Mais uma fuga.

Imagens, assim como cheiros, conseguem transportar nossa mente para o passado, trazendo lembranças adormecidas de volta. E foi exatamente isso que aquela foto conseguira fazer. Levar Jill a um passado que despertava sentimentos diversos e nada agradáveis.

S.T.A.R.S., RPD, Racoon City. Definitivamente a maior de todas suas lembranças sobre aquela cidade caída. Não apenas por representar o começo de tudo, mas também por representar o fim de tudo. A historia de Jill Valentine começara naquele departamento, bem como o final de Racoon City.

Jill abrira a gaveta, colocando a foto sem olhar, debruçando em seguida sobre a escrivaninha com as mãos na cabeça. O olhar distante, tentando esquecer por enquanto as amargas lembranças recém resgatadas.

Sabia que aqueles pensamentos estariam retornando mais cedo ou mais tarde, afinal, pensar é tudo o que resta quando se está trancada em um apartamento por tanto tempo, sem nenhuma atividade, sabendo sobre todas as coisas que continuam acontecendo lá fora.

Soltou um forte suspiro antes de perceber que Isabel adentrava o aposento trazendo uma xícara em suas mãos. Olhou-a, ainda segurando a cabeça com as mãos e deu um breve sorriso de canto para aquela senhora tão querida.

Costumava referir-se a Isabel como o anjo em meio ao inferno. Havia salvado-a muitos anos atrás, antes da missão no Queen Zenóbia e desde então se tornaram amigas. Amizade essa que se transformara em um sentimento maternal após seu retorno de Kijuju viva. Então Isabel que a salvara.

Isabel era uma senhora de mais idade, mas muita disposição. Havia perdido marido e filho em um incidente biológico na comunidade onde habitava. Só se salvara porque estava internada em um hospital na ocasião, se recuperando de uma cirurgia de retirada da vesícula biliar. Devido a localização e estrutura do local, outros pacientes conseguiram se salvar e Jill foi a responsável por aquele resgate, junto a Chris.

Apesar da sua postura firme, Jill não conseguira evitar que um envolvimento maior ocorresse entre ela e Isabel. Ao adentrar o setor de UTIs onde estavam todos sobreviventes, no ultimo andar, Isabel era a única paciente silenciosamente em lágrimas, os outros estavam eufóricos, tomados por sentimentos que variavam entre desespero e alegria por estarem a salvos.

Jill aproximara dela, agachou-se e perguntou:

_Sei que não está tudo bem, deve estar assustada. — pegou sua mão – Mas preciso que seja forte para conseguir tirá-la daqui. Fique feliz, você sobreviveu.

Mas para sua enorme surpresa Isabel disse:

_ Mas não sei se quero sobreviver, moça. — Com os olhos vermelhos fitou Jill. — Não há mais pelo que viver. Viver sem amor é pior que morrer por ele.

Jill engoliu em seco. Não esperava aquelas resposta, não sabia o que dizer para aquela senhora em sua frente. Sentiu-se profundamente tocada por aquelas palavras. Palavras que ficariam marcadas para sempre em seu coração e em sua mente.

_ Se estás viva é porque tens algo ainda para concluir. — Jill respirou tentando buscar inspiração antes de continuar – Sei que nada poderá substituir suas perdas, mas não estarás sozinhas. Deixe-me ser sua amiga.

O olhar de Isabel se transformou aos poucos, talvez um pouco de esperança poderia ser notado através daqueles tristes olhos pela primeira vez. Ela tentou sorrir e aceitou a mão de Jill, que agora de pé, se estendia em sua direção.

Ali começara essa grande amizade.

Isabel fora trazida para a cidade militar de Wetland, uma cidade que começara a ser construída nas proximidades do rio Wood por militares logo após os incidentes que atingiram a Europa. A cidade desenvolvera-se assustadoramente rápido e já poderia ser considerada de médio porte.

Talvez um dos poucos lugares que poderia ser considerado relativamente seguro atualmente. Alguns incidentes menores e casos isolados haviam ocorrido por ali, mas considerando o caos global de tempos em tempos, não era nada grave que pudesse despertar maiores preocupações nos habitantes, que eram em sua maioria sobreviventes de grandes tragédias.

Mas para Jill não haveria local seguro. Não depois de tudo que passara, depois de tudo que sabia e principalmente depois de todo experimento ao qual fora exposta. Mais que lembranças doloridas, carregava ainda consigo, em seu sangue, a marca de tudo que vivera.

Não sabia ao certo quem teria conhecimento sobre sua existência e nem o tipo de risco que poderia estar correndo caso deixasse Wetland, mas havia preferido não se arriscar. Há muito estava preparada, pois sabia que um dia viriam atrás dela. Só não sabia que esse momento estava tão próximo.

_Um chá quentinho – disse Isabel – colocando-o sobre a escrivaninha ao lado do notebook.

Jill apenas sorriu brevemente mais uma vez.

_Está pensando nele?

_Não, Isabel... — Jill suspirou — Estava apenas pensando em tudo. São marcas muito profundas.

A amiga aproximou-se, puxando Jill para perto e acariciando seu cabelo com a ternura de uma mãe.

_Eu te entendo, as vezes sinto esta agonia também, filha. Mas você me ensinou que mais do que sobreviver por fora, precisamos sobreviver também por dentro. E nós temos uma razão agora pela qual precisamos ser mais fortes.

_Você tem razão — Jill concordou.

Jill abraçou forte Isabel, antes dela deixar o aposento.

Sentia que aquela seria mais uma noite sem dormir. Sorveu um gole do chá e abriu o laptop.

Após algumas pesquisas rápidas sobre noticias atuais abriu seu e-mail. Nada interessante.

A noite mal havia começado e já parecia longa. Não havia nada para fazer, não queria mais pensar em nada, não conseguiria dormir. Debruçou sobre o laptop, olhando para a parede.

Jill não poderia dizer quantos minutos ficara na mesma posição, com os olhos fixos na parede. Mas quando menos esperava ouviu um bipe do celular, uma mensagem.

Ao pegar o celular identificou o numero da Claire. A mensagem dizia apenas “Email”.

Voltou para o laptop e abriu o e-mail novamente. Uma mensagem nova, de Kate Reinold, ou Claire Redfield.

“Jane Valley, como você está?

Estou escrevendo para lhe informar que sua nova receita foi aprovada. Muitos tem se mostrado interessados em adquirir seus produtos e acredito eu que um grupo de empresários, especialistas no ramo alimentício já partiram para Wetland com o intuito de conversar com você pessoalmente.

Não se esqueça, não assine nenhum acordo que não seja realmente interessante para você, que beneficie ambos os lados. Talvez seja até melhor evitar a reunião.

E não se esqueça, ainda moramos na mesma casa, então aguardamos sua visita nesse verão para juntos irmos para o campo. Venha preparada para passar uma grande temporada, pois precisamos matar a saudade.

Com carinho

Kate.”

Jill pensou em ligar para Claire, mas sabia que não era a melhor escolha, não era seguro. Não conseguia acreditar no que havia acabado de ler, queria confirmar, queria detalhes. Com as mãos trêmulas e o coração acelerado foi em direção ao closet.

Antes de se levantar, ligou a televisão nas câmeras de segurança da entrada.

Pegou a mala e sem perder um segundo começou a completá-la com roupas e mais roupas.

Após algumas tentativas, Isabel ouviu seu chamado e apareceu na porta.

_Aconteceu Isabel. Eles descobriram onde eu estou.

Isabel assustada não conseguiu se mover, apenas abriu os braços e as mãos pedindo mais explicações.

_Claire me mandou um e-mail onde me dizia, através de códigos, que eles descobriram onde estou e estão vindo. Não sei como ela descobriu isso, mas não importa. Preciso partir.

_Eu não posso ir com você menina, não tenho seu preparo, seria arriscado para nós.

_Eu sei, Isabel. Vou levá-la comigo apenas até um hotel aqui próximo, onde você possa estar segura.

Isabel consentiu. Não havia nada mais a fazer.

Com o olhar atento as câmeras, Jill terminou as malas, com roupas, utensílios e muitas pastas de dentes, e algumas mochilas com alimentos em lata e muitas latas de leite. Colocou tudo dentro do seu automóvel e dirigiu para fora do estacionamento. Estacionou em uma rua que passava nas costas do prédio e que ficava próxima as escadas de incêndio. Procurou o lugar mais escuro e discreto possível.

Em seguida voltou para o apartamento.

Ao abrir a ultima porta do closet visualizou todo seu lindo e esquecido equipamento. Armas, munições e seu querido lockpick. Vestiu a joelheira e outros itens por cima da calça preta justa e da regata vermelha. Para completar o visual: uma bota feminina.

Foi ao banheiro e pegou mais uma pasta dental. Tinha uma verdadeira obsessão pelos dentes, então melhor seria garantir que não teria suficiente.

Tentou fazer uma revisão mental de tudo que havia pego e de tudo que poderia precisar e acreditou não ter esquecido nada para trás. De repente olhou para Isabel e viu que a senhora estava usando pijamas ainda.

_Isabel, por que não está arrumada?

_Não vou menina.

Jill franziu a testa e abriu as mãos em sinal de surpresa, esperando por uma explicação.

_Acho melhor eu ficar. Não quero atrasá-la, mas principalmente não quero sair daqui. Este lar é tudo que me resta. Não quero perder minha vida mais uma vez. — Disse a senhora decidida – Vou usar nosso esconderijo pelo maior tempo que conseguir, até ter certeza que posso sair em segurança. Eles não vão ficar aqui para sempre.

Pela primeira vez Jill não soube o que dizer. Isabel tinha razão, pela primeira vez depois de toda tragédia elas tinham um lar.

_Se cuida, por favor. Você é muito importante para mim.

_Digo o mesmo, minha filha. Volte logo e em segurança.

As câmeras de segurança captaram dois carros estacionando em frente ao prédio. Vários homens desceram, mas apenas dois caminhavam em direção a porta.

Com o coração na boca, Jill partiu para o quarto ao lado. Prendeu o carrier na cintura e foi em direção ao berço. O pequeno adormecido ameaçou abrir os minúsculos olhos quando ela o pegou carinhosamente.

_Ele poderá chorar e acabar com seu esconderijo, Isabel. Preciso protegê-los nesse momento, mas não se preocupe, nós voltaremos.

Isabel começou a chorar silenciosamente enquanto via Jill ajeitar o bebe no baby carrier. Não sabia quanto tempo ficaria longe do seu pequeno, mas sabia que seria uma eternidade.

Enquanto Isabel partia para o esconderijo na parede falsa do banheiro. Jill descia correndo pelas escadas de incêndio. Segurando o carrier em uma mão, e uma M9F2 na outra

Notas finais
Ola pessoal, espero que estejam gostando. Obrigada por lerem minha fanfic. Obrigada Keila, Amanda e Mizarem por acompanharem! Bjinhos!