Piltover's Finest
6 Capítulo 5 - "Parte do seu mundo" II
Notas iniciais

No caminho da delegacia, um silêncio mortal pressionava a atmosfera no carro da xerife. Vi observava os arranhões de balas nas luvas enquanto a xerife fixava sua atenção no trânsito.
– Você não me obedeceu... Você não me obedeceu e pôs em risco a vida de todos! — voltou a instalar-se o silêncio. — Você ignorou completamente o que nós tínhamos combinado e se arriscou à toa!
– EU SEI! Mas eu derrubei aquela merda daqueles cinco bandidos num espaço de tempo em que vocês não iam nem imaginar em agir! Eu ia lá saber que tinham atiradores no telhado esperando pra...
– MAS NÃO DEVIA TER SAÍDO CORRENDO QUE NEM UM ANIMAL!
– E QUEM SE IMPORTA?!
– EU ME IMPORTO! — silêncio. — Eu me importo. Eu assumi uma responsabilidade aqui, e nós fechamos um acordo. Lembra? Céus, não fazem nem 24 horas! — Caitlyn riu, estressada. — Pelo amor dos deuses, Vi, ponha isso na cabeça: por mais que você talvez... não goste, você tá numa equipe. Aja como se fizesse parte de uma!
Mais uma vez, nenhuma palavra foi dita num espaço de tempo que parecia uma eternidade. O carro chegou à delegacia.
– Escuta, xerife... Eu não sigo ordens... — Vi afirmou, categórica, antes que descessem do carro. Caitlyn ia preparar-se para responder alguma coisa, quando a mulher continuou. — ...mas... Posso olhar essas "frescurinhas" de vocês, policiais, como meras "sugestões". No final, quando eu estiver lá na frente, vou fazer do meu jeito mesmo...
– Eu não quero que cause mais problemas...
– Okaaaaaay... — falou, displicente. — Não vou. Tá certo? Mas você tem que entender de uma vez por todas que não vai mandar em mim.
A xerife bufou, evitando dar uma resposta no mínimo indelicada àquilo. Saiu do carro e bateu a porta com raiva, indo em direção à delegacia. A rebelde abriu a porta do carro, saiu e gritou.
– A PROPÓSITO: BELO TIRO, CUPCAKE! — riu quando a xerife virou-se e fuzilou-a com o olhar.
A porta da delegacia fechou-se atrás da xerife. Vi bateu então a porta do carro e seguiu-a, adentrando o prédio. Contudo, mal a porta fechou-se atrás de si, um bando de policiais surgiu do nada para rendê-la.
– ARGH! O QUE É ISSO?! — alguns empunhavam armas, outros vinham tentar segurá-la. — NÃO! — virou o grande punho para o lado, acertando uma série deles, mas então outros aproveitaram para segurar o braço estendido; chegaram até a lançar uma corda no pescoço dela e a puxaram, assim finalmente obrigando-a a se curvar, sendo então levada ao chão por um bando de oficiais que se amontoavam em cima dela. — ME LARGUEM!! — estava nervosa e empurrou todos para cima, e estava prestes a desferir um soco mortal quando lembrou que não podia fazer aquilo ali, que uma ação dessas só ia piorar a situação para ela e para Caitlyn. Desistiu e foi então derrubada mais uma vez, mas ainda estava nervosa e confusa. — ME LARGUEM, IDIOTAS; O QUE VOCÊS QUEREM?! — foi empurrada contra o chão, o rosto pressionado no piso frio.
– TIREM ESSAS PORCARIAS METÁLICAS DELA E METAM-NA NUMA CELA! — berrava um Johan vermelho e esganado, com as veias da garganta saltando de raiva.
A confusão escandalosa naquele curto espaço de tempo chamou a atenção dos oficiais; Jayce e Caitlyn saíram de uma sala e foram colocar ordem na situação.
– MAS QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO AQ... — a xerife fez uma expressão perplexa, aterrorizada quando viu como os guardas prendiam Vi ao chão, amontoados sobre ela, até mesmo com... uma... corda no pescoço!
– AARGH! ME SOLTEM! ME SOLTEEEM!!! *arf! arf!* CAITLYN! — Vi exclamou quando viu a xerife aparecer no corredor... Era a única pessoa que talvez pudesse ajudá-la!
– O QUE É ISSO?!
– ESSA MULHER É UMA AMEAÇA À VIDA E AO BEM ESTAR DE QUALQUER UM AQUI E MERECE ESTAR NA CADEIA, COM CORRENTES DE CHUMBO NAS MÃOS E NOS PÉS PRA QUE SEQUER OUSE SE MOVER!
– PARA COM ISSO, JOHAN!
– GUARDAS! LEVEM-NA PARA UMA CELA!
– Não, NÃO! VOCÊ NÃO...! — a xerife se segurou, evitando prolongar aquilo. Johan estava claramente fazendo um teatro e só seria pior para ela se caísse na jogada idiota dele.
Vi observou Caitlyn calar-se e não fazer nada. Continuou olhando para ver se acontecia algo, mas a xerife só lhe lançou um olhar rápido e desviou o rosto novamente. Era isso. Tinha acabado aquilo ali pra Vi. Ela não era policial... A quem estava enganando?
Virou o rosto e apenas seguiu, calada, rumo às celas.
– Sala de reuniões, imediatamente! — a xerife decretou, saindo com passos duros e batendo com força a porta da sala onde já entrava para esperá-los.
– Isso... O que foi isso?! Isso foi... Isso foi um desastre! — a xerife falava, furiosa, caminhando de um lado para outro e gesticulando, agitada.
– Um desastre igual à operação de hoje! — Johan retrucava
– Sim, Johan, a operação de hoje foi uma merda, mas foi uma merda DESDE O INÍCIO! Hah... Cinco caras? Pois eu contei ONZE, meu caro, sendo SEIS DELES atiradores bem armados que, graças aos céus, tinham a mira de uma toupeira! Tudo. Estava. Errado; mas isso não significa que, dentro da delegacia, um oficial possa cometer uma barbaridade dessas!
– Eu estou fazendo o que você já deveria ter feito HÁ MUITO TEMPO. Você acha engraçado brincar de babá, ou sabe-se lá deus por que propósito você mantém essa garota perto de você, mas está colocando em risco TODA UMA EQUIPE de profissionais COMPETENTES que não têm nada a ver com seus caprichos!
– Em primeiro lugar, não se trata de um "capricho". Aquela pessoa é nossa maior chance de encontrar Dohran antes que ele use os cristais para alguma besteira gigantesca ou antes que ele os venda para alguém que o faça! Segundo, ela colocou aqueles caras no chão antes mesmo de conseguirmos colocar nossos homens em posição, e teria sido um sucesso, mesmo que destrambelhado, se não fosse por aqueles atiradores malditos que não sei como NINGUÉM tinha visto! Aliás, foi insanamente arriscado o que aconteceu hoje, mas nenhum refém se feriu e todos os bandidos foram capturados...
– Ou mortos! — Johan exclamou.
– Engraçado, Johan... Para alguém que continua sugerindo que usemos munição letal e atiremos para matar, não faz sentido jogar na cara o número de bandidos mortos...
O homem, mesmo em estado de fúria, manteve-se quieto em sua cadeira.
– Desde que firmamos acordo, nenhum policial se feriu por ação dela... Ou ao menos eu espero, visto a confusão há poucos minutos. Ela está tentando colaborar; viu como ela não reagiu a esse ataque... "mesquinho"... proporcionado sem necessidade? Ela não reagiu, nem tentou fugir no curto tempo em que esteve aqui. Admito: talvez tenha sido um erro colocá-la de cara numa situação desse tipo; mal faz um dia que está conosco... Mas, ainda assim, eu digo: é melhor termos a ela do nosso lado do que contra nós.
– ...eu quero uma votação... — Johan resmungou, indignado. — Quem acha que aquela criminosa deve ser detida e presa imediatamente, levante a mão!
O oficial prontamente ergueu o braço. Lentamente, mais dois outros oficiais juntaram-se a ele.
– Quem acha que ainda é muito cedo para dizer isso, e que a condicional deve ser mantida e respeitada, em todos os seus termos, até futura deliberação? Levantem as mãos. — Caitlyn, dizendo aquilo, ergueu a mão ao ar. Jayce e mais dois oficiais também se manifestaram a favor. — Bom... Temos um resultado, senhor Johan.
– Está bem... Está bem. Mas vamos ver por quanto tempo consegue proteger seu monstrinho, senhorita Caitlyn, antes que ela engula a todos nós...
Caitlyn olhava para a mesa, absorta.
– Mais alguém tem algo a acrescentar? — todos menearam a cabeça negativamente. — ...dispensados.
Todos deixaram a sala. A xerife sentou-se na enorme cadeira e fechou os olhos...
Na região das celas, dois oficiais observavam atentamente a marginal algemada triplamente atrás das grades, sentada de qualquer jeito, com o olhar colérico fixo no chão. Um dos oficiais tinha uma cara meio de bobo, e parecia observá-la só tentando entender... algo. Já o outro, otário, ficava olhando com aquela careta de merda de quem se acha muito superior e está te julgando, deixando a mulher mais irritada ainda.
Vi, do outro lado da cela, tentava não prestar atenção no idiota lá fora. Já tinha coisas demais na cabeça e, se ficasse dando bola pra um merdinha como aquele, a chance era grande de curvar aquelas barras de ferro como se fossem palitos e ir acabar com a raça daquele cara, prosseguindo com uma carnificina pela delegacia; isso tudo com as mãos nuas mesmo.
– Jed, não! É melhor não ficar cutucando; nós não sabemos do que ela é capaz! — o da cara de bobo sussurrava, mais sensato do que Vi imaginava.
– Argh, me deixa! Aliás, essa bastarda não é nada sem as "luvinhas" dela. Olha aí! Haha! É só mais um desses desgraçados fracassados que agente faz o favor de prender por aí. Não duraria cinco segundos em...
– Olha aqui, filho da puta... — a mulher tinha se atirado do banco no fundo da cela para as grades com a vontade mortal por sangue de um tigre, e agora o policial grosseiro, ignorante, exalava medo, com as mãos dela puxando a gola de sua blusa e seu pescoço contra as grades de ferro, esmagando-o dolorosamente, aos poucos, com a pressão que exercia. Levantou uma das mãos na altura dos olhos do guarda, fechando-a raivosamente em punho. — ...eu tenho cinco ótimos motivos pra você calar a boca e sumir daqui, antes que eu pense em...
– Solte ele, Vi.
A cativa olhou para o início do corredor, não conseguindo ver de quem se tratava, mas reconhecendo a voz. O policial quase desmaiou quando finalmente se viu livre das garras de sua provável assassina, entretanto, recompôs-se quando viu a xerife se aproximar.
– Pode tirá-la daí... E, por favor, tire as algemas.
O homem obedeceu, ainda em pânico. Vi não fez nenhum de seus costumeiros comentários debochados. Quando soltaram as algemas, estalou os pulsos e olhou para o lado, evitando o olhar da xerife.
– Olhe para mim, Vi... — a outra não se mexeu. — O que eu tinha pra te dizer eu já disse. E acho que você deixou algumas coisas bem claras também... — não imaginava o que dizer para não se sentir fraca ou, no outro extremo, uma megera. — O que aconteceu mais cedo... Não era pra ter acontecido. Não é o correto, nem procedimental, nem... Humanamente. ...O que eu quero dizer é que...
– Não precisa pedir desculpa, xerife. — ela virou o rosto, olhando para a xerife pela primeira vez naquele tempo; um olhar indescritível... Triste? Não. Decepcionado...? Desviou-se de novo. — ...Eu não achei que você viesse.
– Não costumo deixar nenhuma bala perdida, nem assuntos não resolvidos...
– ...nem a equipe pra trás.
– ...É. Nem a equipe pra trás. — deu um sorriso muito breve, mas ninguém mais ali sorria... — Se importa de ficar na oficina até que possamos ir embora?
– Prefiro.
– Ok...
– O guardinha ali pode ir comigo? Eu sei que tenho que ficar "de coleira" 24 horas; melhor ele, que não me desagrada, do que um idiota que eu destroçaria, que nem o outro...
O policial da "cara de bobo" pôs-se de pé, numa posição desnecessariamente formal de "sentido". A xerife analisou a situação.
– O senhor se importa?
– Não, xerife.
– ...Sem mais problemas, então, por favor... Já tivemos o bastante por hoje.
Seguiram os três para o fundo da delegacia, para a oficina. No início da escada, antes de deixá-los e voltar para seu escritório, a xerife parou, repousando uma mão inadvertidamente sobre o ombro de Vi.
– ...Você não é o que eles imaginam.
A prisioneira estacou de súbito, virando-se, então, para a xerife, novamente com aquele olhar de alguém que é inacreditavelmente forte, mas que, de uma forma peculiar, causava angústia a quem o visse.
– E o que você imagina, xerife?
Caitlyn foi pega de surpresa por aquilo e ficou parada no topo da escada, estática, atônita. Vi, degraus abaixo, ainda a encarava. A xerife fez um aceno com a cabeça e voltou para seu escritório. A lutadora continuou sua descida à oficina. No meio da escadaria, parou.
– ...quer saber, guardinha, vem cá. Me faz um favor...
~¨~
– Lar, doce lar! Aaah... — a xerife exclamou aliviada ao abrir a porta de casa e jogar-se no sofá. — Nossa, eu poderia passar a eternidade aqui!
– Humpf! Infinitamente melhor do que a cela da delegacia, com certeza. — disse Vi, fechando a porta atrás de si e indo para a cozinha.
– O dia de hoje não existiu... Sério. Foi tudo... ARGH! — Caitlyn falava, largada no sofá, de olhos fechados. Fez uma expressão de raiva, depois voltou a relaxar.
– Foi tudo uma merda, mas quer saber? Eu derrubei na mão cinco caras e você acertou, do chão, quatro caras cinco andares acima de você. Foda-se o resto, isso merece... uma... — tirou a garrafa que trouxera escondida. — Comemoração!!! Haha!
– Mas o qu...
– Shiu! Comprei. Dei um jeito. Agora pega os copos e vamos brindar à vitória! — Vi ria com a garrafa na mão como se tudo o que tinha ocorrido naquele dia não existisse, a não ser a vitória sobre os bandidos.
– ...quer saber? Foda-se mesmo! Abra a garrafa! — Caitlyn, precisando colocar de lado um pouco a carga de ser a responsável pela cidade, entrou no clima e foi buscar dois copos.
– Às melhores de Piltover!
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