Phaeleh I
11 Capítulo 11 - Culpa
O silêncio ainda era presente naquela aldeia. Tinha sido assim naquele noite por conta do festival em torno de um fogaréu. E ainda seria até que terminasse a madrugada, para os casais seguirem para suas casas e terem algum descanso.
Niels particularmente estava se sentindo um pouco desentendido consigo próprio, ou seja, ele não sabia exatamente o que fazer com o escravo ruivo, ou como puní-lo por haver fugido com o escravo pessoal — super mimado — de Svan.
Ele o tinha trazido ao escritório, arrastando-o pelo braço, até que lhe soltou quando fechou a porta. Não tinha ele sido rude, afinal não se lembrava se alguma vez puniu algum escravo, já que este não era um costume dos Berserkers. Ele se lembrava muito bem o que Svan tinha feito com o guerreiro, cujo mesmo espancou um escravo indefeso.
O homem havia tido o mesmo tratamento provindo de Svan, e depois fora expulso do vilarejo.
Nenhum deles era a favor dos escravos, porém não contra eles. Além de que os guerreiros entenderam muito bem o que lhes aconteceria, se eles usassem de covardia a maltratar qualquer pessoa naquela aldeia.
Depois desse dia, os escravos recentes se aquietaram, e nenhum deles quis fugir ou se rebelar contra qualquer berserker.
Eles não eram bobos. O destino de um escravo era sempre ser um escravo. E comparado com a vida em tantos lugares, aqui era onde eles eram tratados da melhor forma.
Niels não gostava desse povo, eles eram apenas pobres pessoas sem vida, que topavam qualquer trabalho pela própria sobrevivência. Mas além disso, assim como ele via as escravas da cozinha e os demais, sabia que eles eram pobres de cultura, de raciocínio e invejosos.
Ele não se esquecia de seus pais falando sobre como escravos eram praticamente animais, que serviam apenas para o trabalho e que nunca deveria envolver-se com eles porque iria se arrepender.
Seu olhar foi duro quando atingiu o garoto, o mesmo parecia curioso, não exatamente arrependido.
– Você vai me dizer exatamente o que fez com o escravo de Svan. — Niels cruzou os braços sobre o peito musculoso e se recostou contra a porta. Suas sobrancelhas eram baixas e franzidas, enquanto seus olhos em fendas, estudavam atentamente ao pequeno ruivo com as vestes polvilhadas por terra vermelha. Amaldiçoou quando percebeu a bagunça pelo caminho que o garoto havia tomado, iria sobrar a ele limpar aquelas pegadas de lama e lodo.
– E-Eu… Na-Não fi-fiz nada…Nadinha… — Disse ele enquanto brincava com seus dedos e olhava envergonhado para o chão.
Niels reparou que além de todo o pó no rosto dele, havia um rubor muito profundo, e sua mente lhe disse “fofo”, e ele recusou apedrejando-a e consequentemente fazendo uma careta.
– Não minta para mim! — Gritou ele autoritáriamente. Ao menos foi para mostrar a si mesmo que ele também era líder e superior. — Diga-me por que estava com Meine. Svan não gostou nada disso… O albino não era para ter saído de casa… Ele ficou muito nervoso e vai descontar em você!
– Pelo amor de Odin! — O ruivo tremeu por completo e esbarrou na poltrona atrás dele. — Não o deixe me machucar, por favor Niels! — Implorou a ele se ajoelhando e tendo suas mãos juntas como em uma oração. — Eu farei qualquer coisa por você, mas por favor não o deixe que machuque a mim!
Niels ergueu uma sobrancelha. Ele havia sido referido diretamente por seu nome, o que não era aceitável de alguém com a baixa posição daquele pequeno escravo ruivo. Uma se suas sobrancelhas se ergueram, quando reparou que o olhar que o menino levava, não era de temência, mas sim algo como admiração.
O que diabos ele estava admirando?
– Você não teme o nosso lider? — Perguntou de repente incerto. O ruivo apenas consentiu e mordeu seu lábio inferior se impedindo de dizer algo. — Seja franco, diga logo o que eu quero saber. Eu devo puní-lo por ter ajudado na fuga daquele escravo albino.
– Você vai me punir…? — Agora sim, Niels viu um brilho de medo nos olhos do garoto.
Grandes olhos verdes brilhantes, tão cheios de vida, tão cheios de inteligência.
– Não exatamente como está pensando. Eu sou um berserker, e embora eu me baseie pela força, não iria abusar de alguém mais fraco e mais novo do que eu, ao menos que estivéssemos em batalha, sem escolha a não ser a morte.
Com isso, o escravo ruivo pareceu aliviado, o que formou algumas interrogações sobre a cabeça de Niels. Ele se aproximou sorrateiramente, e o garoto se encolheu instintivamente, como se fosse a defender-se de um ataque.
– Onde você tem trabalhado?
O garoto olhou-o sobre seus cílios espessos e escuros. Foi então que Niels reparou no cabelo dele, era uma bagunça, um pouco armado, ondulado, mas um ruivo puro e natural, até mesmo suas sobrancelhas eram ruivas e bonitas. Eram para serem características para ele encontrar-se enojado, incapaz de olhar, porque o garoto não tinha como cuidar de seus próprios cabelos, mas estava sendo o contrário. Pelo amor de Odin, ele era um homem com cabelos que provavelmente viriam até abaixo dos ombros e provavelmente usava somente sabão neutro para lavá-los.
– Estava na lavoura até um mês atrás, agora trabalho na cozinha, Niels.
O segundo no comando apenas mordeu sua própria bochecha interior na vontade de retrucar e dar bronca sobre ser chamado assim de forma tão íntima. Teria de ser “senhor” ou “lider”, algo como superior. Mas Niels, ao mesmo tempo em que estava dividido entre a educação que o garoto deveria manter contra ele, ainda sim estava gostando desse pequeno sentimento de ser desafiado por aqueles olhos verdes, grandes e bonitos.
Ele nunca antes tinha reparado olhos, exceto os de Meine, o escravo albino. Porque, pelo que conhecesse, albinos deveriam ter olhos quase apagados, por que além dos cílios serem brancos, seus olhos deveriam ser de um azul cinzento muito claro, entretanto os olhos de Meine eram escuros e brilhantes. Um contraste que o fez parecer bonito.
Niels não queria achar um escravo bonito.
O que estava dando nele por reparar em escravos?
– Então, a partir de amanhã você começará a viver nessa casa como meu escravo pessoal. — Disse sem rodeios, ao que apontou o dedo no peito do garoto, o cutucando. — Traga todas as suas coisas para o meu quarto. Você também ficará responsável por me alimentar, preparar o banho para mim e manter meu quarto em ordem, entendeu? Seu trabalho será zelar pelo meu bem estar.
Niels cruzou os braços novamente sobre o peito e olhou-o intimidador.
– Está entendido?
– S-Sim! — Gritou ele como se estivesse emocionado, ele tinha até um sorriso, o que pegou Niels em surpresa.
– Você gostou disso? — Perguntou indignado com uma sobrancelha arqueada. — É uma punição eterna, você realmente acha que é bom?
– Oh… — Ele tentou mascarar suas emoções, o que o outro reparou bem. — Não, eu não gostei, Niels.
– Ótimo. Escravos não devem gostar de suas punições. — Revelou a ele o óbvio. — A propósito… Como diabos é seu nome? Coisinha insignificante.
– Sou Rurik! — Respondeu, fingindo um certo pesar. — Estarei as suas ordens de agora em diante. Mas… E quanto ao trabalho da cozinha?
– Você não será necessário lá. Apenas terá de cozinhar nesta casa… — Foi então que Niels, ao se virar para ir embora, pensou nas escravas malditas que Svan ainda mantinha na casa. Das quais, as mesmas eram cobras venenosas que iriam afetar Rurik. E isso lhe deu um certo pavor, que tentou mascarar diante de si próprio.
Esperava ver como Rurik iria suportá-las.
– Mas ande logo, diga-me o que eu quero saber!
– Oh… — Rurik pestanejou. — Encontrei com Mei na floresta. Ele parecia perdido, então eu resolvi ajudá-lo, mas nos perdemos… — Ele percebeu o tedio escrito na face de Niels para não ter de aprofundar o assunto. — Você não quer saber os detalhes, não é?
– Na verdade eu pouco me importo com o que houve. — Ele só estava obedecendo ordens de Svan. Então encaminhou-se para a porta e olhou para trás e para o garoto. — Amanhã, entendeu? Amanhã.
Rurik assentiu repetidas vezes até seu novo amo deixar o escritório. Niels fechou a porta e então ouviu um pequeno gritinho de alegria. Isso o intrigou mais do que tudo, e ele se sentiu completamente confundido por um longo tempo.
–*-*-
Skylar acordou na manhã seguinte com uma baita dor de cabeça. Ele tinha bebido um bocado, mas ainda alegre, ele esteve sóbrio a noite toda. Tinha beliscado aqui, conseguido um beijo ali, mas não levou ninguém para cama, mesmo que a teimosia de seu corpo quase casto estivesse gritando para ele conseguir sexo.
Ele não podia. Seu coração ainda não permitia isso, não o liberava ou o deixava livre para ter qualquer um em sua cama.
Levantou então segurando a cabeça com ambas as mãos em ambos os lados. Estava meio zonzo, porém a sensação logo se dissipou, e com o pouco de coragem que tinha, ele se lavou e se vestiu propriamente para mais um dia de trabalho.
Suas botas pareciam apertadas, a bebida inchava um pouco, quanto a seus cabelos foram mal trançados, porque ele estava cansado. Não vestia nada além de suas habituais calças de couro marrom, botas de cano alto com um exagero de fivelas, e seu casaco de pelugem sobre seu peito nu e exposto.
Era verão, e ainda sim, a brisa era gélida lá fora. Todos necessitavam ter em suas casas uma lareira que fosse suficiente para mante-los aquecidos. Sky já imaginava que pelo jeito, no próximo ano, o inverno seria uma estação realmente difícil e talvez superaria os anos anteriores com vários metros de neve acima do normal.
Isso o fez lembrar de que em breve seria a virada do ano, e como tradição dos berserkers, eles festejavam por uma noite inteira, e tinham um dia inteiro de reuniões amigáveis, brincadeiras e um festival. A noite, era possível assistir também, as luzes mágicas que provinham de trás da montanha dos elfos de luz, afinal as festas que eles tinham, sempre seriam muito maiores de que as de qualquer povo que conhecia.
E de alguma forma, pensar sobre a virada do ano, o fazia lembrar de como divertido havia sido todas as vezes em que esteve com Wray. Seu amigo calmo e tranquilo, tinha um sorriso mágico em datas assim. Ele podia não ser um eufórico, mas certamente era daqueles se sentia carente em relação as pessoas que gostava.
Foi como um nó no coração de Skylar. Durante a última festa ele tentou enganar os seus sentimentos e procurar por alguém como um consolo temporário, ao menos um pouco de diversão ao invés de solidão. Mas isso só pareceu machucá-lo mais.
Cada beijo, cada mulher, nenhuma delas o fez sentir qualquer coisa. Ele até se perguntou se isso não o fazia doente, mas no fim, depois de ter se aliviado duas vezes ao chegar casa, cheio de pensamentos sobre Wray nu e sorridente, ele tinha tido certeza que o fato era o seu coração dolorido.
Tentando afastar aquela núvem negativa de cima dele, Skylar voltou ao seu animo de sempre — superficial — de um cara alegre, espontâneo e cativador.
Ele cumprimentou as mulheres berserkers que o olhavam com grandes olhos, apertou as mãos de alguns rapazes mais jovens que estavam se preparando para algumas aulas com Niels, e foi ao seu primeiro afazer do dia.
– Vocês viram Svan ou Wray? — Indagou a um e a outro e todos eles balançavam a cabeça. Desistindo, Skylar foi trabalhar. Ele chegou no curral dos cavalos que ficava um pouco mais afastado do vilarejo, e foi organizar as baias como sempre fazia. Ele dividia o trabalho do curral com mais dois guerreiros. Wray e Alasd.
Skylar cumprimentou os cavalos e notou que um deles tinha um olhar estranho e não quis cumprimentá-lo com a habitual fungada em sua mão esperando por maçãs. Ele decidiu não ignorar, poderia significar qualquer coisa, como uma doença, um ferimento ou alguma animal estranho no curral. Isso o fez rir, porque frequentemente este lugar era invadido por guaxinins ou gatos do mato.
Afastando o cabelo que já grudava no rosto por conta do suor, Skylar deixou a vassoura de palha de lado, e foi cuidar de alimentar os cavalos com um lanchinho. Hoje seriam cenouras, e enquanto ele assobiava e acariciava os longos focinhos dos animais, ele enchergou algo branco enrolado em um manto de pele e sobre o monte de feno no canto de uma das baias.
Skylar reconheceu imediatamente o dono da cabeleireira alva, sendo Meine, o garoto por quem Wray tinha grande afeição. Isso o fez fazer uma careta, mas ele não seria mal com o garoto, embora tivesse vontade de ser.
– Ei… — Ele chamou baixinho, mas o ser não se moveu. — Ei, Meine… Você está bem?
Enfim ele deu um sinal de vida, movendo lentamente a cabeça e erguendo seu olhar avermelhado de quem havia sucumbido às lágrimas por toda uma noite.
– Meine… O que aconteceu? — Skylar olhou-o surpreso e se aproximou, ao que agachou a frente dele. — Você vai se resfriar se continuar neste lugar…
– Sky… — Meine choramingou e novamente lágrimas encheram os seus olhos prestes a transbordar.
Cortou o coração do ruivo ver a situação do pequeno escravo albino, ele jurava nunca ter visto alguém tão triste em sua vida.
– Por que está aqui? Você fugiu de Svan?
Meine assentiu para a ultima pergunta, abrindo a boca com o intuito de dizer lhe algo, porém as palavras não saíram, apenas suas lágrimas que debulharam e deslizaram por seu rostinho de porcelada.
Sky sentiu-se penalizado pelo outro, ele mesmo não sabia como ajudar, pois não se lembrava quando antes consolou alguém que estivesse profundamente triste. Mas ele simplesmente ficou ali, oferecendo o seu apoio pelo menos, sua presença caso esta fosse de algum conforto, enquanto Meine voltou a enrolar-se em uma bola sobre o cobertor de pelúcia e sufocou soluços contra seus pulsos.
Seja lá o que fosse, realmente havia machucado o garoto. Skylar olhou-o por um tempo, até que permitiu-se afagar os cabelos loiros de Meine, sentindo que o corpo trêmulo passava a se acalmar aos poucos. Ele continuou com o carinho leve, sentindo a sedosidade e suavidade das medeixas do albino.
– Você está mais calmo? Quer conversar? — Perguntou de forma gentil. Meine ergueu a face chorosa e assentiu com um beicinho adorável. Tomando aquilo como um "sim", Sky tentou animá-lo. — Este estábulo está velho, não? — Olhou ao redor e Meine piscou diversas vezes, até imitá-lo, olhando por todo lado. — Precisamos substituir aquelas madeiras, trocar as baias por baias novas... E também consertar a porta, porque ela faz muito barulho, mesmo trancada à corrente.
Meine assentiu, enxugando as lágrimas. Sentando-se com as pernas cruzados, e embolando o cobertor em torno de seu corpo para cobrir o máximo de sua nudez.
– Também estamos com um plano de aumentar o celeiro, isso mais futuramente. Vai ser bom, porque poderemos comprar cavalos mais jovens para os futuros guerreiros que estão por vir.
A verdade era que ele não tinha tanta esperança quanto ao crescimento dos berserkers. Com todos estes problemas quanto as crianças e toda a linhagem que não estava dando certo, Sky temia que chegasse um tempo em que eles — mesmo com a força gigantesca que cada um abrigava — ficasse em desvantagem em uma guerra futura e fosse destruída.
Ele jamais desistiria, pois os berserkers eram sua familia, mesmo que tivesse perdido a sua própria em batalha quando era apenas um adolescente. Ele iria morrer como eles, seus pais e seus irmãos mais velhos, ele iria honrá-los até o final.
Meine fitou-o por um momento, então soltou um lento suspirar.
– Eu gosto de cavalos.
– É mesmo? — Sky perguntou com intusiasmo. — Eu amo cavalos! É mais divertido ainda quando se vai em uma corrida pelo campo em dias quentes. É muito reconfortante... Gostaria de tentar um dia? Eu o levaria em segurança. — Sorriu brilhantemente.
Meine acendeu como o sol refletido no mar.
– Me-Mesmo? — Indagou ele com um sorriso simples no rosto, porém cheio de significado.
Ainda sim Sky viu, que ele não estava ao todo feliz. Seja lá o que fosse, ele iria animá-lo.
– Vamos, Meine. Converse comigo... Conte o que tem te abalado tanto. Eu posso não ser um médico do coração, mas eu sou bom em ouvir. — Olhou-o divertido ao que voltou a afagar os cabelos loirinhos do albino. Meine olhou-o com um pequeno rubor em seu rosto e um brilho especial em seus olhos. — Eu prometo que não direi a ninguém.
– Nem a Suvan?
Skylar riu.
– Nem a ele.
– Hum. — Meine olhou para o seu colo, parecendo não saber como começar. — Wray me enganou.
Skylar congelou. Seu olhar foi cômigo, porém Meine não percebeu isso e continuou.
– Ele disse-me que Van seria gentil comigo e nunca me machucaria, mas... Mas... — Os olhos de Meine voltaram a se encher de lágrimas. — Desculpe... Eu sei que sou um bebê chorão... Mas... Mas... — Meine tinha um beicinho, enquanto tentava o máximo para enxugar suas próprias lágrimas desenfreadas. — Suvan me machucou.
Skylar arregalou os olhos em surpreso. Não se soube ao certo se era por ver Meine reagir tão frágil e indefeso como agora, ou pelo fato de saber que Svan o tinha ferido.
– Como? Onde ele machucou você? — Skylar se aproximou aflito. Preocupado. — Está sangrando?
Meine ergueu os olhos lacrimejantes para ele, mas os desviou quando disse. — Meu bumbum.
Skylar foi petrificado.
O mundo pareceu preto e branco quando o fez.
Quando ele voltou aos seus sentidos, sua expressão era totalmente confusa.
– Svan tentou transar com você? — Perguntou curioso. — Sério? Você está triste por isso? — Era quase engraçado.
– Doeu... — Meine choramingou como um filhote. — Ainda doi... O meu bumbum...
Skylar guardou o sorriso para si mesmo.
– Você pediu para ele parar?
– Sim. — Meine voltou a se encolher, brincando com seus dedinhos magros.
– Bem... Há uma coisa sobre nós, Meine. — Agora o garoto olhou-o curioso. Havia algo sobre os olhos de Meine que sempre o faziam parecer curiosos. — Os Berserkers as vezes fazem coisas sem pensar. Há algo como uma "besta interior". — Simulou as aspas com os dedos. — Isso dentro de cada um de nós.
– Uma besta... — Meine franziu as sobrancelhas, ponderando sobre isso. — Um demônio?! — Ele quase caiu para trás no espanto.
Skylar riu com vontade.
– Não tenha medo, é algo que já nasceu conosco. Você já ouviu dizer que os berserkers costumam ser muito raivosos... Isso é verdade. Mas isso só acontece em batalha, ou quando nossos sentimentos mais profundos são mexidos. Como ameaçar sua família, ou prejudicar aquele que você ama. Entende?
Meine anuiu. Agora muito interessado no assunto.
– Mas também, existem certos momentos em que nossa besta interior assumi o controle quando quer demais alguma coisa. — Skylar olhou para Meine com simpatia. — Não será isso o que fez Svan machucá-lo?
Os olhos do albino foram anormes e o próprio queixo dele caiu em descrença. Skylar percebeu cada reação do rostinho angelical do menino. Suas sobrancelhas loiras se torcerem enquanto ele se sentia confuso, seus lábios deslizando entre os dentes por estar nervoso, as bochechas fofinhas tomarem uma coloração rosada, e até meus aqueles longos e espessos cílios brancos emoldurando olhos de um azul marinhos incrivelmente brilhantes com emoção.
Meine era um livro aberto apenas em suas reações.
Skylar agora entendia porque Wray prezava este garoto. Ele teve ganas de tomá-lo para si próprio, talvez não como um amante, mas somente para tê-lo perto mesmo.
Estranho...
– Quer dizer que... Suvan não me machucou porque foi mau? Ele não é mau?
Skylar sorriu para ele e se inclinou mais perto, cedendo a sua vontade de cutucar a bochecha de Meine com um dedo. Tão fofo.
– Svan pode ser um cabeça dura as vezes... Grita, xinga, diz coisas bem cruéis... Também ser um bocado mal educado quando quer ser... Mas ele não faria algo assim. Não... Não com você. — Concluiu ressaltando a certeza em suas palavras.
Meine sorriu aliviado, e logo fez uma careta.
– Mas ainda dói.
Skylar riu um bocado, mas parou no meio de uma onda de gargalhadas, atônico quando enxergou Svan bem ali, atrás da baia. Recostado e de braços cruzados sobre o peito.
– Li-Lider... — Rapidamente se levantou. Meine, quando notou, embolou-se pior na manta, olhando extremamente chateado para o chão.
– Sky, poderia ir até Wray e avisá-lo que encontrei Meine? — Svan pediu com uma certa gentileza que não possuía nem com seus amigos.
Skylar assentiu. Olhou para Meine e o mesmo deu-lhe um manear de cabeça como se aceitando que ele saísse. Mesmo assim, Sky ficou apreensivo.
Ele tinha crescido sendo íntimo com Svan, mesmo sendo este seu líder, porém ele sempre o respeitou pela posição. Agora seu olhar o fisgou e disse a ele para não ser um idiota e cuidar de Meine ao invés de machucá-lo, porque se não chutaria sua bunda tão duro que o mandaria para o espaço.
Isso foi muito duro.
–*-*-
Svan olhou-o surpreso apenas com o que o olhar de Sky tinha significado. Não sabia que até mesmo seu amigo ruivo poderia olhar da forma como Wray o olhou quando se tratava de Meine.
O que diabos haviam com eles? Todos caindo tão facilmente pelo albino. Bem, ele sabia que não ia bem quando se tratava de Meine também. O garoto tinha algo nele que o estava instigando desde que chegou neste vilarejo.
– Eu... — Svan tentou dizer algo, mas não conseguiu juntar nada em mente para dizer.
Talvez deveria ele se desculpar? Não, isso parecia tão simples. Além de que, o que iria pensar se alguém mais o visse se desculpando à um escravo?
Sim, ele sabia bem, este era um pensamento um tanto discriminador e o fazia sentir-se um merda quando se lembrava dos conselhos de Wray. O rapaz poderia ser mais jovem do que ele, no entanto sua sabedoria era para se admirar.
– Vamos voltar? — Perguntou ele, tentando manter sua voz leve e suave, embora fosse barítono que ecoava pelo galpão.
Meine nada respondeu, mas gritou quando Svan simplesmente o agarrou e o empurrou para cima de um ombro. A familiar forma de levar Meine como um saco de batatas.
– Ei! Me deixe! Me solte! — Meine desperneou, porém Svan deu-lhe um leve tapa em seu traseiro dolorido.
– Cale-se. — Foi o que disse enquanto ajeitava o manto sobre seu escravo e o levava para fora do curral.
Ele atravessou o campo e o vilarejo, todos olhando curiosamente para eles dois, e até mesmo Wray quando os viu, tentou segui-los, mas fora impedido por Skylar. Meine escondeu o rosto nas costas de Svan para não ter o luxo de ver o olhar das pessoas sobre ele. Depois dessa, Meine sabia que ficaria uma semana toda trancado naquele cativeiro.
Svan entrou em sua casa, e antes que atravessasse o corredor, parou na cozinha, ao que todos pararam imediatamente para receber suas ordens.
– Preparem um banquete para dois. — E não precisou dizer mais nada, pois todas as escravas correram em seus afazeres e apressarem suas receitas.
O homem ainda encontrou-se com seu irmão no corredor. Ele pareceu como se quisesse dizer-lhe algo, porém Svan apenas levantou a mão para ele deixar para outro momento.
– Consiga roupas novas e confortáveis para Meine.
– Roupas? Mas... O quê? — Niels ergueu uma sobrancelha.
– Faça o que eu estou lhe dizendo. Meine está sem vestes dignas. Consiga a ele as melhores que encontrar.
Niels arregalou os olhos, mas concentiu.
Svan entrou em seu grande quarto, espaçoso porém vago. Mal decorado e pouco mobiliado. Das janelas, a luz da manhã provinha entre as claras cortinas de linho. Svan trancou a porta, até certo momento tranquilo que Meine estivera quieto e obediente.
Ele o jogou na cama, o que provocou certo gemido do outro.
Mas o garoto apertou os lábios e olhou com raiva para outro lado, menos em Svan.
– Você deve estar zangado... — Ele não devia, ele estava. Svan sentou-se a beira da cama e suspirou, apoiando os braços sobre as coxas quando se inclinou para frente. — Foi aquilo que Skylar lhe disse. Desculpe escutar a conversa de vocês, mas como ele também disse, eu não costumo ser muito educado.
Meine ainda permaneceu imovel, portanto Svan continuou.
– Eu sei que não vai me perdoar tão cedo... — Svan quase se sentia culpado, ou... Sim, ele se sentia um bocado culpado por ter machucado o pequeno garoto. Isso o fez se sentir tão pior quanto um ogro negro. — Talvez não me perdoe nunca por roubar sua virgindade de um modo tão grotesco. — Ele engoliu em seco, não se lembrava da última vez que havia se desculpado com alguém. — Desculpe-me.
Meine pareceu relaxar um pouco agora. Ele olhou na direção de Svan que estava de costas para ele, mas nada disse.
Svan se levantou e foi até seu velho guarda roupa mógno.
– Eu vou banhar-me. — Disse ele sem necessidade. — Oh... — Ele encontrou uma camisa velha e desgastada, porém limpa. — Tome isto, use como roupa de dormir.
E foi para detrás do biombo com uma toalha em mãos. Ele sabia, um escravo não costumava ganhar presentes de seu amo, era um tanto... Sem necessidade, desde que eles eram vistos como simples animais de trabalho. Embora Meine tivesse o trabalho de um amante.
Svan balançou a cabeça, frustrado. O quão difícil era para ele lidar com um escravo, e ele estava ponderando em como deveria fazer para Meine perdoá-lo. O que diabos lhe ocorria agora?
Seu peito estava dolorido e sentia-se como lixo. Não era para ser assim. Ele já o tinha encontrado. O que mais precisava?
Svan estava tão cunfuso e problemático.
Por Odin! Ele se afundou na banheira até o esquecimento.
Continua...
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