Phaeleh I

12 Capítulo 12 - Aversão


Notas iniciais
Miky-san: Olá queridos *-* Espero que gostem do capítulo! Até próximo domingo! Boa leitura!

Naquela manhã, Meine havia acordado sozinho na cama.

Na verdade, estava bastante agradecido por isso. Não tinha ânimo para encarar Svan e seu dono também não parecia disposto a confrontar o problema entre eles. Para sua total consternação, Svan sequer lhe dirigia a palavra desde o pedido de desculpas dias atrás. Saía do quarto antes do amanhecer e apenas retornava quando Meine já estava dormindo, de forma que seus horários não se cruzassem.

Estaria mentindo se dissesse que não preferia assim.

A mágoa em seu coração era tão terrivelmente forte que ofuscava a dor física que diminuía muito lentamente. Meine se sentia quebrado em vários aspectos, e mais sozinho do que jamais foi.

Seus olhos se abriram como pratos quando, ao se virar, encontrou uma flor ao seu lado na cama. As pétalas eram azuis e sua haste estava coberta por pequenos espinhos. Era muito bonita.

E fez a dor em seu cerne aumentar.

Em sua cabeça, buscava compreender e perdoar Svan, porque não o havia machucado intencionalmente, mas não conseguia. Era impossível. Meine não era rancoroso – na verdade, costumava perdoar bastante rápido. Foi-lhe ensinado que deveria cultivar boas emoções e transmiti-las aos que o rodeavam. Entretanto, agora via-se incapaz sequer de pensar em Svan sem se lembrar da noite de terror que compartilharam.

Se Svan achava que colocar flores em sua cama o faria relaxar e o acolher de braços abertos outra vez, estava muito enganado.

Sentou-se, balançando a cabeça para se desvencilhar de pensamentos indesejados. No mesmo instante, batidas na parede o fizeram se retesar instantaneamente. Sua coluna ficou rígida – Svan não batia antes de entrar, então, deveria ser Wray ou Niels.

Niels era bastante sincero sobre seu desprezo por escravos, e Meine não se preocupava realmente com a necessidade de ter de enfrentá-lo hora ou outra. Mas, se fosse Wray...

Não queria vê-lo. Wray poderia lhe ter avisado do que esperar, mas optara pelo silêncio. Traíra sua confiança, mas não tanto quanto Svan. Ah, não, Svan destruíra seu coração. Com aquela historinha de “peça e pararei”. Uma ova! Nunca lhe falaram sobre a besta, fosse o que fosse.

–- Mei? Posso entrar?

O alívio o inundou quando reconheceu a voz de Rurik.

–- Sim!

A pele se ergueu e a cabeça ruiva e despenteada surgiu a sua frente. Rurik sorriu, entrando efusivamente no aposento. Desceu a pele e praticamente correu para perto da cama, trazendo nos braços uma muda de roupas.

–- Bom dia, Mei!

Rurik lhe entregou as roupas e Meine sorriu, levantando-se devagar. Ainda estava sonolento e um pouco cansado por tudo o que estava acontecendo ultimamente. Vestiu uma cueca de lã que lhe chegava até os joelhos por debaixo da calça justa marfim. A túnica branca era adequada ao seu tamanho e o cinto na cintura possuía pequenas adaptações para que portasse armas. Enrolou tiras grossas de lã em torno das canelas, desde abaixo dos joelhos até os tornozelos, para assim se proteger do frio e se proteger quando andasse na floresta. Rurik lhe ajudou a calçar os sapatos de couro de cano longo. Quando esteve vestido, ele e o outro escravo se sentaram no chão – Meine evitava ao máximo proximidades com a cama.

Aquele quarto era bastante asfixiante desde o ocorrido entre ele e Svan. Estava constantemente sentindo que as paredes caíam sobre si, esmagando-o, confinando-o. Cada parte daquele cômodo lhe relembrava da sua primeira vez.

–- Como você está? – Meine forçou um sorriso.

Rurik sorriu amplamente.

–- Perfeitamente bem, se quer saber – suas bochechas coraram e ele possuía uma expressão satisfeita – Eu... não trabalho mais nas cozinhas.

Meine arqueou as sobrancelhas em surpresa.

–- Por quê?

Rurik molhou os lábios e aprumou os ombros em uma postura orgulhosa.

–- Niels me pediu a Svan, que lhe permitiu, assim agora trabalho como escravo pessoal de Niels.

Meine sentiu seu sangue evaporar pelos poros pelo terror que lhe cravou garras no coração.

Rurik passaria pelo mesmo que ele?

–- E... o que faz isso?

–- Eu devo cuidar dele. Cuidarei de seu banho, de sua alimentação, de todas as suas necessidades.

Meine engoliu um suspiro aliviado e forjou uma careta, lutando por parecer como sempre era. Mas, em seu âmago, sabia que aquele Meine fora destruído junto com a confiança que depositara em Svan.

Deuses, como fora ingênuo.

–- E por que ele fez isso?

Até onde sabia, Niels desprezava escravos.

Rurik se encolheu, desviando o olhar.

–- É meu castigo por ter fugido com você na floresta.

–- Mas você não fugiu comigo.

Rurik negou com a cabeça.

–- Está tudo bem. Prefiro trabalhar para ele do que permanecer na cozinha.

Meine não entendeu aquele raciocínio, mas resolveu aceitar. Preocupava-se com Rurik, mas, então, mal podia cuidar de si mesmo, pior ainda de outros. E Rurik parecia feliz, então, esperaria que não fosse ruim ser o escravo de Niels.

Quando o estômago de Meine roncou alto pela fome, os dois se levantaram. Caminharam para fora do quarto, conversando banalidades baixinho, até chegarem à cozinha. Hilda lhes arranjou pão velho e hidromel e Meine os devorou sem dar tempo de saborear. Mal sentiu o gosto. Tudo o que passava em sua mente era se alimentar o mais rapidamente possível para sair daquela casa.

Sabia que estava recebendo olhares depreciativos – ele realmente não era querido naquele lugar.

–- Rurik! – a voz de Niels o fez pular sobre o tamborete no qual sentara na cozinha enquanto comia. Rurik estava de pé ao seu lado e estremeceu com o chamado. Niels logo se revelou na entrada da cozinha, inexpressivo como de costume.

–- Sim, Niels?

Um tique de afobação pulsou na têmpora esquerda de Niels.

–- Estou com fome. Sirva-me.

–- Sim, Niels.

Niels quase franziu as sobrancelhas. Foi uma rápida contração, que teria sido engraçada de ver, se Meine não estivesse desconfiando de todos ao seu redor.

–- Agora.

–- Sim, Niels.

Niels se virou e saiu como um tornado da cozinha. As mulheres oscilavam o olhar curiosamente entre Rurik e o local por onde o irmão do chefe desaparecera segundos atrás. Elas pareciam querer dizer algo, mas se contiveram. Rurik, sem pressa alguma, recolheu em um prato de madeira pães pretos, uvas e um pedaço de carne. Logo encheu um caneco de cerveja e partiu, piscando um olho para Meine em cumplicidade.

Se seu amigo estava feliz com sua situação, ele nada tinha a dizer.

Quando esteve solitário, as mulheres passaram a tratá-lo como se não existisse e muitas vezes esbarravam nele propositalmente, por muito pouco não o derrubando do tamborete. A vida estava cada vez mais difícil naquele lugar, fazendo-o desejar ainda mais sair dali.

Por muito tempo, tentara viver bem em sua nova posição social – um cão, um escravo. Sabia que fugir era inútil – ele não era incrivelmente rápido ou assustadoramente forte. Svan logo o capturaria e o castigaria terrivelmente por sua insubordinação. Então, consciente de que ser obediente era a melhor saída, tentou buscar os pontos positivos de toda aquela merda. Era bem alimentado, possuía uma cama macia ao invés de o chão como todos os outros escravos. Svan não o surrava quando era desagradável. E estava vivo.

Mas, agora, tudo o que queria era ir embora. O lugar que pensou não ser tão ruim por ter Wray ao seu lado era terrível. As pessoas nas quais confiava lhe tinham ocultado importantíssimas informações, tinham-lhe traído. Quebrado. O que deveria ser prazeroso se tornou odioso.

Meine estava chateado. Estava magoado. Estava irritado. Ele nunca havia sentido tanta confusão emocional em sua vida e aquele torvelinho caótico o estava enlouquecendo. Quanto mais pensava sobre o assunto, mais confuso se sentia. Não sabia como resolver o problema e sabia que todos a quem talvez pudesse pedir conselhos defenderiam Svan, justificando seus atos.

Estivera tão imerso em seu mundo de divagações, que sequer notara certa aproximação de si. Quando ergueu o rosto, uma sombra se alongava sobre ele e um quadril muito familiar estava perto demais de sua face. Meine se levantou abruptamente, derrubando o tamborete no chão. Ouviu Hilda grunhir, desgostosa.

–- Meine – Svan disse baixinho – Pode vir comigo?

E desde quando Svan pedia?

Sua boca se abriu para uma negativa, mas então, pela visão periférica, notou que as escravas os encaravam curiosamente, provavelmente esperando por uma oportunidade para vê-lo ser humilhado e subjugado. Meine pressionou os lábios e, quieto, rumou para a sala. Não queria conversar com Svan e não pretendia ser simpático para lhe desencardir a consciência.

Parou ao lado da lareira apagada e cheia de cinzas e cruzou os braços sobre o peito. Turfa queimava na cozinha, esquentando a casa e aromatizando-a suavemente. Meine olhou dentro dos olhos de Svan, aguardando que iniciasse seu monólogo. Svan, por sua vez, passou a mão pelo cabelo naquele familiar gesto nervoso.

–- Eu quero que venha comigo lá fora. Tenho... algo para mostrar a você.

Meine reuniu a coragem em seu interior.

–- E se eu não quiser ir? – disse em um tom baixo e sereno. Svan uniu as sobrancelhas em sua familiar carranca.

–- E por que não quereria?

–- Por que eu quereria? – rebateu.

Svan semicerrou os olhos ameaçadoramente.

–- Então, quer dizer que também tem um temperamento arisco, Meine? – Meine não saberia dizer se havia ironia ou diversão na voz de Svan. Talvez fosse uma mistura de ambos. Meine imitou um gesto que Svan costumava fazer quando não queria responder: arqueou uma sobrancelha. Svan bufou, exasperado – Já entendi – e ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo – Não vou forçá-lo.

–- Com licença, amo – disse sem muita emoção, forçando uma reverência e se voltando na direção da escadaria que levava às habitações. Quando uma mão se fechou em seu ombro e o puxou de volta, ficou rígido. Sua mente se encheu novamente dos seus próprios gritos aflitos implorando que Svan parasse o que fazia, porque estava doendo...

–- Meine.

–- Sim, amo?

Meine desviou o olhar, tragando o nó em sua garganta.

–- Pare de me chamar assim. – Svan disse baixinho – Diga Van. Ou mesmo Suvan. O que quiser, mas não me chame de amo.

–- Sinto muito, amo.

Svan apertou seu braço.

–- Meine! Estou mandando parar!

Eu também pedi que parasse...

O pensamento repentino o fez se desvencilhar rapidamente de Svan. Jurara a si mesmo que não pensaria mais como uma vítima, como um coitado. Se não se fortalecesse, continuaria à mercê dos outros, e não desejava mais depender de ninguém.

Ele estava tão ferido.

–- Perdão, meu senhor.

Svan se afastou com um grunhido e respirou fundo, buscando se acalmar. Ele sentia como se Meine fosse agora inalcançável para ele. Era como se eles fossem dois estranhos novamente, e agora já não sabia como agir com seu escravo. Era estranho como não via Meine como algo insignificante – agora que Meine estava apagado para ele, notara o quanto necessitava daquela luz que parecia sempre vir dele.

O Meine que o acalmava, o Meine que sorria, que era inocente... Parecia ter morrido. Ou sido tão profundamente enclausurado, que tudo o que restara fora um garoto bonito e quebrado. E isso matava Svan por dentro, por mais que não admitisse.

Claro que Meine não era mais inocente. Svan lhe arrebatara isso.

Não pretendia se desculpar novamente; nunca se desculpava, aquela fora uma única concessão. Ele era o Chefe tribal, e um líder jamais se curvava ante ninguém. Principalmente ante um escravo.

Mas como faria Meine sair daquele casulo?

–- Meine – forçou um tom gentil. Ele realmente tentou. – Acompanhe-me.

Ele se aproximou de Meine. O elfo não se moveu, permanecendo com os pés plantados no chão, tombando a cabeça para trás para poder continuar olhando para Svan.

Ótimo.

Svan, notando que podia avançar mais um pouco, estendeu a mão na direção do garoto, tocando sua cintura. Assim que seus dedos entraram em contato com a lateral de Meine, o garoto enrijeceu e pulou para longe como um gato acuado.

Meine não suportava seu toque.

E por que aquilo o incomodava?

Naquele mundo, era bastante natural que os donos forçassem seus escravos. Eles eram seus pertences, suas propriedades e, como tal, deveriam ser irrevogavelmente submissos. Deveriam aturar o que seus mestres faziam, independentemente do quão prazeroso ou desagradável fosse. Não era como se Svan estivesse errado.

Mas ele se sentia errado. Ele se sentia cruel.

Não esperava ver em Meine algo precioso, mas entendia que assim era. E Wray tinha razão – ele tinha de ser gentil com sua coisinha diminuta.

Svan gesticulou para fora.

–- Pode me acompanhar? – perguntou baixinho.

Se alguém o ouvisse pedindo educadamente a um escravo, os boatos que se espalhariam poriam em dúvidas não apenas a sua sanidade, mas, principalmente, sua força para liderar. Era como ver um leão lamber amistosamente uma gazela.

Svan seguiu para fora da casa quando teve certeza de que Meine estava em seus talões, receoso, porém ainda o seguindo. No exterior, Sky e Alasd, os cavalariços, seguravam as crinas de dois cavalos imponentes e musculosos, que aguardavam seus cavaleiros tranquilamente, ignorando a balbúrdia matutina do clã. Pelo canto do olho, Svan viu a expressão de Meine se tornar surpresa e curiosa e aquilo o acalmou infimamente. Sky sorriu ao seu escravo e cumprimentou Svan com um aceno de cabeça.

–- Chefe – Sky disse com alegria, estendendo-lhe os sementais.

Meine olhou bem para o garanhão negro, estendendo muito lentamente a palma. O animal bateu um casco no chão, mas o elfo sequer titubeou.

–- Cuidado – Alasd disse – Ele é muito arisco.

–- Só Svan pode montá-lo.

Meine não pareceu ouvi-los. Ele deu um passo adiante. O cavalo cabeceou, resfolegando, erguendo a cabeça. Svan ficou tenso.

–- Meine, espere...

Meine tocou o focinho do semental com a palma. Svan já estava vendo sua montaria abocanhando a mão de Meine, quando, para a surpresa de todos, o menino riu e o cavalo bufou em sua face, como se o cumprimentasse. Três pares de sobrancelhas se arquearam naquele momento.

–- Como fez isso? – Skylar parecia totalmente encantado, como se visse uma mágica assustadora diante de si. – Ele não gosta de pessoas.

Meine sorriu.

–- Eu me dou bem com animais desde criança – disse com certa satisfação.

Svan começou a pensar se isso não era uma característica élfica.

Meine se voltou para ele com um amplo sorriso, abrindo a boca para falar... Algo que morreu instantaneamente quando seus olhares se encontraram. A alegria findou em segundos e sua expressão se tornou circunspeta e ilegível. Ele se virou para o cavalo, tomando a liberdade de lhe afagar o pescoço.

Svan sentiu uma punhalada incômoda no peito. Não sabia o que lhe passava – contraíra algum mal-estar? Aquilo era tão estranho...

Aproveitando a distração de Meine e que não podia ficar mais um dia mantendo aquela distância abismal entre eles, aproximou-se a passo resolutos e agarrou o elfo pela cintura, erguendo-o do chão. Meine grunhiu um protesto, surpreendido e incomodado com seu toque, mas Svan tentou não se importar. Colocou Meine sentado sobre o cavalo negro que nunca aceitara ninguém além de ele mesmo e o menino rapidamente agarrou a crina do semental com uma mão, pondo a outra sobre o flanco macio para se equilibrar. Seus olhos estavam muito arregalados.

–- Siga-me – Svan grunhiu.

Ele foi até o cavalo cinza perto de Alasd e, segurando a crina longa e branca, montou habilmente. Viu, então, Meine se acomodar, montando escarranchado sobre o cavalo negro, segurando a crina. Svan esporeou sua montaria com batidinhas de seus calcanhares e o animal iniciou um galope lento. Meine estava ao seu lado, um pouco atrás, olhando para baixo como se quisesse se certificar de que não passara por cima de ninguém.

Eles teriam algumas horas de trote até chegarem ao seu destino, mas tudo valeria a pena posteriormente. Estava bastante confiante sobre isso.

–*-*-

Skylar se sentia bastante satisfeito pela iniciativa de Svan. Pela primeira vez, ninguém precisou dar um conselho ao cabeça-dura para que arranjasse um método mais eficaz para fazer as pazes com seu garotinho precioso. Esperava que eles se entendessem, ou Svan ficaria irascível com todo mundo.

Enquanto andava pela aldeia, sendo cumprimentado por todos, sentiu que agora que estava conhecendo Meine, ele não tinha realmente como ser amante do seu Wray. Meine era muito bobo quando se tratava dos prazeres da carne e... A julgar por sua reação à besta de Svan, aquela também havia sido sua primeira vez.

O alívio que o embargou por saber que Wray não tinha nada além de amizade com o menino era tão grande que parecia não caber em seu corpo. Ele sorria abertamente para todos que passassem por ele, não por simpatia, mas por alegria. Ele queria ver Wray naquele mesmo momento e...

Beijá-lo.

Ignorou a pontada no peito, proveniente de seus sonhos impossíveis. Wray não o via como nada além de um amigo irritante. E, por algum motivo, lembrou-se de quando eram crianças, quando brincavam naquele riacho. Foi uma época tranquila de travessuras, quando ficar nu diante do outro não significava nada. Mas, então... A adolescência chegou. E o corpo sem importância de antes ganhou um significado maior aos seus olhos.

Cada vez que se banhavam juntos, queria vê-lo. Cada extensão da pele branca e macia, cada membro de seu corpo... E, à medida em que sua sexualidade amadurecia, sentia que Wray não era mais apenas seu amigo e irmão de armas. Começou a desejar coisas que o envergonhavam, principalmente porque eram ambos homens. Mas era um impulso tão intenso, tão descontrolado, tão doloroso... Ansiava por tocar Wray, fosse no ombro, fosse no rosto – ou o corpo inteiro.

Os banhos começaram a se tornar insuportáveis. Ele queria lamber os mamilos de Wray, tocá-lo com intimidade, abraçá-lo, fazer amor com ele, dizer o que sentia, abraçá-lo outra vez, ou apenas segurar sua mão. Estava se tornando ganancioso e nada mais era o bastante.

Ele precisava de Wray.

Tentou superar com mulheres. Não funcionou. Não funcionava.

E piorava.

Antes que percebesse, havia caminhado inconscientemente para a casa de Wray e agora estava parado como um idiota diante da entrada, como se esperasse um empurrão divino que lhe dissesse se deveria entrar ou partir. Mordeu o lábio inferior, a cabeça fervilhando de dúvidas e indagações – entrar? Ir embora? Entrar? Ir embora? Entrar? Ir embora? O que fazer?

Bom, não houve seu tão esperado empurrão divino, mas ele entrou. Afastou a pesada pele para o lado e adentrou o espaço. Sentiu o cheiro saboroso do almoço sendo preparado por Aricin, o escravo mudo de Wray. O garoto não interagia com ninguém por conta de antigos traumas e Skylar acreditava que ele apenas aceitava o convívio com Wray por Wray ser tão doce e carismático.

Ah, sim, este era um dos pontos fortes de Wray. Ele era cordial com todos, como se não houvesse distinção. E era bastante protetor com quem se importava. Provavelmente por isso Aricin não se suicidara.

Silencioso para não chamar a atenção, Skylar rumou para o corredor das habitações após a sala. Moveu-se diretamente ao quarto de Wray, tão cheio de si como se fosse o próprio dono da casa. Afastou a pele da entrada do aposento de Wray a um lado e entrou, esquadrinhando o lugar em busca de...

Merdas divinas.

Sua boca caiu e seus olhos se arregalavam conforme a compreensão da cena era absorvida muito lentamente por seu cérebro. Wray... Wray estava dentro da tina, banhando-se. Estava de costas para Skylar, mas... Dentro da água morna. A luz que entrava pela janela ressaltava as gotas que deslizavam por seu corpo. A pele pálida e molhada, os ombros largos e magros, as costas forjadas por músculos delgados...

Skylar nunca desejou tanto ser uma barra de sabão como naquele momento. De preferência, aquela que seu amigo deslizava pelo peito. De repente, sua boca secou e teve de molhar os lábios. Ficou muito silencioso, contemplando o que vira apenas durante a tenra juventude. Os dedos magros e longos de Wray, tão elegantes e belos...

Pelos deuses, devia parar de admirar todas as partes do corpo de seu amigo. Tudo lhe parecia lindo.

Quando a mão de Wray desapareceu sob a água, Skylar prendeu a respiração. Não estava vendo, mas sua mente foi criativa o bastante para suprir cada detalhe – a mão descendo pelo ventre, segurando o próprio membro, percorrendo da base à ponta, para retornar à base e esfregar as bolas...

Merda.

Como um banho simples podia ser tão erótico?

Skylar respirou fundo. Sabia que estava excitado, pois a calça estava lhe causando uma dor gostosa e insuportável ao mesmo tempo. Sabia que estava sendo pervertido, totalmente depravado, principalmente quando sua ereção pulsou, aumentando ainda mais de tamanho, só por ver Wray afastar os longos e pálidos cabelos dos ombros, revelando a nuca. Ele lavava as pontas das mechas longas, totalmente inconsciente de que era espiado. Totalmente hipnotizado, Skylar sequer conseguia respirar. Antes que se desse conta, estava esfregando sua ereção com uma mão por sobre a calça, com os dentes trincados. O prazer da fricção dolorosa se instalou dentro dele.

Tantos anos desejando, tantos anos imaginando, contentando-se com sonhos eróticos ao invés de uma realidade mais satisfatória. Estava descobrindo naquele momento que estava em seu limite.

Quando Wray mergulhou na tina para se lavar, ele soltou o ar por entre os dentes em um suspiro estrangulado.

Até quando poderia aguentar aquela situação?

Ele estava eternamente em um ciclo de inseguranças – Se eu me declarar a Wray, e ele me rejeitar? Então pensava que era melhor ser seu melhor amigo, assim estariam sempre juntos. Mas não é o suficiente, eu o quero muito. E começava a desejar se declarar. Mas, e se ele pensar que sou um depravado por querer outro homem? Então se assustava outra vez, e pensava que talvez fosse mais aconselhável manter aquela relação tensa que tinham. Mas eu preciso dele. Tenho de lhe dizer o que sinto. E voltava ao começo: se eu me declarar a Wray, e ele me rejeitar?

Wray emergiu, de pé, a água escorrendo por seus cabelos longos, pelas nádegas redondas e bonitas, pelas coxas torneadas e firmes. Skylar rapidamente recuou, tropeçando nos próprios pés, até chocar as costas contra a parede. A pele tornou a se fechar, ocultando de sua vista o que tanto desejava ver. Seu peito subia e descia rapidamente, o coração desvairado, galopando no peito. Mas era capaz de respirar – o ar parecia não ser o bastante.

Eles jamais pertenceriam um ao outro. A consciência disso o assustava.

–*-*-

Meine se sentia incomodado. Não estava acostumado a longas cavalgadas e seu traseiro já se encontrava dormente pelo passeio ininterrupto. Svan o guiava pela floresta há bastante tempo. O sol incidia por entre os galhos farfalhantes e uma dança de sombras se realizava no chão. Os cascos dos cavalos quebravam gravetos e esmagavam folhas secas. Passarinhos cantavam e chilreavam por todos os lados e Meine jurou ter ouvido um sapo coaxar em algum lugar dali.

Svan estava vestindo apenas uma calça clara, descalço e com o peito desnudo. Meine ainda o achava imperiosamente belo, mas não significava que era capaz de perdoa-lo ainda. Seu coração doía mais do que qualquer parte de seu corpo – seus sentimentos foram mais lesionados. Mesmo que lhe dissessem que não fora culpa de Svan, que não fora proposital, que era algo relacionado ao instinto bestial dos Berserkers, ouvir e entender eram completamente diferentes de aceitar.

E ele ainda não tinha aceitado. Acreditava também que, mesmo quando aceitasse, ainda seria difícil se esquecer do que acontecera a cada vez que Svan o tocasse. Não que estivesse planejando perdoá-lo – ainda não. Nem mesmo sua consciência estava preparada para tal.

De repente, Svan ergueu a mão em um gesto que interpretou como sendo para que parasse. Meine puxou a crina de sua montaria, que imediatamente obedeceu sua ordem, estagnando. Svan apeou com a elegância que apenas um guerreiro habituado a montar e a desmontar consecutivas vezes ao dia poderia ter. Ele guiou sua montaria até a sombra de uma árvore. Meine não esperou que viesse ajuda-lo – não suportaria seu toque. Não ainda.

Quando apeou, pisou em falso, desequilibrando-se. Viu o chão rapidamente se aproximando de seu rosto. Subitamente, um braço envolveu sua cintura, mantendo-o firme em seu lugar. Meine ofegou, tanto pelo susto da queda quando pelo alívio por não ter caído. Svan o aprumou, firmando-o no chão. Mas logo se afastou, provavelmente consciente do quanto seu toque era desagradável.

–- Venha comigo – disse em seu habitual tom rude, muito embora houvesse uma leve nuance de ternura que Meine não soube identificar o motivo.

Era por ele?

Não, não se aferraria a essa esperança. Svan não o via como nada além de um escravo, de um cão que ganhara de presente do irmão.

Eles seguiram o caminho mais tortuoso andando. Era uma subida íngreme demais para os cavalos, cheia de raízes e rochas lisas interpostas em seu caminho. Enquanto Svan avançava rapidamente, Meine sentia dificuldade para segui-lo – demorava a conseguir equilíbrio e temia cair. Quando seus pés não se enganchavam em raízes, os sapatos deslizavam nas pedras, desequilibrando-o. E, caso caísse, morreria. Era um caminho terrivelmente perigoso e ele se recusava a pedir que Svan esperasse.

Deuses, precisava de um tempo só para si. Ficar sozinho, longe dos Berserkers, completamente ilhado em seu próprio mundo. Apenas assim poderia pensar com calma, sem interferências externas em seu julgamento.

Svan subia rapidamente, passando por sobre as raízes, saltando de pedra em pedra. Sua agilidade era notável, como se fosse um felino. Quando notou que estava indo rápido demais, ele parou e esperou, observando todo o esforço do caminho percorrido por Meine.

Meine soprou sua franja, ofegante, sentindo os músculos das panturrilhas completa e dolorosamente retesados.

Aonde estavam indo?

–- Meine.

Ele ergueu o rosto ao som da voz de Svan. O berserker estava sobre uma pedra acima de onde ele estava, com uma mão estendida para ele. Por um longo momento, Meine apenas encarou aquela palma. As cicatrizes, os calos, a aspereza da pele. Tudo em Svan era rude e extremamente masculino. Hesitante, estendeu a mão. Não tinha certeza se deveria ou não aceitar a...

Não teve tempo para pensar a respeito, pois Svan agarrou sua mão e o içou para onde estava como se não pesasse nada. Meine caiu de encontro ao peito forte e nu de Svan, que estava frio pelo vento que lhe acariciava a pele. Meine engoliu em seco, sentindo o coração se acelerar no peito.

–- Vamos juntos.

Meine assentiu com a cabeça, dizendo a si mesmo que apenas aceitara porque não queria ter medo constante de cair.

Eles prosseguiram com a escalada em silêncio, cercados pela natureza, pelo vento fresco. Tudo aquilo era revigorante para Meine e ele se sentia totalmente em casa ao estar se embrenhando em uma área completamente desconhecida, onde só havia energias boas. Sentia seu corpo relaxando, fortalecendo-se aos poucos. Ele nunca havia se sentindo tão em paz na vida. Inalou profundamente o ar fresco, deleitando-se com a sensação que o embargava.

Svan o guiou para mais e mais alto. A demorada escalada, que antes se provara cansativa e lhe exigira um esforço hercúleo, agora, com os dedos entrelaçados aos de Svan, estava se mostrando a melhor atividade que já realizara em seus parcos dezenove anos de vida. Gradativamente, o aclive foi amenizando, tornando-se menos exigente, até começar a se estabelecer, tornando-se plano. Por fim, Svan saltou a última pedra e o puxou para cima, ajudando-o a subir. E lá em cima, no alto de tudo, havia uma ampla clareira, coberta pelo verde e por um campo longo e bonito de urzes. Era um mar alegre de flores rosas, roxas e violetas. O perfume era espelhado pelo vento, de um doce suave que não lhe agredia os sentidos. O sol banhava toda a área aberta, ressaltando as cores das flores.

Meine nunca havia visto nada tão belo em sua vida. Estava tão maravilhado que mal se deu conta de que largara a mão de Svan. As flores se estendiam por onde quer que olhasse, encerrando-se de um lado quando a floresta começava e do outro, quando um abismo abria uma vala, por onde corria um rio entre as pedras. Meine nunca havia se sentido tão bem em sua vida. Para onde quer que olhasse, havia natureza, havia boas energias.

Ele se virou para Svan, incapaz de esconder a surpresa e a admiração que o inundavam. Svan passou a mão pelo cabelo e logo coçou a nuca.

–- Eu sei que me perdoar não vai ser fácil – ele disse, virando o rosto como se fingisse olhar para o paredão de pedras do outro lado do rio. – Eu entendo. Mas eu gostaria de tentar – e virou o rosto para Meine, agora olhando-o intensamente nos olhos – Eu realmente quero que me perdoe, Meine.

Meine se voltou completamente para Svan. Eles estavam separados por alguns metros e, mesmo com Svan falando baixo, como se temesse ser ouvido, Meine ainda compreendia suas palavras.

–- Por quê? – perguntou baixinho – Por que meu perdão é importante para você?

Svan levou as duas mãos aos cabelos, bagunçando-os. Meine poderia ter rido, se a resposta para aquilo não fosse tão importante para ele. Não entendia por era tão imprescindível ouvir e se decepcionar, mas, uma parte dele, que descobrira possuir apenas depois de sua chegada ao clã Berserker, era ousada o bastante para desejar ser honesto e ouvir tudo com clareza. Não queria mais ser mantido no escuro – queria saber de tudo. Do que esperar.

Os olhos verdes de Svan pareciam atormentados. Ele franzia tanto o cenho que suas sobrancelhas poderiam se tornar uma única. Seus lábios estavam pressionados fortemente em uma linha tensa. Foi quando Meine entendeu: Svan não estava pronto para falar de sentimentos. E, apesar de sua ingenuidade, Meine sabia que seu coração só estava sofrendo como estava porque houve ali, em seus sentimentos, o que ferir.

Ele estava se apegando rapidamente a Svan. Ele sentia muito carinho por ele.

E isso era errado. Era errado demais para um escravo. Um dia, Svan teria de esquecer-se dele, pois deveria se casar. Não compartilhariam mais o mesmo quarto, não se veriam mais com a mesma frequência. Mesmo que permanecesse como amante, nunca seria o primeiro nos pensamentos de Svan.

Então Svan teria filhos. E Meine permaneceria sozinho, vazio, almejando e almejando o que nunca teria. Aquele amor, que há muito desejara para poder levar para ver o pôr-do-sol na praia de seu clã, bom, ele nunca existiria. Isto porque sentia, em seu cerne, que Svan desbravara seu apego como o saqueador feroz que era.

Por isso estava tão magoado, tão irritado, tão ferido. Entregara silenciosamente seu coração a Svan naquela noite, e Svan o destruíra.

Svan também não respondeu sua pergunta.

–- Eu entendo – murmurou. Svan o olhou como se lhe tivesse crescido um rabo na bunda.

–- O quê?

Ah, ele realmente não tinha entendido?

–- Disse que entendo.

–- O que você entende?

Meine balançou a cabeça e lhe deu as costas, olhando para o campo de flores. O lugar era tão bonito que desejou saber desenhar com perfeição para salvar para sempre a imagem daquela paisagem.

–- Por que não me disse isso em casa? – perguntou apenas por curiosidade. Sentiu mais do que ouviu a aproximação de Svan.

–- Nunca conseguimos ficar completamente em privacidade, Meine. Sempre há escravos e obrigações e problemas por todos os lados. Eu queria falar com você em um lugar onde se sentisse à vontade.

Meine olhou para o enorme homem ao seu lado e sorriu sem mostrar os dentes.

–- Obrigado – disse. Svan o olhou com surpresa e pareceu um tanto quanto sem reação – Eu não me sinto um escravo agora.

–- Isso é importante para você?

–- Claro.

Svan estendeu a mão em sua direção e o humor sumiu de sua face. Como se aquilo lhe servisse de advertência o bastante, Svan voltou a descer a mão, entendendo seus limites. Ainda não poderia tocá-lo.

–- Me desculpe, Meine.