Infelizmente eu iria começar o curso antes delas e estava desconfortável por isso.
Não sei bem o que houve com o professor da turma de Departamento Pessoal. Mas o curso deles iria começar apenas na semana que vem, e com isso eu acabei tendo que começar sozinho.

Tentei me adiantar ao máximo para não chegar atrasado e ser alvo de olhares. Mas o atendimento na recepção me fez perder todo o tempo que havia ganhado. E para piorar o coordenador quis me levar pessoalmente à sala para me apresentar para a turma.

Chegamos a porta e sem pensar em ser apresentado já fui sentando na primeira cadeira que vi vazia. Achei que assim ele perceberia que eu não queria ser apresentado. Felizmente foi o que aconteceu.

Primeiro dia de aula passou bem, mesmo sem eu não conhecer ninguém. Parece que ninguém ali se conhecia.
O professor parecia ser boa pessoa. Baixinho e gordo com uma barba negra, mas com expressão jovem.
Não reparei em quem estava na sala. Tentei evitar contato com os olhos. Não queria mesmo chamar atenção.
O dia passou como se fosse qualquer outra aula normal. A hora de ir embora chegou e sai sem olhar para trás. Fui para o meu ponto e peguei o primeiro ônibus que vi.

Não gosto muito de ficar sozinho na rua. Não sei dizer o por que. Sinto-me desconfortável. Não por medo ou insegurança, só não gosto.


O ônibus parou no próximo ponto para a entrada de mais passageiros. Fiquei observando quem entrava. Pessoas com expressões cansadas, com pensamentos sujos, pessoas que não queriam estar ali, maioria animais... Como eu.
Uma garota entrou. Eu nunca tinha visto ela antes, mas tinha a impressão de já a conhecia. Ela entrou com o olhar fixo em mim, como se soubesse que eu estaria ali. Encarei de volta.
Ela veio andando na minha direção sem desviar o olhar e ficou para ali na minha frente, como uma estatua. Aquilo me incomodou e muito, mas fiz o mesmo. Fiquei ali parado, também, a encarando, sem me mover.

Fui despertado por um apito. Era o sinal do ônibus. Olhei para fora e vi que já tínhamos andado mais ou menos 12 km. Espantei-me. Será que ficamos nos encarando por mais de 20 minutos? Virei-me para olha-la e meu corpo congelou. Ela ainda estava me olhando, na mesma posição, sem se mexer, mas desta vez com expressão de ódio no rosto.

Cheguei ao meu ponto. Desci. Virei-me para vê-la pela ultima vez. Ela ainda me encarava.
– "Que tipo de doença tem aquela garota?" — Foi o que pensei no caminho para a casa.
– Tranca o portão e vai comer! — gritou minha mãe quando me ouvir chegar.
– Ok.

Meu nome é Thomas. Tenho 17 anos. Moro numa cidade pequena e sem graça. Gosto dela mas poderia ser muito melhor.
Estou no 3º ano. Gosto de musicas, livros, terror, mistério e coisas demoníacas.