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2 He Is Unbearable


Notas iniciais
Boa leitura! :)

POV Ally Dawson

Segundo pesquisas, existem 7 bilhões de pessoas em todo nosso planeta Terra. Enquanto outras 7 bilhões de pessoas poderiam ser premiadas com dois ossos a mais nos pés, enquanto outras 7 bilhões de pessoas poderiam ter dislexia, EU fui a premiada.

Quando nasci, meus pais já haviam assinado o divórcio. Eu não tinha dois anos quando minha mãe teve que sair em uma expedição pela África, então tive que ir com meu pai para Nova Iorque, mais especificamente em Manhattan.

Eu cresci com a ideia que meus familiares por parte de pai me botaram na cabeça: minha mãe foi para África e lá morrera. Mas eu nunca acreditei. Dizem que todos os filhos têm uma ligação com a mãe, algo que nunca pode ser quebrado. Quando o filho ou filha está em perigo, a mãe sente que algo aconteceu. Então, eu sinto que minha mãe ainda estava viva, e nada nem ninguém mudaria isso.

Quando completei dezoito anos, meu pai descobriu que sofria de câncer no fígado, e que o tumor já estava se espalhando por mais lugares em seu corpo. Ele conseguiu permanecer comigo por mais quatro meses, e em todos os momentos, todos os dias, eu estava com ele. Na última semana de sua vida, ele contou-me muitas coisas sobre meu passado. Minha mãe ainda estava viva, morando em Miami, e ele ainda a amava; eu tinha um irmão mais novo, filho de outro pai; ele já havia comprado um apartamento em Miami para mim, sabendo eu me mudaria para lá algum dia.

Duas semanas após sua morte eu estava decidida: iria para Miami e encontraria minha mãe e meu meio-irmão.

...

Dormi quase todo o voo até Miami. Eu não conseguia focar meus pensamentos em apenas uma coisa. Quando dormi, sonhei com minha mãe. Tentei formar o rosto dela em maus pensamentos. Eu imaginava uma mulher de meia-idade, com olhos e cabelos castanhos.

Quando todos fomos liberados para desembarcar, tentei me acalmar e não parecer nervosa. Quando pusesse o pé para fora daquele avião, uma nova vida se iniciaria, começaria minha busca por minha mãe, tentarei fazer novos amigos. Mas, o mais importante — tirando a parte de encontrar minha mãe, óbvio -, eu teria que encontrar um lugar diferente para fugir do mundo e desenhar.

Sim, eu desenho. Acho que minha mãe deve amar desenhar, pois pai odeia... quer dizer, odiava. Eu me acalmo quando estou passando para o papel tudo que sinto, é algo tranquilizador.

Peguei minhas malas e andei por alguns minutos, então peguei o primeiro táxi livre que apareceu. Mandei o motorista seguir até o endereço que estava em um papel.

Chegamos no apartamento, paguei ao motorista e fui em direção à minha mais nova casa. Quando destranquei a porta e abri a residência, fiquei totalmente feliz com o que vi.

Não era grande, mas não era pequeno, estava entre o termo. Quase todo mobiliado, o apartamento só ficava melhor a cada passo que dava. As paredes eram completamente brancas, com exceção da cozinha, que tinha uma parede cor marrom BEEEEM claro.

Cheguei em meu quarto e joguei todas as malas que carregava na cama. Arrumar? Quem sabe um dia. Mas agora eu tinha algo mais importante para fazer: encontrar um lugar para desenhar.

Peguei um casaco em minha mala — apesar do calor de Miami — e sai à procura de, quem, sabe uma praia ou praça. Talvez eu pudesse esbarrar em minha mãe, não é mesmo? Não, acho que seria difícil.

Enquanto andava, tentei reparar em cada lugar, pessoa ou cachorro que havia em Miami. Fiquei tentada a entrar no shopping, mas que loja poderia me dar inspiração?

Meu olhar caiu em uma praça logo na esquina de minha nova casa. Casais brincando com seus filhos ou apenas namorando, passarinhos em árvores, idosos jogando milho para os pombos... Esse lugar era perfeito!

Corri feito uma criança até a praça, com um sorriso bobo nos lábios. Estava tudo tão perfeito, mas o som de fleches ao meu lado estragou tudo. Eu detesto tirar fotos! Quando me virei, vi um loiro tirando fotos minhas. Tentei controlar toda minha vontade de matá-lo na câmera, e assim fiz.

Quando a câmera saiu de sua frente, pude ver seu rosto. Seu belo rosto. O cabelo loiro cegante batia no pescoço — pode deixar um homem ridículo, mas nele caía muito bem. Seus olhos castanhos cor de mel eram encantadores e doces, mas não expressavam coisas boas — Pelo menos não naquele momento.

– O que você pensa que está fazendo? — o loiro perguntou. — Essa câmera custa mais que você!

– Quem te deu o direito deu o direito de tirar fotos de mim? — perguntei com irritação. — E eu aposto que você vendeu sua mãe para comprar a câmera, não é?

– Não venha meter minha mãe nisso! — o loiro gritou, levantando-se e ficando incrivelmente alto. — E ninguém me deu o direito de tirar fotos suas, assim como ninguém te deu o direito de jogar minha câmera no chão. — o garoto tentou pegar sua câmera, mas eu impedi, segurando em sua camisa.

Eu poderia discutir um pouco mais com ele, mas minha mãe poderia estar me esperando em algum lugar naquela imensa cidade. Minha mãe...

– Olha, esquece, tá?! Eu tenho mais coisas para fazer do que discutir com um estranho. Mas saiba, loiro de farmácia, que isso não vai ficar assim. Eu vou descobrir quem é você, pagará por tudo que fez. — ameacei.

– Eu fiz muitas coisas, como tirar uma foto! — o loiro deu ênfase as últimas palavras. — E do que você me chamou?

– Loiro de farmácia, será que é surdo? — perguntei com ironia.

– Olha... — o garoto ficou quieto por um instante, como se quisesse controlar sua vontade. Ele deu um longo suspiro e me encarou. Olhos... Ally, volte para o foco! Você está discutindo com ele! — Eu estou tentando ser paciente, mas você não está ajudando. Por favor, será que poderia me deixar em paz? Sabe, me deixar pegar minha câmera, tentar concertá-la e sair daqui?

Olhei confusa para o loiro. Que tipo de garoto é tão molenga à ponto de fugir de uma discussão? Parece que o garoto só tinha beleza mesmo. E que beleza... Consciência, me ajude e traga minha sanidade de volta.

– Marica. — murmurei assim que o loiro se virou, com a câmera em mãos. Ele pareceu querer continuar a discutir, mas continuou o seu caminho em direção ao seu carro. Uma BMW? Parece que o garoto é rico.

Suspirei e me sentei em um banco ao meu lado. Fechei os olhos e respirei o ar puro da praça, o único lugar da cidade grande que ainda tem um pouco de natureza.

Ao senti uma aproximação, um tanto, demais, abri meus olhos, assustada. Uma morena de cabelos cacheados estava na minha frente, com os olhos arregalados. Ela parecia um pouco arrumada demais para estar em uma praça.

– Desculpe, mas você fez isso mesmo?

– O que eu fiz? — perguntei, totalmente confusa e desconfortável. Seu rosto estava próximo demais do meu.

– Acabou de discutir com aquele garoto loiro. É que eu estava procurando ele.

– Ah! — digo, me afastando um pouco da garota. — Ele foi para o carro dele.

– Ah, que pena! — ela se sentou ao meu lado, muito perto de mim. — Eu pensei que ele poderia me levar. Sabe, demorei demais me arrumando e acabei perdendo a hora...

– Me desculpe. — interrompi. — Mas quem é você?

– Patricia Maria De La Rosa. Eu sei, ridículo, não? É por isso que prefiro só Trish.

– Ah, certo. Olá, Trish! Sou Allycia Dawson, mas pode me chamar de Ally. É... Agora tenho que ir, O.K.? — me levantei rapidamente, sem olhar para Trish. Acho que ela é um pouco... intrometida? Não, essa não é a palavra, mas é derivado disso.

Cheguei em meu apartamento, peguei um papel e uma caneta. Desenharei algo que aconteceu no dia, eu faço isso.

Eu poderia desenhar a linda paisagem que vira da janela do avião. Poderia desenhar o rosto que imaginara ser o de minha mãe. Mas, não. O que estava grudado em minha mente e não estava com vontade de sair era o rosto do garoto loiro.

Eu poderia desenhá-lo em vários papéis ou cadernos, pena que era um garoto insuportável.

Continua...