Encontramos algumas situações na vida onde somos obrigados a modificar alguns conceitos, outros sofrem mudanças naturalmente e outros simplesmente deixam de existir.

As pessoas vivem em busca da paz e meu conceito de paz sempre fora diferente da maioria delas. Enquanto meus colegas, vizinhos, conhecidos buscavam a paz em comunidades pacificas, na natureza, em viagens, em família. Para mim, paz sempre significava apenas ausência de problemas.

Afinal, você passa a valorizar muito os momentos sem grandes conflitos quando se tem o pai que tive. Principalmente por que esses momentos eram raros.

Apesar desse meu conceito sobre paz, fui parar no lugar onde eu menos poderia encontrá-la, no S.T.A.R.S. Se me perguntassem por que optei por essa carreira eu talvez não soubesse explicar naquele momento. Dizem que só estamos maduros e consequentemente prontos para realmente tomar grandes decisões sobre nossa vida após os trinta anos, mas como não podemos esperar até lá, vamos fazendo nossas escolhas e esperamos que sejam as melhores.

Mesmo com todas as dúvidas que temos quando somos jovens, para mim só importava a única certeza que eu tinha “Quero usar meus dons para o bem”. E essa certeza bastou para aceitar o convite para me juntar ao Alpha Team.

Lembro-me como se fosse hoje a sensação ruim que todos experimentamos quando precisamos partir para procurar o Bravo Team. E todo o nosso pesadelo começou depois que encontramos a carcaça do helicóptero no meio da mata.

A lembrança de todas daquelas criaturas horríveis não era tão difícil quanto a lembrança dos parceiros mortos. Talvez tenha sido difícil ver, respirar e matar os primeiros zumbis. Mas depois de alguns minutos a adrenalina toma conta da situação e tudo se torna automático. Você deixa de pensar como um ser humano e passa a pensar como uma máquina que precisa cumprir sua missão, que é sobreviver. Porém, visualizar pessoas queridas sendo devoradas em sua frente jamais poderia ser comparada a uma ação automática, sem sentimento.

Após o incidente da mansão, as noites de sono nunca mais foram as mesmas. Eu poderia preferir mil sonhos povoados por hunters, aranhas e zumbis do que um único sonho revendo Richard se sacrificando para me salvar. Ou até mesmo tentando ouvir Enrico me falar sobre a traição de Wesker.

Em um determinado momento, tanto Chris como eu, desistimos de dormir. Passamos a ocupar nossas madrugadas em seu apartamento estudando, analisando e nos perguntando o porque de tudo aquilo.

Ele era muito mais forte do que eu. Na primeira noite em que ele me ligou para ir até seu apartamento, tudo o que eu consegui fazer foi chorar. Toda a tensão que estava presa dentro de mim me fez explodir em lágrimas assim que o vi. Se Chris já era um ótimo amigo, tornara-se então meu melhor amigo depois daquilo.

Com olhar firme e uma tensão aparente no maxilar, ele apenas me abraçou e me deixou ali chorando por horas. E eu realmente chorei por horas abraçada a ele, pois minhas lágrimas representavam um pouco de todos parceiros que perdemos naquela mansão.

Eu jamais poderia imaginar tudo que ainda estava por vir. Chris e eu nos separamos por algum tempo e eu jamais teria deixado-o ir sozinho se eu soubesse que Racoon estava com seus dias contados.

Mais tensão, mais problemas e mais mortes. Infelizmente aprendi da pior forma que estava mais forte, e talvez até mesmo mais fria dessa vez. Não contava com Chris para me salvar, então sabia que precisaria enfrentar medos e até mesmo minhas limitações se eu quisesse realmente sobreviver, pois aquela era minha ultima chance de escapar.

Talvez ninguém consiga imaginar o quão triste é olhar para lanchonetes que costumava frequentar, parques que costumava passear, ruas por onde caminhava e até mesmo o local onde trabalhava e ver tudo transformado em um triste cenário de guerra. Mas mais triste ainda era olhar para tudo aquilo e saber que, por se tratar de um problema viral, não haveria recomeço. Era definitivamente o fim de Racoon City.

Deixei tudo no passado, menos as lembranças. As lembranças eu ainda conseguia carregar comigo dos momentos em que Racoon não passava de uma cidade como qualquer outra, com crianças correndo, com sirenes tocando, com cheiro de pão pelas ruas, com pássaros cantando. Uma parte de mim ainda guardava a impressão de que aquela era uma longa viagem, de muitos anos, mas que um dia ainda voltaria para a querida Racoon City.

Aquele incidente me deu a certeza de que as coisas não parariam por ali. Talvez nem mesmo na Europa. E foi realmente o que aconteceu. Ao me unir novamente ao Chris, percebemos que aquela guerra talvez pudesse durar muitos anos.

Algum tempo depois de retornarmos da Russia, foi de uma forma muito triste que confirmamos que mais do que anos, essa guerra poderia durar nossa vida toda, pois descobrimos que o fim da Umbrella não era o fim do terror que nos assombrava. O perigo biológico estava então nas mãos do mercado negro.

Estávamos cada dia mais certos de que todo esse pesadelo não iria acabar, mas mesmo assim não desistíamos. E foi exatamente essa nossa persistência e toda a nossa ligação que fez com que o Chris não desistisse de me encontrar, mesmo quando já havia sido declarada morta. Ele sempre soube no fundo que eu estava viva.

Eu o salvaria novamente das mãos de Wesker se fosse preciso. Me atiraria naquele precipício mais uma vez, mesmo sabendo que nenhum pesadelo seria maior do que aquele que estava para viver naquele momento.

Mesmo eu tendo me tornado mais forte por todos os acontecimentos anteriores, ao perder amigos, meu lar, minha vida. Nada se comparara ao que senti depois dos acontecimentos de Kijuju, pois lá eu perdi nada mais nada menos que minha própria identidade.

Rever Chris, abraçá-lo e saber que estava bem me foram de grande conforto, mas mais do que as marcas e reações daquele vírus que eu carregava em mim, eu saí de Kijuju com profundas feridas na alma. Jamais imaginei que faria as coisas que fui obrigada a fazer e mesmo que me dissessem que não era eu, as lembranças me acompanhavam.

Mais de dois anos se passavam desde os acontecimentos e eu ainda sentia o resultado daquelas feridas. Algumas crises de pânico me visitaram durante esse tempo e em algumas delas eu temia minhas próprias mãos.

Hoje essas crises são menos frequentes, graças a Isabel. Um anjo que chegou a minha vida desde que resolvi me isolar. Isabel cuida de mim como se eu fosse sua filha e me dá todo o apoio que eu preciso, todo o apoio que rejeitei do Chris.

Hoje sei que tinha mais paz quando estava em situações difíceis ao lado do Chris do que tenho agora morando em um lugar pacífico, mas sabendo das coisas que acontecem lá fora sem fazer nada. Esse conceito de paz mudou. Hoje entendo que ter paz para mim não é mais poder viver longe dos problemas, mas sim poder enfrentá-los.

As coisas são bem mais complicadas do que parecem. As vezes precisamos fazer certas escolhas que vão contra nossa vontade, mas que são necessárias pela gravidade da situação. E escolhemos o certo ao invés dos nossos reais sentimentos, mesmo magoando alguém que não queríamos magoar.

Talvez um dia ele entenda minha decisão, talvez ele me perdoe.