Piltover's Finest
19 Capítulo extra: 17 - "Jinxed"
Notas iniciais

– Já foi feita a varredura do local?
– A área está limpa, senhor. Não há mais sobreviventes a serem resgatados.
– E quanto à desobstrução das vias daqui?
– Esta região não consta nos planos de engenharia dos yordles; a torre ficará um pouco mais longe. Ordens do Conselho. Basta reportarmos as atividades do dia à xerife agora e concluir o trabalho por estes lados.
O homem olhou para trás, por cima de seu ombro, para os destroços esparramados por todo o lado; ferro torcido e concreto destroçado lançados contra um céu escuro e cinza. Saudade. Tristeza. Desolação. Era só o que aquela brisa gelada e úmida podia lhes dizer.
– ...Vamos embora.
Os oficiais retiraram-se, levando consigo todo o grupo montado para resgate.
...A brisa ainda soprava, sozinha e lamuriante, por entre os corpos e as pedras.
...Silêncio...
– Hum, hu-hu, huumm... Huhum...
Uma figura, solitária, contrastando com toda a sofreguidão e abandono do lugar, começava a aproximar-se lentamente, em seu próprio ritmo compassado com a música inexistente que ela mesma murmurava e criava instantaneamente, ali, agora, naquele momento. Vinha saltitante e alheia a toda aquela destruição, como se nada ali em volta importasse. Prédios caídos. Vidas roubadas. Era normal. Ela prosseguia, indiferente, sua quase inocente marcha em meio aos escombros da cidade.
– Uuh, olha só!... Isso ia ficar tão maneiro! — ela parou em frente ao corpo inanimado de um soldado caído no chão, encostado em um muro em pedaços em frente ao que um dia fora uma loja de doces. Seu olhar era fixo num capacete verde camuflado de guerra, e ela imaginava o quanto aquilo não ia ficar daora na sua nova roupa que ela começara a planejar no momento em que encontrara aquele capacete. — Hummm... Acho que ele não vai mais precisar disso. Com licença!
Abaixando-se, sorridente, ela tomou o capacete da cabeça do oficial morto com felicidade indisfarçável, imediatamente vestiu-o, afundando a cabeça nele, e então olhou ansiosa seu reflexo no vidro um tanto quebrado e bastante sujo da antiga loja de doces.
– Espera, falta alguma coisa.
Mal bateu o olho em seu reflexo, já virou-se tirando o capacete e puxando da cintura uma lata de spray. Começou sua pequena arte personalizada com a tinta rosa.
– Fico feliz que tenha aprendido a ser educada e pedido "por favor" antes de tomar o capacete do senhor soldado...
– Todo mundo tem seus dias, Fishbones... — ela terminou com o spray. — AHÁ! — olhou sua obra por não mais de um instante e voltou a vestir a peça, virando-se novamente para o reflexo no vidro.
Haviam faixas com manchas de sangue enroladas em seu abdômen, em seus braços e por várias outras partes de seu corpo. Um curativo meio torto atravessava seu nariz na diagonal. O capacete que vestira ficava grande demais em sua cabeça, e tivera que puxá-lo um pouco para trás para que parasse quieto sem atrapalhá-la, e um X com um traço em baixo, rosa, enorme, adornava um dos lados, enquanto do outro lia-se, com a tinta rosa fresca ainda escorrendo: "Sgt Caos".
A imagem mostrava uma jovem mulher que parecia mais uma criança magrela e esticada na pré-adolescência. Sua pele era extremamente pálida, e não havia crescido tudo o que deveria crescer, nem desenvolvido tudo o que deveria desenvolver para sua idade. A impressão é que ficara congelada no tempo, tanto seu corpo quanto sua mente. Em essência, ainda não passava exatamente de uma criança...
...mas uma criança que sabia muito bem o que era matar.
– Haha!!! Ficou per-feito!!!!! Hahahaha... ...opa. O que é isso aqui?
Deixando de focar o olhar em sua imagem, ela percebeu, mais ou menos, o que havia ali dentro daquela loja que, em comparação ao resto da cidade, até que estava bem conservada... Leu a inscrição parcialmente apagada por uma estrela negra enorme de fuligem causada por uma bomba jogada ali.
– Do... ce... FISHBONES, NÓS ESTAMOS NUMA DOCERIA!!!!
Berrando aquilo desvairadamente numa animação total, a garota entrou correndo no recinto que tinha as prateleiras derrubadas e os produtos espalhados por todo o chão, pisoteados, vez ou outra cobertos por um corpo morto que se estendia flácido sobre o solo... O balcão estava revirado, com a caixa registradora aberta e a gaveta do dinheiro quebrada, já sem nenhuma nota dentro. Havia o pôster de um papagaio alegre com um pirulito em espiral todo colorido na parede à direita do balcão, e um porta-doces giratório bonito ainda bem conservado do outro lado da caixa registradora. Ela entrou marchando caricatamente, segurando seu lança-mísseis apoiado no ombro, parou em frente ao balcão e baixou a arma no chão, apoiando o cotovelo no móvel e jogando o peso do corpo, de lado, para cima dele, quase como se estivesse flertando com um balconista invisível. Com um sorriso engraçadamente charmoso, falou, "seduzente", para o nada.
– Você sabe do que eu gosto, docinho? Huhum... — ela ergueu uma sobrancelha, galante. — BALAS!!! HSUAHSUASHUASUAH!!!! — gritou aquilo para o balconista virando-se e apoiando as duas mãos sobre o balcão, arregalando os olhos e então rindo e dobrando-se sobre o próprio corpo como se tivesse contado a melhor piada de todos os tempos. — Hahaha... Ai, ai. Pow-Pow teria rido disso.
Ignorando o balconista invisível, deu a volta e foi procurar no estoque o que ainda havia de bom ali... Hum! E havia muita coisa boa ali! Encheu os bolsos do shorts curto e rasgado que sempre a acompanhava, colocou um pouco de doces também nos compartimentos vazios do cinto, colocou Fishbones novamente preso às suas costas e então encheu os braços com mais um monte disso e daquilo... Saindo com um pirulito verde de cereja que pintava a língua na boca, ela olhou novamente o pôster do papagaio.
– Hum... Nada mal.
Fez um esforço, com aquele monte de tralhas deliciosas que ocupavam suas mãos e braços, e esticou-se... mais um... pouquinho... e... AH! Conseguiu tirar o pôster da parede! Não conseguiria enrolá-lo para levar, mas quem se importa?! Deixou a doceria e prosseguiu seu passeio de fim de domingo pelas ruas destruídas de Piltover.
Enquanto caminhava, sozinha, porém tranquilamente alegre, saboreando um por um seus milhares de doces, um sopro gelado que carregava consigo um prelúdio da chuva que estava por vir rodopiou em volta da garota, brincando entre suas pernas, subindo-lhe pela espinha, sussurrando-lhe atrás do ouvido, sedutor, mas com frieza: "Prepare-se, criança... A tempestade está chegando..." Os fios azuis arrepiaram-se inteiros em sua nuca, e um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, fazendo-a estremecer de forma cômica. Só o que cobria sua pele, além do shorts, as botas e aquela coisa que parecia um biquíni, eram as faixas enroladas sobre seus ferimentos da luta com Vi... Hum... É, tava com cara de que o tempo ia mesmo ficar feio, era hora de buscar algo maior para se vestir.
Passando por entre as construções que ela mesma havia derrubado, rumo à fronteira da cidade — OLHA ALI, FISHBONES! Que bela mordida você deu naquele prédio... — , algo novamente chamou-lhe a atenção... Correu na direção em que havia visto outro soldado morto, quase tropeçando num pedaço enorme de concreto que apareceu no meio de seu caminho. É; por mais irônico que parecesse, o uniforme de guerra usado pela Patrulha estava sendo sua inspiração naquele dia... Deixou o que restava dos doces no chão ao lado, junto do pôster de papagaio, e avançou para tirar a jaqueta verde militar do soldado, chegando perto dele quando...
– uuuugh!
– AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!
TZZZIIIIIIIIUUUUUUUUIIIIIIIIIMMMMMMMZZZZZZ!!!!!!
Apavorou-se completamente com o gemido que o cadáver dera, — QUE QUE É ISSO?! — e imediatamente sacou seu taser e ZAP! Eletrocutou o soldado morto até começar a sentir o cheiro de carne defumada... ...Ela arfava... Só depois percebeu que havia pisado no estômago do cadáver, e o resto de ar que sobrara em seus pulmões ao morrer fora expelido na forma de um gemido póstumo... Um gemido que a assustou completamente.
– ...Idiota... — olhou torto para o corpo que tinha agora os cabelos levemente eriçados, maldizendo-o pelo susto que tomara, enquanto removia a jaqueta verde suja com insígnias e adornos dourados.
Vestiu a peça, que também ficava desproporcionalmente grande nela... Mas era pesada, e quente! Huhum! Seria ótima pra passar aquela noite fria e chuvosa que já estava chegando. Para diminuir a estranheza e fazer a roupa vestir bem, dobrou as longas e largas mangas até ficarem na altura do cotovelo, depois amarrou as pontas ao invés de abotoar a peça... Pronto. Muito ótimo! Bom demais! ...Era hora de buscar algum abrigo.
Passou por mais alguns lugares interessantes, recolhendo nos escombros uma coisa ou outra que, a seu ver, poderia ser útil, e então correu do céu escuro para a segurança de um teto qualquer em algum lugar que desse pra ficar, ou obrigar os outros a deixá-la ficar... Fora sempre assim, e estava acostumada com isso.
...Mas, agora, uma jogada sacana do destino tinha despertado sua memória...
...Ela sabia em que lugar queria ficar.
E, dessa vez, ninguém ia impedi-la de ficar lá.
Livrou-se das balas que restaram colocando-as nos canos de Pow-Pow, como se fossem projéteis. Haha, aquilo ia ser engraçado! Aproximou-se muito cautelosamente da entrada daquele velho prédio, segurando a respiração para não alertar ninguém de sua presença... E...
– HAAAAAAAA!!! QUEM QUER BALA?!!
Ela saltou para dentro da porta, colocando Pow-Pow em posição, prontinha pra atirar uma rajada de doces mortal que faria um estrago colorido e doce lindo!! ...Mas não tinha ninguém ali. Fechou a cara, brava. Droga, surpresa estragada. Olhou então as escadas e lembrou-se do segundo andar, seguindo correndo acima, para ele.
– YEAAAAH, SURPRESA!!!!
Mas nada havia ali também além das pútridas cortinas decrépitas esvoaçando com o vento gelado que entrava pelas duas grandes janelas, trazendo da cidade distante o choro agonizante da chuva que caía num fim de tarde cinza, sozinho e vazio... Dessa vez, sua expressão não foi de raiva, mas de certa... Confusão. Algum desapontamento... É, ela contava com a possibilidade dela estar lá, já que não fora mais vista em Piltover faz uns dias... Aquele era o lugar pra onde ela acabava sempre indo... Atirou a rajada de doces e projéteis do mesmo jeito, com os lábios apertados fortemente, como se extravasasse nos tiros sua raiva.
– ...VIDIOTA!
Ela nunca cumpria com as suas promessas. Nunca. Nem nunca tinha um pingo de constância; vai saber onde aquela Mãozuda trouxa ia estar enfiada e o que estaria fazendo agora?!
– Humpf... Depois me chamam de louca... VOCÊS DEVIAM CONHECER A MINHA IRMÃ!
Gritou para fora das duas enormes janelas e então chutou um negócio que parecia uma cômoda, armariozinho, criado-mudo, sei lá que que era aquela coisa, mas estava tão velha que prontamente despedaçou-se com o pontapé raivoso indignado que a jovem mulher deu...
Cretina...
Engolindo o ódio que sentia, recolheu alguns dos doces disparados do chão e voltou a descer as escadas, sentando-se num canto qualquer com as tralhas que havia trazido consigo dentro de uma bolsa roubada. Deixou as armas no chão, em volta dela, como uma menina deixaria dispostas as bonecas na hora de acompanharem-na para o chá... Tirou a jaqueta que vestia e virou-a com o lado das costas voltado para cima. Tirou o pôster colorido, de cores bem vivas, do papagaio com o pirulito de dentro da bolsa e desenrolou-o, cortando um tanto desleixadamente, com as próprias mãos, o contorno em volta da ave. Depois sacou um tubo de cola, que derramou abundantemente sobre as costas da jaqueta, e apertou a figura do papagaio em cima daquela poça grudenta, fazendo um barulho molhado estranho e cômico ao personalizar mais uma peça de seu novo modelo. Pronto. Só esperar secar. Tirou o capacete e deixou-o ao seu lado, abrindo uma barra de chocolate com caramelo e muffins e comendo-os silenciosamente, encostada na parede de pedra gelada de um dos cantos vazios daquele velho lugar que um dia ela chamou, sorridente, de "casa".
Era estranho olhar em volta... Tudo ali havia mudado, mas absolutamente nada estava realmente diferente. As mesmas pedras... Os mesmos pilares... Os mesmos objetos naqueles determinados lugares, só mais velhos e desgastados... Sentiu um calafrio. Não sabia se era por conta da chuva que havia começado e deixado a temperatura notavelmente mais baixa e com um sopro de vento gelado... Mas olhar aquele espaço escuro e vazio e projetar em sua visão a imagem de crianças correndo por aquele lugar, como espectros, mesmo que conhecesse os rostos deles, de alguma forma... era assombrador.
Jogou longe o plastiquinho da embalagem do chocolate, em desdém. Pff, e o que que umas sombras idiotas podiam fazer para assustá-la? Ela já tinha passado por muito mais e muito pior na vida, muito mais nova... Realmente, nada no mundo a assustava muito.
Mas aquele momento em que Vi apertou-a com as enormes luvas...
Não... Não foi medo que ela sentiu... Foi... Foi... raiva; aquilo ali foi... ódio!
...Mas era mentira. Ódio ela talvez sentira ao levantar-se do chão; a réplica perfeita daquela cena de anos e anos atrás... Vi se lembrava daquilo, não lembrava? Devia lembrar muito bem, aquela cachorra... Ela tinha feito uma cara idiota de espanto ao ver Jinx levantar-se, mas aposto como aquilo era teatro... "Eu te odeio, Vi... EU TE ODEIO!" Sem expressar nada, só mastigando com a cabeça jogada para trás e as costas apoiadas na parede, algumas coisas voltavam, calmamente, à sua memória.
Ódio ela talvez sentira ao levantar-se do chão... Mas, no momento em que as mãos gigantes de Vi a envolviam e seu olhar titânico desvairado açoitava-lhe com raiva, só o que ela pôde pensar ao olhar nos olhos daquele ser que um dia fora a pessoa que ela mais amara foi...
... "Como chegamos a isso, Vi?"
O último muffin acabara. A cola na jaqueta já devia estar semisseca. Atirou o outro plastiquinho de embalagem longe, com os olhos semicerrados e a boca apertada... Não precisava dela. Não precisava daquilo. Não precisava de nada daquilo! E isso ela aprendera muito bem quando fora deixada sozinha, jogada na rua como um saco de bosta por sua "melhor amiga". Puxou o capacete para perto, recolhendo as coisas espalhadas novamente para dentro da bolsa e juntando os dois para usar como travesseiro. Pegou a jaqueta, virou-se de cara para a parede, de costas para o resto daquele mundo de merda, cobriu-se e fechou os olhos para dormir...
...Muito obrigada por não ter feito absolutamente nada...
... e vá se fo***, Vi!
~¨~
– Moça, você pode me ajudar? Me dá um trocado! Eu não tenho mãe, eu to com fome...
Ela grudava na primeira pessoa que visse e que tivesse cara de mais inocente, bobo, e ficava lá, com sua carinha tão triste, pequena, magrinha, a voz infantil carregada de um tom de choro, pidoncha... Enquanto ela, com suas trancinhas azuis, tão indefesa, prendia a atenção do indivíduo tocando-lhe o coração com sua lábia, a outra menina, com seus gritantes cabelos rosa-choque enormes e desgrenhados, sorrateiramente metia a mão nos bolsos e bolsas dos trouxas que caíam naquela conversinha, tomando para si tudo que houvesse ali e tivesse algum valor. Depois, quando o alvo estivesse quase desconfiando da armadilha, a menina de cabelo rosa fugia correndo como o vento e ficava à espreita, esperando a das trancinhas azuis terminar seu teatro e também se mandar dali. E então elas corriam, rindo daquelas "travessuras", de volta para o lugar na cidade marcado como "abrigo".
– Hahahahahahaha! Corre, Jinx, corre! — o nome dela não era Jinx. Ao menos não naquela época... Mas a Mãozuda não ia se lembrar disso... Então que fosse chamada assim em suas memórias. — Quem chegar por último dorme no sereno!
– Espera, Vi! — ela corria, corria o máximo que suas perninhas e seu fôlego de criança franzina lhe permitiam, mas parecia que nunca era o suficiente para alcançar aquela grandona, que sempre era a melhor em tudo. — Vi, me espera!
A dos cabelos rosa não diminuía o ritmo, mas tentava manter-se, na medida do possível, sempre à vista da pequena que a seguia como um chiclete grudado no cabelo. Não queria que ela se perdesse, ainda mais por aqueles lados malditos, a parte do mundo para a qual os deuses pareciam ter decidido virar a cara, e onde ainda deixaram um monte de crianças sem pais, sem parentes, sem rumo, sem ninguém no mundo além de umas às outras. Vi não queria deixá-la sozinha naquele mundo, como ela mesma havia se visto sozinha um dia... Mas já estava na hora de Jinx aprender a se virar sozinha. Chegaria um dia em que Vi não estaria ao seu lado. O que aquela menininha magrela ia fazer? Como iria se virar?
Ela não queria ser a culpada disso. Portanto, ela corria, sem trégua, deixando a menina para trás para que se virasse sozinha... Porém com o olhar atento a qualquer coisa que lhe acontecesse.
Chegando primeiro naquele casarão abandonado de dois andares e ainda rindo, Vi bateu a porta de madeira bem quando Jinx se aproximava de entrar.
– Hahahaha!
– Vi, abre a porta! — ela esmurrava, com tudo o que podia, aquele pedaço enorme de madeira, quase desesperada. — VI, ABRE A PORTA PRA MIM, DEIXA DE SER MALVADA!
– Qual é a senha?! — ela falava, com um sorriso de orelha a orelha, jogando o peso do corpo contra a porta que era sacudida pela outra lá fora, e encostava o rosto na peça de madeira, como que para ouvir melhor o que a baixinha gritava.
– VIIIIIII!!!!
– Vi, deixa de ser idiota. — um menino, da mesma idade que ela, passou vendo aquilo e, sem querer saber do que se tratava, lançou um olhar torto para ela e falou aquilo. A garota só mostrou-lhe o dedo, displicente, e então voltou-se novamente para a porta que segurava com o corpo.
– Haha! Tá bom, tá bom, eu deixo você entrar.
Saindo de cima da porta, a mesma explodiu para o lado com o empurrão que Jinx dera para abri-la, e a menininha entrou a passos duros, com raiva, sem olhar para a cara da outra. Vi seguiu-a, ainda com um sorriso.
– Ei, Jinx... — tentou colocar a mão no ombro dela, mas a menina virou, colérica, desferindo-lhe uma série de tapas. — Ei, ei, EI; QUE É ISSO?! — mas Vi era maior que ela. E também mais acostumada às coisas da rua. E à vida na rua. E às brigas de rua... De forma que, segurando os pulsos da menina, imobilizou-a facilmente. Mas ela não aproveitou a vantagem para vencer a briga. Ao invés disso, simplesmente baixou os braços da menina e abraçou-a forte, ainda rindo.
– Você é muito chata. — a outra choramingou.
– Me desculpa. Você me desculpa? — ela deu um beijinho maroto no rosto da menina. Era como uma irmã para ela. Sua irmãzinha.
– Só mais essa vez.
– Ok. Mas você tem que crescer, Jinx!
A menina não respondeu nada, apenas virou e retribuiu o abraço da maior, estendendo os bracinhos e lançando-os em volta do pescoço dela, enquanto recostava a cabeça para descansar em seu ombro. Vi ergueu a irmã no colo e caminhou até um canto, o canto no qual hoje Jinx tentava esquecer dessas coisas, forçando-se a dormir enquanto a tempestade castigava o mundo lá fora.
– Quanto a gente conseguiu hoje?
– Vamos contar... — ela colocou a menina no chão e as duas sentaram-se contra a parede, como se quisessem fazer segredo daquilo. Vi tirou tudo o que havia pego dos bolsos de sua calça velha, larga e toda surrada, e começou a contar. Jinx olhava ansiosa para o rosto da outra, contabilizando o valor do saque entre objetos e moedas... Mas a expressão de Vi não estava lá muito animada. — ...razoável. Não foi tão bom assim, mas também não dá pra reclamar.
– Essa região já tá marcada, né, Vi?
– É... — ela respirou fundo, pensativa. Tinha gostado dali. Céus, por mais que as coisas estivessem se tornando cada dia mais difíceis, ela tinha gostado dali. Não queria ter que se mudar mais uma vez e recomeçar tudo de novo. — As pessoas já estão ficando espertas com a gente na rua... O dinheiro tá faltando.
– Dá pra comprar um doce?
– Se a gente vender essas tralhas aqui junto, acho que dá pra comprar comida pra mais uns dias... Mas sem doces, Jinx.
A garotinha baixou a cabeça. Mais uma vez... Mas então ela pensou nos outros, em Vi, no esforço que eles faziam para conseguir sempre mais um dinheirinho para a comida... Não era só aquele truque do teatro que elas tinham que executar. Inúmeras vezes tinha visto a irmã conversando escondida com os outros mais velhos. Vi saía com eles para fazer roubos maiores, mais arriscados, para poderem garantir a sobrevivência de todos ali. Tinha muita criança pequena que tinha chegado a eles ultimamente, e elas ainda não sabiam se virar na rua. Ela mesma, Jinx, não sabia se virar sozinha direito. Mas ela tinha Vi. Que cuidava dela, que a protegia, embora fosse bem sacana às vezes; a menina então conseguia aproveitar um pouco de sua infância sem sentir-se deprimida pela falta do carinho e proteção de uma família. Ela tinha o carinho e proteção de uma família. Vi estava lá.
Jinx queria ajudar também. Enquanto os maiores estavam longe, executando planos mais complicados, ela saía, sozinha mesmo, para pedir dinheiro. Sempre voltava com um trocadinho ou outro a mais, e sentia-se profundamente orgulhosa desses pequenos feitos...
Vi reparou que a menina tinha baixado a cabeça, decepcionada, e aquilo pegou-a de surpresa, entristecendo-a... Mas então Jinx, avaliando aquelas coisas, levantou a cabeça de novo e mirou seu olhar para ela, sorrindo.
– Tudo bem. A gente fez o melhor.
O olhar incauto de Vi fora pego novamente de surpresa com aquela reação e aquelas palavras. Ela puxou um sorriso de canto de boca. "Obrigada."
– E aí, quanto vocês conseguiram? — o rapazinho que havia repreendido Vi anteriormente, meio que um dos cabeças do grupo de crianças ladras junto a ela e os outros mais velhos, veio recolher o dinheiro para, mais tarde, juntarem tudo que fora arrecadado no dia e irem comprar a comida. Imediatamente, Jinx vira Vi entregar ao menino as moedas...
– Vinte e três.
...mas ela havia segurado uma, disfarçadamente, na palma de sua mão. Não entregou-a a ele, falara um valor mais baixo que o real e desviara aquela moeda do montante. Jinx observava aquilo com uma carinha quase incrédula. "O que ela tá fazendo?!" Quando o menino saiu, Vi fez sinal para que ela ficasse quieta... Ela tinha entendido. Aquilo era para elas. Um pequeno mimo, uma "regalia extra". Errado, de acordo com as regras estabelecidas pelo grupo... mas, afinal, o que não era errado naquela vida?
– Amanhã a gente compra um chocolate e divide. — ela sussurrou, guardando a moeda no bolso do vestidinho da menina.
~¨~
Como um tigre astuto e faminto, ela se camuflava, escondida debaixo de uma mesa coberta por um pedaço de pano meio velho e desgastado, deixando apenas os atentos olhos para fora... A presa estava à sua espreita e caminhava quase que despreocupadamente pelo espaço à frente — parecia alerta a algo; será que estava suspeitando? — sem sequer imaginar que o perigo residia ali... Bem próximo... Olhando para os lados, cautelosa, a menina de cabelo rosa atravessou em direção à porta, furtiva, e...
– RRRWWWWWAAAAAWWWWWWRRRRHHHHH!!!!!
Uma besta feroz azul surgida do nada pula mortalmente sobre suas costas, agarrando-lhe pelo pescoço de surpresa e quase fazendo-a ir ao chão! Ah não, ela fora pega! Estava presa!
– Aagh... J..inx! Você tá me... sufocan...
– RRRRRWWWWRRRGGHHH, EU VOU ACABAR COM VOCÊ, SEU VERME! EU SOU A ASSASSINA MAIS LETAL DE PILTOVER!!! Hahahaha!
Afastando os braços da menina que enlaçavam seu pescoço ao mesmo tempo com ímpeto e carinho, Vi girou o corpo e a fez cair à sua frente, segurando-a pelos pulsos enquanto o animalzinho feroz lutava ensandecidamente por sua liberdade e ria...
– Haha, tá bom, "assassina mais letal". Você me pegou.
– Peguei mesmo, você nem reparou que eu estava ali... Oito a cinco pra mim. — Vi franziu uma das sobrancelhas. Aquele não era bem o placar do qual ela se lembrava... Mas ok. Soltou Jinx e continuou seguindo seu caminho rumo à porta. — Ei, Vi! — a menina correu em direção dela. — Ei, onde é que você vai?
– Eu, ahn... Não posso falar.
– Ah não, Vi, para! Onde você vai, me fala!
– Nada; em lugar nenhum! E vou no mercado! Argh!
A garota parecia impaciente; havia algo estranho ali que ela estava escondendo e não queria contar... Por que não contar? Elas sempre compartilhavam os segredos, só os guardavam dos outros... Quando a porta velha de madeira bateu com força, indicando que Vi tinha ido embora, Jinx esperou por alguns segundos... e então saiu também, seguindo sua presa pelo caminho novamente como se fosse um felino esguio.
Primeiro ela de fato seguiu em direção ao mercado. Será que sabia que Jinx ia segui-la? Enfim, ela simplesmente andava a passos rápidos, sem hesitar ou olhar para trás, o que facilitava o trabalho de sua perseguidora. Ao chegar no pátio aberto e cheio de movimento, a garota parou e pareceu finalmente titubear... Hum, estranho ver a Vi meio perdida assim, como se estivesse respirando fundo pra tomar coragem de fazer algo... Haha! A menina via a outra abrir e fechar as mãos impacientemente, olhando os rostos dos transeuntes que passavam com rapidez quase vertiginosa enquanto ofegava de leve. Tinha uma expressão vacilante... Até que ela partiu para a ação e... "Espera... O que ela tá fazen...". Jinx assistiu Vi precipitar-se na frente dos cidadãos com a mão em concha, tentando conseguir a atenção deles, de pelo menos um deles, de qualquer um deles, enquanto tentava dizer algo que ninguém ouvia.
– ...Senhor, você podia me... ...Moço, me dá um dinhei... ...Senhora! Senhora, por fav...
Uns simplesmente passavam reto, ignorando completamente sua existência mesmo estando ali, atirada à sua frente. Outros lançavam-lhe um olhar de desdém, às vezes até de raiva, e evitavam-na maldizendo aqueles marginais baderneiros que mereciam uma surra... A cada recusa fria, parecia que seu peito oscilava ainda mais, tornando-a ofegante de tal forma que parecia que ia ter um ataque cardíaco! No início, Jinx ria; como Vi era desajeitada e sem sorte para pedir dinheiro, haha! ...Mas o tempo passava e aquele seu nervosismo inicial transformava-se aos poucos numa máscara pura de tristeza e desamparo, e ainda nem assim os adultos, insensíveis, se compadeciam... Suando e sem nem uma moeda nas mãos, Vi fez uma pausa e caminhou, cabisbaixa, até a fonte no centro da praça. Apoiou-se na beirada e mirou o rosto para dentro, observando seu reflexo na água. Jinx acompanhava toda aquela movimentação, mas era como se também conseguisse ler sua mente ao longe... "Quem é você? Qual é o seu problema? O que você tem de tão odioso assim que ninguém te quer; nem seus pais te quiseram?..." Nesse momento, a garotinha de tranças azuis sentiu seu coração apertar. Ela nunca tinha pensado que Vi talvez fosse triste. Brava, com certeza. Mas triste?...
Tencionou sair de seu esconderijo e ir correndo até ela, como quase sempre fazia, e pular no seu colo, e falar pra Vi que "eu te amo", e gastar aquela moeda que ela tinha roubado pra comprar um chocolate, e dividirem o chocolate, e ela ficar feliz... Porém, antes que pudesse fazer alguma coisa, viu Vi levantar-se novamente, com aquele seu ar de determinação total, e ir tentar mais uma vez aquele esforço inválido. Ela se aproximou de uma barraca de frutas, onde um casal jovem se encontrava a fazer compras, e aproximou-se com um sorriso enorme. "Ela sempre quis ter pais, huhum!". Tentou falar com eles, e a mulher virou-se para ela e parecia finalmente ouvi-la com atenção, com o que o rapaz também passou a escutá-la! Era possível ver de longe que os olhos de Vi brilhavam, muito embora ela apenas estivesse pedindo dinheiro e sonhando internamente com coisas maravilhosas enquanto a mulher lhe perguntava se ela não estudava ou se tinha um lugar para morar. O rapaz ia abaixar-se para falar na altura dela, Jinx sabia, ele ia!... Mas eis que surge o dono da barraca, furioso, gritando para que aquela ladrazinha se afastasse dos produtos e dos clientes dele.
De súbito, o semblante extremamente raro de Vi sonhando foi atirado ao chão, enquanto seu rosto quase infantil e sujo se franzia numa careta teimosa de raiva. Ela não fugiu. Ao contrário, enfrentou o homem que lhe gritava, vermelho de raiva, desmentindo que estivesse ali — ao menos naquele momento — para roubar qualquer coisa, e que era melhor ele voltar a cuidar da vida escrota dele. O homem prontamente tirou do lado da tenda uma vassoura e precipitou-se a acertar Vi, que ligeiramente se esgueirou e chutou a bunda do velho, ficando parada em frente a ele, enfrentando-o com um riso de escárnio, mais uma vez. Ele a ameaçou novamente, e dessa vez a garota, apelando da única forma que sabia fazer, chutou com vontade o pedaço de madeira que segurava o balcão de frutas, fazendo com que todos os produtos rolassem soltos e caóticos, espalhados pelo chão. Colérico, o vendedor tornou a correr atrás dela com a vassoura para arrebentá-la, mas agora uma quantidade considerável de policiais se assomara à perseguição da baderneira para entender o que acontecia naquela confusão insana no mercado.
...a polícia!
Mais até que os próprios criminosos sem caráter, mal-intencionados daqueles lados perdidos de Piltover, o que as crianças temiam era o verdadeiro castigo que viam na forma da força da lei... Com aquilo não dava para brincar. Na verdade, com eles por perto, dificilmente dava para viver. Foram atirados à vida sem nenhum preparo; aquelas crianças dependiam do roubo e da mendicância, não sabiam outra forma de viver... Mas os policiais... Eles não entendiam. Apenas brandiam seus chicotes insensíveis nas costas deles.
De imediato, Vi largou aquela ilusão momentânea e idiota que projetara por alguns segundos e pôs-se a correr o mais rápido que pôde para longe dali, para uma região que sabia que os oficiais definitivamente não a seguiriam... Sem saber o que fazer e buscando continuar perto de Vi, em seu encalço, Jinx deixou o esconderijo onde estivera para segui-la.
Observou a outra esgueirar-se por caminhos tortuosos, atravessando ruas perigosas, becos hostis... Ao passar em alguns, um calafrio assombroso percorria a espinha de Jinx. Não havia o calor nem a luz do Sol, os rostos não eram gentis nem carismáticos, só havia aquele mau cheiro da sujeira acumulada nas vielas estreitas e o medo das portas dos bares abertas, com o álcool e a desgraça exalando de lá de dentro... "Por que a Vi viria pra um lugar assim?" À frente, a garota de cabelos rosa enormes e desgrenhados seguia com um misto de fúria e medo, e Jinx percebera, pela primeira vez, como ela parecia mais velha daquele jeito... Um mundo de adultos. Vi já vivia há tempos num mundo de adultos. Ela não diminuía o passo, de forma alguma, mas Jinx, por sua vez, começava a desacelerar como se seus músculos fossem sendo paralisados aos poucos pelo medo que sentia apoderar-se de si... Aquilo... Aquilo era um lugar horrível. Num beco mais escuro, ela finalmente estacou, não conseguindo avançar mais dentro daquele pesadelo... mas ela via Vi perder-se ao longe... "...Não..."
Apertado as mãozinhas e os olhos com força, num impulso de coragem, ela correu beco a dentro, sem parar, sem olhar para os lados, sem cogitar voltar atrás. Chegando do outro lado, pôde ver novamente Vi, mas então imediatamente escondeu-se de novo quase com um susto ao ver que ela conversava com alguém. Um homem com um rosto que sorria, mas seu sorriso dava medo e gelava a barriga de Jinx. Tinha os cabelos longos, usava uma jaqueta preta pesada e levava na boca um cigarro, na mão uma garrafa de bebida pela metade. ...ele parecia um monstro. Um monstro com cara de gente. ...e Vi, pela primeira vez, parecia sentir-se com medo...
– Que é que você quer, menina? Veio trazer o dinheiro?
– Não, eu...
– Como assim, "não"?
– Está difícil de arranjar, Elijah; a gente mal tem pra comprar comida pra gente mesmo!
– Não foi o que você me disse quando veio pedir emprestado, sua putinha! Você tinha dito que dava pra arranjar de volta a grana em menos de um mês, agora quer o que? HEIN?! QUE EU CANTE UMA CANÇÃO DE NINAR PRA VOCÊ?
– A GENTE TAVA PRECISANDO PRA PODER SOBREVIVER, VOCÊ PODIA ESTENDER UM POUCO MAIS O PRAZO!
– NÃO GRITA COMIGO, SUA BOSTA! — a mão do homem pesou violentamente contra o rosto da criança, fazendo-a até virar-se e perder o equilíbrio do corpo. — QUEM VOCÊ ACHA QUE É PRA GRITAR QUALQUER COISA AQUI, SUA VADIA?!
O olhar de ódio de Vi cortou o ar com mais impetuosidade que a mais afiada das lâminas, e cravava-o no rosto maldito daquele idiota... Mas conseguiu controlar o tom de sua voz para que as coisas não piorassem.
– ...Tem gente demais no abrigo, a região já tá marcada demais, o dinheiro dos roubos mal tá dando pra comer, Elijah... Por favor, a gente tava precisando do dinheiro; eu juro que eu vou dar um jeito e te devolver, eu só preciso de um pouco mais de tempo...
O homem aproximou-se da garota caída com uma estranha calma, como se fosse a figura caricata de um pai piedoso... Abaixou-se na altura em que ela se encontrava no chão, abriu os braços e envolveu-a, falando num tom sensivelmente falso de caridade...
– Olha, Vi... O mundo não é um lugar bonito e legal onde todo mundo tem uma chance de se redimir caso faça alguma merda... Você vê; eu tentei ser legal com você, mas o que você fez? Quebrou o trato. Não devolveu o dinheiro.
– Eu fiz todos os trabalhos que você mandou fazer, Elijah...
– Nada mais que a sua obrigação, menina. Você é que veio me procurar, não eu. Quem impõe os termos do acordo, então, não é você, imbecilzinha. Nós fizemos um trato. Agora, se você não é capaz de cumprir...
– Eu vou cumprir, Elijah.– era possível sentir o ódio que flamejava em sua voz ao ser obrigada a implorar por um novo prazo. O homem silenciou e virou o rosto, numa expressão que Jinx, escondida, pôde identificar ser de contida ira. Foi ofegar de medo, mas então tapou a boca a tempo de não emitir nenhum som. O homem retornou para Vi.
– Vi, você está com fome? Vamos entrar e eu te dou algo, e nós aproveitamos e discutimos esse seu tal "prazo" pra entrega do dinheiro...
O homem passou o braço pelo entorno dos ombros de Vi, envolvendo-a e levantando e já caminhando para dentro daquela oblíqua porta aberta. Não era um convite pois não havia como escolher não ir, e ambas, Vi e Jinx, sabiam bem disso. O braço de Elijah era firme sobre ela e não a conduzia, praticamente a empurrava para dentro... Ela poderia tentar uma fuga miraculosa... Verdadeiramente miraculosa naquelas condições... Mas nunca aconteciam milagres na vida daquelas crianças... Eles entraram, e a última coisa que Jinx pôde ver fora aquela apreensão nos olhos de Vi... Ela puxou suas trancinhas azuis; estava sozinha naquele lugar imundo agora; sentia uma coisa estranha, ruim; queria Vi; queria chorar!...
Ela correu desvairadamente de volta pelo caminho em que viera, retornando ao abrigo com os olhos vermelhos e inchados, cobertos de água, e atirou-se direto em seu canto, com o rosto escondido, soluçando e chorando até cair no sono...
~¨~
As crianças menores corriam por todos os lados, gritando, rindo, enquanto se deliciavam naquele primeiro andar caótico da construção, brincando de esconde-esconde. Jinx era muito boa nessas brincadeiras de fugir e procurar, gostava delas. Quando uma das crianças escondeu o rosto contra a parede, começando a contar, ela imediatamente correu para procurar um lugar para esconder-se... O segredo era buscar um lugar inusitado, onde o pegador não imaginasse procurá-la, mas de onde ela tivesse visão do campo e fácil acesso ao ponto de salvamento. Sem pensar duas vezes, rindo, ela voou para o segundo andar, onde ninguém ainda tinha se escondido. Perfeito! Ao chegar lá em cima, entretanto, viu que o andar não estava vazio. Vi havia voltado!!! Deitava-se num canto, com o rosto virado para a parede, encolhida, quieta... "Ué, por que ela não avisou que estava de volta? Por que não está lá em baixo com a gente?" A menininha, então, planejando fazer uma surpresa brincalhona, morrendo de saudade mesmo tendo passado só uma noite longe, correu até a garota de juba de leão rosa e pulou em cima dela, só faltando gritar "MONTINHOOO!".
– ARGH!!!
– Viiii! Quer brincar com a gente?
– Sai, Jinx.
A menina sentiu-se mal por um instante, estranhando aquele tom áspero e rude de Vi... Novamente, aquela sensação ruim que experimentara no beco se manifestava, e via-se profundamente preocupada por Vi estar daquele jeito, isolada e falando daquela maneira hostil. Levantou-se.
– Vi, aconteceu alguma coisa? — a outra não respondeu nada. Sequer moveu-se. — Vi...
– SAI, JINX; JÁ FALEI PRA CAIR FORA!! — ela se virou, gritando com a menina com olhos furiosos, uma expressão raivosa. Contudo, quando ela virou-se, ficou muito claro o motivo de seu isolamento e indignação. Jinx viu que ela tinha os lábios todos cortados, tanto no meio quanto nos cantos. Havia um grande roxo ali. E um de seus olhos... estava inchado, realmente machucado. Havia ainda um corte no couro de sua cabeça, uma enorme falha na sua cabeleira que trazia sangue coagulado, numa parte onde deveria ter cabelo... Porém o mais marcante... o mais chocante de tudo era o sangue que escorria de marcas profundas talhadas em sua bochechas... "VI". — O QUE FOI?! GOSTOU DO MEU ROSTO?!! — a grandona levantou-se como um monstro em frenesi e empurrou a menor para longe, com raiva, fazendo-a cair dolorosamente no chão. Mas Jinx ainda olhava para o rosto dela, estupefata.
– Nossa, Vi...
– VAI EMBORAAA!!! — ela berrou, aplacando o resto de sua fúria e dando espaço para um completo vazio dentro de si... Voltou então a sentar-se, com as pernas encolhidas, os braços cruzados sobre os joelhos e o rosto afundado neles. Sentia o mais puro ódio e sentia a mais profunda vergonha. Só queria desaparecer.
Mas Jinx aproximou-se.
A criança ficou em silêncio, observando a outra e ouvindo seus soluços baixos e abafados, de quem deseja esconder que chora. Ela queria abraçá-la, como a outra fazia quando as coisas pareciam que iam muito mal, mas Vi não queria ninguém por perto. A menina ficou então ali, vacilante, ajoelhada em frente à sua melhor amiga apenas a observá-la, esperando por um sinal, qualquer um, para saber o que fazer.
– ...EU FALEI PRA VOCÊ IR!
Jogando, com ódio, todo o peso de seu corpo contra a menina, num poderoso e insensível tackle, Vi empurrou-a com tal violência que o corpo pequeno e esquálido praticamente voou. Entretanto, a criança estava perto demais da escada, e foi tarde demais para que a garota toda machucada se desse conta da fatalidade daquele ato e refreasse seu impulso bestial. Jinx rolou dolorosamente para o andar de baixo, batendo todo o corpo contra as quinas dos degraus e machucando-se intensamente pelo caminho.
– AAAH!
Ao atingir o chão no pavimento de baixo, seu corpo franzino doía, coberto de hematomas e com alguns singelos sangramentos... Em meio à dor, ela mirou para cima, para o topo da escada, e deparou-se com o corpo surrado e brutalmente agredido de Vi de pé, observando-a com olhos arregalados e surpresos, repletos de culpa.
"...O QUE... O QUE EU FIZ?!"
"...Por que, Vi?"
As outras crianças aproximaram-se, perplexas, comentando com espanto e medo o que havia acontecido enquanto não ousavam se aproximar de Jinx para não feri-la. O outro garoto mais velho chegou, apressado e preocupado, e então olhou para cima. Imediatamente, ao perceber o olhar dele e de todos virando-se para ela com reprova, ódio, medo, repulsa, confusão, Vi correu para longe do topo da escada, onde podiam vê-la, de volta para seu canto isolado para esconder-se. ...inferno, inferno, INFERNO; ELA DEVIA TER MORRIDO, ELIJAH DEVERIA TER FEITO POR MATÁ-LA DE UMA VEZ!!!...
O garoto removeu, com cuidado, Jinx do lugar. As feridas foram tratadas; não eram lá grande coisa, mas a magnitude da queda havia assustado terrivelmente a todos.
– ...O que ela fez, Jinx? — a garotinha não respondeu nada. Evitou olhá-lo; ficou olhando para seu braço enquanto o garoto enrolava a atadura. — Ela te empurrou? — ela continuou no silêncio em que estava. — Jinx, ela te empurrou escada a baixo, foi isso? — não tinha como ficar evitando... Ela só olhou para ele, com um olhar apreensivo e confuso. Não ia fazer absolutamente nada que pudesse ferrar ainda mais Vi... Mas o menino pareceu ler de outra forma seu olhar. — E por que ela fez isso?
– Ela não fez nada...
– Então você só caiu, sozinha, de boba?! — ele falava, irônico, visivelmente exaltado com aquela cumplicidade exclusiva que, em sua mente, poderia vir a ser um perigo para o grupo como um todo.
– É, eu caí. — ela respondeu categórica, fechando a cara. Não queria mais perguntas. O rapaz observou-a, perplexo...
– ...Olha, se você quer ficar encobrindo o que a Vi faz de errado, tudo bem, o problema é seu. Mas é bom que isso não afete o grup...
– A Vi não fez nada de errado. E, se ela fez, deve ter um motivo. Agora eu quero ir embora.
Desistindo de uma vez por todas daquela conversa com a menina que ele sabia que não o escutaria, o rapaz liberou-a, e ela saiu num passo normal e ritmizado, completamente avesso à sua comum animação e às estripulias que a todo momento praticava... Ela só caminhava, com umas ataduras velhas cobrindo uma ou outra ferida maior... A moeda. Ela ainda tinha a moeda. Havia pensado nisso desde o instante em que começara a ter suas feridas tratadas; no que faria com ela. Ela tinha alguém tratando de suas feridas... E Vi estava lá em cima, deitada, isolada do mundo e sofrendo sozinha sua dor inimaginável... A menina calmamente rumou para a porta do casarão, abriu-a e saiu. Caminhou até uma farmácia...
– Moço, eu posso comprar um curativo com isso? — ela se esticava, na pontinha dos pés, e esticava a mãozinha com a moeda em direção ao balcão, mas ainda não o alcançava. O farmacêutico olhou para aquela figura, tão dócil e frágil, com peso no coração.
– Desculpa, mocinha, mas isso é muito pouco... Mas posso te dar uma bala, se você quiser. — era uma proposta tentadora... Há tanto tempo que ela não comia um doce...
– Ah não, obrigada... Não preciso da bala... Eu queria um curativo pra minha irmã...
O homem observou a menina das trancinhas baixar a cabeça e falar num tom introvertido de criança, quase inaudível. Aquela decepção súbita dela, mesmo com o oferecimento de uma bala... cortava-lhe o coração. Era só uma criança, deuses; uma menina pequena e franzina, com um rostinho feliz, porém completamente desamparado, e duas trancinhas azuis tão inocentes...
– Ei, está aqui. Vou fazer um desconto pra você e o curativo custa só uma moeda. Ok? — de repente, o rostinho da menina iluminou-se num sorriso agradecido. — Agora vai lá. Melhoras para a sua irmã.
Ela correu de volta para o casarão com o pacotinho na mão, entrou sem prestar atenção a mais nada e subiu até o segundo andar mais uma vez, onde...
...tufos intermináveis de cabelo rosa espalhavam-se por todo o chão. Estavam cortados, jogados à distância de qualquer jeito, com raiva, e rodeavam uma figura trágica que se isolava do resto do mundo por meio deles. No meio do mar de fios rosa, encolhida abraçando as pernas e com o rosto enterrado nos joelhos, sentava-se uma menina, com o cabelo todo cortado, com uma faca na mão... Se corpo tremia em espasmos e era possível ouvir seu silvo baixo de choro ao soluçar.
...Ela deveria estar com medo, depois do empurrão que levara e que a derrubara escada a baixo. Devia se arrepender e afastar em silêncio, evitando a fúria daquele dragão agora ainda mais letal, à sua frente... Mas não foi isso que a menina de trancinhas azuis pensou. Sequer passou pela mente dela...
Ela caminhou até os fios rosa. Abriu espaço por entre eles e foi aproximando-se, aos poucos, sem dizer nada. Agachou e engatinhou até ela, cuidadosamente, buscando não perturbar aquela quebradiça tranquilidade momentânea... Diminuindo um pouco os incansáveis soluços, a garotinha de cabelo rosa levantou a cabeça; o rosto todo molhado, o bonito olho azul — o único que não estava ferido e se podia ver — afogado em lágrimas de solidão, uma máscara sofrida de tristeza...
– Eles são gentis com você... Você é pequena, e fofa, e inocente, e as pessoas querem te ajudar. Mas eu... — Jinx ouvia aquilo, e a voz de Vi era carregada de uma raiva e uma tristeza infinitas, que faziam com que a menina começasse a sentir um aperto ruim em sua garganta, como se tivesse medo e quisesse também chorar. — ...eu sou um monstro! UM MONSTRO!!! Uma praga, só isso! — ficava cada vez mais difícil dela falar sem ser acometida por aquelas enormes dores... De seu corpo e de sua jovem e já totalmente destruída alma... — O grupo precisava do dinheiro... Eu ia pagar. EU IA PAGAR!!! EU EMPRESTEI O DINHEIRO PRA COMPRAR COMIDA; EU IA PAGAR!!!!!...
Ela berrava aquelas palavras a plenos pulmões, e o grito desesperado e raivoso que dava chegara a ferir sua garganta, raspando-a. Aquela fúria bestial fora então subitamente engolida por uma explosão de choro; as lágrimas escorriam novamente em profusão, como uma cascata pelo rosto da garota, enquanto gemia e soluçava de dor, terrivelmente... O que tinham feito a ela?... Deuses, o que tinham feito a ela?!! Jinx, involuntariamente, olhou em volta, para aquele mar de cabelos ferozmente arrancados que recobriam quase todo o chão do quarto...
– ...Quando a porta bateu, ele me deu um soco no olho... — com a voz trêmula e ainda lacrimejando, ela ergueu levemente a cabeça, aceitando mostrar, pela primeira vez, pelo menos um pouco, o rosto torturado... — Eu nem percebi a mão dele vindo... E, quando eu tentei fugir... — ela começou a tremer, não conseguia respirar; um pânico puro tomava-lhe imediatamente quando ela lembrava daquelas coisas... Sua voz ficara fina e falhara; ela ia voltar a chorar... — ELE ME AGARROU PELOS CABELOS! AAAAAAAARRRRRGGGHHH!!! EU NUNCA MAIS QUERO TER ESSA MERDA DE CABELO LONGO!!!! — com fúria e violência, ela mais uma vez começou a puxar as mechas já praticamente inexistentes e passar a faca que tinha nas mãos em tufos minúsculos de cabelo que já não mais saíam, não podiam ser cortados, só se ela decidisse arrancar o couro!... Quando ela virou a cabeça, Jinx pôde ver de novo a porção do couro cabeludo de Vi onde havia uma enorme falha e sangue... Agora ela entendia o que havia acontecido...
...deuses!!!
– Vi... Vi, não! Não... VI! — com dificuldade e algum medo, a menina tentava segurar os braços frenéticos da outra que já começava a ferir-se, desvairada, com aquela maldita faca... O que tinham feito com ela; o que aquele MONSTRO TERRÍVEL tinha feito com a sua irmã?!...
Jinx nem percebera que também chorava, angustiada ao ver sua irmã, sua amiga, a pessoa que mais amava no mundo desgraçada daquela forma. Conseguira finalmente prender-se aos braços dela, fazendo uma força incrível para impedir que continuasse a se machucar daquela forma, usando o peso de seu corpo tão pequeno e magro com determinação para fazê-la parar... Mais uma vez, a fúria cedeu lugar às lágrimas, e Vi baixou os braços, enquanto Jinx acompanhava o movimento, praticamente abraçando-a. A garotinha não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Havia só aquela enorme sombra pairando sobre elas, e a angústia daqueles corações jovens e completamente desamparados.
– Vi... Por favor, não chora... — dizia, ela mesma estando afogada em lágrimas. Abraçava agora com força sua irmã... Ela apenas soluçava e lacrimejava copiosamente, deixando o corpo enfraquecido cair sem resistência sob aqueles braços tão frágeis que a aparavam... Ficaram ali, daquela forma, por longos minutos silenciosos... A menina sentiu que, finalmente, a irmã se acalmara ao menos um pouco. Soltou-se dela lentamente, observando-a e tentando prever uma reação, mas nada... Então deu a volta e sentou-se de frente a ela. Abriu o pequeno pacotinho que havia trazido consigo da farmácia... Silenciosamente, retirou dele uma gaze e foi molhá-la. Sentou-se novamente no mesmo lugar... E começou a passar o pedaço de pano, limpo e úmido, cuidadosamente, pelo rosto ferido da outra.
Limpou com cuidado o supercílio cortado. Passou-o por aquela cicatriz talhada no rosto dela, removendo aos poucos todo aquele sangue... Com cautela, apertou-o sobre as feridas nos lábios e então, delicadamente, segurou-a pelo queixo e virou seu rosto de frente para si, cuidando com um carinho indignado daquela safira belíssima que aquele homem monstruoso havia machucado. Ao limpar o olho inchado de Vi, o outro olho azul dela fixou-se firmemente em seu rosto. ...Terminada a limpeza, a menina tirou do pacote outra gaze e uns poucos pedaços de esparadrapo, usando-os para fazer um curativo que cobria aquelas dolorosas marcas. "VI". Ela terminou seus cuidados, sem ainda pronunciar nenhuma palavra. Sua irmã ainda a observava. Um olhar com um toque surpreso. ...Era estranho para a valentona aquela situação invertida. Alguém cuidando dela... ...Ela segurou o rosto da menina, num movimento lento e determinado quase como se estivesse em transe... e deu um longo beijo em sua bochecha.
...Ela então se afastou, retornando para seu canto isolado e deitando-se virada para a parede novamente, sem emitir um som, e deixando Jinx naquele completo vácuo, naquele espaço silencioso e vazio. A menina ficara boquiaberta. Ela dera-lhe algo, mas logo em seguida tomara de volta. E agora estava lá, isolada, em sua impenetrável solidão novamente. Enquanto ela era deixada ali, sem ter o que fazer, sozinha... Sentindo seu peito ainda infantil apertar-se, fechou os olhos e chacoalhou a cabeça para afastar aquela sensação, e então deslocou-se para um canto próximo de onde Vi estava, juntando-se a ela e forçando-se a dormir.
~¨~
– PASSA A GRANA!!
– CALMA, POR FAVOR, TENHAM PIEDADE! NÃO FAÇAM NADA QUE...
– CALA A BOCA!!!!
– UUUGH!
– VAI LOGO, SEU FILHO DA PUTA; PASSA LOGO ESSE DINHEIRO MALDITO ANTES QUE...
– EI, O QUE É ISSO!? PARADOS!!
– FUJAM!
– NÃO, A GENTE PRECISA DO DINHEIRO!
– VI, NÃO!...
– VEM AQUI, SEU ALMOFADINHA DE MERDA! VEM ME PEGAR, SE TEM CORAGEM!
– VI!!!!
O plano era daquele maldito tipo: altamente arriscado, porém simples. Eles precisavam entrar na loja, abordar o comerciante, roubar o dinheiro e dar o fora dali, mas aquela merda toda, ultimamente, insistia em não dar certo; era como se o bando estivesse desordenado, desorganizado... Era um membro, agora constantemente exaltado, que arriscava tudo e colocava tudo a perder. Vi. Ela não costumava agir com aquela tamanha inconsequência e violência como fazia daquela forma. Havia perdido a mão nos roubos ou havia perdido o juízo? ...Não tinham ideia de que o comerciante, sabendo do aumento da onda de crimes daqueles bastardos baderneiros, havia contratado seguranças particulares que ficavam à espreita dos fundos da loja, e agora um deles aparecia para evitar não somente o roubo, mas a agressividade desnecessária da garota ao socar o velho pra que calasse a porra da boca e entregasse logo o dinheiro.
– VI, SUA LOUCA, VAMO EMBORA!!
– DEVOLVE O DINHEIRO E SOME DAQUI QUE NEM OS SEUS AMIGOS, MENINA.
– VAI SE FODER VOCÊ, CANALHA ESCROTO FILHO DE UMA PUTA!!
Ficando agora irado com a displicência daquela ladrazinha de merda, o segurança avançou para pegá-la... Ia dar uma boa surra para ensinar bons modos àquela menina bocuda antes de entregá-la às autoridades, mas qual não foi sua surpresa quando, ao tentar segurá-la, ela lhe desferiu um doloroso chute na genitália, fazendo-o dobrar-se, para logo em seguida socar o rosto do homem e deixá-lo tonto, finalizando por empurrar, com visível ódio, seu rosto contra o chão...
– VOCÊ — uma — ACHA — duas — QUE EU — três — TENHO MEDO — quatro — DE PORRA ALGUMA?!?!?!!!!! — cinco vezes o rosto do homem fora brutalmente empurrado contra o chão. Uma visão terrível marcada pela violência; seu rosto ensanguentado, com o nariz quebrado, um dente se soltando...
– VI, PARA COM ESSA PORRA!
– VAMO EMBORA, A POLÍCIA VAI COLAR AQUI!
Parando de golpear o homem e bufando como um touro furioso, a garota fora puxada e começou então a correr como o vento na mesma direção que seus amigos. Entraram correndo e assustados no antigo casarão, os corações palpitando a mil, ofegantes. O líder deles bateu a porta, atirou a bolsa com o dinheiro longe no chão e então partiu para cima de Vi, raivoso, empurrando-a.
– QUE MERDA FOI AQUELA, GAROTA; O QUE VOCÊ PENSA QUE TÁ FAZENDO?!!
– SAI DE MIM SE QUISER CONTINUAR VIVO, SEU ESCROTO! — ela detestava que tocassem nela, ainda mais daquela forma ameaçadora, querendo brigar. Era muito bom que filho da puta nenhum tentasse mais comprar briga com ela ! Nunca mais!! Respondeu agressivamente àqueles empurrões, empurrando o moleque de volta e iniciando uma disputa de raiva e força.
– VOCÊ TÁ AFUNDANDO ESSE GRUPO, IDIOTA!
– SÓ TÁ AFUNDANDO PORQUE É GERIDO POR GENTE ESCROTA QUE NEM VOCÊ!!!
– QUE É QUE FOI?! HÃ?! NÃO TÁ AGUENTANDO MAIS A BARRA, MENINA? VAI SURTAR DE VEZ?!
– VOCÊ NÃO CONHECE A MINHA VIDAAAAA!!!!!!
Ela ia arrebentar ele, arrebentar de verdade, ia bater naquele moleque pra valer, e foda-se se tinha ou não um motivo para aquilo, mas então os outros do grupo mais velho foram segurá-la... Um ou outro tomou uma surra bem dada; era impossível conter aquela fúria inexplicável que ela havia desenvolvido... As crianças menores, amedrontadas, começaram a se aproximar para ver o que acontecia... Jinx fora acordada pelos gritos de raiva e de medo no meio da noite, e então desceu as escadas imediatamente.
– ...VI, PARA! VI, POR FAVOR, PAR... AAH!
Ela queria que a irmã a ouvisse, que Vi parasse de brigar, detestava vê-la naquele estado e fazendo aquilo, mas ela não ouvia! Tentou entrar no meio da briga e chamar-lhe a atenção, segurá-la, mas então, no meio da confusão vertiginosa de socos, a mão pesada da irmã veio a encontrá-la... PAH! ...um estalo alto e seco, e todos de repente se paralisaram. Vi arregalou os olhos ao perceber que tinha...
– ...Jinx... ...POR QUE VOCÊ ENTROU NO MEIO; SUA BURRA?!! — no fundo de seu peito, ela sentia culpa... Mas todo e qualquer sentimento fora obliterado por aquela oportunista e maldita raiva que sentia.
Jinx... Ela... Ela... ...Ela não esperava ouvir aquilo de Vi. Não esperava que... Seus olhos começaram a encher-se de lágrimas...
– Viu o que você fez, Vi?
– Ela não tinha que ter entrado no meio.
– Você está descontrolada! Não sei o que aconteceu com você, e, verdadeiramente, foda-se, mas você tá agindo que nem uma besta, louca, e prejudicando completamente todo o grupo! Não é a primeira vez que você soca daquele jeito um cara, que deixa daquele jeito alguém; a polícia já tá doida atrás da gente, e isso por causa de você! — a rebelde somente olhava-o e ofegava... — ...Nós vamos embora daqui...
– Não!
– Não tem mais como viver aqui, Vi! Vai ser impossível. A polícia vai baixar, a gente precisa continuar roubando pra ter o que comer, isso aqui vai ser o inferno.
– Eu não vou embora. — de repente, toda aquela raiva tinha assumido a forma de uma completa preocupação e firmeza. Mesmo apesar de tudo, aquele era o lugar que ela gostava. Era o lugar no qual ela sentia que se identificava, era o local ao qual ela pertencia... Não havia nenhum motivo para ficar naquele lugar horrível, ou mesmo naquela casa aos pedaços, não havia nada que a prendesse ali... Mas ela não queria ir embora. Era sua casa.
– ...Está bem. Faça o que você quiser. Mas o resto de nós vai embora...
Jinx ouvia a tudo aquilo perplexa... E agora? Ela... teria que ir embora com eles e... deixar... Vi? Sua respiração acelerou-se, apavorada. Não. Não mesmo. Ela tinha direito a uma escolha, não podiam forçar a ela ir! De todo modo, estava dividida... Mas...
– Eu vou ficar também!
O rapaz, que já virava de costas para juntar suas coisas, virou-se indignado com aquilo.
– Jinx, cala a boca, você não sabe o que tá falando.
– Não, eu sei sim! Você não pode me forçar a ir e eu quero ficar com a Vi. Eu não vou!
– Vai embora, Jinx.
Aquela última voz dando sua sentença, no entanto, abalara completamente a confiança animada da menina. Era a voz fria e baixa de... Vi. Ela... Ela não...
– Mas eu quero ficar.
– Deixa de ser uma criança burra; vai embora com eles.
Cada palavra dura... Era como uma flecha de fogo atravessando-lhe o coração. Por que ela fazia aquilo? Por que? Ela entendia a dor que sua amada irmã havia passado... Mas aquilo mudara-a tanto! Sentia-se... Sentia-se confusa. Ainda gostava imensuravelmente dela, mas... Tinha se tornado difícil...
– ...Você não pode me obrigar também; a escolha é minha! Eu não vou embora!
– EU NÃO TE QUERO AQUI, MENINA; EU NÃO QUERO NINGUÉM AQUI!
– DANE-SE O QUE VOCÊ QUER, SUA METIDA; EU VOU FICAR E NINGUÉM ME TIRA!!!
Todos olhavam para aquela confusão entre as duas. Sabiam que elas eram a unidade inseparável daquela casa, que cuidavam uma da outra e que de todos aqueles gatos-pingados ali, elas eram as únicas que verdadeiramente viviam como uma família... E agora, aos poucos... Ali, na frente de todos... Aquele laço aparentemente tão forte, aos poucos, se afrouxava...
– ...Danem-se vocês... Façam o que vocês quiserem...
O rapaz, colocando a bolsa com seus poucos pertences nas costas, virava-se e abria a porta, liderando a procissão de excluídos para fora daquele lugar. Em poucos minutos, a casa estava silenciosa e mortalmente vazia... Sem dizer nada, ainda olhando com raiva para a porta, Vi deu as costas e retornou para o segundo andar. Ouvia-se o som de coisas sendo mexidas, móveis sendo arrastados... E a menina, novamente, com as tranças azuis jogadas de qualquer jeito, sentia-se sozinha e envolta pelo vazio. ...angustiada, subiu as escadas, mas antes mesmo que pudesse terminar os degraus, observou Vi sentada sobre um criado-mudo, de frente para duas enormes janelas, olhando para fora com um semblante austero enquanto observava os outros partirem na noite. Jinx retornou ao primeiro andar...
"...Quem é você, Vi? ...Você ainda está aqui?"
Naquela noite, ela não conseguira dormir. Milhões de imagens, de sons, de pensamentos revoavam por sua mente, assombrando-a, impedindo-a de poder pregar os pequenos olhos e descansar sequer um mínimo... O que tinham feito a Vi?... O que tinham feito com ela?!! O QUE FIZERAM COM A MINHA IRMÃ?!! O coração da menina berrava aos quatro ventos com toda a sua força e toda a sua ira revolta, mas naquele temível casarão velho, vazio e escuro, ela apenas se encolhia o máximo que podia em um canto, espremendo com força os olhos e mordendo com determinação a boca para abafar aquela vontade inimaginável de gritar. Tremendo, seja de medo ou de raiva, ou sabem-se lá os deuses por que... a menina, com suas já gastas tranças azuis, chorava em completo silêncio num canto.
O Sol raiou, e com ele Jinx pôde perceber que finalmente conseguira cair no sono em meio a suas lágrimas, pois agora havia acordado, com o corpo ainda pesado e a cabeça cheia, mas ao menos ligeiramente mais descansada. Como se um piscar de olhos tivesse a magia de poder fazer as coisas ruins sumirem e tudo voltar ao eixo certo, a menina carregava consigo uma nova esperança de que aquilo tudo que vivera e ouvira no dia anterior fosse apenas fruto de ânimos exaltados entre dois jovens titãs cujas personalidades, igualmente fortes e explosivas, se chocavam desde sempre. ...Apenas um momento de desentendimento entre colegas que, afinal, sempre brigaram. Levantou-se do canto em que dormira animada e foi percorrer a casa.
– Ei, Max! Eu... — ...ah. Sim... Todos haviam partido. ...Haviam partido de verdade. O sentimento de não mais se deparar com aquele enorme espaço ocupado por risos e correria cavava um terrível vazio em seu peito. Levou a mão ao minúsculo coração... Era como se o ar não conseguisse ficar em seus pulmões, como se cada batida fosse só um sopro numa caixa vazia, um sentimento agonizante de que... De que... ... ...Não conseguia respirar. Mas então lembrou-se... "Vi." Vi permanecera ali... Ela se recusava a deixar aquele lugar, e fora por isso que Jinx ainda também estava lá. Havia escolhido ficar.
A menina, como sempre, poderia ter corrido as escadas rumo ao andar de cima, radiante de alegria; poderia ter corrido para os braços da sua mais que amada irmã e pulado neles, com toda aquela estripulia que sempre fazia... Porém não dessa vez. Pela primeira vez, ela hesitou, perguntando-se se devia ou não procurar Vi. Se queria ou não encontrar Vi... Era como se, no fundo... ela começasse a sentir um certo medo daquela fúria bestial... Do animal irascível no qual ela se tornara... "...Eles são maus, Vi... Todos eles são muito maus... Você não era um monstro; você nunca foi um monstro! Mas será que, de tanto eles martelarem essa coisa na sua cabeça... você não acabou se tornando um?" Seu corpo vacilava. As curtas e magras pernas resistiam a obedecer... Entretanto, ela respirou fundo, reunindo toda a força de seu ser, e seguiu mais uma vez para aquela escadaria.
– ...Vi? — o andar estava vazio. Só a pobreza e a poeira residiam ali. — ...SUA IDIOTA! ONDE É QUE VOCÊ TÁ; POR QUE VOCÊ NÃO TÁ AQUI?! ...AAAARRRGGGHH!!!... QUE... MERDA!
Ela gritava, indignada com aquela completa falta de consideração que sentia naquele momento, vendo que ela havia quebrado insensivelmente aquela sua promessa de que sempre estaria ali... VIDIOTA! Cheia de raiva, mas ainda movida pelo desespero de ver-se só, a menina não pensou duas vezes em sair correndo do casarão. Iria varrer toda aquela região se fosse preciso pra saber onde Vi estava! Aquela... Aquela... Traidora.
O som de seus muito velhos e gastos sapatinhos ecoava num ritmo frenético enquanto a menina corria à toda velocidade, percorrendo as ruas pelas quais ela e Vi costumavam a passar até algum tempo atrás. Nada dela ali. Correu em direção ao comérci... Opa! ...Céus, quantos policiais haviam por ali agora! ...Melhor pegar alguma rota alternativa; Vi com certeza não se aventuraria por ali com aquele monte de policiais também... Ou talvez sim... ARGH; não sabia mais! Não sabia! Ela... ... ...ela não era mais a mesma pessoa. Desde aquele dia... Correra incessantemente pela cidade, durante todo o dia, desgastando-se até o ponto de exaustão. Havia tropeçado e caído, se ralado toda; quase se encontrara sozinha indo pro meio da região de uma gangue de crianças inimiga — ainda bem que notou a tempo, ou nem queria imaginar o que poderiam fazer com ela... — , estava ferida, suja, cansada... Sentou-se num canto qualquer, no meio das ruas, e começou a chorar.
– ...Sua idiota, mentirosa, traidora!... — a infinita tristeza de seu ainda tão jovem coração, lenta e gradualmente, de forma quase imperceptível, fora tomando a forma de um terrível ódio abstrato... Ódio não sei de onde, por não sei quem, não sei por que.
Tornou a correr, com lágrimas nos olhos e os dentes fortemente cerrados, de volta para aquela decrépita construção. Entrou batendo a porta com força, cheia de raiva, e virou-se para ir para o seu canto quando deparou-se com...
– VI!!!
Ela não podia resistir... Naquele momento, ao reencontrar a garota de cabelo rosa, sua protetora, sua guardião, sua melhor amiga, foi como se toda aquela densa névoa de problemas, de ódio e de desespero se dissipasse imediatamente no ar, deixando vestígio nenhum de que um dia sequer existira. Em êxtase, ela correu até a garota.
– Por que você ainda tá aqui?
...Mas antes que pudesse abraçá-la, ela a interrompeu bruscamente, desviando o corpo da rota do abraço dela e fazendo-a quase cair para o nada.
– ...Eu não...
– Eu te mandei ir embora. — aquilo mais uma vez quebrara o coração da menina em milhares de milhões de pedaços irreparáveis... Então era isso?
– Eu tô me cansando dessa brincadeira, Vi; para de brincar! Deixa de ser chata... — ela falava aquilo tentando convencer a si mesma de que tratava-se apenas de uma brincadeira de muito mau-gosto que havia já ido longe demais... Mas sua face era séria, a mente assolada por pensamentos caóticos, enquanto seus olhos tremulavam e ficavam inchados, cheios de água, que ela agora se recusava a derramar... Se recusava a derramar até que ela confirmasse que tudo aquilo, que aquela merda toda era apenas uma brincadeira...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Que brincadeira, sua pirralha idiota; você é burra ou o que?! Eu já disse que quero DISTÂNCIA! Não quero NINGUÉM aqui!
– É TUDO MENTIRA! VOCÊ VAI TER QUE ME...
– Eu vou te tirar daqui.
Cortando-a abruptamente, a grandona agarrou a menina pelo braço e começou a puxá-la em direção à porta, com desleixo, de qualquer jeito.
– Ai, Vi, VOCÊ TÁ ME MACHUCANDO! — ela se debatia.
– FICA QUIETA, GAROTA; PARA DE AGIR QUE NEM UM BEBÊ CHORÃO!
– PARA DE SER ESCROTA; VOCÊ NÃO MANDA MAIS EM MIM!
– O QUE?! — ela se inflamou com o insulto berrado pela outra. Mais ainda, com aquele forte puxão que rompera quase todos os laços que haviam entre elas... E, em sua fúria cega, ela mal parou para ouvir o que a menina dizia...
– PARA, VI, EU TE...
– CALA A BOCA!!!
Ela desferiu um tapa no rosto da menina, com tanta força, atirando-a no chão brutalmente. Por alguns segundos, tudo parou. Ela se sentia... Ela sabia... que estava descontrolada. "...Deuses! ...Por que você não foi embora antes, Jinx?! Se afasta de mim!! Eu... eu sou..." Um monstro. Sim. Sim... Agora Jinx via... Ela havia se transformado num monstro.
Caída no chão... Desprezada... Humilhada profundamente pela pessoa que ela jurava mais confiar na vida... A tristeza sumira de seu coração. De sua mente. Completamente, sumira. Desolada e sentindo as entranhas revirarem-se dentro de si, o sangue ferver, ela fez esforço para erguer o corpo, apoiando-se com determinação nos braços raquíticos e trêmulos. Apoiou os joelhos no chão. Humilhada. De quatro, como um animal... Virou o rosto, pálido, indignado, marcado agora pelo enorme vermelho de uma mão pesada em seu rosto... Os olhos marejados, injetados, fixando bem o rosto da outra ali, se contestando e fuzilando... Ódio.
– Sua...
– ...Dá o fora daqui...
– Sua...
– EU NÃO QUERO NINGUÉM AQUIIIII!!!!!!!
Puxando a menina para cima com força, obrigando-a a se levantar, a rebelde sentiu-a debater-se com fúria debaixo de si, socando-a, tentando mordê-la, até que a menina conseguiu, com suas unhas sujas e roídas, acertar o rosto da outra, exatamente na pele fina do local em que aquela marca começara a cicatrizar.
– AAAAAARRRGHH!!!
O sangue escorreu daquelas letras, "VI", mas a garota não se importou. Continuaram naquela luta animalesca de ataques e resistência, até que Vi conseguiu abrir a porta e atirar a menina na rua. ...Ainda deteve-se na passagem, ali, olhando, em silêncio... Em transe... Como se decidisse se desligar de seu lado humano para evitar voltar atrás em sua decisão...
– ... ...Some.
A criança olhou uma última vez para aquela porta daquele casarão, quando ela se fechava, violenta e insensivelmente, na sua cara...
– uuuaaaAAAAAARRRRRGGGGGGHHH!!!!!!
Começou a buscar no chão pedras, pedaços de pau, areia, qualquer coisa que pudesse atirar naquela maldita porta do inferno! AAARGHH!!! Atirava, atirava tudo, atirava com raiva...
– AAAAAAAAAAAAAAARRRRRGGGGGHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!
E explodiu a chorar, sozinha, desamparada, sem ideia da que fazer com a noite caindo ao seu redor e nenhum lugar para ir, ninguém para lhe ajudar. Seu coração batia em disparada, frenético. A respiração tão intensa e entrecortada que sentia-se sufocar! Saiu a correr, desesperada, sem rumo, pelas ruas escuras. Quem sabe ainda não tivesse alguém de seu grupo por ali; podia procurá-los!... Ela correu, correu, cruzou as ruas, que pareciam agora tão sombrias e ameaçadoras, atravessou bairros e becos, correu em busca de algo, alguém, qualquer coisa, até já não saber mais onde estava, onde tinha ido parar...
– Não... Não! — sentou no chão e chorou em profusão novamente. Queria Vi, queria estar com ela, queria que ela a perdoasse e que voltassem a viver juntas, como faziam; queria-a desesperadamente... Mas então começou a florescer em si também um mortal e silencioso ódio...
O trovão rasgou os céus com seu rugido amedrontador. A tempestade chegava logo e ela, sem nenhum lugar para se esconder. Sem rumo. Correu para baixo de um toldo velho e rasgado de um prédio dali, o mais próximo de "abrigo" que ela poderia encontrar naquele momento...Mas ainda assim, os pingos gelados molharam seu rosto, infiltraram-se em seus cabelos, gelaram-lhe o corpo magro e fracote até os ossos, enquanto sua boca ficava roxa e tremia. Ela sentia fome. A noite parecia um terrível pesadelo que não acabaria nunca mais; todo o medo, toda a insegurança...
A partir daquele momento, seu mundo entrara numa impossível espiral descente de desventura, medos, ódio, traumas...
– Olha só o bebê andando sozinho... Tá a fim de um "doce", gatinha? Coisa boa...
– Órgãos de crianças... Ouvi dizer que pagam muito bem por eles nas fronteiras de Demacia...
– SAI DAQUI SUA LADRA, FILHA DA PUTA! *PAF!!*
– Ow... Um doutor aí tá precisando de gente pros testes de um experimento lá em Zaun. O rolê é sinistro, pelo que eu ouvi, mas dá pra tirar uma grana.
– Você vai ou não vai fazer esse serviço pra gente, seu monte de merda?
– AAARGH, VADIA ESCROTA! VOLTA AQUI! AAARGH!... Argh... Aaaah... Isso! ISSO! AH!
– ME LARGA, SEU CANALHA DO INFERNO!!!! — e foi nesse momento que ela encontrou a arma que o homem levava consigo, puxou-a do coldre, encostou-a na cabeça daquele verme maldito e puxou o gatilho. BAM!
...os pedaços de carne voaram para tudo quanto era lado naquele beco imundo aos fundos daquele bar. O sangue caiu como chuva, tingindo as paredes, o chão... Pintando em gotas gordas o branco doentio de seu rosto... Suas mãos, firmes ainda com o revólver empunhado, começaram a, lentamente, tremular, enquanto ela observava todo aquele líquido vermelho escorrendo sobre si; passava a mão por seu rosto... E ria.
– Hah... Haha... Haha, ha, HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!!
Puxou e prendeu o short que ele havia lhe rasgado, canalha lazarento; levantou-se, rindo, e atirou ainda mais duas vezes no corpo já morto, pegando gosto por sua nova melhor amiga... A porta do bar abriu num supetão violento com o chute que ela dera, e então a jovem entrou, em seu riso sádico e completamente desvairado, atirando em absolutamente tudo e principalmente todos que via pela frente! Enquanto os gritos se levantavam, as coisas explodiam, o caos se instalava e os corpos caíam, mortos, com aquelas carrancas malditas antes tão confiantes de si agora marcadas pelo mais puro medo, ela se sentia novamente, pela primeira vez em muito anos, livre. Feliz, animada, completa. E em plenas condições de lutar agora de igual para igual com qualquer um... Hahaha!!!
Chegando ao final de seu primeiro grande ato, ela aproximou-se do dono do bar, escondido atrás de um balcão...
– ...Você tá chamando a polícia? — apesar de tudo, sua voz ainda era aquela voz infantil e seu jeito ainda lembrava o de uma criança que reinaria naquela mente despedaçada para sempre.
– N-n-não! N-não, eu juro, eu juro, moça, por favor, eu não estou chamando a polícia! Eu juro! Olha, eu te desculpo por tudo o que você fez aqui, eu juro que não vou me lembrar do seu rosto, não vou te denunciar para a polícia, só... Por favor... Só me deixa sair daqui... Por favor! — o homem, apavorado, se descontrolava e implorava por sua vida.
– "Eu te desculpo"? ...Haha! Não precisa me desculpar, moço... — ela ria de uma forma tão gostosa e despreocupada que o homem chegou a sentir um inimaginável alívio... — Armas. Significam nunca ter que pedir desculpas. — levantou o revólver e atirou.
...silêncio. Estase. Vazio... Ela odiava se sentir assim. Mas agora, aquele momento surreal em que conseguira sentir-se novamente completa havia desaparecido junto com a última bala. Ela não queria mais se sentir assim, nunca mais se sentir assim... Abandonada. No vazio. Era isso, era disso que ela precisava; o caos, o barulho, o desespero, as explosões, o som!... Começou a revirar os bolsos de suas vítimas e buscar qualquer coisa que achasse que valia a pena. Dinheiro, balas, armas...
Balas.
No bolso de um rapaz, haviam três balas de goma... Daquelas que ela sempre sonhara em poder comprar na infância... Um redemoinho voraz de pensamentos se apoderou e começou a mexer profundamente com sua cabeça, como fotos, lembranças, imagens, memórias, vertiginoso, exatamente como acontecia agora com ela ao perder o ar e se lembrar e acordar e...
!!!...
Levantou-se, exasperada, num profundo respiro para tentar recuperar o ar e livrar-se daqueles sentimentos... Daquelas coisas... Suava, mesmo o tempo estando cinzento e extremamente frio. Seus olhos, já naturalmente alertas quase todo o tempo, tinham agora uma outra expressão diferente daquela psicose usual. Estavam arregalados, mas assustados; diretamente saídos do pior pesadelo com o qual ela podia sonhar. Sua vida. ...
Olhando ao redor, encontrou a jaqueta militar com o desenho do papagaio, o capacete, suas armas, as balas...
Balas.
...Ela amava balas. Adorava balas. Balas de todos os tipos...
Não conseguia saber se era dia ou se era noite. O céu, constantemente depressivo e cinza por estes dias dificultava essa distinção. Não importava. Juntou suas coisas, vestiu a nova roupa e decidiu que era hora de ir embora dali. Não era mais bom continuar naquele lugar que lhe disparava tantas memórias... Perguntou-se se sua irmã também ainda sofria com aqueles pesadelos que tinha, fazendo-a acordar gritando no meio da noite; o que a fizera se tornar aquilo que ela tinha virado. ...Ela não parecia se lembrar. Não parecia se lembrar de nada daquilo. Tinha se esquecido daquela história, daquela vida; tinha se esquecido dela. Sua irmã...
Num momento de revolta, ao deixar o decrépito prédio, Jinx virou para trás e ergueu o lança-mísseis, apontando-o para a base daquela casa... Porém, deixando aquele primeiro impulso emotivo passar, voltou a baixar a arma e guardá-la. Observou a casa por mais alguns instantes e então virou de costas, seguir seu rumo, indiferente.
...Era bom que ela também esquecesse.
(http://www.youtube.com/watch?v=gPUy_Im5dss)
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