la, ouvir que estava tudo bem, saber que aquele pesadelo tinha acabado e que poderiam voltar, juntas, para casa...
– VI!
Ela se atirou nos braços da enforcer, esquecendo por um momento tudo o que acontecia à volta delas. Vi segurou-a e apertou-a num abraço quase desesperado de saudades. Quanto tempo; quantas coisas as mantiveram longe...
– Nunca mais faça uma loucura dessas sem me avisar desse jeito! — a xerife desenterrou o rosto do colo da moça, segurando-lhe o rosto com carinho e dando-lhe uma bronca seríssima enquanto gordas lágrimas escorriam naturalmente de seus olhos. Vi estreitou-a em seus braços, com os olhos também marejados, mas com um leve sorriso travesso e acanhado, como se silenciosamente pedisse desculpas pela traquinagem, mas principalmente dissesse que estava infinitamente feliz de reencontrá-la ali. A enforcer estreitou-a mais em seus braço, e Caitlyn puxou o rosto de Vi para si.
Os lábios se tocaram com vontade; pareciam ter sido separados por uma eternidade insuportável! Céus, que verdadeiro horror fora imaginar que talvez nunca se vissem novamente... Isso... Isso seria quase a morte. Vi deslizou as mãos pelos longos e lindíssimos cabelos de chocolate de Caitlyn. Sentira uma saudade imensa deles, dos seu olhar afiado, daquele corpo cálido junto ao seu, de seus lábios... Caitlyn apertava-a consigo com força; não queria que Vi sumisse novamente no ar, que simplesmente deixasse de existir em seu mundo, em sua vida. A outra mão lembrava dos detalhes tão queridos de seu rosto, deslizando por sua pele sem se importar se estava suja, se era ou não macia, se aqueles arranhões virariam cicatrizes... Ela a amava. A amava pelo que ela era, e de todo seu coração; e nada mais importava. Delineou aquela velha e característica cicatriz que ela tinha no rosto com um carinho imensurável... Eram aquelas coisas que a faziam quem ela era. "VI". Brevemente, a rebelde distanciou-se, olhando atentamente para Caitlyn enquanto afagava seu rosto com apenas um dedo da gigantesca luva.
– ...Eu tive medo que você não acreditasse em mim.
– Por um momento, eu achei que você tinha mesmo... me deixado.
– Nunca! Nunca, Caitlyn, nunca! – ela exclamou, quase que em desespero, enquanto olhava naqueles olhos com firmeza e paixão, buscando encontrar neles a certeza de que ainda lhe acreditavam. Segurou-a com carinho, e naquele momento, Caitlyn sentiu-se nos braços de um anjo guardião, protegida de toda a tristeza e todo o perigo que poderiam haver lá fora. Com a outra mão, Vi amparou-lhe o queixo, trazendo-a em sua direção. — Eu te amo.– ela sussurrou calorosamente, com a ponta do nariz já roçando a pele dela, os lábios quase colados, movimentando-se em sincronia... A boca dela dançando com a sua, suas línguas brincando...
Mas o beijo fora então bruscamente interrompido pelo estrondo de uma explosão furiosa, e a imagem de um prédio caindo quase ao lado dali. Porém, não havia fogo...
– CORRAM! — Vi gritou ao ver que blocos enormes de concreto voavam pelo ar. Era perigosíssimo continuarem ali.
Em sua mente, Caitlyn havia feito alguma ligação... "Ele estava vindo para a avenida Sunset..." Enquanto corria, com sua mão inevitavelmente grudada à de Vi, ela já imaginava o que estava por vir... Mas, nem de longe, poderia ter adivinhado como aquele cão infernal iria atrapalhá-las com uma surpresa...
Fugindo desesperados, o grupo de oficiais junto à xerife e à lutadora viu-se cercado por homens do exército inimigo. Conseguiram armar-lhes uma emboscada! Lembrando-se das ordens da xerife, o oficial que estava em segundo no comando da equipe ordenou que parassem.
– SOLDADOS! TOMEM POSIÇÃO; NÃO É HORA DE FUGIR, É HORA DE LUTAR!!!
De repente, a equipe, num ato derradeiro de coragem, parou de correr, e cada membro procurou um lugar seguro de onde pudessem ter cobertura para atirar nos inimigos que vinham em profusão. Caitlyn queria voltar, ficar com sua equipe; não podia abandoná-los em ação, de jeito nenhum!!! Mas Vi puxava-a sem trégua, mesmo contra sua vontade.
– VI, EU PRECISO VOLTAR PARA A MINHA EQUIPE!
– Não, Caitlyn; precisamos sair daqui!!
– VI, ME SOLTA!!!
– EU NÃO VOU TE COLOCAR EM PERIGO MAIS UMA VEZ!!! — Vi virou-se para Caitlyn e gritou com ela, irada... Mas então puxou-a para o meio das ruínas do que, um dia, fora um prédio, e enfiaram-se num canto escondido onde não caberia muito mais que três pessoas. Vi puxou Caitlyn para dentro e então girou-a, colocando-a contra a parede enquanto a enforcer utilizava o próprio corpo como escudo para ela, com suas costas viradas em direção à saída da passagem. Ela ofegava, e sentia-se mal pelo jeito que falara com Caitlyn... Mas não podia evitar aquela preocupação. — ...Eu não vou te colocar em perigo mais uma vez, Caitlyn.
– E vai tomar uma decisão precipitada sem contar comigo, como na outra? — elas estavam frente a frente, isoladas do que acontecia lá fora, no escuro... Ambas as respirações eram rápidas, o coração em disparada, mas as mentes flutuavam sobre aquela decisão... Vi aproximou-se mais, prendendo a xerife na parede... Caitlyn envolveu sua cintura; roçou a perna, subindo-a pelo corpo de Vi... — Nós estamos juntas nisso. Nem pense que eu vou te deixar voltar praquele campo de guerra sem mim...
Vi chegou mais e mais perto, apertando o corpo da xerife contra a parede com o seu. A pressão nos quadris dela... ...Logo teriam tempo. Vi segurou o rosto de Caitlyn, fazendo-a olhar nos olhos azuis delirantes dela.
– Então você tem que me prometer uma coisa: Caitlyn, quando surgir a oportunidade de dizimar aquele canalha escroto do Dohran... Você não vai pensar duas vezes pra puxar o gatilho. Sem exceção.
A xerife assentiu com a cabeça, mesmo com certo pesar. Beijaram-se brevemente uma última vez, e então Vi afastou-se em passos vacilantes... Não queria ir agora... Mas era necessário. Deixando seu olhar ainda para Caitlyn, a lutadora virou-se e correu de volta na direção da qual haviam vindo. Caitlyn saiu logo a seguir, empunhando seu rifle com garra e pronta para a ação.
A Patrulha resistia com força, aniquilando o inimigo aqui e ali, mas sendo obrigada a dispersar-se para cobrir a totalidade do território antes que ficassem encurralados, dando a oportunidade perfeita de acertarem e matarem a todos com uma única granada. No meio dos tiros e das ferozes lutas corpo-a-corpo, Vi corria ajudando a polícia a limpar o campo à sua frente, mas seu objetivo primordial não era esse... Ela queria bater de frente especialmente com Dohran. Ele tinha colocado à prova aquele sonho que ela se permitira ter de construir uma vida em Piltover, mas agora ela ia dar um fim naquele filho da puta e acabar de vez com o caos trazido por ele. Caitlyn atirava em movimento, tendo que dividir mais uma vez sua atenção entre abater os canalhas, fugir dos tiros e guiar sua Patrulha. Seguia pelo campo como uma sombra majestosa, ceifando vidas por onde passava, sempre certeira. Um tiro, um abate.
De repente, um monstro gigantesco, até mesmo maior que Vi, surgiu devastando o campo e tudo o que havia nele...
– Mas que porra é ess... — Vi exclamou, perplexa, ao ver aquilo que acontecia.
Por um instante, todos pararam para ver aquela abominação que se aproximava com carga total, levando consigo, como um tanque de guerra, tudo que via pela frente. Não importava se fosse gente, um carro, um muro, um prédio inteiro, talvez... Dohran chegava, rindo com aquele seu eterno escárnio para o mundo, e mandando tudo para o quinto dos infernos. Mas o mais inimaginavelmente preocupante e fatal de tudo isso: o verme construíra para si luvas de ferro gigantes, muito maiores até que as de Vi. Eles havia feito uma cópia delas! E, apesar do peso fenomenal que elas tinham, obrigando-o a mover-se bem mais lentamente, eram como duas jamantas presas a seus punhos... Um golpe daquilo e... Adeus.
...Vi não podia perder aquela oportunidade. Não podia deixar que ele avançasse, muito menos que vencesse... E então correu diretamente para ele, pronta para dar o soco mais explosivo que já conseguira em toda a sua vida.
– AAAAAAAARRRRRGGGHHHH!!!!!
Ela projetou o peso da luva e do corpo inteiro para frente; ia atingir a cabeça daquele filho da puta em cheio, e depois pisaria nela até a morte, mas o homem era um macaco velho de luta de rua, e foi quase como se estivesse preparado para aquele ataque oportunista de Vi. Com esforço, levantou uma das pesadas luvas e bloqueou o golpe com a facilidade que bloquearia uma bola atirada em sua direção. Segurou o punho fulgurante de Vi no ar, fazendo-a ficar quase suspensa no nada por alguns milésimos de segundo.
– Huhuhuhum! Um beijo seria mais gostoso como boas-vindas...
Ele apertou seus dedos em volta da luva de Vi e puxou-a com força em outra direção, atirando-a com violência contra os escombros de um prédio já quase em pedaços, e uma chuva de concreto ainda precipitou-se em cima dela, finalizando o brutal golpe. Comendo poeira, mas com sua raiva por aquele desgraçado filho de uma puta ainda apenas mais inflamada, Vi levantou-se dos escombros, coberta de poeira e com enormes roxos por todo o corpo, e preparou-se novamente para a luta.
– Finalmente aprendeu a bater que nem homem, Dohran, sua putinha! — ela gritou, provocando-o, porém sem sorrir. Ela ia matá-lo, ia matá-lo, e era agora mesmo. Ele caminhava em sua direção.
– Hahaha!!! Vi... Você é que nem um cão velho e seu osso todo mastigado com todo esse seu orgulho... Não se separam mesmo por nada! Hahaha!!!!... Tudo bem, não me importo de mandar vocês dois juntos PRA COVA! UUUUAAAAAARRRRGGGGGGHHH!!!
O homem precipitou-se para frente, assim como Vi fizera, e ela bloqueava a série de socos dele com suas luvas cruzadas, em X, à sua frente, protegendo seu corpo. Contudo, aquelas luvas enormes eram extremamente pesadas. A cada golpe aparado, Vi era arrastada um pouco mais para trás, e sua barreira feita com suas luvas aproximava-se cada vez mais de seu corpo!...
No nono ou décimo golpe, sem mais conseguir bloquear, as próprias luvas de vi colaram-se ao seu corpo, enquanto o soco meteórico de Dohran foi capaz finalmente de acertar-lhe na cara, fazendo Vi cambalear para trás e tropeçar numa falha em meio às pilhas de concreto no chão, caindo dolorosamente de costas em cima das pedras. Piscou os olhos com força; seu lábio havia sido cortado e sangrava...
– HAHAHAHA!!! ME DIZ AGORA DE NOVO; QUEM ESTÁ POR CIMA, VI?! HAHAHAHAHAHA!!!!!! SUA ESCROTA. SUA MEGERA, CACHORRA, VADIA ESCROTA! — ele socou-a com força mais uma vez, enquanto ela se levantava, atirando-a longe de novo e fazendo Vi quase deslizar, arrastando-se pelo chão áspero no caminho de sua queda. — E sabe o que eu vou fazer com a sua xerifezinha depois que eu acabar com você?! EU VOU METER NELA, TODA AMORDAÇADA, EM CIMA DO SEU CORPO MORTO, E ENTÃO, QUANDO ELA JÁ NÃO ESTIVER NEM MAIS RESPIRANDO, EU VOU ENFIAR A PORRA TODA DOS DEDOS DESSAS LUVAS NELA, ATÉ ELA BERRAR DE DOR, E EU VOU RASGÁ-LA EM DUAS!!!
– VAI SE FODER, SEU FILHO DE UMA PUTA; VOLTA PRO INFERNO!!!!! — irada com aquele monte de... COM AQUELA BOSTA NOJENTA QUE AQUELE DESGRAÇADO MALDITO falava sobre Caitlyn, Vi levantou-se antes que ele conseguisse acertá-la novamente e desferiu um soco brutal na barriga daquele canalha escroto, obrigando-o a dobrar-se sobre si, e então desceu-lhe uma cotovelada nocauteante na nuca. — FALA ISSO MAIS UMA VEZ SE TEM CORAGEM, SEU BOSTA!!!! — ela chutou a cabeça dele, fazendo-o voar alguns metros mais longe, e já se adiantava para mais um golpe, quando o maldito monstro levantou-se, à distância, e lançou um daqueles asquerosos sorrisos displicentes na direção de Vi enquanto falava.
– Huhuhuhuhum!!!... Mudei de ideia: melhor ainda; vou fazer isso com Caitlyn enquanto você ainda está viva, pra você poder ver nos olhos daquela puta todo o sofrimento e não poder fazer NADA!!! HAHAHA!!!!
– NÃO!
Dohran levantou-se e já se precipitou a correr na direção em que Caitlyn lutava junto de sua equipe. Com o coração tomado por um desespero puro, Vi disparou loucamente atrás dele, lembrando-se da estratégia de Novak e atirando-se nas costas daquele monstro infernal para que o parasse, de qualquer jeito.
Caitlyn viu aquele trator monstruoso aproximar-se com força total; ia dizimá-los, a todo seu grupo!
– SAIAM!!!
Mas antes que ele conseguisse alcançá-los, um ponto rosa surgiu por trás dele e atirou-se às suas costas, prendendo-se como um caubói sobre um touro gigante indomável e enfurecido... Era Vi, deuses!!! Caitlyn voltou; precisava ajudá-la!...
O criminoso tinha o mesmo problema de Vi, de alcançar-lhe nas costas com as luvas muito maiores e muito mais pesadas que as dela. Ela era mais rápida na luta, mas tinha que tomar absoluto cuidado; qualquer soco que ele desse poderia ser o golpe letal que acabaria com aquela luta. Ela observou que os oficiais corriam para longe, e então sentiu-se um pouco mais aliviada; mas então, para sua total surpresa e preocupação, Caitlyn voltara!
– UUUGH!! CAITLYN, VAI EMBORA!!!
– EU NÃO VOU TE DEIXAR!!!
Aflita, Vi descuidou-se por uma fração de segundo, dando a oportunidade de Dohran acertá-la e fugir de seu mortal abraço. Ele fixava com fúria bestial e desejo diabólico seu olhar na xerife, e se precipitava a avançar para cima dela, mas Vi, completamente ignorando o golpe que levara e recuperando-se numa velocidade inacreditável, atirou-se novamente na direção dele, conseguindo segurá-lo mais uma vez com gigantesca dificuldade... Não... Não sabia quanto tempo conseguiria mantê-lo ali, distante de Caitlyn... Ela tinha que agir rápido.
– CAITLYN, ATIRE!!!!!
Ela gritou, lutando fervorosamente para que Dohran não avançasse mais nenhum centímetro na direção dela, mas ele quase a arrastava junto. Ela concentrava toda sua força arduamente, estacando seus pés no chão a todo custo para contê-lo.
– ATIRE, CAITLYN, O QUE ESTÁ ESPERANDO?!!!?!!
Mas eles se moviam loucamente, com os corpos extremamente próximos um do outro, Vi segurando-o num mata-leão quase impossível, e eles dançavam, rodopiando freneticamente enquanto um tentava atingir o outro. Duas ou três vezes Caitlyn havia conseguido mirar Dohran, mas imediatamente, quando ela tencionava puxar o gatilho, eles giravam e Vi acabava entrando em sua frente... Ela não podia fazer aquilo... Não podia puxar o gatilho, não para Vi...
– AAAAAARRRRGGGGGHHHH!!!! CAITLYNNNN!!!! AAAARGH! ...VOCÊ PROMETEU! VAI!!!
"Eu não..."
– ATIRE!!!!!
Como ela havia prometido: sem pensar duas vezes, ela focou o coração de Dohran e, num milésimo de segundo de pura sorte, Vi girou-o a tempo de colocá-lo exatamente na linha do tiro, mas Dohran também impulsionou-se para a direção oposta...
BAAAMM!!!
...
...
...a bala havia atravessado o coração de Dohran!!!!
– AAAAAAAHHHHHHH!!!! — Caitlyn exclamara involuntariamente; havia acabado!
Quase em câmera lenta, Vi cambaleara para trás com o peso do brutamontes caindo, e então finalmente largou-o para que tombasse, morto, no chão, à sua frente. Ela pareceu sorrir, e então vacilou um pouco, ofegante. Caitlyn correu para ela, para abraçá-la; havia acabado!!!
– VIIII!!!!
...Mas então Vi fechou os olhos e mexeu a cabeça desorientadamente para o lado... Levou a luva gigante ao rosto, passando-a por ele como se quisesse livrar-se de uma sensação ruim, uma vertigem terrível...
– Vi?
Ela levantou a cabeça com um olhar vago, como se não enxergasse Caitlyn direito, vindo em sua direção, mas tentasse seguir o som de sua voz... Os olhos de Vi... Eles estavam... Caídos... Anuviados... Vendo aquela estranha reação, Caitlyn sentiu um aperto indescritível no peito... Angústia. "Meu deus... Meu deus!!!!!" Ela apertou o passo, perdendo agora toda sua aura radiante de alegria e correndo desesperadamente em socorro de Vi; ela passava mal. Céus! O que acontecera?! De repente, a enforcer pareceu conseguir enxergar Caitlyn, já praticamente em frente a ela, mas cambaleou e seu corpo amoleceu. Ela ia cair...
– DEUSES, VI, PELO AMOR DOS CÉUS; NÃO, NÃO! — Caitlyn chegou a tempo de amparar Vi antes que ela despencasse bruscamente e batesse com força contra o chão, segurando sabe-se lá os deuses como todo aquele peso da mulher ainda vestindo as luvas... — VI, FALA COMIGO, POR FAVOR! — lutando com toda a energia que lhe restava para manter-se de pé, Vi virou o rosto para Caitlyn, que a segurava com esforço, com os braços envoltos em sua cintura...
– ...Acabou...
Dizendo aquilo, o corpo de Vi pesou subitamente nos braços de Caitlyn...

Não conseguiria mais segurá-la, mesmo que tentasse com toda a vontade, e então deixou-se cair com ela no colo, repousando-a sobre seu corpo enquanto a abraçava e chorava a ponto de soluçar.
– VI, NÃO, NÃO FAÇA ISSO... VI, PELO AMOR DOS DEUSES; NÃO FAÇA ISSO!!!!! — ela se desesperava enquanto tremia e segurava a mulher em seu colo de uma forma desleixada. Esticou-se e desativou as luvas, livrando as mãos de Vi do peso delas, do peso daquela eterna batalha que era sua vida... — NÃO... VI... FALA COMIGO! — ela puxou-a mais para cima, mais para perto, repousando a cabeça da moça no colo do seu peito... Ela estava ficando gelada...Caitlyn tentava mantê-la quente, abraçando-a e envolvendo-a com seu próprio corpo... Mas foi quando envolveu-a com seus braços que pôde sentir o líquido quente e viscoso escorrendo pela roupa de Vi... ...O tiro...
Não!!!!
– ...Céus... Vi!... Deuses, o que eu fiz!!
– Shh... — aquele silvo fraco vindo de baixo dela quase fez seu coração saltar-lhe pela garganta. — ...Não fique triste, cupcake... Por... fav... aagh...
– VI! Céus, Vi me desculpe...
– Não... Não... Nós... salvamos a cidade. Nós vencemos.
– Sim, meu amor, nós vencemos! Nós vencemos sim, e agora podemos voltar pra casa... É só aguentar firme!... — Caitlyn falava com uma bola de espinhos em sua garganta enquanto forçava-se a sorrir para Vi e dizer-lhe que tudo ficaria bem... Ela mesma precisava acreditar que tudo ficaria bem... Mas seus olhos entregavam a angústia, o momento de completa incerteza e agonia pelo qual passava, com Vi se esvaindo em seus braços... — Vi, por favor... Aguenta firme; fala comigo!...
– Aagh... Eu... Tá tranquilo... — ela esboçou um sorriso enfraquecido, mas era o melhor que podia dar naquele momento. Seus olhos ficavam nublados a todo instante... Não... Por favor... Queria manter aquela imagem magnífica de Caitlyn para si... e não queria que ela chorasse... — Ei... Tem algum... UGH!! ...tem algum... cigarro... por aqui?
Caitlyn de forma alguma deixaria que ela fizesse aquilo em outra ocasião, mas em meio ao seu desespero, só queria dar a Vi tudo o que ela quisesse, só queria fazer o máximo para tentar mantê-la ali, para que não... ... ...ela se esticou, vendo um maço caído do bolso de Dohran, com os cigarros todos espalhados pelo chão... Tomou um e tateou para ver se encontrava um isqueiro também... Um pequeno barulho de trovão ouviu-se ao longe, e de repente, fria e sem outro motivo senão lavar da terra todo aquele pesadelo que tomara Piltover, a chuva começou a cair. A xerife retornou ao lugar em que estava, colocou o cigarro na boca de Vi... Não podia aguentar; segurou seu rosto e beijou-a fervorosamente, puxando-a para si e apertando-a com paixão... "Não vá, Vi!... Por favor; pelos céus, não vá..." Afastou-se dela então quando percebeu que ela tinha dificuldade para respirar.
– Vi, me desculpe!... Me desculpe, meu amor, eu não...
– Não, não, não... Caitlyn, por favor, não se desculpe... Você... Você me deu o maior presente que alguém jamais poderia ter...
– Vi, eu...
– ...você me deu uma chance.
Apertando os lábios com força para conter aquele sentimento, toda aquela dor... Caitlyn não conseguiu segurar; num só movimento dolorido, expeliu todo o ar de seus pulmões e desabou em lágrimas, soluçando, não conseguindo conter de forma nenhuma seu amor ou disfarçar sua desesperada preocupação para que Vi ficasse...
– GUARDAS!!! CHAMEM UMA AMBULÂNCIA!!!! — berrou com todas as forças, numa voz esganada de tanta intensidade em seu grito. Outras equipes da Patrulha já chegavam ao local para reunir-se novamente com a xerife ao receberem a notícia de que havia acabado, de que todo aquele pesadelo havia acabado; e imaginavam que iriam comemorar como nunca aquela vitória que tiveram... Mas, ao verem a xerife prostrada sobre o corpo caído de Vi... Todos ficaram aflitos. Não havia clima de comemoração naquele local... Uma aliada... Uma brava guerreira... Lutava sua última batalha, ali, caída no chão...
– Deuses, o que aconteceu com Vi?
– Ela vai ficar bem?
– Céus, como essa ambulância demora; quanto tempo mais vai levar pra chegar?!
Ao longe, todos observavam a cena com a respiração presa e os dentes cerrados... Força, garota... Caitlyn voltou a abraçar Vi, envolvendo-lhe e amparando sua cabeça para que não ficasse jogada naqueles pedaços de concreto duros e desconfortavelmente insensíveis...
– Vamos, meu amor, por favor, aguente só mais um pouco... A ajuda está vindo; só mais um pouco...
– Cup... cake...
– DROGA; ONDE ESTÁ ESSA MALDITA AMBULÂNCIA?!!!!?!!!?!?!? — a xerife gritava e seu nervosismo se misturava com suas lágrimas, rasgando-lhe a garganta; esmagando-lhe o coração. — Vi, por favor; por favor, me ouça...
– Aah... — ela gemia e seus olhos vagavam perdidos por um local inexistente...
– Vi... Meu amor... Eu te amo. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, minha menina! E eu nunca amei mais alguém do mesmo jeito; me desculpe!... Não me deixe... Eu não vou nunca mais deixar você... Por favor; Vi!!...
– Minh... vidAGH!
– SAIAM DA FRENTE; SAIAM DA FRENTE!!!! — Andrès e Johan, num estado destroçado, porém ainda utilizando-se de toda a energia que ainda tinham, empurravam os oficiais para o lado para abrirem passagem e chegarem até onde Caitlyn e Vi estavam.
– NÃÃÃO!!! VIII!!!! NÃO, PELO AMOR DOS DEUSES, NÃÃO!!!
– CAITLYN! CAITLYN, ME ESCUTE!
– NÃÃÃÃÃOOO!!!!
– CAITLYN, OLHE AQUI!!! — Johan puxou-a com força para que olhasse para eles, mesmo ela lutando para manter-se agarrada a Vi de qualquer forma. Mas o oficial segurou-a para que ouvisse, de um jeito ou de outro, enquanto Andrès começava a falar.
– XERIFE, ME ESCUTE!! Eu conheço uma poderosa família em Ionia, do tempo em que trabalhei para eles; se existe uma chance de Vi sair conosco disso, é mandando-a para lá, mas tem que ser imediatamente!
– Vamos, Caitlyn; o doutor Corki está esperando com um avião pronto para partir! Você tem que nos deixar ajudá-la!
Vendo naquele último tiro de esperança sua única opção se quisesse salvar Vi, ela aceitou e deixou que os oficiais a carregassem, inconsciente, em direção a um dos carros-forte que sobreviveram ao ataque. No mesmo instante, chegou, com enorme dificuldade, pelas ruas destruídas e bloqueadas pelos destroços da batalha, uma ambulância.
– Graças aos deuses; melhor ainda...
Num estado completamente torpe, Caitlyn ia apenas seguindo a agitada movimentação; sua mente, sua alma, sua essência... Tudo estava fora dali. Era só o corpo que seguia, maquinalmente, as ordens recebidas ali... Todo o resto pairava no meio da escuridão... Era como se tivesse mergulhado de cabeça num oceano infinito, sem fundo nem superfície... Só estava rodeada por aquela fria água negra de todos os lados, e não havia ar para que ela respirasse, mas também não havia a agonia de se afogar... Aquilo era a Morte? Observou Vi ao seu lado, deitada na maca dentro da ambulância, conectada a uma série de tubos e eletrodos... Não era mais sua energia infinita, eram batimentos. Não era mais o calor de seu coração junto ao dela, era a frieza de "bips" monótonos. Seus olhos, até então ausentes, marejaram, e a xerife estendeu uma mão, tocando-lhe a testa... Limpando-a da sujeira e do suor, afastando o cabelo que lhe caía sobre os olhos...
Se Ela não mais existisse, não havia motivos para ela existir mais ali também...
– Vamos, Caitlyn, rápido! O avião! — uma voz abafada e distante gritava com ela, vinda de um homem que, peculiarmente, estava ao seu lado e puxava-a... Mas tudo parecia passar em borrões indefiníveis e em flashes de câmera lenta...
– Estamos chegando?
– Aquela ilha abaixo; Ionia.
– Aterrissaremos em poucos minutos...
...
– Irelia, por favor, é o único favor que lhe peço; leve-nos até a Filha das Estrelas, Soraka... Tenho certeza que ela não vai negar-se a ajudar...
– Soraka tem estado extremamente severa e reclusa depois da farsa daquele noxiano que a fez perder grande parte de seus poderes e quase sua vida... Será difícil...
– Por favor, senhorita!...
...
– Vão embora.
– Soraka, por tudo o que é mais sagrado...
– E O QUE É SAGRADO PARA VOCÊS, HUMANOS, HOJE EM DIA?!
– UMA VIDA É SAGRADA PRA MIM, SUA CONVENCIDA; A VIDA DELA É SAGRADA COMO O CÉU PARA MIM!!!
Caitlyn finalmente saiu de seu estado de torpeza com ímpeto total quando ouviu a recusa da lendária curandeira, e afrontou-a sem pensar duas vezes nas consequências que aquilo poderia trazer. Inferno! Eles atravessaram o mar em minutos para conseguir ter alguma chance chegando ali, e agora aquela mulher, com toda sua soberania, batia a porta na cara deles com desdém!!!...
A mulher, surpreendendo-se com a reação vigorosa e inesperada daquela outra que os acompanhava dormente como uma marionete, teve um instante de silêncio, observando o rosto cansado, desesperado, sofrido dela...
– ...Deixem-na comigo... E vão embora.
– Eu vou ficar com ela...
– NÃO, você não vai. Levem-na daqui; não se pode revelar estes segredos de vida e morte das estrelas a olhos despreparados...
– Não... NÃO!!! — Caitlyn iria seguir a altiva mulher de pele lilás, com aquele peculiar chifre na cabeça e o cetro poderoso em formato de lua; iria segui-la porque precisava estar com Vi, precisava saber como ela ficaria... Mas prontamente, antes mesmo que ousasse mover-se um passo à frente, Johan segurou-a com força, envolvendo-a com seus braços enquanto a menina se dobrava, em sua infinita dor, e derramava aquele mar de lágrimas de desespero quando ele a abraçara. — Johan!!! Por favor, dê um jeito; fale com ela; eu preciso ficar com Vi!!!!
– Caitlyn, nós fizemos tudo o que podíamos fazer por ela até agora... Agora só nos resta esperar e torcer por Vi.
– Mas eu não quero...– ela se afogava em sua tristeza e esperneava quase como uma criança. — Eu não posso deixar Vi sozinha aqui!!...
– Xerife, Piltover ainda precisa de você... — Andrès tentou falar a ela, mas aquilo... Aquela maldita frase só serviu para instigar ainda mais a raiva que Caitlyn sentia de toda aquela situação.
– Piltover ainda precisa de mim?! ...PILTOVER JÁ SUGOU ABSOLUTAMENTE TUDO O QUE PODIA DE MIM; TODOS OS MEUS ANOS, TODO O MEU TEMPO, TODO O MEU SERVIÇO!!! É ISSO QUE FAZ COM QUE PESSOAS BOAS VÃO À COMPLETA LOUCURA; FOI ISSO QUE FEZ JAYCE IR À LOUCURA: PILTOVER SEMPRE PRECISA MAIS UM POUCO DE NÓS!!!! PRO INFERNO COM AQUELA CIDADE E TODA A MERDA QUE FIZERAM E QUEREM QUE EU CARREGUE O PESO NAS COSTAS E ARRUME ELA!!! SABE O QUE PRECISA DE MIM?! VI PRECISA DE MIM!!!!!!! MAIS DO QUE NINGUÉM!!!! E EU PRECISO DELA!!!
– CAITLYN, ACALME-SE!
– NÃO! JÁ CHEGA DE TODA ESSA MERDA!
– Caitlyn...
Aplacada toda a ira convulsa que havia guardado todo aquele tempo em seu peito, explodindo e colocando toda aquela raiva para fora, Caitlyn só pôde voltar a pensar no que seria melhor para Vi naquele momento... Fizeram tudo... De fato, fizeram tudo... Ela voltou a desabar nos braços de Johan.
– Johan... Pelo amor dos deuses, diga que vai ficar tudo bem...
– O tempo há de nos mostrar minha querida... Shh... Calma... — ele a apertava contra seu ombro gordo, largo e macio, afagando os cabelos de Caitlyn com um carinho paterno preocupado enquanto ela enterrava seu rosto no ombro dele, chorando tudo o mais que não havia conseguido chorar... Ele não podia negar a ela aquilo... Caitlyn sempre aguentara tudo com uma força de vontade férrea, suportando todo o peso do mundo sem nunca deixar que percebessem, nem nunca jogar a responsabilidade nos ombros de ninguém... Mas agora ela precisava livrar-se daquele fardo... — Shh, menina, me escute: vamos voltar para Piltover... Vi está nas melhores mãos que podíamos deixá-la aqui, e só o que podemos fazer é esperá-la...
– Essa é a questão, Johan: deixá-la. Mesmo que seja aqui... Johan, pelos deuses, eu já imaginei ter perdido Vi uma vez...
– Vai ficar tudo bem, querida... Eu prometo, eu prometo a você; Vi é extremamente forte, mais do que qualquer um que já vimos... Lembra como ela escapou milagrosamente daquela mina em pedaços antes mesmo de você conhecê-la? Hein? ...Vamos lá, Caity; é sua hora de ser forte por ela agora... Nós precisamos ir...
Ela respirou fundo e olhou para trás, para os enormes e majestosos portões da Escola do Transcendentalismo de Ionia, lar daquele ser místico que poderia ter o poder de tirar Vi dos braços da Morte... Seus olhos ainda lacrimejavam, mas ela já não mais chorava. Olhava aqueles portões, sondando o mistério que eles guardavam... ...Não importava o que acontecesse lá dentro. Só queria que Vi voltasse por eles.
– ...Vamos.
~¨~
O frio do despontar da manhã começava a se estender sobre Piltover, enquanto o fogo sobre os prédios gradualmente transformava-se apenas em brasa e cinzas... Um silêncio pairava sobre toda a cidade. A polícia, os bombeiros, os paramédicos... Todos se mobilizavam para começar a tentar colocar as coisas novamente em ordem, embora fosse terrivelmente difícil... Os primeiros cidadãos, ainda tomados pelo medo, mas ousando enfrentá-lo, começavam a espreitar de suas janelas e até se desafiavam a dar os primeiros passos pelas ruas... Tudo era silêncio. Logo as ruas se enchiam de gente... De sobreviventes. Até Barthrax saía, escoltando protetoramente Elle e algumas pessoas que haviam conseguido salvar, para fora da delegacia. Caminhavam pelas ruínas do que fora a chamada Cidade do Progresso com o coração vazio... Nada. Era nisso que conseguiam pensar. Era isso que conseguiam sentir. Era isso que havia ali para eles. Nada. E o velho mineiro conhecia muito bem aquele sentimento... Ele não sabia o que havia acontecido a Vi, nem como se sucedera a batalha, nem que Caitlyn, Andrès e Johan estavam num avião no meio do mar, entre Ionia e Piltover, voltando com os corações pesados e uma incerteza fria... Mas ele sabia que a única forma de lidar com tudo aquilo... Era seguir em frente. O gigante respirou fundo e virou-se para Elle, e para o grupo que eles lideravam ali na rua...
– Temos que ajudá-los a recomeçar, menina... — falou para a cientista que olhava fixamente para ele, com um tom resignado, porém firme. O show deve continuar. Elle assentiu com a cabeça, com um olhar determinado. O homem virou-se, então, para o povo desolado. — Uma grande dor recai sobre o coração de todos hoje, meus irmãos e irmãs... Nossa dor é uma, mas nossa esperança para sobreviver deve ser também uma só... Vamos. Retirem as pedras do caminho. Ajudem os feridos. Ajudem no que puderem à brava Patrulha, aos médicos e aos bombeiros... Precisamos continuar.
O povo, ainda desorientado, em catarse pelo que acontecera, viu naquelas palavras um distante ponto... um pontinho de esperança... Como uma rocha para ancorar-se no meio da correnteza. E, seguindo quase que maquinalmente o que Barthrax pedira, começaram a limpar, silenciosamente, a cidade...
~¨~
Imediatamente foram recebidos no gigantesco prédio no fundo da cidade, algo parecido com a construção de um imenso e imponente forte das antigas eras de guerra de Valoran, projetado como uma espécie de muralha eficiente o bastante para proteger o que, na época, era apenas um vilarejo chamado Piltover. Hoje, com a extensão que a cidade-estado adquirira, já não passava muito de um prédio colossal utilizado como centro político.
Mesmo depois da noite apocalíptica de ontem, mesmo com as bombas e a fumaça, e com sua entrada majestosa agora suja e em partes despedaçada, o prédio que abrigava o Conselho de Piltover mantinha-se de pé, como um soldado destemido. Dentro da fortaleza, o caos e a agitação ainda predominavam: a tensão do ambiente era quase palpável; pessoas corriam para todos os lados com papéis, ou iam atender a chamados desesperados em aparelhos quase obsoletos de transmissão, aos quais tinham que recorrer agora para poderem entrar em contato com cidades-estado vizinhas; cientistas de todas as áreas reuniam-se com os governantes para discutirem que tipo de tecnologia poderia ser utilizada tanto na defesa da cidade e da população, quanto na reforma intensa pela qual Piltover passaria...
– Hoje, mais do que nunca, precisamos utilizar a energia dos cristais para continuar abastecendo a cidade... Água, luz, energia... Principalmente nos hospitais; Piltover precisará disso, imprescindivelmente.
– Mas precisamos pensar também nas linhas de defesa da cidade! A qualquer momento, Zaun pode decidir por um ataque e nos declarar guerra, e na situação em que estamos, Piltover simplesmente seria aniquilada...
– Ora, podemos... Podemos sempre tentar uma solução diplomática! O ataque não foi lançado por Piltover, foi lançado por um cidadão só...
– Um cidadão só que destruiu completamente os pontos mais vitais de uma cidade que já não se aguentava em suas pernas...
– Ainda assim... Se houver como não iniciarmos uma disputa com Zaun...
– Onde estão nossos ditos "aliados" nessas horas?!
Naquele momento, Caitlyn, Johan e Andrès entraram pela porta do imenso salão de reuniões do Conselho.
– Caitlyn! Céus; você aqui é um colírio em meio a toda essa confu...
– Me poupe, prefeito, antes que eu me esqueça que você é meu chefe e acabe com a sua cara... — ela falou numa frieza extremamente séria. Era muito bom que ninguém ali fizesse nada que a perturbasse... Seu rifle ainda estava ao alcance e, na presente situação, Caitlyn não tinha absolutamente nada a perder... Ela se juntou à mesa de discussão, ainda suja e com o corpo repleto de ferimentos da batalha, os quais ela ignorava devido à raiva que tomava seu coração. — Vocês pediram e eu tive que deixar a pessoa que mais amo no mundo sozinha numa cidade-estado além-mar, entre a vida e a morte... Agora é muito bom que me ouçam... — um calafrio percorreu a espinha de todos ali no salão, com a gélida expressão pesada de Caitlyn ao dizer aquilo. — Ao inferno com as formalidades do governo: movam toda a população sobrevivente para cá, para este prédio, e para os outros prédios-forte na extremidade mais distante de Zaun da cidade.
– Mas e as decisões de estad...
– CALA A BOCA! ...Agora não existe "decisão de estado" que não possa passar pelos ouvidos da população! Vocês ainda não entenderam?! Piltover está desolada! Só o que podemos fazer é salvar o que sobrou e, céus, contar com a ajuda de nossos aliados para segurar o máximo que pudermos as fronteiras da cidade... Aliás, exijam de Demacia seus exércitos. Está na hora de acertarmos alguns honorários pendentes...
De repente, as portas da sala de reunião são abertas com brutalidade com o pontapé de alguém lá fora. Dois oficiais da Patrulha traziam imediatamente para dentro, sem ao menos pedirem permissão, quase que arrastado...
– ...Jayce!... — Caitlyn exclamou baixo, porém surpresamente para si mesma. Ele estava em pedaços... Sentindo a respiração disparar e sua cabeça pegar fogo, Caitlyn colericamente tomou seu rifle em mãos com uma fúria cega, e andou a passos rápidos e duros na direção do homem, que mal levantar a cabeça e... — O QUE VOCÊ AINDA ESTÁ FAZENDO AQUI?!! ME DÊ UM BOM MOTIVO PARA EU NÃO PUXAR A MERDA DESSE GATILHO E MANDAR SEUS MIOLOS PRO ESPAÇO, SEU VERME ESCROTO DESPREZÍVEL...
– CAITLYN!
A xerife correu até o homem, ainda suspenso pelos braços pelos policiais, e enfiou o cano do rifle na boca dele, surtando de ódio, pronta para puxar o gatilho sem pensar se a ideia viesse em sua mente...
– VOCÊ VIU O QUE VOCÊ FEZ?!!! VOCÊ VIU O QUE FEZ A MIM, JAYCE; VOCÊ VIU O QUE FEZ A PILTOVER?!!!!
– CAITLYN, PELO AMOR DOS DEUSES, VOCÊ PERDEU COMPLETAMENTE O CONTROLE; NÃO FAÇA ISSO!!! LEMBRE-SE DE QUEM VOCÊ É, CAITLYN; PELO QUE VOCÊ LUTA! VOCÊ SEMPRE FOI O EXEMPLO MAIOR DE JUSTIÇA!
– SERIA EXTREMAMENTE JUSTO EU ACABAR COM A VIDA DESSE DESGRAÇADO AGORA!...
Ofegando sem conseguir conter sua raiva, seu peito subindo e descendo ritmadamente, repleto de ódio, Caitlyn olhou firmemente nos olhos daquele traidor desprezível... Era por causa dele, era por causa dele que ela abandonara sua sanidade ao sentir Vi morrendo em seus braços, jogada naquele chão imundo e duro, exposta àquela chuva fria como a Morte, que gelara-lhe até os ossos... Era culpa dele tudo aquilo estar acontecendo! MALDITO! ...Mas ela então pensou duas vezes no que Johan dissera. "Lembre-se de quem você é, Caitlyn." ...E ela era muito melhor do que uma vingança estúpida, como Jayce fizera... Respirando fundo, ela tirou o rifle da boca do homem, que tinha o rosto e o corpo todo queimado e com ferimentos pela queda do dirigível...
– Ele disse que sabe onde os cristais estão, xerife.
– E por que eu teria que confiar em você agora, Jayce?
Mesmo com a boca inchada, o ex-oficial falou.
– Purguê você nã tem mais... nada... bra... gonfiar... — ele levantava seu olhar, um olho completamente inchado e vermelho, para a xerife... Caitlyn... Como as coisas chegaram nesse ponto?
– Eu preferia engolir uma caixa de prego em brasa à confiar em você, Jayce, mesmo que fosse minha última opção...
– Nã... tem... desgulba... para o gue eu... fiz... Mas você tem gue... acreditar... Se quiser uma chance bra... Piltover...
Fechando os olhos e respirando fundo, com os dentes cerrados raivosamente, a xerife falou, ríspida, para as outras autoridades presentes na sala.
– Lidem com ele vocês mais tarde; eu não tenho cabeça para isso agora... — ela continuou respirando fundo e lentamente, apertando os olhos com os dedos... De repente, a imagem de Vi moribunda voltou à sua mente. Ela conteve, com esforço, o impulso de chorar. — Alguém, por favor, peça notícias de Ionia... — ela sussurrou, extremamente baixo, quase para si... Com uma voz sôfrega... Levemente trêmula...
– S-Se... Senhores! — um secretário do governo adentrou a sala, tremendo convulsamente, numa pilha de nervos. — Z-Zaun... Z-Z-Zaun... Zaun considerou o atentado como um ataque aberto de Piltover...
– Céus! — ouviram-se, em uníssono, os lamentos das autoridades ali presentes... Mais tempestade ainda estava por vir... Não.
Mesmo morrendo de medo do estado de real fúria da xerife, o prefeito voltou-se para ela... Era a única coisa mais próxima de uma salvação que eles tinham...
– ...Xerife... Caitlyn... O que vamos fazer? Removeremos o povo para os prédios-forte, mas eles não aguentarão mais um embate por muito tempo... Demacia e Noxus estão em guerra também; a cidade-estado mais próxima é Freljord, mataríamos todo o povo de frio tentando atravessar aquelas montanhas para pedir abrigo...
Sua cabeça girava enquanto os pulmões tentavam lembrar-se como era respirar; apoiada com as duas mãos sobre a mesa, os olhos vagando no infinito, tentava encontrar uma solução, quase impossível, para aquela maldição que recomeçava...
– ...Não há outra escolha... Mandem um grupo o quanto antes para reaver os cristais, se Jayce estiver falando a verdade... E os cientistas, liderados por Heimmerdinger e outros da Academia Yordle, tentem levantar, o mais rápido possível, uma barreira de energia sobre as fronteiras de Piltover... Concentraremos o povo aqui por quanto tempo conseguirmos... E entramos em contato com Freljord para saber o quanto podem nos ajudar... Receber as pessoas e abrigá-las... — fez uma pausa para respirar. Deuses, como o ar escapava-lhe dos pulmões! – ... E decretem que Piltover... entrou em estado de sítio...
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