Phaeleh I

26 Capítulo 26 – A preocupação incessante de Meine


Notas iniciais
Miky: Olá meus amores *-* Nhah eu gostei desse capítulo, espero que vocês gostem também :3 Apreciem a leitura! ♥

Passaram-se tantos dias, quem sabe meses ou anos, pois para Skylar o tempo em que esteve naquele galpão definhando em sangue e horror, foram para ele os momentos mais longos e torturantes de sua vida. Embora ele fosse um Berserker, um guerreiro tão forte e destemido, tinha passado por tantas batalhas, ele tivera sua cota de tortura antes, mas nada se comparou a agora.

Ele estava praticamente destruído, não tinha sequer um grama de força para mover o mindinho, seu piscar era lento e mal conseguia fazer sua audição funcionar, porque a dor era tanta, mas nem mesmo lágrimas ele tinha mais para chorar seu desgosto consigo próprio. Sentia como se seus olhos estivessem secos.

Skylar quis gritar de desespero quando ouviu um estalo atrás do galpão. Ele simplesmente estava largado sobre aquela mesa velha e redonda. Seus pulsos e tornozelos presos em correntes e fixados ao chão.

As vozes zombeteiras foram se aproximando, estas mesmas vozes se tornaram bastante irritadas umas com as outras. Skylar estava tentando definir o que diabos estes humanos inúteis diziam.

– Já se foram quantos dias?! — Um deles gritou em revolta. — Nós o torturamos tanto e não conseguimos nenhuma maldita informação!

– O Jarl vai mandar cortar nossas cabeças... — Outro lamentou horrivelmente.

– Chega dessa merda, provavelmente ele não deve mesmo saber nada a respeito de Phaeleh... Se soubesse, com tudo o que fizemos com ele, provavelmente teria dito no alto de loucura. — Alguém defendeu.

Oh, Skylar queria muito que eles desistissem! Oh como queria tanto! Ele estava implorando tanto aos deuses, já era hora de ser ouvido.

Simplesmente fechou os olhos e se focou no que eles diziam.

– Vamos matá-lo então? — O mais irritado resmungou. — Onde vamos esconder o corpo?

Skylar entrou em desespero, a dor piorou dez vezes mais, e ele cerrou fortemente a mandíbula para se evitar de gemer.

Era o que lhe restava, a morte. Os deuses ouviram-no, porém lhe deram o caminho mais fácil. Ele tinha de saber, embora estivesse com esperanças de que, em algum momento, receberia paz.

Skylar não sabia se aquilo era real ou se sua mente enlouquecida estava lhe dando aquilo que tanto almejava – o fim do martírio.

–- Ele pode estar apenas se fazendo de difícil – disse outro – Podemos deixá-lo surdo de um ouvido.

–- Já fiz isso ontem.

–- Então...

–- Ah, vamos! – o irritado resmungou – Podemos encontrar alguém melhor para nos dizer. Não faz sentido perdermos tempo com um inútil, não enquanto há outros caçando o Phaeleh.

–- E o que faremos?

–- Vamos jogá-lo aos lobos. Está tão ensanguentado, que atrairá todos os predadores da floresta.

Eles riram.

Os olhos de Skylar reviraram, sua consciência oscilando entre o sono dormente e o doloroso despertar. Ele não tinha certeza do que ouvia ou do que imaginava – o verídico e o fictício bailavam em torno dele, competindo para ver qual subjugava o outro. Skylar não sabia se tentava se empurrar para acordar ou se se permitia afundar na escuridão. Atualmente, seu desejo era morrer.

Para sua total desgraça, as valquírias não o levariam ao salão de Valhala para se juntar a Odin, pois não morrera como um guerreiro. Sky não lutara. Ele estava tão torpe que sequer se dera conta de que não estava com Wray, mas sendo levado para uma surra antes de despertar naquele lugar. Ainda agora, ele não possuía uma distinção nítida do que se passava.

–- Ele não tem utilidade para nós.

–*-*-

Meine não sabia o que fazer.

Ele e Svan passaram a noite inteira com Wray na cama, colocando panos frios em seu corpo nu na tentativa de lhe arrefecer a febre após o frio infernal que se instalara em sua pele. Dormiram com ele para o caso de necessitar de algum cuidado, apesar de ambos estarem completamente despreparados para isso. Quando amanheceu, Svan tivera de sair para trabalhar e Meine ficara sozinho para cuidar de seu amigo.

Ninguém parecia sequer desconfiar da doença de Wray, menos ainda que era um mestiço de elfo com berserker. Se era seu sangue híbrido o que o estava matando... O que fariam para salvá-lo?

Meine afastou algumas mechas pálidas do cabelo de Wray de sua face cinzelada e bem desenhada. Olhou atentamente para sua fisionomia, para os traços que mesclavam delicadeza e virilidade – ele era muito bonito. Wray certamente herdara o melhor das duas raças em termos de aparência.

–- Wray – Meine disse baixinho. – Wray, acorde. Não pode dormir por tanto tempo.

Ele tinha tanto, mas tanto medo que Wray não acordasse nunca mais...!

Não houve reação por parte de Wray e Meine mordeu o lábio inferior com força para não chorar pelo desespero colossal que se instalou em seu peito. Sentia que estava perdendo Wray mais e mais.

Meine enrijeceu quando ouviu passos no corredor. Ele sabia que não era Svan pela cadência dos movimentos e se perguntou quem seria – Skylar, talvez? Sky e Wray eram muito próximos. Meine soubera que estava em uma missão para Svan quando estavam no chalé de Alasd. Talvez ele tivesse retornado e optou por vir o quanto antes visitar seu amigo. Meine não sabia como explicaria o estado de Wray e não pretendia dizer a qualquer um além de Svan o que havia de errado.

Meine ficou apenas ali, deitado ao lado de Wray, sem saber o que fazer, o que dizer, o que pensar... Quando tivera a sensação de que algo estava errado, quando acordara noite passada naquele frenesi aterrorizado, jamais lhe passara pela cabeça que poderia ser algo relacionado ao seu melhor amigo, não até Svan lhe falar. Ainda agora, a angustia não se fora. Estava presente e aterradora, como se quisesse alertá-lo de que o pior ainda estava por vir.

E isso o apavorava. Muito mais do que o que gostaria de admitir.

Ele se aconchegou ao lado de Wray, inalando seu aroma natural e amadeirado em busca de conforto, da segurança que não sentia. Os cabelos dele estavam abertos como um leque sob seu corpo, as mechas espalhadas sobre o colchão.

–- Meine? – a voz de Alasd o fez pular na cama. Meine rapidamente se sentou e, em um rompante de instinto protetor, colocou-se mais próximo a Wray, de forma que bloqueasse ao máximo a imagem que o homem teria de seu amigo. Ele não entendia por que Alasd estava ali. A não ser que Svan o tivesse mandado. Exceto isso, não havia nada que eles poderiam querer discutir entre si além do pedido de desculpas que Meine lhe devia pela cabana destruída. Talvez Svan o tivesse enviado para cuidar de sua proteção, coisa que o preocupava incomensuravelmente.

–- Svan mandou você?

A expressão de Alasd se contraiu em uma careta um pouco antipática e Meine não soube ao que atribuir a isso.

Seria realmente por culpa da cabana? Ele não saberia dizer.

–- Não – Alasd replicou em seu habitual tom austero – Tenho algo a discutir com você, na verdade.

As sobrancelhas de Meine arquearam e ele não soube exatamente como reagir a isso. Sua mente se encontrava tão enormemente conturbada que mal era capaz de elaborar uma linha de pensamento coerente. Sua preocupação com Wray o fazia desejar expulsar Alasd dali. Não era como se não gostasse do guerreiro, mas sentia que o homem estava vendo o que ninguém deveria ver – Wray débil.

–- Vamos para a sala – Meine murmurou, levantando-se da cama. Alasd deu um passo para o lado e Meine atravessou a habitação para sair no corredor. Alasd seguiu em seus talões enquanto rumavam para a sala em um sepulcral silêncio.

Meine se sentia esgotado. Estava com os nervos à flor da pele por um tempo longo demais e isso causava um estresse descomunal, extraindo-lhe as forças do corpo e da mente, deixando-o em um terrível estado de inquietação. Ele era incapaz de fechar os olhos para dormir sem despertar segundos depois com a sensação causticante de que Wray morrera enquanto dormia.

Ele não tinha preparação para este tipo de provação e, ainda assim, mostrava-se bravo em suas tentativas para se manter irredutível. Ao menos enquanto Wray precisasse dele.

Assim que chegaram à sala, Meine puxou uma cadeira para se sentar e se voltou para enfrentar os olhos semicerrados e transbordantes de tensão de Alasd. O Berserker se limitou a encará-lo, alternando o peso de um pé para outro, como se fosse incapaz de se manter tranquilo enquanto esquadrinhava a própria mente em busca das palavras adequadas para abordar o assunto, o que quer que fosse. Meine começou a mordeu o lábio e a bater o pé descalço no chão pela impaciência – estava adquirindo alguns dos estranhos hábitos de Svan e isso por si só fez um calor intrigante formigar em seu peito.

Svan e ele possuíam uma afinidade que Meine nunca teve com ninguém e se surpreendeu ao notar o quão próximos ficaram desde que se conheceram. Às vezes, ele parava para pensar no quanto eles haviam mudado – um mudara o outro, amadurecendo em conjunto, acreditava. E com isso, também adquiriram certos hábitos que não possuíam antes – como o fato de Meine estar rogando aos deuses para que Alasd dissesse logo o que tinha a lhe dizer e partisse. Esta impaciência somada às carrancas acabaram se aderindo em Meine como se fizessem parte de sua personalidade.

Em breve, ele teria de ir trocar os panos da testa de Wray. Precisava arrefecer a temperatura escaldante em sua pele pálida e estar atento para o caso de ele esfriar abruptamente como estava ontem quando eles o acharam largado no chão. Cuidaria de Wray e o faria comer.

Meine estava resoluto quanto a isso – fortaleceria seu amigo com toda a determinação que possuía.

–- Alasd? – instigou-o a falar.

Alasd limpou a garganta, ainda oscilando o peso de um pé para outro.

–- Eu... Preciso de um favor seu.

Meine tombou a cabeça para o lado, não se dando ao trabalho de dissimular sua surpresa. Quando o choque inicial começou a diminuir, ele forçou um sorriso amistoso na tentativa de tranquilizar Alasd. O homem parecia que tinha um monstro lhe roendo a bunda.

–- Se eu puder ajudar...

Ele deixou suas palavras morrerem, mas ficou nítido que estava disposto a ajudar no que quer que fosse. O problema era que Meine não entendia como poderia possuir alguma valia, não quando era tão terrivelmente inútil. Era fraco, desastrado, detestado pela maioria e sem dons especiais. Não importava o quanto desejasse ser útil, pois determinação não compensava sua falta de talento.

–- Há... Há uma pessoa... – Alasd resmungou, irritando-se com suas próprias palavras – Svan não pode saber disso.

Meine esticou a coluna, um tanto receoso.

–- Não deve ter segredos com seu líder, Alasd.

–- Eu sei – Alasd agitou a cabeça em profunda negação.

–- Eu não tenho segredos com Van.

Alasd rangeu os dentes.

–- Apenas ouça – disse, retomando sua postura inabalável e inexpressiva. Meine se encontrou bastante curioso ante as variedades de expressões demonstradas por Alasd em um período de tempo tão curto. O guerreiro Berserker era sempre tão polido e contido... Meine nunca sequer o havia visto esboçar tantas emoções além de desinteresse. Aquilo era interessante. Talvez o segredo que Alasd lhe pedia fosse importante o bastante para desestrutura-lo de seu esqueleto de impessoalidade – Há uma pessoa... Que quer muito ver você.

Meine apenas o olhou com curiosidade.

–- E então?

–- Ele não pode vir aqui – prosseguiu – Ele... está muito doente.

O coração de Meine pareceu ser estrangulado com suas palavras, pois lhe fez pensar em Wray. Sentiu seus ombros caindo em tristeza ao pensar no incrível homem totalmente vulnerável naquele quarto.

Não deveria estar ali conversando com ninguém, deveria estar cuidando de Wray.

–- Eu... Não posso sair daqui, Alasd.

Ele não abandonaria Wray. Não importava o motivo.

–- Venha comigo. Ele quer muito ver você.

Meine mordeu o lábio com força, encontrando os olhos de Alasd.

–- Mas eu não conheço ninguém – relutou.

Todos seus amigos, exceto Wray, estavam plenamente saudáveis. O que Alasd lhe dizia não fazia significado algum realmente.

Quem poderia ser?

–- Meine, venha comigo. Ele precisa...

–- Eu não posso!

Ele não podia largar Wray à própria sorte. Não importava quem fosse, Meine não abandonaria seu amigo. Ninguém era mais importante que Wray naquela situação.

–- Estou te pedindo como o Phaeleh, não como um escravo! – Alasd elevou a voz e Meine pulou em sua cadeira pelo susto. Odiava gritos, ainda mais quando eram direcionados a si. Seu coração galopou no peito pelo súbito medo que se instalou em seu âmago ao ver a angústia no olhar de Alasd.

Ainda assim, o que o fez se levantar foi o fato do Berserker ter mencionado Phaeleh. Ninguém deveria saber sobre isso, mas parecia que o mundo inteiro já descobrira. Meine cerrou os punhos.

–- Não diga isso novamente – ele disse em um tom duro e irredutível. – Não repita esse nome.

Era muito perigoso.

E se mais alguém ouvia? E se isso prejudicasse Svan ou Niels ou... qualquer um deles?

Meine ainda estava se habituando ao que Svan lhe explicara e, sinceramente, ainda lhe parecia algo surreal e imaginário demais para se fazer verídico. Era uma realidade que ele tragou, mas não aceitou em sua totalidade. E, de todo modo, a única parte disso que era importante era o fato de que apenas o nome Phaeleh era o bastante para causar uma guerra secular.

Se o clã de Svan entrasse em guerra... Eles não sobreviveriam.

Notou como Alasd engoliu depois do que disse. Ele parecia arrependido de ter levantado a voz e dito-lhe daquela forma. Meine jurava que queria entendê-lo, mas estava tão impaciente para voltar ao quarto para sua principal responsabilidade. Como poderia ajudar este homem? O que poderia fazer por ele, céus!

– Olhe... — Ele voltou a dizer, parecia não querer desistir de forma alguma sem que Meine aceitasse. — Tenho certeza de que quando souber quem é esta pessoa... Digo, o que é esta pessoa que tanto quer te ver, você me agradecerá por isso.

Os olhos de Meine se abriram amplos com o que Alasd havia dito. Ele voltou a morder o lábio inferior, curioso.

– Eu... Eu não sei...

– Por favor.

Meine olhou em Alasd. O homem, que embora tinha estado mantendo sua expressão intacta, agora o implorava, e mesmo que ele tentasse esconder o que sentia, de alguma forma Meine enxergava nos olhos dele a tamanha determinação que ele tinha para que este favor fosse aceito. E mesmo que fosse tão difícil, ele ponderou sobre o assunto naquele meio tempo, sempre olhando para trás no corredor, na esperança de que Wray levantasse, embora houvesse um tronco gigantesco no caminho.

– Vou fazer o seguinte... — Olhou em Alasd que pareceu esperançoso. — Deve ser tão breve possível, entendeu? Não posso ficar muito tempo longe, Wray pode precisar de mim e... Svan pode voltar e procurar por mim também.

Ele não tinha certeza se deveria realmente guardar segredo, mas ficou quieto quanto a isso. Primeiro ele descobriria quem era essa pessoa.

Seria Alasd um tipo enganador? Ele estaria trabalhando para outros clãs? Meine ponderou sobre isso ao sair de casa com uma touca na cabeça escondendo suas madeixas alvas, e tendo Gefiona enrolada em seu pescoço. Apenas cinco minutos, Wray. Cinco minutinhos e estarei de volta. Ele murmurava baixinho, e em todo o caminho as escondidas, olhou para trás e para a cabana meio destruída de Wray. Seria um trabalho e tanto para concertá-la.

– Você não está me enganando, está? — Embora ele não sentisse que fosse isso.

Alasd olhou por cima do ombro e bufou.

– Eu não faria isso.

– Hum. — Meine apenas o seguiu. Ele pensou que fosse ser realmente perto, mas demorou mais do que previsto para chegarem no pequeno chalé próximo as torres de entrada do vilarejo. Estava tão mais preocupado agora, seu coração não parava de bater ferozmente no peito, além de que ele já estava começando a ter dores de cabeça por tanto pensar em coisas ruins.

Wray... Não morra, por favor! Eu voltarei por você, não vou demorar!

O pequeno chalé era bonito visto de frente. Notou que Alasd olhava ao redor com receio de que alguém os visse entrando. Ele estava mesmo temendo que Svan soubesse do que estava fazendo... Sendo assim, seria errado estar aqui. Meine sentiu suas mãos soarem, realmente hesitando ao entrar, mas agora já era tarde.

Alasd abriu a porta para ele e esperou que entrasse. Era tão pequena que a única repartição que tinha era do banheiro para o resto da pequena casa. Havia uma lareira velha que estava acesa, com um conjunto de lenha em um canto, sofás antigos com uma porção de almofadas velhas. Poeira sobre os móveis como armários de vidro e cômodas de mogno. A luz que provinha das janelas e por entre as cortinas eram suficiente para iluminar todo o ambiente, mas o que mais lhe chamou a atenção, fora a cama velha de solteiro, onde alguém estava acamado.

– É ele? — Perguntou receoso. Alasd balançou a cabeça e fez um gesto para Meine se aproximar da cama. Ele próprio decidiu se sentar no sofá e curtir a lareira.

Meine se aproximou da cama passo por passo, bem lentamente. Aquele que parecia tentar dormir com a respiração muito dificultosa, era tão bonito como Wray. Lembrou-lhe Wray na verdade, lembrou a si mesmo também. E ele tinha orelhas pontudas.

Um elfo.

O queixo de Meine caiu, além de seus olhos se arregalarem em surpresa. O rapaz parecia lutar horrivelmente por um dor que parecia não ter fim. Embora estivesse deitado sobre o leito, ainda sim se remexia de um lado e então para o outro, gemendo entre ofegos de dor.

O coração de Meine afundou por vê-lo assim, parecia tão mal quanto Wray tinha estado. E sua febre parecia faze-lo delirar. Notou que havia um enorme curativo sobre o ombro, onde parecia haver um sangramento que não diminuía. O sangue era escuro e já manchava os lençóis da cama, sabe-se lá quão profundo era a ferida para causar-lhe uma hemorragia daquelas.

Tentou esperar, tentou manter-se imóvel, mas ele não resistiu em se aproximar mais e olhar com atenção a face daquele elfo.

– Deve doer muito, não? — Perguntou baixinho. Foi então que os olhos do elfo tremularam e se abriram minimamente para fitá-lo. Meine sentiu uma mão gélida, apesar da febre, tocar em seu braço, querendo agarrá-lo, mas não conseguindo.

A voz soou baixa e cansada.

– Phaeleh... — Ele sorriu em meio a dor. Estava soando muito e tremia o tempo inteiro. Meine sentou-se à beira da cama e se inclinou para o rapaz.

– Como sabe o que eu sou?

– Eu posso sentir... A sua magia... O quão especial é... — Disse-lhe em um sussurro. — Me sinto melhor em sua presença.

Meine sorriu fracamente. Desejou que pudesse ajudar, o que poderia fazer? Talvez trocar os curativos e chamar o curandeiro? Ele não sabia se o curandeiro saberia tratar de elfos, mas ao menos poderia tentar. Então, veio-lhe a ideia em mente. Aquele rapaz era o prisioneiro de Svan. O ser intruso que todos falavam na vila antes das grandes chuvas.

– Por que me chamou aqui? — Perguntou gentilmente.

O rapaz tinha olhos muito bonitos, claros como o céu e brilhantes com emoção. De alguma forma, a forma como o olhou, lhe fez se sentir bem em torno dele. Meine entendeu então, o que seu coração estava lhe dizendo, que este era um bom elfo e não merecia aquele sofrimento.

– Eu... Eu vim aqui para vê-lo, mas sofri um ataque enquanto tentava me aproximar. Um elfo das trevas me feriu, e sua espada estava envenenada. — O rapaz lhe contava baixinho. — Meu nome é Hayliel... Sou conselheiro e ferreiro de Darius, o líder dos elfos de luz.

Meine arregalou os olhos. Então Hayliel devia ser alguém muito importante. Mas porque tinha vindo até aqui somente para vê-lo? Seria isso também algo sobre ser o Phaeleh? As pessoas importantes também iriam procurá-lo com ganância. Svan tinha explicado isso para ele.

Não entendia onde ele tinha poder, porque não sentia praticamente nada disso em si. Ele apenas se sentia normal, comum, tirando sua aparência.

Lembrou-se então daquele elfo de cabelos negros, onde o mesmo também tentara muito se aproximar dele. Inclusive, Meine tinha mentido a Svan e lhe dito que o hematoma em seu rosto tinha sido fruto daquela batalha na cabana de Alasd.

Pensando sobre isso, Alasd também não tinha descoberto que sua cabana havia sofrido tantos estragos naquela noite traiçoeira, com certeza ele ficaria triste. Meine tinha visto suas esculturas de madeira serem derrubadas e quebradas com a batalha entre os elfos.

– Eu não entendo... O que há de importante em alguém como eu? — Perguntou humilde, ao rapaz que lhe deu outro sorriso. Ele parecia admirá-lo o tempo todo, era um pouco desconfortável.

– Você é Phaeleh... Aquele que o desposar, terá grande prosperidade. Aquele que comer de sua carne, terá vida eterna. E aquele que devorar sua alma, findará com a luz.

Meine não conseguia imaginar nenhuma dessas coisas acontecendo com ele, era horrível demais simplesmente para formular uma imagem em mente.

– Você é uma criatura divina, Phaeleh. — Hayliel finalmente conseguiu segurar sua mão. Meine percebeu que aquele braço não era comum, era de aço, por isso era gélido.

Queria tanto saber mais sobre ser o Phaeleh. Svan tinha lhe dito uma porção de coisas a seu respeito, mas não com a profundidade que Hayliel estava lhe contando. Seu coração afundou no peito quando o elfo grunhiu com uma nova onda de dor. Lembrou-se imediatamente de Wray, e sentiu que precisava voltar.

– Por favor, me salve Phaeleh... Cura-me... — Hayliel pediu com seus olhos inundados por lágrimas, implorando baixinho enquanto seu corpo tremia inteiro. — Você é o único que pode fazê-lo... Eu não quero morrer...

Seus olhos se arregalaram com o pedido do elfo. Meine não sabia que diabos fazer para ajudá-lo, ele não sabia nem como ajudar a si próprio. Ele precisava voltar... Mas ele também não poderia sair assim. Deixar Hayliel morrer. A dúvida foi tão grande, a amargura de ter Wray adoecido a sua espera por seus cuidados e agora este elfo à beira da morte, lhe implorando por pena para lhe deixar viver... Meine soluçou quando as lágrimas arderam em seus olhos e ele se encontrava em um poço sem fim, sem saber o que fazer.

Alasd se levantou abruptamente quando alguém bateu a porta. Meine olhou em Hayliel que apenas fechou os olhos em sofrimento.

O guerreiro Berserker abriu a porta quando Meine se escondeu no banheiro. Para sua surpresa, eram o líder dos elfos de luz e Svan, que entraram sem sua licença.

– Líderes. — Alasd os cumprimentou, sério.

– Alasd. — Svan olhou ao redor do chalé com uma estranha expressão. Darius apenas fez um manear de cabeça para Alasd e se aprofundou no chalé, se aproximando de onde Hayliel estava.

– Me-Mestre... — Hayliel olhou aflito para seu líder que sentou-se à beira da cama. — Sabia que viria!

Enquanto isso, Svan sussurrou a Alasd.

– Eu sinto o cheiro dele aqui. Você terá sua punição assim que for possível. — Seu olhar era mortal.

O guerreiro apenas assentiu e abaixou o olhar, ciente de que seria punido da pior forma depois do que fez. A ordem seria ter impedido Meine a todas as custas de vir até Hayliel e vê-lo. Agora o elfo era ciente de Phaeleh e provavelmente o líder também seria. A guerra estava travada, mas Alasd não poderia ter ido contra, aquele jovem elfo estava morrendo e ele pediu a si de uma forma que ele não pode resistir.

Ele tinha estado hipnotizado por ele talvez? Fosse influência de sua magia élfica? Por que diabos havia feito isso tudo?

Os Berserkers ruiriam por sua culpa! Ele tinha traído seu povo, este era o único termo que resumia o que ele tinha feito, e provavelmente Svan iria matá-lo, ou expulsá-lo do vilarejo que ele tanto amava.

Alasd suspirou em derrota e apenas deixou-se inexpressivo como sempre. Notou como Svan mantinha-se altivo e sério com a presença do líder dos elfos de luz, que embora fosse um homem frio em personalidade, demonstrava preocupação pelo elfo que estava na cama.

– Você deve ter sofrido muito nesses dias todos, graças aos deuses que ainda está vivo. — Darius dizia em um sussurro, mas que para os Berserkers, era possível ouvir. Ele tinha retirado algo do bolso que parecia um pequeno frasco de vidro.

– Eu... Eles cuidaram de mim, mestre. — Hayliel disse em um baixo gemido. Ele forçou um sorriso para o homem. — Eu tive a chance de conhecê-lo... Phaeleh é tão bom...

Svan não mostrou qualquer reação, mas Alasd sabia que ele provavelmente estava nervoso e temendo que provavelmente Darius iria querer iniciar uma guerra entre clãs para que o vencedor conseguisse o Phaeleh.

Alasd só não entendia exatamente o que o Phaeleh significava. Hayliel mal pode lhe explicar, além de lhe dizer que Meine era o fruto do poder entre as trevas e a luz, que era uma força divina tão poderosa como os deuses eram todos juntos, mas uma divindade em terra.

Seria esse um motivo para Svan querer tê-lo? Mas até agora seu líder não tinha feito nada para possuir o elfo como qualquer coisa que mostrasse superioridade. Qual seria o motivo para ainda querer segurar o Phaeleh?

– Você o conheceu então? — Era a primeira vez que Alasd e Svan viam Darius esbanjar um sorriso, ainda que fraco. — Como ele é? — Ele abriu o frasco.

– Ele é um albino, senhor. — Hayliel tentava sorrir o tempo inteiro, ainda que fosse tão difícil. — Ele veio por mim... É maravilhoso.

Darius tocou a mão de seu elfo que era de ferro. — Eu trouxe seus primos. Eles lutaram bravamente contra Dain e o afastaram do vilarejo. Vejo que Yusulf também está à procura de Phaeleh e pode vir a atacá-los a qualquer momento.

– Entendo. — Hayliel respirou um pouco com certa dificuldade, ao que bebeu do líquido que Darius lhe ofereceu. Não parecia ser mais do que um gole.

O líder dos elfos de luz se inclinou sobre Hayliel e cedeu um suave beijo em sua testa.

– Eu estou aqui agora por você... Não deixarei que nada te aconteça, porque és como um irmão precioso para mim. — Darius então se levantou, ajeitou suas vestes majestosas e olhou em Svan, altivo. — Nós precisamos conversar, líder Berserker. Provavelmente já deve saber qual o assunto.

Svan cruzou os braços enormes sobre o peito.

– Faremos, se assim desejar. — Ele olhou em Alasd. — Sirva-nos enquanto nos reunimos.

– Sim, senhor. — Ele se retirou a passos lentos, porém antes que chegasse à pequena cozinha, sem qualquer separativo do resto do chalé pequeno, ele se voltou para a cama. Notou o olhar de Darius sobre si, mas ele ignorou. — Eu serei punido. — Disse ao elfo acamado.

Hayliel olhou para ele com olhos semicerrados. — Eu não deixarei que isso aconteça. Obrigado, Alasd.

O guerreiro cerrou a mandíbula, realmente confuso consigo mesmo. Ele anuiu ao elfo, mas não discutiu, sequer quis discutir. Ele apenas aceitou o seu próprio erro que na verdade lhe pareceu a coisa certa a ser feita. Ele não podia entender seu próprio raciocínio sobre o que fez ou o porquê, no entanto ele não se arrependia.

Continua...

Notas finais
Miky: Espero que tenham gostado ♥ Estou me programando para tentar postar todas as segundas-feiras kkkk vamos ver se dá certo :3 Obrigada por ler ♥ Até a próxima!